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História de: Anna Livia Arida
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/05/2011

Sinopse

Nasceu em 14 de janeiro de 1984 no Rio de Janeiro. Pai economista e mãe socióloga. A origem da família é de imigrantes libaneses, romenos e russos.  Morou grande parte da vida na Cidade Jardim, São Paulo. Durante a infância sempre gostou de animais, brincava de bonecas e miniaturas, dança. Descreve quando estudou na PlayPen: brincadeiras, amigos, datas comemorativas etc. Depois, vai estudar no colégio Santa Cruz e faz Direito na PUC. Trabalha com ONGs, na área de direitos humanos.


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História completa

P/1 – Quero começar agradecendo a tua vinda e pedir o seu nome completo, local e data de nascimento.



R – Meu nome completo é Anna Livia Solon Arida, nasci em 14 de janeiro de 1984, no Rio de Janeiro.



P/1 – E o nome dos teus pais?



R – Meu pai é Pérsio Arida e minha mãe é Suzi Solon Arida.



P/1 – E a atividade profissional dos dois?



R – Meu pai é economista. Minha mãe é socióloga. Enfim, os dois trabalharam em coisas diversas ao longo da vida.



P/1 – E o nome dos teus avós?



R – Os pais do meu pai: Riad Arida e Alice Farah Arida e meus avós por parte de mãe são Sarah e Jacob Solon. 



P/1 – A origem das famílias. 



R – Na família do meu pai a origem é bastante libanesa. Tem uma avó italiana no meio do caminho, mas dos dois lados são imigrantes libaneses. A família da minha mãe é um pouco mais misturada, mas tem uma parte que é romena e uma parte que é russa. Também imigrantes que chegaram no começo do século.



P/1 – Você sabe como seus pais se conheceram?



R – Meus pais se conheceram na faculdade. Eu sei que minha mãe entrou na faculdade para fazer Ciências Sociais e no meio do caminho resolveu fazer também Economia, na época podia fazer duas faculdades na USP [Universidade de São Paulo], e acabou caindo na classe do meu pai. Eles se conheceram assim, estudando junto.



P/1 – Você falou que nasceu no Rio. Por quê?



R – Porque meu pai tinha ido pro Rio de Janeiro para ajudar a estruturar o curso de Economia da PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro], dar aulas na PUC-Rio. Acabei nascendo lá quase por acidente. Eles estavam morando por um período e eu acabei nascendo lá. Mas morei super pouco tempo, porque quando eu tinha 6 meses meu pai recebeu um convite pra ficar um ano nos Estados Unidos e a família inteira foi pra lá. Ficamos um ano nos Estados Unidos e quando a gente voltou, já voltou pra São Paulo. Então, na prática, eu moro em São Paulo desde pequenininha.



P/1 – Em que cidade dos Estados Unidos?



R – Acho que foi Massachusetts, mas não tenho certeza.



P/1 – Você não lembra nada de lá?



R – Não, zero. Tinha 6 meses.



P/1 – E então você veio morar em que bairro aqui de São Paulo?



R – A gente morou em um milhão de lugares, porque a gente morou um tempo na casa da minha avó paterna, um tempo na casa da minha avó materna. Aí fomos morar na Cidade Jardim. Na época em que estudei na PlayPen a gente morava bem pertinho de lá. Acho que a maior parte do tempo eu morei na Cidade Jardim, depois a gente foi pro Morumbi e depois Alto de Pinheiros. Família itinerante.

 

P/1 – Você falou que você ficou um tempo na casa da tua avó paterna, da tua avó materna. Como era esta relação com teus avôs?



R – Olha, os meus avôs morreram cedo, o pai da minha mãe morreu quando eu tinha 6 anos e o pai do meu pai morreu quando eu tinha 2 anos. Tenho poucas lembranças deles. Mas as minhas avós sempre foram muito próximas da família. A gente tem uma família pequena: meu pai tem uma irmã e minha mãe tem dois irmãos. Sempre fomos muito unidos. Em vários momentos a gente morou… Quando voltamos dos Estados Unidos e estávamos comprando e reformando a casa, a gente se instalava na casa de uma avó. Em momentos de transição sempre acabávamos acolhidos na casa de uma avó. A relação sempre foi muito boa, muito próxima.  



P/1 – Você ficou um bom tempo na Cidade Jardim. Como era esta casa?



R – Era uma delícia. Era uma casa térrea, tinha um quintal no fundo. Dava pra gente brincar dentro de casa, tinha um laguinho, plantas. Tinha cachorro, gato, tinha rã. Eu sempre gostei de bichos. Eu tinha rã, periquito. Eu tenho uma lembrança muito feliz desta casa. Acho que o fato de ser perto da escola também tinha um fator deu ia pra escola a pé. Tinha uma coisa que era muito próxima. Estava tudo ali pelo bairro. Era muito gostoso. 



P/1 – Você tem uma irmã. Como era? Vocês brincavam juntas?



R – A gente brincava pouco junto, porque a gente tinha uma diferença grande de idade. Ela é cinco anos mais nova do que eu, na infância a gente nunca não estava nos mesmos momentos. Ela tinha 2, eu tinha 7. Mas a gente sempre se deu bem, nunca teve brigas, disputas. Hoje somos super próximas, porque hoje a diferença de idade não é tanta. Mas era assim: sempre tinha festinha dela e festinha minha na casa, sempre foi uma coisa muito gostosa.



P/1 – E você brincava do que?



R – Isso meu pai já deve ter contado, já contou ontem. Eu tinha uma coisa que eu gostava de boneca, como toda criança eu tinha minha família de bonecas, mas gostava também de montar cenários. E os cenários eram tanto o cenário de uma casa quanto… Eu sempre gostei de miniaturas, pegava as minhas miniaturas e fazia uma manada, e a manada chegava em algum lugar e tinha um castelo. Eu tinha as Barbies. Eu sempre gostava de fazer este tipo de montagem.



P/1 – E com quem você brincava?



R – Olha, eu brincava bastante sozinha. Mas meu pai brincava bastante comigo, ele entrava nas brincadeiras. Muito no fim de semana. Ele gostava de participar das minhas fantasias. E, às vezes, conseguia trazer as amiguinhas pra casa, porque como era do lado da escola elas já vinham comigo e ficavam em casa. Eu fazia natação com uma. Então, tinha também os amigos da escola, que vinham brincar em casa comigo. 



P/1 – Como era este cotidiano? Teu pai te levava pra escola de manhã? Mas ele também trabalhava muito.



R – Trabalhava, mas dava um jeitinho, porque ele me levava na escola de manhã. A gente, pelo menos depois da primeira série, ficava na PlayPen até três e meia da tarde, porque tinha aula de inglês a tarde. Minha mãe que me pegava. E à tarde eu ficava em casa ou como sempre gostei de fazer aulas de dança, ia fazer sapateado, fui fazer balé. Fiz um pouco de natação. E era mais a minha mãe que me levava e me pegava nos lugares. E a família se reunia à noite para jantar. Era meio o ritual.



P/1 – E você lembra das festas que eram comemoradas na tua casa? Quais eram as festas?



R – Sempre aniversários, obviamente. Mas acho que tinha todas as festas de criança. Páscoa, tinha os ovos escondidos pela casa, os meus pais faziam as patinhas dos coelhinhos com talco. O que eu lembro que era uma data gostosa? Dia das Crianças. E Natal, também tinha. Papai Noel, árvore de Natal.



P/1 – E da origem libanesa vocês guardaram alguma coisa de comida? Sua avó cozinhava?



R – Minha avó cozinhava. Hoje ela está velhinha e já não cozinha mais, mas ela sempre fazia almoços na casa dela. Porque a gente tinha uma família pequena, a gente tinha uma família muito grudada. Isto até hoje: todo fim de semana tem pelo menos um almoço de família. Às vezes, tem sábado e domingo! Mas tem pelo menos um. Então sempre teve esta cultura de todo mundo ir almoçar na casa da minha avó Alice e ela fazia bastante comida libanesa. Eu adoro. É uma das minhas preferidas. Acho que muito mais do que a minha avó do outro lado, apesar da origem romena, é naturalizada brasileira, ela tem mais a cultura judaica, porque a família da minha mãe é judia. Os eventos eram mais assim, Pessach, que a minha avó fazia o jantar; mais do que a cultura do país era a cultura da religião, entre aspas. 



P/1 – Fiquei curiosa porque um lado árabe e um lado judeu. E você e a sua irmã nisto foram batizadas, seguiram alguma religião?



R – Não, porque a minha mãe, apesar de ser judia, ela não é religiosa. Meus pais entraram num acordo que cada filho faria o que quisesse. Como nenhum dos dois era religioso, não tinha educação religiosa em casa, eu nunca fui nem na missa, nem na sinagoga. A família do meu pai é católica, a gente tinha contato com os dois lados. Os meus pais decidiram que quando a gente crescesse a gente podia decidir o que a gente queria ser. Eu nunca me aproximei de religião nenhuma. Apesar da família da minha ser judia, eu estudei depois da PlayPen num colégio católico, fui para o Santa Cruz. Eu decidi não escolher nada e assim fiquei. E a minha irmã não, ela se sentia muito mais próxima da religião judaica, então fez Bar Mitzvá, mas porque ela quis. Com 12 anos ela decidiu que queria fazer e fez. E escolheu a religião pra ela. Uma coisa democrática.



P/1 – E você se lembra de algum fato marcante na sua infância? Você falou que tinha muitos animais.



R – Fatos marcantes… Acho que muitos. Essa coisa dos bichos era legal, porque tem esta coisa de morar em casa, que se você consegue ter, que todo mundo hoje mora em apartamento. Mas acho que eu tinha uma coisa de liberdade, que eu acho que hoje é mais difícil. O fato de poder ir pra cima e pra baixo a pé, o fato de morar numa casa. Tinha uma coisa que eu me sentia muito livre, que era muito gostosa. Mesmo que eu ficasse a tarde brincando, não tinha esta coisa de ficar dentro do shopping ou ficar dentro do clube. Tinha uma coisa que era muito solta, muito gostosa. 



P/1 – A PlayPen foi a sua primeira escola?



R – Foi a minha primeira escola, entrei com 2 anos. 



P/1 – Você se lembra de alguma coisa de quando você chegou? Do começo?



R – Eu lembro coisas de aprendizado. Lembro que comecei aprender as palavras em inglês. Então, eu não lembro de ter um choque de chegar lá e todo mundo falar inglês comigo. Acho que isto foi tranquilo, não sei como. Eu lembro que tinha uma cartolina que, por exemplo, tinha foto da fruta e tinha o nome escrito em inglês. Eu lembro deste começo de aprendizado na PlayPen. Eu lembro muitas coisas. Mesmo da dinâmica dentro da escola, da gente chegar e todo mundo sentar numa roda e contava… A professora perguntava um por um: como foi seu dia ontem? E você contava como tinha sido teu dia, onde você tinha ido, o que você tinha feito. Acho que era um momento muito de compartilhar experiências e coisas. Lembro que tinha uma coisa muito organizada na escola. Por exemplo, chegava o lanche, a gente comia o lanchinho e depois cada um lavava o seu pratinho, cada um tinha o seu quadradinho pra guardar as suas coisas. Mesmo quando a gente brincava de pintar, todo mundo ia para o tanque, fazia uma filinha e lavava o seu pincel, guardava as suas coisas. Mil lembranças. 



P/1 – Com que era? Nesta época você ficava o dia inteiro ou era meio período?



R – Era meio período. Pelo que me lembro era só inglês. Até os 6 anos era tudo em inglês. Quando eu entrei pra primeira série, não sei se foi no pré ou na primeira, inverteu. A gente tinha aulas de Português de manhã e à tarde a gente tinha duas horas de aulas de Inglês todos os dias. Então, a gente almoçava na escola, tinha um período depois do almoço de brincadeiras, que a gente fazia meio o que queria, e tinha duas horas de aulas de Inglês todos os dias.



P/1 – O que mais você lembra deste período antes do português? Você lembra do momento em que percebeu que estava aprendendo outra língua, que você começou a entender isto?



R – Eu tenho muito esta imagem, até hoje, eu sou uma pessoa muito visual, de bater o olho nas palavras e associar a palavra à imagem, associar a palavra à imagem. Eu lembro deste processo. Eu acho que comecei a ser alfabetizada em inglês antes do que em português. Isto é uma coisa que eu tenho muito forte. E tinha as coisas das músicas em inglês. A gente cantava as músicas e aí eu não lembro como a professora fazia isto, mas a gente entendia o que tava cantando. Não é que a gente estava cantando em inglês sem entender nada. Ela ia explicando o que era cada palavra. Eu tenho… Esta coisa do aprendizado foi meio em imagens. E aí pro português, eu não lembro exatamente como foi a transição, mas não foi traumática. Eu lembro até, ontem meu pai não contou, ele falou que de repente eu tava lendo, mas eu lembro o dia que ele foi me pegar na escola, três e pouco da tarde, a gente estava andando e eu consegui ler uma placa pra ele. Ele ficou chocadíssimo: “Como, você tá lendo?” Foi uma coisa assim: de repente eu me dei conta que conseguia juntar aquelas sílabas e entender e eu tava lendo. Não foi um processo sofrido, acho que foi um processo muito gostoso.



P/1 – Mas a alfabetização foi em português? 



R – Nesta segunda etapa foi em português. Acho que a parte do inglês foi mais para me comunicar e começar a associar, saber o que eu tava falando.



P/1 – Você falou desta coisa organizada: você lembra do que vocês brincavam na escola?



R – Eu não sei. Eu lembro muito desta coisa da roda. Eu lembro muito das músicas. Tinha muitas atividades de pintura e de desenho. Tinha teatro, que eu não sei se era… Talvez um pouquinho mais velha, acho que talvez não tão pequenininha. Mas eu lembro bastante que a gente apresentava as peças de teatro. E as músicas na classe. 



P/1 – Você se lembra do espaço da escola?



R – Muito bem. A escola era como se fossem dois pedaços. Era como se fosse uma casa térrea, comprida, tinha várias salas de aula. Acho que era pré, primeira, segunda, terceira e quarta série e era também onde tinha a parte administrativa e o refeitório. E tinha um segundo pedaço, onde eram as classes do infantil, era a mesma entrada, você saía à direita e tinha a parte do infantil. E pra trás tinha um quintal super grande. E até tinha uma escada que você subia e tinha um segundo pedaço que era grande, que aí tinha brinquedos, tinha trepa-trepa, tinha uma quadra de esportes. Tinha uma árvore, tinha um banco em volta. Tinha um monte de brinquedos nesta parte dos fundos, era muito gostoso.



P/1 – Em que momento do dia vocês iam pra esta parte?



R – Era no intervalo, a gente ia e também depois do almoço. Quando a gente começou a ficar à tarde no colégio, tinha duas horas, uma hora você almoçava e a outra hora ficava brincando nisto. E você podia brincar e correr. Tinha também aulas de esportes, a gente usava muito este espaço das quadras, tinha queimada. Tinha ginástica olímpica, que eu amava. Então, era nestes dois momentos.



P/1 – Você se lembra dos professores desta época?



R – Eu tive muitos anos a mesma professora que era a Beth, que era uma 

professora loira, de cabelo liso. Ela até chegou a me dar aula de piano em casa. Acho que eu tive muitos anos de aula com ela, ou ela me marcou muito. Não sei se foram muitos anos ou ela que me marcou muito. E eu tive uma professora, que eu não lembro o nome, na primeira série, que eu lembro o rosto dela, mas não lembro o nome dela. Mas acho que a Beth foi a mais marcante pra mim.



P/1 – Por quê?



R – Porque ela era muito afetiva. Foi na época que eu era menor. Um que ela era muito afetiva, ela tinha uma relação muito pessoal com cada um dos alunos. Ela não colocava uma distância: “Sou professora e vocês são alunos.” Era uma coisa muito próxima. Ela era aquela professora que se você estava triste, você podia falar “Beth” e ela ia te pegar no colo. Eu acho que talvez porque eu gostasse muito dela, ela me dava aulas de piano, pequenininha, lá em casa. Lá em casa a gente fazia um caderninho e ela colava adesivos pra mim no caderninho. Ela era muito atenciosa, uma graça.



P/1 – Você lembra das histórias que eles contavam pra vocês ou de algum livrinho de quando você começou a ler?



R – Eu me lembro de vários livrinhos que eu li, pequenininha. Tem um que era do Snoopy. Chamava Love is. Por isso que eu acho que esta coisa da alfabetização em inglês e português foi uma coisa meio misturada. Aí tinham várias fotinhos dizendo: “O amor é walk hand in hand.” E tinha as imagens e uma frasesinha. Eu comecei por aí, nesses livrinhos.



P/1 – Que mais desta relação, assim, dos alunos e dos professores, como era?



R – Eu fui muito feliz na PlayPen, eu tendo a achar que era muito boa. Acho que eles tinham esta coisa de serem afetivos, as classes eram pequenas. Cada professor cuidava muito dos alunos daquela classe. Então, dava uma dimensão pessoal que eu acho muito legal. Você nunca se sentia mais um. Você nunca sentia que você tinha um problema que você não podia compartilhar. Dava uma sensação de acolhimento que era muito legal, muito gostosa. Mesmo quando tinha uma dificuldade de aprendizagem, de relacionamento na classe ou de qualquer coisa, você confiava naquele professor de falar: “Olha, tá acontecendo isto.” Ou: “Não gostei, porque ela pegou meu brinquedo.” E o professor tinha uma coisa de resolver. Tinha uma coisa muito próxima, que era bacana, só que não era baderna. Tinha uma coisa assim: ele era o professor, ele tinha autoridade sobre aquela classe, mas não era uma coisa autoritária. Era uma coisa de trabalhar junto, de resolver as coisas juntas. Eu acho que era muito boa esta proximidade do professor com os alunos. Acho que eles faziam isto de um jeito muito interessante, combinando esta coisa afetiva com a autoridade do professor. Acho que era muito bom.



P/1 – E os funcionários da PlayPen. Você lembra bem de alguns?



R – Eu lembro muito da Marinalva. Ela é uma personagem da escola. Ela não era a cozinheira, ela era a Marinalva. Ela era uma entidade. Ela era muito presente, não só na hora das refeições. Eu lembro que ela tinha uns cachorros e eu queria ir lá brincar com os cachorros da Marinalva. E a gente ia lá e falava: “Marinalva, não gostei da comida.” E debatia com ela a comida, como é que iam ser as refeições. Ela estava sempre circulando por ali, ela acompanhava um pouco as histórias dos alunos. Obviamente ela não tinha a função de bedel, mas ela era uma pessoa muito presente na escola. Não era só no papel dela, entre aspas, ela estava sempre por ali. E como ela ficou, não sei quantos anos ela ficou na PlayPen, mas todo o período que eu estive lá a Marinalva estava lá, ela virou também uma referência da escola. Eu lembro muito dela e desta professora que eu falei, que é a Beth, eu acho que era professora quando eu tinha 5, 6 anos. Ela também me marcou bastante.



P/1 – E a Marinalva morava na escola.



R – Morava na escola. 



P/1 – Você chegou a ir à casa dela?



R – Eu acho que eu lembro desta história porque eu lembro que ela tinha estes cachorros, tinha um cocker. Mas tinha uma coisa muito aberta. Eu cheguei a ir à casa da Marinalva, tinha uma coisa muito próxima. Eu lembro bastante dela.



P/1 – E a comida?



R – Eu não lembro o que eu achava da comida. Mas eu lembro que, às vezes, eu reclamava. E reclamava com ela. Eu sempre fui super chata pra comer, eu ia lá e a gente debatia o cardápio. Por que ela tinha feito isto, por que ela tinha feito aquilo. Mas tinha uma coisa legal de você comer na escola que também era um momento de socialização. De sentar junto com alguém, pegar a bandeja. Eram vários momentos de socialização na escola e acho que a parte do almoço era um deles. Eu lembro isto, eu debatia com a Marinalva sobre o cardápio, o que ela ia fazer. Tenho um pouco esta lembrança.



P/1 – E os lanches também eram dados.



R – Tudo. Lembro de pequenininha que a gente levava os nossos pratinhos, mas sempre, eu nunca lembro de levar lanche de casa. Todo mundo comia sempre a mesma coisa, que era o lanche da escola. Também é democrático, acho bacana. E saudável, tinha suco, bolinho. A gente não ficava se entupindo de porcaria. 



P/1 – E o que mais você lembra? Vocês saiam? Tinha passeios?



R – Não sei muito quando eu era muito pequenininha, mas eu lembro mais das coisas que a gente fazia na escola do que as coisas que a gente fazia fora da escola. Eu lembro muito da feira de ciências que a gente fazia, sempre tinha vários projetos e um dia que os pais iam ver a feira de ciências. Eu lembro uma coisa muito legal, que era o dia do pijama. Era o dia em que todo mundo levava sleeping bag, travesseiro, pijama e dormia na escola. Era o dia mais legal do ano. Você dormia na sua classe e tinha as brincadeiras noturnas. Era o máximo, o ponto alto da escola era o dia do pijama.



P/1 – O que mais você lembra? Tem algum caso pitoresco, alguma coisa engraçada que tenha acontecido nestes dias?



R – Não lembro. Lembro que pra mim era um evento. O dia do pijama era um evento. Tinha o Halloween, tinha a festa junina, todas as comemorações. Mas o dia do pijama tinha um elemento diferente. Era quase transgressor você poder ir dormir na escola, sabe? Mas assim, de um jeito muito especial. A gente se preparava durante semanas: que pijama você vai dormir, se você tinha sleeping bag, se você tinha que pedir seu sleeping bag pra alguém. Fazíamos brincadeiras a noite pela escola. Pra mim era o evento mais legal do ano.



P/1 – Que brincadeiras eram estas?



R – À noite? Sempre tinha esta coisa de sentar em roda e tinha uma coisa de cantar músicas. E, se eu não estou enganada, tinha uma coisa também do lado de fora. Sabe estas brincadeiras que você faz que alguém faz um barulho aqui e você tem que achar onde a pessoa está, procurar as coisas que estavam escondidas pela escola. 



P/1 – Você falou do Halloween. Você se fantasiava? 



R – De bruxinha. 



P/1 – Você preparava? Tinha uma expectativa?



R – Acho que tinha. Tinham as músicas do Halloween e tinha a cultura do Halloween. A gente não saía pedindo doce na vizinhança, mas tinha uma coisa na escola de decorar a classe e os temas das aulas eram relacionados ao Halloween. E acho que tinha um dia que a gente ia fantasiado de bruxinha, de vampiro, de abóbora. Era legal.



P/1 – E tinha festa junina que era o outro lado.



R – Exatamente, tinha a festa junina que tinha quadrilha e tinha tudo o que tem direito uma festa junina.



P/1 – E os pais participavam?

 

R – Sempre. Era sempre uma coisa aberta para os pais, não sei se era sempre no fim de semana. Acho que tinha quadrilha só de alunos e depois tinha a quadrilha dos pais. Tinha música de São João, comidas típicas. Pelo menos eu tenho esta lembrança de meus pais estarem sempre na festa junina comigo, as crianças todas vestidinhas. Era muito fofo.



P/1 – Você falou da feira de ciências. Você lembra de algum trabalho que você tenha feito?



R – Lembro. Isto que é o pior. Eu acho que eu adquiri um conhecimento! Eu lembro que a gente fez um trabalho sobre poluição das águas. Eu não sei se os vários trabalhos eram sobre poluição, mas o meu grupo era sobre poluição das águas. E tinha uma coisa que a gente aprendeu ou demonstrou que se você plantasse árvores nas laterais dos rios você ajudava a despoluir. Eu lembro que o nosso projeto era mostrar como plantando árvores do lado do Rio Tietê você poderia ajudar a despoluir. Depois pra mim foi muito legal ver Projeto Pomar, eu falei: “Eu sabia isto desde que eu tinha 7 anos!”  Mas eu tenho muito marcado isto, que é um projeto que a gente fez.



P/1 – E você tinha muitos amiguinhos na escola?



R – Tinha. Porque as classes eram pequenas. A minha classe da quarta série tinha dez alunos, então você ficava muito próximo das pessoas da tua classe, e você ficava muito próximo das pessoas da sala inteira. Tinham dez na quarta série, quinze na terceira. Eu tenho esta lembrança. A gente fazia coisas juntas, organizava para fazer natação e aí ia três meninas fazer natação juntas, fazer balé juntas. Acho que eu tive muitos amigos na escola. Era uma turma pequena, porque era uma escola pequena, mas isto também permitia que você tivesse contato com pessoas de várias idades, de várias classes. Isto era legal.



P/1 – E esta coisa de ir fazer dança, ir fazer natação, era você que queria ou sua mãe?



R – Natação era minha mãe. Odeio natação, mas, enfim, fiz. Aprendi a nadar. Dança, não. Não sei de onde eu tirei, mas sempre foi uma paixão. Comecei a fazer sapateado com 9 anos, balé com 10 e eu lembro que tinha uma menina na minha classe, chama Fernanda, que a mãe dela é a Elza Prado, tem a escola de dança Elza Prado. Eu lembro que a Fernanda, imagina, a gente era amiga, a gente tinha 9 anos, a Fernanda trazia sapatilha de ponta! Ela dançava muito bem aos 9 anos. Eu lembro desta coisa da dança com ela. Sempre foi um gosto meu, mas o fato da gente ser da mesma classe, a gente ia às apresentações dela. Ela tinha uma irmã que estudava na escola. Enfim, isto sempre foi muito forte. E foi uma coisa que eu levei pra minha vida, faço dança até hoje, adoro.



P/1 – E a escola nesta época não oferecia nada disto?



R – Não, eles tinham essa aula de esportes. Eu lembro que fui fazer ginástica olímpica, porque eu tinha aula de ginástica olímpica na PlayPen e amava. Tinha uma coisa mais de esportes e tinha estas coisas meio diferentes, que nem ginástica olímpica, teatro. Mas a dança na época que eu estudei lá não tinha, não sei se hoje eles oferecem ou não. 



P/1 – Você lembra do professor de ginástica olímpica? Como que era? 



R – Teve um professor, posso estar enganada, que eu tive aula com ele de ginástica olímpica na PlayPen e depois eu fui ter aula de esportes com ele no Santa Cruz. Eu acho que o nome dele era Vilela, não tenho certeza, que era muito inovador. Lembro que as minhas amiguinhas de fora da escola não tinham aula de ginástica olímpica e a gente tinha. E isso dava uma consciência corporal, era muito legal. Eu gostava das coisas mais diferentes. 



P/1 – Vocês apresentavam ginástica olímpica?



R – Acho que ginástica olímpica, não. Acho que era for fun, sabe, assim, na escola. Uma diversão, que nem na aula de educação física a gente tinha queimada, a gente tinha ginástica olímpica.



P/1 – Seu pai contou que você saiu de lá e foi pro Vera Cruz. Em que momento foi?



R – Foi na primeira série. Odiei. Eu acho que tinha uma coisa que eu já tava alfabetizada naquele momento da primeira série e eu cheguei no Vera e a professora falava assim: “Desenhe num papel a sua família.” Eu falei: “Eu tô aprendendo a ler e escrever! Não quero mais desenhar.” Eu tinha 6 anos. Fiquei revoltada. E elas desenhavam letras na lousa e eu pensava: “Eu já sei!” Eu fiquei muito nervosa. Fiquei aflita, porque eu tinha a sensação que na PlayPen eu tava evoluindo, aprendendo coisas novas, sabe aquela sensação de que o mundo está se abrindo pra mim e eu tô neste atraso de vida, que é este Vera Cruz que queria que eu desenhasse, que eu ficasse solta ali. Porque eles tinham uma coisa muito solta. Brincavam no pátio. E eu falava: “Agora não é a hora do recreio. Por que eu não tô tendo aula?” Enfim, eu fiquei ali, não me achei no Vera Cruz. Eu sentia que na PlayPen eu estava realmente aprendendo, estava adquirindo conhecimento e que no Vera eu ia ficar à toa. Com toda a minha autoridade dos 7 anos eu falei: “Aqui eu não fico.” E aí eu voltei.  



P/1 – Como foi a volta?



R – Foi muito bom, porque eu não queria ficar lá e eu lembro que as classes já estavam fechadas e meu pai falou: “Anna, as classes já fecharam, filha, você vai ter que aguentar um ano.” Eu falei: “Pai, não vai dar, não vai dar. Por favor, preciso voltar. Fala com a Guida.” E ele foi, falou e a Guida muito fofa falou: “Tudo bem, vamos abrir uma exceção.” E me deixaram voltar. A PlayPen teve uma coisa que ela caiu muito bem comigo. Não dá pra dizer que ela é uma escola, não sei, talvez ela desse bem com todo mundo, mas caiu muito bem comigo, com o meu jeito, com o tipo de dinâmica que eu gostava. Me sentia muito em casa. Não no sentido de desleixo, mas assim, me sentia muito acolhida. Gostava que as classes eram pequenas, que os professores me conheciam. Gostava de aprender inglês. Voltar pra lá pra mim foi muito assim: voltar pro ambiente onde eu me sinto segura, onde sei que estou me desenvolvendo. Pra mim foi ótimo voltar pra lá, se na minha época a PlayPen fosse até a oitava eu tinha ficado até a oitava. Eu saí porque não tinha mais como, sabe? Acabava a escola. Eu falei: “Vou ter que sair.” Eu tive mil amigos que saíram antes, que pensavam: “Ah, eu não vou esperar o meu filho estar na quarta série pra mudar, já vou tirar ele na primeira.” Ou: “Já vou tirar ele na segunda.” Muitos dos meus amigos saíram antes porque a escola acabava na quarta série. Uma pena.



P/1 – E como foi, as pessoas iam saindo, mas você continuou, tinha  bastante gente, ainda? 



R – Não, na minha época ficou bem pouca gente. A minha classe da quarta série tinha dez pessoas. E as outras classes não eram muito maiores. Tinha sempre dez, quinze alunos. Não tinha mais, vinte. E eu acho que muito por isto, porque a parte do infantil tinha muito mais aluno. Acho que não muito, porque não era o perfil da escola perceber a escola, mas todos os meus amigos saíram; 90% saiu porque a escola ia acabar na quarta série. As classes iam ficando menorzinhas ao longo do tempo. Era uma coisa bem pequenininha, principalmente na quarta série, que era a última.



P/1 – Como foi este primário na PlayPen?



R – Acho que foi muito bacana, porque a PlayPen caia muito bem comigo. Tinha de um lado esta coisa super organizada, super estruturado, mas não era massacrante, não era chato. Tinha sempre uma coisa meio lúdica. Eu gostava muito de aprender inglês, o fato de ter as aulas de Inglês na parte da tarde, eles não faziam o ensino do inglês burocrático. Era assim: sempre era através de música, através de imagens, discussões. Era uma coisa que você aprendia sem ter a sensação de ter de, sabe: “Tô sofrendo pra aprender.” Era sempre uma coisa muito gostosa, o meu primário foi muito produtivo, eu senti que eu aprendi um monte no primário e eu aprendi sem bitola. Sem ter esta sensação de: “Poxa, que chato, tô aprendendo. Tenho que fazer esta lição de casa.” Não, fazia com prazer. Eu fazia e achava bacana. Depois a gente discutia e o que o que eu não tinha entendido eu falava: “Que legal, agora eu entendi. Agora eu aprendi.” Era um processo de aprendizado muito legal. Acho que por isto que quando eu mudei pro ginásio do Santa, pra mim foi difícil, porque o Santa não tinha o mesmo método e tinha uma coisa muito mais massacrante. Era muito mais entuchar conteúdo no aluno do que ensinar você a aprender. Ou dar pra você o gosto da leitura. Porque a Escola PlayPen era isto. Ela não precisava forçar você a ir a biblioteca tirar um livro. Eles valorizavam tanto esta coisa da leitura e de contar histórias que você ia lá e trocava o livro com o amigo. Você fazia disso uma coisa legal, não precisava forçar o aluno. Não precisava entuchar nada pro aluno. Isto estava na cultura da escola. E aí você absorve de um jeito que aquilo vira seu, vira natural. Muito diferente do que eu encontrei no Santa. De depois no colegial foi super bacana, com uma dinâmica diferente. Pra mim o maior legado do meu primário foi esta sensação de que eu me apropriava do conhecimento. Eu me apropriava do gosto da leitura. Eu fui pegando estas coisas na minha vida. Não era pelo conteúdo da Matemática ou pelo conteúdo de Ciências. Não era o conteúdo em si, mas como aprender, o que você pode fazer com este seu conhecimento, como isto era bacana. Acho que este foi o maior legado do meu primário



P/1 – E no primário era uma professora só pra tudo?



R – Era uma professora que dava todas as matérias.



P/1 – Inclusive Inglês.



R – Não, Inglês já era outra.



P/1 – Você falou da Guida, que seu pai foi lá conversar com ela pra você voltar. Como era a relação com a Guida? Ela era presente?



R – A Guida era. Ela estava todos os dias na escola, pelo menos pelo que eu me lembro. E a sala dela era ao lado das nossas salas. Então, obviamente, você não ia ter a falta de educação de bater na porta da Guida por qualquer coisa, mas se você tinha de fato um problema você podia bater na porta da Guida e falar: “Guida, estou com um problema.” Você podia chegar. E eu lembro de ter ido na sala da Guida n vezes, conversar sobre coisas. O fato dela estar lá e receber os alunos fazia dela uma pessoa muito próxima. Não era aquela diretora distante. Era uma pessoa super acessível, presente em todos os eventos da escola, todos os dias. Ela era uma figura muito forte na escola e era uma pessoa que participava das nossas questões, o que era legal. 



P/1 – E você falou desta árvore, que tinha um banco em volta. Você lembra que atividades vocês faziam ali em volta desta árvore?



R – Acho que não tinha atividade, mas por algum motivo os alunos ficavam empoleirados ali em volta. O primeiro ponto de encontro no recreio era sentados em volta daquela árvore. Acho que rolava mais papinho, fofoca, alguma coisa assim, não tinha nenhuma atividade, mas era um ponto de referência do recreio.



P/1 – A PlayPen foi crescendo ao longo do tempo, você chegou a ver, porque eles compraram uma casa, foram abrindo pra ter espaço, você se lembra disto? Foi na sua época?



R – Não, acho que não foi na minha época. Eu vi porque de repente você começou a ver a PlayPen crescer. Eu sempre passo por ali e comecei a ver surgir uma nova PlayPen. Mas não foi na minha época, talvez eles tenham comprado o terreno e eu ainda tava lá, mas eu não vi nada ser construído nesta época de ampliação. Eu lembro até de pensar, porque eu tinha saído na quarta série e aí, enfim, eles começaram a construir e eu falei: “Que pena que isto não foi antes. Que pena que eu não pude ficar.” 



P/1 – E como foi quando você viu o prédio novo?

 

R – Eu achei muito legal, acho que porque eu tive uma experiência muito feliz e pensava: “Que bom que outras pessoas vão poder ter e por mais tempo.” “Que bom que as pessoas não vão sair antes da quarta série, porque a escola acaba.” E acho que também tem uma coisa que me deixa feliz que é ser um modelo que deu certo, que eu acho que é isto: caiu bem para mim, foi muito bom pra minha educação e vai ser pra outras pessoas também. E esta ideia que a escola deu certo e pode continuar a receber novos alunos deste jeito tão bacana pra mim foi muito legal de ver.



P/1 – Você nunca mais foi lá?



R – Nunca mais entrei no prédio, mas morro de vontade de ver como ficou, que cara que tem.



P/1 – Você lembra de algum passeio que você fez com a escola?



R – Deve ter tido, mas eu não lembro. Lembro muito das coisas dentro da escola, mas não lembro de passeio. Não sei se a gente fez algum estudo do meio, museu, mas eu não lembro.



P/1 – E você falou dos esportes. E olimpíada, tinha?



R – Eu acho que olimpíadas, olimpíadas eu não lembro de ter, mas eu lembro de ter mini competições. Então, eu lembro muito da queimada, devia de ter de outros esportes, mas eu lembro muito da queimada. Tinha os times da queimada. E tinha estas mini competições. Tinha uma coisa de circuito que a gente fazia, que envolvia os brinquedos da escola. Era uma parte esporte, uma parte brinquedo, uma parte você corria pra não sei onde. Tinha uma coisa assim, mas eu não lembro de ter olimpíadas. 



P/1 – E como se dá a continuação dos teus estudos? Você vai para o Santa Cruz. Você que escolheu a escola? 



R – Gente, foi uma coisa toda atrapalhada porque a PlayPen acabava e não tinha o que fazer. Naquela altura do campeonato a gente já estava morando no Morumbi, e eu tinha uma prima que estudava no Santa, e assim, embora os meus pais não tivessem estudado lá eles tinham uma imagem bacana do colégio e me sugeriram: “O que você acha de prestar o vestibulinho do Santa?” Eu falei: “Tá bom.” E não me dei conta, pelo menos no primeiro momento, que eu podia não passar. Me inscrevi pro vestibulinho do Santa, comecei a estudar em casa, porque tinha várias matérias que caíam no vestibulinho do Santa que eu não tinha tido na escola ainda. De repente eu falei: “E se eu não passar?” E cheguei para os meus pais e falei: “Gente, e se eu não passar? Eu só estou fazendo um vestibulinho.” “Você gostaria de fazer outros?” Eu falei: “Eu acho que eu gostaria.” E eles foram checar e já tinham sido os outros vestibulinhos, não tinha mais o Vera, não tinha mais o Gracinha. Todos já tinham acontecido. De repente eu me deparei naquela situação: ou é passar, ou é passar. Óbvio que se eu não passasse ia-se dar um jeito, mas assim eu fiquei super pressionada porque eu falei: “Imagina se eu não passo.” Graças a Deus eu passei. Aí eu fiz Santa até o final do terceiro colegial, aí prestei Direito na PUC e me formei em Direito na PUC, faz três anos.



P/1 – E no Santa, qual foi o impacto? 



R – Foi imenso. Um pelo método de ensino, porque o Santa tem uma coisa muito diferente no colegial, mas no ginásio eles querem entuchar conteúdo e uma decoreba sem fim. E aquilo não tinha nada a ver. Você não tinha prazer em aprender. Pra mim foi super sofrido, porque eu estava acostumada com a dinâmica que eu ia aprendendo e ia gostando do que ia aprendendo, pra uma dinâmica que era ali! Tem que decorar mais isto, tem que decorar mais isto. Então isto foi o primeiro contraste. Depois eles são muito mais classes, muito mais alunos, então eu não tinha esta relação pessoal que tinha na PlayPen. O que me fazia a maior falta, porque não é que você era mais um, mas você era mais um. Os professores até sabiam o teu nome, mas você não sentia que você podia bater um papo com o professor: “Tô com dificuldade na tua matéria, me ajuda.” Não tinha esta relação próxima nem com os professores, nem com a diretoria. O único ponto que era um ponto próximo era que eles tinham uma espécie de conselheiro, orientador da série. Era uma coisa que era mais próximo. Mas este contraste do pequeno e do grande, de uma escola que você se sente muito especial, pra uma escola que você está ali no meio da galera, foi bem difícil. Acho que só fui de fato voltar a gostar de estudar e curtir no colegial. 



P/1 – E nesta época do teu ginásio quando você vai para o Santa, como ficava a tua rotina? Porque na PlayPen você estudava até às três da tarde, você vai pro Santa, como era?



R – O Santa era das sete a uma e a tarde eu fazia outras coisas. Uma coisa que eu sentia muito mais forte no Santa é que na PlayPen, não que todo mundo fosse igual, mas todo mundo era meio igual a você. Tinha uma coisa onde todo mundo era amigo de todo mundo. Não tinha grandes rivalidades, não tinha grupos separados, as classes eram pequenas. Tinha uma coisa muito: todo mundo junto. No Santa, não. Tinha o pessoal do ano acima. Aí tem os meninos populares, tem as meninas populares, tem o grupo dos nerds. Sabe quando é uma realidade de categorização das pessoas que para mim não existia. De repente você cai lá e tem que se agregar a um grupo. Você fala: “Mas eu não sei se eu sou, em que grupo eu me encaixo.” Esta coisa mais segregacionista, eu senti muita diferença. Porque era muito mais gostoso quando você não tinha que segregar ninguém, onde todo mundo podia conviver junto sendo igual ou sendo diferente. Esta coisa do Santa eu também dei uma estranhada. E acho que em termos de dinâmica, eu ficava no colégio de manhã e à tarde, como eu sempre gostei de fazer dança, fazia jazz, fazia balé, fazia sapateado, fazia inglês. Eu ia fazer as coisas que eu gostava e tinha um pedaço do dia que eu usava pra fazer trabalho, lição. 



P/1 – O Santa te demandava mais neste sentido de ficar em casa e ter que estudar?



R – Eu acho que sim, mas muito porque não periodicamente, não era todo dia que tinha lição, mas chegava a prova era cem páginas do livro de história que abarcava da Revolução Francesa até não sei onde. Eu lembro de sofrer muito nas vésperas de provas, que eu tinha que ficar, na PlayPen eu não lembro de ficar quatro horas sentada estudando pra uma prova, no Santa você ficava 16 horas! Sabe, assim? Acho que o Santa demandava muito mais em termos de conteúdo, mas necessariamente isto era absorvido, não necessariamente o processo de aprendizado era gostoso, era mais sofrido.



P/1 – E os teus pais, quando você foi pro Santa, eles te ajudavam no desespero?



R – Eles tentavam, mas eu ficava revoltada. Eu jogava livro de História pelo chão, revoltadíssima. Mas não tinha muito como eles me ajudarem, quer dizer, eles tentavam super, meu pai tentava estudar História comigo. Aí ele ficava revoltado com o material. Minha mãe tentava me ajudar, porque tinha aula de francês, no Santa, ela tentava me ajudar com o francês. Eles tentavam participar, mas a escola tinha uma coisa que era assim: você tinha que dominar este conteúdo. Então, não tinha muita opção, além de você ficar lendo, fazendo resumo e decorando. Eles tentaram bastante ajudar, mas foi um processo que eu tive que me virar sozinha, de aprender a como ingerir aquele conteúdo, como estudar para aquele colégio. Foi sofrido, mas eu acho que fui aprendendo ao longo do tempo.



P/1 – E as relações? Se tinha esta coisa segregacionista, você se achou lá na escola?



R – Encontrei um grupo que não tinha cara de nada e aí falei: “Este é o meu grupo.” Que não era nem os nerds, nem as populares. Era um grupo meio ok. Eu falei que: “Eu sou ok. Acho que vou pra este grupo.” Não, é verdade. E tinha uma coisa que é muito minha, sei lá, é legal circular entre os vários grupos. E no Santa era mais difícil, porque alguém no grupo que não gosta de você. Você pensa: “Gente, por que essa pessoa não gosta de mim, eu não fiz nada pra ela.” É uma coisa meio de competição. Então, eu acho que dentro do possível eu achei o meu grupo. Tinha que escolher um, escolhi o meu e tentava um pouco circular pelos outros, não ficar só naquela coisa fechada. Mas era bem mais difícil.



P/1 – Você participou de grêmios?



R – Cheguei a ser representante de classe e participei de organização de formatura, fui mais nesta linha do que centro acadêmico e grêmio. Eu gostava mais dos representantes de classe do que de organizar festinhas. 



P/1 – Você falou que o colegial foi mais tranquilo.



R – O colegial foi muito legal. Porque o colegial retoma um pouco. Entram muitos alunos novos. Entram lá 50, 60 pessoas novas. Você dilui aqueles grupos que estavam formados, porque as pessoas entram no Santa na primeira série. Então, aqueles grupos já estão muito cristalizados. Quando entra um monte de gente nova, você dilui de novo, os grupos agregam novas pessoas. As classes, eles mudam as classes todos os anos no Santa, você não fica todo ano com as mesmas pessoas. Isto deu uma misturada nos grupos, o que é legal, depois agrega gente de outros colégios, com outras cabeças, outros interesses. Isto também dá uma diversificada bacana. O colegial do Santa é muito mais crítico. Eu voltei a ter prazer em estudar. As aulas de História não era uma decoreba. Ela fazia você achar aquilo muito interessante. Tinha aula de Filosofia, que era o máximo! E óbvio, tinha gente que odiava, eu achava o máximo. Tinha uma coisa de promover debates. Se estava alguma coisa rolando, por exemplo, eleições, o centro acadêmico e o colégio apoiava, chamava candidatos para debaterem no auditório do colégio. Tinha um jornalzinho. Tinha um debate de ideias no colegial, que era muito bacana. E aí cabiam todas as visões, então, era óbvio, tinha um grupo que se considerava comunista, tinha o grupo que eram os capitalistas, tudo bobagem, né. Mas cabia todo mundo e todo mundo podia conversar, trocar ideias e debater. Dizer porque sim, porque não. A diversidade, as pessoas poderem entrar em contato com pessoas diferentes, com ideias diferentes e trocar uma com as outras, existia muito mais no colegial. É muito mais rico. Aí que eu voltei a achar a coisa legal. O colegial foi bem mais bacana. 



P/1 – E no colegial você entrou em centro acadêmico, jornal?



R – Eu sempre gostei da representação de classe. O jornal era aberto, então eu não era a editora do jornal, mas podia escrever minha opinião no jornal. Escrever um artigo para o jornal. E os debates eram todos no auditório, ia todo mundo pros debates. Você não precisava ser do centro acadêmico para participar. Eles organizavam, mas todo mundo debatia, todo mundo participava. E os debates também aconteciam no âmbito das classes. Mesmo a aula de Filosofia, quer maior convite pra reflexão do que a aula de Filosofia. Então, eu nunca me envolvi, mas sempre me senti parte das discussões. E sempre senti que eu tinha a minha voz ouvida ali. 



P/1 – E teve algum professor do Santa que te marcou mais?



R – Teve, teve uma professora de História que chamava Arlenice. Agora acho que ela dá aula na USP, que era um monstro de professora. Sabe aquela pessoa que você fica hipnotizado? Mesmo quem nunca gostou de História ficava paralisado diante da aula da mulher. Não sei o que ela tinha, mas ela fazia, acho que ela gostava tanto daquilo que ela tava ensinando, que ela fazia você achar aquilo o máximo. Ela dava livrinhos do Hobsbawn pra gente ler. Ela era exigente, mas ela dava textos interessantes, autores interessantes. Ela olhava aquilo da maneira mais interessante possível. Ela me marcou muito. E a professora de Filosofia, que era amada por uns e detestada por outros, que era a Ana Bruner. Mas quem tem Filosofia no colégio? Ninguém. E, de repente, o mundo dos filósofos e das teorias para uns alunos de colegial era muito legal. E eu acho que abre a cabeça. Não é porque alguém vai fazer Filosofia. Mas dá uma reflexão sobre o mundo que é muito bacana. Então, estas duas foram muito importantes.



P/1 – E no Santa tinha atividades extraclasses? Vocês viajavam?



R – Tinha muito estudo do meio e uma coisa que era obrigatória, que era legal, no segundo colegial você tinha que fazer um ano de atividade numa organização do terceiro setor. Podia ser um asilo, mexer com criança, podia ser na favela do Jaguaré, que o Santa tem um mega projeto. Você podia escolher, mas você tinha que fazer um ano de uma carga horária x de um trabalho social, para os alunos é muito: “Oi, realidade.” Para os alunos é muito legal. Isto me marcou muito. Eu fazia um trabalho para uma organização de dar aulas de circo na Granja Viana. Os alunos no período que não estavam na escola pública eles ficavam neste projeto, chamava Projeto Âncora. E você tem esta troca também. Não é só pra você conhecer uma outra realidade que é diferente da sua, mas pra você poder também aprender com estas pessoas, entender a realidade delas e ver como, que foi o que marcou muito, a gente ia lá uma vez por semana, numa sexta-feira à tarde. A gente chegava e as crianças vinham correndo, numa alegria, porque a gente tinha chegado pra brincar com elas. E você vê como uma coisa deste tamanho, que é três horas na sua semana, podia ter um potencial na vida de outra pessoa muito grande. Este trabalho do Santa dá uma outra dimensão para os alunos. Foi o mais legal. 



P/1 – O Santa é um colégio católico. Você teve aulas de religião?



R – Era livre. No ginásio eles, entre aspas, obrigavam todo mundo a assistir. Não era propriamente aula de religião, era Ensino Religioso, que teoricamente não era só católico. Bem na teoria. E rolou um meio que um movimento revoltado dos, nem (me digo?) eu não quero porque sou judia, mas não tem nada a ver comigo. Não escolhi a religião católica. E não quero ser doutrinada, enfim, eu tinha um certo bode de ter que assistir aula. Juntou uma patotinha de alunos judeus e a gente falou: “Olha, pra gente não faz sentido nenhum assistir esta aula.” Durante um tempo a escola resistiu, dizendo que não era aula de catolicismo, não era catequização, mas depois eles cederam. Eles viram que não fazia sentido. Se o aluno não está interessado e se ele vai contestar tudo o que está sendo dito, que não valia a pena insistir. E eles liberaram a gente de assistir a aula. Isto até a oitava série, no colegial não tem mais. O colegial é uma coisa mais laica.



P/1 – E como você complementou a sua formação em inglês? Porque a PlayPen te deu uma boa base e aí você passou pro Santa.



R – Tinha aulas de inglês no Santa, teoricamente dividida em níveis, mas tinha um monte de gente de níveis diferentes no mesmo nível, porque eram muitos alunos. Eu tentei até fazer Alumni, achei “chatésimo”, um bode. E no final eu fiquei assim, tenho a minha base do Santa, tive aulas de inglês no PlayPen, mas eu nunca fui fazer Alumni, Cultura. Minha família viaja bastante, então quando eu viajo… Eu mantive o hábito de ler em inglês, que é uma maneira de não perder. Por exemplo, vou alugar um filme não vejo com a legenda. Eu criei a minha própria maneira de manter a minha cultura inglesa. E muito mais pra frente, agora recentemente comecei a precisar muito para o meu trabalho. Escrever em inglês jurídico é coisa pra procurar um professor, fazer um curso específico, pra isto. Mas o que eu tive de inglês é mais do que uma base. Eu lembro que quando cheguei no Santa, no colegial eu tinha amigas que tinham cultura a vida inteira e eu falava tão bem inglês quanto elas. Então, mesmo hoje em dia eu falo inglês muito melhor que a maioria das pessoas. E é graças a PlayPen. Eu não fiz uma mega complementação e eu me viro em qualquer lugar. Trabalho com uma ONG [Organização Não Governamental] americana e escrevo tudo em inglês. De alguma maneira aquilo me deu… Ficou uma base muito enraizada. Achei que foi mais que uma base, 90% do que eu aprendi, aprendi lá e ficou. Misteriosamente.



P/1 – E seus pais esperavam que você seguisse alguma carreira? Você escolheu sozinha?



R – Eu não lembro de terem palpitado muito, não. Meu pai gostaria que eu fosse música, meu pai e minha mãe. Gente, umas ideias esquisitas! Música, pô! Mas eu tinha dois interesses, Psicologia ou Direito. Não exatamente que eu quisesse ser advogada, profissão advogada, mas porque eu sempre me vi um pouco mobilizada pelas questões de justiça. Então a questão da justiça e da injustiça sempre foram questões que me interessaram muito. E enfim, bati um pouco de papo com as pessoas. Meus pais mais me ajudaram assim,  falei: “Estou pensando em prestar direito, mas queria ter um pouco de noção de como é o dia a dia dos advogados.” Tinha uma amiga dos meus pais que tinha escritório de advocacia e falou: “Fica comigo aqui.” Isto foi em julho. Então, no meu terceiro colegial eu fiquei um mês com ela num escritório de advocacia, indo ao Fórum, fazendo reunião com cliente, audiência com juiz pra ter um senso se era aquilo que eu queria ou não. Meus pais me ajudaram: “Você quer conversar com uma psicóloga?” Conversar com pessoas, trocar ideias, mas eles não fizeram nenhuma pressão. Não tenho advogado na minha família, tenho um tio avô. Eles sempre acharam que tinha a ver comigo, eles mais me incentivaram a fazer do que quiseram puxar pra eu ir pro outro lado. Eles tinham esta ideia: “Vai porque acho que isso tem a ver com você.” E aí fui fazer Direito. 



P/1 – Como é que foi? Você gostou de cara e falou: “é isso?”



R – Eu acho que no primeiro ano tinha uma coisa que tinha ensino religioso, meu Deus do céu! Tinha coisas legais e tinha coisas não legais. Me identifiquei porque o primeiro ano é mais filosófico. O primeiro e segundo anos são mais interessados na ideia, no conceito de justiça, no conceito de acesso à justiça. Se a lei e a moral andam juntas ou andam separadas, se o que é moralmente tido como justo é o que a lei tá dizendo. Acho que o primeiro e segundo ano me deram uma bagagem legal. A partir do terceiro ano, o Direito regula a sociedade inteira, tudo que vocês imaginarem é Direito. Então de repente você começa, de um lado é interessante descobrir que o mundo é regulado pelo Direito, de outro você começa a fazer do geral pro específico, específico, específico, muito específico. Desde coisas de funcionamento de Estado até funcionamento da Internet, até contrato de trabalho. E aí é um pouco massacrante. A parte da teoria é interessantíssima, riquíssima, mas ser um operador do direito exige um trabalho, porque tudo é regulado na maior minúcia, com 30 leis, 150 decretos e mais a jurisprudência e mais as correntes que vêm da Alemanha. Pra tudo. Cada uma das matérias você tinha que compreender este bolo de coisas. Tem matérias que você se identifica mais, então eu acabei indo pra área de Direito Público, que era muito mais bacana. Mas eu tinha que fazer Direito do Trabalho e não tinha escapatória. Tinha que fazer Direito Civil, Família, todo o pacote, Societário. Então a faculdade de Direito é isto: conceitualmente é muito interessante, na prática tem muita coisa chata, mas o Direito é muito instrumental. Eu saí de lá com a sensação de que, portanto, eu tenho um instrumento de ação e posso usá-lo sendo advogada ou não. Ele é um instrumento e eu posso fazer mil coisas com este instrumento que eu tenho. Posso escrever num jornal, por exemplo. Eu escolhi trabalhar com terceiro setor, com direitos humanos. Eu não faço um trabalho propriamente jurídico, de entrar com uma ação, mas posso fazer. O conhecimento que eu tenho, por exemplo, de como funcionam os tratados internacionais, as convenções, como se entra no ordenamento jurídico brasileiro, qual a importância da decisão de um tribunal, como funciona se eu quiser processar alguém, qual a importância da jurisprudência. Isto me deu uma noção de mundo que é muito importante pro meu trabalho. Mesmo que eu não faça um trabalho especificamente jurídico. O saldo da faculdade foi muito positivo, me deu um instrumental bacana.



P/1 – E a opção de trabalhar com direitos humanos?



R – Foi muito louca, eu sempre flertei com ela. Só que eu tinha uma coisa assim: “Vou trabalhar no terceiro setor, não vou ganhar nada.” Tinha tanto este papo que tem ONGs que são sérias, ONGs que não são sérias. Eu tinha uma dúvida: “Será que a gente consegue fazer?” E o trabalho das ONGs não é necessariamente jurídico, né. Direitos Humanos você não sai processando pessoas. Você pode sair processando pessoas, mas você tem um milhão de outras coisas que não são jurídicas. Fiquei com medo de me afastar, eu quis conhecer o lado mais formal do direito, processo civil, fórum, mas ao longo do tempo eu comecei a perceber que eu me sentia do lado errado das causas. Eu trabalhava com, por exemplo, concessão de serviço público, concessão de energia elétrica, ou portos, ou rodovia, ou saneamento básico. Quando eu estava no escritório eu fazia trabalho do lado do cliente. Então, você vê: o que é importante para a cidade? O que é importante para aquela região? É uma coisa que não é o que o seu cliente quer. Seu cliente quer pagar menos, quer investir menos. Ele quer dizer que o edital não tá bom. Então eu trabalhava, mas falava: “Isto não é legal. Isto não vai ser o melhor para aquele lugar.” Eu comecei a ficar super incomodada com a sensação de estar sempre defendendo um interesse que não era o interesse público. Uma hora eu falei: “Isso não vai pra lugar nenhum.” Porque é isto, no escritório você vai atender o interesse do seu cliente. Ponto. Não tinha por onde chorar. Foi aí que decidi sair, falei: “Tô incomodada, me sentindo mal aqui.” E comecei a sondar porque, se você pensa em direitos humanos, tem um bilhão de coisas. E eu não sabia o que queria fazer. Então comecei a fazer um trabalhinho sobre terceiro setor, conhecer algumas organizações. Fui trabalhar como voluntária numa ONG que trabalhava com violência, praticamente violência institucional e de repente o mundo foi se abrindo. E hoje o meu problema é o contrário: eu me interesso por tudo. De repente o mundo dos direitos humanos se abriu pra mim. Eu acho que ele conversa muito com o que sempre me interessava: as questões de justiça. Lutar por direitos humanos é lutar por justiça, e é isto que me interessa. Não quero ver o interesse do meu cliente. Eu quero fazer isto. As questões que mais falavam comigo, para as quais acabei me direcionando, foram: violência contra mulher, direito das crianças, um trabalho que estou desenvolvendo agora, migrantes, que é super interessante apesar de ser um tema que é pouco falado. Migrantes, refugiados, movimentos de populações. Mas fui fazendo esta transição aos poucos. Uma vez que eu entrei no terceiro setor e comecei a trabalhar com direitos humanos o mundo se abriu. E descobri este campo incrível que tem um monte de coisas pra fazer. E tem um monte de coisas interessantes pra fazer. E aqui pretendo ficar por enquanto. Entrei e estou trabalhando com isto faz dois, três anos. 



P/1 – E qual o seu cotidiano de trabalho?



R – Trabalho em casa, porque trabalho parte do tempo numa organização americana, Human Rights Watch, a gente trabalha por e-mail, por Skype etc. Trabalho meio período pra eles e no outro meio período eu comecei a combinar. Eu fiz um projeto com uma ONG que chama Conectas sobre direitos nas empresas. Agora estou em um projeto através do núcleo da violência, que é sobre violência contra crianças. Acabei entrando numa linha de pesquisa, mas acabo sempre combinando dois projetos nas áreas que me interessam. E tenho trabalhado de casa neste esquema, combinando duas coisas.



P/1 – Você saiu da casa dos seus pais, mora sozinha?



R – Moro sozinha há quatro anos. Eu divido apartamento com uma amiga.



P/1 – Qual foi o grande impacto que você sente da PlayPen na sua vida?

 

R – O grande impacto da PlayPen na minha vida foi primeiro me sentir amada, querida e acolhida pela escola. Isto foi muito importante porque me deu, primeiro é uma sensação muito boa, dois porque te dá muita confiança pra vida. Você sentir que alguém tá olhando pra você, está prestando atenção em você, quer ouvir o que você quer dizer. Isto é uma coisa que eu aprendi lá e que tento replicar nas minhas outras relações. Relações onde eu possa trocar, onde eu possa ouvir, onde eu possa ser ouvida. Onde me sinta confortável, onde me sinta confiante. Esta foi a maior diferença. 



P/1 – E os maiores aprendizados que você obteve lá?



R – Um, conviver com pessoas diferentes, eu acho que o fato das classes serem pequenas. Dois, de serem pessoas de backgrounds muito diferentes, existia desde da criança de família inglesa, que ia botar o filho no St. Paul’s, até alguém como eu, que não tinha nada a ver. Tinha uma menina na minha classe que era deficiente auditiva. Ela não era surda, ela ouvia com aparelhinho e falava com dificuldade. Eu lembro que este convívio foi muito bacana. Tem até uma história que eu ia contar, pequenas coisas que me marcaram. Ia ter aniversário desta menina, ela chama Stefanie e alguém me perguntou: “O que você vai fazer amanhã?” “Eu vou ao aniversário da Stefanie.” “Quem é a Stefanie?” “Uma menina loirinha, da minha classe, mais ou menos que nem eu.” “Poxa, não sei.” Eu falei: “A Stefanie, que foi com a gente não sei onde.” Fiquei horas tentando descrever quem era a Stefanie e então eu falei: “A Stefanie, aquela meio surdinha.” Teve uma professora que ouviu. Ela chegou pra mim e falou: “Como você fala da Stefanie assim?” Acho que eu devia ter uns seis anos: “Ela é sua amiga, porque você tá chamando ela de surdinha?” Na hora ela falou: “Nunca mais se refira a alguém assim.” E aquilo me marcou de um jeito que até hoje, na minha vida, eu nunca vou me referir a alguém por qualquer característica que possa ser estigmatizante pra pessoa. Eu nunca vou falar: “Ah, sabe aquele meu amigo gordo?” Mas assim, nem nada, foi uma coisa muito… Conviver com a diferença, mas não desta maneira, não estigmatizar as pessoas, a classe tem o gordo, tem a feia, tem o cego. Não, a classe tem os teus amigos, a classe tem as pessoas. E cada um é diferente a sua maneira. Esta coisa de conviver com a diferença foi muito importante.



P/1 – Fala um pouquinho das diferenças que você encontrou da PlayPen pro Santa Cruz?



R – A PlayPen era um clima muito mais intimista, muito mais pessoal. Tinha uma coisa muito mais afetiva,e tinha uma coisa de você aprender sem sofrer, que eu acho que tinha uma coisa lúdica no aprendizado, que era muito bacana. No Santa, pelo menos no ginásio, não tinha esta coisa pessoal, não tinha esta coisa afetiva e tinha um aprendizado muito mais de decoreba, muito mais massacrante, muito mais sofrido, que só foi revertido de alguma maneira no colegial, onde eles abrem de novo o espaço pra debate, pra crítica, pra discussão. 



P/1 – Quando você saiu da PlayPen na quarta série teve alguma despedida, alguma formatura?



R – Eu acho que teve uma coisa na escola, da nossa classe, junto com nosso professor, mas não lembro de ter tido uma festa, alguma coisa assim. Tava todo mundo meio triste de sair, não era: “Que bom que acabou!” Era tipo que ia cada um pra um lado. Mas acho que a gente fez alguma coisa com o professor na sala.



P/1 – E você guardou algum amigo da época da PlayPen?



R – Teve algumas pessoas que eu reencontrei alguns anos atrás, mas não são pessoas que eu encontro sempre. Acho que muito em função do Orkut acabei encontrando muita gente que estudou comigo, sabe: “Vamos marcar um encontro”, marca um dia um encontro, mas não foram pessoas que eu sou amiga até hoje. Tem pessoas de quem eu lembro muito, mas não fazem parte do meu cotidiano. Infelizmente, eu acho. 



P/1 – O que você acha da PlayPen comemorar os 30 anos por meio da entrevista?



R – Eu acho muito legal, porque a escola são pessoas. Eu acho que mais do que conteúdo pedagógico e método de ensino, a escola é composta pelas pessoas que passaram por lá. Eu acho muito legal e acho que tem muito da escola que está na memória das pessoas, que não vai estar registrado em lugar nenhum. Acho legal que acho que um jeito de você compor de uma maneira muito subjetiva esta história da PlayPen, que é da vivência das pessoas em relação à escola. Mas do que grandes datas ou grandes marcos. É um jeito mais pessoal de recompor a história da PlayPen e acho que tem que fazer com ela. Justamente por ser uma escola que foi tão próxima das pessoas, dos seus alunos. Eu acho legal você resgatar estas pessoas, estes alunos, os pais que participaram da vida da escola pra comemorar.



P/1 – O que você achou de ter dado esta entrevista?

 

R – Achei legal porque você começa a relembrar um monte de coisas e acho que é isto de valorizar e retribuir um pouco. O que a escola te deu você dá de volta de alguma maneira. Então achei legal.



--- FIM DA ENTREVISTA ---

 

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