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História

Valéria Carvalho: o Armazén Bar

História de: Valéria de Carvalho Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 04/03/2021

Sinopse

Nascimento em Bauru, SP. Lembrança dos pais e dos avós. Lembranças de infância. Aulas de balé. Memórias da escola e faculdade. Quebra de paradigmas com a ascensão do rock. Lembrança da banda Vodu. Chegada ao Armazén Bar. Importância e paixão pelo bar. Eventos e festivais realizados pelo bar. Luiz Melodia no Armazén. Gêneros do rock. Pandemia. Futuro do bar.

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História completa

          Sou Valéria de Carvalho Costa e nasci em Bauru, no dia 19 de dezembro de 1954. O rock mudou tudo na minha vida: visão de mundo, política, forma de se vestir... tudo, né? É uma coisa que altera tudo, é muita possibilidade. Porque eles te colocam num mundinho estreito - é isso e aquilo - e de repente você vê toda aquela mudança, desde a coisa do negro sendo aceito - a música negra, que antes era rejeitada.

          Nesse primeiro contato com o rock, eu tinha uns 13, 14 anos. Eu era bem nova, e quando isso começou foi com o Stinguel, que fez parte da minha história. Ele foi o vocalista da banda Vodu, que é uma banda que fez história, mas antes disso ele foi marido da minha mãe. E tinha o Carlinhos Faria, que era dono da Discoteca de Bauru - eu lembro de ouvir Led, um monte dessas bandas lá.

          Eu sempre gostei muito de ler, de comprar livro. Meu pai me deixava uma conta aberta, e eu podia comprar livros. Eu li muito Clarice, eu li Nietzsche... eu li O Lobo da Estepe, acho que eu tinha uns 15 anos. Lembro que eu fiquei “absurdada” com o livro, até hoje eu acho maravilhoso.

          Eu não participei da montagem do Armazén Bar. Eu cheguei logo depois que foi montado. O Paulo trabalhava na Shell, mas ele saiu, e era casado com a Patrícia, que era uma holandesa. Eles foram pra Holanda e ficaram lá um tempo, e quando eles voltaram, ele resolveu montar o bar. Aí eles se separaram, eu cheguei e estou lá até hoje.

          Ele abriu dia 20 de novembro de 1980. Um bar que, segundo algumas pessoas, pela localização, por tudo, não ia durar seis meses, sabe? Mas ele ficava no caminho de todas as faculdades que existiam em Bauru, e a maioria das repúblicas era tudo naquela região. Quando eu cheguei, o bar já estava lá, o básico do Armazén já estava lá. Ele tinha paredes cobertas de pedaços de caixote e uma parte que nós cobrimos inteira de cortiça. E tinha uma sala que era à parte, em frente de onde fica o banheiro, que a gente chamava de Expo, porque ali aconteciam as exposições de quadros.

          E tinha a história do banheiro, que o banheiro do Armazén era unissex. Não. Sempre teve o banheiro feminino e o masculino, só que as pessoas não respeitavam. A gente colocava plaquinhas, as pessoas arrancavam. O povo adora falar que o banheiro do Armazém era unissex.

          Eu e o Paulo acabamos ficando juntos, tivemos uma filha. Então, a gente tem um bar e uma filha em sociedade. E mesmo que a gente tenha se separado há muito tempo, a gente trabalha superbem juntos, tanto que nós abrimos o restaurante Luna juntos. Se tem uma coisa que a gente faz bem juntos é trabalhar. E foi tudo muito rápido. Comecei a frequentar e já fui pra trás do balcão muito rápido.

          E era muito bom o clima no início. Era 1980, 1981. Aquela coisa de fim da ditadura, sabe? As pessoas com aquela gana de mudar as coisas e acreditar em mudanças possíveis.

          Teve muitas bandas no Armazén! Teve uma época que tinha mais bandas do que hoje. E também nasceram muitas bandas lá. Aí teve uma reforma em 1995, que foi quando o bar pegou essa cara de hoje, com o palco maior. Então nós fizemos aquele projeto “Armazén Bauru Blues”. E a gente começou a trazer as bandas de fora - trouxemos a Clara Ghimel, que era uma cantora baiana; a Orquestra Paulista de Soul; Irmãos Cara de Pau; Irmandade do Blues...

          Hoje as pessoas querem ouvir funk. Mas a gente não vai se vender. É legal? Pode ser, não sei. Mas aqui é um bar de rock. Então a gente vai continuar se mantendo fiel a isso. Eu acho que é legal você se manter firme numa linha. E também tem a coisa do cover e do autoral. O cover é a música autoral de alguém, pra começar. Simples assim, sabe? Eu acho um porre, como já aconteceu: Norman Bates e os Corações Alados, que eu amo, vai tocar no Armazén, e entra um casal e fala assim: “Norman? O que eles tocam?” Tocam “Norman”. “Mas eles não fazem cover?” “Não!” “Ah, então eu não gosto”. “Mas você já ouviu?” “Não”. Sabe, é como uma vez que tocou Universo Elegante no Sesc; eu fui lá, cheguei em casa, tinha uma discussão na internet dizendo que Bauru não abria espaço pra banda autoral. Aí eu comecei a perguntar por que eles não estavam no Sesc, vendo uma banda autoral de Bauru.

          A gente tem grandes amigos que saíram das bandas, do convívio no “Arma”. Eu acho que os nossos amigos hoje são muito mais o pessoal de banda, que foi chegando e ficando. Temos bandas que estão com a gente há 30 anos! O Armazén é um bar completamente fora de circuito, há 40 anos fazendo a mesma coisa, com os mesmos donos. Por isso a cabeça da gente é muito de boa, porque a gente só convive com gente nova.

          Temos também o nosso trabalho social, que é o Esquadrão do Rock. Foi no inverno de 2016 que iniciou, quando fez muito frio. Começamos arrecadando roupas e depois passamos para a distribuição de refeições para o pessoal que mora na rua. Aí nós começamos a sair uma vez por semana, é toda terça-feira, e já chegamos a fazer 220 marmitas em um dia. É muito legal, porque a galera da rua é impressionante. Você encontrar uma pessoa que não tem nada, e ela olha pra você e fala assim: “Não, obrigada, eu já comi hoje, mas ali tem gente que não comeu”. Pra pra mim é um tapa na cara. Eu lembro que cheguei num homem na ferroviária, perguntei se ele aceitava um casaco, uma blusa, uma coberta, e ele falou que ele aceitaria a comida, porque ele não tinha comido. Da roupa ele não precisava, porque ele tinha muita. Ele tinha duas blusas. Eu nunca mais vou esquecer isso! E toda vez que precisou fazer uma festa pra arrecadar roupas ou qualquer outra coisa, os músicos todos se predispuseram a ir lá, fazer de boa, sem nenhum problema.

          Por isso eu sempre digo que o Armazén é uma grande história. É uma vida dedicada a alguma coisa. Muitos podem pensar que a gente ficou rico. Um monte de gente fica rica com bar. A gente não ficou, muito pelo contrário. Mas a gente tem uma coisa que é muito importante, que é o respeito pelo que faz.

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