Busca avançada



Criar

História

Valentes de Além Mar

História de: AURÉLIO E AMÉLIA
Autor: Marco Aurélio Barcelos Valente
Publicado em: 18/11/2014

Sinopse

Essa história é dos meus avós, imigrantes portugueses que deixaram sua terra para recomeçar em um país desconhecido. Portugueses, cujo o sangue de cavalheiros e da antigas e tradicionais famílias, desfizeram-se de suas propriedades para fugir da crise do pós primeira guerra mundial. Recomeçaram do nada, constituíram suas famílias e tiveram a graça de viverem rodeados de filhos, netos e bisnetos. Mas do que qualquer coisa que se tenha perdido no passado a grande recompensa é o sucesso de se refazerem e de ter tido uma família feliz.

Tags

História completa

Essa história é sobre Aurélio e Amélia, portugueses do distrito de Viseu que, mesmo vivendo a poucos quilômetros de distância, só vieram a se conhecer no Rio de Janeiro nos idos da década de 1930.

Aurélio nasceu em 1905, no distrito de Viseu, no conselho de Castro D'Aire, na freguesia de Cabril, em uma aldeia chamada de Tulha Velha. Era filho de Elvira Duarte Valente e Innocêncio Ferreira. Era descendente do Alferes do Exército Real de Carlos II de Espanha, D. Pedro II de Portugal e D. João V de Portugal, Matheus Valente, que lutou em Mazagão, no Marrocos do século XVII e XVIII.  A parentela de  Matheus Valente se estabeleceu no Aveiro, na freguesis de Rossas, que abrigou no século XVII a Ordem da Cruz de Malta. Aurélio também era descendente de Gonçalo Teixeira de Eiriz, nascido em 1554 e de Antônio Duarte Pinto, nascido em 1794. Dom Gonçalo foi sobrinho do escudeiro mor do exército real de Dom João III, e pertenceu a uma das famílias mais abastadas e tradicinais do Aveiro. Dom Antônio foi administrador do Concelho de Castro Daire em 1841. 

Amélia nasceu em 1918, também no distrito de Viseu, no conselho de Resende, na freguesia de Anreade, em um lugar chamado Pousada, próximo à Caldas de Aregos, as margens do rio d'Ouro. Era filha de José Francisco e Beatriz de Jesus Ramalho. Era descendente da abastada família  Pinto, vindas de São Cipriano do Cinfães. Beatriz herdou de seu pai, José Pinto Ramalho, uma quinta na Rua das Vinhas, onde criavam porcos para a fabricação de embutidos defumados que vendiam para os comerciantes de Caldas de Aregos. Amélia era sobrinha do Senhor de Cárquere, João Pinto Ramalho e afilhada de Manoel Inácio e Maria da Conceição de Figueiredo, senhores da Quinta da Ribeira em Tondela. Amélia veio para o Brasil em 1930 com sua mãe e seus irmãos Mário, Luiz Francisco e Maria José. pelo mesmo motivo que Aurélio. O pai de Amélia, José Francisco, já estava no Rio de Janeiro há três anos trabalhando com o médico Doutor Pereira dos Santos, no bairro da Tijuca.

O Dr. Pereira dos Santos ficou famoso por dar consultas gratuitas para os moradores das comunidades do Salgueiro e da Formiga que estavam em formação.

Dona Beatriz, mãe de Amélia, mandou vender sua propriedade de Portugal em 1931, no ano que nasceu seu filho mais novo Arão, e comprou um terreno no Bairro da Tijuca. Aurélio foi morar com um amigo chamado Manoel Lopes Martins na mesma rua que Amélia morava com sua mãe e irmãos. Aurélio conheceu Maria José irmã de Amélia e começaram um namoro muito discreto. Da mesma forma Manoel, amigo de Aurélio, iniciou um namoro com Amélia. Mas Aurélio não gostava do jeito espevitado de Maria, que costumava falar com todos na rua. Passou a ter admiração por Amélia, que era mais recatada. Da mesma forma, Manoel achava Amélia muito tímida e passou a admirar o jeito de ser de Maria. Meses depois os casais foram trocados. Manoel passou a namorar com Maria e Aurélio começou um namoro com Amélia. Para a mãe de Amélia aquilo já estava por demais bagunçado e exigiu que Aurélio se casasse com Amélia.

O matrimônio se deu em 1936, na igreja de Nossa Senhora da Conceição do bairro onde moravam. Em 1939 nasce Eda, a primeira filha do Casal, em 1942 nasce Carlos, em 1947 nasce Inocêncio e em 1951 sua filha Vera. Em 1948 Aurélio entra de sociedade de uma loja com seu irmão Inocência e outros amigos. A Loja se chamava Valente e Soares & Cia, que vendia máquinas de costura Singer, Bicicletas Phippes, geladeiras, rádios, entre outros produtos. A loja ficava na Rua Frei Caneca, mas tinha entrada pela Rua Mem de Sá, no Bairro do Estácio. Em 1959 Aurélio e Amélia e sua família foram morar no Bairro do Estácio e se tornaram vizinhos e amigos da família Lamarca. Carlos Lamarca, que posteriormente se tornaria capitão do Exército Brasileiro e um dos comandantes guerrilheiros da Vanguarda Popular Revolucionária que combateu a ditadura militar, estava com 22 anos no momento.

Os irmãos de Aurélio e de Inocêncio também conseguiram se estabelecer no Rio de Janeiro. Alcindo casou-se com uma brasileira e foi morar no bairro do Rio Cumprido, Laura casou-se com um alemão de Marc Fleischmann, mas se separou. Depois se casou com um paulistano descendente de italianos chamado Raul Pucciarelli, , funcionário do Banco do Brasil, e foram morara em um casarão do século XIX na Ladeira da Glória, no bairro da Glória. Laura e Raul não tiveram filhos. José não se casou e partiu para os Estados Unidos. Ao regressar foi morar com sua irmã Laura e seu cunhado Raul. Os irmãos de Amélia também bem se estabeleceram. Maria José se casou com Manoel Lopes Martins e permaneceram no bairro da Tijuca onde se tornaram proprietários de vários imóveis. Luiz Francisco também adquiriu imóveis, ingressou na Maçonaria, também se casou, permaneceu na Tijuca, próximo a sua irmã Maria.

Mário teve um destino semelhante a dos seu irmãos. Aurélio faleceu em 1968 e Amélia em 2007. Os descendentes de Aurélio e Amélia continuam unidos pelo amor e a tradição deixada. Honram seus nomes e o país que nasceram. Cada um herdou a garra de se reerguer nas dificuldades. Superação, confiança, esperança, garra e honra foi o maior legado que Aurélio e Amélia deixaram para seu netos e bisnetos. Saudades dos meus avós que tiveram a generosidade de nos deixar toda a sua história para termos como exemplo de garra, perseverança e fé. 

Ver Tudo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+