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As pessoas não acreditam que eu, negra, tomo conta da associação.

História de: Valdete Roza
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Publicado em: 25/05/2021

Sinopse

Valdete Firmina Roza nasceu no dia 1 de julho de 1969, filha de João Roza e Joaquina Firmina Roza. O pai sempre mexeu com comércio, bar, na região central de João Monlevade, era conhecido como João Surdo, por não escutar muito bem. Apesar de Valdete ter nascido numa cidade vizinha, sempre morou na cidade de João Monlevade. Em 2001 veio a oportunidade de , trabalhar na ATLIMARJOM – Associação dos Trabalhadores de Limpeza e Matérias Recicláveis de João Monlevade que foi fundada no dia 25 de maio de 2001 com o objetivo de promover o resgate da cidadania dos trabalhadores que atuavam no lixão, defender o meio ambiente e promover o desenvolvimento sustentável local através da coleta, triagem e venda dos materiais recicláveis.

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História completa

Meu nome é Valdete Firmina Roza, eu moro em Minas, na região do interior de Minas, João Monlevade. Nasci 1 de julho de 1969. Tenho 51 anos.

Meu pai é João Roza, já é falecido e minha mãe é Joaquina Firmina Roza. Meu pai, a vida toda, mexeu com bar, com comércio, no Centro da cidade. Ele é muito conhecido como João Surdo, ele escutava pouco.

Eu e meu irmão somos gêmeos. Quatro filhos e três gestações. 

Queria fazer Psicologia. Acabei, fui pra outros cantos, na época. Eu queria saber as coisas, sabe? Como que funciona, como é a pessoa. Essa questão da vivência, da doença ou a pessoa que não dá conta.

Agora, uma coisa que eu fiz, que eu achei que eu dei bobeira: quando eu terminei o segundo grau, eu tinha que fazer Contabilidade. Eu mexo hoje com isso. Então, eu não obedeci a minha intuição. Em vez de eu fazer Contabilidade, eu fiz Secretariado. Eu vou ser secretária quando? Eu fugia da Contabilidade e eu fui parar num lugar que eu faço a contabilidade lá. (risos) Corri, corri e não adianta a gente correr muito do trem. Quando você tem que ser uma coisa, você vai ser.

Fiz Administração e agora eu ia até fazer Administração de Empresas, mas o curso está muito caro. A menina me chamou pra ir pra lá e eu achei que a gente ia ganhar uma bolsa, chegou lá a história foi outra.

João Monlevade é uma cidade com a população mais negra, porque como tinha muitas fazendas na época da escravidão, então tinha muito negro, só que tinha muito preconceito racial. Além dos negros, tem os donos, os ricos, que sempre foram ricos, que são os donos da cidade, que são brancos, que têm uma posição social maior. Então, há esse disparate. Eu lembro que um dos meus primos que vinham de São Paulo falava: “Nossa, tem muito negro aqui”. A gente não percebe, porque a gente mora aqui. Mas a população é mais negra do que branca, por causa dessa questão da época da escravidão. Os negros construíram as coisas aqui, a igreja. Mas a situação financeira... como fala? Os meios aquisitivos estão na mão dos brancos, a maioria. Isso acho que é normal em todo o Brasil, mas aqui é muito evidente.

As pessoas não acreditam que eu que sou negra, tomo conta da associação. Aqui há um preconceito veladíssimo, até dentro do próprio empreendimento de catador. Um rapaz lá, que tem a minha idade, 51 anos, tem um preconceito enorme com relação a cor dele. Ele é negro de olho claro, ele fala que ele não é preto.

Com 17 anos, eu conheci esse meu marido, estamos agarrados até hoje, trinta anos. Tive um filho. Minha história é curta, poucos namorados.

Eu trabalhei numa escola de datilografia, tive poucos empregos também. Na época que eu terminei o segundo grau, eu fui pra Belo Horizonte pra trabalhar, só que aí eu engravidei. Na época esse namorado meu foi pra Itália e ficou lá um ano e meio, quase dois anos, ele foi pra Itália trabalhar. Aí fui pra casa de mãe, não podia trabalhar. Na época que eu ganhei o Douglas, com vinte e dois. Aí fui pra lá, não podia trabalhar, como é que ia trabalhar grávida e tal? Eu passei muito mal com a gravidez, minha pressão era muito baixa, aí eu tive que ficar em casa, não trabalhei nesse período. Aí depois Ronaldo mandava, sempre, dinheiro, meu marido, pra cuidar do filho, pagar as despesas, Depois que o filho nasceu, ele voltou, aí eu vim morar aqui.

Ele abriu um bar aqui mesmo. Eu cuidava do bar todo, de tudo, só não dava conta de fazer as comidas direito, ele era melhor na cozinha do que eu, e eu cuidava dos negócios.

Aí veio a oportunidade de trabalhar com a associação de catadores, não era meu perfil, catação, não sabia nada. A prefeitura de João Monlevade queria montar uma associação, mas ao ver deles, eles tinham que colocar alguém de fora pra gerir. Então, era, na verdade, pra associação ter pessoas da própria catação pra gerir a associação, mas não tinha nenhum catador lá que eles achavam que ia dar. Me chamaram pra ir lá, fui, os meninos catadores ficaram meio assim de aceitar, porque eu não era catadora, nem sabia nada, mas aceitaram e fomos trabalhando na construção do galpão primeiro. Formou a associação, tirou os catadores do lixão.

A prefeitura que ia construir o aterro sanitário e tinha que dar destino pros catadores. Tinha 43 famílias que sobreviviam de material reciclado no lixão, e a prefeitura ia fechar o lixão e ia abrir o aterro. Veio uma grana pra construir o aterro e a prefeitura não podia perder essa oportunidade, mas tinha que dar destino pros meninos que estavam lá, esses 43.

Fomos trabalhar a construção do galpão. Ficamos até 2002 na construção. Nesse período de construção quem não tinha o sustento de fato passou fome, foi caçar outra coisa, não podia ir pro lixão, teve que procurar emprego. Em outubro de 2002 que começou a trabalhar no galpão. Aí que nós começamos com o trabalho lá, reciclar material, aprender como fazer. Eu não sabia nada.

Nós conseguimos aprender a separar material. É bom, porque a gente, depois, foi comercializar, sabia o que estava comercializando. Estou lá tem 19 anos, nosso material tem uma qualidade muito boa, porque a gente aprendeu a separar, classificar tudinho. Agora a gente tem um monte de acervo, né? Cresceu demais!

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