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História

"Vai acabar a minha carreira aqui"

História de: Armando Macias
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/09/2004

Sinopse

Armando trabalhou em várias empresas antes de ingressar na Johnson & Johnson. Sua sede ainda ficava na Avenida do Estado, perto da Mooca, onde ele e muitos funcionários moravam. O clima familiar, em que todo mundo se conhecia, começou a mudar quando a empresa se transferiu para São José dos Campos. Armando gostava muito de São Paulo e ficou na dúvida se deveria ir ou não, mas decidiu se mudar junto com a empresa e lá permaneceu por muitos anos, participando do crescimento da empresa.  

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História completa

 

P/1 - Vamos começar a entrevista perguntando o seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Armando Macias, nascido em São Paulo em quatorze de março de 32. 

 

P/1 - O nome de seus pais e onde eles nasceram.

 

R - Meu pai, Armando Macias, nasceu em São Paulo. Minha mãe, Júlia Santoro Macias, também nasceu em São Paulo.

 

P/1 - O senhor se lembra dos seus avós? 

 

R - Lembro dos meus avós maternos, paternos não conheci. Meu avô [se] chamava Pedro Santoro, era de Lucca, na Itália. Minha avó, Tereza Betti Santoro, também de Lucca. 

 

P/1 - Havia alguma tradição que eles trouxeram? O senhor sabe como eles vieram para cá?

 

R - Pra dizer a verdade, não sei. Sei que eles vieram pra cá já casados na Itália, e aqui tiveram os filhos, inclusive minha mãe. Da parte do meu pai eles eram espanhóis. Não sei o que os trouxe aqui.

 

P/1 - Como era a sua casa da infância?

 

R - Minha casa tinha dois cômodos, uma salinha, uma cozinha, banheiro no fundo do quintal. Não era como hoje, que tem tudo conjugado, dentro de casa. Era no Cambuci, Rua Clímaco Barbosa, 293.

 

P/1 - Como era o bairro do Cambuci na época?

 

R - Ah, eu gostava muito do Cambuci. Eu morava na Rua Clímaco Barbosa e subindo umas duas ou três travessas tinha o Cine Cambuci. Paralela a onde eu morava tinha a Rua José Bento, onde tinha o Corpo de Bombeiros. Mais pra frente tinha os campos de futebol -__________ depois da ____________ . 

 

P/1 - Além de jogar futebol, quais eram as brincadeiras?

 

R - Nós brincávamos de cowboy, naquele tempo era mocinho e bandido, né? Tinha um amiguinho que veio do Interior; ele tinha uns três ou quatro anos, eu tinha seis, sete anos, até hoje é meu amigo. Veja, quase sessenta anos de amizade, ele ainda mora em São Paulo. Chama-se Nicésio Silva, mora no Ipiranga. Eles eram uma família muito grande, tinha muitos irmãos. A gente brincava muito na casa um do outro, jogava futebol juntos e brincava de… Aquelas brincadeiras daquele tempo, de bolinha, de pião. Hoje a molecada quase não conhece. 

 

P/1 - O senhor disse pra gente que era filho único.

 

R - Filho único. E não senti isso, porque como eu vivia praticamente com esses amigos, que eram um monte de irmãos, eles me consideravam como irmão deles. Então eu não tive esse trauma de infância por ser filho único. Nunca. Aliás, os meus amigos diziam que nunca tinha conhecido um filho único que fosse do meu tipo. Porque todo filho único é cheio de problemas pra tomar decisões, e eu nunca tive nada disso, porque me criei praticamente com eles, até a idade dos quinze, dezessete anos. Aí mudei do Cambuci e já estava numa fase de escola, outros amigos também. Nunca tive esse tipo de problema.

 

P/1 - Quando o senhor morava no Cambuci, qual era a sua escola? 

 

R - Estudei na Rua Ana Neri, no Colégio Professor Armando Bayeux, meu xará. Ali fiz os quatro anos primários. 

 

P/1 - O que o senhor lembra do colégio, dos professores?

 

R - Pra dizer a verdade, o que lembro desse tempo… Uma fotografia ou duas dos meus colegas do primeiro e segundo anos, que naquele tempo era assim, pelo menos na escola que estudei. Fazia um ou dois anos juntos na mesma turma, depois mudava, então fiz com uma professora o primeiro e segundo anos [do] primário. Depois, terceiro e quarto ano com outra professora. E diga-se de passagem que a professora de terceiro e quarto ano tinha um nome muito... Rosa Garrafa. (risos) A turma brincava com ela e me lembro que uma vez puseram uma rosa em cima de uma garrafa em cima da mesa. A mulher ficou brava, você não faz idéia. (risos) A primeira professora minha, do primeiro e segundo ano, chamava-se Gipsy de Almeida. 

 

P/1 - O senhor falou que morou no Cambuci até os quinze anos e mudou de bairro?

 

R - Fui morar na Mooca, perto de onde era a Johnson. Antes de eu mudar, eu morava no Cambuci e minha avó morava na Mooca, então uma ou duas vezes por semana nós íamos visitar essa avó, que morava na Rua Coronel Cintra. E às vezes eu passava com minha mãe, que me levava pela mão e passava na frente da Johnson. "Como é bonita essa fábrica." Porque era bonita, mesmo já naquele tempo. Tinha tudo, uma unha de gato pregada nas paredes. Nunca sonhava que depois de mocinho, de homem, ficaria velho naquela firma. Essa é que é a verdade. 

 

P/1 - Quais as outras lembranças que o senhor tem do bairro da Mooca nessa época?

 

R - Do bairro da Mooca, praticamente fiz minha mocidade toda lá. Quando fui fazer Química já morava ali. Fiz meus amigos lá, as primeiras namoradas, os primeiros cinemas bailes de matinê, bailes depois à noite, então essa parte social foi feita já na Mooca. Saí do Cambuci muito pequeno. 

 

P/1 - E por que vocês mudaram do Cambuci para a Mooca?

 

R - Porque a casa em que morávamos era alugada. Um belo dia, o proprietário ofereceu a casa pra nós comprarmos e não tínhamos condições. Aconteceu que na mesma ocasião, na mesma época… Era uma vila que tinha na Rua Coronel Cintra, que [se] chamava Vila Regina e essas casas foram todas postas à venda. Morava minha avó na casa número quinze e minha tia na casa número oito. E naquele tempo, quando você mudava de uma casa pra outra você tinha que dar as chaves. As chaves era um valor, era um dinheiro. E como nós não tínhamos, como foram vendidas essas casas na Mooca, chave por chave, meu pai fez um sacrifício danado, pediu pro patrão dele uma entrada, e nós demos como se fosse uma chave, mas era a entrada da casa. E foi na Vila Regina, na casa número oito, junto com a minha tia. E ali fomos morar por uma necessidade da ocasião. 

 

P/1 - O senhor comentou que já saía com uma turma de amigos. Como o senhor fez essas amizades?

 

R - Ah, isso… Veja bem. Quando eu morava no Cambuci, eu disse a vocês agora que nós íamos duas vezes por semana na casa da minha avó. Lá tinha muita molecada, então peguei muitos amiguinhos ali, jogava bolinha de gude, jogava pião, então também fomos crescendo juntos. Quando fui para morar na Mooca não tive problemas de adaptação, já conhecia a maioria do pessoal. 

Comecei a freqüentar o Colégio Francisco de Assis, que era na Rua da Mooca, e cheguei até a ser presidente de uma associação cristã lá. E aí fiz muito mais amigos, e... Quer dizer...

 

P/2 - O senhor disse que assumiu a presidência cristã dessa escola. Como se deu a sua formação religiosa?

 

R - Dentro da minha família, porque minha mãe sempre foi muito católica. Ela me levava pela mão assistir à reza ou à Via Sacra. E talvez [por] esse hábito de menino eu fui me tornando um católico praticante. Mas a minha prática de igreja era só aos domingos, a missa. 

Agora, mais velho, eu sou praticante da religião católica. Eu vou quase todo dia à missa, comungo, mas isso deve ter sido coisa da infância, motivado pela minha mãe, que era muito católica. Meu pai já não era tanto. 

 

P/1 - Vamos voltar um pouquinho a seus pais. O senhor comentou que seu pai era alfaiate...

 

R - Meu pai entrou numa firma com quatorze anos e saiu com sessenta anos, todo esse tempo no mesmo emprego. Era a Alfaiataria Íris, [que] ficava na esquina da Rua Líbero Badaró com a Avenida São João. Ele se dedicou de corpo e alma à empresa, mas infelizmente eles não souberam reconhecer até o fim da vida o empregado que ele foi. 

Não estou fazendo aqui nenhuma propaganda da Johnson, mas difere muito do que a Johnson fez por mim. Devo ter merecido, porque me sacrifiquei, trabalhei pela companhia, mas me senti gratificado. Se não fosse isso… Tive muitas ofertas para sair da Johnson, antes de terminar ficando trinta anos lá. Fiquei porque eu achei que era aquilo que eu queria. Lá só fiz amigos, o que não aconteceu com meu pai. Infelizmente. 

Era uma firma bem menor, podia ter reconhecido bem melhor, entretanto ele teve uma decepção muito grande quando ele saiu da firma. Não só em termos de dinheiro, porque isso faz parte da vida também, mas não é tudo. Ele ficou muito magoado da maneira como ele saiu, sem aquele apreço que ele esperava ter. Mas trabalhou a vida inteira, se sacrificou para que eu pudesse estudar. Porque, você vê, um empregado de alfaiataria fazer um filho se formar químico naquele tempo… Hoje é muito mais simples, tem escolas em todas as esquinas. Aquele tempo era tudo quase a pagamento, então era um sacrifício danado. E eu não podia repetir o ano, porque se eu repetisse não tinha condições de continuar a estudar, porque eu via o sacrifício que ele fazia. Então, realmente, Deus talvez tenha sido muito generoso comigo, viu? 

 

P/1 - O senhor gostava de estudar?

 

R - Gostava, gostava. Talvez não tenha feito a carreira que eu quisesse. Talvez porque o dinheiro era curto, então eu não podia fazer um curso muito comprido. Tinha que fazer uma coisa bem breve. Mas naquele tempo, quando me formei, 53, 54, já era alguma coisa apreciável, vindo principalmente de uma família pobre. 

 

P/1 - A sua família o incentivava a seguir alguma profissão?

 

R - Não, me deixaram totalmente à vontade. Eu segui a carreira química porque fiz o colégio... Ginásio num lugar e um dos professores que dava aula passou a ser um diretor do Colégio Dante Alighieri. Ele via, talvez, as minhas aptidões para química e me convidou, [perguntou] se, saindo daquele colégio e me formando no ginásio, eu não queria passar para a escola que ele era o diretor, o Dante Alighieri. Aí fui. [Era o]  professor Gian Frederico Porta. 

 

P/2 - No Dante Alighieri o senhor foi fazer o curso...

 

R - O curso de Química. O Curso de Química Industrial já era lá. 

 

P/2 - E o senhor estudou italiano também?

 

R - Não, mas eu aprendi a falar porque os meus avós falavam italiano. Então, eu lembro que eu jogava futebol ali na rua, e minha avó falava “Nino” - meu apelido era Nino quando eu era pequeno: "Vai prendere il latte." "No." Sabe o que quer dizer? "Nino, vai buscar o leite." Três horas da tarde, mais ou menos, e eu: "Não." "Vai prendere il latte, che ti faccio pigliare un gelatto." “Você vai buscar o leite que te deixo tomar um sorvete.” E eu: “Agora vou, agora vou.” 

 

P/1 - Teve mais alguma coisa da sua avó?

 

R - Eles me queriam muito bem, me estimavam muito. 

Nós éramos de uma família muito grande, muitos primos, netos, e não sei porque eles tinham, me parece… Hoje, depois de tantos anos que eles foram, me parece que eles tinham uma, não sei, uma preferência... Foram muito carinhosos comigo, sabe? Não sei o porquê. Eu achava, talvez os meus primos também achassem. Então me vêm essas lembranças muito carinhosas deles. 

 

P/1 - No bairro da Mooca ainda existiam as festas italianas? 

 

R - Não, no meu tempo não. Só tinha a festa do Colégio Dom Bosco, onde comecei a fazer parte da associação. Formamos um clube, lá tinha um clube de futebol e tinha o teatro. Então eu comecei, trabalhei em teatro. E trabalhava, modéstia à parte, razoavelmente bem, mas tudo coisa amadora e a gente arrecadava fundos pra igreja. Então, uma vez [a] cada mês, cada dois meses, se fazia um espetáculo. E aquilo ficava superlotado. 

Tinha um menino que trabalhava muito bem. Se não me engano, ele foi trabalhar na Rádio São Paulo - a estação das novelas, do rádio-teatro, era a Globo de hoje. Ele foi trabalhar lá. Saiu da nossa turma.

 

P/2 - Com relação ao bairro da Mooca, tinha grupos oriundos de algum país específico?

 

R - Eram praticamente italianos, sabe? Muitos descendentes de italianos e também de espanhóis. E de sírios, tinha muito sírio por lá também, mas predominava a colônia italiana. 

 

P/2 - O senhor falou que quando era pequeno passava pela fábrica da Johnson. Lá tinha outras fábricas ou era um bairro residencial?

 

R - Não, não. Diga-se de passagem, a Avenida do Estado era uma avenida meio descampada, sabe? Quer dizer, tinha a Johnson e tinha muita chácara lá. Não tinha muita construção. Bem depois, que eu me lembre, é que foi construída, bem defronte da Johnson, a Chicletes Adams. Nem sei se está até hoje lá. 

Tinha a _____ fábrica de discos ou de gravação de discos, não sei o que eles faziam lá. Mas isso bem mais pra frente, na própria Avenida do Estado, perto da Rua da Figueira. A Johnson era ali, e bem antes dela, [pra] quem vinha do Cambuci, já existia a Antarctica. Era um pedaço grande que pegava, se não me engano, ali da Rua Presidente Wilson e me parece que ia até a Mooca. Não sei se era caminhões, mas me lembro bem que tinha a parede toda pintada “Antarctica”, fazia um quilômetro ou mais. 

 

P/1 - Bom, e no tempo da adolescência, como eram as paqueras?

 

R - Naquele tempo era gostoso... Não tinha tanta maldade como tem hoje. Não quero dizer que o jovem hoje seja todo mau, não! Tem gente muito boa. Mas era uma coisa, não sei, parece que mais pura. 

De mocinho, por exemplo, eu ia dançar, não me esqueço nunca. Fui dançar num baile na cidade, e acabou eram quatro horas da manhã. Praça Fernando Costa, antigamente não eram todos que tinha carro. Enfim, era de bonde - de bonde, que era mais barato. Ônibus era mais caro, nem tinha ônibus naquele tempo onde eu estava, então fui na Praça Fernando Costa pra pegar o bonde. 

Interessante, porque o bonde estava demorando muito e pensei: “Ah, vou a pé.” Pegava praticamente a Rua da Mooca e já chegava em casa. [Rua] Frederico Alvarenga, Rua da Mooca e chegava em casa. mas tinha um pedaço grande pra atravessar, [a] várzea do Glicério, não sei se hoje ainda é lá. Eu fui-me embora e vinha um camarada atrás de mim. No começo eu nem... Mas quando peguei ali a Frederico Alvarenga comecei a apertar o passo, o sujeito também apertava. E aí pensei: "Vou atravessar de um lado da calçada pro outro." Atravessei, e o cara também atravessou. Já comecei a assustar mais. E comecei meio a correr. E ele também. 

Chegou num ponto e falei: "Não vou chegar aí perto do Parque Shangai", que ali era a várzea do Glicério. "Se ele tiver que fazer alguma coisa vai fazer ali, que não tem uma alma viva." Parei e perguntei: "O que é que você quer?" Aí o sujeito disse: "Ô, é você, rapaz. Eu tava com medo de ir sozinho, então tava acompanhando." (risos) Quer dizer, quase me matou do susto que eu levei. Ele estava com mais medo do que eu, mas eu que estava na frente... Vou te contar o que passei! 

Essa é uma passagem até interessante de mocinho.

 

P/1 - Então vocês não andavam em turma?

 

R - Andávamos em turma, sim. Com a turminha a gente às vezes ia pro Largo do Cambuci, porque lá tinha um tal de footing, ou seja, as passeatas de antigamente. Os moços ficavam na beirada da calçada ou encostados na parede. E as moças, em três ou quatro, desfilando, fazendo o canter, se apresentando. Então a gente filava, “olha aquela, que bonitinha”, depois de três ou quatro voltas se continuava aquela paquera e a gente ia conversar. Então quem não tinha namorada ia no footing, e em geral, só tinha no sábado e no domingo, a gente saía acompanhado. Tava namorando. 

 

P/2 - O senhor lembra da sua primeira namorada? 

 

R - Olha, tive uma namorada que acho que só eu e ela ficamos sabendo, viu? Eu estava no grupo escolar e numa ocasião me bateram na porta e entregaram uma carta pra minha mãe. Eu tinha acho que uns nove ou dez anos. Entregaram uma carta. Abrimos e tinha um apito dentro. (risos) Um apito. 

Era uma menina que passava por lá, usava tranças. Ela ficou gamada, apaixonada por mim, e me mandou um presentinho. Era um apito, um assobio de lata, e pra ela devia ter sido a maior honra, a maior vitória. Essa foi a primeira paquera minha. E eu nunca conversei, só vi passar. 

 

P/1 - Durante o namoro, onde se costumava ir nessa época?

 

R - Bom, essa passeata era no Cambuci e eram moças do Cambuci. As da Mooca ficavam meio longe. A passeata das moças da Mooca era na Rua da Mooca, mas nunca fui. Como eu tinha nascido no Cambuci, ficava muito ligado ali. Era pela Rua Barão de Jaguara, Rua Ana Neri, Rua Justo Azambuja; uma vez ou outra pela Avenida do Estado, do outro lado do rio, defronte à Johnson. Até chegava-se a passar por ali, passeando, conversando. Era um troféu que você levava. 

 

P/1 - Era costume a prática de esportes?

 

R - Futebol. Nunca me esqueço que numa ocasião fiz uma questão danada de entrar num clube de natação. Nesse tempo já morava na Mooca. E consegui, com muito esforço convenci meu pai e minha mãe de entrar de sócio do Tietê. 

Bom, era uma viagem, né? Tinha que ir até a cidade, depois tomar o bonde Ponte Grande, levantar às sete horas da manhã pra chegar às dez no clube. Coisa louca. 

A primeira vez que eu fui, com a minha carteirinha, tudo bonitinho, fui na piscina. Era um verdadeiro martelo sem cabo. Não nadava nada, era ruim demais. Aprendi a nadar foi depois de velho por causa dos brônquios com problemas. E, saindo da piscina, um calor danado, tomei um sorvete. Peguei um resfriado. 

Nunca mais me deixaram voltar. A minha atuação de nadador acabou ali. Fiquei sócio e saí do clube na primeira semana. (risos) "Vai pegar uma pneumonia..." Naquele tempo era outra mentalidade. 

 

P/1 - E por que o senhor queria fazer natação?

 

R - Só por causa dos meus amigos do Cambuci, que eram sócios do Tietê e iam todo o domingo. Ficava com água na boca. E por isso insistia com o meu pai, que tinha tanta dificuldade, porque tudo pagava-se. E qualquer tostão que se tirava naquele tempo fazia falta. Então consegui esse sacrifício danado pra poder entrar na natação, mas, como disse, foi muito curta a carreira. 

 

P/1 - O senhor comentou com a gente que começou a trabalhar num empório. Como foi isso?

 

R - Tinha uma vendinha, um empório perto da minha casa, na esquina. Os donos eram italianos. Os filhos eram Benito Ciasca e Dário Ciasca. Dário até formou-se médico, depois faleceu. Benito, nunca mais soube. A filha chamava Vera. Inclusive o nome do empório era Empório Vera. 

Era um empório que naquele tempo tinha muita freguesia. Aos sábados aquilo lá... Porque antigamente as vendas, empórios, ficavam abertos até às dez, onze horas da noite. Eles tinham um movimento danado, não venciam. E eu, como não fazia nada, eles me pediram: "Você não pode pesar o café?" Porque café moído não tinha, todo esse negócio de empacotamento que existe hoje. 

Era numa portinha. Tinha máquina de moer café, então eu moía café pra eles e pesava. Tinha uma prática tão danada que já sabia quanto que tinha que pôr de pó no saquinho. Eu tinha uma mão que era uma verdadeira balança: "Quantos gramas? Quinhentos gramas, um quilo?" Pá, já aparecia o pacotinho, entregava. [Eu] os ajudava quase toda a semana, principalmente nos fins de semana. Mas [era] um trabalho muito bom, gratuito. (risos) Não ganhei um tostão por causa deles. 

 

P/1 - Como era a embalagem que usava na época?

 

R - Era um saquinho... Desses de café moído. Não desses agora, envelopados a vácuo, nada disso não existia. Você pesava, enchia a concha, punha na balança, pesava e depois fechava, com a habilidade manual que eu já tinha, e entregava. Era simples. 

 

P/1 - E como era a máquina de moer?

 

R - Máquina de moer? Seriam dois funis de vidro, onde se colocava em cada um deles quase meio daqueles sacos de café torrado. Ligava, funcionava e aquilo caía numa gaveta. Quando você ia pegar, tinha que desligar a máquina, e se você tirasse a gaveta do lugar, evidentemente que o café continuaria moendo e cairia tudo no chão. Aí pegava, depois fechava e assim.

 

P/2 - E de onde vinha o café?

 

R - Isso aí, se não me engano… Isso é meio chute, usavam Café Assembleia. E compravam de um camarada que vendia. Agora estou admirado com a minha memória! (risos)

 

P/1 - Pode contar como era esse empório?

 

R - Olhe, tinha sacarias, arroz, feijão… Eles tinham um balcão onde cortavam os frios - cortados na faca, hein? Não tinha máquina. E o proprietário, que era o seu Leonardo, falecido, ele tinha uma habilidade pra cortar o salame, mortadela, tudo, mas uma coisa espetacular. Cortava uma fatia milimétrica, vamos dizer. 

Tinha de tudo naquela venda. Tinha os frios, tinha... Bebidas, cerveja, mas muito vinho se usava naquele tempo, sabe? Ninguém quase tinha geladeira e o pessoal que tinha… Era uma peça de madeira folhada de zinco por dentro e se punha uma pedra de gelo que o geleiro colocava na porta. Às vezes você dormia um pouco mais e encontrava tudo derretido. E quem tinha geladeira, naquele tempo, era alguma coisa, viu?

 

P/2 - E como foi o seu primeiro emprego trabalhando como químico?

 

R - Foi o seguinte. Quando me formei, tinha que fazer estágio, senão não podia me formar. E através de um vendedor de casimiras da onde meu pai trabalhava, como era muito conhecido, ele conversou: "Olha, meu filho tá precisando..." Ele disse que trabalhava pra um lanifício, o Lanifício Cianflone. "Tem lá a fábrica de tingimento e tem químicos. Eu posso conversar com o proprietário e talvez arrume um estágio pra ele, pra cinco ou seis meses, o tempo que for preciso." Conversou e seu Gabriel Cianflone, o dono da fábrica, consentiu que eu fosse. 

Acontece que eu vinha de uma escola - eu morava na Mooca já nesse tempo -, e a fábrica era no... Pegado o campo do Corinthians, Tatuapé ou Penha, já. Era [Parque] São Jorge. Eu tinha que entrar pra fazer a pesagem das tintas às seis horas da manhã, então eu levantava às três e meia da madrugada, e minha mãe à uma e meia pra me fazer o almoço pra eu levar na marmita - na escola Dante Alighieri, onde estudou o Ramenzoni, Matarazzo, os filhos do Crespi, toda essa gente da alta sociedade, e eu com marmita. 

Mesmo com chuva, eu andava pra tomar o bonde desde a Rua Coronel Cintra até a Avenida Rangel Pestana - seria uns cinco ou seis quilômetros, então eu levantava cedo, já tomava o café, punha a marmita embaixo do braço e ia trabalhar, pra poder chegar. 

O bonde levava quase uma hora pra ir. Não podia perder o horário, senão atrasava o tingimento das roupas, e eles gostavam de dar dois tingimentos por dia. Então ia das seis da manhã até meio-dia e meio, uma hora, e já punha outro em seguida pra acabar às seis e meia, sete horas da noite, quando então eu voltava pra casa. Cheguei num ponto que era só chegar em casa, dizer boa noite, ir dormir, levantar no dia seguinte e ir trabalhar. E sem ganhar nada, de graça! Estava trabalhando pra ter meu certificado de formado. 

Um dia eu estava trabalhando lá, fazendo filtração de um corante, e o dono chegou. Perguntou pro meu chefe, o químico responsável, quanto eu ganhava. E eu só ouvindo. E eu comecei a tremer. Ele falou: "Ele não ganha nada, ele vem..." "Como não ganha nada? E há quanto tempo está trabalhando?" "Uns seis, sete meses." “Então paga um conto de réis por mês pra ele." 

Olha, eu nem enxergava, porque um conto de réis naquele tempo... Ganhava mais do que o meu pai, que já estava trabalhando há já quase 35, quarenta anos lá na alfaiataria. 

Eu não via a hora de chegar em casa pra dar a notícia porque, modéstia à parte, fui bom filho. E... Cheguei, o primeiro dinheiro que recebi jogava pra cima, parecia que tinha ganhado na loteria. Eu sabia a necessidade que eles tinham. 

 

P/1 - No dia a dia do senhor no lanifício, qual era a sua função?

 

R - Eu chegava de manhã cedo, porque a gente recebia uma ordem de serviço, que era… Por exemplo, tem tantas peças pra tingir de cinza, azul marinho, marrom, então você tinha uma formulação. Azul marinho não é tudo igual, não. Você tem um meio esverdeado, outro meio avermelhado, outro meio amarelado. O químico, só no olhar, ele já sabe a tinta que tem que pôr. 

Então eu chegava cedo pra pesar as tintas, [o] que é de extrema responsabilidade, porque se pesar errado aquilo não vai sair nunca mais na cor. (risos) Tanto que você vê que até hoje em dia, quando uma pessoa vai fazer uma roupa e acaba o tecido, se ele não pegar da mesma peça é muito difícil encontrar exatamente igual. A gente fazia o máximo possível pra se assemelhar à amostra que era mandada. 

Eu pesava, depois os empregados colocavam nas barcas, onde se faz o tingimento das peças. Depois tirava, tinha um processo todo industrial pra secagem e depois pra examinar as peças. Porque o tingimento não é uma questão de meia hora, é de quatro, cinco horas. Eram dez, vinte barcas; cada barca tinha peças de trezentos, quatrocentos metros cada uma. Acabava aquela, os empregados tiravam fora, já vinha outra. Fazia duas por dia. 

 

P/1 - Tinha alguma cor que era mais utilizada? Moda...

 

R - Não. A gente fazia às vezes um tingimento com benzina, acho que era pra tecido de mulher. Era cor-de-rosa, eu achava tão bonito aquilo... Mas casimira de homem era quase sempre marrom, ou azul-marinho, cinza, porque você pode ver que os tecidos dos homens caem sempre naquelas nuances. É difícil de mudar. Mulher tem muita variedade de cores. 

 

P/1 - Quanto tempo o senhor ficou lá?

 

R - Fiquei uns oito ou nove meses. Depois saí e arranjei emprego no Matarazzo, mas aí já estava mesmo numa função mais específica minha, que era químico analítico. E o Matarazzo naquele tempo que eu trabalhei era no Viaduto do Chá, onde parece que hoje é o Banespa. Agora estou há 22 anos em São José dos Campos - não é que esteja na Europa, mas não venho com muita frequência pra cá. Então, parece que agora há o Banespa. 

Nós estávamos no primeiro andar. Ali era o laboratório de análises químicas. Eu analisava tudo o que vinha das fazendas e das fábricas do Matarazzo. Analisava muito caroço de algodão, porque eles faziam muito óleo de caroço de algodão, e a gente via quais eram os lotes, quais eram os teores de óleo, quais tinham mais, menos. Enfim, o processo prático para industrializar. 

 

P/1 - Como o senhor conseguiu emprego nas Indústrias Matarazzo?

 

R - Através de um amigo. Ele tinha se formado comigo e enquanto eu fui fazer o estágio lá no Lanifício Cianflone ele foi fazer estágio numa fundição, mas também não deu certo, e foi pro Matarazzo. Quando encontrei esse amigo, ele me disse que lá estavam precisando de químico: "Vamos lá, vamos conversar." 

Tem uma coisa, os que não são profissionais do ramo não sabem, mas tinturaria e estamparia, pelo menos… Estou falando de quarenta anos atrás. Era terrível, por causa da friagem, da umidade. Tem que andar com uns sapatões bem altos assim, de madeira, por causa da friagem, da umidade; é muito insalubre. Então, quando fui trabalhar na Matarazzo, tinha aventalzinho branco, horário das oito ao meio-dia, das duas às seis, no centro da cidade. Não trabalhava de sábado, era um pão com manteiga. (risos)

 

P/1 - O senhor conheceu o conde Matarazzo?

 

R - Não. Tive várias oportunidades de conhecer, mas meu chefe, quando falava: "Oggi vai vir o conde" - ele era italiano - arrumávamos o laboratório, deixávamos aquilo um espelho, e no tempo que eu trabalhei lá o conde nunca desceu. Nunca vi a cara do homem, nunca. Teria tido o prazer de conhecer, mas não tive oportunidade.

 

P/1 - O senhor chegou a trabalhar na fábrica?

 

R - Não, só no laboratório. Depois do laboratório - agora vou antecipar um pouquinho - um dia, tomando uma cerveja e olhando o rótulo de uma cerveja Antarctica eu vi o endereço da Antarctica, parece que número 274. Peguei e mandei uma carta: "Sou químico, recém-formado, trabalho no Matarazzo. Gostaria de entrar no quadro de empregados de tão conceituada firma, e..." Papo furado, né? 

Depois de um certo tempo fui chamado pra ir lá fazer um teste e fui aprovado. Passei a trabalhar na Antarctica. Mas muito inexperiente, muito jovem, sem conhecimento. Tive uma oportunidade extraordinária lá e não soube aproveitar. E vou explicar porque. 

Quando você trabalhava na Antarctica, você era um chefe de seção. Eu fui designado pra trabalhar na parte de refrigerantes. Naquele tempo a gente fazia guaraná, soda, club-soda, ginger ale e tônica. Hoje a maioria desses produtos não existe mais, só existem dois ou três. 

De acordo com o seu desenvolvimento profissional, você era aproveitado a fazer substituição de férias de fabricantes-chefes, porque a pessoa começava, vamos dizer, tomando conta dessa parte de fabricação de refrigerantes. À medida que a pessoa ia pegando tarimba profissional, ele era nomeado fabricante-chefe. Era o cargo mais alto que tinha _________. Para você ter uma ideia, a Antarctica... Quando eu saí do Matarazzo eu ganhava dois contos e quatrocentos por mês. E fui ganhar cinco contos por mês. Era dinheiro pra ninguém botar defeito. 

Eu fui, aprendi e comecei a substituir férias. E as primeiras que fui substituir era pra ficar um tempão lá no Rio de Janeiro, na Antarctica do Rio. Eram dois ou três fabricante, saía um e eu substituía. Fiquei uns três, quatro meses lá, substituindo férias. Quando eu voltei, me mandaram pra Campinas. Já estranhei muito, porque me acostumei com as mordomias do Rio de Janeiro, porque tinha isso. Pagava tudo. Você tinha hotel, tinha motorista, almoço nos melhores restaurantes, cadeira cativa no Maracanã. A Antarctica patrocinava uns programas no início da carreira artística da Ângela Maria, na rádio Mayrink Veiga do Rio; tinha cadeira de honra da Antarctica, ela que patrocinava. 

Aí eu volto depois das substituições e me mandam pra Campinas. Não é pra desmerecer Campinas, que é uma excelente cidade, mas naquele tempo... Quem vem do Rio de Janeiro - eu morava na Lapa, o coração do Rio naquele tempo. Ir pra Campinas, [onde] quando era nove horas não tinha nada, estava tudo morto... (risos) Mas eu fiquei lá pra substituir as férias de um amigo chamado Cheri - deve estar lá até hoje, talvez aposentado. Substituí as férias, meio chateado, mas cumpri minha obrigação. Quando voltei dessas férias, peguei as férias do ________ depois de ter ficado lá um tempo, um ano. Quando volto das férias, tinha sido mandado definitivo pra Joinville. 

Olha, a situação minha era a seguinte. Não que eu não precisasse de dinheiro. Conheci Joinville há poucos anos, aquilo é uma maravilha, cidade dos príncipes, uma coisa louca. O príncipe de Joinville, né, o fundador da cidade lá, mas eu não sabia. Disse: "Eu não vou de jeito nenhum. Não vou sair de São Paulo, tá louco." Aquilo pra mim, foi uma afronta que me fizeram. 

Filho único, não ia ficar lá sozinho. Tinha que levar meus pais comigo. O meu pai acho que já tinha cerca de 35 anos de firma, e como eu faria ele deixar o emprego pra ficar comigo, que era uma coisa... Afinal, eu estava há um ano na companhia. 

Foi um período de transição, de preocupação, e eu preferi sair do emprego. E fiquei uns três ou quatro meses desempregado. Porque a crise de empregos não é só agora, não, também tinha naquele tempo. Todas as economias que tinha recebido da companhia foram acabando.

Apareceu um anúncio no jornal, que a Johnson precisava de um químico para o seu laboratório de análises. A Johnson era perto de casa -, eu morava na Rua Coronel Cintra, ela era na Avenida do Estado, eram dois quarteirões - e resolvi tentar. Fui fazer os testes e tinha muitos candidatos. Eu me saí bem, mas eles queriam mais farmacêuticos, tanto que na ocasião entraram duas farmacêuticas e eu como o único químico. Isso porque era indústria farmacêutica. 

No mesmo dia que me saiu a Johnson saiu também a Goodyear, mas preferi a Johnson, que era mais perto de casa. Podia ir almoçar em casa, sem carro, tranquilo. 

Nunca pensei que eu fosse ficar trinta anos na companhia. E se fiquei, foi porque gostei. Quando entrei lá tinha 22 anos, por aí.

 

P/1 - E qual era a sua perspectiva de trabalho na ocasião? 

 

R - Olha, sinceramente, a perspectiva em primeiro lugar era a de trabalhar, agarrar o emprego com unhas e dentes, porque eu tinha ficado quatro meses desempregado e sabia a cor de uma saudade. 

Fui trabalhar como analista químico da parte de produtos farmacêuticos, e naquele tempo a produção farmacêutica era do doutor __________, um húngaro, de extrema capacidade; [um] homem que tinha muitos livros, artigos em compêndios médicos, uma pessoa extremamente capaz. Eu estava acostumado num ritmo de serviço… Por exemplo, na Antarctica eu trabalhava das seis às duas, das duas às dez e das dez às seis da madrugada, então não tinha problema de horário, nada.

Um dia, esse homem me chega numa sexta-feira e pergunta se alguém queria ajudá-lo a fazer um produto novo pra enjôo de gravidez, chamado Nitoxidal. Esse fez minha história na empresa. Ninguém se abriu, sábado não trabalhava. E seu Armando... Eu disse: "Olha, eu não conheço, mas posso vir ajudar o senhor." "Muito obrigado, é coisa simples. Amanhã a gente começa às sete horas da manhã e quando for dez horas a gente termina o produto." Fui pra lá, começamos às sete horas da manhã e terminamos quase [às] sete horas da noite. 

Aprendi a fazer o produto. Não era nenhum bicho de sete cabeças, mas era um produto novo, muito caro. Eu me lembro que na ocasião fizemos um quilo do produto e era uma fábula que custava. Encapsulamos aquilo em cápsulas de gelatina, e depois de analisado foi posto à venda - com a garantia de qualidade da Johnson, que todo o mundo conhece. 

Continuei trabalhando no laboratório. Depois de um mês ou dois, me aparece esse homem de novo, dizendo: "Da última vez fizemos um produto novo chamado Nidoxital e teve alguém do laboratório aqui que me ajudou." Pensei: "Sobrou pra mim." "Quem é que foi?" "Fui eu." Na ocasião, me lembro como se fosse hoje, me deu a impressão que tinha saído alguma coisa errada. Ele disse: "O produto foi muito bom, e eu queria que amanhã se fizesse uns cinco quilos. Só que vai vir sozinho amanhã. Você pode vir?" 

Fiz o produto, na segunda-feira foi analisado, aprovado, e a pessoa gostou muito de mim, me achou um sujeito esforçado, trabalhador. De fato, eu não tinha esse negócio de preguiça. 

Depois de uma semana ou dez dias, ele foi falar com o chefe do laboratório. Era um tal de Steeves e disse: "Olha, eu gostaria de ficar com o Armando meio dia na fábrica e meio dia no laboratório.” E eu fiquei trabalhando meio dia com ele na fábrica e meio dia no laboratório, durante uns três ou quatro meses. Ele foi me dando responsabilidades devagarinho: eu fazia as fichas de produção, eu procurava saber as percentagens de perda de um produto, de outro. Começou a me dar umas ideias de como se faz um planejamento de produto, como a gente tinha que lançar, porque a Johnson tinha naquele tempo uns oito ou dez cremes, uns dez ou doze líquidos, tínhamos um número de caixas muito restritos, não é o que é hoje. Então eu fazia por dia, por hora: esse aqui leva duas horas, a gente tem que passar praquele. Pegava as fases do produto, comecei a fazer um tipo de planejamento que ninguém ainda tinha feito. 

Depois de pouco tempo saí do laboratório e fiquei o tempo todo com ele. 

 

P/1 - Retomando, quer dizer que na Johnson o senhor trabalhava mais na fábrica? 

 

R - Na empresa comecei como químico. Quando passei pra fábrica, que já contei a história, o gerente de produção me pediu que ficasse com ele meio dia; fiquei, e depois o dia todo. Aí comecei a trabalhar só na fábrica, não fui mais ao laboratório. Então comecei a fazer as produções, comecei a ficar como encarregado na parte de fabricação de cremes e soluções, e, naquele tempo, na seção farmacêutica se fazia também óleo. 

Depois nós fizemos um outro produto novo ali pra Johnson - tenho um pouco de paternidade nele, o Cremóleo, nem sei se existe hoje. Depois fizemos a Lavanda Johnson, tudo paternidade da gente, os primeiros a fazer. 

Fiquei com a parte de acondicionamento toda, porque as seções não eram todas juntas. Uma era num prédio, onde se faziam pós, comprimidos, os granulados, e no outro se faziam os cremes e soluções, onde eu ficava; e na parte dos granulados ficava o doutor Oscar Bueno, o farmacêutico responsável da companhia _______ , que tragicamente faleceu também, como te contei, numa viagem que a Johnson _______, uma convenção em Serra Negra. Lá ele faleceu, no caminho, numa viagem, um desastre. 

Passando essa página, fiquei tomando conta de todo o acondicionamento da parte de cremes e soluções durante muito tempo. Só bem mais adiante é que, depois eu... Aquilo foi crescendo, crescendo, já estava fugindo dos dedos da gente, aí foi contratado, bem mais adiante, uns oito ou dez anos depois, o Fermino Yamashiro. Com o falecimento do Oscar Bueno, precisava de um farmacêutico, e ele entrou como farmacêutico também da companhia. Passou a ser o gerente geral de todo o setor e o farmacêutico responsável.

 

P/1 - Quando o senhor trabalhava com a fabricação, quem eram os funcionários? Eram linhas de produção?

 

R - Então vou lhe contar uma história. Na parte de comprimidos e granulados, quando o seu Oscar tomava conta, tinha dois funcionários que eu lembro bem: Eurípedes Moya e Arnaldo de Oliveira. E na parte dos cremes e soluções trabalhava Antônio Moya, que vinha a ser um primo desse Eurípedes, e o outro, já falecido, se chamava Zé Pedro, não me lembro o nome dele. Mais tarde contratamos outro funcionário, um tal de Bauru. O José Luiz Ribeiro foi chefe da guarda e depois de muito tempo na Johnson se aposentou lá. Esses eram os funcionários específicos da parte de fabricação. Da parte de acondicionamento, nós tínhamos as linhas de cremes, a encarregada era a Mercedes; na linha de comprimidos, a encarregada era a Olímpia, também já falecida. Olímpia Daniel, Betti; e da parte de óleos a encarregada… Agora me foge o nome, faz mais de trinta anos isso. Trabalhava uma tal de Therezinha, é isso.

 

P/1 - Qual era o horário de entrada na fábrica?

 

R - Entrávamos às sete horas. Ficávamos até [as] onze horas, depois entrávamos ao meio-dia e saíamos às quatro. E sempre tinha serviço. 

O pessoal adorava que tivesse serviço para fazer hora extra e ganhar - isso, o pessoal; nós, os gerentes… Naquele tempo era chefe de seção, que se distinguia dos outros porque usava uma calça azul de brim e camisa branca, então os operários diziam: "Ói, chegaram os camisa-branca." Mas também ficávamos muitas vezes mais tempo. 

Numa ocasião, não me esqueço, numa época de greves, que as fábricas entravam em greve, e a Johnson nunca passou por esse problema. Por quê? Porque tinha uma política extraordinária. Houve um momento, por exemplo, que ninguém queria dar o aumento de trinta por cento, mas a Johnson já tinha dado. Pelo menos vinte. Quando chegava foi decretado trinta, completava com os dez. O pessoal ganhava muito tempo antes, então não tinha esse problema de fazer greve. Tinha pouquíssimo absenteísmo, poucas faltas; em outras palavras, era uma família. Todos se conheciam, todos se queriam bem, era uma família, desde o presidente, superintendente, desde o porteiro, até o presidente. Nós conhecíamos o porteiro, a telefonista, o presidente, era tudo uma coisa só. O camarada que carregava o caminhão...

 

P/2 - O senhor estava dizendo que trabalhava na parte de acondicionamento, que fornecia as embalagens, os vidros...

 

R - Quando comecei na Johnson... Vamos dizer comprimidos, pronto. A gente tinha umas pecinhas que nem um pianinho, uma pecinha redonda, e tinha um funil. Então a gente pegava um pauzinho e colocava os comprimidos lá dentro, que nem feijão. Quantos cabem? Dez. Então, um, dois, dez. Aquela ali pegava o vidro, passava pra outra e numa mesa fixa, parada, a seguinte, colocava o algodãozinho, tampava. A terceira pegava uma máquina de rotular, com cola, passava no rótulo e colava. A quarta, dobrava e colocava a bula, que era um desses serviços que a Gleide fazia, dobrava a bula e enfiava dentro de um cartuchinho. E depois eram feitos pacotes de dez, vinte vidros, conforme a embalagem que era pedida. 

Vou te contar, tem um detalhe: a Gleide pode te dizer quantas vezes eu a fiz desmanchar os pacotes porque os biquinhos não estavam bem feitos. Ela sabe, ela pode te contar essa passagem. 

Então era feita assim a embalagem, tudo manual. Depois é que foi automatizando, precisando de uma esteira. Era uma mesa com uma esteira, não veio já correndo com o motor; depois já andava, era tudo mais automático, mas era ainda meio artesanal. Hoje é tudo automático, tudo com encartuchadeira, tudo. 

O líquido, por exemplo, o óleo, tinha um tanque de vidro colocado em cima de um suporte, um tanque de aço inoxidável. Era ligado a uma mangueira, parece que eu estou vendo, e tinha os biquinhos pra encher. Eram dois biquinhos. Ficava uma moça sentada na frente da outra. A torneira aqui no meio estava fechada. Aqui abria pra um vidro, aqui abria pro outro. Então ela punha o vidro, enchia este. Quando ela enchia este, já virava aquele, colocava outro vidro, e punha este daqui na maquininha pra tampar. Já era mais automático, ________ tudo assim. Depois era do outro lado um por um, esses já eram colocados em caixa de papelão. 

 

P/2 - E o senhor tem ideia da quantidade que era acondicionada por dia?

 

R - Olha, acho que era umas 120, 130 dúzias deles. Os cremes, acho que davam uns três mil, 2.500 tubos por dia, por aí. 

Bom, pra você ter um termo de comparação do que era e do que ficou, uma ocasião, quando eu estava em São José dos Campos, a fábrica quase toda automática, a Johnson fez o lançamento de um produto para resfriado, o Resprin. Como era um produto sazonal, época de inverno, eles pediram se era possível nós fazermos novecentas mil caixas num mês. Reuni meu pessoal, e disse: "Nós vamos fazer isso aqui num mutirão, como se fosse corrida de Fórmula Um." Quando o sujeito da Fórmula Um para pra trocar um pneu, quatro trocam correndo. Então, não vamos perder tempo. Combinei com o chefe da mecânica e ele me pôs um mecânico das seis às duas, um das duas às dez e um das dez às seis da manhã, porque era só fazendo desse jeito que dava. Qualquer peça que encrencava já tinha uma pessoa pra trocar, pra fazer. 

Quando chegou no final, vieram perguntar quantas caixas tinha. Só que fizemos um milhão e cinquenta mil caixas. Não sabiam o que fazer. Fizeram um churrasco pra todo mundo e contaram a história pra todo o pessoal da farmacêutica. Até hoje essa passagem é comentada lá. E foi tudo mais ou menos meio na mão. Não era como hoje, que tem encartuchadeira. 

 

P/2 - Se era bem manual, quem ditava o ritmo da produção?

 

R - O ritmo da produção era mais ou menos o seguinte. Nós fizemos, foi feito por uma indústria, por uma firma, se não me engano o nome era ______, porque é na prática que a gente __________, né? Nós começamos a ver quanto dava por hora de cada produto. Por exemplo, o caso de um envelopamento, produto envelopado. Se cada uma pegar um cartucho, abrir, colocar ou envelopar, coladura, fechar, no final do dia vai ter uma certa percentagem de rendimento. Então estamos bolando... Uma só armava o cartucho, a outra só colocava o envelope e a outra só fechava. Então a produção triplicou. 

O que ditava era por hora. No final do dia tinha que saber quanto dava. Se não dava - podia ser que não desse - é que alguma coisa encrencou. Ou o fator comprimido, ou encrencou uma esteira, algum problema tinha pra justificar o tempo que estava parada. Então começaram a ser ditadas normas de produção. 

 

P/2 - Quais os cuidados que se tinha quanto a higiene?

 

R - Bom, produto farmacêutico a gente costuma dizer que é muito diferente que o da fábrica de botão. Pelo seguinte: se o botão não sair perfeito, na hora que você vai pregar o caseado não vai dar certo e o que vai acontecer? O botão vai ficar fraco e vai cair. Remédio, tomou, é perigoso, se não estiver bom... Então a Johnson sempre primou, desde que entrei na empresa, pela qualidade. 

Quando uma matéria-prima chegava, trazia uma especificação. Tem tanto disso, daquilo, daquele outro e não passava pela análise para ver se realmente era aquilo que estava marcado quando o produto chegava. Só estando dentro daquelas especificações era que o produto era liberado para fabricação. E depois do produto pronto, também tinha outra especificação: tem que ter tanto disso, tanto daquilo, se não tivesse, era jogado fora. Mas como a gente já recebia a segurança de uma matéria-prima perfeita, a gente tomava todos os cuidados na fabricação. Vou ser muito sincero, nesses últimos trinta anos nunca me lembro de ter jogado nada fora. 

 

P/2 - O senhor disse que os sais vinham com qualidade. Eles eram fornecidos por quem?

 

R - Muita coisa importada dos Estados Unidos, e produtos até da China. Se não me engano, a cânfora vinha de lá. E alguma coisa local já trazia uma certa segurança da qualidade do produto em si, da matéria-prima. E depois ________ as normas com todo o rigor, ______ o produto terminado, estivesse todo dentro da ______

.

P/1 - Em termos de roupas dos operários...

 

R - Todo mundo usava uniforme. A fábrica sempre deu uniforme, a camisa e a calça. E pras moças também o gorro, pra indicar... Porque é um fato muito desagradável abrir um vidro de remédio e encontrar um cabelo dentro. Tomava-se todos os cuidados, tudo muito bem protegido: na cabeça os gorros, e os aventais pras moças. Hoje em dia se fornece tudo, até sapatos. É que no meu tempo, quando começamos, eram os aventais, e pros homens era calça e camisa. E chapéu na fabricação - chapéu não, aquele gorro, né? 

 

P/2 - O senhor estava dizendo que a Johnson zela pela qualidade do produto. E a qualidade de trabalho dos funcionários, para evitar acidentes...

 

R - A Johnson sempre se preocupou também com a segurança dos funcionários, tanto que sempre teve uma comissão interna de prevenção de acidentes. Chamava-se CIPA. E essa CIPA sempre também trabalhou com o objetivo de… Por exemplo, você tinha que fazer uma meta de duas mil horas sem acidentes. Então você tomava todos os cuidados, luvas, proteção muscular, _______, tudo aquilo que precisava pra não sofrer acidente. Máscaras contra pó etc. 

Se você passasse mais de duas mil horas sem acidentes, distribuíam prêmios pro pessoal daquela seção. Então tinha aquela rivalidade, no bom sentido, pra que cada um tivesse menos acidentes. 

Era isso que se conseguia e então havia a satisfação do pessoal que, claro, via que trabalhava numa firma que se preocupava com a segurança de cada um. Todos os produtos de segurança, desde o sapato, desde a ponta do pé até a ponta da cabeça, tudo da melhor qualidade, pra que o funcionário não tivesse o menor risco de acidente. Com isso você conseguia menos faltas, menos _______, mais horas trabalhadas e com muito maior produtividade. Então todo mundo ouvia: "Olha, é melhor botar isso, usar aquilo", ajudavam. E qual o objetivo? Principalmente no meu setor, eu vou ser franco, eu nunca quis impor nada. Eu sempre aceitei sugestões e digo, muitas e muitas vezes me dei bem com sugestões daquele pessoal que estava ligado lá, que tinha pouca escolaridade, mas tinha muita vivência. Aprendi muito com eles, não só para ensinar. Aprendi bastante com eles. 

 

P/1 - O senhor lembra de algumas dessas sugestões?

 

R - Eu lembro. Teve em São José uma que até ficou gravada pra mim, isso já num tempo mais moderno, mais automatizado. Nós fazíamos Rarical drágeas, que até hoje é um produto industrializado pela Johnson, e já era passado numa encartuchadeira automática. Acontece que quando os vidros passavam pela encartuchadeira final, já no empacotamento, se por qualquer motivo deixasse de cair um vidro na linha, aquele cartucho ia sair vazio, sem o vidro; a moça, como pegava oito, dez vidros por vez, não sentia se estava vazio ou não e colocava na caixa. E aí, como vamos fazer para evitar que isso aconteça? Porque podia acontecer a qualquer momento. Tinha uma moça chamada Márcia que disse: "Olha, tenho uma sugestão pro senhor. E se pôr um biquinho de ar aqui? A gente regula, pouquinho ar; se não tiver nada no cartucho ele pula fora, e se estiver com vidro não acontece nada." Pronto, resolveu o problema. Nos Estados Unidos eles tinham feito máquinas e aqui na Johnson, com jeito brasileiro, resolvemos o problema e deve estar funcionando até hoje. Pra dizer a verdade não sei, porque já faz doze anos que saí da _______. 

Foi uma sugestão da moça, e muitas outras sugestões me deram. Tinha até concurso de sugestões. Quem dava mais sugestões tinha até prêmios.

 

P/2 - Quais eram os prêmios? O senhor falou que tinha prêmios pela produção, também?

 

R - Não eram grandes prêmios. Era uma agenda, um jogo de canetas, não lembro. Mas eram coisas assim, baratas. Não era pelo prêmio em si, mas pelo orgulho que a pessoa ganhava um prêmio, um presente da companhia por ter dado uma sugestão. Agora não sei se isto ainda funciona ou se o prêmio é em dinheiro. Pra dizer a verdade, nem me recordo se no final já era em dinheiro.

 

P/2 - Diga-me uma coisa, senhor Armando: alguns remédios são embalados em vidros, comprimidos e outros em caixa. Tem uma razão específica pra ser envelopados os comprimidos, ou ir pra vidro?

 

R - Olha, eu não vejo outra coisa a não ser... Bom, de uma maneira geral, a parte econômica. [Em] primeiro lugar você vai, está tomando algum remédio. Você anda com um baita vidrão no bolso, fica meio chato. Você pega um envelopadozinho pequenininho, você pode pôr na bolsa, no bolso. Não atrapalha. Então, eu acho que além da comodidade, também [tem] a parte econômica, porque a matéria-prima, o vidro, também é muito cara. 

Hoje já há o PVC, essas embalagens modernas são mais baratas. Isso também facilita um pouco. Tem muito a parte de... Agora existem, por exemplo, ________________, PVC especial. Tem produtos que não podem ficar com PVC, ou naquele tempo com vidro transparente, porque a própria luz solar pode alterar o produto, então é feito no vidro âmbar. Tudo tem uma razão de ser: um vidro âmbar, outro em branco, isso é muito importante. Mas hoje inclusive acho que nem vidro tem mais; é tudo PVC, tudo atóxico, não tem problema de ter toxicidade, ________, __________.

 

P/1 - Que produtos o senhor se lembra, de remédios? 

 

R - [Quando] eu entrei na Johnson era o tempo de amarrar cachorro com linguiça. Na Johnson, naquele tempo, nós fazíamos… Um chamava Calmonerv, não, Calmonerv era comprimido. Chamava Calmonerv, pra calma... (risos) ______ pó, era uma parte de fosfato de cálcio e... Era Kalyamon granulado, era à base de cálcio; era fortificante pros ossos, pros dentes, inclusive pra criançada. 

Nós fazíamos um remédio pro fígado que era uma drágea granulada, um granulado drageado, um negócio que hoje não existe mais, chamava Sulfatone. Na parte de comprimidos a gente usava o Hydrax, comprimido - Hydrax, hoje, é solução. Na parte de geleias anticoncepcionais, a gente fazia Jonconol, creme Gentersal, fazíamos Vagi-Sulfa, Aci-Gel, todos produtos de antigamente. E tinha a parte de injetáveis também que a gente fazia. Glicose, umas ampolas de glicose que vinha com 150% _____________, ____________ , Inoval, um produto que ______ minha história ________.

 

P/1 - O senhor ficou no laboratório e na fábrica?

 

R - Fiquei pouco tempo no laboratório, praticamente só na fábrica. Só no último ano que passei pra gerente de treinamento industrial. Dava treinamento pela prática, pela vivência que a gente tinha. Mas a maior parte da minha vida foi na fábrica e na parte de acondicionamento. 

 

P/1 - O senhor continua morando na Mooca, e o senhor conversou lá fora com a gente que praticamente a casa do senhor era agência de emprego. Por quê?

 

R - Era, era. Porque tem uma moça que deve ter dado uma entrevista, e essa moça, ela... Eloísa Armani, essa moça era minha vizinha e ela pediu emprego. [Eu] batia na porta do seu Armando, do Departamento Pessoal [e] ele sempre dizia que não tinha emprego _______ . E eu já sabia se na minha seção tinha, e já deixava avisado no dia seguinte com a moça do departamento que ia aparecer uma pessoa assim e assim. 

Foram muitas moças que vinham pedir. Às vezes não podia arrumar porque não tinha vaga, aquilo não era da gente. Mas com isso fomos formando uma equipe de amigos, família, então eu sempre sabia o problema da mãe daquele, do outro, do pai daquele; éramos uma família. Éramos respeitados, tudo no seu devido lugar, mas ao mesmo tempo a gente tinha muita amizade. Então se costumava dizer - os mais antigos é que podem dizer -, a Johnson era uma família. Foi daí que veio esse slogan. Era uma família, mesmo. 

 

P/1 - Fim de semana costumava ter alguma atividade de lazer entre os funcionários? 

 

R - Bom, lá tinha um clube de futebol. A Johnson foi campeã em 59 e 61, campeã do Estado. Tinha jogadores excelentes, equipes, que depois chegaram a ser até profissionais; uns jogaram no Corinthians, outros no Juventus, e aos sábados à tarde era o quente do pessoal da Johnson ir assistir os jogos de futebol. 

A outra parte do clube não era grande como é hoje. Hoje é tudo maravilhoso, né? Não tinha, era mais a parte de futebol. E uma vez ou outra a gente fazia um jogo casado e solteiro, veterano e moço, viúvo e não sei que lá, desquitado; era uma vez por ano que a gente fazia essas brincadeiras. Mas não era uma coisa... Normal, de rotina. De rotina era o clube de futebol mesmo, que a gente tinha e que disputava o campeonato amador.

 

P/1 - Voltando um pouco pra fábrica. O senhor viveu a transição da fábrica da Avenida do Estado pra São José. Como começou esse processo, o senhor se recorda?

 

R - Bom, esse processo começou... Quando entrei em 54, já em 55, o falecido presidente da empresa, senhor André ____ fez um convite pra que os empregados, encarregados, ______ fossem a uma reunião que ele ia convocar. Nós fomos assistir a essa reunião, e ele nos participou que havia comprado um terreno na Via Presidente Dutra, onde seriam as futuras instalações da Johnson. E ele nos aconselhou que todos aqueles que trabalhassem e que estivessem interessados em ir pra São José fossem dar uma voltinha em São José, vissem uma propriedade, um terreninho. 

Eu, sinceramente, não tenho vergonha nenhuma em dizer que quando ele falou isso, eu saí da reunião e disse: “Vai acabar a minha carreira aqui. Eu não tinha ido pra Joinville pra não sair de São Paulo, e eu não vou agora pra São José.” E nunca me interessou. 

Depois de alguns anos, construiu-se a fiação/tecelagem lá. Ali começou, e depois aos pouquinhos, período, parada, foram construindo as outras seções, até que em 1972 a parte _______ ficou pronta. Nessa altura do campeonato eu resolvi... Faltavam-me nove anos pra aposentadoria, falei: "Eu vou terminar minha vida profissional aqui na Johnson. Já estou acostumado, me dou bem, nem todos foram convidados. Já me senti lisonjeado por ter sido convidado de ir pra lá.” 

Fui pra ficar pouco tempo. E no fim fiquei, passei os nove anos e mais anos - agora já são 22 anos de São José. Não voltei mais. 

Foi um período muito difícil, de treino. Tivemos que pegar muitas moças. Quando foi na época mesmo da mudança, pegamos muitas moças de São José e levamos pra São Paulo. Elas ficavam em pensões, pagava-se pra elas pra elas irem começando a aprender a fazer o mesmo trabalho que aquelas de São Paulo iam fazer. Não interessava pra empresa locomover todo esse pessoal que não era muito especializado pra São José, [era] uma mão-de-obra cara, então nós resolvemos treinar o pessoal de São José. 

Foi assim que começou. Mas esse período foi dificílimo, porque pegar uma fábrica, tirar de um lugar e pôr no outro, tudo gente diferente, não é mole, não.

 

P/2 - Quais foram as maiores dificuldades encontradas?

 

R - Ah... Era tudo estranho. Começo de construção, a fábrica, tinha que limpar tudo, instalar máquinas… Ah, meu Deus do céu! E não podia parar a produção, porque havia uma demanda no mercado; o pessoal comprava, não quer saber, a Johnson tá mudando, então não vai ter Rarical na praça. Tem que ter. Então antes de nós mudarmos fizemos um estoque razoável. Porque tudo... Até você assentar uma máquina, até você acertar, demanda tempo. E isso deu muita dificuldade. Gente nova, maquinário todo mudado. De lá pra cá, algumas coisas eram novas, mas a maioria veio de lá pra cá, então tinha que fazer um cronograma de mudança muito bem enfileirado. A parte de fabricação, por exemplo, de cremes. O que vai primeiro? A linha de acondicionamento ou vai a parte de fabricação? Então _______, _______, isto tudo pra instalar. Coisa que leva uma equipe especializada de mecânicos, de eletricistas, os engenheiros da companhia trabalhando. O local vai ser este, tudo muito bem, mas deu muito trabalho, muita mão de obra.

 

P/1 - Quando a Divisão Farmacêutica realmente se instala?

 

R - 72. Eu mudei [no] dia três de julho de 72. Não fiz nenhuma viagem de carro pra cima e pra baixo, como muita gente ficou viajando um ano. Mudei no dia dois, [no] dia três fui trabalhar. Comecei numa cidade nova, tudo novo;, não conhecia bulhufas, não conhecia ninguém. Assim mudei pra São José, tocando o barco desse jeito.

 

P/2 - Como São José recebeu a fábrica?

 

R - Olha, só podia receber de braços abertos. Tinha mais um lugar pra trabalhar, mais um campo de trabalho pro pessoal de São José, então não teve muito problema. Outra coisa, não que eu queira desmerecer o pessoal de São Paulo, mas a escolaridade do pessoal de lá era muito maior. Não sei se era... Sabe o que acontece? Não tinha muito emprego e todo o mundo estudava... Então, peguei na linha de produção um monte de professores. 

São Paulo não tinha nada disso. Lá tinha professoras pra dar com um pau na linha de... Tinha uma coisa, eram pessoas que tinham mais condições de aprender, então se adaptavam mais fácil. Mesmo assim, teve muita gente que não se adaptou com o tipo de trabalho, porque nem sempre uma pessoa que é formada recebe assim certos _______ com facilidade. Mas aproveitamos muita gente boa. 

Foi um pouco difícil no início. Tudo é difícil, nunca tinham visto um produto farmacêutico. Tinha que orientar o que é um produto farmacêutico, mostrar aquilo que você vai tomar, correr diretamente no sangue, injetáveis, cremes, soluções, tinha que explicar que é diferente daquilo que talvez trabalhassem, distribuir normas de segurança, noções de higiene...

 

P/2 - Com a mudança, quais foram as metas de produção? Houve novas metas?

 

R - No começo, foi criada a meta de cada uma pegar prática e aprender, a gente não podia baixar a produção. Por isso foi difícil você querer exigir de uma pessoa que não tem prática a mesma produção de uma que já está com anos de prática, é diferente. 

Evidentemente que na Johnson nós sempre tivemos objetivos e metas. Se no primeiro mês vendeu três mil, no segundo tem que vender um pouquinho mais. Mas também nunca fui de tirar o couro de ninguém, fazia o que era possível. Por isso tenho muita propriedade de dizer que fui sempre muito apreciado pelo meu pessoal; tô falando porque tenho recebido muitos sinais de apreço em todo o lugar que eu vou e encontro aquelas pessoas. Graças a Deus, nunca desviei os objetivos da companhia, não, mas uma coisa humana, possível, racional. 

 

P/1 - O senhor citou os primeiros produtos que tinha, né? E quais são os lançamentos, lembra do Novulon, coisas que revolucionaram o mercado? 

 

R - Bom, Novulon acho que já foi ____________, __________. Depois lançamos uma série de novos produtos na mesma linha: Micronor, __________, era Novulon de dois miligramas, depois Novulon de meia miligrama. Começaram a fazer uns estudos, começaram a ver que não tinha necessidade de pôr tanta matéria-prima ativa, que não tinha necessidade, não ia fazer bem, então foi se estudando fórmulas que davam os mesmos resultados com matérias-primas muito menos ativas. Evidentemente que estavam sendo usadas quantidades até desnecessárias. E foram feitos novos produtos que tinham matéria-prima ativa, outros já não precisavam, tinham ___________ 

Quem vai poder falar muito vai ser o _________, ___________. 

 

P/2 - E o senhor lembra qual a reação do público consumidor?

R - Pra dizer a verdade a você, essa parte não posso te dizer, porque eu estava muito ligado à parte de produção e a parte comercial não era bem a minha. Não acompanhei muito essa parte. A gente assistia palestra, inclusive informações de gerentes de venda, que estava uma maravilha, mas acompanhar com o público, não tive essa oportunidade. Quando você fica numa área de produção, você fica confinado, restrito, e pronto.

 

P/2 - Como é essa questão, por exemplo, da área de produção? A Johnson promovia cursos nessa área, dava condições para o pessoal dessa área também ter informações? Como a empresa trabalhava nessa área, tinha cursos pra isso? 

 

R - Estava contando pra vocês que o último ano meu foi de gerente de treinamento. E nós tínhamos oportunidade de mostrar, por exemplo, máquinas modernas, como funcionam: “Esse tal laboratório faz desse jeito, nós fazemos assim.” 

Nós visitávamos muitos laboratórios, então você faz uma visita, às vezes passa um dia inteiro numa fábrica e não aproveita nada daquilo. Você tá bem melhor do que o outro mas, talvez na saída, num passeio de ônibus você vê uma coisa. “Opa, vamos produzir isso aqui na Johnson.” 

Modéstia à parte, de uma maneira geral a Johnson dá de cátedra pra todo mundo, mas nas visitas que fizemos, sempre alguma coisa se aproveitou. 

 

P/1 - O que, por exemplo? 

 

R - Uma máquina que tinha um sistema tal, que eliminava uma pessoa, ou que rendia muito mais. Coisas que às vezes uma pessoa fica um dia inteiro, um ano inteiro num lugar, e vai ficando meio... Fechado. Então você tem necessidade de ter novos contatos, novos conhecimentos, pra você aprimorar suas técnicas. E nós fazemos muito isso, não só em São Paulo como lá em São José. _________, visitei a _____________, visitei uma série de laboratórios - sempre há um intercâmbio, né? Não existe nada de segredo, é uma coisa profissional que...

 

P/1 - Como era a relação da produção Divisão Farmacêutica em relação à Johnson do Brasil?

 

R - Muito bem, você tocou no ponto. Quando estávamos em São Paulo, no começo da minha vida profissional na Johnson, estava no acondicionamento, onde se embalava produtos farmacêuticos. Mais pra frente tinha esparadrapo, mais pra frente tinha escova Tek, mais pra frente talco Johnson, mais pra frente tinha as fraldas, o Band-Aid, era tudo num salão só. Somente a parte que era meio isolada era a de produção de injetáveis, que tinha que tomar um certo cuidado, e a parte dos comprimidos. A parte de acondicionamento era tudo lá. Então eu tomava conta de vinte metros quadrados, o chefe de seção de outros quinze metros, e a gente estava ali em contato diário ______, _______. 

Depois, na Johnson mesmo, a fiação e tecelagem mudaram. Mudando a fiação e tecelagem, nós mudamos a nossa parte de fabricação toda pro segundo andar daquele prédio, se separou do resto da fábrica. Ficamos nessa vida uns... [Um] par de anos. Até que viemos pra São José, mas quer dizer que no início era tudo uma coisa só, tinha contato com todo o pessoal. Então eu conhecia a moça que trabalhava no talco... Todo mundo. Era gostoso, era uma prolongação da casa da gente. Quando eu morava pertinho, umas duas travessas donde eu trabalhava, a maioria das vezes não ia almoçar em casa pra ficar lá junto com os amigos, tudo isso. E tinha tempo pra ir, porque era pertinho.

 

P/2 - Mas quando vocês foram pra São José, acabaram se separando. 

 

R - Completamente. Cada produto, praticamente, é uma fábrica. Farmacêutica era na Farmacêutica, Modess era no Modess, e assim por diante. Cada um num prédio. 

 

P/1 - O senhor lembra de algum tipo de relação que se fazia entre a Johnson do Brasil e a Mundial?

 

R - Lá em São Paulo não tinha esse tipo de contato. Mas agora, em São José, se sentia mais. Em primeiro lugar, acredito que no tempo de São Paulo, os interessados, ou os gerentes gerais dos Estados Unidos - aquilo é dividido por setor, um da América do Sul, não sei o que - eles deveriam vir na Johnson, mas não conheci, essa que é a verdade. Quando foi separado, em São José dos Campos, a gente já tinha mais conhecimento específico da pessoa que era o gerentão geral, ___________ que vinha nos visitar, vinha fazer as cobranças. Então ficamos conhecendo melhor. Pessoas que vinham dos Estados Unidos, que manobravam aqui a parte comercial.

 

P/2 - E em nível de produção? Foi colocado pra nós uma comparação da produção da Farmacêutica da Johnson no Brasil com as Johnson do resto do mundo.

 

R - Olha, a gente tinha... De vez em quando, passavam alguns filmes mostrando. E naquele tempo ficávamos até orgulhosos, porque ________________ Brasil. Porque nós, os brasileiros, tínhamos que nos sentir até envaidecidos, viu? Não tenho esses dados financeiros que me permitam dizer com segurança, mas me parece que a segunda Johnson do mundo é no Brasil. Um país extremamente industrializado, com uma tecnologia avançadíssima como os Estados Unidos… Nós não estarmos tão mal assim [é] porque tem alguma condição.

 

P/2 - Durante esse período em que o senhor trabalhou na Johnson teve algum produto farmacêutico que foi apenas lançado no Brasil?

 

R - Quando eu estava já em São Paulo, me parece que teve um produto ou dois. Não tenho muita certeza, mas me parece que o Enterocim foi um, e o Hydrax foi outro. Eram particularmente nacionais. Tecnologia nacional, só aqui. Depois não sei se foram criados em outros países no mundo onde a Johnson tem fábrica, mas parece que os pais foram aqui. Inclusive me sinto um pouco pai, porque fui um dos primeiros a fazer um pouco de pesquisa desse produto, com a dona Eva ______, uma farmacêutica húngara que trabalhava na parte de pesquisas na Johnson.

 

P/2 - Como eram feitas essas pesquisas?

 

R - Ela entrava em contato com médicos, com hospitais e com esse pessoal de vendas. __________ de extrema capacidade, e eles sabiam quais eram as necessidades dos hospitais, as doenças endêmicas, então andavam por aí e sugeriam um produto desse tipo, então ajudavam... Esses produtos me parece que foram criados aqui, inteiramente nacionais. Foram Armando Macias e Eva ______. (risos)

 

P/1 - Desde o início da Johnson seu credo inclui uma série de coisas. Como fica isso pros funcionários, pro senhor? O que o credo fala?

 

R - Bom, é o seguinte... 

 

(PAUSA) 

 

R - O Nosso Credo, por exemplo, era a nossa Carta Magna. ______ tudo o que fazia, era em função do credo. Dentro daqueles itens, a gente procurava seguir o credo, a direção da companhia também procurava e nos davam condições de seguir o credo. 

 

P/1 - Falando mais um pouco da vida pessoal do senhor, fale um pouco do casamento...

 

R - Ah, eu sou uma pessoa muito feliz, graças a Deus. Tenho uma esposa muito boa, que talvez eu não mereça; me deu duas filhas que já me deram quatro netos. Nós vivemos ali, naquele "papa", "mamma" - as filhas, os netos, os genros, que são excelentes. Eu costumo sempre dizer que Deus me deu mais do que aquilo que eu mereço, sabe? Está sendo muito generoso comigo.

 

P/1 - Como é que se chama sua esposa?

 

R - Minha esposa chama-se Wilma Vittali Macias. A minha filha mais velha se chama Maria Angélica e a mais nova, Mônica. Maria Angélica tem um casal de filhos, a Mariana, e o Juninho, e a Mônica tem duas meninas: a mais velha, Juliana, e a mais nova, Larissa. O marido da mais velha, é engenheiro civil, Antônio ______ Dias, e o da mais nova engenheiro eletrônico, ficou muito tempo trabalhando no (Mipe?), e hoje trabalha por conta dele numa firma, vai indo muito bem. Chama-se Alexandre __________, é jundiaiense e o outro é mineiro. 

 

P/2 - Com a sua aposentadoria, o que mais faz falta em relação ao trabalho? 

 

R - Eu sempre enchi muito o meu tempo, a verdade é essa. Porque uma pessoa que se aposenta, com a atividade profissional que eu tinha...Teve uma época que tomei conta de 480 pessoas e de repente você entra na aposentadoria, passa a ser um ilustre desconhecido, então você fica muito frustrado.

Procuro preencher meu tempo praticando um pouco de esporte de manhã, à tarde jogo minha bocha - sou sócio de um clube lá de São José, o Clube Luso-Brasileiro, um clube extraordinário. Gostaria de recebê-las lá, vocês têm que ver o que é um clube. Duvido que em São Paulo tenha outro igual. Disputei até o Campeonato Paulista de Bocha, de aposentados.

 

P/1 - Com quem o senhor joga bocha?

 

R - Nós temos um grupo muito grande, mas especialmente temos quatro pessoas da Johnson. Um chama-se Luiz  ______, trabalhou no ______ Tecelagem, 34 anos. O outro, Manuel Brito, foi supervisor da área de Atadura Engessada, trabalhou 37 anos. O outro, Nelson Veronesi, trabalhou na Tecelagem e tem 29 anos de Johnson. E eu. E às vezes tem um... Uns torcedores lá, esporadicamente, também da Johnson. Assim a gente passa ali, naquele grupinho… Tem também amigos de fora, mas com aquela base ainda da Johnson. Não ficou uma coisa totalmente longe da Johnson. 

Eu costumo passar na Johnson, quando passo de carro, e solto beijinhos. Sabe por quê? Porque foi ali que passei grande parte da minha vida, onde fiz grandes amigos. Não é puxa-saquismo porque não ganho mais nada com isso, graças a Deus estou aposentado agora, né? Mas é uma firma que deixa saudades. 

P/2 - E como foi esse desligamento da Johnson? O senhor fez uma comparação, na entrevista, que a empresa que seu pai trabalhou não soube reconhecer. Como é que o senhor viu a atitude da Johnson no seu desligamento? 

 

R - Bom, eu me desliguei da seguinte forma. Eu achei que já tava na hora de me aposentar, talvez um pouco prematuro, porque a verdade é essa. O próprio presidente da Johnson naquele tempo, Ian _______, tentou evitar a minha aposentadoria, porque houve muitos "pacotes" na Johnson, muita gente foi desligada. 

Eu pedi pra ser desligado. Ele achava que eu era muito moço e tinha razão. Eu estava cansado daquela vida de... É que eu sempre fui muito cumpridor das minhas obrigações. Era pra estar às oito horas, eu estava às oito horas lá. Era pra sair às cinco; eu não saía às cinco, saía às sete da noite. Então, eu era cumpridor das obrigações. 

Lembrei de um fato que vou contar pra vocês, pra ilustrar como eu era pontual. Uma vez fui chamado pra uma reunião com o meu chefe, em São José. Todos os gerentes; fomos lá. Peguei minha agenda, minha canetinha, pra tomar notas das últimas novidades, e meu chefe chamou - ele está na Johnson ainda, Armando ______ - quero muito bem, é irmão pra mim: "Queria falar com vocês o seguinte. [Pra] todo o mundo aqui o horário é oito horas. Um chega às oito e meia, outro chega às nove horas, e isso aqui vai acabar." Eu muito civilmente, me levantei, peguei a agenda e fui saindo da reunião. "Onde você vai?" Falei:  "Vou-me embora, vim na reunião errada, não é pra mim essa reunião. (risos) Eu costumo chegar [às] quinze pras oito e você vem fazer uma reunião me convocando por causa de horário? Ah, me dá nos nervos até de pensar agora." (risos) "Não, eu te chamei porque você é um exemplo pro pessoal." "Ahhh... Bom, então agora eu volto pra reunião." (risos) 

Essa foi uma passagem que eu não esqueço, porque não podia aceitar estar num lugar que eu nunca tinha cometido esse tipo... Não fazia, não fazia. (risos) Era isso que você queria ouvir?

 

P/2 - Não, eu queria o desligamento. O senhor...

 

R - Ah, então isso. Saí da companhia, me aposentei, na realidade, em 81. Fiquei trabalhando até 83 e falei: "Agora chega mesmo, de uma vez por todas. E basta." Quando cheguei em casa e pus o carro no estacionamento, chorei. Chorei amargamente. Mas não sem motivo, porque não sabia o que ia encontrar. Será que vou me adaptar nessa vida de não fazer nada? 

Mas não fico totalmente sem fazer nada. Hoje, por exemplo, o meu apelido em casa é "Jaque." Sabe por quê? "Já que está aqui faz isso. Já que está ali faz aquilo outro.” (risos) Então num paro um minuto, tô sempre fazendo, levando as filhas pra um lado, os netos pro outro; um na natação, outro na escola, vai levar os netos pra um lado, outro na escola de computação, a filha que vai pra cidade, e é assim. “O papa tem um quepe na cabeça e vai de motorista.” (risos) 

Isso preenche o meu tempo, mas sinto falta de uma produtividade, de produzir alguma coisa. Sinceramente, eu sinto falta porque procurei ser tão útil a vida inteira e agora você fica numa situação de... Eu não diria de inutilidade, é muito pesado, de não tanta atuação, como era no passado. Então você fica meio frustrado, sabe?

Independente disso, um detalhe que pra uns pesa mais que pra outros, financeiramente o padrão caiu. Todo aposentado enfrenta esse problema. Então tudo isso, independente de dinheiro, é encher o tempo de uma maneira mais produtiva, mais útil pra sociedade. E hoje nem pode se pensar nisso, porque hoje um moço de quarenta anos não tem emprego, imagine eu, de sessenta Não vai ter condições. 

Não sei se respondi sua pergunta.

 

P/1 - Pra gente ir caminhando pro final da entrevista, queria perguntar se o senhor mudaria alguma coisa na sua vida. E o que seria? 

 

R - Acho que mudaria. Não vou começar agora com papagaiada de dizer não, Johnson... Eu ia ser artista de teatro. Eu me adaptei muito bem, eu só não segui porque no meu tempo, é verdade, eu lutava com dificuldade. Os meus pais tinham aquela mentalidade de funcionário público e artista de rádio na casa deles não comia. Mas eu fiquei muito frustrado com isso, porque eu tinha muita tendência. 

Eu não sei se é o signo, não boto muita fé nisso, mas é... Pessoalmente, eu achava que tinha condições de poder fazer um trabalho bonito nesse sentido. Não um galã, nada disso, mas _______ pra trabalhar. Quer dizer, talvez uma queda profunda. Não sei, talvez eu fosse ser um artista - modesto, muito modesto. 

 

P/1 - E qual o sonho que o senhor ainda quer realizar? 

 

R - Queria ver meus netos grandes, formados; me faria muito gosto ver um deles médico. Gostaria. Sei que é uma profissão terrível, o sujeito sofre a vida inteira, mas não sei, é um sonho que eu tenho. 

Quero ver os meus bem, todos. Eles estão criados, mas têm muita coisa pela frente. Tenho um pouco de medo do mundo de hoje, me deixa um pouco apavorado.

 

P/1 - E para terminar, a última pergunta é: o que o senhor achou de ter passado essa hora com a gente? 

 

R - Muito agradável. Não pensei que fosse assim. Eu estava na minha casa e pensei: eles não vão querer saber nada de mim, porque o que tenho eu pra dizer pro pessoal? Mas eu fiquei muito satisfeito, tive muito prazer de estar com vocês e espero que vocês terminem esta entrevista do jeito que vocês _____. 

Se precisarem de qualquer coisa, estou à inteira disposição pra vocês, pra arrematar alguma coisa que tenha escapado, e para concluir, se por acaso não foi bem concluída. 

 

P/2 - A experiência de o senhor ter contado a história, de ter feito essa linearidade da sua vida, como foi isso? 

 

R - Muito gratificante. 

Quando eu iniciei a entrevista eu pensei que em dois minutos ia se concluir. Nesta semana _______ que o artista principal que era um professor. Ele se preparou para dar a primeira aula, que foi uma coisa de louco. Quando ele entrou na escola, ele viu a sala, voltou; foi beber um pouco de água no bebedouro, não tinha coragem de entrar. Quando ele entrou - era das oito às nove a aula - ele falou e falou. 

"Bom, por hoje é só." Quando ele ia saindo, um aluno perguntou: "Professor, o senhor já acabou a aula? São oito e cinco." Ele falou: "Ou eu falei tudo de uma vez, ou me preparei muito mal pra essa aula. Pra próxima me preparo melhor." 

Eu, quando cheguei aqui, pensei que ia dar uma entrevista de cinco minutos. No entanto, acho que até nos prolongamos um pouco demais. De qualquer maneira, agradeço a vocês a atenção, a delicadeza e até uma próxima vez, se Deus quiser. 

 

P/2 - Obrigada. 


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