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História

Vagner Castilho Silveira

História de: Vagner Castilho Silveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/05/2004

História completa



Identificação
Museu da Pessoa- Para começar, eu gostaria que você dissesse seu nome completo, data e local de nascimento. Vagner - Vagner Castilho Silveira, 23 de outubro de 1955 em São Paulo, capital. M

P - A tua família é de São Paulo mesmo? Vagner - A minha família toda é de São Paulo. M

P - Tanto por parte de mãe como por parte de pai? Vagner - Exato.Os dois de São Paulo. Meu pai nasceu em Bragança Paulista, dentro do Estado de São Paulo, mas não na cidade de São Paulo.

Pais e avós
M

P - Você sabe um pouquinho da história da família do teu pai? Dos teus avós, bisavós? O que você conhece dessa história? Vagner - Um pouquinho, eu sei que o bisavô do meu pai foi Alferes da Cavalaria de Dom Pedro e José Bonifácio foi quem outorgou esse cargo a ele, em Bragança Paulista. Então, teve uma carreira,foi inspetor de quarteirão, até chegar a Alferes, que é equivalente a capitão. E eles são todos portugueses. M

P - E você sabe o nome dele? Vagner - Não. eu não tenho o nome dele. Mas tenho o telefone do meu pai (risos) que tem o título original, da época do Império ainda. M

P - Eles vieram de Portugal? Vagner - Vieram de Portugal por parte de pai, e da Espanha por parte de mãe. M

P - Então, esse teu bisavô que era Alferes ... Vagner - Bisavô do meu pai. Meu avô era barbeiro em Bragança Paulista, não motorista barbeiro. Era barbeiro mesmo, de profissão (risos). M

P - Então, o bisavô do teu pai era alferes e o avô do teu pai? Vagner - Você sabe que eu não sei a história dele? M

P - E o teu avô? Vagner - Esse era barbeiro em Bragança Paulista. M

P - Você conheceu a barbearia dele? Vagner - Não. Não existe mais. Eu até ando por Bragança, mas não existe mais. M

P - Como chamava seu avô? Vagner - José Augusto Silveira. M

P - Você chegou a conhecê-lo?

Avó
Vagner - Não. Nenhum dos avôs. Só as avós. Faleceram com 97, 95 anos. M

P - A tua avó? Vagner - Minha avó Brandina de Souza Pinto. M

P - Era dona da casa? Vagner - Dona de casa. M

P - Ela você conheceu? Vagner - Conheci. M

P - Como é que você descreveria a sua avó, Vagner? Vagner - Era de estilo europeu, branquinha, muito bonita. Cabelos grisalhos, os olhos verdes que eu herdei. Sou o único que herdou os olhos da avó. Uma pessoa muito meiga, trabalhadora, e adorava doce. M

P - Fazia doce? Vagner - Fazia. M

P - Qual era a especialidade dela? Vagner - Fazia aquele puxa-puxa de doce de leite. Ela enchia os bolsos do avental e trabalhava o dia todo comendo doce, chupando aquele negócio, aquela bala dura de açúcar. M

P - Ela fazia e comia? Vagner - Fazia e comia. M

P - Você chegou a conviver com ela? Vagner - Sim. Ela morou algum tempo com a gente no bairro do Ipiranga, onde eu nasci. Ela morava com meu pai. Ela mais uma tia e um primo. A gente conviveu muito, passamos muito tempo junto. Ela era bastante lúcida. Depois ela mudou para Vargem Paulista que é divisa de Minas, quase Extrema. Bragança, depois Vargem, e depois Extrema. Ficou morando ela e uma prima dela com 90. Na época que elas foram morar juntas uma tinha 90, outra 92 anos. E moravam sozinhas literalmente. Limpavam a casa toda, faziam as refeições: a janta, almoço e ficavam juntas. Não queriam morar com ninguém, não queriam depender de ninguém. M

P - Quando você era criança qual a cena que lembra dela? Vagner - A gente chamava ela de vó do rio, porque ela morava perto do rio Tamanduateí. (risos) Ela lavava roupa no rio. O pessoal conta. E ficou isso. Ela estava sempre trabalhando. Ela estava sempre ligada, fazendo almoço, fazendo janta, lavando roupa. Uma pessoa bastante ativa.

Lembranças do pai
M

P - O teu pai nasceu em Bragança? Vagner - Nasceu em Bragança. M

P - Ele tem muitos irmãos? Vagner - Meu pai? Seis irmãos. Seis irmãos, todos nascidos lá. M

P - E ele veio para São Paulo grande? Vagner - Adolescente. M

P - Você sabe um pouco da adolescência, da juventude do teu pai? Vagner - Eu lembro que ele ingressou na Polícia Militar novo ainda. Não era Polícia Militar na época. Era Guarda Civil. Ele entrou na Guarda Civil como soldado, como paraça. E fez toda uma carreira dentro da Guarda Civil, até chegar a Inspetor chefe de Divisão e depois, quando o governo encampou as duas polícias - que existia a Força Pública e a Guarda Civil - virou a Polícia Militar, ele ficou como Coronel, Tenente Coronel. Ele se aposentou com Tenente Coronel na PM. M

P - E você sabe como ele conheceu a tua mãe? Vagner - Eu sei que no bairro, mas o local, assim... Era no bairro do Ipiranga.

Pai e mãe
M



P - Você sabe a história dos teus avós, por parte de mãe? Vagner - Eu sei que eles vieram, minha avó e meu avô da Espanha. Primeiro eles pararam na Argentina. Ficaram morando alguns anos na Argentina, depois vieram pro Paraná, aqui já no Brasil. Ficaram no Paraná um bom tempo e depois vieram para São Paulo. Eles trabalhavam numa... Agora lembrei onde eles se conheceram, numa fiação que tinha no Bairro do Cambuci. Uma indústria de tecidos. M

P - Os teus avós trabalhavam lá? Vagner - Não. Meu pai e os irmãos e minha mãe e as irmãs. Eles se conheceram lá, é verdade. No Cambuci. M

P - Eles trabalhavam todos nessa indústria? Vagner - Todos nessa indústria. Se conheceram lá, no Cambuci. M

P - Eles faziam o quê? Vagner - Trabalhavam no tear. Trabalhavam naquelas máquinas de tecer.

Avós
M

P - E os pais da tua mãe? Faziam o quê? Vagner - Os pais da minha mãe: minha avó era do lar e o meu avô eu não lembro o que ele fazia não. O espanholzão, acho que ficava atrapalhando. (risos) M

P - Eles vieram da Espanha de navio? Vagner - Vieram da Espanha de navio, se conheceram no navio e aí chegando na Argentina eles se casaram e depois já vieram para o Brasil casados. M

P - Qual o nome deles? Vagner - Joana Ibarra Castilho e João... Acho que era João Valverde. Acho que eu coloquei o sobrenome dele Castilho, mas não era. M

P - Isso. João Batista Castilho. Vagner - Mas não era. Era João Batista Valverde, se não me engano. M

P - Ele você conheceu? Vagner - Não. Não conheci. Eles faleceram cedo. M

P - A avó também? Vagner - As avós enterraram os dois avôs.

Avó
M

P - E da tua avó materna? O que você lembra dela? Vagner - Foi praticamente ela que me criou, porque minha mãe teve um desvio na coluna quando eu nasci e passou praticamente por sete cirurgias. Então ela ficava mais de cama do que propriamente ativa, porque as cirurgias de antigamente, pela Medicina tinha que ficar engessada meses. Então, minha avó que cuidava da gente. Lavava, dava banho, passava a roupa da escola, me levava para escola. Então, foi praticamente minha segunda mãe. M



P - Ela morou com vocês? Vagner - Morou sempre. M

P - E lembrança de passeios com essa avó, de brincadeira, você lembra alguma? Vagner - De brincadeira não, porque ela era espanhola brava para caramba. M

P - Ela era brava? Vagner - Ela era muito brava. Apesar de ela gostar muito de mim, mas ela era bem rígida. Mas fazia tudo o que eu queria. Eu sabia... A gente ia na feira e eu parava em frente daquelas barracas que vendiam brinquedos e ficava chorando que queria brinquedo. Era daquelas crianças bem pestinha mesmo. Se não comprasse, eu me jogava no chão (risos).E tinha que comprar. Ela acabava cedendo. Sempre. M

P - E fisicamente, como ela era? Vagner - Ela era bem alta. Pela minha estatura você pode calcular. Eu puxei ela. Estou brincando. Ela devia ter um metro e meio, gordinha, cabelos pretos, compridos. M

P - E tinha sotaque? Vagner - Ela só falava espanhol. M

P - Dentro de casa? Vagner - Dentro de casa. Ela morreu com 95 para 96 anos e só falava espanhol. E xingava bem em espanhol. Não falava nada em português. M

P - E ela se "virava" na feira, mesmo falando espanhol? Vagner - Ah. Sim. Numa boa. M

P - E comida? Ela cozinhava comida espanhola também? Vagner - Cozinhava tudo.Todos os pratos típicos. Pucchero... M

P - Fazia algum prato em especial? Vagner - Todos. Fazia o convencional, comida brasileira mesmo, que era o arroz e feijão, mas sempre com aquele toque, que era muito tempero. Então eu gosto de cozinhar. Cozinho até hoje. Gosto para caramba. E aí é duro. Quem come a minha comida dança, porque tem muita pimenta. M

P - E você ajudava tua avó a cozinhar? Vagner - Ajudava ela a fazer algumas coisas. Por causa disso. Às vezes ela ficava sozinha. O meu irmão mais velho já trabalhava, e ela tinha que cuidar da minha mãe que vivia acamada. Então eu sempre ajudava. E aprendi a cozinhar rapidinho, com ela. M

P - E o que você fazia? Vagner - Além de temperar a salada e cozinhar ovo - que tem mulheres que até hoje não sabem fazer isso. Mas fazia. Preparava salada, preparava feijão, temperava o feijão para ela, fazia arroz.

Casa da Infância
M

P - Vocês moravam aonde? Vagner - Sempre no Ipiranga. M

P - Ipiranga. Como era essa casa onde vocês moravam? Vagner - Era uma casa... Ficava na Rua Aurantina, paralela à via Anchieta. Era uma casa grande. Meu pai tinha construído essa casa e em baixo morava minha avó. A mãe dele. Então, praticamente eu convivi sempre com as duas avós. Só que uma mais intensamente, por viver no mesmo teto, e outra em baixo. Quando eu tinha saudade de uma, só descia a escada e estava lá. E morava meu primo também. Meu primo e uma tia minha, com minha outra avó. Então, a gente sempre viveu bastante em família. M

P - Tinha ocasião que reunia todo mundo? Vagner - Era difícil. Era difícil a gente estar junto assim. Eu, meu pai, minha mãe e meu irmão e minha avó sempre. Todas as refeições eram feitas com ela. Mas com a outra avó não. Às vezes eu descia para almoçar com ela. Mas juntar todo mundo era difícil.

Pai policial
M

P - Nessa época seu pai estava trabalhando com que? Vagner - Sempre na Polícia Militar. M



P - Você lembra dele saindo ou voltando do trabalhar? Vagner - Oh. Lembro sim. Até eu queria ser Policial Militar e ele não deixou. Falou: "Basta um só." M

P - Como é que era a farda dele? Você lembra? Vagner - A Guarda Civil, era igual à da polícia americana. Era um uniforme até bonito. É uma pena que acabou. Era azul marinho. Calça e camisa azul marinho, o quepe era igual ao da policia americana. A Polícia Civil era uma polícia de elite na época, aqui em São Paulo. A polícia do Jânio. O Jânio investiu muito na Polícia Militar. M

P - E saia de viatura? Vagner - Sempre vinha o carro. Já era oficial, então sempre vinha o carro buscá-lo. Mas foi legal sim. Ele deixou uma marca, como profissional - ele é vivo ainda, graças a Deus. Mas assim, ele começou por baixo, começou como soldado mesmo, trabalhou no camburão, como eles falavam, no carro de pegar defunto. Então, ele passou por um monte de coisas e sempre fazendo cursos dentro da polícia. Não foi uma pessoa que se acomodou. Então, isso gravou muito na minha mente e na do meu irmão. Alguém que veio realmente de uma origem humilde, mas nunca se acomodou. Ele podia ter se aposentado como sargento, por tempo de casa, mas todos os cursos que ele poderia fazer, ele fazia. Ele se formou professor de Educação Física dentro da Guarda Civil... M

P - Tem algum episódio do trabalho do seu pai, que você lembra de forma especial. Vagner - Um pouquinho antes dele se aposentar, faltava acho que uns dois anos para ele se aposentar - e meu pai sempre foi uma pessoa muito autêntica, sincera, e eu herdei isso um pouco dele. A gente fala que quem fala a verdade não merece castigo, mas nem sempre é verdade. Eu lembro que, o que marcou bem foi que ele ficou todo esse tempo de carreira, uma carreira bonita dentro da Polícia Militar e da Guarda Civil também e numa reunião de oficiais ela falou para o Coronel - ele era Tenente Coronel. O Coronel falou alguma coisa assim para o grupo e ele falou: " Olha Coronel, isso aí é besteira o que o senhor está falando. O Coronel virou para ele e falou assim:" Você está falando que isso é besteira, sinal que eu sou besta." Ele respondeu: "O senhor está falando." E ele ficou detido uma semana no quartel, mas ele não voltou atrás. Manteve a palavra dele que o cara era uma besta mesmo. (risos) Isso aí acabou prejudicando ele na aposentadoria, porque ele podia ter se aposentado com um salário melhor, com um cargo melhor, mas por causa dessa... Depois de 35 anos de trabalho, isso aí foi um pezinho para que ele não fosse promovido na aposentadoria.

Adolescência
M

P - E desfiles? Vagner - Ah. Ele me levava em todos. Sete de Setembro, aqui na Nove de Julho. Eu ia em todos. Porque eu gostava. Como eu te disse, eu queria ser policial, soldado. Tanto é que, quando eu fiz 18 anos eu queria servir e o pessoal de 55 tinha sido dispensado. Outubro de 55 tinha sido dispensado. Mas eu falei: "Não. Mas eu quero servir."Aí meu pai me deu uma carta, eu fui na PM, aqui no Ibirapuera e me apresentei. Procurei um tenente que tinha lá e falei: "Sou filho do Capitão, assim, assim, assim, e queria servir." O cara deu risada. "A turma aqui me procura para não servir, e você quer servir. " (risos) Eu falei: "Não, eu quero servir." Depois disso...Aí eu queria se batedor. Eu gostava de moto, nessa época eu tinha moto, e queria ser batedor da PM. Com essa estatura, o cara olhou para mim e deu risada: " Você, não agüenta com o peso da Harlley. Não vai adiantar para você." M

P - Mas te admitiram? Vagner - Não. Aí eu não quis. Falei: "Se não é para ser batedor...só para ser motociclista, vou embora. Então não quero." "Então pode ir. Está dispensado mesmo. Pode ir embora." Aí eu desisti. M

P - Sem ser o desfile, tinha alguma outra ocasião que você acompanhava teu pai, ia para o quartel? Vagner - Ia sempre. E eu estou nessa profissão inclusive por causa dele. Ele era comprador do Hospital Cruz Azul, que era a Caixa Beneficente da Guarda Civil e que depois virou Hospital Cruz Azul. Ele era comprador da farmácia do hospital. E eu sempre com ele. E olhava aqueles rapazes todos, bem vestidos, de paletó e gravata, com aquela mala, visitando os médicos. Eram os propagandistas. Isso eu devia ter uns 15 anos, 16 anos. Aí eu cismei que queria ser propagandista. E tentei até em alguns laboratórios, bati em vários laboratórios, mas o pessoal, como eu não tinha 18 anos, falavam: "Não pode estar admitindo. Você é muito novo. Você vai servir o exército." Falei: "Não. Não vou servir. Se eu não quiser não sirvo." Aquela história. "Meu pai é militar, me tira." "Não. Não. Você não pode." Então, foi até por causa dele, por causa desse trabalho, que eu quis ingressar nesse ramo que eu estou até hoje.

Brincadeiras da infância
M

P - Antes de falar no trabalho, eu queria falar ainda um pouquinho de infância. A sua casa era grande? Tinha quintal? Brincadeiras de rua? Vagner - Tinha. Era grande. A rua ainda era de terra e a gente brincava bastante. Brincava de chutar lata, aquela brincadeira em que você se esconde e se alguém chutar a lata, salva todo mundo. M

P - Como era? Vagner - O cara que fica lá... Tem sempre que começar com um. É o cara que conta até 100 para tentar achar os outros. Cada vez que ele acha um, tem que correr na sela, que era um risco, que tinha uma lata de óleo - naquela época Maria - e tinha que bater três vezes, dizendo o nome da pessoa que ele tinha achado. E as pessoas iam ficando ali do lado. Ficava em pé, porque tinha que achar todos, até acabar a brincadeira. Mas se alguém viesse e chutasse a lata, salvava todo mundo. E começava a brincadeira de novo, e o cara ficava novamente lá. Então, a gente era moleque, subia na árvore e o cara nunca achava ninguém. Quem começava primeiro, desistia. A brincadeira ia até dez, onze horas da noite, e não conseguia achar. A gente conhecia tudo ali. M



P - Você falou em árvore. Como era o bairro do Ipiranga nessa época? Vagner - Era bem arborizado, tinha muita rua de terra, e as casas, as residências, tinham árvore. Diferente. Mesmo você não tendo na rua, todo mundo tinha um jardim, todo mundo tinha uma árvore. Principalmente cipreste. As casas eram divididas com ciprestes, que é a cerca viva hoje. Então, era bem arborizado. E eu, pequenininho, magrinho, conseguia subir nas árvores numa boa. A brincadeira não tinha nem graça. O pessoal não gostava de brincar muito com a gente porque era difícil achar a gente. M

P - Que brincadeira mais você se lembra? Vagner - A pipa. Tinha muita pipa, bolinha de gude, pião. (risos). Você não conhece não. Mas era legal. O pessoal, apesar de ter televisão. M

P - Tinha televisão na tua casa? Vagner - Não. Nessa idade não. Tinha uma tia que tinha. Morava acho que a uns quatro quilômetros de lá, e a gente ia a pé para assistir televisão lá, e depois voltava á noite. M

P - Assistia o que? Vagner - Naquela época tinha um filme, Kombat que era um filme de guerra americano, com Vick Morrow, que era o máximo. Era dos americanos contra os alemães. M

P - E passava à noite? Vagner - Passava à noite. Tinha "As Duas Faces do Oeste" que eram dois irmãos, um era sheriff e o outro pistoleiro. Eram os filmes. "O Agente da Uncle" (risos). Isso que é museu. Se brincar assim, não vão me deixar sair daqui. Vou ficar para o museu eternamente aqui.

Passeios da infância
M

P - E passeios? Vocês iam para o centro da cidade? Iam para o Museu do Ipiranga? Vagner - Museu do Ipiranga, a gente ia pouco. A gente vinha mais para o centro de São Paulo, onde tinha (risos) as Lojas Pirani. O Mappin já tinha. Tinha as Lojas Pirani. M

P - Ia fazer comparas? Vagner - Fazer compras. Era o maior acontecimento. E tinha um bonde, que saia lá do Ipiranga, da Silva Bueno, e vinha aqui para o centro. Onde era o Mappin antigamente, a matriz do Mappin. M

P - Praça Ramos? Vagner - A gente vinha de bonde. Aí passava nas Lojas Americanas e comia um cachorro quente. Era o máximo. M

P - E essas Lojas Pirani ficavam onde? Vagner - Do lado do Mappin. Era mais a da São João. A Pirani ficava na São João. M

P - Ia comparar roupa? Vagner - Ia comparar roupa, uma coisinha para casa. Eu lembro mais desse passeio nas Lojas Americanas, do cachorro quente, porque era demais. Hoje a criançada já nem liga mais para essa coisas. Para gente, dificilmente você fazia as refeições fora de casa. Era coisa rara. Primeiro, que não tinha onde fazer. Só aqui no centro. M

P - Com quem você ia nesse passeio? Vagner - Eu, meu pai e meu irmão. Era muito legal.

Primeira escola
M

P - E a escola? Onde você estudava? Vagner - Escolas Agrupadas do Moinho Velho. Existem até hoje. M



P - Que fica? Vagner - No Moinho Velho no Ipiranga. M



P - Que recordação você tem dessa escola? Vagner - Eu aprontava bastante. Ficava muito de castigo na escola. (risos) M

P - Que tipo de arte? Vagner - Era mais irrequieto. Levava brinquedo na sala de aula. Sacaneava todo mundo. Sempre fui assim. Não tem jeito. Chegava a apanhar dos professores. Aquele esquema. Meu pai era professor de Educação Física, voluntário da escola - não ganhava nada para isso - e o pessoal ainda era mais ameno comigo. Mas, não tinha jeito. Aprontava demais. M

P - E fisicamente, como era essa escola? Suas salas de aula? Vagner - Como a maioria das escolas municipais. Naquela época tudo com prédios horizontais, com quadra. Como é ainda. Hoje são raras. São prédios de dois, três andares. Lá não. Era tudo horizontal. Um andar só. M

P - E na hora do recreio? Vagner - Correr bastante. Aprontar bastante. Subir nos muros. M



P - Tinha uniforme? Vagner - Tinha. E eu sempre rasgava. M

P - Como era? Vagner - A gente ia de calça curta na escola - no primeiro dia de calça comprida, eu cai no chão, correndo, e estragou a calça. Minha mãe teve cerzir a calça e eu tive que ir com a calça remendada para escola. Eu fiquei louco da vida. Mas também, com a calça curta eu não voltava. Ia com a calça remendada, mas não ia com calça curta novamente. M

P - Era calça de que cor? Vagner - Azul marinho. Uniforme básico da Prefeitura era esse: calça azul marinho e camisa branca. E um bolso com o emblema da escola. M

P - Você estudou nessa escola até que época? Vagner - Fiz Primário completo. E lembro da época que tinha dentista da Prefeitura e ninguém conseguia colocar a mão em mim. Tinha que chamar minha mãe. Como a gente morava perto do colégio, quando chegava meu dia de passar pelo dentista, ninguém conseguia me segurar na cadeira. Aí chamava minha mãe, e era fácil. Ela conseguia rapidinho (risos) M

P - O dentista ia até a escola? Vagner - Tinha um consultório odontológico. Um gabinete odontológico. A gente chamava de gabinete naquela época. Na escola. Mas ele não ficava todos os dias. Tinha dia certo. Quando ele ia, tinha uma lista para atender todos os alunos. Quando chegava minha vez, era legal. Saia no tapa com todo mundo. Mas minha mãe resolvia rapidinho. Demorava um pouco para ela chegar de casa até a escola. Alguém ia chamar. A servente ia chamar minha mãe, (risos), que estava precisando de ajuda. Aí, ela ia lá. Às vezes era minha avó. Quando minha mãe estava acamada, ia minha avó. Ela conseguia rapidinho. Fácil, fácil. M



P - Por que ela te batia, ou só olhava? Vagner - Só olhava. Nem precisava...

Lembranças da mãe
M

P - A tua mãe também era brava? Vagner - Bastante. Espanhola, né. Espanhol é fogo. M

P - O nome de sua mãe? Vagner - Minha mãe é Elvira. M

P - E a presença da tua mãe em casa? Você falou que ela passou uma época doente? Vagner - Sempre presente. Não tinha jeito. Ou de cama ou andando pela casa, mas ela sempre esteve presente. M

P - Que lembrança dela você tem mais forte? Vagner - Várias. Isso marcou um pouco, essa fase dela, doentia, que eu sentia, queria estar com ela, queria estar passeando com ela e não podia. Mas a minha mãe sempre foi super mãe. Criou dois filhos. Eu era o menor e o mais velho tinha quase cinco anos de diferença. Então, eu era muito caseiro, e sempre era paparicado pela avó e pela mãe. E pela avó de baixo, que era aquela avó que morava em baixo. Então, foi uma infância muito boa.

Lembranças do pai
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P - E nessa casa, você ficou até quando Vagner? Vagner - Sempre no Ipiranga. Nós saímos do Ipiranga para São Bernardo, mas foi pouco tempo. Acho que uns dois anos nós moramos em São Bernardo do Campo, e depois meu pai voltou novamente para o Ipiranga. M

P - Para mesma casa? Vagner - Não. Não. Para uma outra casa. Ele vendeu a casa, investiu em um negócio: decoração de porcelana, na época. Comprava porcelana branca em Mauá, e pintava porcelana. Mas não deu certo. Aí perdeu o dinheiro todo no negócio. M



P - Isso paralelo à carreira? Vagner - Paralelo à carreira. Ele sempre tentou fazer uma atividade paralela, para quando ele se aposentasse, ter alguma coisa. Teve imobiliária em São Bernardo, na época que aquele bairro Assunção, aqueles bairros ali eram tudo mato. E eu trabalhava desde os 13 anos, porque tinha vilas de casas para venda, e o meu pai passava de carro de manhã: "Você fica aqui. Se vier alguém, a tabela está aqui." Então eu já comecei vendedor logo cedo.

Trabalho na infância
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P - Como era esse trabalho? Vagner - Ficava lá dentro das casas. Vilas. Aquele Bairro Assunção, Bairro dos Casas em São Bernardo, que são bairros populosos, não existia nada. Então tinha a construtora que ia lá e construía 100, 200 casas. E meu pai pegava uma parte das casas para vender. E como ele não podia ficar lá o tempo todo e "poderia" ser que aparecesse alguém. Ele não podia largar o escritório e a polícia para ficar lá. Então, ficava eu lá. Me largava de manhã, me dava um dinheirinho para comer um lanche na padaria. Isso eu com 12, 13 anos. M

P - Como um corretor. Vagner - Corretor. Me dava tabela de preços e eu ficava lá esperando chegar alguém. Se chegasse eu mostrava a casa, falava o preço e se a pessoa estivesse interessada, eu subia no carro e ia pro escritório, que era no centro de São Bernardo. Então, sempre na área comercial. Desde cedo. M



P - E você já se dava bem? Vagner - Já. Eu gostava. M

P - Você chegou a vender alguma casa? Vagner - Claro. Com certeza. (risos)

Rua Augusta
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P - E depois dessa experiência como corretor? Vagner - Ainda sem registro trabalhei como vendedor de moto. Eu queria ter uma moto. Aos 14 anos, meu pai falou: "Eu não vou te dar uma moto." "Como não vai dar? Eu quero uma moto." "Não. Não vou dar." "Então eu vou trabalhar e vou conseguir a moto." Ele falou: "Duvido." Não deu outra. Depois de um mês, eu estava empregado. Trabalhando de vendedor de moto numa revenda Honda, em São Bernardo do Campo. E aí comprei a moto, simples. É lógico que ele pagava tudo. Pagava gasolina, pagava roupa, tudo. Mas, que eu tinha moto, tinha. M



P - E os passeios de moto, onde eram? Vagner - Na época era na Rua Augusta. O point da moçada era a Rua Augusta. Era o máximo. Eu vinha lá de São Bernardo aqui na Augusta para desfilar. Era a rua da paquera. A noite toda. Subindo e descendo. Gasulinando. M

P - Que dias? Vagner - Todos os dias, de preferência. (risos) A paquera acontecia aqui. M

P - Como era? Você chegava, tinha um lugar certo de estacionar a moto? Vagner - Às vezes você parava onde tinha mais movimento. Tinha o Amarelinho, que era um barzinho, ali no final da Augusta. Final que eu digo era pegando a Paulista, para os Jardins. Porque o final realmente é lá no centro, na Martins Fontes. Então, era o pedaço daqui dos Jardins. Então você vinha, ficava vendo... Parava a moto - naquela época, motocicleta era o máximo. Não tinha tantas motos assim em São Paulo. E o pessoal ficava paquerando as meninas que passavam de carro. Aquela historinha: "Vamos dar uma volta?" (riso) E ia a noite toda. Às vezes não rendia nada. (risos) Só olhando mesmo. M

P - E o que tinha na Augusta? Vagner- O pessoal parava nesse barzinho, Amarelinho, que tinha uma batidinha de coco, que fazia e que chamava "coquinho." Vinha gente de São Paulo inteiro lá, ficar tomando batida e batendo papo, conversando. Mais de moto do que de mulher (risos) A primeira paixão era moto. A segunda era mulher.

Motociclista
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P - Como era a tua moto? Vagner - Comecei com uma Suzuki 50, que era uma moto importada. Depois passei para uma Honda 125, que era importada também. Depois uma Honda 350, uma Honda 360, e assim foi. Até que eu corri de moto em Interlagos. Participei das 24 horas de Interlagos, das 500 milhas de Interlagos. Comecei a correr de moto. Meu pai ficava doido comigo. Minha mãe então, nem se fala. M

P - As corridas eram de fim-de-semana? Vagner - Eram. Sempre de final de semana. M



P - Como é que acabou a carreira de motociclista? Vagner - Motociclismo não tinha incentivo nenhum. Você não conseguia patrocinador. Era ele que te dava capacete, lata de óleo, óleo para motor. E é um esporte caro. Não teve jeito. Naquela época tinha a Edgar Soares que patrocinava uma equipe. Existe até hoje a Edgar Soares, que era do Jacaré que morreu. Não sei se você já ouviu falar. Carlos Pavan, Jacaré, que era o melhor piloto que a gente tinha no Brasil. Tinha o Tucano, esse pessoal que andava muito de moto. Eram praticamente os expoentes da época do motociclismo na América do Sul. A gente corria com eles, só que eles tinham patrocinador, alguns tinham patrocínio, mais patrocínio que outra coisa, a não ser o Jacaré, que era pobre, de família humilde. Mas era um maluco. Então, arrumava patrocinador fácil.

Diversão na Adolescência
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P - Nessa época de adolescência, sem ser a Augusta e a moto, qual era o outro programa? Vagner - Sem ser andar de moto? Namorar. Namorar e andar de moto. Esse era o grande programa. (risos) Também, não tinha o que fazer. Não existia shopping. Existia shopping, mas galeria. Não existia o shopping com o conceito que é hoje. O cara montava um prédiozinho com várias lojas e isso era o shopping na época. Não tinha. O resto era lanchonete. M

P - E o namoro da época como era? Ia ao cinema, em lanchonete? Vagner - Não. Gasolinando. Rodar a noite toda. E lanchonete é claro, comer um cheesburger em lanchonete. Engraçado que existe uma lanchonete daquela época até hoje, no Cambuci, numa travessa da Lins de Vasconcelos. Chama "A Chapa". Se tiverem a oportunidade, vão lá. É um hambúrguer como se fazia antigamente. E as demais lanchonetes. M

P - Cervejada ou não? Vagner - Tinha um pessoal da Mooca, da escuderia Pepe Legal, e tinha um pessoal da Le Mans que era do Ipiranga. As escuderias do pessoal. Tinha carro, faziam campanha do agasalho com a Jovem Pan na época. Então a gente ficava mais com esse pessoal mesmo. E nos bailes do Clube Atlético Ipiranga, que aconteciam aos sábados, e os bailes do Circulo Militar, que acontecia no domingo. M

P - Como eram? Vagner - Era banda. Tinha os Pholhas e várias, que acabaram, hoje não existem mais. Eram conjuntos bons. M

P - Que músicas tocavam? Rock in roll? Vagner - Era. Rock in roll, Jovem Guarda, época de Roberto, Erasmo, Guilherme Arantes começando na carreira na época. E mais músicas americanas, Beatles. Tocava muito. Naquela época eu tinha até cabelo. Bastante cabelo. Por incrível que pareça, tinha bastante cabelo.

Visual anos 70
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P - Cabelo comprido? Vagner - Muito. Era moda naquela época. M

P - E o visual? Vagner - Hippie. Tinha que ser. M

P - Como era o teu guarda roupa? O que tinha? Vagner - Calça boca de sino. A gente pegava calça jeans, e cortava a barra. Eu era pequenininho, sobrava barra para caramba, e fazia abrir a calça, abrir a boca, era a boca de sino. E blusão do exército com o símbolo de Paz e Amor. Bem bicho grilo. (risos) Quem diria? M

P - Ia na Galeria Pagé comprar calças jeans? Vagner - Tinha que juntar muito dinheiro para comprar na Pagé. E era tudo escondido, porque a calça era contrabandeada. Então, você tinha que entrar naquelas lojas de coreanos, de chineses, ia lá pro fundo. Pagava lá. Tinha que ser em dinheiro. Era tudo proibido. Era contrabando. Não existia calça brasileira. Era Lee e Ranger. Hoje todo mundo tem uma calça jeans. A gente usava uma calça a semana toda, lavava no final de semana, botava atrás da geladeira para secar, para sair no final de semana. Com a mesma calça, mas limpa. M

P - O que completava esse figurino? Vagner - Tinha o tamanco. O pessoal usava muito tamanco na época. Tinha um que era muito caro, mas a gente usava - Dr. Scholl. Tamanco mesmo, aquele tamanco de português. E aquele sapato que tinha aquela sola enorme, branca, que se usou um tempo atrás. Couro, com uma sola branca alta para caramba. Era o que o pessoal usava na época. M

P - E tênis? Vagner - Não existia tênis. Tênis, só "Kichute", que a gente usava para Educação Física e jogar bola. M



P - E não saia para passear? Vagner - Não. Nem a pau. Não tinha essa. M

P - O tamanco era de madeira? Vagner - Madeira e tira de couro. Depois veio a época da mini blusa de tricô, calça boca de sino, mini blusa. (riso) Bem bicho grilo mesmo. Era o que o pessoal usava. M

P - Depois da época de vendedor de motos, você passou a fazer o que, Vagner? Vagner - Eu fui trabalhar numa Tinturaria e Estamparia Gazziani, que era no Ipiranga. Eles tingiam tecidos para várias empresas. Eu comecei como auxiliar de escritório. Fiquei um tempo como auxiliar de escritório, e depois daquilo, praticamente eu entrei no ramo farmacêutico. Tive num escritório de despachante durante um tempo, que meu pai montou, naquelas tentativas de montar alguma coisa em paralelo à atividade que ele tinha na Polícia Militar. Ele montou um escritório de despachante lá na Via Anchieta, e eu fiquei lá um tempo, no escritório. Aí acabei casando. Em 1975.

Namoro
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P - Conheceu a esposa como? Vagner - No baile. M

P - Você lembra que baile foi? Vagner - Era o baile que acontecia sempre aos sábados à noite. Eu a conheci lá, ela morava no Ipiranga também, nós começamos a namorar. Tinha 15 anos. Foi em 70. M

P - Você tinha 15 anos? Vagner - Era. Eu casei com 19 anos. M

P - Você tinha 15 anos e ela tinha... Vagner - 14 para 15 anos. M



P - Como ela se chama? Vagner - Miriam. Nós nos conhecemos num baile, começamos a namorar. Eu já tinha moto. Como eu te falei, eu comecei cedo. Com 15 anos já tinha moto. M

P - E o pai dela deixava ela passear de moto? Vagner - Nem a pau. Tinha que ser escondido. M

P - Como era essa aventura? Vagner - Encontrávamos a umas duas quadras da casa dela e saia de moto. E ela era esperta para caramba, e é lógico, a gente namorava convencionalmente, e depois disso ia para o "crime". Ia paquerar na Augusta. E o pai dela não ia deixar ela ficar até tarde. Então, a gente se encontrava com os amigos. Marcava lá um local lá pela 11 horas, juntava o pessoal e vinha para cá. Na Av. Paulista. E ela marcava a quilometragem da moto (risos). Quando eu chegava para namorar no outro dia, ela checava a quilometragem para ver onde eu tinha ido. "Oi. Você rodou para caramba. Onde você foi?" A gente aprontou. Ia para praia de moto. Uma loucura. A bichinha era esperta.

Casamento
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P - E quatro anos depois vocês se casaram? Vagner - Nós começamos a namorar em 29 de novembro de 1970, e casamos em 75. Tinha o escritório de despachante que eu ficava, que era meu e do meu pai. Quer dizer, do meu pai, e eu ficava lá. Aí, nós casamos e fomos morar com meu pai, ficamos algum tempo, alguns meses só, e depois fui morar no escritório, que era uma casa enorme. Uma casa muito grande. Tinha vários quartos a casa, e eu acabei morando lá e ficava com o escritório. M

P - Casamento na igreja? Vagner - Tudo direitinho. M

P - Você lembra do dia do casamento? Vagner - Eu lembro que como eu aprontava muito com os primos dela, que eram sempre mais velhos do que ela, quando casavam. Nesse dia vieram uns primos do interior, querendo me pegar para aprontar. Então, foi difícil. Tive que fugir para caramba. Se o pessoal pega, eu estava perdido. M

P - Queriam fazer o quê? Vagner - Eu nem sei. Acho que matar. (risos) M

P - Mas ninguém aprontou nada? Vagner - Não. Não conseguiram me achar. Eu e meu primo Marcos, esse que morava em baixo da casa, quando a gente morava todos juntos, ele me levou para sauna... Fugimos. Só fui aparecer na igreja. E aí não deu para aprontar. Não teve jeito. M

P - E dela? Da igreja? você lembra? Vagner - Claro. Casei no Ibirapuera, na Igreja Santo Ivo, de padres franciscanos, padre bem velhinho, devia ter mais de 70 anos. Foi legal. Foi bom. M

P - Teve lua de mel? Vagner - Nós fomos para Campos de Jordão. Na Colônia de Férias da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Fiquei uma semana lá, com o Karman-Guia do meu irmão, emprestado, porque eu tinha moto. Ele me emprestou o Karman-Guia preto que era o máximo. Fiquei em Campos de Jordão uma semana. Depois disso voltei, passei um tempo no escritório e aí comecei a fazer um curso de piloto privado. Queria ser piloto de avião. Só que piloto agrícola. Comecei a fazer o curso no Mackenzie, na Universidade Mackenzie, no Departamento de Engenharia do Mackenzie. Naquela época, faltavam pilotos no Brasil, principalmente piloto agrícola. Então, o que o governo fazia? Você fazia o curso de piloto privado, que precisava de 50 horas e se inscrevia em Brasília e o Governo pagava todo o curso de piloto agrícola. Você voava pro governo algum tempo, para o Ministério da Agricultura para pagar o curso, depois disso você entrava no mercado de trabalho como autônomo mesmo. Piloto autônomo. M

P - Piloto agrícola trabalha na área rural? É isso? Vagner - É. Pulverizava plantações contra as pragas e fertilizante também. Eu fiz todo o curso, isso foi em 1976 para 1977. A esposa já estava grávida, e aí com aquela revolução lá em Portugal vieram vários pilotos portugueses para o Brasil, voando a troco de casa e comida. E Brasília resolveu baixar uma portaria pelo Ministério da Aeronáutica, que qualquer piloto agrícola precisava ter 200 horas de vôo, para ingressar nesse curso de Brasília. E eu já tinha vendido o escritório, justamente para fazer o curso - eu só tinha dinheiro para fazer as 50 horas de vôo. Eu freqüentava uma igreja na época, a igreja que eu freqüento até hoje, uma igreja evangélica e tinha dois propagandistas lá nessa igreja. Me conheceram lá e disseram: "Você não quer entrar para o ramo farmacêutico? Você não quer ser propagandista?" Daí, marcaram as provas para Aeronáutica num final de semana e eu já tinha ingressado - ainda não quero falar da parte profissional - no ramo fazia dois meses, e não podia faltar no emprego para fazer o curso.

Propagandista
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P - A tua entrada mesmo no mercado, foi em que ano? Vagner - Eu entrei em 1976. M



P - Em qual laboratório? Vagner - Sintofarma. Trabalhei um ano. M

P - Fazendo o quê? Vagner - Propagandista. Fazia o setor de Diadema, em 1976. M

P - E depois da Sintofarma? Vagner - Eu tive que trabalhar, largar o curso, que o meu grande sonho era ser piloto, porque eu tinha que cuidar da minha esposa que já estava grávida, eu já tinha vendido o escritório. Tinha que trabalhar realmente, arrumar um emprego sério, fixo, para poder sustentar minha família. Vendi a moto, comprei um fusquinha 77 no Jumbo Aeroporto, que eles vendiam Volkswagen também. Troquei a moto a troco de um carro, um fusquinha e ingressei no ramo farmacêutico. Na Sintofarma, indicado por esses dois amigos, que estão no ramo. Hoje um é gerente regional da Farmasa; Renato Campos, e o outro Luiz Borini, não sei onde está. Não encontrei mais. M

P - Foi aquele sonho antigo de ser propagandista? Vagner - Sim. Então, juntou a fome com a vontade de comer. Por muitos anos eu esqueci daquela idéia de ser propagandista. Tive outras prioridades, outros sonhos e foi justamente quando eu comecei a freqüentar essa igreja, em 1976 que eles falaram: "Você não quer ser propagandista? Estão precisando de propagandistas." M

P - Qual é a igreja? Vagner - Igreja Evangélica de Indianópolis. O movimento Gospel, de música em São Paulo, começou lá. É uma igreja que nasceu de um trabalho que era feito com jovens viciados. Esses jovens além de viciados eram cabeludos, um semblante bem carregado e padrões culturais bem diferentes do que uma igreja convencional. Então as igrejas não aceitavam esse pessoal. Eles queriam ajuda e não tinham ajuda. Ninguém queria assumir um viciado. Ter um viciado dentro da igreja. Os caras queriam na igreja um cara limpinho, bonitinho, já convertido de preferência, sem vícios. Ninguém queria assumir alguém que queria largar o vício. Então essa pessoa, que era o tio Cássio falecido já, começou a trazer essas pessoas para dentro da casa dele. Falava de Deus, falava de Jesus e ajudava naquelas crises de dependência das drogas. O cara entrava em crise mesmo, e ele ficava com essas pessoas dentro de casa, compartilhando até o mesmo espaço físico e com os três filhos. E aí eu comecei a freqüentar essa igreja. Por isso que o Movimento Gospel nasceu aí, porque esses caras se convertiam, realmente largavam as drogas, mas ele continuava com aquela cultura de bicho grilo, de fazer música, de querer tocar bateria, tocar violão. E as igrejas não aceitavam. Então eles começaram a compor música e o Movimento nasceu aí. Movimento Gospel no Brasil. No Brasil naturalmente. Hoje tem grandes bandas de música Gospel, grandes guitarristas que saíram todos da igreja lá. Eu conheci esses caras lá. Comecei a freqüentar, a bater papo com eles e aí falei dessa vontade de entrar no ramo farmacêutico. E o ramo geralmente gostava de cara casado, cara mais estável. E entrei na Sintofarma em 1976.

Entrada no Aché
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P - E depois da Sintofarma? Vagner - Fiquei um ano lá e aconteceu um fato, que eu acho que os mais antigos lembram: criaram um laboratório em São Paulo que chamava Joman de uma família. Até a gente brincava que Joman era Jovens Organizados_no Aché. E o Aché estava numa fase crescendo ainda. O Sintofarma, onde eu trabalhei, era maior que o Aché na época. E o Joman levou uma equipe inteirinha do Aché, que chamava Equipe ABSul que ficava na Av. Jabaquara, o escritório fazia todo o ABC e zona sul de São Paulo, isto é Jabaquara até o ABC. E esse laboratório ofereceu um salário bem mais alto para toda a equipe e alguns benefícios e levou toda a equipe, literalmente. Levou gerente, supervisor e propagandista. M

P - Do Aché? Vagner - Do Aché. Foi um desfalque. Acabou uma filial. Foi quando eu entrei, porque naquela época já não aceitava ninguém que tivesse experiência anterior. Eu já tinha um ano de experiência. E Maciel, que era um propagandista, um dos que não saíram e fazia Diadema me convidou e falou: "Olha Vagner, tem um monte de vagas lá. Se você está insatisfeito na Sintofarma, você não quer vir para o Aché?" Falei: "Vou." Aí vim, passei pela entrevista e comecei no Aché. M

P - Em que ano? Vagner - Em 1977.

Diferencial do Aché
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P - Qual foi tua primeira impressão do Aché? Vagner - Era muito dinâmico. Pessoal bacana, jovem. Mesmo os gerentes tinham 23, 24 anos. Um pessoal muito jovem e muito arrojado, muito atirado. Não aquela coisa meio convencional dos laboratórios multinacionais, e que são até hoje. Pessoal mais sóbrio, mais recatado. Era um pessoal bem a cara brasileira. Pessoal com jogo de cintura, bem ativo. E eu gostava. Eu era bem assim, bem elétrico. Então foi casamento feliz. M

P - Tinha um jeito de trabalhar diferente o propagandista do Aché em relação aos outros laboratórios. Vagner - Das multinacionais sim. Eles sempre achavam que o médico era um Deus. Não fazia nem cocô nem xixi. Era um Deus. O Aché e o Sintofarma - o Aché se espelhou também no Sintofarma - era um laboratório que tratava as pessoas como pessoas. O médico, para todos os efeitos era gente, tinha necessidades básicas, tinha anseios, sonhos, frustrações. A gente sempre tratou o médico de igual para igual. E não ele como um professor, um formador de opinião, mas como uma pessoa. Então, a gente sempre tentou ganhá-lo pelo relacionamento e não pelo racional. Primeiro que ele não é um laboratório de pesquisa, uma multinacional tem uma droga que pesquisou, detém todos os conhecimentos, trabalho. Tem mais para isso. Convence o médico pelo racional. E a gente, como era uma cópia desses produtos, a gente tinha que ir pelo emocional, relacionamento. Fazer amizade com o médico, estar sempre presente com o médico, visitá-lo bastante. Então, a gente fazia parte da vida dele. E aí foi o sucesso do Aché. Cresceu assim, com relacionamento. M

P - Outros laboratórios também usavam essa estratégia? Vagner - Não. Só o Sintofarma tentou, mas acabou não dando certo. Só o Aché. Eu me recordo bem. .

Concorrência
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P - Como era a situação da concorrência nessa época? Era forte? Vagner - Era. Talvez para época, mais forte do que é hoje. Você tinha os laboratórios tradicionais, que seria o Fontoura Wyeth, que não existe mais, tinha o Andrômaco, o Bristol. Laboratórios grandes. Clímax, vários laboratórios. Era difícil. Mas a gente ganhava. M

P - Multinacionais? Vagner - Alguns nacionais, alguns multinacionais. Já existia a Roche, a Wyeth, o Andrômaco que eram multinacionais. Tinha outros laboratórios. Era difícil também. Mas a gente abordava o médico de uma forma não convencional. M

P - Isso se traduzia no que? No material... Vagner - Não. Nas pessoas. No pique das pessoas. Geralmente eram pessoas que não tinham experiência anterior, geralmente vinham de bancos - a gente sempre tirou pessoal que era bancário, que era um pessoal que trabalhava para caramba, tinha muita responsabilidade e ganhava pouco. Então, ele vinha para o Aché ganhando até o dobro do que ganhava no banco. Pessoas mais jovens, mais alegres sem experiências anteriores, sem vícios no ramo. Então se relacionavam muito bem com o médico. M

P - Qual a razão de empregar gente que não tinha experiência? Vagner - Era por causa dos vícios. São pessoas que a gente gostava que tivesse a cultura do Aché, que aprendesse a trabalhar do jeito que o Aché trabalhava. Isso até hoje. Não mudou, não. Nossa preferência é por quem não tem experiência. E a gente queria que ele trabalhasse do jeito do Aché. Era muito difícil pegar alguém que já estava na indústria farmacêutica e fazer com que esse cara fosse mais solto, mais extrovertido. É difícil. Até hoje é difícil. Você vê um propagandista do Aché e um propagandista de uma multinacional, o cara é muito técnico. A técnica que ele usa é muito boa, para convencer o médico, mas não tem relacionamento. Ele vai sempre pelo racional. Não pelo emocional. M

P - E como se formava essa força de vendas? Eram essencialmente bancários? Vagner - Não. Uns de outros ramos. Tinha cara de escritório de contabilidade, tinha contador, mas a maioria era bancário. M

P - Por quê? Vagner - Porque era mais fácil. Era onde você tinha relacionamento. Você ia ao banco, via um caixa que atendia bem, um cara com a fisionomia boa. Geralmente o banco já fazia essa triagem. As pessoas para trabalhar com o público já tinham essa facilidade. Eram extrovertidas porque estavam se relacionando geralmente com o público. Então convidava. A gente passava, via e: "Esse cara dá para ser um bom propagandista". A gente convidava o caixa. Geralmente caixa de banco.

Trajetória no Aché
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P - Você ficou quanto tempo como propagandista? Vagner - No Aché fiquei um ano. Depois disso eu fui promovido para supervisor. M

P - O que fazia o supervisor? Vagner - Supervisor cuida de sete, oito propagandistas. Quer dizer, você praticamente trabalhava o dia todo com cada um deles, um dia no mínimo com cada um e passava tua experiência, que era pequena no meu caso. Passava como abordar o médico, fazer vendas. Naquela época se vendia ainda nas farmácias. Como se tirava pedido. Coisas desse tipo. Praticamente você transmitia a experiência que você tinha. M

P - Na época de propagandista, você tinha trabalhado em que região? Vagner - Quando eu entrei no ramo, fazia Diadema pelo Sintofarma. Quando eu entrei no Aché, fui fazer o bairro do Ipiranga e Cambuci. M

P - Aí, você estava em casa? Vagner - Estava em casa. Morava no Ipiranga. Fiquei um ano como Supervisor e depois eu fui promovido para gerente no Rio de Janeiro. M

P - Gerente fazia o que? Vagner - Cuidava de cinco supervisores e trinta e poucos vendedores. Propagandistas vendedores. M

P - A organização de forças de venda daquela época era diferente de hoje? Vagner - Praticamente é igual. M

P - É igual? Vagner - O formato é o mesmo da época. Teve uma época que nós tínhamos diretores de vendas. Agora recentemente. Naquela época não existiam. Existiam os diretores nacionais de vendas e existia o gerente de filial, que era o gerente que cuidava de uma região. Então por exemplo, eu cuidava do Rio de Janeiro só. O Rio de Janeiro geralmente tinha um para zona Sul do Rio de Janeiro e Niterói, tinha um que fazia a zona Norte do Rio e um que fazia o interior do Rio. Sempre foi dividido assim.

Mudança para o Rio de Janeiro
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P - Você mudou com a família para lá? Vagner - Com a família para lá. Nessa época o Luciano já tinha nascido. Eu casei em 1975 e Luciano nasceu em 1977. Nós fomos para lá com ele pequenininho e aí nasceu a Juliana. Eu fiquei três anos e meio no Rio e nasceu a Juliana, carioca. M

P - Vocês foram morar aonde? Vagner - Na Tijuca. Perto da Praça Saens Peña. A quinta travessa depois do Estádio do Maracanã. A gente não ia ao Maracanã porque tinha medo, com esse sotaque. Geralmente o jogo era São Paulo e Rio. Então se você ia com esse sotaque e entrava na arquibancada errada, era pau mesmo. Então, a gente não ia assistir jogo. Mas ouvia. Ouvia o barulho do jogo. Não tinha jeito de dizer que era carioca. Não dava. M

P - Começou a curtir praia? Vagner - Nada. Não dava tempo. Naquela época as reuniões do Aché eram aos sábados. Todos os sábados. Então, como eu era gerente, então, eram todos os sábados. Propagandistas tinham um sábado sim, um sábado não. M

P - Era reunião de que? Vagner - Era de treinamento. A gente treinava para fazer a propaganda para os médicos. Então os ciclos promocionais mudavam. Por exemplo, durante 15 dias você propagava um produto, depois 15 dias você propagava um outro produto. Então, essas reuniões eram justamente para treinar o que a gente ia fazer na frente do médico. M

P - E quem participava? Vagner - Os propagandistas, os supervisores e o gerente. Então os propagandistas tinham reunião um sábado sim, um sábado não. E o gerente e os supervisores todos os sábados. M

P - Como se chamavam essas reuniões? Vagner - De treinamento ou de ciclo. M

P - E aconteciam aonde? Vagner - Na filial. As filiais sempre comportavam esse número de pessoas. M

P - Nessa época o propagandista ainda vendia? Vagner - Vendia. M

P - Tinha estoque na filial? Vagner - Sim. Em algumas filiais tinha estoque não só de originais como de amostras grátis. Que as amostras iam de São Paulo para lá e eram divididas para cada um dos representantes.

Amostras Grátis
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P - Havia uma política grande de distribuição de amostras? Vagner - Sempre. Esse foi o grande diferencial do Aché. Sempre entregou uma quantidade muito grande de amostras.Que amostra era experimentação. Então, quanto mais amostras deixar pro médico, mais pacientes vão estar experimentando o produto e o médico tem um retorno que realmente o medicamento funcionou. Então, sempre é usada pelo marketing convencional, o marketing de consumo, que é massificação. Em geral é experimentação. M

P - E era diferente dos outros laboratórios? Vagner - Sim. As multinacionais geralmente deixavam o original ou deixavam uma amostra só. Quando o médico era muito importante, de uma especialidade que fosse importante para o produto, eles acabavam deixando um original. Mas o original trata um paciente. A gente sempre deixou o início do tratamento. O paciente entrou no consultório, está com dor de garganta ou está com uma dor de cabeça, o médico dá o tratamento para ele. Sai com pelo menos dois dias de tratamento. Então o médico dá uma amostra, dá uma receita e fala: "Você começa tomando esse produto e vai comprar na farmácia." Então, era o início do tratamento. M

P - Isso significava o quê? O propagandista trabalhava com a maleta cheia? Vagner - Cheia. Muito cheia. Pesava para caramba. Principalmente quando a gente visitava Pediatra, que tinha que encher a mala de vários produtos que eram líquidos. Então, pesava para caramba. M

P - E eles recebiam essas amostras uma vez por semana? Os propagandistas? Vagner - Os propagandistas sim, praticamente. Porque o ciclo era quinzenal. A cada 15 dias mudavam os produtos, então toda a semana ele estava recebendo os produtos. E a gente tinha que guardar em casa porque a quantidade era grande. Você tinha que ter um quartinho para guardar as amostras. Que era uma quantidade enorme.

Vida familiar
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P - E manter as crianças afastadas? Vagner - As crianças ajudavam a classificar, separar as amostras. M

P - Você lembra disso na tua casa? Vagner - Claro. M

P - Como era? Vagner - Tinha um quartinho que a gente guardava todas as amostras . A esposa geralmente separava por etiqueta, por ordem alfabética. M

P - Todo mundo trabalhava. Vagner - Ah.Todo mundo trabalhava. M

P - E os filhos ajudavam como? Vagner - Ajudavam a encher a mala. Pegavam caixa para gente. Sempre participaram do meu trabalho. M

P - E nessa época você saia de carro? Vagner - Sim. M

P - Era carro próprio? Vagner - Até supervisor, era carro nosso. Era carro próprio. Depois de gerente, já tinha um fusquinha.

Campanha do Iskemil
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P - Nesses primeiros anos de Aché até chegar a gerente, teve algum lançamento, algum produto que ficou mais marcado para você? Vagner - Acho que Iskemil. O Iskemil e Energisan que eram dois produtos que eu gostava bastante. M

P - Por quê? Vagner - Porque eram mais complexos. Era mais difícil de entender e eu tinha uma certa facilidade com esses dois produtos. Geralmente acontece até hoje. O propagandista se encanta por algum produto, adota e é o produto que ele fala com mais força, com mais empolgação. Geralmente é o produto que ele conhece mais. M

P - Como era a campanha do Iskemil? Vagner - Iskemil, a gente falava que era um produto que tinha uma ação anfótera. Esse foi um termo que o Victor deve ter pesquisado essa ação. Era um termo que a gente usava e que na época causava o maior "frisson". Ação anfótera. Ele agia como vaso dilatador em presença de vaso constrição e de vaso constritor em presença de vaso dilatação (risos). Servia para tudo. E o médico achava o máximo o produto. Marketing. Marketing puro. E não tinha nem trabalho quase para comprovar isso, que realmente o produto agia dessa maneira. Mais era a convicção com que você falava, que fazia com que o médico ficava convencido que realmente ele fazia tudo aquilo.

Marketing do Aché
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P - O Marketing do Aché também tinha algum diferencial? Vagner - Tinha nesse sentido. Sempre tentou levar alegria. A multinacional sempre mostrava as patologias. Era uma peça promocional não marqueteira. Uma peça promocional científica. Muito texto, pouca imagem, que era um trabalho. A nossa sempre teve imagens, fotos de pessoas, geralmente em momentos de descontração e lazer. A gente falava que o médico se confundia. Podia ser um médico no momento de lazer, porque para prescrever o produto certo e podia ser um paciente que foi bem tratado por um médico e que está num momento de descontração e lazer. A gente sempre tentou mostrar o lado positivo da patologia e não o lado negativo. E as multinacionais sempre mostravam a doença em si. Se o produto era cicatrizante, mostrava uma ferida. Uma perna com um machucado. Um negócio bem "down" assim. E a gente não. A gente mostrava um cara jogando bola. Quer dizer: Ele teve aquela doença, a perna estava daquele jeito, mas ele foi curado e está bom e está jogando bola. M

P - Teve alguma campanha que você achou especialmente criativa? Vagner - Todas. É difícil você dizer qual não foi criativa. Tanto é que está aí o sucesso do Aché. Tinha produtos que eram semelhantes aos multinacionais, que eram os donos da pesquisa, e a gente sempre se deu bem. Então, todas foram criativas. E o propagandista acreditando na campanha, dá vida à campanha. Essa é a verdade. Se ele acreditar no produto que está vendendo, ele mesmo confiar...

Reuniões de treinamento
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P - E como é que fazia para o propagandista acreditar naquele produto? Tinha um segredo do treinamento? Vagner - Eram as reuniões de treinamento e de venda. O cara saia empolgado de lá. E a gente ganhava pela venda. Pela performance de venda do produto. Então, cada setor tinha um salário diferente, que eu podia fechar com 100%, outros com 80. A gente ganhava muito bem, porque o salário fixo era muito pequeno. Era um salário mínimo, registrado em carteira. O resto era comissão. Você tinha que vender realmente para ganhar dinheiro. M

P - Na proporção da venda de cada um. Vagner - É. Pela tua performance individual no teu setor. M

P - Eu te perguntei das campanhas criativas porque eu lembro que uma vez você comentou uma da bala de banana. Vagner - Isso foi agora, na minha volta. M

P - Mais recente? Vagner - Essa tem já uns oito nove anos.

Marketing do Aché
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P - Como é que foi essa campanha? Vagner - A gente tinha um produto muito parecido com os produtos que tinha no mercado. O único diferencial do produto era que tinha sabor banana. E o concorrente não tinha sabor nenhum. Então a gente falou: "Bom. Vamos evidenciar o que a gente tem." O marqueteiro é assim. Você tem que ter pelo menos um diferencial para você poder falar. Aí o diferencial era o sabor. E a gente não tinha muito dinheiro para dar amostras do produto, porque as amostras eram equivalentes a um original. Então nós fizemos uma contraproposta: Não dá para dar amostra, então vamos dar bala de banana. Daí eu fui numa distribuidora de doces, encontrei uma bala de banana, experimentamos, era a bala Rivera realmente era gostosa. E começamos a dar para os médicos essa bala. E foi um sucesso. Foi o grande diferencial. A gente não deixava o produto. Deixava a bala de banana. Um pacote com 12 balas de banana. E isso foi o sucesso do produto. Só tinha isso para falar. M

P - Isso na época em que você já estava envolvido... Vagner - Já estava no Marketing.

Trajetória fora do Aché
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P - Eu queria entender como é que você começa a trabalhar no Marketing? Antes disso por que você foi para o Rio como gerente? Vagner - Depois, eu saí do Aché. Eu fiquei no Rio três anos e meio, a esposa não se ambientou lá e queria voltar para São Paulo de qualquer jeito. Eu pedi transferência para São Paulo, consegui a fórceps vir e aí chegando em São Paulo, eu não encontrei o que eu tinha no Rio. Porque é diferente você ser gerente fora da matriz. Porque lá você decide, você tem que fazer as coisas, tomar decisões e torcer para que sejam certas e depois você comunicar. E chegando em São Paulo você é totalmente dependente da matriz. Tinha várias pessoas influenciando teu trabalho. Então você não conseguia levar a equipe do jeito que você estava acostumado e que você acreditava. Também o salário menor do que eu tinha no Rio de Janeiro eu fui o segundo lugar no Brasil então, eu ganhava muito bem. Aqui em São Paulo assumindo uma divisão que era a Novoterápica, que foi da Bracco italiana e o Aché comprou. E os produtos da Bracco não eram vendáveis como os produtos do Aché, então, você ganhava mal em termos de comissão. Fiquei descontente e saí. Pedi para ser mandado embora. M

P - Isso em que ano? Vagner - Isso foi em 1982, início de 1982. Saí e não tinha nada arrumado mesmo. Aquela coisa de espanhol maluco. Acabei saindo por sair. Não tinha nada arrumado. Fui trabalhar com móveis. Tinha uma fábrica de móveis aqui na Rua Augusta, chamava Móveis Jules, que eram móveis inteligentes, modulares. Naquela época não existiam móveis modulares. Fui tentar. Fiquei acho que uns dois meses vendendo móveis. Autônomo. Meu pai já fazia segurança numa concessionária de veículos que é a Sandrecar, lá em Santo André. Um biquinho, Chefe da segurança. Fui trabalhar de vendedor de carro, fiquei uns dois meses. Liguei para um amigo que trabalhou no Aché e trabalhava numa distribuidora de produtos farmacêuticos, que era a Distribuidora Irmãos Guimarães, que é a dona da rede Drogão, aqui em São Paulo. Eu liguei para vender um carro para ele, porque ele tinha sido meu gerente no Aché. Ele falou: "Vagner, o que você está fazendo aí?" "Estou vendendo carro para uma concessionária Ford." Ele falou: "Você não quer voltar para o ramo?" "Lógico. Sempre gostei do ramo." Ele falou: "Estou precisando de um supervisor no Vale do Paraíba, para essa distribuidora. Você vai ter que morar em Taubaté e vai viabilizar, saber se realmente tem condições de a gente continuar lá com aquele pólo de vendas no Vale do Paraíba ou não. Se você achar que deve fechar, tudo bem. E aí você vem para São Paulo." Aí eu fui lá para o Vale do Paraíba. Fiquei um ano morando em Taubaté. M

P - Na área de distribuição? Vagner - Na área de distribuição. Eu só fazia vendas, distribuía alguns laboratórios. Eu fiquei lá praticamente um ano, morando num hotel. Vinha de sábado para São Paulo á noite e na segunda feira às sete horas da manhã tinha que estar em Taubaté abrindo o depósito. M

P - A família já tinha crescido nessa época? Vagner - Já. Já estava grande. Fiquei cinco anos na Distribuidora Irmãos Guimarães. Realmente, depois de um ano a gente viu que não tinha condições de ficar lá. A concorrência era muito grande e eficiente no Vale do Paraíba. Teria que investir muito na região, e eles achavam que não compensava. Vim para São Paulo e fiquei cuidado da área comercial, das televendedoras - naquela época já existiam as televendedoras - e dos vendedores autônomos. Aí fiquei lá, estava bem e um dia eu encontro um pessoal que é do ramo farmacêutico. Eram dois gerentes da Merrell, na época considerado o laboratório que pagava mais e tinha os melhores profissionais. Era um laboratório muito cobiçado por todos os integrantes da indústria farmacêutica. Eu sempre queria ir para lá. Ele passou: "Como vai? O que você está fazendo aqui?" "Estou trabalhando aqui na área comercial." "Mas você não quer voltar para o ramo farmacêutico?" "Mas eu estou no ramo." "Não, mas voltar para o laboratório?" " Bom, se for para Merrell, eu volto." Ele falou: " Olha, só que vai ser como propagandista. Vai começar do zero." Eu tinha sido gerente do Aché. Eu falei: "Bom, se é para começar tudo de novo, eu começo. Não tenho medo de começar do zero. Eu sempre fui propagandista. Não tenho vergonha de voltar a carregar pasta. Vou fazer sim." Daí entrei na Merrell. Fazendo um curso para ingressar na Merrell, ela foi vendida. Virou Merrell Lepetit. A Lepetit comprou a Merrell. Tinha praticamente dois meses de empresa, e todos as pessoas que me colocaram dentro da empresa foram demitidas. Do diretor até o gerente, o distrital. Eu fiquei mais um ano. Mas a chance de crescer era muito pequena. Primeiro que eu era um homem, uma pessoa que já tinha ocupado um cargo de liderança. Então existia aquele medo de sombra. Eu tinha sido gerente no Aché, tinha sido supervisor de distribuidora, e então o pessoal me perseguia muito. Os outros supervisores me perseguiam, tentavam em reuniões me colocar em situação difícil. Uma desgraça. Mas eu me saia bem porque tinha a experiência do Aché. Isso ajudou para caramba. Eu vi isso e falei: "Eu não vou ter futuro aqui. Eu quero crescer realmente, quero voltar ao status que eu tinha na minha situação de gerente, e não vou conseguir aqui." Esse pessoal que foi demitido, foi para um outro laboratório o Farmitalia Carlo Herba, laboratório italiano. Inclusive o Vaticano era um dos acionistas do laboratório. A Olivetti e o Vaticano. O pessoal falou: " Você não quer vir para cá? Você vem como carta marcada, logo a gente promove." Falei: "Está bom." Pedi demissão na Merrell e fui pro Farmitalia Carlo Herba. Mas vi também que não ia sair da promessa. Um laboratório que não tinha verba, não tinha investimento. Então fiquei mais um ano e falei: " Eu vou sair do ramo farmacêutico." E fui vender tecido. Trabalhava na Vicunha. Eu trabalhava com moda feminina. Tecido para moda feminina. Eu fazia de Jundiaí a São José do Rio Preto. Começava na segunda feira. Você vê que o espírito aventureiro sempre me perseguindo. Espírito de caminhoneiro também. M

P - Vendendo tecido? Vagner - Vendendo tecido. M

P - Para quem? Vagner - Para confecções pequenas e grandes. E lojas que revendiam tecido. Aí eu trabalhava de Jundiaí a São José do Rio Preto. Começava segunda feira em Jundiaí e terminava na quinta feira em São José do Rio Preto. Na sexta feira eu fazia a cidade de São José do Rio Preto e voltava para São Paulo. Fiz isso uns cinco anos mais ou menos. Morava no interior, porque ficava mais tempo fora de São Paulo do que em São Paulo. Mudei para Americana, cidade que era o pólo industrial de tecidos no Estado de São Paulo. Queria voltar para São Paulo. Saudades da família também. A esposa também os familiares, e queria voltar para a igreja. Estava fora da igreja há muito tempo. E resolvi largar toda a distribuição lá e vim abrir clientes aqui pela Vicunha em São Paulo. Estava nessa. Aí, eu senti que eu queria voltar para o Aché. Aliás, o Aché tinha me marcado bastante na minha vida. Aprendi a ser homem, aprendi a ser profissional, aprendi a ser pai, no Aché. O Aché tinha muito isso. Esse negócio de família. A gente vinha novinho para o Aché, não sabia nada ainda da vida, e geralmente a gente acabava casando. Alguns casaram logo que ingressaram no Aché, alguns já tinham recém casados e vinham para o Aché. E a gente convivia muito com pessoas com mais experiência. Eu lembro que marcou muito a minha vida, um gerente o Antonio, um turcão, que uma vez - eu era propagandista ainda - ele falou: " O que você vai dar de presente no dia dos namorados, para esposa?" Eu falei: "Não sei. Estou pensando em ver alguma coisa, uma coisa para casa." Ele falou: "Para casa? Isso não se faz para uma mulher." Isso em 1977. Você vê que era um cara de visão. Falou: "Para mulher, você tem que dar uma coisa pessoal para ela, Vagner. Vai dar alguma coisa para o lar? Pro lar você tem obrigação de dar." Isso marcou minha vida. Por isso que eu aprendi a ser pai, homem. No Aché. Tudo novinho, não sabia nada da vida ainda. E o Aché ensinava isso. O Aché ensinava que você tinha que se barbear, tinha que andar com as unhas cortadas, como você combinar roupas. Então isso marcou muito a minha vida.

Formação do Aché
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P - Tinha uma orientação assim? Vagner - Tinha. Total. De conduta mesmo. Conduta em casa. Se o cara não fosse um bom marido, um bom filho, não entrava no Aché. Antes de você ingressar no Aché, eles iam fazer uma pesquisa com a tua família, para saber se era tudo aquilo que você tinha vendido para eles na entrevista. Eles iam checar as informações. Então, a gente aprendia muito no Aché, e isso marcou muito a minha vida. M

P - Mas eram conversas informais, ou tinha momentos que o gerente chamava para conversar? Vagner - Informais, no dia a dia. Por isso que eu te falei que o papel do supervisor, o papel do gerente é de educador. Porque às vezes você tem que ensinar o cara. "Pô. Essa roupa não está combinando. Que tal você usar preto com branco em vez de preto com aquela ... (risos)" Preto com laranja hoje é legal. Está na moda. Naquela época era terrível. Você tem que ensinar tudo para o cara. "Olha, você tem que vir barbeado todos os dias" Então, tinha muito disso. E o Aché sempre foi muito família. A importância. Tanto que ele não pegava ninguém desquitado na época, ninguém divorciado, separado. O cara tinha que ter uma situação definida. Ou o cara era solteiro, ou era casado. Então começava por aí. M

P - E a convivência dos propagandistas, como era? Tinha essa coisa das pessoas se encontrarem, se tornarem amigas, freqüentarem as casas? Como era? Vagner - Tinha. Geralmente você escolhia, tinha uma ou duas pessoas que freqüentavam a tua casa. Sempre a equipe foi muito grande. Aquela coisa de empatia. Como a gente tinha reuniões quinzenais, você acabava se aproximando mais de uma pessoa do que de outra. Mas o Aché sempre prezou por isso. As pessoas eram bastante amigas. Ajudavam uma á outra.É isso que eu não encontrava na multinacional. Por isso que eu disse: "Se um dia eu voltar para o ramo, quero voltar para o Aché." Por isso que eu te falei. Na multinacional eu era perseguido por causa disso. Porque as pessoas eram assim. Você precisava assumir na hierarquia, Se o pessoal precisasse pisar na tua cabeça, usar a tua cabeça como degrau, ele vai fazer sem remorso nenhum. As pessoas são bem individuais. Cada um por si. E no Aché não. No Aché, um ajuda o outro. As pessoas são solidárias mesmo. Daí eu voltei para São Paulo, comecei a vender aqui, abri clientes em São Paulo, na Vicunha. Os maiores e melhores clientes já estavam abertos. Voltei para igreja, estava freqüentando a igreja e aí eu senti que eu queria voltar por Aché. E coloquei isso em oração diante de Deus. "Quero voltar para o Aché. Porque o Aché marcou minha vida. O Aché representa muito para mim." E também a minha família sabia que o Vagner do Aché era diferente do Vagner que estava no mercado. Como o Aché puxava muito pelos cursos, você estudar, você realmente tinha facilidade de memorizar coisas, tinha uma facilidade em relacionamento com as pessoas. Então, o Vagner autônomo, na época, era um Vagner diferente que lá no Aché. Um Vagner que não crescia profissionalmente. Ficou estagnado. Apesar de ganhar dinheiro, mas profissionalmente não crescia.

Diferencial Aché
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P - E como era essa possibilidade de carreira dentro do Aché. Tinha essa coisa de... Vagner - Sempre. O Aché sempre utilizava nas promoções, as pessoas de dentro da empresa. Nunca trazia de fora. Então você tinha condição de começar como propagandista, passar a supervisor, passar a gerente, a gerente regional, até chegar à Diretoria. Todos se fizeram assim. Ninguém começou como Diretor, no Aché. M

P - Quando surgia uma vaga? Vagner - Quem era o cara mais bem preparado para isso, qual o cara que tem as características de ser um líder e comandar uma equipe. Sempre foi assim. M

P - E ao mesmo tempo tinha aquela história do Aché ser uma escola. Quer dizer, a pessoa se formava no Aché e iam para outro laboratório. Vagner - Alguns iam. Hoje, talvez 80%, 70% da indústria farmacêutica de todos os profissionais passaram pelo Aché. Com certeza. Principalmente nos cargos de liderança. Porque o Aché pegava o cara que tinha todas as características para ser um bom propagandista, mas não tinha experiência. Ensinava esse cara como ser um acheano, não um propagandista. Um propagandista acheano. Que era um propagandista totalmente diferente do que a indústria farmacêutica criava. Então, ensinava o cara, tudo. O cara vinha de banco, não sabia nada de biologia, de química. Ensinava tudo. Então o Aché era uma escola mesmo. Ensinava anatomia, fisiologia, farmacocinética, farmacodinâmica, quer dizer, como a droga age, de que maneira age. Então o cara, em um ano praticamente, que levava para ficar pronto aprendia tudo do ramo. E já dentro dessa política muito mais arrojada, a dinâmica do Aché. Então o Aché era uma escola. O pessoal se encantava. Aquela idéia do cara de que tudo o que é bom é estrangeiro, então quando recebia um convite para ir para um laboratório multinacional, acabava se encantando. Porque o Aché não dava carro, o Aché não deixava estudar na época. Então às vezes o cara queria estudar ou precisava de um carro, e acabava saindo por causa disso. Mas não porque ele não gostasse do Aché. O Aché sempre deixou essa marca na gente, porque ensinou a gente tudo. Tudo o que a gente sabia, sabia por causa do Aché.

Volta para o Aché
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P - Tanto é que voltou? Vagner - Tanto é que eu quis voltar. Como eu te falei. Coloquei diante de Deus que eu queria voltar e aí liguei para o Adalmiro, que era um ex-presidente do Aché. Um acionista do Aché. Liguei para o Adalmiro, e falei com ele. Demorei uns três dias para conseguir falar com ele pelo telefone, estava na Prodome lá em Souzas. E a família toda também pedindo para Deus, para que Deus "aquebrantasse" o coração dele. Para que me aceitasse de volta. E aí eu conversei com ele: "Adalmiro, você se lembra de mim? Eu sou Vagner lá do Aché. Que fazia o Rio." "Lógico, eu lembro. Como você está? Tudo bem?" Comecei a bater papo com ele e então abri meu coração para ele. "Olha, eu estou arrependido de ter saído do Aché." Ele falou: "É. Você não confiava em mim. Você não confiou em mim. Eu sabia que você tinha uma carreira dentro do Aché, e você largou." Eu falei para ele: "Olha, teve umas circunstâncias que me levaram a tomar essa decisão de sair, mas eu nunca me senti bem fora do Aché. Minha família sabe que o Vagner do Aché é um Vagner diferente. Eu quero voltar para o Aché. Quero voltar para o ramo, mas quero voltar para o Aché." Ele falou: "Bom, você quer voltar como propagandista?" Eu falei: "Não. Quero voltar como gerente." "Mas como? Você quer voltar como gerente?" "Eu quero voltar como gerente." Porque eu tinha colocado diante de Deus que eu queria voltar como gerente. Então, eu estava firme no meu propósito. Eu falei: "Eu acho que eu mostrei para você do que eu sou capaz. Então eu não preciso começar como propagandista só para mostrar para você do que eu sou capaz. Eu quero começar onde eu parei. Eu quero começar como gerente." Ele falou: "É, mas eu não mando mais nada na empresa." Brincadeira. "Não mando mais nada na empresa, hoje é o Natale. O Vavá que era um dos diretores acionários. Você lembra deles?" Falei: "Lógico." "Então. Eles é que mandam na empresa. Você vai lá. Eu vou falar com eles, e se eles te aceitarem, eu vou marcar uma entrevista com você." Isso levou praticamente uma semana. Isso foi em 91 e aí ele pediu para que eu fosse no Aché, para conversar com o Vavá. Vavá é o Valdemiro Gouveia, que vocês devem ter falado com ele. Vavá foi um dos fundadores do Aché. Na área comercial. O Vavá, é lógico lembrou de mim, evidente. Passamos cinco anos juntos, cinco anos e meio. Aí conversei, contei toda a história da minha vida para ele. Isso o que eu estou contando para vocês, eu contei para ele. Ele ouviu pacientemente e falei que queria voltar para o Aché e tal. Ele falou: "É, eu tenho uma vaga aqui, mas não é na minha área." Ele era da área comercial. Ele falou: Você lembra do Júlio Cezar, que era gerente lá no Rio com você?" Falei: "Lembro." O Júlio cuidava de uma zona, como eu falei, da zona Norte do Rio e eu cuidava da zona Sul do Rio. Ele ocupava o mesmo cargo que eu, só que ali ele já era diretor. Diretor de Marketing. Ele falou: " O Júlio está precisando de um cara. Se você quiser conversar com o Júlio." E aí revi o Júlio que era um paulista também, que passou por várias provações lá no Rio, como paulista. E aí conversei com o Júlio, nós saímos, e ele falou que estava montando o Departamento de Marketing. Tinha saído da área comercial e estava montando o Departamento de Marketing e se eu queria vir para o Marketing. Aí eu falei que sim. Voltando para o Aché, cargo de gerente, como eu queria. E aí eu entrei no Marketing, como gerente de produto pleno, em 1991. Eu saí em 1982 e voltei em 1991. M

P - Por que até então, não existia uma área de Marketing? Vagner - Existia. Era seu Victor Siaulys que cuidava do Marketing. Ele, o Paschoal Milito Neto. O Marketing estava acontecendo com estrutura. Era um profissional cuidando não 100% do Marketing. Porque o seu Victor dividia parte do trabalho que ele fazia dentro da direção da Companhia com o Marketing. Não era uma pessoa que estava 100% no Marketing. Não tinha tempo para isso. Aí começou a existir o Departamento de Marketing, com profissionais só pensando em Marketing.

Diferencial do Aché
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P - E você encontrou a empresa já numa situação comercial diferente? Já tinha outro porte? Vagner - Sim. Maior é claro, evidente. Aché bem maior, mais profissionalizado. Profissionalizado em termos de estrutura não de pessoas. As pessoas sempre foram profissionais. Mas cresceu guardando aquela característica principal do Aché, de dinamismo, das pessoas mais arrojadas, mais atiradas. Alegria das pessoas que gostam, que vestem a camisa. Que eu não encontrei na multinacional. As pessoas trabalham pelo dinheiro, pelo salário e não por amor á empresa. São pessoas profissionais. Se o cara vier oferecer centavos, o cara sai porque não tem amor à empresa. E no Aché, a gente trabalha muito por amor à empresa. Gosta. M

P - E de onde vem esse amor? Vagner - Acho que por causa disso. Do namoro no início. O Aché ensinou você a trabalhar. Então isso a gente nunca vai esquecer na vida, como a gente não esquece da primeira professora. A gente não consegue esquecer do Aché. Então, você vem e fica no Aché por amor mesmo. Você não olha mais nem salário. As cantadas das multinacionais geralmente eram os salários maiores, e você não ia. Você sabia que não ia encontrar isso. E eu só fui para multinacional porque eu estava fora do ramo. Dentro do Aché, eu recebi vários convites para sair e não saí.

Dia-a-dia do Gerente de produto
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P - E você foi fazer o que na área de marketing? Vagner - Gerente de produto. Gerente de produto pleno. Cuidar de um grupo de produtos. Aí a parte de propaganda, de marketing mesmo. Bolar as campanhas, as literaturas, o enfoque que você vai dar pro produto. Você cuida da vida do produto. Vai tentar fazer melhoria nos produtos, na embalagem, sabor... M

P - Na década de 90, quais eram os grandes sucessos do Aché? Vagner - Continuava sendo aqueles produtos antigos. M

P - Quais? Vagner - Era o Combiron, Carnabol. Já tinha a Merck Sharp & Dohme, que é a Prodome. Tinha a Aldomet, Moduretic, produtos já de grande vendagem. Colpistatim continuou vendendo, que era do Aché. O Aché sempre teve uma linha, que até hoje vende. Que é "case" da indústria farmacêutica, um "case" para marketing para produtos que geralmente tem um ciclo de vida . E esse ciclo de vida nunca chegou aos produtos do Aché. O Aché não acreditava na teoria de ciclo de vida. Achava que enquanto a gente continuasse propagando os produtos, acreditando na propaganda, os produtos continuavam vendendo. E realmente foi isso que aconteceu. E até hoje são produtos que vendem muito bem, e são produtos muito antigos.

Marketing de produtos
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P - E o que vai se renovando? São as campanhas desses mesmos produtos? Vagner - Exatamente. A forma com que você aborda o médico, alguma coisa diferencial que você descobriu no produto. Praticamente o que vende o produto, é a mágica do Aché o relacionamento. Os propagandistas se relacionam muito bem com o médico e então o médico acaba prescrevendo mais pelo propagandista que pela empresa. E isso é uma verdade. Se você perguntar para um médico hoje, de que laboratório pertence tal produto, ele não sabe. Muitas vezes ele prescreve pelo representante. M

P - E como o Marketing, a campanha a embalagem, a literatura, ajuda nessa conquista do médico? Vagner - Ajuda por ser uma ferramenta pro propagandista trabalhar. Por que ela por si não vende. Uma embalagem bonita não vende, se não tiver um apelo de Marketing, uma campanha e alguém que fale. Quer dizer, na mídia convencional você compara segundos na televisão e paga uma fortuna, para atingir o público. Um possível comprador. Na propaganda médica é isso. Você tem que colocar a ferramenta na mão do propagandista, para que o propagandista fale com o médico. Então a gente tenta fazer campanhas humoradas, bem humoradas, brindes para você entregar para o médico... M

P - Tem algum brinde assim que exemplifique bem o estilo? Vagner - Aquele que a gente fez a bala de banana, foi um brinde. Nós tínhamos o Novatrex sabor morango. Então entregava bala de morango para o médico. Para o médico se lembrar do produto, que o produto tinha um sabor agradável. Então ele acabava associando que a bala de morango era tão boa quanto o produto. Ele não ia experimentar o produto. Sempre estratégias assim bem boladas de Marketing. Então, praticamente o Marketing faz isso. Que dizer, tenta buscar obviamente algumas coisas novas pros produtos, alguma indicação nova. Mas normalmente você faz uma peça promocional para que o propagandista facilite a abordagem que ele está fazendo ao médico. Mas geralmente é o propagandista que dá vida à peça. Geralmente não. É só o propagandista que dá a vida.

Marketing para farmácia
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P - A propaganda do Marketing incluía a farmácia? Ou não? Vagner - Na época que eu voltei não. M

P - Isso começa depois? Vagner - Começa depois. A gente sentiu a necessidade de realmente fazer uma campanha voltada para as farmácias. Isso mudou de quatro anos para cá. M

P - Mais recente? Vagner - Mais recente. Sempre fez, mas isso não fazia parte da estratégia da companhia. Isso era mais da estratégia do gerente de Marketing que achava por bem tentar fazer uma aproximação nas farmácias. Não era uma estratégia da companhia, o relacionamento com a farmácia. Porque a gente já não vendia mais. Quem fazia a venda era o distribuidor. Então, depois veio o Serra, nosso ministro, dois anos para cá praticamente e permitiu que acontecesse a troca dos produtos genéricos. Dos produtos de marca pelos produtos genéricos. Então daí sim é que houve a necessidade de a gente estreitar nosso relacionamento, ou voltar ao relacionamento com as farmácias. O balconista trocava a receita. A receita que o cara demorava tanto para conseguir, o balconista trocava e muitas vezes não era nem por genérico. Era por um produto que nem genérico era. Que era produto bonificado. M

P - E aí começa uma campanha específica paras farmácias? Vagner - Sim. Aí nós começamos realmente a pedir para o propagandista visitar assim uma farmácia por dia. Isso nós começamos no ano passado, que ele fizesse, além dos médicos visitasse a farmácia, para que a receita tivesse uma cara. Relembrando um pouco do passado, que na época que a gente vendia, o Aché nunca teve uma condição comercial boa frente aos concorrentes. Geralmente os concorrentes sempre davam um desconto maior e davam um prazo maior. Mas como a gente tinha um relacionamento muito grande nas farmácias do setor, visitava os médicos e vendia nas farmácias. E você girava. O cara podia não gostar do laboratório, saber que o laboratório não tinha condição de pagamento melhor, desconto, mas ele era obrigado a comparar porque tinha demanda. Se não comparasse o Aché, ele perdia dinheiro. Então, a gente conseguia vender. Por quê? Porque a gente estava lá, estava presente. A gente conhecia o dono da farmácia, conhecia o nome dele, conhecia os hábitos dele, se ele gostava de pescar, o hobby deles, essas coisas. Conhecia os filhos, a família do dono da farmácia. Então o cara não gostava do Aché, mas gostava do Vagner. Então o ano passado nós tivemos essa estratégia. Eu sempre disse: "Se a receita tiver uma cara, se a receita chegar na farmácia e o cara lembrar que aquela receita é do Vagner que é do Aché, ele vai sentir remorso para trocar." Como a gente está ausente hoje, ele não sente remorso nenhum. Então nós falamos: "Nós temos que voltar ao passado. Resgatar aquele relacionamento que a gente tinha com o farmacêutico. Com o dono da farmácia. Não era farmacêutico. Era o farmacista. E com o balconista, porque na hora que ele está precisando de um medicamento para o filho dele, só tem uma chance de comprar com desconto dentro da farmácia onde ele trabalha. Agora se eu sou propagandista, passo na farmácia, estou sempre na farmácia e eu sei que o filho dele está doente, eu vou dar um antibiótico, um tratamento para o filho dele, que custa no mínimo 100 reais. Então, o dia que cair a receita, ele vai sentir remorso. Vai dizer: " Pô. esse cara, quando eu precisei, ele me deu remédio. Agora eu não vou fazer isso com ele." É por isso que eu falo: "Quando a receita passa a ter uma cara, ela não é trocada."

Marketing para os estudantes de medicina
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P - E em relação aos estudantes? Tem uma coisa assim de ter uma atenção específica para os estudantes de Medicina? Vagner - Isso foi um dos motivos que o Aché cresceu bastante. Como eu te falei, a multinacional sempre tratou o médico de uma forma diferente. Não vou dizer respeitosa, porque nós sempre respeitamos, mas uma forma de abordagem diferente. Nós sempre tratamos o médico de igual para igual. E o Aché no início, na fundação sempre conversou com quem estivesse de branco. Aquela brincadeira no ramo. A gente falava com pai de santo, falava com barbeiro, cozinheiro. O cara estava no hospital, de branco, a gente falava. E depois perguntava se ele tinha CRM, quer dizer se ele era formado ou não. Se ele fosse estudante de Medicina ele recebia a propaganda normal e a multinacional não fazia isso. A multinacional primeiro perguntava a especialidade, o CRM, para depois fazer a propaganda. Então, se o cara era estudante, não recebia propaganda de multinacional. O Aché nunca fez distinção. O cara está de branco, é primeiro ano de Medicina, é médico. Eu vou falar com ele. M

P - E isso foi o tempo todo? Vagner - Sempre. Depois nós abandonamos. Há uns 10 anos atrás, nós abandonamos esse trabalho. Começamos a já não ser tão presente assim nas Faculdades de Medicina e de uns cinco anos para cá, nós abandonamos de vez os estudantes. E era um trabalho fundamental, porque o cara já aprendia a respeitar o Aché pelas pessoas que trabalhavam. O propagandista chegava a fazer parte da vida do médico. O médico quando estava no primeiro ano já se visitava ele. No segundo ano, visitava. Terceiro, quarto, quinto, sexto ano. Ele se formava. Continuava a ser visitado pelo Aché. Então ele lembrava do passado onde você era o único laboratório que visitava ele, na época que ele estava estudando. Então, você começava a fazer parte da vida do médico. O médico lembrava com carinho de você, porque você visitou ele sempre. Então nós começamos agora, do ano passado para cá, visitar esses estudantes de Medicina. Montamos uma equipe de 200 homens no Brasil, que 70% do potencial deles são estudantes de Medicina. M

P - Nas faculdades? Vagner - Nas faculdades. Então a gente fala hoje com o professor, chefe de cadeira, preceptores, que são aqueles caras residentes, que tomam conta de grupos de estudantes, e os estudantes de Medicina. Então quando eu vinha para cá, eu vim da Faculdade de Medicina do ABC. É muito legal. Um relacionamento que realmente cria raízes. Você começa a ajudar os médicos. Então, a gente está patrocinando a Olimpíada que vai ter agora com os estudantes de Medicina. A gente faz camisetas para o time. Então, você começa a fazer parte da vida deles. E você não vê ninguém lá. Eu passei a manhã toda, saí de lá 15 horas do ABC para vir para o estúdio, eu não encontrei um concorrente. Tinha um chegando da Boehringer. Estava chegando agora. E eu estava desde as sete horas da manhã falando com professores, relacionando com esse pessoal. Exatamente porque você é propagandista, você entrou numa sala de aula para fazer propaganda do Aché. A professora ia dar uma aula, uma pediatra, e ela deixou o propagandista entrar porque ele ia sortear um "Vademecum" aquele livro onde consta todos os produtos fabricados no Brasil por ordem alfabética. É a bula. Seria um tipo pegar todas as bulas de todos os remédios que são fabricados no Brasil e fazer um livro. Isso se chama "Vademecum". Ele ia sortear na sala de aula. Então, todos alunos lá esperando a professora para fazer a aula, uma professora de renome lá na faculdade do ABC, de Pediatria, então ela deixou o propagandista falar. "Olha, tem uns rapazes aqui, que tem patrocinado a gente, tem ajudado muito a faculdade, e eu gostaria que vocês dessem uma atenção para ele." Aí o cara foi lá para frente: "Meu nome é...,sou propagandista do Aché, eu tenho feito um trabalho assim de aproximação da faculdade e esse trabalho consiste em hoje estar sorteando esse "Vademecum" para vocês." Falou do Aché, falou que o Aché é um laboratório nacional. O cara não vai esquecer. Não esquece nunca. M

P - E quem ganhar o livro então, nunca mais? Vagner - Você vê como esse trabalho é importante, que uma professora antes de dar aula, deixa que um propagandista fale com os alunos. Uma coisa que não existe. Não tem isso. Imagina.

Marketing e parcerias
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P - Como foi a sua trajetória na área do Marketing, depois que você voltou? Como gerente de? Vagner - Gerente de Produtos. No marketing tem Gerente de Produtos júnior, pleno e sênior. Então, como eu tinha colocado diante de Deus que eu tinha que voltar e já tinha estipulado diante de Deus que eu queria o salário que eu tinha, que eu estava tirando aqui em São Paulo...Falei: "Não posso perder. Na Vicunha tinha alguns clientes, mas não posso perder." Vou tentar colocar o salário. Então, para que eu tivesse o mesmo salário que eu estava ganhando na Vicunha, eles me colocaram como gerente de produtos pleno, que seria o segundo estágio. Daí eu comecei a trabalhar com os produtos da Prodome. Depois eu passei para gerente de produtos pleno, que seria o último estágio como gerência de produto, e aí foi muito legal porque fui ser gerente de produto pleno, na Novoterápica de medicamentos. E depois disso fui promovido para Gerente de Grupo de Produtos. Até o Emílio, que hoje divide a Gerencia Nacional comigo, era meu gerente de produto. Era meu propagandista e foi promovido para o Marketing. Então, a gente não tinha dinheiro para fazer nada. A verba que a gente tinha, pela venda dos produtos - sempre você pega um percentual do que você estima vender - você pega, por exemplo, 7%, 6% - e vai usar em Marketing. Vai se usar em Marketing a amostra grátis, o custo da equipe e tem todos os outros custos que você tem que somar, para você chegar em quanto você pode gastar para promover o produto. Então a gente chegou á conclusão que não tinha dinheiro para fazer nada. Tinha alguns produtos que nem para dar amostra. Eu falei: "Nós precisamos inventar alguma coisa." E aí começou o Coomark. Eu peguei a Vejinha de São Paulo, comecei a olhar e tinha lá: Circo Vostok em São Paulo. Aí liguei para o circo. E falei: "Vamos ver se a gente consegue fazer uma parceria com o circo Vostok." Eu nem sabia que existia Departamento de Marketing no circo. Liguei para o Circo Vostok e falei: "Queria falar com o Departamento de Marketing." E Acabei falando com o Alexandre Vostok, que é o dono do circo. E aí eu falei: "Olha, nós temos um público qualificado que são os médicos, formadores de opinião e tal.... E a gente queria ver se fazia um coomark: divulgar o teu circo, teu espetáculo aqui em São Paulo, em troca da alguns ingressos. Nosso propagandista pode entregar um panfletinho seu, do circo, nos consultórios." Daí ele falou: "Bom, eu vou mandar uma pessoa aí do Marketing, conversar com vocês, no Aché." A gente brincava até, que ia chegar a mulher barbada. Porque no circo, o pessoal é artista e faz outras atividades dentro do circo. Daí eles foram lá e eles falaram: "Nossa necessidade básica é fazer os cartazes para serem afixados em colégios, em postos." Aí nós tínhamos uma "house" dentro do Aché. Uma agência de publicidade dentro do Aché. Então ele falou: " Se vocês fizerem para mim o fotolito e a impressão, eu troco por ingressos." Quer dizer, eu não preciso pagar o ingresso. Eles trocam a troco do ingresso. Falei: " Pô. Legal. "Conversei com o meu diretor de Marketing e ele falou: "Vamos fazer. Vamos levantar o custo de quanto sai isso." E aí nos pegamos o custo, dividimos pelo ingresso e dava ingresso para caramba. Dava muito ingresso. Eu falei: " Só que eu vou fazer o convite para o circo tá? Vou fazer o convite para o circo com o nome do meu produto." "Não, pode fazer. Não tem problema." E aí nós fizemos. E aí o propagandista chegava lá no médico e falava: "Doutor, o Circo Vostok está em São Paulo (estava em Santo Amaro naquela época) e eu estou dando cinco convites para o senhor... (cinco não. Eu falei cinco, mas dependendo da família do médico) para o senhor e sua esposa e seus filhos." Geralmente o cara pedia cinco, porque tinha sobrinhos e tudo o mais. E ele podia escolher a cadeira. Ele ligava para o circo e dizia: "Olha, sou médico, estou com um convite do Aché e gostaria de ir ao espetáculo no sábado ou no domingo." Aí escolhia o horário e escolhia a cadeira. A cadeira preferencial numerada. E aí o pessoal, mesmo dentro do Marketing falou: "Esses caras são loucos. Você acha que um médico vai para o circo?" Era um sucesso. Nós ficamos praticamente dois meses com essa campanha, e aí o Alexandre Vostok ligou para mim e falou: "Olha, vamos parar com isso porque o espetáculo todo é de médico e eu não estou conseguindo vender ingresso, porque não sobra espaço." Primeiro tem que atender os médicos para depois abrir a bilheteria. E não estava dando. Só tinha médico. Lotava o circo. Daí eu liguei para VP, uma indústria de alimentos , que faz produtos dietéticos, adoçantes, geléias dietéticas, e propus a mesma coisa para eles. "Eu entrego o adoçante para vocês, para os médicos que vocês me dão, de graça, só que vocês vão colocar o nome do meu produto na caixinha de vocês. O adoçante eu entrego de graça para vocês." E assim nós começamos fazendo. Na época, só para você ter uma idéia de grandeza, nós chegamos a dar um carro Mitsubishi Lancia, de graça. Nós recebemos esse carro só em fazer a promoção da marca Mitsubishi para os médicos. Nós demos um Subaru Empresa. Hoje seria um carro equivalente a uns 50 mil reais, 45 mil reais. Equivalente a um Honda Civic hoje. Nós demos dois carros, de duas marcas diferentes. Nós demos um kit de sete cozinhas completas com forno microondas, geladeira e freezer, copa e um carro Fiat para os médicos que cozinhavam. Fizemos uma campanha de culinária. Nós tínhamos um produto, o Digeplus, que era para digestão, e como nós não tínhamos o dinheiro, conseguimos um coomark com uma empresa, e a empresa deu... A empresa era a revista Gula. Nós conseguimos sete cozinhas. Então, o médico tinha que mandar a receita - médico gosta muito de cozinhar, por incrível que pareça . E de comer também. Então eles mandavam as receitas, gente fazia uma triagem das melhores receitas o médico era convidado a vir para São Paulo para fazer a receita. Ele tinha que fazer o prato. E foi muito legal. Foi uma campanha que foi o maior sucesso. Para os sete que vieram para São Paulo, já ganhavam a cozinha. E a receita que fosse escolhida ganhava um carro. Fizemos com o Bolinha. O Bolinha, aqui dos jardins. O Pandoro. Tudo sem dinheiro. Tudo na base de troca. Chegava para eles e dizia: "Eu tenho um propagandista que vai levar tua marca, teu produto para um médico, que é um formador de opinião. Então se o paciente sabe que o cara é médico e está consumindo o teu produto, isso vai fazer com que a pessoa seja incentivada a comparar o produto que o médico está consumindo." Eu contava essa historinha e pegava. Dava certo. M

P - E isso era um ponto positivo para o médico. Vagner - Foi o grande diferencial. Por causa disso. Eu tratava o médico como consumidor. Quer dizer, se a multinacional fosse dar um brinde pro médico, dava um bloco de receituário, uma carimbeira, uma caneta para ele prescrever. Eu comecei a dar doce, comecei a dar chocolate, comecei a dar desodorante, comecei a dar passagem aérea, passagem de navio. Era sorteio. Comecei a dar ingresso para circo, ingresso para cinema. Que dizer, foi o grande diferencial. A gente tratava o médico sempre como pessoa, como um consumidor e não como um Deus. M

P - E? Vagner - E aí foi um sucesso. Aí deu certo para caramba. Sem dinheiro, nós conseguimos fazer o maior barulho. Começou a vender bem para caramba e crescer em receituário. E sem dinheiro. Sem gastar um tostão. A gente não tinha dinheiro. Foi um sucesso e incentivou a outras pessoas do Marketing a começar a buscar isso. E na época o Emílio, que foi gerente também nacional, era gerente de produto. Trabalhava comigo como gerente de produto e nós fizemos os dois - ele é meio maluco - e a gente conseguiu fazer bastante coisa.

Trajetória no Aché
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P - Isso alavancou a tua carreira? Vagner - Exatamente. M

P - O teu passo seguinte qual foi? Vagner - Gerente de Marketing mesmo. Já era Gerente de Produto nessa época e fui efetivado para Gerente de Marketing e fiquei esses últimos oito anos como Gerente de Marketing, até outubro do ano passado. Aí entrou toda essa mudança no Aché, entrou o Sérgio Vasconcelos que é o Diretor Comercial e de Marketing. E ele quis conhecer as pessoas com que ele ia trabalhar. Foi engraçado porque ele começou a entrevistar as pessoas e eu comecei a falar da minha vida profissional, e ele falou: "Não, você não entendeu. Eu não quero conhecer o profissional Vagner. Eu quero conhecer o Vagner." Aí eu comecei a falar da minha vida, da minha volta para o Aché. E aí ele falou: "Você gostaria de voltar para área comercial?" Falei: "Claro. Eu sempre fui propagandista. Meu sonho é voltar para área comercial." E foi o que aconteceu. Eu fui escolhido para voltar para área comercial. Como coordenador na época. Eu estava sozinho, coordenando toda o Departamento Comercial no Brasil. Depois que o Emílio veio, mais tarde. M

P - E atualmente o que você é? Vagner - Gerente Nacional. Eu e o Emílio.

Dia-a-dia do gerente nacional de vendas
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P - Hoje, como é um dia típico de trabalho? Vagner - Ultimamente, nos últimos meses, viajando bastante. Eu tenho parado pouco em São Paulo. Eu acho que as coisas acontecem no campo. Eu não posso cometer o erro do passado, onde os diretores e gerentes ficavam muito no escritório. Então, as decisões eram decisões de gabinete. O cara tomava decisões lembrando o passado do mercado farmacêutico do passado. E o mercado farmacêutico do passado não é o mesmo que o de hoje. É um mercado mais competitivo por causa dos genéricos, por causa da troca dos produtos na farmácia. Os médicos hoje também são diferentes. Os médicos têm menos tempo. Ganham menos e tem que atender mais pacientes. Então, o meu medo era de voltar a ser o gerente ou o diretor que era no passado, que era o cara que não ia a campo. O cara simplesmente era ausente do campo e as coisas acontecem no campo. Então, é lógico, essa fase de novembro para cá, até um mês praticamente atrás, era muito difícil, porque a gente estava coordenando tudo, estava colocando pessoas. Existiam vagas ainda, tinha que promover algum gerente, alguns supervisores. Então, a gente ficava muito no escritório. Então de dois meses para cá, eu tenho viajado bastante.E não quero conhecer as capitais. As capitais, é fácil você trabalhar na capital. Você vai muito nos bairros mais bonitinhos, onde tinha os consultórios bonitinhos, onde os médicos são os melhores médicos e são professores. Então você passa uma falsa impressão de que o Estado é aquilo. É como se eu levasse uma pessoa que chega no Brasil, para os Jardins. Para Paulista. O cara fica encantado. Agora, leva ele lá em São Miguel Paulista, em Pirituba, que ele vai ter uma outra idéia de São Paulo. E geralmente o médico lá de Pirituba e de São Miguel Paulista é diferente. Então, eu estou tomando uma decisão de conhecer as partes mais distantes das capitais. Tenho viajado bastante, ficado muito no campo. Hoje, eu fico só de segunda feira no escritório, onde eu despacho as coisas, as pendências e de terça à sexta eu fico no campo. Trabalho com o propagandista.

Vida familiar
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P - E sem ser o trabalho, o que mais? Vagner - É praticamente só o trabalho. Eu tenho uma chácara em Araçoiaba da Serra, que eu vou nos finais de semana. Mas geralmente eu vou no sábado de manhã - primeiro eu ia sexta, agora não dá mais tempo. Eu chego morto na sexta feira, não dá tempo de viajar - e aí eu fico na chácara. Eu gosto muito da vida do campo, da vida simples, rural. Tenho três cavalos lá na chácara e saio a cavalo no domingo. Quem me vê no final de semana nunca vai achar que eu ando assim. (risos) Ando de bota, calça jeans, camiseta e trabalho mesmo. Lá, se tiver que carregar madeira tiver que carregar tijolo eu faço. Gosto disso. Acho que é uma terapia boa. Trabalhar com a terra. M

P - E os filhos vão junto? Vagner - A menor vai. Tenho uma pequena de 13 anos. Essa vai. Acompanha. M

P - Como ela chama? Vagner - Ellen. M

P - E os outros? Vagner - São três. Luciano tem 24 anos, Juliana tem 22 anos, vai fazer 23 e a Ellen de 13. A Juliana é casada. Já não vai tanto. O Luciano é solteiro, tem 24 anos trabalha com propaganda, com publicidade, como diretor de arte. Então, ele já tem outras coisas para fazer do que ir para chácara. Lá é realmente rural. Não tem nada por perto. É mato mesmo. A Ellen já gosta mais. Talvez pela idade. Talvez quando chegar mais na adolescência não vai querer ir também, passar o fim de semana no mato. M

P - E depois dessa trajetória toda, o que ficou para o futuro? Qual é o teu principal sonho? Vagner - Na área da diretoria. Da Diretoria Comercial. Quem sabe Comercial e Marketing. Juntar as duas experiências: da área de Marketing e da área Comercial. Mas continuar no Aché. Pretendo me aposentar no Aché. Tive vários convites para sair, mas não me iludo mais com o canto da sereia. Quero continuar no Aché mesmo. Gosto do Aché. O dia que eu sair do Aché, vou tentar montar uma pizzaria, que eu gosto de culinária. Se for possível me aposentar no Aché e montar um negócio no ramo alimentício.

Trajetória de vida
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P - Para finalizar, como é que você vê essa tua trajetória de vida? Vagner - Por isso quando eu comecei a falar do meu pai, eu falei: "Eu acho que meu pai deixou para gente, na nossa vida profissional, um grande ensinamento que é isso: você não parar no tempo. Você não se acostumar, não se acomodar com as coisas." Então, eu acho que foi uma carreira bem sucedida. Lógico, o meu sonho era ser piloto, e se eu fosse piloto tenho certeza que estaria realizado, mas o meu outro sonho, como falei para você, era ser propagandista, quer dizer, entrar no ramo farmacêutico. Eu acho que estou realizado profissionalmente, acho que foi uma trajetória de sucesso, com a ajuda de Deus sempre. Deus me deu inteligência e capacidade, mas muito esforço, muito suor. Sempre trabalhando.Trabalhando muito duro, tentando trabalhar mais do que os outros. Tem pessoas que tem mais facilidade, talvez tenham que trabalhar menos. Tem que suar menos. E eu sempre achei que é no campo que a gente consegue as coisas. Com calo na mão, não adianta. Tentei me acomodar nos cargos que eu tive e que eu estou, sendo o cara mais de gabinete. Mas eu quero estar junto com o propagandista e sentir que quem está tomando as decisões é um cara que conhece o trabalho dele e respeita o trabalho dele. Então eu me sinto uma pessoa bem sucedida e principalmente por estar no Aché. É uma empresa que é muito o Vagner. Representa muito o Vagner, pelo jeito que o Vagner tem, pelo jeito que o Vagner é. M

P - O que você achou de ter contado um pouquinho da sua história? Vagner - Legal. Não sei se eu consegui contar tudo. Se eu fosse detalhar toda a minha vida, toda a história, a gente levaria algumas horas aqui. Mas foi gostoso. Foi bacana, e é bacana esse trabalho que está sendo feito de resgatar a história do Aché, que hoje, praticamente da minha turma eu sou o único, de todo esse pessoal que começou na empresa em 1977. Nós não temos mais ninguém daquela época. Então, a história vai se perdendo. Por isso que eu gosto muito do povo japonês. É um povo que resgata a cultura. Os velhos sempre contam para os novos toda a história da família. Então, isso é um meio de você preservar a cultura de um país, a cultura de um povo, e a cultura de uma empresa. É o que vocês estão fazendo. Acho bacana, porque a história do Aché não vai se perder. Porque realmente é atípica. É um "case." Não tem. Não vai encontrar outro Aché. Várias pessoas saíram da empresa tentando montar um "Aché" e todas quebraram a cara. O Aché são as pessoas que fazem o Aché. Esse espírito que reina dentro das pessoas, de ajuda mútua, de companheirismo. Então não adianta. Não adianta você levar um acheano para montar um Aché. Tem que levar todas as pessoas do Aché. E para levar todas as pessoas, tem que levar os fundadores do Aché. Não adianta. As pessoas isoladas não...Aquela história: "Uma andorinha só não faz verão." É isso. E várias empresas tentaram fazer isso realmente. Como eu te falei: quando eu entrei no Aché era assim. Eles levaram praticamente mais de 20 pessoas para um laboratório e falaram: " Com essas 20, eu vou fazer um Aché." E não fez. Não tem jeito de fazer um outro Aché. Então, eu acho que essa história deve ser guardada, não só para os funcionários, mas para a história da indústria farmacêutica. Uma história de sucesso de um laboratório nacional, que como outros nacionais resistiram á tentação de dinheiro -porque as multinacionais vinham para o Brasil querendo comprar e oferecendo dinheiro, uma soma altíssima para comparar os laboratórios no Brasil. E o Aché nunca viu o dinheiro. Nunca viu cifras. Viu pessoas. Viu um sonho. Sonho não se vende. Eles tiveram o sonho de ter o maior laboratório nacional, e conseguiram. Então, sonho não se vende, sonho não tem preço. Isso foi legal. Convém guardar essa história mesmo. São pessoas de sucesso. M

P - Obrigada pela participação. Vagner - Eu que agradeço M

P - Tenho certeza que você faz parte dessa história (risos) M

P - Muito obrigado. Vagner - Eu que agradeço.

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