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História

Vagem é vagem, batata é batata

História de: Lina Levi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/12/2012

Sinopse

Identificação. A infância na Bulgária e como a família enfrentou os tempos da Segunda Guerra Mundial. Casamento e ida, com o marido, para Israel, onde montaram uma loja. O início da guerra Yom Kippur em Israel e a imigração para o Brasil. O estabelecimento em São Paulo e a montagem da Casa Búlgara, há mais de 35 anos, que até hoje serve salgados típicos búlgaros aos mais diferentes clientes. O bairro do Bom Retiro, as principais transformações desde sua chegada e a abertura da loja.

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História completa

“Todo mundo na Bulgária gostou de ver os russos chegarem, porque aquilo significava que a guerra tinha acabado. Os alemães foram embora e todo mundo se deu muito bem nos primeiros dias. Mas, logo depois, eles começaram a mandar lá. Devagar, devagar, começaram a dar ordens e algumas pessoas foram até obrigadas a fazer trabalhos forçados. Decidimos, então, embarcar num navio e ir tentar a vida em Israel. A maioria dos judeus búlgaros decidiu fazer isso. Meu marido sabia fazer sorvete, queijo, iogurte, essas coisas, e foi assim que começamos nossa vida lá. O começo foi difícil, mas logo nos equilibramos e até nos mudamos para Tel Aviv, que era uma cidade maior. As crianças, quando nasceram, já não viam nada de ruim. Não sabiam o que era não ter isso, não ter aquilo. Tudo estava indo bem, mas aí começou a Guerra do Yom Kippur, que foi uma guerra muito dura, e aí meu marido falou: ‘Aqui eu não fico mais.’ Antes disso, já estava na cabeça dele sair de lá. Ele já tinha vindo para o Brasil um ano antes da guerra, se não me engano, e tinha ficado maravilhado. Gostou tanto que falou: ‘Se eu um dia sair daqui, vou para o Brasil!” A gente pensava que era na brincadeira, mas depois da guerra ele começou a falar sério: ‘Vamos lá! Se você gostar, a gente fica; se não, a gente volta.’ Nós desembarcamos em Viracopos. Não existia Cumbica ainda e os voos de fora pousavam em Viracopos. Era um dia lindo de novembro e estava calor. Tudo verde, muito bonito. Nós não tivemos muitas dificuldades porque sempre estávamos em família. Fomos bem recebidos e logo nos adaptamos. Quando eu percebi que íamos ficar por aqui, que meu marido estava bem, que meus filhos tinham se adaptado, resolvi que era hora de aprender a língua. No começo eu não entendia nada. A família só falava hebraico em casa e isso não ajudava. Eu nunca aprendia. Mas um dia eu falei: ‘Olha, não dá! Como que eu vou sair na rua se eu não entender a língua? Como vou saber as coisas?’ Então a primeira coisa que fizemos foi comprar rádio e televisão. Aí de manhã cedo já ligava o rádio para acostumar. Logo depois, chegou uma professora para dar lições para os filhos. Eu aproveitava para ficar junto lá com eles, olhando. E, quando a professora ia embora, eu falava em hebraico com meus filhos e eles me respondiam em português; e assim, devagar, eu fui aprendendo. Depois passaram três meses e a gente abriu a loja no Bom Retiro. E eu sei que devagar, devagar, comecei a captar tudo. Quando tinha que ir na feira, eu pensava: como eu vou falar o que eu quero? Aí mostrava para o vendedor e ele me falava: ‘Vagem’ ‘Ah, vagem.’ Aí, aprendi que vagem era vagem, batata é batata. Então, com a convivência, quando abrimos a loja, foi outra coisa, porque, aí, já tinha empregados e comecei a falar: ‘Quer, não quer?’, e começou a chegar o pessoal. Então, ‘quer, não quer?’, uma palavra boa, outra torta, mas deu.”

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