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História

Unindo o útil ao agradável

História de: Silvia Regina Boito Cirino
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 22/07/2005

Sinopse

Nasceu em 1957 em São Paulo, capital. Pai da cidade de Pedra Bela, São Paulo, e mãe Jacarezinho, Paraná. Cresceu no bairro do Tatuapé. Suas brincadeiras de infância eram carrinho, pipa, bola. Pai era motorista de praça e mãe costurava depois trabalhou com enfermagem. Formada em Biologia. Primeiro emprego foi como secretária no Senac. Marido era gerente de distribuição na Natura, através dele que entrou como consultora. Projeto Crer Para Ver: unindo a consultoria Natura com o projeto de educação ambiental na escola estadual que lecionava. Casada, duas filhas.

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História completa

P/1 – A gente começa, Sílvia, por favor pedindo pra você dizer o seu nome completo, local e data de nascimento.



R – Sílvia Regina Boito Sirino, 9 de dezembro de 1957, São Paulo, capital.



P/1 – O nome do seu pai e da sua mãe?



R – João Batista Boito e Eva Santina Sócio Boito.



P/1 – Local de nascimento dos seus pais, do seu pai.



R – Meu pai nasceu em Pedra Bela, pertinho de Bragança, São Paulo e minha mãe em Jacarezinho, no Paraná.



P/1 – E… 



R – Nome? Nome do meu pai é João Batista Boito e da minha mãe é Eva Santina  Sócio Boito.



P/1 – Fala um pouquinho sobre a família do seu pai e da sua mãe.



R – A família do meu pai era, meu pai era ferroviário até agora 1953, 1954, alguma coisa assim, quando ele sofreu um acidente de trem, acabou perdendo uma perna. E aí depois de muita luta, minha mãe ficou lá na máquina de costura, né. E ele conseguiu comprar um aparelho, depois ele virou motorista de praça, que era uma coisa que ele conseguia fazer com a perna mecânica. E minha mãe trabalhou bastante também. Até que com uns 40 anos ela resolveu voltar a estudar. Aí ela faz o colegial, fez curso de enfermagem. Aí foi pra Instrumentadora, começou a trabalhar na Escola Paulista de Medicina e parou com 70 anos de idade, porque tinha que parar. O governo não deixava mais. Aí meu pai ficou trabalhando como motorista.



P/1 – Mas eles se conheceram em Pedra Bela?



R – Não. Eles se conheceram quando acabou a guerra. Meu pai era do Exército. Ele tocava trombone na banda. E minha mãe estava dando volta lá com aquela história de “Voltaram os pracinhas!”, aquela coisa toda. Aí, eles se conheceram ali. Ele tocando e minha mãe vendo eles tocarem.



P/1 – Em que cidade?



R – São Paulo.



P/1 – São Paulo?



R – É. Os dois já estavam… 



P/1 – Os dois já estavam morando aqui? O seu pai veio de lá com a família?



R – Veio. Vieram pra trabalhar aqui. Meu pai devia  ter o que? Uns 15, 16 anos. Minha mãe veio acho que tinha 10 anos. E aí acabaram se conhecendo num final de guerra. Aí começou outra.



P/2 – Aí começou outra (risos).



P/1 – E vivem em São Paulo?



R – Não. Meus pais acabaram se separando. Isso, sei lá, uns 30 anos ou mais. Eles acabaram se separando. Meu pai foi morar em Bragança, fez uma outra família lá. E minha mãe ficou aqui com a gente.

 

P/1 – Ele mora lá em Bragança?



R – Não. Já faleceu.



P/1 – Já faleceu. E sua mãe?



R – Minha mãe é viva e hoje está morando na Praia Grande. Depois que aposentou a vida melhora, né. Vai andar mais tranquilinha.



P/2 – Aproveitar um pouquinho, né?



R – Lógico.



P/1 – Descansar um pouco.



R – É.



P/2 – Você tem irmãos?



R – Tenho dois.



P/2 – Mais velhos, mais novos?



R – Um mais velho cinco anos, quase seis e o outro é dois anos mais novo. Casados, descasados… 



P/2 – Recasados (risos).



R – O primeiro ficou normal, o último resolveu aderir a nova geração (risos).



P/1 – E a sua infância e adolescência você passou em São Paulo?



R – São Paulo.



P/1 – Você nasceu em São Paulo… 



R – Em São Paulo, ali no Tatuapé, na Praça Sílvia Romero, o tempo todo ali.



P/1 – Descreve um pouco a rua, o bairro que você morava, a casa da sua infância, como era?



R – Lembrar de casa é uma coisa meio complicada, porque a minha casa sofreu eu acho que umas 30 reformas que eu me lembro por gente. Porque cada vez a minha mãe inventava: “Ah, vamos aumentar o banheiro. Vamos mudar isso, vamos mudar aquilo.” Mais um quarto, tira outro quarto. Mudou muito. Mas assim, no começo a rua era bem tranquila. Em frente de casa tinha um campo de futebol imenso. Era uma parte mais baixa. A rua fazia uma volta por essa por essa Sílvia Romero, paralela a praça mesmo. E tinha uma parte bem baixa que do lado tinha um parquinho infantil. Até hoje existe, que hoje é escola de educação infantil, né. A gente passou a infância naquele parquinho. Aí enquanto tava no parquinho. Eu devia ter uns 4, 5 anos, resolveram montar uma escola de ensino fundamental lá na frente. E aí aquele campo de futebol desapareceu e apareceu a escola bem em frente de casa. Então assim, batia o sinal, eu atravessava a rua pra entrar, né? Chegava sempre atrasada (risos). Todo dia eu pegava a fila no… Porque formava a fila no pátio, aí tinha a escadaria toda pra subir, eu morava na frente, porque que eu ia pro pátio? (Risos). Eu atravessava pela coisa e já pegava a fila no corredor. E a gente também fez o ensino fundamental lá.



P/1 – E as brincadeiras favoritas eram no parquinho então?



R – Era. Tem o parquinho, mas assim, mas naquela época a gente andava de carrinho de __________, pulava corda… Como eram dois irmãos e a rua só tinha moleque, só tinha eu de menina, eu joguei bola, eu andei de carrinho de _____________, andava no muro da escola, empinava pipa.



P/1 – Brincadeira de menina nem pensar?




R – Pião. Brincadeira de menina, às vezes, eu fazia, todo mundo brincava de boneca. Aí eles ficavam irritados porque só tinha tio, pai, vô, ninguém queria brincar direito comigo. Mas de vez em quando tinha alguma coisa assim.



P/1 – Você conseguia convencer alguém? (Risos).



R – É. E hoje eu olho meus filhos e falo: “Puxa, não tive essa.” Tentei andar de skate quando começou a moda de skate, mas aí era um tombo atrás do outro. Preferia carrinho de ____________ que era mais no chão (risos). Hoje as crianças nem sabem mais o que é que é isso, né?



P/1 – Que pena, que era uma delícia.



R – Era uma delícia.



P/1 – O cotidiano, o dia a dia da sua casa, como era? Muita gente, pouca gente?



R – Sempre teve bastante gente. A família naquela época era uma coisa mais unida, né. Então assim, era tio que ia visitar toda hora, o meu avô que sempre ia em casa.



P/1 – Moravam perto?



R – Eles moravam na Vila Maria. Não é tão perto, mas pegava um ônibus e chegava rápido. Naquela época não existia carro, né. Então, meu pai era motorista de praça. Então ele tinha o carro dele. Naquela época eram aqueles carros enormes, que levava as noivas, né. Eu lembro que quando tinha casamento eles contratavam o táxi e a gente decorava tudo com florzinhas, com tule, decorava o carro todo por dentro.



P/2 – Vocês mesmo que faziam isso?



R – A gente que decorava. Eu e a minha mãe. Meus irmãos ficavam lá, né. Lavando o carro, passando… A roda tinha faixa branca, né? Então, eles ficavam passando sapólio na faixa branca pra ficar tudo limpinho. Ilustrando o carro por fora. Eu e a minha mãe decorávamos pelo lado de dentro. Tudo era cheio de florzinha. Tem uns negócios assim que a gente começa a lembrar e fala: “Meu Deus, que época romântica!”



P/1 – Muita gente casou daquele jeito?



R – Muita gente casou daquele jeito. Muita gente. E como era um carro preto, enorme, grande, todo mundo queria casar num carro bonito. Ninguém tinha carro naquela época.



P/1 – Era diferente, né. A lembrança marcante dessa época? As lembranças mais marcantes, quais são?



R – Ai, tem muitas. Tem muita coisa. Nossa, de brincadeira era assim um negócio muito gostoso. Uma coisa que eu não esqueço. As casas eram bem grandes, né. A casa tinha três quartos, mais uma laje que tinha lavanderia. E assim, as casas dos vizinhos eram separadas por muros e a gente ao invés de sair da casa de um pra ir pra casa  do outro brincar, a gente simplesmente ia pulando os muros, né, (risos). E uma das coisas gostosas era brincar de cabaninha também. Debaixo do quarador da Dona Anita. Ela tinha tipo de uma mesa, eram cavaletes na verdade com, não era tábua, parecia telha de amianto e ela colocava a roupa pra quarar lá em cima. E aí era uma delícia brincar de cabana lá embaixo. E a gente ia tudo pelo muro. Quando percebia, cadê os filhos? A mãe entrava, cinco dentro de cada, daqui a pouco, cadê? Elas tinham que subir na laje e ficar gritando a gente pra saber onde a gente estava (risos).



P/1 – Encurtava o caminho?



R – Lógico. Você acha que eu ia subir e descer escada? A gente pulava muro, né? Era mais gostoso.



P/1 – Tinha alguém bonito nessa época? Que você lembre pela beleza, pela 

vaidade, assim?

 

R – Sei lá. Como eu nasci com aquela garotada toda, era todo mundo da mesma faixa etária.



P/1 – Você é casada, né?



R – Casada.



P/1 – E nome, idade e profissão do seu marido?



R – Nome completo?



P/1 – É.



R – Pedro Lúcio Sirino. Idade? Ele está com 49, vai fazer 50 esse ano. É administrador de empresas.



P/1 – Você tem filhos, né?



R – Tenho.



P/1 – Quantos?



R – Duas. Alessandra, vai fazer 21, está no terceiro ano de Publicidade no Mackenzie. E a Bruna que vai fazer 18, está fazendo cursinho, quer fazer Nutrição.



P/2 – Moças.



R – Moças.



P/1 – E a escola? Você lembra da escola? Você falou que era na frente da sua casa. Logo quando você começou já era… 

 

R – Não. Quando eu comecei, eles ainda estavam construindo.



P/1 – Onde que era?



R – Era bem na baixada, no final do campo de futebol, era uma escolinha de madeira, tinha quatro salas só. Então, a gente ia pra aquela escola. Eu passei lá pra terceira série do primeiro grau, né, que era até a quarta só. Na terceira série que eu mudei pro prédio novo. Foi o Faria Lima, foi inaugurar, escola Municipal.



P/1 – Como era a escola? Era de madeira?



R – A primeira era de madeira. Só tinha quatro salas: era uma pra primeira, uma pra segunda, uma pra terceira e uma pra quarta série.



P/1 – E iam passando de sala em sala?



R – É. A gente mudava de sala, já tinha a sequência. Aí a escola atual, que está lá até hoje, deve ter eu acho que uma 20 salas de aula. Aí tinham quadras, oficinas, tudo.



P/1 – Você lembra de professoras sua dessa época?



R – Lembro. A professora, que era professora de primário de todo mundo da primeira série, era a Dona Ruth. Ela era brava! Nossa! Ela dava reguada em todo mundo, aquelas coisas que hoje é totalmente proibido, né. Punha os moleques pra ajoelhar no milho. Eu nunca fiquei de castigo, mas meus irmão quebraram muita régua da Dona Ruth (risos).



P/1 – Tinha uniforme?



R – Tinha. Sainha pregueada azul marinho, camisa branca de golinha e gravatinha faixinha, né.




P/1 – Relativas às séries?




R – É. Cada série que você passava, tinha que acrescentar uma faixinha na gravata. Meia 3/4 e sapatinho, não era mocassim, era outro jeito, era de amarrar.



P/2 – E na sua adolescência, você lembra quando você começou a ficar vaidosa?



R – Aí eu já tinha passado pro ginásio que era o _________ Reis que ficava no final da rua Tuiti, que era o Instituto de Educação Estadual. Você precisava prestar vestibulinho para… Não. Exame de admissão pro ginásio e vestibulinho pro colegial. Então, a gente se sentia todo poderoso, porque aqueles que conseguiam as melhores notas ficavam no ____________, aqueles que não conseguiam tão boas notas iam para outras escolas. Então, a gente já se achava o melhor do pedaço.



P/1 – Consegui.



R – Bobagem pura. Hoje a gente fala: “Que besteira, né? Tudo igual, tudo a mesma coisa.” Os professores que davam aula lá, davam aula na outra escola. Mas a gente se achava. E era um ambiente gostoso na escola, naquela época. Não tinha violência, era todo mundo muito amigo. A gente ia fazer trabalho em grupo para lá do ___________. Então, andava assim três quilômetros. A gente ia a pé, porque era gostoso andar nas ruas. Você ia conversando com as pessoas e era tudo muito tranquilo, não tinha violência. Hoje em dia a gente tem medo de falar: “Ah, vou andar 500 metros. Onde que é? Com quem é? Deixa que eu levo, né.” Aquela época não tinha essas coisas.



P/2 – E onde era a paquera, assim?



R – A paquera era na Praça Sílvia Romero. Tinha turma que ficava andando de carro, dando volta na praça e a gente ficava ali a pé andando pelo meio da praça. Tinham umas lanchonetes ali. Eu morava num pedaço mais central, então, minhas amigas vinham tudo pra casa. E é aquela história, né? Todo mundo passava o mesmo batom, saía com a mesma cor de sombra, todo mundo com a mesma maquilagem, trocava as roupas, tudo faz igual a hoje, do mesmo jeito. Eu vejo as minhas filhas, eu falo: “É… Só tá repetindo a história. Já vi esse filme.” (Risos).



P/2 – E como você conheceu o seu marido?



R – Ixi! Essa é uma história estranha. Eu estava subindo a Avenida Ibirapuera, o farol estava fechando, eu acelerei, passei o farol vermelho e ele vinha vindo de moto, eu quase derrubo ele da moto. Aí eu fui parar pra pedir desculpas. E aí, a gente começou a conversar, porque o meu irmão também era motoqueiro, então eu falava: “Não é possível eu derrubar o cara da moto.” Mas a moto dele inclinou e voltou. Eu falei: “O cara é bom de braço.” E eu não vi mesmo a cara, porque ele usava capacete, luva, jaqueta, tudo de motoqueiro. E eu não consegui ver a cara dele. Aí ele: “Vamos parar. Você vai ter que pedir desculpas direito e tal.” E ele diz que na hora que ele parou do lado, que eu fui pedir desculpa, ele já me viu, mas eu não vi a cara dele. Ele falou assim: “Essa daqui não me escapa.” (Risos). E aí parou e a gente começou a conversar e tal. Aí depois eu fiquei enrolando ele. Ele me ligava todo dia e eu fiquei enrolando ele durante um mês. Até que um dia a gente resolveu sair mesmo, sete meses depois a gente estava casando.



P/2 – Nossa, que legal!



R – Já estava os dois formados, já estava estabilizado, vai ficar esperando mais o que? A gente sabia o que a gente queria.



P/2 – Você é formada?



R – Sou.



P/2 – Qual que é o seu… 



R – … Biologia.



P/2 – Então, fala um pouco sobre a sua vida profissional agora? Você trabalhou com isso? Seu primeiro emprego?



R – Meu primeiro emprego, eu comecei como secretária no Senac [Serviço Nacional de Aprendizagem Nacional]. Então, eu trabalhei no Senac durante quase cinco anos e foi uma delícia, né. Porque foi uma experiência, primeiro emprego, você não sabia direito. Hoje eu começo a lembrar e falo: “Gente, eu acho que eu estou ficando velha demais.” Porque eu tenho história, né. Eu não esqueço quando a gente estava num grupo de secretárias e chegou o nosso chefe com quatro caixas desse tamanho, enormes. Eram máquinas EBM elétrica de esfera. Deu uma pra cada uma. Nossa! Tinha fita corretiva que rebobinava. Uma coisa! (Risos). Tava todo mundo no céu, porque só as melhores que ganhavam. Então, nós ganhamos, nosso setor ganhou, ficou todo mundo… E era motivo de inveja.



P/2 – Que época era isso?



R – Isso foi em 1976, 1977, 1978… 



P/2 – …  As máquinas chegaram.



R – É. Então todo mundo falava: “Eu tô com aquela ___________, eu tô com um carro desse tamanho e vocês com __________. Fica com corretivo. Vocês erram, apagam. Nossa, que coisa maravilhosa!”



P/2 –_____



R – É. Era aquele ___________, aquelas coisinhas e não era nem de pincelzinho, era fitinha que você ficava batendo. Eu começo a lembrar dessas coisas e acho muito engraçado. Então, eu trabalhei de secretária no Senac, eu comecei na 9 de Julho, que era unidade móvel de formação e treinamento, o que era uma coisa fantástica na época. Porque assim, tinham equipes de formadores profissionais que davam cursos que iam pras cidades e pros bairros. Então, montava uma equipe pra dar aula de datilografia, que era importante, né. Todo mundo tinha que ter. Técnicas comerciais e algumas áreas de hotelaria. E eles iam no bairro oferecer o curso ou então iam para uma cidade e ofereciam o curso lá. Montavam na Associação Comercial e ofereciam um curso de um, dois até três meses e voltavam. Então, eles capacitavam aquele pessoal para poder trabalhar, para poder ter uma profissão, para poder desenvolver um projeto. E eu trabalhei lá no _______ por cerca de um ano, mais ou menos. Aí como ficava longe, eu entrei na faculdade, aí ficava complicado eu sair da 9 de Julho, atravessar a 9 de julho inteira. Eu estudava em Guarulhos, até minha faculdade mudou de nome. Era Faculdade Farias Brito de Guarulhos, hoje é Universidade de Guarulhos. Então, eu mudei pra sede que era na Dr. Vila Nova, atrás do Mackenzie. Aí eu trabalhei lá mais um ano e pouco, aí foi uma coisa também bastante interessante, porque eu trabalhei com o professor Breno Di Grado. Ele tinha nos anos 1950, ele montou o primeiro ensino a distância do país. Hoje você vai  pelo computador, você vai pela televisão, aquela época não. As aulas de História, Geografia, Ciências eram colocadas em compacto simples e eles gravavam a aula, as apostilas eram feitas, naquela época era tudo _________, acho que era isso. Era uma imprensa bem antiga lá. Eles faziam as apostilinhas e mandavam os compactos com as apostilas para as rádios da cidades. E o cara tinha uma programação lá. Tinha um horário que era a hora da aula e eles colocavam o disco e ficavam passando a aula. Não existia nem fita cassete nos anos 1950 ainda.



P/2 – Era compacto o disco mesmo?



R – Era compacto. Então, eu trabalhei muito tempo com o professor Breno separando aquela história. Eu fiquei quase um ano ali separando a história da teleducação. Só que era uma coisa totalmente diferente. Ele foi pioneiro disso no país. Aí, a… Porque era assim, Senac, Sesc [Serviço Social do Comércio], Federação e Centro do Comércio. Eles montaram aquele prédio lindo que tem na Paulista. Aí eu fui pra Paulista, porque pra mim era muito mais fácil. Já tinha metrô na Paulista, já tinha metrô que ia até Tatuapé. E aí então dava pra eu ir de metrô pra casa, de casa eu pegava o ônibus pra ir pra faculdade que era mais rápido. Ainda fiquei mais três anos lá.



P/2 – E depois de lá?



R – Aí de lá eu saí de lá já com o pé no Magistério. Porque aí eu me formei e já fiz inscrição numa delegacia de ensino. Naquela época era delegacia, hoje é Diretoria de Ensino. Fiz inscrição lá na Mooca e comecei a dar aula.



P/2 – De Biologia?



R – De Biologia. E aí eu já comecei a dar aula junto, quer dizer terminei, eu trabalhei praticamente um mês com as duas, né. Porque eu dava aula à noite. Então, eu saía do Senac, corria e já ia pra escola. Essa época eu já tinha comprado um carro. Então, dava pra fazer umas… Um Chevette (risos). O carro era bonito na época. Aí a gente corria pra escola. Eu dei aula, peguei aula em vários períodos. Sobrou mais aulas, eu peguei mais aulas. Aí eu peguei várias aulas e pedi demissão lá no Senac e fui cair no Estado. Estou lá desde 1981, 1981.




P/1 – E a Natura entra como nessa história? Como você começou?



R – A Natura entra assim, deixa eu ver quando, 1988, 1989 por aí. Meu marido começou a trabalhar na Natura. Ele começou como supervisor e depois ele passou a gerente de distribuição. Hoje é Logística, né. E ele começou a trabalhar na rua Barão de Pombalinho. A Natura não era nem Natura, era Pró-Estética, ________, aquelas coisas. E ele começou a trabalhar lá e resolveram montar o CD [Compact Disc] em Santo Amaro. Aí ele foi montando o CD, toda parte de distribuição, trazendo a parte de automação também para Santo Amaro. Então, desde algumas alterações que teve no prédio, que ele deu uns bons palpites lá tipo: “Piso branco.” Aquelas coisas maluquices, foi ideia do Pedro, foi ele que deu a ideia doida, montar refeitório… Uma coisa interessante que na Santo Amaro tinha, eles tinham uma pracinha de descanso que a hora que o caro estivesse muito estressado, ele saía pra tomar um café e ia pra pracinha. E já era proibido fumar (risos). Naquela época, já era proibido fumar naquela região. Então, eles tinham que sair pra uma outra área reservada fora de todo o ambiente para fumar lá fora. E aí ele começou, fez toda essa transformação, padronização das caixas. A Natura tinha uma caixa de cada tamanho. Eles padronizaram. Então, eu vi a Natura crescer bastante. Chegou uma época que eles tinham muito, quer dizer, não era muito problema, era reclamação mesmo de consultoras que a caixa chegou danificada, a caixa chegou quebrada, produto quebrado dentro da caixa, tava mal arrumado, sumiu produto. Então, eles conversaram entre uma turma lá e resolveram colocar as esposas como consultoras.



P/2 – As esposas dos funcionários?



R – Dos funcionários. E era tudo mais em cargo de chefia. Então, era de supervisor, gerente, tinha até diretor que as esposas se cadastraram. E eu comecei a vender Natura. A gente já consumia, né, produto, você já acredita naquilo, já conhece e já vai. Aí eu comecei a vender Natura. Aí eu comecei a oferecer pra vizinho, pra gente na escola, num sei o que. Quando eu vi, aquilo lá já estava crescendo. No primeiro ano que eu estive lá, eu participei do encontro das dez, mas no, não era Credicard Hall, era um outro. Foi ali atrás do Ibirapuera, que foi o encontro de todas. Final do ano, né. E ainda participei. Estava lá em décimo lugar, mas eu estava lá (risos). Já estava com a minha venda garantida.



P/2 – Que ano que era esse?





R – Esse foi 1995. No final de 1995 meu marido saiu da Natura, porque ele recebeu convite para trabalhar numa empresa de distribuidora de medicamentos para montar um centro de distribuição em Araraquara. Aí ele falou: “Olha, desafio novo, aquilo que eu quero fazer, porque eu já montei a Natura, já está tudo em ordem, agora eu quero montar uma coisa nova.” Ganhando o dobro. Tinha que ir, né?



P/2 – Imagina se não? (Risos).



R – Vamos embora: “Eu adoro a Natura, mas eu preciso ver o meu lado pessoal, profissional, financeiro.” E aí ele saiu, só que eu continuei. Porque teve muita…  Aliás, a maioria das mulheres acabaram desistindo. Uma coisa interessante é que as primeiras caixas que chegavam em casa, eu não abria, eu esperava ele chegar: “Que horas que chegou? Como é que entregou? Como é que estava?” Muitas vezes eles entregavam no prédio. Aí eu perguntava pro porteiro: “Como é que estava o cara? O cara entregou bom? O cara era educado?” Porque no prédio você não tem, né: “O entregador era educado? Ele deixou a caixa em pé, deixou deitada?” Aí ele que abria, via se os produtos estavam arrumados direito, se estava do jeito que ele tinha… Então, era pra manter um padrão de qualidade legal. Então, as primeiras caixas, até ele sair da Natura era ele que abria as caixas. Aí eu que falava: “Pra vender e pra entregar é teu problema. Agora vamos ver como é que você está acompanhando.” E ele me cobrava. Eu falava: “Já não chega a promotora, agora é ele também, né?” (Risos): “Fez boas vendas? Não vai atrasar produto.” Mas aí eu comecei na Natura assim. Aí depois a coisa começou a entrar no sangue.



P/2 – E como é que foi esse processo de entrar no sangue? Você gosta de vender, como é que foi? Você imaginava isso?



R – Não. Eu nunca me vi vendedora de nada. Eu sempre fui boa compradora. Mas pra vender alguma coisa, eu nunca consegui me… Sabe você falar: “Eu vender alguma coisa? Não dá. Eu não sei.” Eu não tenho esse dom. Aí, de repente eu comecei a oferecer, mas é uma coisa assim, eu acho que se você usa, se você gosta, se você acredita, você acaba passando isso para as pessoas, né. E eu acho que começou por aí. Uma coisa gostosa que eu achei, assim, o ano que eu entrei foi o ano que o Crer Para Ver nasceu. Então, quando lançou, eu já gostei do nome, né, Meu marido falava: “Mas num é esquisito? Eles querem colocar Crer Para Ver.” Aí eu falei: “Mas tem tudo a ver. Todo mundo acha que ele tem que mudar o nome. Tem tudo a ver. Se você não acreditar, você não vai ver acontecer a coisa. Eu acho que tem tudo a ver.” Só que o Crer Para Ver começou dando para ensino fundamental bem básico. Então a gente vendia os produtos do Crer Para Ver. E o produto do Crer Para Ver você passa pra frente sem nenhum lucro, né. Então, eu acho que é um trabalho voluntário legal, que você está propiciando alguma coisa boa pra alguém, principalmente pra criança carente. Aí depois começou a aparecer… Teve um encontro Professoras Consultoras ou Consultoras Professoras, uma coisa assim. E eu fui participar desse encontro. Foi no Sesc da Vila Mariana. Eu fui lá participar e eles começaram a apresentar alguns projetos e se alguma professora teria disponibilidade de fazer alguma coisa lá. Mas também ainda estava muito a nível de Ensino Fundamental, até quarta série e tal. E eu falava: “Pô, eu quero fazer alguma coisa, mas eu não tenho aluno assim. Eu dou aula para Ensino Médio. O que que eu vou fazer?” Aí foi indo, foi mudando, cada vez que tinha encontro do Crer Para Ver eu ia no encontro. Eles mandavam uma cartinha, estava eu lá. Até que surgiu a oportunidade. Eu estava dando aula numa escola de Ensino Fundamental e Médio, já estava efetiva nessa escola e apareceu a oportunidade de colocar projetos para o Ensino Fundamental de quinta a oitava também. Aí eu falei: “Puxa, não tem muito a ver com os projetos que eu tinha visto.” Que eram projetos ligados a capacitação de professores para Chapada, porque lá não tinha professor ou pra ensinar dança e canto pra criançada pequena, resgatar cultura. Daí eu falava: “Não sei fazer isso, mas eu sei trabalhar meio ambiente, a Biologia. Eu quero mudar a cara da escola. E a nossa escola é grande, mas muito carente.” Ali no Jabaquara, onde eu estava. Ela tem um espaço muito grande, porém não estava aproveitado. Quando a escola foi inaugurada tinha jardim, tinhas as coisas bonitinhas, depois aquilo foi ficando, ficando e detonou. Um grupo de crianças da favela do baixo, da favela do lado do Imigrantes, da favela lá do Diadema. Eu falei: “Essa garotada precisa fazer alguma coisa.” Aí eu comecei a montar o projeto. Juntei com mais alguns professores, ideia daqui, ideia dali: “E como a gente faz? Patrocínio a gente vai conseguir, tenho certeza. O projeto é muito bom.” A ideia nossa era ligar meio ambiente com a qualidade de vida deles e fazer eles verem acontecer também. Então, a gente começou com parte de jardinagem, de horta e de reciclagem. A gente começou primeiro com a horta, nós construímos canteiros numas áreas disponíveis que tinham atrás da quadra. Tivemos que comprar tábua, terra. E todo mundo entrou. Até o marido foi pra dança também. Marido de professora, gente da comunidade foi tudo ajudar, né. Aí nós construímos canteiros e a garotada começou a plantar. Quando as plantas começaram a melhorar, a gente começou a melhorar o jardim também, porque a gente começou: “Olha, isso daqui é tiririca, precisa arrancar.” E aí a gente começou a trabalhar junto com os professores de Ciências, professora de História, Educação Artística, todo mundo trabalhava junto ali. E a gente começou a arrumar o jardim e trabalhar também com a reciclagem. No começo nosso intuito era vender o material reciclado e conseguir uma verba pra poder fazer alguma coisa mais na escola. Tipo colocar cortina, colocar ventilador, aquelas coisas que a escola não tinha. Aí a coisa começou a mudar de ângulo. Aí assim: “Vamos fazer papel reciclado.” Até aí tudo bem, estava dentro do projeto. Aí apareceu um aluno com uma árvore feita de garrafa pet: “Como que é isso daí?” Aí começamos a procurar, começamos a comprar revistas. Quando nós vimos a gente estava fazendo feiras ecológicas onde tinha três salas de oficina de reciclagem de material. Então, papel já fazia com casca de cebola, casca de alho, pétala de flor para dar textura diferente. Tamanho do papel, mais grosso, mais fino. Nas oficinas de reciclagem a gente usou de tudo. Coisas com lata, garrafa, vidro, reaproveitamento, reciclagem. Tinha cortina de garrafa. Umas coisas assim que quando você vê você fala: “Nossa, deu tudo isso?” Até ficava surpresa, né. E com a garotada, o que a gente gostou foi na horta quando a gente começou a plantar alface. Foi assim, eu achei o máximo, aí deixa eu só voltar um pedacinho. Na primeira fase da reciclagem a gente vendia material. Então a gente recolhia latinha, sempre deu dinheiro, papel, dá pouco mas dá e as garrafas pet que era o problema maior, porque elas fazem um volume imenso e não tem valor. A primeira vez que a gente vendeu, a gente colocava no carro e levava. Aquela vez nós pegamos cinco sacos daquele de 100 litros, as garrafas todas amassadas e pedimos pra um professor pegar o carro do irmão dele que era uma Kombi que era pra levar lá no Jabaquara que era longe pra vender as garrafas, porque era o único lugar que comprava garrafa pet. Aí nós entregamos as garrafas e o cara veio, ele pesou e veio. Foi uma piada, porque foi assim umas três moedinhas. Deu dois e cinquenta. Aí eu cheguei na escola: “E aí? A garrafa quanto deu?” Aí eu falei: “Tá aqui.” Aí o Paulo ria que ele falava assim: “Eu gastei mais de gasolina daqui do que as garrafas.” Aí falou: “Gente, deu dois e cinquenta.” “Desiste da ideia. Isso é bobagem, não dá lucro. Isso é bobagem.” Eu falei: “Gente, a garrafa pet é o que entope rio, entope o córrego.” Um menino da quinta série que estava no corredor falou assim: “Professora… ” Eu me lembro até hoje (choro): “Desiste não. Deu três chuvas bravas e o meu barraco não encheu. Nós estamos trazendo tudo do riacho, tudo o que a gente ia jogar lá na favela a gente trás pra cá.” Eu falei: “Vai continuar. Vou gastar mais de gasolina do que… ”



P/1 – Por favor, não desista!



R – Aí depois de um tempo, já começou gente a comprar garrafa. A pouco tempo atrás ninguém comprava, né. E aí, quando a gente começou a fazer artesanato… 



P/2 – … Começou a usar, né?



R – E aí, os picotes das garrafas iam pro meio do plástico também.



P/2 – E isso foi um pouco ideia sua da escola? O que que a Natura tem… 



R – … A ideia da reciclagem sempre teve na minha ideia, porque eu trabalho com Biologia. A escola sentia essa necessidade também, porque eles jogavam tudo no chão, jogavam em qualquer lugar. Uma das coisas da parte da reciclagem é que a gente comprou coletores separados de cores diferentes e eles começaram a jogar ali. E aí os alunos que iam participar do artesanato ou das oficinas, ou eles traziam esse material de casa ou eles falavam: “Ai, eu não trouxe garrafa. Mas é hoje a aula?” Porque ficava entre meio dia e uma hora, era o horário que a gente fazia a oficina. A gente trabalhava tudo com trabalho voluntário de professores, né. E aí, às vezes, eles queriam participar e esqueciam material. Aí eles iam lá no coletor, catavam garrafa, lavava e usavam os descartáveis dali. Então, aquilo cresceu.



P/1 – O projeto Crer Para Ver, ele deu uma reforçada nesse seu trabalho?



R – Reforçou tudo. E eu acho assim, uma coisa da horta quando a gente começou a fazer, que eu estava começando a falar naquela hora. Eles começaram a plantar alface. Plantaram alface, plantaram rabanete, plantaram abóbora, plantaram várias coisas que eles queriam plantar. Então, acompanhou com o ensino de ciências, desde da germinação, como é que nasce a primeira folhinha, como é que vai dar e tal. Aí eles colheram rabanete, colheram alface, pimentão e a gente fez uma salada no laboratório. Então, cada um que plantou, que regou… Toda semana eles iam lá e anotavam e desenhavam e tal, né. Faziam o relatório deles. Quando estava tudo grande a gente colheu, foi todo mundo pro laboratório, aí eles lavaram e comeram a salada. A gente levou tempero, maionese, num sei o que e fizemos uma salada com eles. Era muito engraçado. Teve aluno que esfregou tanto o rabanete que o rabanete desbotou, pra lavar o rabanete. Outros que foram comer o rabanete e falaram assim: “Mas não é amargo que nem jiló.” Nunca tinham comido. Mas como foi ele que plantou, ele passou a comer. E aí entrou as férias de dezembro, janeiro, né. Quando chegou em fevereiro os alunos: “Professora, a gente tem que correr lá e arrancar o resto do alface que estão tudo estragando.” “Mas por que estragando? Eu não vi eles estragando.”  “Eles estão tudo comprido, tudo esquisito.” Eu falei: “É? Então nós vamos ver como ele está esquisito.” Aí o dia que começou a dar florzinha, levamos tudo a garotada lá: “Mas alface dá flor?” E agora? Daí depois de uns dia apareceu as sementinhas, né, que ele dá que nem um dente de leão: “Mas alface dá semente?” Eu falei: “Como é que você plantou o alface?” “A gente comprou um pacotinho lá no supermercado e trouxe a semente.” Eu falei: “Da onde nasce a semente? No supermercado?” (Risos). Daí eles começaram a colher e a plantar sementes que eles haviam plantado. Aí tudo que eles plantavam eles queria deixar: “Três não. Deixa cinco pézinhos que é pra dar semente pra gente plantar de novo.” Aí eu falei: “Olha, você fechou o ciclo do vegetal. Você viu? O pé de alface não nasce nem na feira e nem no supermercado. Cresce, dá semente, dá flor. Essas coisas que vocês perderam a noção.” Então a gente começou a plantar. Aí eles plantavam feijão e achavam que o amendoim tinha que nascer que nem o feijão: “Não. O amendoim nasceu por debaixo da terra.” E aí a curiosidade deles começou a crescer muito, o aprendizado deles na escola cresceu muito. Então, cresceu na área da Ciência, da Biologia, né. Porque aí eu acabava levando não só os alunos de quinta a oitava que eram patrocinados pelo projeto, que o projeto dava uma verba, né?



P/2 – O Crer Para Ver?



R – O Crer Para Ver. E aí os alunos do Ensino Médio ajudavam na manutenção. E aí quando tinha que plantar, eles também tinham um cantinho separado para Ensino Médio, porque aluno do terceiro colegial não sabia que alface dava semente também: “Poxa, meu irmão foi lá e viu. Eu também quero ver.” “Então vamos lá ver também.” E a gente levava a escola toda. A escola mudou tanto que se você olhar as fotos do antes e do depois, é que eu não tenho fotos de hoje, mudou assim toda a cara da escola, o ânimo. Os jardins era uma coisa, um monte de terra ali com mato crescendo em volta. Hoje é tudo cheio de planta, colorido, de flor, a volta da escola, do estacionamento. A gente tentou plantar algumas coisas e a única coisa que está dando certo agora é plantar milho e girassol. A professora de Educação Artística conseguiu uma verba com outra entidade, porque aí o projeto acabou. Demorou dois anos, né. Quando o projeto acabou há dois anos. Aí ano passado ela conseguiu verba com uma outra empresa, eles deram doação de tinta, aí eles pintaram por dentro e por fora os muros todinhos, todo em painéis. Então o colorido da escola você passa hoje e fala: “Não acredito que o Salvador Móia era aquilo de quatro anos.” E a garotada vai pra escola com vontade, ajuda a pintar, ajuda a manter o jardim, ajudam a manter a horta… Eles ficam fora do horário.



P/2 – Pra cuidar?



R – É, pra cuidar. Então, durante a aula de ciências ele vai lá pra ver o vegetal crescendo, faz o relatório bonitinho. Aí fica: “Nós precisamos arrancar a tiririca que tem, mas durante a aula não dá. Do meio dia a uma a gente fica aí tirando, plantando outra coisa, regando.”



P/2 – E mesmo o esforço da comunidade, de todos os professores, você atribui toda essa mudança ao Crer Para Ver?



R – Ah, sim. Porque o que a gente precisava… O projeto Ecomoya foi o projeto mais barato que o Crer Para Ver teve.



P/2 – Fala um pouquinho do Ecomoya? Explica pra gente o que é?



(Final da 1ª faixa)



P/2 – Então retomando, você ia contar pra gente sobre o Projeto Ecomoya. Descreve, fala como é que começou? Em que ponto está agora?



R – O Ecomoya já recebe o nome de Eco por dois motivos, por Eco de ecológico e por Eco porque a gente queria que isso ecoasse para outras áreas, outras escolas. Móia, porque Salvador Móia o nome da escola. Então, a gente começou com o projeto, assim a gente já tinha ideia, coloquei tudo no papel, levei lá no Crer Para Ver na Fundação __________, inclusive eu levei lá pessoalmente. E a gente começou a trabalhar esse projeto, duração de dois anos, né. Um custo baixo. Ele deu menos de R$12.000,00. Porque a gente precisava basicamente de instrumentos para trabalhar. A escola é muito carente, ninguém paga APM [Associação de Pais e Mestres], não tem verba para praticamente nada e a gente precisava de pá, de enxada, de terra, porque aquele pedaço do Salvador Móia é um pedaço da Serra do Mar, ele fica do lado da Imigrantes. E floresta tropical, né? Floresta Mata Atlântica, ela não tem um solo bom embaixo. Se você tirar a floresta, o que mantêm a floresta é o ________ da floresta. Se você tira embaixo o solo não é bom, né, ele é bem arenoso, bem fraco. Então, pra gente plantar precisava de terra adubada. Precisava comprar caminhões de terra pra lá e isso tudo custa dinheiro. Os coletores pra colocar na escola, pra garotada colocar separado, papel, plástico, também custa dinheiro. Pra gente era muito dinheiro, mas para o Crer Para Ver eles poderiam estar dispensando não tanta verba e ajudando bastante a gente. Aí eu entrei com o projeto e a gente começou. Quando ele foi aprovado a gente já estava praticamente trabalhando. Tanto é que a área de papéis eu já comecei a trabalhar com as caixas da Natura. Então, o que a gente fazia? Toda a sala de aula, tem uma sala da Natura com o símbolo da reciclagem escrito: “Reciclagem de papéis, acredite nessa ideia.” Porque os alunos arrancam muita folha de caderno, toda hora e joga tudo no lixo. Então, o volume de lixo que tirava da escola era muito grande e era um desperdício, porque papel branco ali que está sendo jogado. Muita professora usa recorte de revista, jornal e ia tudo para o lixo. Eu falei: “Vamos vender esse material, vamos reciclar. Vamos fazer alguma coisa.” Então, toda sala de aula, com as vendas dos produtos da Natura, cada vez que chegava uma caixa eu separava em casa. Ia empilhando, colocava lá no laboratório. Até que a gente conseguiu colocar nas 17 salas de aula, a gente colocou caixa. E aí depois foi para a secretaria, todas as salas tem uma caixa dessa aí. Até hoje a caixa continua na sala. E aí eles colocavam os papéis ali, né. Aí a gente começou a trabalhar em conjunto com os outros professores, o projeto começou a crescer mais do que a gente esperava, porque imagina: “Eu vou comprar isso, vou comprar aquilo… ” Quando você vê, começa a aparecer ideias. E uma ideia mais bonita do que a outra e a gente vai crescendo. Durante o projeto a gente fez duas feiras ecológicas e duas feiras culturais. Nas feiras ecológicas acontecia sempre dia 5 de junho que é dia mundial do meio ambiente. Então a gente mostrava aquilo que os alunos estavam produzindo em termos de estar semeando no vaso, estar produzindo material reciclado. Eles fizeram teatro com tema ecológico. As meninas usaram saco de lixo, garrafa picada, um monte de coisa. Eles fizeram o cenário todinho, a vestimenta deles e trabalharam. O primeiro teatro foi muito interessante que eles trabalharam assim, tinha um que entrava jogando lixo, o outro que estava limpando e aí o porquê que está jogando lixo? Porque que está limpando?: “Você não pode quebrar essa árvore menino. Os alunos montaram o roteiro. Eles montaram todo o script.” E aí quando eles vieram pra dar uma correção, falaram: “O que é que tem pra corrigir?” Eu falei: “Bom, erro de português a professora vai corrigir aqui do lado, né?” Agora, erro de texto, em termos ecológicos não tinha nenhum. Então eu falei: “Puxa, vocês aprenderam Biologia, vocês aprenderam Ciências, você aprenderam o esquema do projeto.” A professora de português que deu duas… O “c” estava pra lá ao invés de estar pra cá, arrumou e eles apresentaram o teatro. O teatro foi tão bom que a diretora de ensino foi assistir na feira ecológica e ela pediu pra turminha que fez o teatro apresentar em mais cinco escolas da região, né, porque ele estava mostrando a melhoria do ambiente e que aquilo dependia da garotada mesmo. Foi um negócio interativo, porque eles saíam do palco, pulavam. Tem um pedacinho pequeno que eles chamam de palco, né, na verdade é uma plataforma que tem ali. E eles pulavam do palco e entravam com a garotada que estava tudo sentada no chão, no meio do pátio e interagia com as crianças. Era um negócio muito legal. Então, eles fizeram teatro. As oficinas foram muito legais. E tinha professor que falava assim: “Mas como que eu vou participar? Eu dou aula de História. Como eu vou participar. Eu estou dando feudalismo.” Aí o que ela fez? Construíram castelos medievais. Não apareceu um isopor, porque fazer de isopor arrepia, né, é totalmente anti-ecológico. Ele polui pra fazer, polui pra destruir, se queimar ele emite gases tóxicos. Então, eles fizeram em caixas de papelão, em lata, em tubo de iogurte, eles fizeram. Mas castelos lindíssimos, tudo com sucata. Então, eles explicaram do feudalismo, depois o capitalismo, tudo com maquetes, material reciclado. A turma de Português tava dando pra quinta série Monteiro Lobato. Nossa! Sítio do Pica-pau Amarelo é a coisa mais linda, né. Então, tinha Rabicós de garrafas pet, tinha Emílias com papel de bala. Fizeram um Visconde maior que eles, tinha quase dois metros de altura e estava pendurado na porta. Tudo com caixa, tudo com material reciclável. E assim, a criação vinha deles. A gente falava: “A gente tem que construir Sítio do Pica-pau mas com coisa reciclável.” E aí eles começaram a aparecer com as ideias. A professora de Matemática começou a montar joguinho com eles, tudo com material reciclável.



P/2 – E esse projeto era vinculado ao Crer Para Ver?



R  – Era vinculado ao Crer Para Ver. Porque no Crer Para Ver a gente queria mostrar isso. Então, a primeira feira ecológica ficou restrita a escola. Então, eram os alunos. Os três períodos a escola fechou. No segundo a diretora falou: “Chama todo mundo. Vamos chamar pai, mãe, vamos chamar gente de fora. Todo mundo que puder ver.” A turminha fez folhetinho, espalhou lá pra comunidade. Então veio um monte de gente visitar a escola.



P/2 – E vocês recebiam orientação da Natura?



R – Não. A gente recebia basicamente a verba da Natura. A gente foi recebendo ideia de um monte de gente, gente da comunidade.



P/1 – A sua história com a Natura é marcada nesse movimento todo, né? Porque a sua consultoria caminhava paralela a isso? Então, quanto mais caixas chegavam, mais rápido era isso? Como era isso? O que que marcava? Tinha produto que marcava.



R – O próprio Crer Para Ver… Uma vez a minha promotora brincou: “Assim você não está ganhando dinheiro, né?” Eu falei: “Não. Primeiro porque eu estou dedicando muito tempo para o projeto.” E eu chegava a passar assim, um, dois pedidos por semana, aí eu comecei a passar, dois ou três no máximo por ciclo, então caiu a minha venda. E eu fui a campeã de venda no meu setor todo de Crer Para Ver. Porque todo mundo que vinha falar comigo eu enfiava uma camiseta. É caneta, camiseta, é xícara. Eu vendia Crer Para Ver pra todo mundo. Então, ela falava: “Não tem gente que convença a comprar mais Crer Para Ver do que você.” E eu não vendia só naquela escola. Eu vendia nas outras escolas, pra outras pessoas, pra gente, vizinho, todo mundo tinha alguma coisa do Crer Para Ver. Então eu falava: “Olha, tem que pagar meu projeto!” (Risos).



P/1 –Pra você o mais conhecido, o mais vendido era o Crer Para Ver?



R – Era o Crer Para Ver. E eu estava sempre com a camiseta do Crer Para Ver, eu estou sempre com alguma coisa deles. Tanto é que você vê um monte de foto minha, eu ia viajar eu estava com uma camiseta, eu ia passear num sei aonde, eu estava com uma camiseta. A história do Crer Para Ver eu acreditei e aconteceu. Eu sei que tem outros projetos lindíssimos patrocinados pelo Crer Para Ver. Só que o que eu consegui fazer, a minha capacidade era na área ecológica. Então eu consegui trabalhar ali.



P/2 – E a Sílvia consultora, como é que é?



R –A Sílvia consultora… Eu ofereço pra todo mundo aquilo que eu acho importante. A Natura tem muita coisa boa, tem muito produto bom. A linha Chronos, eu usei Perena quando o meu marido era promotor, trabalhava lá como gente. Eu usei a Perena que virou Chronos. O Chronos teve um monte de evolução. Então, tem gente que fala: “Nossa, você tem 47?” Eu falo: “São os Chronos, são os Chronos.” (Risos): “Usa Chronos que você vai ficar assim também.” Eu acho que quando você acredita num produto, que você vê a qualidade… A Natura tem uma coisa legal: “Puxa, eu não gostei do… Eu ganhei um perfume, mas ele não é bem o que eu gosto. Ele é muito adocicado. Ele é muito seco. Eu gosto de outro gênero de perfume.” Aí você fala pra pessoa: “Troca. Liga lá pra Natura e fala do que você gosta.” Ou então fala: “Seu batom é lindo!” Eu sempre falo: “Experimenta. Peraí, amanhã eu trago o mostruário e você passa. Vê se fica legal. Se não ficar legal você já usa outro. Não está legal? A Natura vai trocar o produto.” “Ai, deu alergia.” “A Natura troca.” Então, é um respaldo que muita empresa não tem, né, a qualidade. O que que está acontecendo? O que que eu vou fazer? Tem muita gente que ganha produto da Natura e não tem nada a ver com a pessoa, né? E assim, eu trabalho muito com pronta-entrega também. Então, eu tenho um estoque legal lá em casa que a maioria das coisas que as pessoas me pedem eu tenho. Eu não vou dizer que eu tenho todas as cores de batom, porque é impossível, né, mas as que mais saem eu tenho. Na linha de perfumaria, as que mais saem eu tenho, porque eu tenho pronta-entrega. E, às vezes, quando tem Natal, dia das mães… Porque tem uns estojos especiais, eu sempre compro um pouquinho a mais. Porque mesmo que não saía nessa época, daqui a dois meses alguém vai estar fazendo aniversário e eu quero uma coisa diferente. Ou então eu crio: “Aí eu queria esse xampu com esse sabonete.” A gente monta o estojo, não tem problema. Pra isso tem umas caixinhas do Crer Para Ver que estão aí pra gente usar, pra montar.



P/1 – Você tem todo o material do Crer para Ver?



R – Tenho. Tenho caixinha do Crer para Ver, saquinho, eu tenho tudo. Tem uma gaveta lá que só tem coisa pra fazer pacotinho. Aí você já põe umas fitas.



P/1 – Refil? Como é que você trabalha? Facilita a venda pra você?



R – Facilita, lógico. Facilita e eu ainda brinco: “Gente, não é só o fator financeiro. É o fator ecológico, de novo.” Porque o meio ambiente está aí gritando que não aguenta mais sobrecarga de produto descartável. Mesmo que seja uma embalagem reciclável, ela vai demorar pra ser reciclada. Ela vai ter um trabalho, vai gastar energia. O refil diminui e o preço também ajuda. Porque o refil é mais barato.



P/2 – Sílvia, conta um pouco pra gente do seu processo de venda, a sua relação com o cliente, captação de cliente, manutenção dos clientes que você já tem, fala um pouco sobre esse trabalho.



R – Bom, os clientes que eu já tenho, eu até tenho uma clientela legal. E vendo muito para as escolas. Porque a minha área é essa, né. Eu estou a maior parte do tempo dentro de uma escola. Então, eu já trabalhei em algumas escolas e ofereço esses produtos, né. Quando chega a época de Natal, quando saem os estojos, eu faço tipo de um showroom. Eu sempre peço permissão pra diretora, eles nunca me recusaram. Então, eu monto numa mesa especial, coloco os produtos ali, coloco com vitrine ali uns produtos que eu não posso ter na hora e ofereço pra todo mundo. E sempre estou contatando. Todo o ciclo eu estou lá passando pra alguém os produtos. Estou sempre, largo uma vitrine aqui, uma ali, eles vão anotando na vitrine ou tem pressa: “Sílvia, me arruma um desse?” Às vezes, eu não tenho aquele óleo, né. Eu tenho outro. Mas serve também, porque é um presente. De vez em quando eu estou dando uma ligada pra um ou pra outro: “Olha, aquele xampu teu está acabando.”



P/2 – Você faz umas vendas?



R – Faço.



P/2 – Você liga?



R – Faço: “Olha, saiu uma promoção legal agora do óleo. Você usa, a sua embalagem já deve estar meio velhinha. Está na hora de comprar outro. Aproveita que o preço está promocional.” Aí na hora que você vai entregar, você já leva mais dois batons, leva o Chronos, leva num sei mais o que.



P/2 – Você tem algum truque? Alguma dica que você… 



R – Eu acho que primeiro você tem que gostar do que faz. Você tem usar os produtos. Porque não adianta eu querer vender maquilagem e ir lá de cara lavada, né. Vender perfume se eu não estou com uma fragrância suavezinha pra chamar atenção. De preferência um lançamento, porque a pessoa fala: “Nossa, que bom esse cheiro!” Você tem que estar com as amostras todas prontas ali na mão, vai distribuindo. Porque, às vezes, a Natura não manda mostra o suficiente também. Então, a gente passa uma mostra, a pessoa sente também, pelo menos pra ela sentir na pele. Então, quando eu vou pra alguma escola eu largo amostras junto com vitrine. O pós venda é importante. Você tem que estar contatando as pessoas depois.



P/1 – Você faz muito em escolas? Escolas da região?  



R – É, as escolas que eu dei aula. Porque assim, eu tenho praticamente 25 anos de Magistério. Está certo que seis anos eu ainda estava do lado da Zona Leste. Depois eu mudei pra cá. Então, eu contato escolas e assim, tem professor que dá aula em outra escola que num dava aula também: “Mas olha, tem uma pessoa lá querendo.” Ou a diretora permite que venda, que eu vá lá fazer o showroom ou a diretora fala: “Ai, já tem uma outra pessoa que vende Avon, que vende não sei o que. Eu não quero criar conflito, porque é funcionário.” Aí a pessoa leva o vitrine, eu levo amostra e acaba vendendo para outra pessoa e a gente acaba trabalhando assim.



P/1 – Você está falando de pessoas que vendem outros produtos, você só faz consultoria da Natura?



R – Só Natura.



P/1 – Tem algumas exigências de clientes Natura? Você percebe isso? Em questão de qualidade?



R – Eu conheço muita gente que acabou, por exemplo: “Não aguento mais. Mudei para o Renew, não deu certo, não é a mesma coisa. Eu quero Chronos de novo.” Mudou por causa do preço e acabou voltando e descobriu que o preço não era essa coisa toda.



P/1 – Então, a exigência deles é qualidade, né?



R – É qualidade.



P/1 – Tem um perfil nos seus clientes dentro desse universo todo? Mais mulheres? Mais homens?



R – Eu tenho bastante mulher. Mesmo porque o ambiente escolar tem mais mulher também. Mas homem é muito fiel.



P/1 – E você tem bastante clientes homens?



R – Tenho. Alguns clientes homens. Eles são muito fiéis. Assim, gostou do produto é aquilo. Você pode me trazer outro. Você pode deixar estoque. Se ele comprou um creme para barbear da Natura Homem, você pode deixar um estoque que daqui a um mês está acabando e ele vai pedir outro igual.



P/2 – E ele é fiel a consultora?



R – Ele é fiel a consultora. Liga: “Tá acabando. Olha, acabou. Você me traz pra ontem?” Tem que ter estoque. E assim, muito com pressa também, né, é sempre pra ontem (risos): “Acabou. Preciso agora.” Então aquilo que eu vendo para os meus clientes, eu tenho estoque em casa. Tem que ter.



P/1 – Está acabando, liga pra você e diz: “Tá acabando?” Mas você tem também um controle de que o produto do cliente está acabando? Você tem isso? O tempo?



R – Tenho. Meus controles são até meio exagerados, porque assim, eu tenho aquele caderninho, caderno caixa, né? Tudo que está entrando eu já coloco como débito e já coloco na sessão débito. Cada cliente que vai pagando eu vou marcando. Venda, se for dinheiro, cheque ou Visa, eu já marco ali do lado e marco o valor pra eu ter ideia de quanto está entrando e quanto está saindo, né. Tenho esse caderninho que faz esse controle. Tem um outro que é uma loucura a lista que eu faço. Vai a data, o nome do cliente, o produto que ele comprou e aí vem o valor da tabela, o valor que eu paguei na nota fiscal da Natura, o valor que eu vendi esse produto para esse cliente, porque o Visa por exemplo você tem que abater o lucro. Tem um cliente que você dá um desconto. E aí tem outra listinha que é do lucro. Então somando tudo eu sei quanto deu, quanto não deu, quanto eu gastei. Porque é lógico que com algumas promoções, algumas coisas que você faz, sempre o valor da tabela é um valor maior do que o valor que você vendeu os produtos, né?



P/1 – E aí, você tem mais ou menos um tempo de duração?



R – Eu tenho o controle, porque eu tenho a data e tenho que foi que comprou e que produto foi.



P/1 – Você sabe quanto ele dura?



R – É. Porque tem gente que fala: “Ai, aquele batom. Sabe aquele batom que você me vendeu no Natal?”  Eu vendi batom pra ela no ano inteiro, mas ela quer o do Natal. Então, eu vou lá na folhinha: Natal, dezembro, então foi esse, foi essa cor, né? Eles não lembram: “Aquele da embalagem verde. A embalagem era compridinha, era quadrada. A embalagem verde. Você não… ” E, às vezes, as pessoas: “Não. Não quero olhar. Você sabe qual que é. Me traz.” Ou liga, né: “Eu quero aquele lá igualzinho.” Ou então: “Me traz igual ao da Arlete?” “Tá bom. Eu trago o perfume igual ao da Arlete.” “Qual é o perfume da Arlete?”



P/2 – Quem é Arlete mesmo? (Risos).



R – Qual Arlete? Aí, você tem que descobrir, aquela da escola ali ou da outra vizinha ali de baixo? Tem coisas que eu tenho que colocar. Cada um tem um esqueminha do lado pra eu saber qual que é. O talão de pedidos sempre tem que estar acompanhando. E aí, do talão, cada coisa que eu estou vendendo eu passo pra aquela minha listinha. Meu marido fala: “Você consegue entender isso?” Eu entendo.



P/1 – E o Crer Para Ver está sempre enfiado nisso tudo?



R – Alguma coisa eu estou sempre vendendo. Eu sempre tenho uma camiseta pelo menos de reserva lá em casa.



P/2 – Você já tinha toda essa tendência por trabalhar nessa parte de ecologia, pela sua formação inclusive. A Natura alterou alguma coisa nessa sua visão de mundo? Ela colaborou?



R – Ela só melhorou. Quando lançou a linha Natura Ekos, eu babei assim. Eu falei: “Nossa!” E a Natura Ekos lançou na mesma época que o meu projeto entrou. Tanto é que que quando apareceu a primeira propaganda da Natura Ekos e falei: “Porque Ekos?” A Heloísa falou: “Porque você botou o nome de Ecomoya e aí todo mundo gostou. Só que o Ekos daqui é com ‘k’, hein.” Eu falei: “Tá bom.” Aí porque ela tem toda essa coisa de preservação do meio ambiente, sociedade sustentável, toda alguma coisa que eu sempre tentei falar mais. Eu ainda brinco com a Heloísa quando ela passa os vídeos. Eu falo: “Me empresta que eu quero ver de novo?” Às vezes, eu levo a fita, vejo de novo e levo pra ela de volta, porque tem muita coisa que eu explico para o meu aluno dali. Tem muito depoimento que os caras dão, do extrativismo… 



P/1 – Você passa o conceito pra frente?



R – Eu passo pra frente. Tem coisas que você lê num livro, você o Fantástico, sei lá, alguma coisa que fale sobre isso, eles tem um cunho diferente, um enfoque diferente. Quando você pega um fita de um cara que quebrava uma planta e que aprendeu a colher aquela planta e aprendeu a fazer muda, e a plantar, e a manter a sustentar aquilo lá, eu acho muito importante. Tem um filme deles que mostra a extração do óleo, né, eu falei: “Puxa, eu não fazia a menor ideia de como era extraído.” Pra mim o óleo era uma coisa industrial, não era uma coisa feita lá por eles na hora, o da castanha do Brasil. Então eu achei que era uma coisa mais industrial, né. Então, você começa a aprender coisas bonitas ali.



P/2 – Você está passando conselho em sala de aula, né?



R – É. E a reação dos alunos é bacana? De conhecimento mesmo.



R – É bacana, é verdade. Porque quando você passa uma coisa que você conhece mais, todo mundo acredita, né. É que nem você falar: “As praias da Bahia são lindas, tem uma estrutura maravilhosa!” Aí quando você fala: “Não, aquela praia que tem aquele coqueiro desse jeito, que tem aquele bichinho assim… ” Aí todo mundo fica empolgado, porque você conhece. Quando você conhece realmente, você passa mais verdade, mais autenticidade.



P/1 – Sonhos e desafios? Os maiores alcançados?



R – Alcançados?



P/2 – E os que estão aí também na gaveta? (Risos).



R – Bom, eu tenho alguns sonhos que eu consegui. Então, me formar na faculdade foi um. Trabalhar pra pagar a faculdade, consegui, terminei. Casar com alguém que eu gostasse realmente e que conseguisse viver bem durante um bom tempo. São 22 anos já, então eu acho que já está durando bastante, né. Espero que dure mais. Filhos: tenho duas filhas lindas, faculdade delas. Minha maior preocupação é dar educação, porque educação é o que faz você ter alguma coisa na vida. Dinheiro você vê e volta. Acaba e aparece de novo. Mas educação é o que vai te dar margem a ter uma vida feliz. Você vai conseguir fazer alguma coisa. Realização profissional eu acho que eu tenho tanto na área de educação quanto essa coisa agora da Natura. Porque você fazer uma coisa que você gosta e que você acredita, você está sempre unindo as coisas melhores que tem. Material eu tenho. Eu estava comentando, né. O dia que estava fazendo a minha ficha na Natura, foi no encontro Natura, fui participar do encontro e ela pediu pra no final eu preencher a ficha. Meu carro estava sendo sorteado no consórcio. Primeiro carro zero quilômetro, porque até então eu só tinha carro usado, né. Um pouco antes disso consegui comprar a casa própria, né? Que é o sonho de todo mundo. O apartamento eu posso até dizer que tem uma mão de Natura lá, porque meu marido trabalhava na Natura quando a gente comprou. O carro, eu já estava entrando como consultora. O ano passado eu comprei o meu apartamento na praia que era um outro sonho, “pitititico”, um ovo de codorna, é bem pequenininho, mas é nosso. E a Natura ajudou bastante, porque quando você está tendo não só o teu salário para todas as despesa, faculdade, cursinho e outras coisa, você tem uma arrecadação extra. E eu tento sempre dar uma separada no lucro, na medida do possível, pra gente fazer outras coisas. Planos eu tenho mais ainda.



P/1 – E os prêmios da Natura? Você falou dos brochinhos que você não trouxe… 



R – Os brochinhos eu esqueci de trazer. Mas eu tenho desde do primeiro pin, que quando a gente entra como consultora, aí mudou o pin, passou para um redondinho, porque mudou a ___________. Cada vez que muda o emblema… 



P/1 – … Como é o pin?



R – O primeiro pin era quadradinho, parecia uma bandeirinha. Verdinho no fundo. É uma pena que eu não trouxe, mas eu acho que a Natura deve ter fotos, deve ter deles guardados. Teve o brochinho de cinco anos, né? Que eu ainda tenho a carta do senhor Luis Seabra quando ele mandou (risos). Mandou parabenizando pelos cinco anos. Acabei guardando no meio das minhas coisas, junto com os cursos todos que a gente faz ali de atualização. Pele, maquilagem, num sei o que, corpo. Uma coisa que eu achei muito gostosa, pra mim foi um prêmio, quando eu estava fazendo o projeto, montando o projeto na escola, montando não, eu já estava desenvolvendo, foi a Natura ter chamado as promotoras de vendas para assistir. Então, foram 30 consultoras aqui de São Paulo, as promotoras que mais trabalham com o Crer Para Ver, promotoras voluntárias, né. Então, elas foram ver a apresentação do projeto. Aí depois de 15 dias, ela me liga e fala: “Posso levar mais 60 do Brasil?” Porque elas gostaram muito. Elas participaram de oficinas e conheceram o projeto. E é a mesma coisa, se a promotora está tentando passar um produto pra frente, ela tem que conhecer onde está sendo aplicado. E a hora que você está vendo que está sendo aplicado legal, vai embora.



P/2 – E até pra falar para as consultoras?



R – Agora, meu sonho é depois que aposentar, que tiver os filhos terminado a faculdade, casadas, cada uma com a sua vida, que eu aposentar, eu quero montar uma pousada de preferência no Nordeste. Aí eu vou trabalhar invertido, eu vou trabalhar na temporada e no resto eu vou descansar. Eu já tenho até ideia de umas praias aí que trabalham com o meio ambiente, projeto Tamar, aquelas coisas assim e continuar vendendo Natura. Agora, se a Natura quiser me contratar também pra trabalhar lá na região do… Que ela está trabalhando com o Ekos e tal, pode me chamar. 



P/1 – O que é que mudou depois que você começou a trabalhar na Natura? O antes e o depois? O que você diria?



R – Primeiro que eu engordei (risos). Essa é a triste, mas isso não foi por causa da Natura. Minha filha brinca: “Foi por causa do carro mãe.” Porque antes eu andava muito, aí você acaba pegando o carro. Eu ainda brinco: “Puxa, o carro foi sorteado no dia que eu estava fazendo a ficha da Natura.” O dia que chegou a minha caixa da Natura meu carro chegou também. Me ligaram: “Vem buscar que o carro está pronto na concessionária.” A partir daí eu comecei a encher o carro de caixa toda hora pra levar pra lá e pra cá. Eu passei a correr mais do que eu já corria. Já corro pouco, tô correndo mais. E acho que faz parte de tudo isso. Porque eu corro de carro, né. Aí a forma vai ficando meio aumentada, né. Tempo a gente arruma sempre. Eu descobri isso. Se você quer pedir pra alguém não fazer alguma coisa, peça pra alguém que está cheia de tempo sobrando, né. Eu nunca faltei a nenhum encontro da Natura. Eu estou sempre em todos. Por mais esforçado que seja. Eu já cheguei a sair do encontro direto pra sala de aula, porque estava na hora, correndo. Na hora que ela falava: “Bom pessoal, agora eu vou fazer o sorteio. Agora que nós vamos tomar o lanche.” E falava: ‘Tchau! Vou pra escola.” Já cheguei a sair da escola, chegar no encontro, depois voltar pra escola de novo, porque dava um espaço entre um período e outro e eu aproveitava a hora do encontro. Tempo a gente arruma. Amizade você cria muitas. Gente que você começa a vender um produto e daqui a pouco ela é tua amiga de estar indo na tua casa, de você estar trabalhando com os filhos deles, os filhos dela estarem junto com os seus.



P/1 – Esse relacionamento pessoal muda?



R – Muda.



P/1 – Na verdade você acrescenta mais amigos? Ele aumenta?



R – Muito, muito. E pessoas que você simplesmente passava e cumprimentava por “Bom dia” e de repente… Uma coisa interessante que a consultora passa a ser uma confidente de um monte de gente, né. Aí você tem que escutar a história do marido, da sogra, da vizinha, do filho.



P/1 – Você é confidente?



R –É. Mas você cria um laço legal entre as pessoas. Tem uma que fala: “Eu sei que você anotou, mas você não me lembra do aniversário da minha sogra, porque eu não faço questão de dar nada pra ela.” (Risos). Que maldade! A gente tem anotado data de nascimento, né. E aquela vez que eu anotei tudo: “Ah, você anotou o da tua mãe. Põe o da minha mãe também.” O marido falou: “Não, não tenho.” “Não? Da minha sogra você não precisa me lembrar, porque ele já compra presente pra ela, eu não preciso comprar nada.” Eu falei: “Essa é a sogra, né?”



P/2 – E a sua autoestima, vaidade, mudou alguma coisa?



R – Eu sempre fui vaidosa, mas eu fiquei mais, né. Eu acho que toda mulher é um pouco vaidosa. Eu sempre fui de me pintar um pouco pra ir pra qualquer lugar, mas tem hora que eu dou até uma exagerada. A turma fala: “Poxa, discreto seu batom.” Aquele vermelho! Perua! Não tem problema eu ser perua. Não ligo. Se perua é ser isso, tá ótimo.



P/2 – O que é que é uma mulher bonita pra você?



R – Olha, mulher bonita tem que ser alegre, divertida, estar sempre bem disposta, ter vontade de fazer as coisas. Aparência a gente muda fácil. É uma plástica, é uma maquilagem. Pronto. Você muda. Pode ter gente lindíssima que você começa a conversar e você fala: “Meu Deus, o que é que é isso?” E tem pessoas que você olha e fala: “A natureza não foi muito… Ajudou.” Aí a pessoa começa a conversar e você diz: “Maravilhosa! Essa pessoa é linda demais!”



P/2 – Parece que muda, né?



R – É, muda. Porque a pessoa tendo um dentro gostoso, alegre, bem humorado, com experiência, com conteúdo… Não adianta ter um frasco bonito se o conteúdo não vale nada, né.



P/1 – A beleza da mulher brasileira. O que você acha dessa… 



R – Aí eu adoro, porque é totalmente diferente daquilo que está padronizado por aí. E quando a Natura lançou esse slogan, eu achei fantástico. Mulher brasileira não é padrão. Não é mulher americana, não é mulher européia, não é oriental, ela é diferente. Ela é uma mistura de tudo. Eu brinco com os meus alunos, que eu falo que o brasileiro é vira-lata. Porque quando você tem aquele cachorrinho de raça muito bonitinho, aquele poodle todo bonitinho, você tem que levar ele toda hora no pet shop para dar banhinho, se ele tomar uma chuva, ele fica doente, se um gato aparecer no quintal ele foge e fica estressado, ele é muito cheio das frescuras.



P/1 – Ele não é brasileiro (risos).



R – Não. Come aquela alimentação só. O Doberman, pit bull, né? São tudo invocado, tudo cara amarrada. Você não pode nem chegar perto, porque ele avança e tal. O vira-lata abana o rabinho pra todo mundo, come o que sobrar, quando sobra, toma chuva, corre atrás do gato, corre atrás e chega lá e não faz nada. Quer dizer, bem o brasileiro. Nós somos muito vira-latas e eu acho que isso é legal. Você olhar pra cara de um e ter mistura de negro com índio. Você vê um negão de olho verde! Você fala: “Que coisa, né?!” Mistura de japonês. Tudo. Eu acho aquela mistura legal. Cabelo de uma cor, pele de outra, nariz de um jeito, boca de outro. Você fala: “Essa mistura é legal.” Não padroniza muita coisa, não. Todo mundo muito igual fica muito esquisito. Todo mundo gostando da mesma cor, você já pensou? Não ia ser legal. Eu acho que o brasileiro tem muito disso. A mulher brasileira então é fantástica. Porque a maioria da mulher brasileira sabe se produzir. Se ela estiver lá toda largada, tá lá de short, de jeans, camiseta em casa, aí você fala: “Vamos dar uma volta no shopping?” Ela já… Ela pode continuar de jeans e camiseta, mas ela põe um cintinho, passa um batom, joga o cabelo e já sai toda fashion, sai toda badalada, né. Uma correntinha, um brinco, qualquer coisa. Ela se produz muito bem.



P/1 – Esse valores e conceitos da Natura, eles estão presentes na sua vida? No dia a dia constantemente?



R – Direto, direto.



P/2 – E qual foi o grande aprendizado desse tempo todo de Natura? São dez anos, né?



R – São dez anos.



P/2 – Qual foi o grande aprendizado que você tirou daí?



R – Olha, um dos slogans da Natura era “Verdade em Cosmética”. Eu acho que você falar a verdade é sempre bom. E eu sempre gostei disso. Você mostrar as diferenças das pessoas é importante. Saber trabalhar essas diferenças. Trabalhar com uma linha que ajuda o meio ambiente, que está possibilitando às pessoas de estarem evoluindo é muito importante. Então, ela não precisa sair do habitat dela, de onde ela está acostumada. Ela faz o que ela sabe fazer, bem feito, dá condições pra ela trabalhar lá. Eu acho isso importante. Então assim, não é um aprendizado, eu aprendi muitas coisas. Algumas coisas que eu já conhecia, mas eu não conseguia desenvolver. Aquilo está me ajudando a desenvolver mais ainda o meu trabalho.



P/1 – Um dica para uma futura consultora, qual seria?



R – Uma?



P/2 – Qual é a sua dica?



P/1 – A sua dica pra uma pessoa que vai ser um consultora.



R – Acreditar no que pode fazer. porque vai render muito. Se você acreditar, se você confiar, você vai conseguir trabalhar e vender muito. E eu acho que o termo consultora é muito legal, embora a gente fale em venda, o problema não é vender, o problema é dar a consultoria. É ver porque que você vai usar aquele xampu, aquele creme. Chronos é muito bom vender, mas se você tem 20 anos de idade, vamos usar outra linha, porque ele não vai se fazer necessário na sua pele agora. Você está perdendo o valor de venda agora, mas você vai ganhar essa cliente para o resto da vida falando a verdade. A verdade é importante. 



P/1 – A gente está quase terminando a entrevista…  



(Voz de fundo: Eu tenho 2 minutos e 30 segundos.)



P/1 – Então tá. Vai dar certinho. Um autorretrato da Sílvia Regina?



R – Ixi! É complicado fazer autorretrato (risos). Muito complicado. Sei lá. Eu sou espontânea, estou sempre correndo, tô sempre fazendo mil coisas ao mesmo tempo, se puder faço mais uma. Eu sou muito família, gosto do lugar onde eu trabalho, eu gosto das pessoas que estão ao meu redor. Eu tento sempre achar um lado positivo em tudo o que está acontecendo. Então assim, eu acho que otimismo é muito bom, faz muito bem, bom humor. Querer estar aprendendo e fazendo coisas novas todo momento. A gente ficar muito parado não dá muito certo, não. Tem que estar sempre querendo coisas novas. O que mais? Falo pra caramba (risos).



P/1 – Que bom. O que você achou de ter participado dessa entrevista?



R – Gostei bastante. Deu pra colocar algumas coisas.



P/1 – Resgatar?



R – Nossa! Eu tirei coisas lá do fundo do baú que eu nem lembrava (risos).



P/1 – Tá bom. A gente também gostou muito. Em nome da Natura e do Museu da Pessoa a gente quer agradecer.



R – Obrigada por ter participado disso.



P/1 – Obrigada.



--- FIM DA ENTREVISTA ---

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