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União, política e religião!

História de: Dom Mário
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Por desobediência da mãe às recomendações do médico, nasceu Jesus Teixeira – o Dom Mário. Quarto filho dentre os 21 irmãos, ainda aos nove anos de idade sai da tranquila cidade de nascimento, Iguatu, rumo à Grande São Paulo, a fim de cursar o Seminário Menor. Aprendeu latim, alemão e cursou Filosofia e Teologia. Em sua longa jornada como frade, tornou-se Bispo Diocesano da cidade mineira de Itabira, onde hoje continua sua luta pelo desenvolvimento dessa cidade que tanto ama. Aliando a luta política e os preceitos religiosos, Dom Mario encontrou um meio para alcançar os objetivos comuns da comunidade.

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História completa

 

P/1 – Boa noite, Dom Mário.

 

R – Boa noite.

 

P/1 – Eu queria começar a entrevista pedindo que o senhor falasse seu nome completo, data e local de nascimento.

 

R – O meu nome de batismo é Jesus Teixeira Gurgel. Eu nasci em 22 de outubro de 1921, em Iguatu, no Ceará.

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse os nomes e atividades de seus pais.

 

R – Meu pai foi Mário Gurgel Guedes, ele era torneiro mecânico; e minha mãe, Ana Alda Teixeira Guedes, doméstica.

 

P/1 – E o senhor tem quantos irmãos?

 

R – Nós éramos poucos, apenas 21. Quando mamãe teve o terceiro filho e estava aguardando o quarto, o médico achou que ela devia extrair a criança, porque ela tinha tido dois partos perigosos; ela não obedeceu ao médico e eu nasci. Eu fui esse quarto. E depois de mim ela teve apenas dezessete. O médico morreu logo depois, e mamãe morreu há pouco tempo, com noventa anos de idade.

 

P/1 – Com noventa anos! Então ela teve muitos partos perigosos depois. Dom Mário, como era o seu pai? Trabalhava lá no Iguatu...

 

R – Ele trabalhava em Iguatu, depois transferiu-se para Senador Pompeu. Ele teve várias atividades, sua vida foi muito difícil. Aliás, ele trabalhou primeiro  como negociante em Iguatu, mas, no tempo do Padre Cícero, daquelas contratações... E aquele pessoal invadiu, quebrou tudo, ele perdeu tudo, aí ele começou a trabalhar como torneiro mecânico.  Depois mudou-se para Senador Pompeu, e depois para Fortaleza.

 

P/1 – Nesse período de Iguatu, o senhor poderia descrever para nós, que não conhecemos, como era, então, Iguatu na década de vinte?

 

R – Iguatu era uma cidade de interior, simples, pouca coisa de novo tinha ali. Era a Igreja, a escola, as brincadeiras de rua, as bolazinhas de pano que se jogava. Era tudo muito simples. Uma vida muito simples, muito tranquila.

 

P/1 – E você se lembra de sua casa natal?

 

R – Eu me lembro muito pouco. Eu tenho uma capacidade de esquecer, tremenda.  Eu já falei muitas vezes que meu sucessor, Dom (Neves Lara?), tem que falar: “meu antecessor de infeliz memória...”, porque, infelizmente, eu esqueço muito as coisas.

 

P/1 – E o senhor mora lá até que idade?

 

R – Até nove anos de idade, quando eu, a convite de um primo meu – que pertencia à Congregação dos Padres Salvatorianos –, vim para São Paulo. Vim no Ita, aquele navio, Ita. Tomei um Ita no Norte... Viemos naquele navio até Santos, e de lá peguei o trem para Jundiaí, em São Paulo. Fiquei em Jundiaí, onde fiz o Seminário Menor, que corresponde hoje ao ginásio e colégio, só que era abreviado em cinco anos, e depois passei para São Paulo, onde eu fiz Filosofia e Teologia.

 

P/1 – Queria voltar um pouquinho. Quando então acontece o surgimento da sua vocação?

 

R – Olha, a vocação é uma coisa que tem uma história. Ninguém opta necessariamente por ser padre com pleno conhecimento. Às vezes parece até uma coisa sem sentido. O chamamento de Deus muitas vezes está escondido. Às vezes a circunstância é quase acidental, como é o meu caso. Mas quando a gente vai meditando, compreendendo melhor todo o sentido da vida, a gente faz uma opção mais consciente. É o que aconteceu quando eu fiz minha professão religiosa na Congregação, e depois quando eu fui ordenado padre.

 

P/1 – Quer dizer então que o senhor foi um menino... Teve esse convite e...

 

R – Tive que decidir. Achava bonito. Mas evidentemente eu não entendia toda a grandeza e a responsabilidade da vocação. Isso vem depois, com o tempo.

 

P/1 – E a família do senhor, aceitou?

 

R – Imediatamente. Meus pais eram muito piedosos, muito bons. Uma boa família, graças a Deus. Muito unida.

 

P/1 – O senhor viajou sozinho pro...

 

R – Não, eu vim com outros colegas que vieram comigo do Ceará, mas depois eles saíram do Seminário, não ficaram. Fiquei só eu mesmo da turma que veio.

 

P/1 – E como foi essa chegada no Seminário, nessa terra estanha?

 

R – Era um problema um pouco sério, inclusive porque o clima, a alimentação, tudo diferente. Eu me recordo que naquela época era mais frio do que hoje. Os cientistas já dizem que a terra está esquentando, aquecendo-se cada vez mais. Eu me lembro que eu levava cobertor para a sala de aula, porque eu não aguentava de frio. Era frio. Além disso, nós nos mantínhamos, em parte, com o nosso trabalho. Nós trabalhávamos, o que eu acho muito positivo. Nós trabalhávamos duas horas por dia na roça, e uma vez por semana nós íamos a um sítio, a uns dez quilômetros de distância, a pé, e lá trabalhávamos o dia inteiro. E era um trabalho duro. Eu carpi muito cafezal, bananal, lasquei lenha, peguei em marreta. Quer dizer, nós trabalhávamos bastante. E todo o tempo do Seminário foi assim, unia estudo com trabalho.

 

P/1 – E como era a rotina no Seminário?

 

R – No Seminário a rotina é levantar de manhã, as orações, às vezes a missa, e depois o estudo. Estudo bem forçado. O estudo no Seminário era bem exigente. Embora eu não tivesse, talvez, os melhores professores, porque muitos deles eram alemães, não falavam bem o português. Mas eles se esforçavam muito, e a gente aprendia bem. Me recordo que em de Português, por exemplo, eu tive dois professores. Um deles ótimo, que me deu as noções claras; um senhor português, aprendi muito com ele. Mas o segundo era um alemão que nem sabia falar português direito. Ele dizia: “ ‘Fêche o’ porta”, [que era]  “feche a porta”. Agora, esse homem me fez um benefício enorme, porque nos obrigou a pegar a Antologia de (cada ética?) no livro de textos clássicos. Tivemos que esquematizar trecho por trecho, da primeira página à última. Depois tivemos Alencar, Iracema, que não tinha nada que ver, não tinha lógica. Mas a gente tinha que encontrar as ideias fundamentais, as ideias secundárias. Isso me ajudou tremendamente! Até hoje eu sou muito esquemático. Quando eu vou falar, eu faço mentalmente o meu esquema, e por isso evito falar à toa. A gente vai seguindo o esquema e a fala torna-se breve. Eu aprendi muito com ele essa coisa mental, esse esquema, fazer esquema mental. Eu nunca falo de improviso. Quando me pedem pra falar eu peço dois minutos; em dois minutos eu faço um esquema mental, aí eu posso falar que não me perco. Geralmente, quando a gente fala demais, é porque não tem esquema, não tem clareza, não acaba porque não sabe como começou (risos).

 

P/1 – É verdade. Dom Mário, o senhor poderia explicar um pouco o que é a Ordem Salvatoriana?

 

R – Uma congregação religiosa. É um grupo de pessoas que se comprometem a viver os chamados Conselhos Evangélicos de Pobreza, de Castidade e de Obediência, e formam comunidades que estão disponíveis para trabalhar onde for necessário. Eles fazem os chamados votos, e a gente está sujeito a superiores que mandam o trabalho da gente para onde for necessário.

 

P/1 – Então essa é uma ordem alemã?

 

R – É uma ordem alemã, uma ordem de origem alemã, o fundador é alemão. Tanto assim que eu aprendi alemão... Não tanto no Seminário Menor, onde eram dadas algumas aulas, mas principalmente no ensino superior, a Filosofia e Teologia, porque foi antes da guerra. Antes de estourar a Segunda Guerra Mundial, muitos seminaristas alemães da minha Congregação vieram da Alemanha estudar no Brasil. Estourou a guerra, não voltaram mais, e eu tive que ensinar português a eles. Ensinando português a eles, aprendi o alemão. É uma troca.

 

P/1 – Ah, o alemão não era uma disciplina do Seminário?

 

R – Não, no Seminário Menor tinha algumas aulas, mas era só quase que diversão. E não aprendia não, porque a gente achava que era língua incompreensível, não é verdade? Mas depois, com a convivência com os alemães, com os seminaristas alemães, era diferente, eu estava falando e ouvindo, e a gente pegava não só o sentido das palavras, mas a pronúncia, que é muito importante no alemão. Por exemplo os guturais: “ich”, “lich”, “nich”. Isso não se aprende em livro, e foi muito útil pra mim. Muito útil, porque logo depois que eu fui ordenado, eu participei da primeira reunião que chama-se... A congregação, toda congregação manda, de quatro em quatro anos, um representante de cada país à Roma para o chamado Capítulo Geral, onde é escolhido o Superior Geral e discutidos os assuntos da Congregação.  E eu, logo depois de ordenado, poucos anos depois, fui eleito representante do Brasil nesse Capítulo Geral. Como a maioria era [de origem] alemã, as discussões eram em alemão. E me pediram para ser subsecretário do Capítulo, então eu tinha que ouvir os debates em alemão, e à noite entregar a ata em latim (risos). Era uma coisa completamente impossível, mas isso me ajudou demais.

 

P/1 – Mas voltando ao Seminário Menor, então o senhor fica lá em Jundiaí?

 

R – Em Jundiaí. Até 1939... Não, 1938, quando passei para o Seminário Maior, para fazer a professão religiosa e passei a cursar Filosofia e Teologia.

 

P/1 – Em São Paulo?

 

R – Em São Paulo.

 

P/1 – E como foi a sua ida para São Paulo? O senhor foi morar aonde?

 

R – Fui morar em Moema. Hoje tem aqueles edifícios altos, antigamente não havia absolutamente nada, havia simplesmente uma igrejinha – Nossa Senhora Aparecida – e depois, descampado, o nosso Seminário, e só. E tem uns __________ de dois quarteirões onde trabalhávamos e onde hoje estão edifícios enormes.

 

P/1 – E tinham o direito de ir à praça?

 

R - Agora é que aumentaram bem a igreja, evidentemente, mas não tinha nada, absolutamente nada. Nós íamos a pé, pra passear, a pé, no mato, de Moema até Ipiranga (risos).

 

P/1 – É mesmo?

 

R – Não havia nada naquele ponto. Havia os bondes ainda, o bonde fechado que vinha da cidade e ia até o Brooklin Paulista, Santo Amaro, e passava por Moema.

 

P/1 – O senhor podia falar um pouquinho desse período, lá em São Paulo?

 

R – O período do Seminário Maior foi um período de enriquecimento, inclusive depois que eu terminei Filosofia, eu ensinei durante um ano. Acabei com dezoito anos, Filosofia, e passei a ensinar em Jundiaí, em nosso colégio. Ensinei Português, Matemática, História e várias matérias. Depois voltei para continuar os estudos de Teologia. E outra coisa importante naquele tempo, é que as aulas eram dadas todas em latim. A gente ouvia as aulas em latim e respondia em latim, de modo que a gente aprendia a falar em latim, a ler o latim com facilidade e falar, o que é hoje muito incomum. A maior parte dos padres hoje não entende latim.

 

P/1 – Ah é?

 

R – A maior parte não estuda latim, estuda a liturgia em português mesmo. Naquele tempo era tudo em latim.

 

P/1 – E ainda foi ordenado em latim?

 

R – Fui ordenado. Hoje não tem mais isso.

 

P/1 – E então o senhor se ordena?

 

R – Em 1944. Por um acaso, embora eu estudasse em São Paulo, fui ordenado no Rio, porque o Bispo Dom José Gaspar era Arcebispo de São Paulo. Arcebispo novo, entusiasmado.  Ele, viajando para o Rio de avião, para a posse do Cardeal Dom Jaime Câmara no Rio... O avião dele foi abalroado por outro na entrada do Rio. Caiu e morreu todo mundo. Por causa da morte dele eu fui ser ordenado no Rio. Eu pedi a Dom Jaime Câmara, Cardeal do Rio... E Dom Jaime me ordenou padre. Depois, por coincidência, foi Dom Jaime que me escolheu para bispo, auxiliar dele.

 

P/1 – Então o senhor começa a ter uma atividade nesse período, então, no Rio de Janeiro?

 

R – No Rio de Janeiro. Depois de ordenado, eu não fiquei no Rio, voltei pra São Paulo, trabalhei em São Paulo, em Fortaleza, em Barbalha, no sul do Ceará, como diretor do colégio. Quando eu estava em Barbalha, veio um convite do Superior Provincial para eu trabalhar na Conferencia Nacional dos Bispos do Brasil, que naquele tempo tinha sede no Rio de Janeiro. E eu nem conhecia o que era a CNBB naquele tempo, eu não queria ir não, mas o superior mandou e eu fui. Fiquei um ano como subsecretário geral da CNBB [Conferência Nacional dos Bispos do Brasil]. Depois daquele ano, eu iria assumir uma paróquia em Fortaleza, quando o Núncio me chamou e disse que eu ia ficar como Bispo Auxiliar dele. Foi em 1966, 1967, por aí. Fui nomeado Bispo Auxiliar do Rio. Fiquei quatro anos lá, como Bispo Auxiliar.  Em 1971, fui transferido como Bispo Diocesano de Itabira.

 

P/1 – Conta por que aconteceu esse convite ao senhor?

 

R – Para ser bispo Diocesano, em Itabira? Esse convite foi meio... A maneira não foi lá muito agradável não, porque o Núncio me chamou... Aliás, já tinha me chamado uns meses antes e tinha feito a proposta sem me contar nada sobre Itabira. E eu tinha manifestado a ele minha vontade de ficar no Rio, porque eu estava muito bem. Mas depois de alguns meses ele me chamou de novo e falou: “Você vai pra Itabira, porque ninguém quer ir”. E ninguém queria ir pelo seguinte: porque Itabira estava passando por uma crise muito séria. Naquele tempo o prefeito da cidade tinha se suicidado. O bispo anterior, depois de quatro anos estando ali, renunciou, e a Catedral ruiu. Então o pessoal dizia que o Diabo estava solto em Itabira (risos). Ninguém queria enfrentar.

 

P/1 – Mas que circunstâncias difíceis, não?

 

R – Foi difícil.

 

P/1 – A Catedral ruiu por causa de quê?

 

R – Era uma igreja antiga, já tinha infiltrações e tudo mais. Até hoje não se sabe direitinho as causas últimas, mas não tem dúvida nenhuma que não foi sabotagem. Foi simplesmente... Já estava corroída pelo tempo, pela chuva, talvez um pouquinho também pelas trepidações das explosões da Vale, talvez também tenha ajudado. Eu cheguei e encontrei uma situação bastante difícil, porque a própria convivência dos padres era difícil. Devido à renovação vinda pelo Vaticano II, com a renovação que o Vaticano II trouxe, evidentemente se criou certa dificuldade dos próprios padres; uns querendo ir muito pra frente, outros querendo ir mais pra trás ainda, entendeu?  Até se conta que João XXIII, o papa João XXIII – que foi quem abriu o Concilio Vaticano II – se conta que ele abriu as janelas do Vaticano tão rapidamente que alguns cardeais ficaram gripados (risos). Muito rápida essa mudança. Então você pode entender que aqui também houve choques. E os padres ficaram pensando, talvez, que eu viria para acabar com tudo o que o bispo anterior tinha feito. Porque Dom Marcos foi extraordinário, o bispo anterior foi extraordinário. Ele fez uma renovação enorme aqui. Ele começou a trabalhar com o povo, com a comunidade, um espírito novo. Não de um padre ou bispo isolado, ele começou... Hoje tem a Associação de Amigos do Bairro, foi ele que começou esse trabalho, de modo que os padres pensavam que eu viria destruir tudo isso. Isso criou certa animosidade, e um preconceito que dificultaria a convivência. Foi preciso muito tempo, muita paciência pra poder vencer essa animosidade.

 

P/1 – Dom Mário, o prefeito se suicidou: o vice-prefeito era um padre?

 

R – Era um padre. E isso era outro problema, porque pelo Direito Canônico, o padre não deve se candidatar a cargos públicos, cargos eleitorais, de modo que eu tinha que retirar esse padre da paróquia. Ele era da pasta da Saúde. Eu procurei [para] ver se o ganhava. Ele se comprometeu a um trabalho comigo, e eu consegui da Santa Sé que ele pudesse continuar no cargo de Prefeito, e depois sair e está acabado. Mas depois ele entrou de novo. Aí eu já estava aqui há dois anos, a coisa entornou mesmo, e eu precisei tirá-lo. Isso criou problema.

 

P/1 – Em termos assim, da paisagem itabirana de trinta anos atrás, quando o senhor chegou a Itabira, o que o senhor encontrou?

 

R – Itabira, evidentemente, era uma cidade que saiu quase que de uma cidade provinciana para se transformar numa cidade de muito movimento, de vida para o trabalho – embora tenhamos que dizer que foi uma pena o [Pico do] Cauê ter desaparecido, porque era uma paisagem de Itabira. Mas a gente via um movimento muito grande com a Companhia, o movimento econômico crescia, logicamente. Quando eu cheguei aqui, chegando – evidentemente – do Rio para cá, senti um pouco o choque. Eu era do Rio, responsável por todo o subúrbio do Rio. Eu pegava ali de Cascadura, Madureira, até Jacarepaguá, toda essa região era o meu vicariato. Eu andava de carro por todas aquelas paróquias, visitando os padres. E aqui eu me senti um pouco restrito por causa das distâncias. As paróquias [eram] em outras cidades, as estradas quase todas de terra. De lá pra cá é que vieram asfaltando, era tudo terra. Era muito difícil.

 

P/1 – E o senhor, quando chegou, foi morar onde?

 

R – Eu morei na casa do Bispo. Havia uma ideia de eu ficar com um dos padres, porque a diocese estava também, do ponto de vista econômico, com muita dificuldade. Mas eu preferi ficar na casa do bispo por ser um local neutro, de modo que eu não tomasse partido por grupos.  E aí a minha Congregação, na Alemanha, é que me ajudou um bocado para manter-me durante algum tempo.

 

P/1 – Dom Mário, nesse primeiro momento, que ações o senhor desenvolveu?

 

R – A primeira coisa que eu procurei fazer foi ganhar o clero, porque só entendemos o bispo em união com os sacerdotes e os sacerdotes em união com o bispo, é o que Vaticano chama de Presbitério ou Presbítero, ou padre. Ele não é isolado não, é membro das comunidades dos servidores, o bispo é apenas aquele que coordena esse trabalho. A primeira coisa indispensável para uma diocese é que haja essa união. Então eu comecei a reuni-los, a promover reuniões com eles para debates de problemas, até para festinhas também, reuni-los para um cafezinho juntos, uma bebidazinha juntos, para a gente criar aquele ambiente fraterno. Todo Natal, por exemplo, e Páscoa, eu fazia questão que eles fossem lá em casa. Todos eram convidados, a gente fazia uma ceia de Natal e assim a gente fazia pra procurar ganhar, sempre disponível para ouvi-los etc... É importante criar esse ambiente de fraternidade. Primeiro porque eu estou consciente que eu não sou nada mesmo. Eu sou um pobre pau de arara, que o Nosso Senhor está usando. E depois porque não faria nada sem eles. Portanto a primeira coisa foi criar esse ambiente de amizade com os padres. Graças a Deus eu acho que consegui. Depois eu tive que lutar muito para desenvolver mais as vocações, criar mais... Criar Seminários. Comecei primeiro em Belo Horizonte e depois aqui, agora já temos Seminário aqui e em Monlevade. Para a formação de padres daqui, pra não apenas receber padres de fora, mas nós criarmos o nosso Seminário. No princípio era um pouco difícil por causa de professores, mas foi até bom, porque os professores que puderam – daqui da própria diocese – ensinar, eles lucraram muito, porque tiveram que refazer toda sua Teologia para ensinar. Isso foi muito bom, foi muito prático. Depois, o outro ponto importante foi justamente criar Comunidades. Assim como eu queria umas comunidades de sacerdotes, junto com o bispo, eu quero uma comunidade do bispo e dos sacerdotes com o povo, de modo que cada paróquia crie aquele espírito de comunidade. Então eu dei prosseguimento ao trabalho que Dom Marcos já tinha começado, de formação de comunidades. Havia um problema: grande parte das comunidades periféricas não tinham lugar nenhum de se reunir, não tinham nada. Quando eu cheguei aqui, por exemplo, João XXIII... Era até um problema a gente ir lá no Bairro João XXIII. Até a polícia tinha medo de ir lá, porque toda noite era assassinato, bebedeira; era uma coisa incrível. Agora eu visitei lá, tinha um barracozinho coberto de capim, era a única coisa que eles tinham para se reunir. Cheguei e perguntei: “Vocês querem um Centro Comunitário aqui?” Porque primeiro tem que fazer um Centro Comunitário e depois a Igreja, porque se eu fizesse a Igreja, não queria mais o Centro, e do Centro eu formaria a comunidade – que eu acho mais importante –, e depois faria o prédio da igreja, física. Propus e eles aceitaram: “Nós queremos”. Então falei: “Vamos fazer o seguinte: eu consigo dinheiro na Alemanha para construir, mas o trabalho será de vocês, em mutirão.” Aceitaram. Eu fiz o projeto para (Rivéria?), na Alemanha, consegui dinheiro, e quando ele chegou, fui lá com o primeiro cheque. Disse: “Está aqui. Agora, se não vierem aqui assinar que vão trabalhar para a construção, devolvo amanhã mesmo.” Aí a mulherada gritou: “Se os homens não ‘for’, ‘nóis vai’.” (risos) E começaram, e construíram o Centro Comunitário, construíram o Posto Médico e uma casa para as Irmãs, umas Irmãs que começaram a trabalhar lá. Depois, esse mesmo povo construiu a Igreja toda, em mutirão, tudo em mutirão. E hoje tudo eles decidem em conjunto. Reúnem a comunidade, discutem... Quer dizer, criou-se então um verdadeiro sentimento de comunidade e de cidadania. E foi assim que nós construímos, aqui em Itabira, dez Centros Comunitários hoje, e mais dez outros em outras cidades da diocese. Para formar comunidades, que isso pra mim é o ideal supremo. Enquanto não houver isso, não existe cidadania. Mas esse foi um dos grandes trabalhos que nós fizemos por aí.

 

P/1 – Dom Mário, como é que foi refazer a Catedral?

 

R – A Catedral... Primeiro eles queriam que nós reconstruíssemos a Catedral como era, mas eu não aceitei não. Os que construíram essa Catedral construíram para o seu tempo, de acordo com a mentalidade de seu tempo, e hoje nós vamos construir uma igreja para o nosso tempo.  Então eu pedi ao Doutor (Fernando?), engenheiro aqui da Vale do Rio Doce, para ele fazer uma planta. Ele me perguntou: “Mas o que o senhor quer?” Eu disse: “Eu quero uma Catedral que simbolize um grande abraço.” Ele fez aquilo em formato de igreja, e começamos a construção devagarinho. Alguns disseram: “Não, a Vale pode fazer a Catedral”. Eu dizia: “Não quero”. Não é orgulho não, é porque seria uma humilhação para mais tarde vocês dizerem: “foi a Vale que fez a nossa Catedral”. Não, foram vocês. Eu vou pedir à Vale quando precisar de alguma coisa, mas o principal serão vocês que vão construir.” E assim nós fizemos.

 

P/1- Já que o senhor tocou na Vale, qual foi o primeiro contato que o senhor teve com a Vale do Rio Doce, ao chegar em Itabira?

 

R – Olha, o primeiro contato, por incrível que pareça, foi meio esquisito, porque eu fui falar, fui tratar de qualquer assunto, me informar com o engenheiro da Vale, e me disseram que havia um dinheiro lá para a diocese. “Eita. É donativo?” “Não, é um terreno aqui que foi desapropriado pela Vale e ela quer pagar. Eu disse: “Espera aí, deixa eu ver esse negócio.” Quando eu vi, disse: “Muito bem, eu não posso discutir a desapropriação, mas eu posso discutir o preço. O preço eu não aceito” (risos). E fomos ali, debater, dialogar, e com isso se conseguiu mudar completamente o preço, que foi atualizado completamente, graças a Deus. Deu pra gente construir atrás da casa do bispo um apartamento para os padres que passavam por aqui. Mas depois, o meu relacionamento foi sempre muito bom. Não tenho queixa com isso não, porque eu nunca me submeti à Vale, mas nunca também quis brigar por brigar com a Vale. Sempre que tinha assunto da Comunidade eu levava para a Vale, nunca levei interesse deles, nunca mesmo. Mas quando tinha alguma coisa da Comunidade, eu ia à Vale pra discutir.

 

P/1 – Que tipo de demandas eram essas, da Comunidade?

 

R – Muitas. Por exemplo, um caso bem concreto. Aqui havia um bairro chamado (Camarília?). O (Camarília?) era um terreno encaixado, era da Prefeitura, encaixado entre dois terrenos da Vale. Era uma situação sub-humana: água podre... Uma coisa sub-humana. Mas não havia solução, porque nem a Vale cedia, nem a Prefeitura cedia. Então chamei lá em casa o prefeito da cidade – que era o antigo vice-prefeito daqui –, o Doutor José Maurício, e chamei o superintendente da época – se não me engano era o Schettino. Sentamos na mesa e combinamos. Eu fiz a proposta e eles aceitaram, a Prefeitura entregou à Vale o terreno, de modo que uniu os terrenos, e a Vale construiu um bairro novo aqui na cidade: Nova Vista. Todo arruado, com luz, água e tudo. Evitou uma favela e resolveu o problema. Então eu sempre entrei como catalisador. Agora, se você me disser, se perguntasse qual era o relacionamento da comunidade com a Vale, eu posso resumir dizendo que era um relacionamento que praticamente se configura como o desenvolvimento de qualquer pessoa. Todos nós temos o nosso tempo de infância, o nosso tempo de adolescência, o nosso tempo de maturidade. Então houve um tempo de infância nesse relacionamento, em que a Vale era a mamãe, fazia tudo, mas dominava. Ela é que determinava, era mais importante ser superintendente da Vale do que ser presidente da cidade. Porque ela era que determinava tudo, mas também quem trocava as lâmpadas, e dava de tudo. Aí veio a época em que os jovens começaram a se revoltar contra a Vale. Apareciam aquelas inscrições nas paredes: “Meu pai, tantos anos. Eu, tantos anos.” Começaram a haver protestos contra a Vale. Depois entrou uma época, uma terceira etapa, principalmente com o Doutor Francisco Schettino, que foi uma época de amadurecimento, em que a gente, como adulto, discutia os problemas. Eu acho que a época mais rica da Vale foi aquela, em que a gente se reunia como amigos, cada um procurando beneficiar a comunidade e o superintendente procurando os interesses da Vale, mas sempre tendo em vista a comunidade. Então a gente pôde discutir e resolver muito problema sem greve, sem nada disso. O tempo melhor. Aliás, eu já havia falado nisso várias vezes com os novos dirigentes da Vale. Eu acho que, infelizmente, depois da privatização, parece que isso se cortou um pouco.  Eu acho que nós não temos mais com quem dialogar aqui, porque os representantes da Vale aqui pouco podem fazer, a não ser transmitir para Vitória ou Rio de Janeiro. Precisaria ter alguém aqui e umas reuniões com pessoas categorizadas da Vale e da cidade para se propor os problemas e ver as soluções. E isso ser metodicamente organizado: de dois em dois meses, ou, que seja, para entender se a coisa está progredindo ou não. E lhe digo mais. Eu já disse isso várias vezes: isso seria do interesse da Vale. Sabe por quê? Porque quando não há notícia, há boato (riso). E o boato é a pior coisa que pode acontecer.  De vez em quando surge boato: “A Vale vai demitir tantos mil operários”, “A Vale vai fazer isso...” Ninguém pode dizer sim ou não, aqui não temos notícia.

 

(troca de fita)

 

P/1 – Dom Mário, o senhor falava do relacionamento atual com os diretores pós-privatização...

 

R – Eu acho que haveria interesse da Vale, deveria ser interesse da Vale constituir uma comissão mista, nesse sentido.  Eu tinha proposto isso ao Doutor Pierre, e ele tinha feito isso, mas depois foi transferido para o Norte e a coisa morreu. Mas eu ficaria nisso; se houvesse uma reunião programada, por exemplo, de dois em dois meses, com pessoas categorizadas da Vale – não apenas para transmitir, porque isso não adianta nada –, [com] as pessoas também categorizadas da cidade pra que se pudessem estudar o que poderia ser feito em benefício da cidade, sem tirar a responsabilidade do poder público e sem tirar a especificidade da Vale. Eu nunca fui a favor de se pedir à Vale aquilo que é específico do poder público, absolutamente. Eu acho que isso não pertence a ela fazer. Mas há muita coisa que ela pode fazer para ajudar a desenvolver a cidade.

 

P/1 – Certo, então vamos voltar à nossa cronologia. O senhor está nessa primeira fase, apagando esse fogo todo, começando a mobilizar as comunidades, aí o senhor começa a se envolver no projeto de construção da Catedral.

 

R – Da Catedral. Depois, como eu já disse, mais importante do que a Catedral, pra mim, foi a construção da Comunidade. E aí uma preocupação que venho acompanhando desde essa época e acompanho até hoje é o problema da formação da consciência cívica do itabirano. Quer dizer, o itabirano, por força mesmo de ter tido uma grande empresa aqui, que resolvia seus problemas, ele se acostumou a depender de fora, a receber. Enquanto... Nós temos que compreender que Itabira será o que os itabirano quiserem. Eles têm que assumir a sua responsabilidade pela cidade, então o problema da cidadania, para mim, é fundamental. Ao mesmo tempo em que meu trabalho pastoral específico de catequese, de formação de padres, assim por diante, eu sempre me dediquei muito a essa questão de formação da cidadania. Eu tenho atuado em vários setores, procurando formar o espírito cívico do itabirano.

 

P/1 – O senhor podia contar um dos frutos que esse trabalho já rendeu?

 

R – Eu acho que já rendeu alguns frutos, porque você vê, por exemplo, nas eleições. Nas últimas eleições teve um fato inédito. Itabira, durante muitíssimos anos, nunca teve um deputado federal nem estadual. Ora, se a gente não tem alguém representando lá, quando a gente vai a outro deputado, ele diz: “Eu tenho meu colégio eleitoral.” Outro vem e não se importa. Então eu, de um lado, tinha essa preocupação, e de outro lado eu não quero nunca me intrometer em partido político. Eu não tenho partido político. Eu sou próximo da lei de político, mas não partidário. Então eu procurei primeiro os partidos políticos pra ver se eles chegavam a um acordo de escolher um representante para deputado estadual e um representante para deputado federal, em conjunto, todos. Não houve jeito. Então eu a única ideia que eu tive foi a seguinte: “Vamos fazer uma pesquisa para prever quais são os que têm mais chance de ser, e vamos pedir ao povo que vote nele. Não quero saber nem de que partido ele é.” E assim foi feita a pesquisa que apontou justamente o Li [Guerra], o deputado Li, federal, e o Luiz Menezes, estadual. E o que deu foi isso, hoje Itabira tem representante na Câmara Federal e na Assembléia Legislativa. Quer dizer, vai despertando o povo pra pensar, porque o que acontecia? Os votos se dispersavam. Um votava nos candidatos de Monlevade, de Nova Era, e de todos os cantos. Então cidades muito menores do que Itabira tinham representação e nós não tínhamos. Agora já despertou pra isso, já foi um passo. Mas eu quero mais, ainda. Eu quero que haja uma compreensão maior, inclusive aqui na Fundação Itabirana, Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira, que eu sou presidente, eu quero, com o tempo, criar cadeira de Política. Cadeira de Política mesmo, de modo que haja um aprofundamento: o que é política? Com ‘P’ maiúsculo.  Relação de Política com Ética, em que entra aí a Constituição Federal, a Constituição Estadual, a Lei Orgânica do Município. “Qual é a função do prefeito? Qual é a função do vereador? Qual é a função do deputado?”, e assim por diante, para as pessoas virem a compreender tudo isso, porque a maioria não sabe o que é um vereador, não é verdade? A maioria pensa que o Vereador é um despachante barato. E não é tão barato não, não é verdade? (risos) Então eu acho que é preciso o povo compreender isso, de modo que é um trabalho que a gente vai fazendo ao lado do trabalho pastoral.

 

P/1 – Eu queria que o senhor falasse então um pouco da ação do senhor na área da Educação. 

 

R – Bom, em 1963 foi criada aqui em Itabira uma Fundação: Fundação Itabirana Difusora do Ensino – FIDE. Essa Fundação cuidava tanto do ensino primário, como secundário e superior, em 1963. Em 1993, essa Fundação entrou em crise, o curso superior não ia mais pra frente, não havia mais possibilidade de se manter. Ia formar os cinquenta alunos, não ia mais abrir o curso para o ano seguinte, então vieram... E, como sempre acontece, batem na minha porta: “Dom Mário, o que nós vamos fazer?” Então eu fiz um convite a todo o povo e às forças políticas e econômicas da cidade para se reunirem na Catedral. Foi aquela choradeira, aquela... Eu me levantei e disse: “Olha, eu tenho uma proposta concreta. Vamos criar uma nova Fundação só para o ensino superior. E eu quero uma Fundação comunitária, a estrutura dela deve ser comunitária. Ela não vai ser minha nem de ninguém, vai ser da comunidade”. Aí todo mundo bateu palma, e eu digo: “Agora vamos concretamente. Para isso, precisa ter um capital inicial.” Então apela-se à Prefeitura e à Vale para darem o capital. E cada um deu 215 mil dólares. Com isso, arrumamos o capital. Menos de um mês depois, já estava instituída e já começou a funcionar no prédio da FIDE, emprestado. Depois de um ano, começamos a construir o nosso prédio próprio. Construímos dois prédios, dois blocos em pilotis, e dois andares. E agora, nesse ano passado, construímos o terceiro bloco, pilotis e três andares. E já estamos abrindo os fundamentos para construir o quarto bloco pilotis, e três andares, mais uma vez. Então é a Fundação. Agora ela está com mais de mil alunos, e ela é não apenas comunitária porque nasceu da comunidade, mas a estrutura dela é comunitária, porque o corpo de curadores é eleito, é por eleição, e dentro deles há, necessariamente, dois alunos que participam. E nós combinamos a mensalidade com os alunos. Cada fim de ano nós combinamos qual é a mensalidade, e todo o dinheiro é jogado lá. Não recebo nada, nem o vice recebe nada, nenhum membro do corpo curador recebe nada.  É tudo de graça, e com plena transparência. Isso faz com que hoje nós já estejamos com três faculdades. Inclusive este ano começou a Faculdade de Telecomunicações e Computação. Agora, em julho, vai entrar Ciências Biológicas, e no próximo ano entra Direito e Política Trabalhista.  Não devemos a ninguém, não temos uma dívida, e já temos dinheiro para a construção. Está certa a construção, porque nós, quando calculamos a mensalidade, nós calculamos o que vamos gastar com professores, com laboratórios, biblioteca, etc., e há também uma reserva para construção. Nós temos uma biblioteca de 900 metros quadrados, temos elevador pra deficiente físico, rampas ligando todos os prédios. Graças a Deus está indo de vento em popa.  

 

P/1 – Realmente! (risos) Dom Mário, eu queria perguntar ao senhor, dentro desse seu relacionamento de trinta anos com a Vale do Rio Doce, quais são as pessoas com quem o senhor mais se relacionou?

 

R – Eu me relacionei com vários deles, mas principalmente com o Doutor Mário Pierre, o Doutor... Que está agora em São Paulo, o Doutor (Lecchetti?), e principalmente o Doutor Schettino, foi sempre muito amigo. Muito compreensivo, muito aberto para o debate e muito sincero. Tanto que tive grandes amigos entre os superintendentes, e depois o presidente da Vale.

 

P/1 – O senhor me contou que, um caso relacionado à economia verbal...

 

R – Schettino tinha pavor de falar demais, ele tinha verdadeiro pavor. Quando dava um microfone a ele, ele não queria nem saber, não queria nem ver. Mas quando foi na posse do Doutor Mário Pierre, o Schettino foi à posse. Estava lá o Mário Pierre, o Schettino e o doutor Jairo Magalhães, que era o prefeito. E o Siomar, que era o apresentador... O Siomar fala muito, tal e tal, ele é muito prolixo. Finalmente ele disse: “Agora tem a palavra o doutor Francisco Schettino. Schettino: “declaro empossado”. Ele se assustou. “Tem a palavra agora o doutor Mário Pierre.” Mário Pierre: “Muito Obrigado” (risos). Tem a palavra agora o senhor Prefeito Municipal, o doutor Jairo Magalhães (risos). Jairo: “Parabéns” (risos). Três discursos com três palavras – economia total de palavras.

 

P/1 – O que é raro. Tem alguma história que o senhor se lembre relacionada a parcerias que foram felizes entre a Vale e a Comunidade?

 

R – Olha, a Vale nos ajudou muito em vários projetos de ação social, por exemplo o Hospital Nossa Senhora das Dores, várias seções do Hospital Nossa Senhora das Dores. Tem até um setor lá de apartamentos com o nome do doutor Schettino. Ajudou muitas vezes o Hospital Nossa Senhora das Dores. Ajudou também em outros trabalhos sociais de construção e tudo o mais. Para o campo social tem nos ajudado bastante, não tem dúvida nenhuma. Eu não tenho, assim... Porque, como eu disse a você, eu sou de infeliz memória.  Mas que nos ajudou em vários projetos, não há dúvida nenhuma. 

 

P/1 – Bem, nós estamos chegando ao final da entrevista. Então o senhor chega aqui em 1971, como bispo diocesano, e vai até que ano?

 

R – Até cinco anos atrás. Cinco anos atrás, como bispo diocesano. A partir de cinco anos completei 75 [anos], e é norma que com 75 anos o bispo peça a renúncia, apresente a renúncia. Pode o papa não aceitar. Eu já tinha pedido antes, mas ele não aceitou. Em 1975 eu tinha sido operado de câncer de intestino, estava tomando até quimioterapia, então ele me deu, aceitou a minha renúncia, e de lá pra cá, nestes últimos cinco anos, eu estou como Bispo Emérito de Itabira. Bispo renunciante, mas continuei a viver aqui, porque amo esta cidade, quero bem a esse povo, e quero continuar a trabalhar por ele. Minha vida, graças a Deus, é bastante intensa, porque eu tenho, além do trabalho estritamente pastoral... Eu celebro na Catedral para ________ ter mais liberdade, visitar as paróquias; eu tomo conta de dois bairros pobres, Pedreira ________ e Nova Vista; eu tenho um programa diário de rádio, às seis horas: seis minutos de explicação do Evangelho do dia em quatro rádios diferentes. Eu gravo meu recado e atendo as pessoas constantemente, de modo que meu trabalho é aqui, e eu quero viver aqui. Agora fui nomeado provedor do Hospital Nossa Senhora das Dores, mas que não me falta o trabalho, graças a Deus. Bendito trabalho, que a gente pode fazer bem aos outros.

 

P/1 – Me diga, Dom Mário, eu vi aqui uma foto do senhor com o Papa.

 

R – Ah, eu estive inúmeras vezes com ele. Eu estive, porque...

 

P/1 – O senhor não esteve também com os outros Papas?

 

R – Eu estive com Pio XII, quando ele era padre. Fui para uma reunião do Capítulo Geral da Congregação e me encontrei com Pio XII. Depois fui me encontrar lá com Paulo VI, porque o Paulo VI foi quem me nomeou bispo, e foi também quem me colocou em vários departamentos em Roma, Congregação – por exemplo – da Propagação da Fé, Secretariado para a União dos Cristãos, Secretariado para não Cristãos, Comissão Internacional de Catequese... Em todas essas eu fui colocado por Paulo VI. Depois, agora, João Paulo II. Eu me encontro várias vezes com ele, porque como ia frequentemente à Alemanha, a convite da minha congregação, para Crismas, Ordenações e palestras para jovens, sempre eu, na volta, passava por Roma e celebrava com o Papa.

 

P/1 – Tem alguma coisa que o senhor queira colocar que a gente ainda não tocou?

 

R – Não. Eu queria só aproveitar a ocasião para fazer aquele apelo que significou o motivo de minha permanência em Itabira. Ou seja, que os itabiranos amem profundamente a sua cidade, se dediquem de corpo e alma, que cada um faça o que puder, porque essa cidade merece, esse povo merece. Vamos trabalhar juntos, de mãos dadas, esquecer todas as divergências de tendência partidárias, mas que ele exija, sobretudo, o bem da comunidade.

 

P/1 – Para finalizar, o que o senhor achou de ter passado rapidamente a sua trajetória de vida?

 

R – Foi muito bom. Eu tenho pena de vocês que têm que ouvir um pobre, quase octogenário e com a péssima memória, ainda.  Não deu nem para contar piada, não é mesmo?

 

P/1 – Pode contar uma.

 

R – (risos) Há uma piada, que essa eu gostaria de contar, porque... Eu já contei inúmeras vezes, mas é muito interessante e educativa. Essa piada eu ouvi em 1953, no navio, quando eu fui ao Giulio Cesare, para Roma. A primeira vez que eu fui à Europa. E hoje, quando já está tudo preocupado com tanta coisa, com o apagão, a crise econômica e tudo, a gente cheia de preocupações, a gente tem que ter um pouco de ilusão, de esperança. E essa piada se presta a isso. Quando eu viajei nesse navio, o capelão do navio era um padre italiano fenomenal. As missas dele ficavam cheias, repletas, porque ele aproveitava, contava uma história e aplicava aquilo normalmente. Depois de cinco dias de viagem, só se via céu e mar, as mulheres começavam a ficar nervosas. “Será que não ficou nenhuma mina por aí? O avião não vai bater em uma mina dessas e explodir?” “Minhas irmãs, nós temos que ter esperança, quanto mais pela fé. Eu vou contar uma história para vocês”. E contou. Diz que havia um senhor na Itália, seu Giovanni , tranquilo, fumando o cachimbo dele. Todo mundo nervoso: “Será que vem guerra? Será que não vem?” Seu Giovanni tranquilo. “Seu Giovanni, o senhor não está preocupado?” “Não me preocupo – em italiano –, porque de duas uma: ou vem guerra ou não vem. Se não vier guerra, não tenho que me preocupar, e se vier guerra, podem acontecer duas coisas: ou a Itália entra na guerra ou não entra. Se a Itália não entrar na guerra, não tenho que me preocupar. Se a Itália entrar na guerra, podem acontecer duas coisas: ou vou ser chamado pro exército, ou não vou ser chamado. Se eu for chamado, pode acontecer duas coisas: ou me colocam na frente de batalha, ou me deixam aqui na retaguarda. Se me deixarem na retaguarda, eu não tenho que me preocupar. Se me colocarem na frente de batalha, pode acontecer duas coisas: ou me colocam num lugar perigoso, ou num lugar em que não há perigo.  Se me colocarem num lugar onde não há perigo, não tenho que me preocupar. Se me colocarem num lugar perigoso, pode acontecer duas coisas: ou eu vou ser ferido, ou eu não vou ser ferido. Se eu não for ferido, não tenho que me preocupar, e se eu for ser ferido, pode acontecer duas coisas: ou o ferimento será leve, ou será grave. Se o ferimento for leve, eu não tenho que me preocupar, se o ferimento for grave, (risos) pode acontecer duas coisas: ou eu vou sarar do ferimento, ou eu vou morrer. Se eu vou sarar, não preciso me preocupar, se eu vou morrer, não posso mais me preocupar (risos). Para que se preocupar? Vamos nos ocupar, mas não nos preocupar. Com a graça de Deus e o esforço de cada um, nós conseguiremos vencer as dificuldades.

 

P/1 – Dom Mário, então muito obrigado pela entrevista, pela disponibilidade.

 

R – Obrigado vocês pela paciência.

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