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História

União familiar entre salgados e garapa

História de: Renata Beatriz Perone
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2021

Sinopse

Lembrança da profissão dos pais. Infância e crescimento na Vila Seixas. Brincadeira de ‘pega-latinha’. Memórias do período escolar. Primeiro emprego e trabalho com garapa. Detalhes e vivências do comércio. Propagandas e aparições públicas. Políticos e personalidades atendidas. Interações em redes sociais. Lazer nas horas vagas.

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História completa

          Eu me chamo Renata Beatriz Mifoci Perone. Sou de Ribeirão, nascida e criada aqui. Tenho 62 anos, sou de 1955. Meu pai é Oscar Mifoci, descendente de italiano, da Sicília. E minha mãe é a Leonídia Maria Soares Mifoci. Meu avô, Vicente Mifoci, era pedreiro, e a minha avó ficava com os filhos, do lar. Minha mãe era enfermeira, e o meu pai, sapateiro.

          Quando eu nasci, a gente morava na Vila Seixas. Lá eu nasci, fui criada, casei e tive meus filhos. Depois que meus pais se casaram, ele não deixou a minha mãe trabalhar mais no hospital, e ela foi fazer um bico de costureira, trabalhava em casa - e sempre foi uma grande costureira. Enfermeira pra costureira. (risos) E eu lembro da minha casa, eram aqueles tijolos, o piso era de tijolo, mas muito bem conservadinha, era muito caprichosa. A rua ainda não era asfaltada, mas as roupinhas da gente, sempre muito limpinhas. Quando era quatro horas da tarde, ela me punha sentada no muro, toda emperiquitada porque, como ela era costureira, e eu andava sempre arrumadinha. E o papai sapateiro, sempre também com um sapatinho de verniz preto.

          Eu tinha um avô, o Vicente. Ele me pegava todos os dias e me levava até a Praça XV, e lá, até hoje tem a figueira pela qual eu fico apaixonada quando vejo, porque eu vi aquela figueira crescer. Ele passava ali, em frente à Praça Sete e comprava um pastel de queijo. E nós íamos pra Praça XV, depois retornávamos, e ele comprava um picolé do ‘seu’ Otávio, que também era em frente à Praça Sete de Setembro.

          Já o meu primeiro emprego foi na Garapa. Estudei só até a quinta série, porque me casei com 15 anos - eu engravidei e me casei. O meu marido já trabalhava com o pai dele na garapa. Eu estava sem emprego - às vezes eu só descarregava a cana do caminhão e empilhava. Mas o pai dele já queria se afastar, porque tinha a gente: eu, meu esposo e a minha cunhada com o marido, que tinha sido mandado embora da Souza Cruz. Eles fizeram uma reunião pra saber quem queria pegar o negócio. E acabou a reunião, a minha cunhada não quis, e ficamos eu e o João. Aí o meu sogro apresentou-nos uma pasta, eu li tudo de novo, e ele falou assim: “Aqui está o troco. Vocês não vão ficar ricos, mas se souberem trabalhar, vão sobreviver bem, como eu sobrevivi. Eu avaliei a perua; então, como vocês querem a perua, querem a garapeira, o que eu avaliei, eu vou dar em dinheiro pros outros três. Vocês concordam? Vocês ficam com o trabalho, e eles, com o dinheiro”. E assim foi. Nós aceitamos.

          Mas o negócio da garapa já era muito antigo, vinha desde 19 de junho de 1955. Na verdade, ele tocava um barzinho na Vila Seixas, de secos e molhados, sorvete, tudo. E ele montou essa garapeira pra um cunhado dele que estava desempregado, mas ele não se adaptou. Aí meu sogro ficou na garapeira, e o cunhado, com o armazém. De noite, ele trabalhava na Tibiriçá com a Duque de Caxias, pois ali tinha uma escola que se chamava Moura Lacerda, que hoje é o Instituto Moura Lacerda. E de dia ele ficava na Avenida Álvares Cabral, com a Américo Brasiliense, numa esquininha. Saía dali o movimento. E de domingo ele ia pra feira.

          Meu sogro dizia muito isso: “O segredo é que você tem que ter amor, qualidade, higiene e gostar do que está fazendo”. E ele também falava muito em: “Todo o mundo é pro comércio. Mas nem todo o mundo é do comércio”. E quando eu fui trabalhar na garapa, ele me chamou e disse: “Olha, aqui não tem negro, aqui não tem pobre, não tem médico, não tem ninguém, certo? Aqui todos somos iguais. E você não pode ter ciúmes do seu marido, porque vão chegar pessoas, cumprimentar”. Meu sogro era muito carismático, já meu marido era mais fechado. Aí todo mundo, inclusive, achava que eu era a filha dele. (risos)

          Durante todo esse tempo, a gente encontrou muita dificuldade. Você sabe que o seu sucesso incomoda as pessoas. Mas pelo nosso carisma, pelo nosso carinho, muita gente comentava que a gente era rico, ganhava muito dinheiro. Mas não era nada disso, era uma luta grande, pois tinha que acordar cedo, às vezes estourava pneu, era bem sacrificado. Mas era gostoso, porque a gente era jovem, a gente queria vencer. Então, a gente sempre foi à luta, foi à luta, foi à luta.

          Mais tarde, com o meu filho, nós ainda montamos a salgaderia. E foi um sucesso. Eu não sabia fazer nada: pastel, coxinha, nada. Mas administrar era comigo. E era corrido. Cinco horas da manhã, já estava lá, porque a gente tinha os meninos do COC, e eu fazia promoção: quem trazia dois colegas ganhava um salgado e um suco. Não era grande coisa, mas era um chamativo. Tem muitas fotos dos meninos COC, que era bem ali pertinho. E depois eu trouxe todo mundo pra Garapa. E mais tarde, o mesmo filho montou uma casa de comida, de prato feito. Pra você ter uma ideia, a gente começou com 18 refeições. Em três meses, eu entreguei 280 refeições. E a garapa continua.

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