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História

Uma voluntária cheia de energia

História de: Josileine da Cruz e Silva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/09/2014

Sinopse

Josi, como é conhecida, é uma voluntária que acredita na força do trabalho da Pastoral da Criança. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa, ela recorda a infância na Vila Guilherme, as brincadeiras e o trabalho da mãe como bordadeira no ateliê de vestidos de noiva de sua tia. Lembra a escolha do curso de Economia e o seu desenvolvimento profissional no Banco Geral do Comércio, instituição onde trabalhou durante 13 anos.  Fala sobre o nascimento dos filhos e porque deixou de trabalhar para cuidar deles. Josi recorda o início do seu trabalho de voluntariado na Pastoral da Criança, e como os recursos do Projeto Criança Esperança tem ajudado a desenvolver um trabalho reconhecido no mundo inteiro. 

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História completa

Meu nome é Josileine da Cruz e Silva. Nasci em São Paulo em 19 de março de 1961. Meus pais são José da Cruz e Domingas Bertini da Cruz. O meu pai era militar. Ele entrou na Aeronáutica e por lá se aposentou. Quando se aposentou, ele começou a trabalhar com um tio meu numa loja de materiais de construção. A minha mãe sempre costurou vestidos de noiva. Depois que ela casou ela parou um pouquinho, ela tinha o que seria um ateliê só pra noivas, com as minhas tias. O ateliê era dentro de casa mesmo. Ela costurava vestidos de noiva, bordava, ali na Vila Guilherme. Tenho dois irmãos. Meus pais sempre foram católicos e eu não tinha o costume de ir, meu pai queria que a gente fosse sempre, mas quando não dava não tinha problema. Mas principalmente em Natal, Páscoa, essas datas mais presentes a gente tinha que ir a igreja. E sempre meu pai era muito devoto de São Judas Tadeu, então todo dia 28 a gente ia com ele até a igreja de São Judas Tadeu. Isso é muito marcante pra mim. Agora, a missa aos domingos a gente frequentava até assim, o que eu posso dizer, até quando os pais conseguem nos levar. Depois você acaba dispersando, já tem um compromisso aqui, um compromisso ali, mas eu lembro que eu fui criada dentro de uma fé católica.

Tinha inaugurado uma escola estadual perto de casa e todo mundo achando que a escola era boa, meu irmão foi pra lá, minha irmã não, minha irmã continuou, ela quis fazer o Normal que seria na época, professora. E ela me mudou e o meu irmão pra essa escola estadual. Eu realmente fiz novas amizades, mas também continuei com algumas amizades do colégio particular, embora vieram bastantes amigos pra essa escola. Eu então fiz da quinta a oitava nessa escola, foi quando a escola decaiu, minha mãe me voltou pro colégio particular. Nessa época eu então já estava acho que com 15 anos, então esse grupo de amizades me marcou mais, que foi o grupo que a gente saía, começou a frequentar as festas de 15 anos na época. Eram aquelas festas mais assim nas casas, porque não existia buffet, salão, mas era nas garagens, nas casas e eu fiz um grupinho de amizade em que a gente saía domingo à tarde, porque eu também tinha limite de horário pra voltar pra casa. Então eu fiz o meu ensino médio, com essa turma que umas vieram do Estadual pra cá e outras se perderam.  Então, eu tenho um primo que é economista. Eu conversando com ele uma vez achei que eu iria melhor para a Economia. Mas até então entrar e ter que optar, porque daí eu tinha entrado em Economia e em Administração, eu optei pela Economia. Eu fiquei na indecisão mesmo até entrar. Foi opção mesmo. Eu conheci meu atual marido no cursinho. Eu não tinha assim muita... Como é que eu vou usar o termo? Pretensão ali de encontrar um namorado. Eu acho que tudo aconteceu. E foi com ele que vim a me casar, mas o conheci nessa fase do cursinho, quando eu fiz esses seis meses em paralelo com o terceiro ano. Eu tinha umas amigas que eu fiz o cursinho pra Humanas e elas queriam Exatas. Eu fiquei sozinha na classe de Humanas e na hora dos intervalos eu ia encontrá-las na classe de Exatas e ele estavam fazendo Exatas. Então o conheci através delas, a gente começou a conversar, tudo, mas viemos a namorar mesmo no ano seguinte. Não foi nesse semestre. Namoramos seis anos e meio.

Eu comecei a trabalhar quando eu entrei na faculdade no último ano de faculdade que eu precisava fazer um estágio, foi então que eu comecei a trabalhar como estagiária. Eu ajudava, é lógico, minha mãe em casa porque não tínhamos empregada e como a minha tia continuava costurando vestido de noivas, a minha mãe a ajudava nos bordados. Então eu sempre estava por ali, mas trabalhar mesmo fora não. Eu fui contratada como estagiária no Banco Geral do Comércio, que seria do Grupo Camargo Corrêa na época, e hoje ele é Santander. Eu entrei como estagiária em Recursos Humanos pra trabalhar em cargos e salários. Eu não sabia nada. Eu entrava na faculdade às cinco e meia. Então eu ficava das oito as cinco, não fazia o horário de almoço, fazia só meia hora e pegava um ônibus ali na Líbero Badaró e já ia direto pra faculdade pra terminar o último ano. Mas foi uma fase muito gostosa, eu aprendi bastante, tive muitos bons amigos lá dentro que sempre me ajudaram, nunca eu tive problemas, tanto é que quando eu me formei eu fui efetivada já como trainee. E eu fiquei lá no Banco Geral do Comércio 13 anos e fui crescendo lá dentro. Então, quer dizer, eu acho que foi assim, mas dentro de recursos humanos, de certa forma eu não utilizei minha formação de economista, mas eu trabalhei sempre dentro do escritório. Fiz faculdade em quatro anos, na FAAP. Eu me casei em 86, eu me formei um ano antes. A gente alugou uma casa na mesma rua que eu morava, porque pra comprar a gente não tinha condições. Então a gente optou por alugar uma casa até a gente conseguir comprar alguma coisa nossa. Então nós moramos lá um período. É Alcino meu marido. Filhos, eu tenho o Henrique que está com 25 anos e a Mariana com 19. Mas é bom ser mãe, só que eu acho que eu estava mais preparada quando eu tive a segunda. Eu acho que eu era muito nova, tive o Henrique então eu dependia muito da minha mãe. Eu trabalhava, ele ficava com ela, eu não arrumei ninguém pra ficar com ele em casa, ele só foi pra escola com dois anos e meio. Então até os dois anos e meio eu trabalhava e ele ficava com ela. Agora, a Mariana eu já tive que abrir mão do trabalho. Quando ela completou quatro meses pra cinco que eu ia voltar a trabalhar, meu diretor me deu mais dois meses de licença não remunerada, pra eu tomar a decisão. Não me arrependo de ter parado para olhar meus filhos. Às vezes a gente se arrepende pelo financeiro, porque é um dinheiro que acabou, mas assim, são opções que só a gente mesmo naquele momento pode tomar. Então foi nesse momento que eu tomei a decisão de não voltar a trabalhar e fiquei em casa.

Eu fui colocá-lo na catequese, na igreja. Quando eu fui colocá-lo ele tinha nove anos, a Mariana já tinha quase dois, eu cheguei, coloquei e tinha que ir a missa todo o final de semana. A catequista dele, dona Terezinha, uma senhora, pediu pra ir na minha casa e nessa época eu já morava num apartamento. Já era nosso, a gente já tinha conseguido comprar o apartamento e era um apartamento com uma sala pequena, e ela quis vir nos visitar. Com duas crianças em casa que adoravam brincar com Lego, um com pequenininho, outro com grande, a sala ficava um tapete de Lego. Eu lembro que ela entrou na minha casa e fez assim. Eu falei: “Ah, dona Terezinha, desculpa, mas a pequenininha quer, né?”. Ela: “Não, eu gosto de entrar aqui porque isso não é uma casa, é um lar e é isso que você precisa. Você está dando atenção pra eles e assim”. Eu sempre orientei as crianças a que não mexessem no que não era pra mexer. Então sempre mostrando que se eles mexessem naquilo... Tanto é que eu nunca tirei nada da minha casa, enquanto as crianças estavam, nem da minha, nem da minha mãe. Aquilo não pode mexer porque quebra, porque machuca, então eles brincavam com os brinquedos deles, mas sem se interferir. Ela que era mais “mexilhona” que gostava de mexer em CD, mas assim coisas de vidro, nada não eram de mexer. E ela entrou e falou isso pra mim e eu criei um vínculo com essa catequista e ela começou a me chamar pra ir trabalhar com cestas básicas. Uma vez por mês a igreja dava uma cesta básica pras famílias cadastradas. E eu comecei a ir ajudar, comecei eu a ir toda uma vez por mês, a gente ia num dia, montava as cestas, no dia seguinte entregava pras famílias. E foi que foi criando um vínculo com a igreja novamente. Até que um dia veio uma senhora pra dizer que queria dar um curso da Pastoral da Criança. Foi que eu resolvi fazer esse curso. Foi um final de semana inteirinho, eu tive que deixar os dois com o meu marido e fui fazer esse curso. Foi quando eu me identifiquei assim com o trabalho de voluntariado. Quando foi chamado pra gente fazer o curso foi aberto na igreja, pra comunidade. Então algumas pessoas já trabalhavam na cesta básica e outras foram da própria comunidade que frequentava a paróquia. Quem foi nos dar o curso já eram coordenadoras da Pastoral da Criança, então eu não conhecia em si o trabalho da Pastoral da Criança quando eu entrei pra esse curso. Mas o curso foi assim muito gostoso. Foi uma capacitação muito bem elaborada, muito bem feita. Eu aprendi muito. Muito mesmo a ponto de saber que eu tinha feito muitas coisas erradas com os meus filhos. Então eu aprendi coisas pra mim e aprendi a passar isso também pras mães. O trabalho da Pastoral da Criança é a gente acompanhar as famílias e as crianças no desenvolvimento das crianças. Então a gente acompanha a gestante desde o momento em que ela nos comunica que está gestante. A gente a orienta o pré-natal, a ela saber como ela lidar com o corpo dela e também com o parceiro dela, seja o pai, o namorado do bebê que ela está esperando. A gente a acompanha, nasceu o bebê, como ela deve amamentar o bebê, como ela deve trocar o bebê, cuidar de uma assadura, da própria higiene do bebê. De uma limpezinha na boca, de uma... Cuidado com a cabecinha do bebê. Como ela deve cuidar desse bebezinho depois de um mês, dois meses, três meses. Então a Pastoral da Criança faz uma visita mensal.  A gente vai sempre de duas em duas. Então são suas líderes que vão às casas das famílias. Quando você chega nessa casa, é lógico, você tem que criar um vínculo com essa família. Então você cadastra essa família e passa a visitá-la uma vez por mês.  Comecei em 2002. A partir do momento que eu em paralelo a cesta básica eu era voluntária numa... Como é que eu vou dizer? Uma creche que tem lá perto que tem umas senhoras que se reúnem de quinta-feira à tarde para bordar. Aí que eu boto meus dotes de bordado. Então através de umas conhecidas eu passei a ir lá todas as tardes, porque a Mariana e o Henrique estavam na escolinha e eu ia pra passar um pouco o meu tempo, Ia bordar. A partir do momento que eu fiz essa capacitação, no domingo à tarde quando foi encerrada essa capacitação tinha que ser escolhido um coordenador pra coordenar aquela paróquia. E quem ia escolher esse coordenador era o pessoal que estava dando o curso porque teriam que ter três nomes, que é uma lista tríplice, pra escolha, e foi feito ali junto com o padre uma escolha. Eu fui naquele dia escolhida. Eu fiquei meio assim porque é um trabalho que você... No papel é uma coisa. Mas deram a maior força, tudo, fiquei eu e mais duas colegas da paróquia e mesmo na outra paróquia que estava junto, porque foi feito na nossa paróquia essa capacitação, mas tinham outras pessoas de outras paróquias que juntou ali. E assim foi feito com as outras paróquias também. Então a partir daquele momento eu fiquei coordenando e a gente fez a primeira celebração da vida, então a partir desse momento é que você começa a viver mesmo a Pastoral da Criança. Saber como que aquilo vai funcionar. Então colocar em prática o que você aprendeu assim, não é impossível, mas no início é difícil. É difícil. EU ainda coordeno. Porque a cada dois anos tem que ser feita uma nova eleição de um novo coordenador, mas eu sempre digo assim que o coordenador ele só tem um nome e uma responsabilidade, mas entre nós lá, nós somos todas líderes.  

A última ajuda do Criança Esperança pra Pastoral da criança foi em 2012. Atualmente esse recurso é pra essas ações básicas que são feitas, que são as compras das balanças, são mantidos uns missionários que saem daqui de São Paulo pra ir trabalhar com a Pastoral da Criança lá no Norte, Nordeste. Então esses missionários são leigos que vão lá para ajudar. Então esse tipo de ajuda é muito importante pra Pastoral da Criança pra poder manter, e manter também as próprias comunidades nessas ações que elas têm que praticar. Eu acho que é imprescindível que eles continuem ajudando, porque tem umas ações, que nem a que eu citei do bebê de barriga pra cima, tem a outra ação que é a primeira dose do antibiótico que agora é obrigatório quando uma criança é diagnosticada com uma pneumonia, por exemplo, que ela precise tomar antibiótico ela tem que sair do posto com o antibiótico já tomado, a primeira dose. E também entra a Pastoral da Criança da gente ajudar aquela mãe a não perder os horários. Ela tem que dar continuidade a esse tratamento, então é outra ação básica. A gente tem a dos mil dias, da importância dos mil dias na vida da criança, que são os nove meses de gestação, o primeiro e o segundo ano de vida. Então são essas ações que precisa do recurso do Criança Esperança pra manter. Então eu acho muito importante. Desde quando, exatamente quando começou eu não lembro, mas o último recurso que foi dado foi em 2012. Então importância da continuidade desse curso. Agora, o ano que começou a entrar o recurso eu acho que foi desde que iniciou a Criança Esperança. Porque a Pastoral da Criança esse ano está completando 30 anos. Eu acho que é suma importância.

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