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História

Uma vocação para o desenvolvimento

História de: Virgílio Guimarães Galassi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 03/12/2004

Sinopse

Virgílio Galassi nasceu em São Paulo nos começo dos anos 1920. Seu pai trabalhava com agropecuária, instalando charqueadas, os frigorífegos da época. Por conta do emprego de seu pai, passa a infância em peregrinação, morando em diversas cidades do interior de Minas Gerais. A família acaba se estabelecendo em Uberlândia e, ainda jovem, Virgílio entra para o meio político da cidade. Envolve-se pessoalmente com o desenvolvimento de Uberlândia, sendo uma grande referência aos empresários da região. Cumpre quatro mandatos na prefeitura, além de ter sido vereador e deputado federal, no começo de sua carreira. Através de sua presença política cria laços com Seu Alexandrino, proprietário da CTBC, e acompanha de perto o crescimento da empresa. 

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História completa

P/1 – Bom dia Sr. Virgílio.


R- Bom dia.


P/1 – Eu queria, para início de conversa, que você me dissesse seu nome completo, sua data de nascimento e o local de seu nascimento.


R- Pois não. Eu assino simplesmente Virgílio Galassi. Mas a minha origem é Virgílio Guimarães Galassi. Meu pai é de uma família que veio do Paraná para Uberlândia em Araguari, descendentes de italianos. Nasceram na Itália, ao lado de Mantova, ao norte. Mas se erradicaram no Paraná, em Ponta Grossa. De lá meu pai se deslocou para cá, em Araguari conheceu minha mãe, onde também se casaram. Minha mãe é araguarina, ela é filha de Clarimundo Guimarães e Eulina Santos, famílias tradicionais de Araguari, seculares. Mas a vida nos conduziu para diversas moradas. Nós moramos muito tempo em Uberlândia é claro, moramos em Uberaba, moramos em Araguari, moramos perto de Anápolis, em Goiás e outros… O correr de nossas vidas foi de muitas mudanças, mas eu acho que prevalece o tempo que nós moramos em Uberlândia. Papai era empresário do mercado de carnes e ele salgou charqueadas na região. Duas em Uberlândia, uma em Uberaba, uma em Araguari, outras em Goiás. Eu me lembro muito que na minha fase de cinco anos, nós estávamos morando em São Francisco das Chagas, ali descendo a serra de Goiás, saindo para o norte. Era um povoado, não era nem uma cidade. Papai tinha lá a charqueada, então passamos um pequeno período em São Francisco. Mas em todo lugar que nós íamos era sempre a mesma coisa. Era o empresário do abate de bovinos. Então fomos criados dentro desse espírito. Eu fiz uma opção na minha vida, cedo, para a empresa de imobiliárias. Então eu tive imobiliárias rurais e imobiliárias urbanas. Praticamente em toda a minha vida foram imobiliárias urbanas. Lancei diversos loteamentos em Uberlândia, em Ituiutaba, Capinópolis. E veio com o sonho da vida sobre negócios imobiliários. Tive fazenda também.


P/1 – Perfeito. Eu preferia ficar um pouco atrás primeiro.  O senhor nasceu exatamente onde e em que data.


R – Nasci em São Paulo no dia sete de agosto de 1923.


P/1 – O nome de seu pai e da sua mãe, por favor.


R – Papai é Francisco Alessi Galassi, a mamãe é Blanche Santos Guimarães.


P/1 – O senhor sabe quando o seu pai veio para o Brasil? Quando ele veio da Itália?


R – Meu pai nasceu em São Paulo. Meu avô que veio para o Brasil.


P/1 – O senhor conheceu seus avós?


R- Conheci.


P/1 – Ambos os lados, materno e paterno?


R- Sim, conheci bem.


P- O senhor poderia nos dizer o nome dos seus avós paternos e depois dos seus avós maternos?


R – Meus avós paternos eram Dante Galassi, minha avó Isabel Alessi, evidentemente depois Alessi Galassi. Eles se casaram em Ponta Grossa, no Paraná, mas papai nasceu em São Paulo. Eu também nasci em São Paulo. Eu nasci por uma coincidência interessante, porque eu era o terceiro filho. Quando mamãe estava me esperando, o papai foi convidado pelo meu avô, para administrar um frigorífico em São Paulo, que ele tinha comprado mas não tinha uma pessoa de confiança e com capacidade para administrar. Então papai foi convidado para, num determinado período, cuidar daquilo. E nesse período eu nasci em São Paulo.


P/1 – Vocês são em quantos irmãos?


R – Nós éramos cinco irmãos, mas uma irmã faleceu muito novinha, está enterrada em Araguari. Ficamos quatro. Depois perdemos um irmão no ano passado, no começo do ano passado. Somos três hoje.


P/1 – E seus avós maternos, os conheceu?


R – Conheci muito. Meu avô materno é Clarimundo Guimarães. Não tenho bem certeza se ele nasceu em Araguari ou se nasceu aqui na Bagagem Antiga, que hoje é Estrela do Sul, Romaria. Não tenho bem certeza, mas penso mais que foi Araguari. Meu avô era dos Guimarães que foram para o Mato Grosso do Norte e deram o nome da Chapada dos Guimarães. É uma família muito grande. Os primitivos vieram de Portugal, mas o meu avô Clarimundo já nasceu no Brasil. Eles tiveram também ali em Paracatu, passaram por ali, se deslocaram aqui para Estrela do Sul, Araguari, e daqui, a maior parte da família saltou para Mato Grosso e criaram lá, denominaram lá a Chapada dos Guimarães.


P/1 – E a sua avó?


R- Minha avó é Eulina dos Santos. Os outros sobrenomes, assim de memória não tem, mas tradicional, araguarina e inclusive nós tivemos um tio-avô foi prefeito de Araguari por vinte anos. A família era realmente muito integrada na história da cidade. 


P/1 –  Essa infância e essa família sempre se deslocando, como era o garoto Virgílio nesse vai e vem de mudança de cidade? Que lembranças o senhor traz dessas peregrinações?


R – Olha, eu realmente não tenho muitas lembranças, porque essa época de mudanças sucessivas aconteceu na minha primeira infância, e o menino não tem uma memória muito clara das coisas, mas a gente guarda fatos interessantes, né.

Eu me lembro quando estávamos em São Francisco das Chagas, eu tinha uns quatro ou cinco anos. Eu tive uma pneumonia fantástica, naquela época não tinha médico, não tinha remédio, não tinha nada. Era uma dificuldade para se conseguir um médico, né. Quase morri, congestão pulmonar, coisa difícil.--------- que se aplicava no Brasil, eu fui uma das pessoas que me beneficiei delas. Uma vida difícil, era o começo, é claro que o país tinha seus quatrocentos e tantos anos, estava ainda saindo daquela época da escravidão. Na minha infância, a gente ainda tinha muito contato com pessoas que tinham sido escravas. E a escravidão deixou assim remanescentes interessantes. Porque muita gente foi libertada, mas continuou com a família, porque isso que se pinta um quadro terrível da escravidão. Tinha muita coisa difícil, mas tinha muita gente boa que tinha escravos e que cuidava com respeito, com muita dignidade do escravo, e ficava até amigo deles. E os escravos, quando foram libertados, não sabiam para onde ir, eles não tinham condição, não tinham ambiente. Era uma vida nova, uma surpresa terrível, então uma maioria tinha a absoluta a intenção de se manter ali, de continuar com  aquela atividade. Aqui em Uberlândia nós temos uma fazenda ainda com a senzala. Aqui pertinho, aqui saindo para Araxá, Fazenda São Francisco, me parece, eu estive lá em uma ocasião. Eu estou me lembrando do problema da escravidão, eu não vivi nessa época mas convivi com o remanescente dela. Realmente, foi um país que se construiu com um esforço muito grande, sob influências culturais terríveis. Esse conflito que a gente vê no Brasil é um conflito natural. Nós tivemos influências holandesas, alemãs, no sul italianos, espanhóis. No transcorrer de nossas vidas nós convivemos com isso.


P/1 – Como é que o senhor se estabeleceu? O senhor se lembra de ter se estabelecido em uma localidade onde pudesse levar uma vida de começar a frequentar escola? Quando é que o senhor começou a frequentar escola? Aonde o senhor estava na sua primeira sala de aula? 


R – Olha, eu tenho a impressão que a primeira escola que frequentei foi aqui já em Uberlândia, ali na Princesa Isabel, Dona Carlota, me parece, eu tenho uma vaga lembrança. Nós estamos procurando lembrar de coisas de muitos e muitos anos. Eu estive na escola dela, eu tenho a impressão que foi a primeira escola. Parece que até recentemente ela estava viva. Professora Carlota, era uma educadora fantástica, e então eu acho que foi lá sim. Eu estudei em Uberlândia, eu estudei dois anos em Uberaba, estudei dois anos em Campinas, lá no Cesário Motta e estudei dois anos no Rio Branco, em São Paulo. Então não estive em tantos lugares, em escolas não. Em Araguari, me parece que não tinha idade de escola. Quando estivemos em Goiás eu não tinha idade. O que eu me lembro bem foi de Uberlândia, Uberaba, Campinas e São Paulo.


P- Essas mudanças foi acompanhando as mudanças de sua família, foi isso?


R- Foi. Quando estudei em Uberaba, Campinas e São Paulo, a família estava em Uberaba ou em Uberlândia. Papai também teve uma charqueada em Uberaba. Ele era um empresário um pouco assim, cigano. O mercado de carne de antes era um mercado de oportunidade do momento. Se tinha fase positiva em um lugar, as charqueadas eram instaladas assim com muita simplicidade. Nós tivemos umas sete ou oito charqueadas. A população nem sabe o que são as charqueadas e nem que elas existiram. Mas daqui de Uberlândia as famílias tradicionais todas tiveram charqueadas.


P/1 – O que é uma charqueada, Seu Virgílio?


R – É um frigorífico. É a indústria que antecedeu os frigoríficos. Eu vivi no regime ainda de charqueada. Você abatia o animal, carneava, tirava evidentemente o couro, os ossos e os órgãos e salgava a carne. Não tinha um comércio de carne fresca, não. A não ser em quantidades ínfimas, né. Normalmente era o charque, que existe até hoje. É um prato tradicional. Mas a charqueada era isso. Meu avô paterno, Dante Galassi, foi o pioneiro na construção daquela estrada… Eu nem tinha nascido ainda, papai nem era casado. Aquela ferrovia de São Paulo ao Rio Grande do Sul. Passou pelo Paraná e desceu, naquela época, nas matas de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul. Aquilo lá era um pioneirismo, uma coisa fantástica. Meu avô usava assim, como companheiros, peões índios. No meio da mata, é uma história difícil de contar, porque as pessoas não tem visão disso. É coisa de cem anos para cá, o tempo em que o país desenvolveu, progrediu. Então ele teve aquela fase lá, acho que alguns anos, trabalhando, fornecendo carne para os trabalhadores da ferrovia. Isso que você vê no cinema, dos Estados Unidos, coisas do Faroeste, nós tivemos aqui né.


P/1 – O senhor acompanhava o seu pai nos negócios, apenas para ver como funcionava?


R – Eu, depois de certa idade, menino de dez, doze anos, eu acompanhava evidentemente em parte do trabalho. Eu tinha escola também, não podia fazer as duas coisas. Mas, coincidentemente, meu sogro também era charqueador, Sr. Nicodésio, e na charqueada dele, o papai tinha se afastado da indústria e estava no comércio de carne. Ele pediu a meu sogro e eu estive um ano ou dois trabalhando na charqueada, na praia, nessa época estive mesmo no serviço integral. 


P/1 – Na praia?


R- Praia era onde se fazia todos os serviços. Porque eu já trabalhava no cimento e na água. Então a rês abatida era desmontada ali na praia. Noventa por cento do serviço da charqueada acontecia onde nós chamávamos de praia. Era todo mundo ali, as pessoas descalças, de chinelo, faca na mão, né? Muito trabalho, começava às quatro horas da manhã, cinco horas da manhã, quer dizer, tinha tempo para tudo. Não poderia deixar a carne, por exemplo, dormir sem estar salgada, sem estar preparada. Depois tinha que secar a carne, isso era outra guerra, uma luta terrível. No período da chuva que tinha o gado gordo, você nem sempre tinha sol. E você tinha que armar os varais para secar. Você tem uma visão de um varal de carne? Eram umas pequenas estacas, um corrimão por cima, com altura para proteger a carne, para não ficar no chão. Então um outro varal de um metro e cinquenta ou dois metros, que era para o sol dançar em cima daquilo e secar. Era muito bem salgado, tinham homens altamente especializados. Valia a pena ver aqueles trabalhadores trabalhando sempre com facas, a perfeição milimétrica, uma coisa fantástica. Era tudo igual, muito perfeito, muito bom. Nessa fase de começo da indústria, eu me lembro aqui em Uberlândia, nós tínhamos seis ou sete charqueadas e tínhamos a indústria de arroz, as máquinas de arroz. Uberlândia chegou a ter mais de duzentas máquinas de arroz aqui na cidade. Uberlândia sempre foi uma cidade polo, então aquilo que era da época nós tivemos aqui.


P/1 – A cultura do arroz era chamada arroz de sequeiro aqui? Uma tecnologia de plantio desenvolvida.


R – A lavoura era toda aqui e nas fronteiras de Goiás, você via até Rio Verde, Santa Helena, por ali tinha lavoura de milho, arroz, algodão e feijão. Tinha muito feijão também. A indústria se desenvolveu muito e tinha produção. Nós tivemos, assim, impulsos diferentes na história de Uberlândia, todos eles vindo do campo, sempre do campo.


P/1 – Como escoava essa produção Sr. Virgílio?


R – Uma pergunta inteligente. Porque produzia-se muito. Tem uma história muito bonita. Naquela época nós tínhamos aqui famílias libanesas, Messias Pedreiro, Andraus Gassani e Lia Simão. Ainda tem remanescentes dessas famílias até hoje, na verdade. Os Andraus, os Simão, os Pedreiro, estão aí ainda. São essas três famílias de libaneses, elas tinham mais expressão do campo da região que o Banco do Brasil. Eles compravam milhões de sacas por ano. E como secavam esse produto? Porque esse produto estava sujeito à secagem. O milho, por exemplo, se viesse um pouco úmido tinha que secar. O arroz sempre tinha que secar. Ou tinha que secar na fazenda ou tinha que secar na cidade. Normalmente na fazenda não tinha um ambiente preparado para isso. As pessoas faziam alguma tentativa, conseguiam algum resultado, Mas o secador, depois veio a idéia do secador de arroz, o secador de café, o secador de milho, o secador de feijão. Mas a indústria não tinha a capacidade de secagem no nível da capacidade de produção. Então os prefeitos cediam as ruas de Uberlândia. Era bonito. As ruas ficavam interditadas, colocavam um palmo de arroz ou milho no chão e ficavam aqueles homens com os sarrafos, passando o dia inteiro para se tirar do fundo para cima. Eram dezenas de ruas aqui, não tinha nem asfalto, era tudo paralelepípedo, alguns punham lona por cima. Era bonito ver aquele esforço, muito trabalho, o salário era pequeno, talvez humilde, mas tinham trabalho, faziam parte da cultura, dessa ocupação.


P/1 – Nós estamos falando de que ano?


R – Eu participei dessa época até já como fazendeiro, começando a vida. Acho que de 1935 em diante nós já estávamos nessa época. E essa época perdurou de 1935 até talvez 1970. A coisa foi melhorando, evidentemente, você já ocupava menos o poder público porque as indústrias e as empresas cresciam muito para se aparelhar. Nós tivemos uma indústria do algodão em Uberlândia, era do Messias Pedreira. Era o Asdrúbal, o Messias Pedreira e o Tamiê Teixeira. As três famílias que tinham indústria de algodão. Eu me lembro bem, eu era o Presidente da Associação rural daquela época, quando Messias Pedreira chegou lá no escritório. Messias já era uma figura proeminente, já era uma pessoa integrada na elite da sociedade paulista. Era de uma família de dinheiro mesmo, um volumes imensuráveis da nossa produção agrícola. E Messias chegou, era muito dado, uma pessoa muito simples. Eu me dava pessoalmente muito com ele, embora eu fosse muito moço, quase menino, e ele já um homem adulto, eu era presidente da Associação Rural. Ele veio e disse: “Olha Virgílio, eu vim te dar uma notícia muito ruim”. “Messias, você vem cá me dar uma notícia ruim, numa dificuldade dessa, o que é que você veio trazer para mim, Messias?”. “É ruim mesmo, eu estou sendo obrigado a tirar a Indústria de Uberlândia”. “Você está brincando Messias”. “Não tem produção de algodão, caiu. Eu não posso continuar com uma indústria dessa sem produção”. “Mas Messias, você deixa para falar isso agora, na hora de tirar a indústria.” “Eu não estou me expressando bem ou você não está me entendendo bem. Eu estou te avisando que daqui um ano, se não mudar o quadro, eu sou obrigado a tirar a indústria”. Foi muito elegante, foi formidável. “Mas Messias,  que quer que eu faça? O que você espera que eu faça?”. “Eu não sei quem faça, mas alguém tem que fazer”. Ou nós vamos ter uma produção de algodão e a Indústria permanece em Uberlândia, e ela não era só a indústria do algodão, ela tinha o descaroçamento e tinha a indústria do óleo de algodão que era do Tamiê Teixeira naquela época. Então nós ficamos desesperados na sessão rural, mas montamos um programa naquela época, foi lindo. Um programa de absoluta solidariedade. Porque depois que nós montamos o programa e que ele estava pronto para ir pro campo, não tinha dinheiro para assentar o programa. Daí eu voltei pro Messias e disse: “Messias, você pediu uma idéia, está aqui, é isso aqui. Agora precisa cem contos de réis”. Eram cem contos de réis naquela época, e nós não tínhamos nenhum. Ele olhou bem o programa e disse: “Pode dar certo sim. É a única coisa que se pode fazer”. Ele abriu a gaveta, me lembro bem disso, na maior calma, tirou um talão de cheques e assinou um cheque de sessenta contos. “Você vai lá no Asdrubal, vou telefonar para ele, ele vai te dar vinte, vai no Tamiê e ele vai te dar vinte. Aí estão os seus cem contos. Vai cuidar do programa”. Mas é lindo, não é lindo? E nós fizemos o programa, e esse programa inclusive, foi se refletindo em nossa mente no passado, durante um tempo, e deu certo. A idéia do programa era você ter cinco hectares de algodão no máximo a uma distância de dez quilômetros um campo do outro, que era para o sujeito não ter desculpa de não ver o campo. Isso ______ na distância máxima de ___ e um campo. Ia a pé, ia a cavalo, ia de bicicleta, ia de automóvel, mas dava para ver. Agora tivemos a colaboração da Copas – Companhia Paulista de Adubos da Cemig – Companhia de máquinas daqui, da Shell. Tinha que ganhar tudo. Tinha que ganhar defensivos, tinha que ganhar adubos, tudo, nós não tínhamos nada. Era a vontade de fazer só, não tinha mais nada. Mas todos esses grupos deram tudo o que nós precisávamos. O começo com dificuldade, nós queríamos colocar cem campos, colocamos oitenta e sete, não deu para fazer cem. Mas todos eles, tudo que se gastou de máquinas, de defensivos, de adubos, de sementes, foi quando foi lançada aquela semente preta do algodão, que já vinha com defensivo, que agora sempre existiu, né. Então foi muito bonito, aqui de Minas, o algodão saiu para Goiás e ficou aquela base fantástica hoje em Goiás em Santa Helena, Rio Verde, que produziu o algodão.


P/1 – Nesses tempos heróicos, digamos assim, retornando um pouquinho mais atrás, antes do algodão, o senhor estava falando do sistema de escoamento. Essa produção tão magnífica se escoava como?


R – Mogiana. Só Mogiana. Não tinham, naquela época, rodovias para São Paulo, só estrada de ferro. Era ali na Praça Sérgio Pacheco a Mogiana. Tinham os armazéns gerais… Naquela Praça Armando Villela, havia um compacto de armazéns. Tinha crise de transporte que era uma coisa maluca. Eu me lembro uma ocasião, foi o maior dinheiro que eu ganhei na minha vida, foi numa crise de transporte de milho. Eu tinha muito milho comprado e depositado nos armazéns gerais e não tinha transporte. O milho foi lá embaixo e eu comprei. Quando a estrada de ferro conseguiu regularizar aquilo, o mercado de São Paulo ficou muito bom. Eu me lembro, naquela época eu ganhei uma fortuna com o milho. Não era muito milho, acho que eram uns quinze mil sacos de milho, para mim era muita coisa. Para eles que trabalhavam com milhões de sacos, não era nada. Mas eu me lembro que não tinha outro caminho, era só ferrovia.


P/1 – De onde surgiu essa sua vocação para essa coisa da terra? Seu pai trabalhando com carne, o senhor transformou-se num fazendeiro. De onde veio essa vocação? 


R- Olha, tanto a família de meu pai que veio da Itália, de Mantova, eram agricultores, naquele tempo todo mundo era agricultor, fazia parte da cultura da época. Como a família da minha avó materna de Araguari, eram grandes fazendeiros. Isso veio no sangue, estava dentro de nós. Agora dos filhos, só eu fiquei na fazenda. Eu fiquei na terra, porque eu trabalhei com áreas urbanas e fazendas. Eu nunca tive empresa de vender fazendas não. Fazenda sempre foi uma coisa pessoal.


P/1 – O senhor se preocupou em estudar alguma coisa específica voltado para a agricultura?


R – Eu não posso falar que não tive tempo ou oportunidade para estudar, porque meu pai com muito sacrifício formou os filhos que quiseram estudar. Minha irmã se formou, o meu irmão mais novo se formou em Engenharia, o meu irmão mais velho estudou Engenharia até desistir. Eu não quis, eu não tive essa vocação para o estudo. Mas se fosse estudar, na época teria que fazer Agronomia, possivelmente... Depois aqui em Uberlândia, já depois de moço adulto, eu tive oportunidade de cursar Direito. O diploma seria fácil, a gente não poderia dizer que seria um diploma comprado, mas era um diploma muito facilitado. Eu não vou estudar direito, eu não vou merecer esse diploma, não quis fazer.


P/1 – O senhor e seus irmãos chegaram a conviver bastante tempo juntos ou passaram também estudando fora?


R – Não, convivemos o normal. Mas a família se manteve sempre próxima. O irmão caçula que se formou em engenharia foi para CBC, aquela grande indústria de munição de São Paulo, depois passou um dos proprietários dela e depois mais tarde recentemente vendeu a parte dele, mas continuou lá em Santo André. Faleceu agora no começo do ano passado. O outro irmão está lá em São Paulo e a irmã também em São Paulo, mas no interior. Aqui só fiquei eu.


P/1 – Sr. Virgílio, quando aconteceu essa opção familiar de fixar-se em Uberlândia?


R – Olha, desde que eu me lembro o papai e a mamãe tiveram a preferência por Uberlândia. E Uberlândia era uma cidade atraente, sempre foi. Eu me lembro muito quando criança que Uberlândia já era um grande centro no setor agro-pastoril, não tem dúvida nenhuma que já era. Mas existia essa vocação em todas as famílias de Uberlândia que ela tinha que se transformar. Eu me lembro menino ainda, aquelas rodas de escolas, a gente sonhava com uma Uberlândia como um grande centro médico, taí um grande centro médico. Um grande centro de comunicações, taí a Telefônica. Aí veio crescendo em nossa mente e hoje Uberlândia é um grande centro de inteligência. A semana passada uma pessoa me perguntou _______ de família, porque esse respeito que Uberlândia tem é quase um respeito internacional. Eu falei, a América Express está em Uberlândia. A Cargill está em Uberlândia, a Souza Cruz está em Uberlândia, Novat está em Uberlândia, temos aí grandes empresas internacionais em Uberlândia. A telefônica era nossa, é claro, e estava aqui também. Mas sempre em todas as épocas Uberlândia quis alguma coisa a mais em termos de concentrar, de se expressar. Por exemplo essa medicina, telemedicina, isso é fantástico. Eu estive a pouco tempo no consultório do Dr. Roberto. O Roberto é até primo longe meu, é de Araguari. Ele me dizendo que ainda na América Latina o grande centro da telemedicina é Uberlândia, não é São Paulo não, é aqui.


P/1 – Essa vocação é uma vocação que vem desde os primeiros empreendedores, essas figuras heróicas que se embrenharam por esse Brasil afora, realizaram seus sonhos...


R – Isso, é bom que se diga, sempre fez parte da cultura uberlandense, nunca foi uma pessoa só. Foram centenas de pessoas, depois milhares de pessoas, dentro dessa idéia de que a cidade devia se transformar em alguma coisa a mais, em exemplos. Uberlândia tinha que ser uma cidade cheia de exemplos para o Brasil. Isso tem ficado assim nas gerações, não concentra agora na Empresa Telefônica. E isso foi um começo violento. O primeiro edifício inteligente do Call Center da América Latina é em Uberlândia. Agora está havendo um investimento de bilhões de reais para triplicar ou quadruplicar a capacidade do Call Center. A telemedicina está recebendo as chamadas lá do Call Center. Me disse o Roberto que está uma média de mil consultas de telemedicina por dia!


P/1 – Sr. Virgílio, como era essa cidade, que hoje tem esse porte, como era essa cidade da sua juventude, do jovem empresário que estava começando sua vida, como era Uberlândia daquela época?


R – Olha, Uberlândia era interessante. Faltou à Uberlândia, no começo, um arquiteto. Nós começamos com uma cidade assim pequena, apertadinha, que é o atual Fundinho hoje. As pessoas ainda lutam pelo Fundinho hoje, uma coisa fantástica. Faltou um pouco de inteligência, faltou um pouco de arquitetura. Era só fazer as ruas mais largas um pouco, ter uma visão de futuro próximo. Mas na medida em que a cidade cresceu, isso evidentemente, nunca foi discutido, mas foi sentido o tempo inteiro. Você vê que bairros em Uberlândia são diferentes dos outros. Nós temos a Tibery, a Tibery é um bairro lindo, você passa e não presta atenção. É um bairro super bem traçado, aí teve a idéia da arquitetura. A Turbalina começou a melhorar, o Planalto é um bairro maravilhoso, de super avenidas. É uma cidade tentando se corrigir e vem realmente se impondo, usando as próprias entradas das rodovias, que a cidade passou por cima de tudo. Aquilo foi mantido, mas é a deficiência inicial que a gente tenta corrigir. Temos a Rondon Pacheco, que poucas cidades tem uma avenida como essa, temos tantas outras . Mas isso sempre foi uma preocupação, uma cultura da família uberlandense. E por ser sempre um centro de destaque, um centro comercial, Uberlândia atraiu inteligências, elas vieram de fora. Elas vieram com o mesmo espírito. Uberlândia recebe, por incrível que pareça, gente boa demais, recebe bandido também, é claro, temos muitos bandidos aqui, isso vem na migração. Mas o que vem de bom é o que fica. Temos um exemplo lindo aqui: os coronéis e comandantes da polícia e do exército daqui eles se aposentam e ficam em Uberlândia. Eles servem pouco tempo, a gente vê um comandante da polícia, eles servem dois, três, quatro anos, porque eles têm que cumprir período. Eles se empolgam tanto com a cidade, a cidade tem um praia clube, que tem um cajubar, isso não é comum não. A pessoa tem que conhecer o mundo para saber que isso não é comum. Eu fui na Alemanha, convidado pelo senado alemão, e fiquei vinte e um dias na Alemanha e aproveitei a viagem e fiquei oito dias na Holanda. E a dificuldade daquele povo para ter um canteiro de flores, aqueles grandes parques da Inglaterra, da Europa; eles tem canteiros de flor cercados com grades. Fala-se que o brasileiro é bandido, mas lá você não vê roubar flor, mas está cercado com grade, tem um guarda daquilo ali. Em Paris você vê as flores, tem lugar lindo, no Louvre, uma maravilha, nos Campos Elíseos , Champs Elysée, a gente vê flores, para turismo mesmo, é lindo, lindo mesmo. Mas você vê ali, passa-se da cidade, é uma cidade bonita, uma cidade cuidada, mas não tem aquelas concentrações né.


P/1 – Sr. Virgílio, nesse momento de consolidação da economia uberlandense, o arroz passa a ter um papel tão importante quanto a agroindústria, a nascente agroindústria? O arroz, como ele chegou aqui?


R – O arroz veio, evidentemente, houve uma coincidência de interesses, de intenção. A indústria veio surgindo na medida que a produção se instalou em Uberlândia. O agricultor uberlandense também sempre foi formidável. E os empresários, esses grandes empresários daquela época, eles tinham uma paixão por Uberlândia muito grande, por aquilo que eles faziam. Então traziam variedades de fora do país. Eu me lembro de um dia , o Sr. Andraus Gassani (tem uma avenida no Distrito Industrial com o nome dele) chegou à fazenda onde eu morava, ele ia muito lá, levava um menino que gostava de caçar perdiz. Esse dia chegou diferente, chegou com um embrulhinho na mão. Aquele embrulhinho mexendo o dia inteiro na mão me incomodou e eu falei assim “Olha Andraus, o senhor está trazendo dinheiro para mim nesse embrulho?” Ele riu e disse: “Não é dinheiro não, mas representa dinheiro”. “Está bem.” Muito tempo na mão, ele não falava o que era, depois: “Isso aqui é muito mais importante que dinheiro, eu trouxe para você. Fui no IAC em Campinas, eles estão lançando, vão lançar o ano que vem a variedade do arroz Pratão”. Hoje tem muito Pratão por aí. “Eu trouxe cinco quilos, não consegui mais, então isso aqui é um quilo, e eu trouxe para você. Eu tenho que levar os outros quilos para outros quatro fazendeiros que pensam como você, que vão se dedicar a isso. Eu vim te trazer isso aqui e te pedir – cuida desse arroz para nós, multiplica ele, faz com carinho”. Nós não tínhamos irrigação naquela época, tinha que tratar o tempo mesmo. Mas minha mulher me ajudou muito naquela época e ela falou “Não Virgílio, não planta lá na lavoura todo não, planta um pouco aqui no quintal que se faltar chuva eu águo para você”. Muito solidária. E nós tínhamos que classificar aquele arroz. Porque veio o primeiro arroz Pratão. Então nós colocávamos um pano azul, para destacar bem à noite. Aquele um quilo eram milhares e milhares de grãos, e resolvemos classificar um padrão daquele arroz. Ainda não estava sendo lançado, não era 100% definido, e estabelecemos aquele padrão de grão e fomos tirando grão por grão, quando você tinha uma dúvida comparava, e tal. Gastamos dois, três dias com um quilo de arroz. Mas classificamos, aquele que achamos que não era bom deixamos na lavoura sem esse cuidado. Mas o que era bom plantamos um pouquinho no quintal e o resto eu levei para a lavoura. Mas foram anos bons e nunca tivemos problemas de precisar irrigar. Nós começamos a plantar meio quilo, aquilo era um pedacinho de lavoura, separada, com maior cuidado, aquilo era um tabu. Quando foi na época da colheita, eu ia para lavoura, eu ia pessoalmente e levava uma sacola grande. Ia ver o pé de arroz mais bonito, não podia, naquela época punha-se gado na palhada, não podia ter o esterco de gado ali, era diferente. Não foi o arroz que produziu aquele resultado, ele foi mais adubado. Tinha que limpar o chão, deixar tudo certinho. Aquele que partilhava mais, que davam cachos mais longos, mais grão por cacho, retirava aquele cacho e punha na sacola, pé por pé. Fiz isso cinco anos e multiplicando sempre. Cinco anos depois, o meu cunhado, o Ari de Castro Santos, que é da TV Bandeirantes Paranaíba me perguntou se eu tinha o arroz Pratão, que era muito bom. Queria que eu vendesse um pouco. Não, é meu cunhado e meu compadre e eu disse que não ia vender não. Eu vou te dar e te fazer um pedido, você leva o que você precisar, eu sei que você tem um Pratão lá, que você tem caprichado, e o Dr. Castro Macedo, ex-prefeito de Capinópolis tem também, então você faz o seguinte: “Você leva o meu o que você quiser, mas planta na quantidade idêntica do lado do seu e também do Dr. Cássio, vamos ver se eu fiz alguma coisa diferente, acho que não. Leva lá”. Levou e plantou com muito carinho, fui até visitar a lavoura dele, o terreno é igual, beleza, maravilha.  Passou uma temporada, eu fui ver colher o arroz. “Como foi aí?” “Foi bem, muito bem. Todos foram bem”. “O seu foi muito melhor. O nosso, o meu e do Cássio deu cento e cinquenta sacos por alqueire, o seu deu duzentos e vinte, mais de cinquenta por cento a mais de seleção”. Eu estou dizendo isso para vocês, porque em Uberlândia, nós fazíamos isso muito quando não se tinha nada de pesquisa. Nós tínhamos cinco fazendeiros aqui, um japonês na Estrada de Uberaba-São Paulo, ali na Floresta do Lobo; tínhamos e temos ainda… Esqueço sempre o nome dele... Na região dos Marques indo para o Prata. Tinha também aqui, indo para Uberaba, um estrangeiro, esta aí ainda hoje também. Todos eles contrataram, através da EMBRAPA, um agrônomo de elite, os cinco pagavam e esse agrônomo corria as cinco fazendas, não digo o tempo todo, mas naquele período necessário. Ele orientava algodão, soja milho e arroz. Pesquisa particular. Então você vê o que essa cidade produziu de resultado, o tempo inteiro. Um era japonês, outro acho que era romeno, outro alemão. Mas vieram para cá não sei por que, acho que a cidade atraiu isso.


P/1 – Sr. Virgílio, foi em função do arroz que o senhor conheceu o Sr. Alexandrino?


R – Não, o Alexandrino teve máquina de arroz, mas eu entrei no arroz um pouco antes do Alexandrino. Acho que ele começou com uma maquininha muito pequena.


P/1 – Como foi o seu primeiro contato com ele?


R – O primeiro contato com Alexandrino, honestamente, eu não me lembro. A gente já era uma sociedade tão livre, tão fáceis as coisas e não havia essas diferenças do Alexandrino, do Messias, do Andraus, do Nicoleto, era uma coisa fácil para gente conviver, nós fomos nos integrando uns nas vidas dos outros, cada um cuidando do que era seu, né. Me lembro do Alexandrino com máquina de arroz, com posto de gasolina, com agência de automóveis e depois com a Telefônica. Aliás, foi uma luta terrível para conquistar essa Telefônica. Primeiro era do Teixeirinha, do Tito Teixeira, depois foi vendido para uma sociedade grande, em que o Alexandrino tinha uma parte só, ele não tinha o domínio da Telefônica. Ele foi maravilhoso, ele se impôs pelo valor pessoal; e ele se impôs de tal maneira que conquistou o respeito da sociedade. Então todos os homens de bem daquela época eram sócios da Telefônica. Todos tinham ações. Todos sabiam que a Telefônica não estava indo como precisava ir. E Uberlândia precisava de uma grande Empresa Telefônica.


P/1 – Como era esse momento, antes de 1954, com a cidade crescendo e com a necessidade cada vez mais premente de comunicação. Se demorava horas para se falar com São Paulo ou com Belo Horizonte. Como os empresários conviviam com essa situação?


R – Evidentemente com a maior dificuldade. Eu me lembro dessa Telefônica. O que aconteceu comigo são fatos que marcam. Eu fiz uma viagem com Paulo Margonari, falecido já, mas era muito amigo meu, da minha geração. Fomos fazer uma viagem de pescaria em Santa Maria, hoje Miraporanga. Então passamos por lá, as estradas eram boas naquela época, interessante isso. Uberlândia sempre foi boa, tinham as dificuldades, mas eu não ligava não. Nós passamos Miraporanga, a estrada está até hoje lá, e tinham três curvas perigosas ali, e o Paulo estava correndo demais da conta e eu falei: “Paulo, cuidado, essa curva é perigosa”. “Não tem nada não”. Fez a primeira, foi bem. Fez a segunda, foi bem. Quando foi na terceira, veio um carro de lá para cá e nós batemos de frente. Foi aquele troço. E não tinha aquele trânsito que tem hoje para esperar um carro passar. Era difícil, não tinha como. A nossa sorte é que era perto de Miraporanga, então a uns quatro quilômetros ou cinco quilômetros de Miraporanga. Ia armando um temporal, uma coisa terrível. Nós estávamos com pessoas machucadas dentro do carro, perna quebrada, costela quebrada. Bateu de frente a uns setenta, oitenta quilômetros por hora, naquela época era muita velocidade. Eu fui à Santa Maria. Eu e meu companheiro viemos e fomos ao centro telefônico. Tinha telefone nas grandes fazendas, sempre nas famílias tradicionais. Era fazendeiro e tinha telefone. Fazia parte da cultura, tinha que ter, não tinha jeito. O telefone era interessante porque a linha era uma só, então quando uma pessoa falava, tinha um sinal. Quando tocava tantas vezes era para um ou era para outro. Normalmente os mais curiosos pegavam o telefone para ouvir a conversa dos outros. Tinha que ter um cuidado para conversar no telefone que era uma coisa terrível. Mas cheguei em Santa Maria e a chuva desabou. Raios e uma precipitação pluviométrica que é uma coisa difícil de descrever. Um temporal, e eu ali na cabine telefônica e um sujeito estava falando no telefone. Eu tinha que falar com Uberlândia. Então toquei, toquei, e consegui falar debaixo daquela tempestade, pedi recurso, os dois carros ficaram impossibilitados de circular. Pedi recurso. Eles passaram em Miraporanga e me pegaram e fomos para lá. Foi o telefone. Imagine, com aquela dificuldade toda ele já existia muito antes dessa oportunidade. Naquela época no começo da Teixeirinha, eu não sei como o Tito Teixeira conseguiu, que foi formidável também, levar o telefone para aquelas fazendas todas. Os fazendeiros deveriam dar os postes, ajudavam a pagar a linha. Não tinha como, o capital era diferente naquela época. Tinha que fazer como o Alexandrino fez a Telefônica, tinha que fazer na raça mesmo. Tinha que fazer, mas não tinha como fazer. O Alexandrino, eu até já citei algumas vezes isso, mas acho que devo continuar citando, foi lindo. Porque a gente fala no Alexandrino, fala errado. Deveria falar no Alexandrino e a Dona Maria, porque foi uma mulher formidável, sempre solidária com ele. E quando Alexandrino veio para cá com Dona Maria, o pai dele é que veio para cá. Eles moravam na Princesa Isabel, eles tinham uma chácara que produzia verdura. Pelo que eu me lembro começaram na terra e o Alexandrino se destacou com valor empresarial e começou a buscar do nada. Porque era do nada. Ele descreveu como se construiu, é difícil, é o valor pessoal. É a vocação do homem, é a obstinação do homem. Como me aproximei do Alexandrino, não sei. Foi naturalmente, nós tínhamos os partidos políticos e tínhamos a Associação Rural, era formidável isso em Uberlândia. Era formidável porque? Porque os homens dos partidos políticos eram todos da faixa, da família tradicional. Não eram pobres nem ricos, eram os homens, o pequeno, o médio, o grande, mas que se respeitavam e se entendiam e que tinham um relacionamento bom, familiar, comercial bom, mas que residiam em partidos políticos diferentes. Tinha a UDN, o PSD que substituiu o Coió e o Cocão antigo. No meu tempo já não me lembro mais de Coió e Cocão, eu era menino, mas já não me lembro. Então o sujeito era Coió ou Cocão. Depois veio a UDN, o PSD e veio o PTB e o Partido Republicano que era o PR do Artur Bernardes. O Bernardes ia a Uberlândia muitas vezes, naquele tempo tinha amigos tradicionais aqui. Mas falando em política, quando as coisas se complicavam, todo mundo era sócio do Sindicato Rural e que em outras cidades não teve. Então a diretoria do Sindicato Rural, aquela discussão da época, aquela reserva da época, puxava os bastidores, puxava a cortina. O Sindicato Rural passava a ser uma mesa de entendimento de partidos políticos. Eu me lembro muito bem o Euzébio Zacarias era o presidente da UDN, Toninho Resende era o presidente do PSD, eram partidos que se agrediam violentamente, mas nós tínhamos um relacionamento formidável atrás dos bastidores do Sindicato Rural, então a briga chegava a um certo ponto, aí chamava o bom senso escondido ali, e se conseguia alguma coisa, que eram homens muito duros, eram homens do tempo dos coronéis. Já não eram coronéis mais, mas vinham da época dos coronéis. Então a população hoje se delicia, a própria imprensa a falar de coronel. Graças a Deus tivemos coronéis, graças a Deus. Porque foram eles que naquela época construíram o que nós temos hoje. Construíram com humanidade. No fim da escravidão eram os coronéis. Você não vê falar dos coronéis de Uberlândia, maus, violentos. Não tem. Coronel é só uma palavra só. E a pessoa que critica geralmente não tem estrutura de capacidade ou de moral para fazer aquela crítica. Porque ele tinha que ver se o sujeito foi mau, fez isso ou aquilo. Não tem exemplo. A história de Uberlândia é tão bonita, o fundador de Uberlândia, que foi um dos prefeitos, o nosso primeiro, o Felisberto Carrijo. O espírito de Uberlândia está ali com Felisberto. Ele era empresário, ele era metalúrgico. Ele tinha uma tenda de ferreiro. O que é isso? É aquela indústria  que antecedeu a metalurgia. Então você tinha um metalúrgico, um professor formidável e um espírito empresarial de livre iniciativa, visão de futuro maravilhosa. E é isso. As pessoas que vieram para cá se integraram dentro nesse espírito. Se vocês querem falar de Alexandrino, falo que foi uma das expressões mais bonitas desse espírito de Uberlândia.


P/1 – Queria que o senhor se ativesse nesse processo de transição da Empresa Telefônica Teixeirinha para a Associação Comercial e para aquela famosa Assembléia Geral em que o Sr. Alexandrino assume o controle.


R – A Teixeirinha, eu acho até que ela foi uma grande empresa. Feito na época, se dedicou de corpo e alma àquilo. Foi um empresário enfurecido para fazer as coisas. Não era só ele. Ele em Uberlândia, mas tinham uns colegas dele na região, em Araguari, em Uberaba, tudo. Dessa época, em que todaa as fazendas, que normalmente eram as fazendas tradicionais, tinham telefone. Não contratavam professores nas fazendas porque o Estado não tinha como. Era o fazendeiro que contratava um professor e punha na fazenda para ensinar os próprios filhos e os filhos dos seus servidores. Era bonito, é uma história que tem que ser contada, pensa que o mundo é uma coisa, não é. Esse mundo que nós temos é o resultado de valores fantásticos que estiveram presentes em toda a nossa região. Eu me lembro que começamos a buscar as crianças nas escolas, foi uma das minhas administrações aquilo. Hoje para onde você vai tem uma kombi buscando os meninos na escola e a escola passou centralizando a importância. Então o homem que está produzindo a criança de hoje ela está muito melhor trabalhada do que a criança de ontem. Quando começou isso? Com aqueles homens que contratavam do seu bolso, que faziam pesquisa por sua conta, faziam de tudo. Eram os grandes líderes, modestos, humildes, estavam fazendo porque acreditavam naquilo que iam fazer, dedicados naquilo e o resultado ficaria para todo mundo.


P/1 – Pioneiros empreendedores.


R – Pioneiros empreendedores. A Teixeirinha também foi, na medida do possível. Não tinha dinheiro. Era numa época que você tinha grande dificuldade. Tinha que fazer tudo mas, não se podia fazer nada. Mas fazia, porque ia buscando, encontrando solidariedade, convencia. O poder de convencimento era muito importante. A pessoa tinha que convencer um, convencer outro. Eu acho que a Teixeirinha foi a base, e graças a ela temos essa super grande empresa que sempre foi administrada por grandes valores. Não me lembro muito da primeira etapa… Depois ela passou, a Associação Comercial passou a influenciar muito no desenvolvimento da Telefônica e depois que o Alexandrino assumiu o comando dela, ele e Dona Maria fizeram uma viagem à Europa. É interessante, que o Alexandrino era também ingênuo, era puro. Era um sujeito formidável, uma visão empresarial fantástica, mas era uma pessoa assim que no fundo, no fundo era um pouco ingênuo.


P/1 – O Sr. estava se referindo à uma viagem do Sr. Alexandrino para a Europa. 


R – Ele foi com a Dona Maria justamente para ver o desenvolvimento da telefonia. Ele foi, se eu não tiver equivocado, ele foi para a Suécia.


P/1 – O senhor não está se referindo ao Dr. Luiz, não?


R – Não, foi o Alexandrino. O Luiz, assim como o pai, teve uma visão fantástica, mandou o filho para os Estados Unidos para se formar, ele estava brigando de foice aqui na Telefônica e pondo o filho na escola lá. Foi fantástico, isso tem que ser destacado. Ele tinha que ter uma visão linda. Ele estava construindo a obra aqui e mandou um filho, depois mandou um neto para lá, para se preparar para administrar o patrimônio, com a visão e a inteligência dos mais desenvolvidos. Mas quando ele foi com Dona Maria lá na Suécia ele ficou deslumbrado com a telefonia da época lá. Ele ficou tão deslumbrado… Que ele tinha uma máquina lá, soube que essa máquina ainda funciona aqui, uma Central Telefônica… Que ele se esqueceu que tinha um governo brasileiro para ser consultado, comprou a máquina e depois não conseguia trazê-la. Porque se a máquina viesse para cá naquela época, o governo não tinha como esconder a incompetência administrativa. A máquina estava assim um século na frente do que nós tínhamos aqui. Os homens do governo dificultaram muito para o Alexandrino trazer isso, de roer o osso, de trazer muitos anos depois, talvez dez anos ou mais depois é que ele trouxe a máquina para cá. Ainda era uma máquina fantasiosa. Muito ajudado pela família. O Luiz foi formidável, aceitou se preparar para assumir essa responsabilidade. O Luiz trouxe depois da escola dele não só o conhecimento pessoal não. Ele trouxe a visão empresarial da iniciativa americana. Ele trouxe a experiência para procurar os bons comandantes. Isso já veio com o Luiz dos Estados Unidos. Ele já começou a procurar o Mário Grossi. Foi o primeiro homem que o Luiz trouxe. Abrir mão numa grande empresa para um outro comando, precisava ter uma influência diferente. Nós não dávamos conta de fazer aquilo. Nossa cultura não dava para isso. Então foi o Luiz que foi esse degrau na escada, que se formou lá nos Estados Unidos.


P/1 – Essa ______ nos anos 1950, nesse momento em que Seu Alexandrino, já um empresário estabelecido, com uma idade já relativamente avançada, entra em um negócio absolutamente novo, e tem essa visão de futuro. O que o senhor se recorda que tenha mudado nesse período, quer dizer depois que Seu Alexandrino cria a CTBC? O que muda na cidade do ponto de vista da telefonia?


R – Vou lhe dar uma resposta baseada num acontecimento do começo do século. O Alexandrino ainda nem tinha vindo para cá. Eu fui convidado para ir a Bauru para falar sobre o progresso de Uberlândia. E fui convidado nesse último mandato. E nessa reunião lá, estavam conferencistas de São Paulo, formidáveis, inclusive estava aquele jornalista da economia… Como chama ele, aquela coluna no Estado de São Paulo... Joelmir Betting! Estava lá para falar também sobre isso. _____ O grande desenvolvimento de Uberlândia, foi quando chegou em Uberlândia, os trilhos da Mogiana e o telégrafo. Porque nós passamos a ter transporte e passamos a ter comunicação. A primeira comunicação que Uberlândia teve foi o telégrafo da Companhia Mogiana. É daí que foi surgindo tudo depois. Eu até citei os “uais” de Uberlândia e o pessoal riu demais com o nome. Os “uais” de Uberlândia. “Uai” é uma expressão mineira. Mas realmente, Uberlândia cresceu por comunicação. Quando veio a Mogiana que tivemos uma maneira de transportar nossa produção. E o telégrafo, porque a família uberlandense vivia no telégrafo. Eu me lembro a mamãe em casa, nós éramos meninos, aquela preocupação dela. “Chiquinho, fala com papai, passa um telegrama pro ________ ele não está bem”. Mamãe era muito dinâmica. O telégrafo era a grande coisa que tínhamos antes da telefonia. Depois veio a telefonia, veio a Teixeirinha, veio a fase de transição, porque na medida que nós fomos conquistando posição na comunicação, que evidentemente, o grande destaque foi a Companhia Telefônica, está sendo e vai ser ainda, a cidade foi crescendo, foi trazendo empresários. Porque veio uma Souza Cruz para Uberlândia? Porque veio a Daiwa, porque veio a Fugivara naquela época que o Rondon era governador de Minas? Porque tinha uma estrutura de sustentação. A cidade já tinha, e não só já tinha essa estrutura de sustentação comercial, como tinha qualidade de vida. Quanta coisa em todos os tempos, todas as famílias uberlandenses exigiram qualidade de vida para os seus comandantes. Ela nunca abriu mão da qualidade de vida. O Praia Clube, o Cajubar, hoje tem tantos clubes em Uberlândia que você nem sabe mais quantos tem. Então nós viemos somando nessa cultura formidável, com comunicação, com educação, com medicina, com qualidade de vida, e isso veio fazer nessa cidade, que sem dúvida nenhuma, hoje é uma verdadeira princesa. Muito atribulada com o progresso, ainda com um trânsito criando dificuldade, isso foi fruto de muitas influências.


P/1 – Nesse momento de início das companhias telefônicas, as concessões eram concessões municipais, não existia a Telebrás, como que era o tipo de negociação? No seu mandato, o senhor teve esse tipo de negociação para renovação de concessão? 


R – Olha, eu tenho a impressão, não tenho certeza, mas tenho a impressão que ainda no primeiro mandato tivemos qualquer relacionamento fiscal com a Telefônica. Mas essa impressão não posso garantir não. Agora, o Alexandrino era um homem muito duro. Na hora de pagar tributo ele pagava se tivesse que pagar, obrigado a pagar, sob o pelotão de fuzilamento, senão não pagava não. Mas era assim naquela época, o sujeito não tinha dinheiro, não podia gastar. É uma coisa que a pessoa não entende. Mas estávamos na época que a pessoa não podia gastar. Não tinha como gastar. Então se viravam de toda a maneira. E eu estou dizendo desse caso da Prefeitura de Uberlândia, porque eu desconfio que ainda tivemos um relacionamento de cobrança fiscal que o Alexandrino pagava, pagava sempre, pagava obrigado.


P/1 – Como o senhor definiria o empresário Alexandrino Garcia? Com todos os contatos que o senhor teve com ele, o que ficou na lembrança do senhor para definir uma personalidade como a dele?


R – Olha, eu acho que o Alexandrino era um obstinado. Totalmente obstinado, ele tinha aquela visão dele, fantástica. Ele era um visionário obstinado. Ele era um homem que tinha que transformar sonhos em realidade. E que evidentemente tinha que acreditar naquilo que ele estava se dispondo a fazer. Mas quando ele concluía que o caminho era aquele, era muito difícil conter o Alexandrino. O que ele conseguiu fazer nessa telefônica, foi mudar a sociedade uberlandense toda. Eu tinha ações da Companhia Telefônica por saudosismo, não queria nem vender. Daí a Telefônica insistiu tanto que eu acabei vendendo, mas pouquinho. O sujeito queria ser acionista da Telefônica, recentemente, aquela insistência, porque a companhia queria comprar. Tudo bem, eu não tinha interesse financeiro nenhum, cedi. Mas toda a sociedade tinha, era dono da Companhia Telefônica. Você tinha que convencer a família uberlandense a vender as ações, inclusive a transferência para o Alexandrino, foi o Hélvio Cardoso, que era o maior acionista, eu me lembro, eu tive dentro daquele movimento. O Hélvio não queria, e tinha razão de não querer, foi preciso lutar contra o Hélvio. Desse jeito não vai, tem que ser uma pessoa só. e o que o Alexandrino está se dispondo a fazer nós temos que respeitar. Você tem que abrir mão, o Hélvio era um grande uberlandense também, idealista.


P/1 – Qual tinha sido o problema, essa pendenga entre Seu Alexandrino e o Seu Hélvio?


R – Olha, é que chegou numa fase em que todo mundo passou a acreditar na economicidade da Telefônica, aí o sujeito que tinha capital, que tinha acreditado, que tinha investido, tinha risco, evidentemente cada um queria defender sua bandeira. Não acho que o Hélvio foi um intransigente não. Acho que ele foi um homem que lutou pelo direito que ele tinha e nos obrigou o esforço, eu estou me incluindo nisso, tinha muito pouco poder de decidir, mas estava solidário com o grupo. Até que o Hélvio cedeu e vendeu pro Alexandrino e de lá para cá a Telefônica explodiu. Porque a idéia do Alexandrino era muito boa.


P/1 – Porque o senhor, enquanto pessoa física Galassi, comprou ações da Companhia?


R – Solidariedade. Compramos para ter a Telefônica, para ajudar a Telefônica. Aquilo que eu falo, não tinha onde buscar dinheiro, então tinha que vender ação. Houve um rateio de ações da Companhia Telefônica, que no começo ficou muito rarefeito. E depois, evidentemente, aqueles mais interessados, aqueles que acreditavam mais foram somando. Meu sogro tinha muita ações da Telefônica também, era um homem de posição política, ajudou demais o Alexandrino, em todas as jornadas dele. Ajudou onde foi preciso, o Alexandrino merecia, tinha valor, tinha que ser ajudado.


P/1 – A Companhia foi capitalizada dentro da sua área de atuação, nesses primeiros tempos mais dificultosos?


R – As ações da Telefônica eram todas em Uberlândia.


P/1 – Ela não precisou recorrer a empréstimos bancários, nada?


R – A gente não sabe, é claro, o individual de cada um. Eu imagino que o Alexandrino teve que tomar empréstimo, porque o esforço que ele fez foi muito grande. Eu não acredito que ele tivesse o recurso guardado para isso. Ele teve que se virar. Ele deve ter se valido de, porque tinha banco. Tinha empréstimo, mas era tudo pequenininho, não tinha os projetos nacionais que tem hoje.


P/1 – O senhor consideraria que essa identificação que a companhia tem com a comunidade onde ela opera, tem origem nessa introjeção  da companhia dentro da cidade e dos potenciais clientes?


R – Acho que a Telefônica sempre foi uma empresa comunitária. A cidade pode se vangloriar de ter participado na construção, na conquista da Telefônica e até hoje no subconsciente de todos, mesmo a criança de hoje, você vai encontrar isso, que vem dos avós, que vem dos pais. Porque isso ficou dentro da nossa idéia, da nossa obsessão de desenvolvimento que ficou. É importante. É como se você pegasse a estrutura óssea de uma pessoa. A Telefônica é uma estrutura e nós teríamos que ir com ela. Nós queríamos ser, eu era menino ainda na escola, nós discutíamos isso. Nós temos que ser um grande centro médico, um grande centro de educação. Quando criamos a Universidade, o Alexandrino ajudou muito na fundação da Universidade de Uberlândia. Esse sistema de _____ que hoje temos aqui, isso é só Uberlândia que tem. Muita gente diz que não é bom. Não é bom mas está todo mundo lá dentro se beneficiando daquilo e que ninguém tem coragem de fazer porque ninguém dá conta de fazer. Aí é que é preciso de ver. A Tecnópolis, por exemplo, nós temos o sistema instalado na Associação Comercial de Uberlândia, inclusive o Luiz Alberto ajudou muito nisso, participando, o Dilson era precedente da Associação Comercial. Falar sobre Uberlândia é falar sobre os valores humanos que Uberlândia teve.


P/1 – Eu queria fazer uma pergunta para o político Virgílio Galassi. Como é que uma empresa como essa, com essas características que o senhor tão bem está definindo, como ela conseguiu sobreviver aquela fúria estatizante dos anos 1966, 1967 com a criação da Telebrás? Como o senhor avalia isso?


R – Raça. Raça do Alexandrino Garcia. Porque esse mérito foi dele. Ele não quis vender a Telefônica, não deu bola para governo nenhum. Disse: “A Telefônica é minha, é de Uberlândia e vai ficar aqui”. E ficou. Foi a única no Brasil inteiro que resistiu às pressões de um governo, inclusive quando ele quis importar a máquina, já existia isso contra o domínio da Telefônica de Uberlândia. Foi realmente bonito. Uma história linda, linda, linda sabe? As pessoas se integram no contexto da sociedade e ficam no anonimato. Acho que o que vocês estão fazendo é muito bonito, porque vai criando uma história de Uberlândia, uma pessoa como eu fala uma coisa, vem outros que sabem falar e podem falar também, e isso vai dando aos senhores responsáveis a oportunidade de escrever a história dos valores humanos de Uberlândia. Mas é uma história de valores humanos. 


P/1 – Uma decisão como essa de enfrentamento de um governo central estatizante, tinha resposta da comunidade, tanto empresarial. As pessoas apoiavam essas atitudes? 


R – A sociedade apoiou 100% a atitude de Alexandrino, nunca pediu para ceder para o governo. Nós fazíamos das tripas coração porque sabíamos que o governo vinha com promessas de  melhorar, de fazer, de acontecer, mas fazia era nada; não melhorou as outras. Bastava a____ solidário ao______ Alexandrino Garcia, porque o governo brasileiro sempre tentou igualar o país por baixo e esse gesto do Alexandrino é um gesto de igualar por cima. É diferente, todo mundo quer igualar. Mas tem aqueles que querem igualar por baixo e aqueles que querem igualar por cima. E graças a Deus nós temos essa Empresa Telefônica que continua resistindo a tudo e a todos e que ingressou agora nessa faixa do Call Center, e que ingressou com tanta distinção. E outra coisa, dando exemplos, depois que se criou essa de Uberlândia, a CTBC, já tem dezenas, centenas de outros querendo criar no Brasil. Uberlândia conseguiu ser uma fonte de bons exemplos para o Brasil.


P/1 – Agora estou perguntando para a pessoa física Virgílio Galassi. Essa identificação que o senhor se referiu, esse endosso à posições temerárias que o Sr. Alexandrino tomara na época, tinha que ter uma contrapartida, quer dizer as pessoas reconheciam na Companhia uma boa prestadora de serviços, reconheciam nela uma companhia de vinculações forte com a comunidade? A telefonia era boa?


R – A telefonia sempre foi boa no momento. Sempre foi boa. Nos piores momentos ela era boa para aquele momento. E é uma coisa interessante, uma pergunta que ela envolve uma colocação psicológica. Porque o povo nunca está satisfeito com o que tem. O povo sempre foi 100% a favor da telefônica? Não. Acho até que foi 100% contra a telefônica. Mas com a consciência que ela era boa. Então na hora de decidir, mesmo contra, criticando, parava para pensar e decidia a favor da telefônica. Isso faz parte do povo brasileiro, da nossa cultura. Pensa que tem tudo, está dando tudo, está dando é nada. Ele quer ter o paraíso de uma vez. Então a história da Telefônica é bonita porque ela foi feita numa escada, degrau por degrau, e com lances de arrojo formidáveis, com a compra dessa Central Telefônica… Eu acho que quando Alexandrino chegou no Brasil viu que não ia trazer essa central, ele deve ter batido na cabeça. Eu imagino a briga dele com a Dona Maria, uma fortuna, pagou a dinheiro e não pôde trazer essa Central Telefônica.


P/1 – Nesse contexto todo, essa trajetória que o senhor está traçando para nós, essa história uberlandense, esse fortalecimento desse espírito empreendedor, e com toda sua experiência administrativa, o que o senhor enxerga pela frente, o que vem, o que o horizonte tem desenhado aí para diante tanto do ponto de vista da cidade, quanto o desenvolvimento das empresas daqui, a telefonia em especial?


R – Olha, eu acho que Uberlândia alcançou uma posição de categoria “A” no Brasil. O povo fala, fala, fala, mas Uberlândia tem que ser colocada sempre entre as melhores cidades do país. E ela fez isso porque cuidou de tudo, principalmente de ter qualidade de vida, que envolve telefone também. Nós sempre tivemos o caso da energia elétrica de Uberlândia, você vê o valor dos nossos homens, a primeira hidrelétrica do triângulo mineiro foi de Uberaba, um dois coronéis, Olivio da Cunha, lá de Uberaba, é o valor dos coronéis. Ele era muito amigo do coronel daqui Clarimundo Carneiro, mandou um recado de lá, acho que foi telégrafo, convidando o Clarimundo para a inauguração da Hidrelétrica. Ele foi, era muito amigo. Foi, viu, gostou muito, pensou muito, evidentemente, ficou um pouco enciumado com aquilo – é natural, na hora que ele se despediu, essa frase me foi dita depois: “Olha compadre, parabéns, você fez uma beleza de obra, agora daqui um ano, daqui dois anos eu vou te convidar para você ver a de Uberlândia”. E ele veio e fez essa aqui dos Dias, abaixo do anel viário de Uberlândia, quinhentos metros para baixo, que na época foi uma hidrelétrica maravilhosa. Depois de um certo tempo vendeu para Companhia Prada, e a Prada não tinha condição nem tinha fibra de um Alexandrino e de outros homens que desenvolveram Uberlândia para atender a necessidade de energia elétrica. Então Rondon foi uma das grandes obras, ele conseguiu com que a Cemig comprasse a Companhia Prada de Eletricidade, aí explodiu Uberlândia. Eu costumo dizer sempre: “Nós temos duas histórias, antes de Rondon e depois de Rondon. Inclusive a Telefônica, ajudou demais da conta, ajudou e ajuda ainda até hoje, ele é um apaixonado pela Telefônica, um apaixonado pelo Alexandrino, sempre fez tudo que ele precisava. Então a História de Uberlândia é uma história fácil de contar, porque é uma história que desde o primeiro momento você vê homens e mulheres, mulheres formidáveis também, que vem acontecendo no momento certo, sempre destaque no momento. Sempre que se fazia normalmente no momento, tinha um homem nosso, uma família nossa fazendo melhor, e com a visão de futuro também. Agora o que vai virar Uberlândia era sua pergunta? Eu espero que nossos homens desse próximo século pensem seriamente em Uberlândia, porque o crescer infinito é totalmente desnecessário e inaceitável, não pode crescer sem limite. Eu acho que nós temos que consagrar agora, rapidamente, a tecnologia em Uberlândia. Já estamos consagrando e a Telefônica está participando disso com grande destaque. Nós trouxemos para Uberlândia: Monsanto, Novartis, aquela outra grande na saída de Miraporanga – temos seis grandes unidades pesquisando a agricultura. Não tem nenhuma cidade no mundo inteiro que tenha duas unidade padrão Monsanto e Novartis. A Monsanto, essa é a terceira que ela tem no mundo; a Novartis também é a terceira que ela tem. Mas todas elas tem uma em cada cidade. A Monsanto tem uma nos Estados Unidos, uma na China, não sei onde e essa aqui de Uberlândia. Vocês já foram lá na Monsanto? É aqui na saída de Araxá. É de ficar deslumbrado. Foi uma das grandes conquistas nossas trazer esse grupo. Nós temos seis aqui. O grupo Maeda trouxe a Cotton que é a única unidade brasileira que desfibra a semente de algodão. E você facilita o plantio de algodão de uma maneira fantástica com essa desfibratização, aí a plantadeira passa a plantar o algodão como se planta arroz, feijão e milho; corre dentro da plantadeira e antes não corria. Era um negócio embaçado, difícil. O Maeda está com uma Cotton em Uberlândia para instalar uma base para fazer pesquisas de algodão, de feijão, de tudo isso. Nós precisamos é disso. Uberlândia precisa e merece agora é a Tecnópolis. A agrópolis se você quiser ver com conceitos práticos, praticamente nós temos agrópolis. Um mundo de pesquisadores, eu fui na França, o Dilson foi conosco também, o Zanatta, para ver a tecnópolis e eles fazem na agrópolis o que nós estamos fazendo aqui.


P/1 – O que o senhor diria a um empresário que estivesse disposto a vir para Uberlândia a investir em Uberlândia? Alguém que nunca veio aqui, é o primeiro contato que vai ter com o senhor. O que o senhor vai dizer para ele?

 

R – Vou dizer para ele que ele vai encontrar uma cidade que tem qualidade de vida nota cem no Brasil, alguns problemas, é claro, e que as perspectivas de qualquer negócio em Uberlândia, principalmente na comercialização do produto é a melhor do Brasil. A nossa posição geográfica é que deu essa expectativa. As pessoas vêm para cá porque a posição geográfica convence. A vinda da Monsanto, ela tinha sido despedida de Uberlândia. Veio o presidente educadamente dizer que não vinha para cá. Eu dei tempo do avião dele chegar em São Paulo, chamei, ele estava entrando na empresa em São Paulo. “Dr. Pedro está chegando de viagem e dizendo que não vai ficar em Uberlândia, mas eu acho que tem um grande equívoco nessa decisão, acho que não fizemos a nossa parte e o senhor não concluiu com 100% de objetividade. Não termina o relacionamento com Uberlândia, vamos pensar em trazer a Monsanto para cá”. Parece que aquilo foi oportuno, poucos dias depois me disse que tinha razão: “Vamos repensar”. E aí está. Isso não tem preço, não tem preço. Acho que Uberlândia tem para falar pro mundo é que temos uma base de tecnologia extremamente moderna e atualizada. O que a Telefônica precisa ter de melhor? Basicamente nada, ela vai ter o que vai surgindo, ela vai ter que continuar galgando essa escada. Você vai em todo setor de Uberlândia, vai na Souza Cruz, não tem nada igual a Souza Cruz de Uberlândia. É a melhor empresa da Souza Cruz, medalha de ouro dela, do planeta. A Cargill de Uberlândia, medalha de ouro nas mil e tantas indústrias da Cargill. Tem o laranjal da Cargill, em Miraporanga. Passa lá e você vai ver a seriedade com que fazem as coisas, a tecnologia que se usa, é difícil ter coisa melhor que nós temos. Pode ter, é claro. Nós estamos sempre procurando. Quando digo nós, é a família uberlandense. Então para a perspectiva de futuro de Uberlândia acho que o limite tem que ser o limite da tecnologia. Não precisa crescer mais, ajudar a região a crescer, e está crescendo. Esses dias vi um estudo sobre o Pátio de Minas, Ituiutaba está tentando crescer bem, o prefeito de Araguari está interessado, todo mundo com a cabeça voltada, Uberlândia tinha que crescer. Uberaba é uma bela cidade, tem lá aquelas indústrias de madeira, indústria do fosfato… E não tem fosfato em Uberaba, não tem maciço florestal. Demos as bases de desenvolvimento.

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