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História

Uma vitória

História de: Jacy Fernandes Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 02/12/2004

Sinopse

Jacy relembra de sua vida no sítio, como conheceu e pediu a mão da sua mulher em casamento, como foi a decisão de mudar de cidade, voltar a estudar depois de um tempo longe das escolas, das únicas duas empresas em que trabalhou e sua ascensão no CTBC, até tornar-se um técnico, que para ele foi uma vitória. Conta como é trabalhar na CTBC, como era a relação com o dono da empresa, o Doutor Luiz, além de contar um pouco sobre seus filhos.

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História completa

P/1 – Boa tarde Seu Jacy.

 

R – Boa tarde.

 

P/1 – Eu queria para começar, por favor, que o senhor dissesse o seu nome completo, a data e o local do seu nascimento.

 

R – Jacy Fernandes Oliveira, eu nasci no dia dois do três do 46, em Estrela do Sul.

 

P/1 – Estrela do Sul fica aonde?

 

R – Terra do diamante, Estrela do Sul fica entre Araguari e Monte Carmelo.

 

P/1 – Como é que era o nome do seu pai e da sua mãe?

 

R – É, Iracy Fernandes de Oliveira e Geni Fernandes de Oliveira.

 

P/1 – O que fazia o seu pai?

 

R – Meu pai, naquela época, mexia mais com gado, mexia com gado na fazenda, tinha uma fazendinha, e mexia gado, agropecuária, agricultura, isso aí é que o meu pai mexia.

 

P/1 – Gado de corte, de leite?

 

R – É, só que o meu pai, mais leite. Só que o meu pai faleceu novo, meu pai faleceu eu tinha dois anos de idade, ele faleceu com 27 anos, aí ficou a minha mãe que era a Dona Geni que eu tenho ela graças a Deus até hoje, está com 74 anos, e aí quando eu tinha quatro anos minha mãe resolveu, muito difícil, resolveu casar novamente, eu tinha meu padrasto que eu considerava igual pai, porque eu fiquei muito novo e vai fazer agora dia 28 de julho que ele faleceu, meu segundo pai.

 

P/1 – Como era o nome dele?

 

R – Na verdade eu perdi dois pais, José Pereira Martins.

 

P/2 – E qual a atividade dele?

 

R – Também trabalhava na fazendinha que a gente inclusive tem esse, a gente não fala fazenda, é um sítio, é pequeno mas a gente tem, como se diz, com muito amor, foi um sítio, e aí a gente adquiriu muito suor, então a gente dá muito valor. Inclusive, eu tenho minha casa, porque o meu pai faleceu e eu fiquei com uma parte, uma parte pequena das terras, só que eu nunca vendi, nada fez eu vender essa parte de terra, era pequena, poucos hectares, eram dez hectares, na verdade cinco hectares e eu comprei, assim que eu estava com quinze anos, eu comprei os outros cinco hectares da minha irmã, e eu construí a minha casa, casei e fiz a casa lá nesses dez hectares. E foi uma vida difícil, e aí a gente casou e eu, para manter lá, mudei para Uberlândia, meus meninos já estavam precisando estudar, e eu vim aqui para Uberlândia para dar início na aula dos meus filhos, e para mim acho que foi até uma, por exemplo, eu vim para estudar os meus filhos e na verdade eu retornei às aulas, estudar, porque eu tinha a quarta série primária, quando eu entrei na CTBC eu tinha a quarta série primária, na época eu fiquei muito preocupado, porque eu, sempre que a gente conversava com o Seu Alexandrino ele falava para gente: “Oh, meu filho, você estuda, você estuda, porque aqui nessa empresa você tem futuro”, e meus filhos começaram a estudar e aí já fui fazer supletivo, comecei fazer supletivo, e tentando, sempre a minha esposa falava: “Veio para os filhos estudarem, você que está estudando”, eu falei: “A gente tem que estudar”, e tentava, fui tentando o supletivo, hoje eu tenho segundo grau. 

Eu comecei como auxiliar técnico do departamento de energia e eu fiz um curso no Renné Giannetti, fiz um curso de eletricista, e aí eu já pensei comigo: “Opa, eu já estou melhorando”, de auxiliar eu passei para eletricista e não parei por aí não, e fui continuando, aí eu fiz outro curso na Universidade, e aperfeiçoando, aí já foi para o lado mais técnico, mas já deixei um pouco o eletricista, abrangendo mais área. E parece que na época eu não sei, sei lá, até serviu a orientação do Seu Alexandrino, porque aí eu não tinha CREA e teve que dispensar alguém, aí como faz, como não faz, e alguém, o pessoal que tinha mais estudo na época exigiu que desse uma prova, para quem passasse na prova servia para ficar na empresa, quem não passasse tchau e bença. Aí na época o Dílson Dalpiaz pegou e mandou elaborar essa prova na Universidade e eu fiquei muito preocupado, na verdade eu não dormia, porque quem veio com quarto ano primário fazendo supletivo, fiquei muito preocupado, falei: “Essa prova pode me tirar da empresa”, aí o Dílson chegou em mim e falou: “O Senhor vai fazer a prova?”, falei para ele: “Vou”, ele falou: “Por que é que o Senhor vai fazer? Mas o Senhor não acha essa prova puxada?” falei: “Não, se eu não passar nessa prova eu não sirvo para ficar na empresa, agora eu tenho certeza que se eu passar eu acho que eu vou ter até mais valor”, e falei: “Agora eu quero umas condições”, porque eu tinha medo, na verdade eu estava com medo da prova e medo, às vezes, de quem estava dando a prova prejudicar a gente porque um cara estava participando dessa prova ele tinha até curso superior, quem estava participando, a parte da energia nessa época quem tinha curso superior participou da prova, falei: “Não, pois vamos fazer a prova”, aí deu a prova e aí o rapaz que estava dando a prova ainda falou assim: “Não, tem que acertar 75% da prova”, eu falei: “Mas não existe isso não, prova 50% mais um”, falou: “Não, aqui é uma ordem, é 75%”, então ele entregou, só que nessa época eu fui um pouco esperto porque além deu estar fazendo os meus cursos eu estava com um professor particular, só que ninguém sabia, na verdade eles não sabiam, porque eu tinha vontade de chegar, chegar a ser um técnico, a minha vontade era ser técnico, eu queria, para mim era a minha vida, eu estava dando tudo, eu chegava duas horas da manhã em casa, dormia pouco, era livro na mão, era só livro na mão, e a hora que ele me entregou a prova que eu olhei, aí o cara falou para mim, quem estava dando a prova falou: “Você veio com as apostilas na mão”, eu falei: “Não, tudo bem, eu vim com as apostilas mas você não me entregou a prova ainda, agora eu coloco as apostilas aonde você quiser, eu não estou com a prova, é lógico que eu estou estudando, eu estou preparando para prova, eu não vim aqui para brincar não”, falei para ele, aí ele pegou as apostilas, pôs lá no canto, acho que ele estava com medo deu colar alguma coisa: “Não rapaz, não precisa da cola não”, a hora que ele me entregou a prova eu perguntei a ele: “Vale quanto essa prova? O que eu tenho que fazer, eu quero saber o que eu tenho que fazer”, ele falou assim: “Não, essa prova o Senhor não acerta ela não”, eu falei: “Não, quero saber quanto vale cada questão”, aí ele pegou e me falou, ele falou: “O Senhor tem que acertar, o mínimo são oito questões, e aqui eu não estou vendo ninguém que faz essa prova e acerta oito questões”, aí eu respondi para ele: “Eu vou fazer só oito questões, eu tenho tanta certeza que eu vou fazer só oito questões dessa prova”, e fiz as oito questões e acertei todas as outras, e ele falou para mim assim: “Mas por que o Senhor não vai fazer a outra?”, eu falei: “Não, não vou cansar a memória não, é muito fácil essa sua prova”, aí desci lá pra baixo, o Dilson já desceu e me abraçou me dando os parabéns falou assim: “Sinceramente, eu achei que o Senhor não passava na prova. Mas como o Senhor passou?”, eu falei assim: “Oh, toda a vida eu tive vontade de ser um técnico, e acho que agora eu vou ser qualificado como um técnico”, ele falou assim: “A partir de amanhã o Senhor pode trazer a carteira profissional e trazer, entregar no departamento pessoal que o Senhor vai ser classificado”, aquilo pra mim foi a maior vitória que eu já tive na minha vida, até hoje eu encontro alguns dos colegas, não assim, é uma crítica mas assim, sempre pra mostrar pra eles que a gente nunca deve desfazer da outra pessoa que está ao lado da gente, sempre eu encontro com eles e falo assim: “Oh, tem uma provinha, você não quer fazer?” Por que? Na época eles consideravam doutor e eu não sabia nada, e aconteceu que como estava desfazendo o departamento, não é que o pessoal era ruim de serviço, tinha que fazer uma seleção, mesma coisa de um time de futebol, chega, quem vão ser os titulares? Tem que jogar a bola dentro do campo e ver quem é que vai chutar melhor, então era mais ou menos por aí, então pra mim, eu fico até um pouco emocionado quando eu falo, porque é um negócio que a gente veio lutando, e acho que ninguém chega a lugar nenhum se não for com suor, esforço, a pessoa querer alguma coisa, se não quiser não chega em lugar nenhum. Pra mim foi a maior vitória a hora que eu peguei a minha carteira que estava escrito técnico de energia, pra mim foi uma vitória, então eu fiquei... Pra mim aquilo foi uma maravilha, porque eu concorri com pessoa, e tinha inclusive na época, é assim, eu não vou citar o nome, mas eu sei o nome de todo mundo, inclusive ]quem] tinha o curso superior e não deu conta de fazer a prova, então pra mim aquilo foi como uma vitória.

 

P/1 – Eu queria, Seu Jacy... Essa história é ótima...

 

R – Mas está saindo um pouco, né?

 

P/1 – Não, não está saindo não, eu só não queria perder o que veio antes, eu queria falar um pouquinho do garoto Jacy lá da casa do Seu Iracy e da Dona Geni, como era essa sua casa, como é que era esse sítio, tinha nome o sítio?

 

R – Hein?

 

P/1 - Como era o nome do sítio?

 

R – É, o sítio é Fazenda Água Fria.

 

P/1 – Fazenda Água Fria. Como é que era a sua casa, a casa da sua meninice, a casa da sua infância, como era a vida ali?

 

R – Oh, era uma casa mais ou menos, não era uma casa boa mas era uma casa mais ou menos, era uma casa já feita de alvenaria, não eram aquelas casas de pau-a-pique não, já era uma casa de alvenaria, eu não cheguei a pegar aquela época não, porque antigamente as fazendas dos meus avós já eram tudo de pau-a-pique. Não, a do meu pai e da minha mãe já era de alvenaria, então era uma casa mais ou menos.

 

P/1 – O Senhor conheceu os seus avós?

 

R – Eu conheci, a minha avó faleceu agora com 96 anos, vai fazer quatro anos que eu perdi minha avó.

 

P/1 – Parte do seu pai ou da sua mãe?

 

R – Da minha mãe, só que se eu entrar na minha família vai complicar, porque minhas duas avós são irmãs e são irmãs da minha sogra.

 

P/1 – Como é que é, repete por favor (risos)?

 

R – (risos) Vai complicar um pouquinho, a mãe do meu pai e a mãe da minha mãe são irmãs, e elas são irmãs da minha sogra.

 

P/2 – Seus pais eram primos?

 

R – Eram primos, meu avô chamava João Camilo de Oliveira, ele faleceu com 94 anos, e a minha avó faleceu com 96, Emília Fernandes de Oliveira.

 

P/1 – Da outra parte?

 

R – É, essa era a mãe da minha mãe, pai da minha mãe, e o pai... Tem hora que até eu faço confusão. E a mãe do meu pai era Virgínia Fernandes de Oliveira, era irmã da minha vó, Emília Fernandes de Oliveira, que é a mãe da minha mãe, agora meu avô, pai do meu pai, aí já era Basílio Lázaro, aí já veio de outra família, quando eu nasci ele já tinha falecido, eu não lembro muito a história não, porque aí já veio outro pai e a história daquele já vai ficando.

 

P/1 – Esses seus avós, o Senhor conheceu a origem deles, da onde eles vieram, se eles eram da região mesmo?

 

R – Era da região, tudo da região de Estrela do Sul, tudo ali da região mesmo.

 

P/1 – E a família do seu padrasto depois, era também ali do pedaço?

 

R – Não, ele era de Abadia dos Dourados, meu padrasto já era de Abadia dos Dourados.

 

P/1 – E onde fica Abadia dos Dourados?

 

R - Abadia dos Dourados fica sendo referência de Monte Carmelo. É Monte Carmelo, Coromandel, Abadia dos Dourados, fica, Grupiara também, perto de Estrela do Sul, não é muito longe não.

 

P/1 – E seus irmãos, o senhor tem irmãos?

 

R – Eu tenho uma irmã legítima, e tenho outro irmão só por parte de mãe que já era filho do meu padrasto.

 

P/1 – Como era o nome dele?

 

R – Wiliam Martins Pereira.

 

P/1 – E da irmã?

 

R – A irmã é Darci Fernandes de Oliveira, ela casou e veio o nome Farias que é do marido dela.

 

P/1 – O senhor encarava a vida lá do sítio, cuidar do gado, tirar leite?

 

R – Encarava não, encaro até hoje (risos), é lazer.

 

P/1 – Eu digo o garoto Jacy lá, o moleque.

 

R – Sim, a gente, aquela época... Hoje a gente vê falar, eu acho até um absurdo as autoridades de hoje falarem que garoto não pode trabalhar, eu não sei o por quê, agora, ficar sem estudar eu acho que é errado, mas chegou do estudo tem que trabalhar, garoto tem que trabalhar, faz parte do serviço, eu comecei trabalhar, o quê, andou, por exemplo, traz aquela história lá, vendo aí na televisão, mostrando lá. Foi no Nordeste que mostrou aqueles meninos descascando mandioca? Aquilo é coisa que a gente fazia direto, criança lá de quatro anos já estava descascando, só que hoje já é preparado, eles têm as faquinhas deles, outros eram faca comum, cortava dedo e tudo e estava trabalhando.

 

P/1 – Quais eram as suas obrigações ali no sítio?

 

R – Hein?

 

P/1 – Na Água Fria.

 

R – Na Água Fria?

 

P/1 – O que o garoto Jacy fazia?

 

R – Tratar dos porquinhos, apartar as vacas, buscar os cavalos no pasto, isso era a minha obrigação, tratar das galinhas, era meu dever todo dia.

 

P/1 – Que horas o senhor começava a fazer isso?

 

R – Cinco horas da manhã, quatro e meia, cinco horas da manhã, eu tinha que buscar as vacas porque tinha que tirar o leite pra minha mãe fazer o queijo, pegava, aí o meu padrasto já ia pra lavoura, lá pra roça capinar, lá pra plantação cuidar, e eu pegava o sorinho do queijo e levava pros leitãozinhos, lá pros porquinhos, só que tirava o leite esse horário, buscava as vacas, o queijo ia fazer mais ou menos dez horas porque tem, põe o coalho, tem que dar o tempo,  tem um tempo, tudo tem um tempo, e mais ou menos dez horas, nove e meia, dez horas que fazia o queijinho, nisso o almoço já estava pronto, oito e meia, nove horas tinha já que levar o almoço lá na roça.

 

P/1 – Pro seu padrasto?

 

R – Isto, sempre trabalhava dois, três peões, mexia com muita roça.

 

P/1 – O que tinha no cardápio da comida, normalmente?

 

R – O que tinha? A gente sempre, a carninha era sagrada, era uma carninha, uma mandioca, só que era tudo... A gente não ia no açougue, não tinha açougue, não ia no açougue buscar carne, a gente não ia no armazém, não tinha sacolão, era tudo produzido lá, tinha a mandioca, tinha o cará, tinha a batata, tudo plantava ali, da mandioca fazia o polvilho, fazia o pão de queijo pro café, porque na roça, na verdade, almoço é nove horas, meio dia já tem o café, é um pão de queijo, é por aí, três horas da tarde, quatro horas, dezesseis horas no máximo já é a janta, e de noite tem um lanche, aí um leitinho, um pão de queijo.

 

P/1 – E cama?

 

R – E cama, porque eles levantavam cedo, oito horas também já estavam dormindo, sete e meia, oito horas. Por exemplo, meu avô tinha engenho de cana, meu bisavô tinha um alambique, fazia pinga, levantava quando estava moendo a cana pra fazer, levantava mais ou menos meia noite, aí a gente era menino, tinha a minha casa lá com do meu avô, lá a minha casa não tinha o engenho, essas outras coisas tinham na minha casa, o engenho era só lá no vovô. A minha mãe tinha que levantar pra gente ir lá, falava, aquele pau que fica ali, que o cavalo puxa, chama mão de Juda, os antigos falavam mão de Juda, meu avô punha a gente em cima, quando era muito pequeno ele amarrava com uma corda, tipo um cinto de segurança, pra não cair, e com um chicote na mão tocando os cavalos. Isso começava meia noite, isso só na safra da cana, aí depois acabava e voltava à vida normal, que era levantar quatro e meia, cinco horas da manhã.

 

P/1 – Seu Jacy, e a escola? Tinha alguma escola ali perto que o senhor frequentava?

 

R – Tinha, frequentava a escola, era sete anos na verdade, não podia estudar antes dos sete anos, começou sete anos, aí meu avô, lá tinha a escola na fazenda do meu avô, então pagava professora, e naquela época era só Estrela do Sul, não tinha aquelas cidades pequenas, Douradoquara, Grupiara, Cascalho Rico, então era só Estrela do Sul. E era tudo legal, essa professora ela já vinha, ela já vinha, era contratada lá de Estrela do Sul, ela já era uma professora habilitada a dar aula, não era qualquer pessoa, então aí juntavam os pais, nossos pais, faziam coletas pra pagar a professora, aí depois já de muito tempo que a gente estava estudando o prefeito pagou, aí já foi uma vitória, o prefeito passou a pagar a professora.

 

P/1 – O senhor se lembra o nome dela?

 

R – Da professora? É... Não, na verdade o primeiro era professor, era (Olegário?) Guimarães, aí a professora era Nair, na verdade a gente estudou com o Seu (Olegário?) e com a Nair, tinha o professor e tinha a professora, sempre, era separado, na verdade era separado, agora que eu estou me lembrando, eram as mulheres separado com a Nair e os homens, mas ela dava aula assim... Quando substituía, às vezes quando tinha um problema vinha o outro, substituía, agora a Nair eu precisava olhar, o sobrenome dela eu, no momento, não estou lembrando não.

 

P/1 – O Senhor teve ali com eles as suas primeiras letras?

 

R – As primeiras letras foi com eles, o ABC.

 

P/1 – Dava pra conciliar a escola com a vida no campo?

 

R – Tranquilo, tranquilamente, mas tudo tinha uma norma, minha mãe dava a norma, por exemplo, a gente chegava, primeiro fazia a tarefa da escola, os deveres, não era tarefa, hoje que é tarefa, naquela época era dever, fazia o dever da escola pra depois ir trabalhar, aí trabalhava, levantava de manhã, fazia as tarefas que tinha, que tinha as tarefa que era tratar dos porcos, das galinhas, pra depois ir pra aula, e sete horas tinha que estar na aula, mas era pertinho, não era longe não. Aí quando foi, eu estudei com eles aí a quarta série eu estudei já em Grupiara, aí já estudei em Grupiara, ia de cavalo.

 

P/1 – Quanto tempo demorava até lá?

 

R – Quarenta minutos, cinquenta minutos mais ou menos, que na verdade dá dez quilômetros, mas pela estrada que a gente ia tinha os atalhos, então eram sete quilômetros, oito quilômetros.

 

P/1 – E o Senhor permaneceu lá na Água Fria até quando, até que idade o Senhor ficou lá?

 

R – Idade? Até trinta anos.

 

P/1 – O Senhor conheceu a sua esposa lá?

 

R – Sim, eu casei lá depois que eu mudei, eu morava lá, mexia com lavoura lá, eu trabalhei, na verdade eu... Aí quando eu inteirei os dezoito anos eu servir o exército, foi em 66, eu incorporei em maio de 66, em maio de 67 eu dei baixa. Pra mim acho que foi, foi uma época que eu pra mim... Hoje eu penso que eu andei pra trás, por exemplo, eu não deveria ter voltado pro sítio porque o sítio era pequeno, não dava pra sobreviver, eu voltei, casei, passou, não chegou dois anos eu casei, em 68 eu casei, maio de 67 eu dei baixa, em setembro de 68 eu casei.

 

P/1 – Seu Jacy, eu queria que o Senhor contasse como que o Senhor conheceu a sua esposa, como era o nome dela?

 

R – Maria Elizabeth Rabelo Oliveira, Maria Elizabeth aí ela pegou meu sobrenome assim que a gente casou.

 

P/1 – Como que o Senhor a conheceu?

 

R – A gente estudava juntos, nós somos primos e a gente estudava juntos e, pra ser sincero, a minha esposa... A gente tinha dez anos, onze anos, eu já tinha simpatia por ela, estudando eu já tinha simpatia por ela, mas não deu certo e tal, assim que eu servi o exército que eu voltei, eu falei: “A menina de eu casar é essa aqui mesmo”, e aí eu cheguei e falei pra ela, e aí pedi ela, falei com a mãe dela que queria namorar com ela, que inclusive é a minha tia, aí ela até brincou, falou: “Não, o que é isso, mas é bom porque sobrinho se for preciso, a gente puxa a orelha, não tem jeito falar raça ruim também.” (risos)

 

P/1 – Aí o Senhor finalmente casou com a Dona Maria Elizabeth?

 

R – Casei com ela, eu casei em 68 e estamos aí graças a Deus juntos, nunca tivemos problemas, já tivemos umas dificuldades mas isso é a vida do casal, acho que quem falar que não tem dificuldade acho que, sei lá, talvez não esteja falando a verdade porque isso é normal na vida do dia-a-dia, mas graças a Deus nunca tivemos problemas.

 

P/1 – E vocês foram morar aonde?

 

R – Moramos lá nas terrinha, eu fiz uma casa, que na época era difícil, a gente não tinha nessa época nem lampião a gás, era lamparina mesmo, a famosa lamparina, e eu construí essa casa, a gente foi morar lá, depois que eu construí a casa aí eu já coloquei uma iluminação a gás lá, já estava com o pensamentozinho melhor, e que continua essa casa lá até hoje, pra te falar a verdade, essa casa até a madeira dela foi eu que preparei, até a madeira foi eu que preparei, a pintura dessa casa ela foi feita há trinta anos, até hoje eu não pintei ela, parece que, a gente tem amor, parece que não quer nem reformar, inclusive a minha mulher estava querendo assim, falou: “Não, vamos reformar essa casa”, eu falei: “Pra reformar essas janelas não usa mais, a gente já vai colocar veneziana, já vai mudar o jeito da casa”, inclusive assim, a hora que fala num sítio, casa no sítio, fala assim: “Ah, essa casa deve ser muito derrubada”, não sei se é porque a gente tem amor, aquilo que é da gente, a gente construiu com trabalho, a gente tem muito amor, e a hora que falam em reformar a casa eu desisto, e ela está até hoje, nem tinta eu não passei na casa, mas hoje a gente já, por exemplo, que começou de lamparina, tem energia elétrica, pus energia elétrica, tem antena parabólica hoje, então já deu uma melhorada.

 

P/1 – Como é a casa, como ela é? Tem uma varanda, uma sala?

 

R – Tem, não, ela não tem varanda, é um chalé, ela tem a sala, tem três quartos, a cozinha e um banheiro, só que o banheiro no início era igual a um banheiro de pescador, é um balde, o chuveiro era um balde, hoje não, hoje a gente já tem, tem energia, tendo energia tem tudo, funcionava como um carneirinho, carneirinho que batia, martelava e jogava água, hoje é bomba elétrica, então já melhorou. E eu fiz uma plantação agora, tem dois anos, está com dois anos, em janeiro fez dois anos, dois anos e seis meses, eu fiz uma previsão, uma pré-aposentadoria, sei lá, aí eu pensei que ia aposentar, falei: “Bom, salário de aposentadoria vai reduzindo”, aí o pessoal me chamou de louco, eu falei: “Eu vou plantar duzentos mil gariroba.”

 

P/1 – Guariroba?

 

R – É, guariroba, gariroba, significa uma coisa só. Aí eu não tinha técnica, como fazia, aí eu pensei: “Como eu vou fazer? Não sei como que vai plantar, não sei como que é pra mexer”, aí peguei assinei a globo rural pra me mandar tudo por escrito, aí me mandaram, aí eu peguei a técnica pela globo rural e plantei, só que eu desisti de contar, se tem duzentos mil eu não sei, até 120 mil eu contei, na porta da minha casa eu estou com este... Já virou, está muito bonito a frente, inclusive já comecei a vender. Agora, tudo o que eu vou fazer eu gosto de planejar, eu entrei na Associação de produtor rural assim que eu fui começar o plantio da gariroba, eu já estava enxergando lá na frente. Por quê? Eu tinha que ter alguma coisa pra eu conseguir um mercado melhor, eu tive uma proposta, através de um rapaz da Emater inclusive dá até assistência lá pra gente hoje, através da Associação, que eles queriam me comprar toda a produção da gariroba, aí eu falei pro rapaz: “Não, eu quero que eles me mandam um fax, falar em dindim, quanto que eles vão me pagar por peça, eu vendo tudo pra ele”, aí ele pegou e falou pra mim: “Não, eles me falaram que dá pra pagar dois reais”, falei pra ele: “Não adianta falar pra mim, mandar intermediário, eu quero um documento, eu quero um fax, envia um fax pra mim quanto que eles me pagam, por exemplo, eu posso até parcelar, fazer o pagamento em duas etapa e tal, mas tem que ter documento, pra mim não vale se não for documento não”, só que a Arisco até hoje não me mandou os documentos e eu comecei a vender picado, como eu sou um pouco inseguro eu não estou vendendo a dois reais, eu estou vendendo a um real, a um e cinquenta porque eu não dou prazo e eu não aceito o cheque do feirante. Por que? Eu quero o dinheiro, dinheiro limpo, aí eu pensei: “Isso não vai dar nada, cem mil a um e cinquenta, eu vou vender esse negócio não vai chegar a nada”, aí fui no Bradesco, abri uma conta, a conta das garirobas, toda gariroba que eu estou vendendo eu estou depositando, se vendo cinquenta garirobas vou lá deposito o dinheiro das cinquenta garirobas, é um objetivo que eu tenho pra cumprir, por exemplo, se um amigo meu me pedir uma gariroba, se ele fala assim: “eu quero que você me dê uma gariroba”, eu vou dar só que eu pego um e cinquenta e deposito no Bradesco, aí falei pro gerente do Bradesco: “Não quero saber, se eu precisar de dinheiro, se eu tiver problema vou arrumar um empréstimo, fazer um vale com qualquer, mas esse dinheiro eu não mexo, não quero mexer”, aí aplicamos na poupança, assim que tiver acima de mil reais ele vai começar a fazer, ele está liberado pra fazer as aplicações pra mim, o dia que eu arrancar a última gariroba é porque eu quero ver o que eu tenho lá no banco, então isso é um objetivo que eu tenho pra eu cumprir.

 

P/1 – Seu Jacy, o Senhor e a Dona Maria Elizabeth tiveram os primeiros filhos lá mesmo no sítio?

 

R – Lá no sítio.

 

P/1 – E qual foi a necessidade, o Senhor começou a contar isso, eu queria retomar, qual foi a necessidade que o Senhor teve de sair lá do lugar da sua infância depois de trinta anos de vida ali no mesmo canto e vir pra Uberlândia, o que o levou a fazer isso?

 

R – Oh, [o que] levou eu a fazer isso... O primeiro momento pensando nos estudos dos meus filhos, eu pensei assim, eu falei, por exemplo, “se for pra Grupiara eu levar os meninos estudar em Grupiara”, nessa época não tinha segundo grau lá, só a quinta série, falei: “a hora que fizer a quinta série eu já vou ter que ir pra uma cidade maior”, e já veio aquilo na minha cabeça, Uberlândia tem Universidade, Uberlândia tem tudo, eu vou partir pra outra, e falei pra patroinha, a patroa falou: “Mas está doido, a gente não tem profissão nenhuma, encarar isso aí”, eu falei: “Não, isso aí com fé em Deus e com esforço a gente vence qualquer barreira”, e já vim aqui em Uberlândia e arrumei uma casa já.

 

P/1 – Aonde?

 

R – No bairro Custódio Pereira, e eu gostava de um escuro… Porque eu vim no Custódio Pereira, nessa época não tinha luz ainda, energia ainda, morei com lampião a gás lá, estava acostumado, pra mim não era novidade, mas foi pouco tempo também, foi uns noventa dias, eu morei pagando aluguel, vim de aluguel, aí eu tenho um primo que morava aqui, ele falou: “Não, vende aquele sítio lá e compra umas casas aqui, você fica uma pra morar e outra você vai alugar”, eu falei: “Não”, aí eu pensava :“Mas aquele sítio lá eu não vendo, não tem dinheiro que pague”, aí um dia o meu irmão pegou e mandou, arrumou ele mesmo, não quis falar comigo pra comprar, e mandou um intermediário falar comigo que ele queria me comprar, quanto que eu queira no sítio, aí eu perguntei ao intermediário ele pegou e falou pra mim: “Não, é seu irmão, ele quer saber”, eu falei: “Não, mas ele não tem dinheiro que me pague aquele sítio lá não”, “Não tem dinheiro que pague”, ele falou: “Ah, mas você não vende pelo que vale?”, eu falei: “Não, pra mim aquilo lá não tem dinheiro que pague, eu acho que ninguém tem dinheiro que me pague aquele sítio”, aí os corretores sempre apareciam: “Não, vamos trocar numa casa”, eu falei: “Não, o sítio lá não tenho pra negócio, isso lá não tem pra negócio”, aí eu vim, depois começou a ficar meio difícil, eu colhi uns cem sacos de feijão lá, 350 sacos de arroz, vendi, vim com um dinheirinho, estava até bonito, mas isso logo foi apertando aí eu falei: “Oh, eu tenho que partir pra outra.” Tinha um amigo que estava trabalhando numa empreiteira lá na Souza Cruz e falou pra mim: “Você não quer ir trabalhar lá não?”, falei: “Oh, mas o que faz lá?” falei: “Olha, trabalhar eu quero mas depende do que é pra fazer, às vezes eu não dou conta”, ele falou: “Não, vai mexer com parte elétrica, você não sabe emendar fio não?”, eu falei: “Oh, mas isso aí, emendar fio a gente emenda”, “Não, você vai ser auxiliar lá e tal”, falei: “aí está certo”.

 

P/1 – Foi o primeiro trabalho do Senhor?

 

R – Foi o primeiro trabalho de carteira assinada, foi lá na Emercel, uma empreiteira, uma firma de São Paulo, e eu peguei comecei trabalhar lá e trabalhei oito meses, não, foram seis meses que eu trabalhei lá. Aí eu estava trabalhando lá e o Oswaldo Firmino falou pra mim, é meu primo: “Ah primo, você está lá e tal”, sempre a gente foi amigo de infância e tal, nas férias dele sempre ele ia lá pro sítio, nós somos parentes. Aí Oswaldo Firmino falou assim: “Não, eu vou te levar lá pra CTBC, você já aprendeu a emendar fio?”, eu falei: “Já estou enrolando”, “Então vamos lá pra CTBC”, e eu achei que ele estava brincando, aí eu falei: “Não, mas você não está brincando não?”, ele falou: “Não, eu não estou brincando não, pode ajeitar seus papéis que eu vou te levar lá pra CTBC”, eu falei: “Mas espera lá que eu peço pra eles pra me mandarem embora e não dá certo lá na CTBC”, ele falou: “Não, lá na CTBC dá certo.” Aí pegou, eu conversei com o engenheiro lá, que era o responsável da obra, falei, a gente ainda chamava de doutor, engenheiro era tudo doutor, a gente chamava tudo de doutor, então “Doutor José, o Senhor podia dar um jeito de me mandar embora porque eu estou com uns problemas”, não contei que era pra ir pra CTBC, “Eu estou com uns problemas pessoais e eu tinha que resolver”, ele falou:  “Não, mas a gente não manda a pessoa embora assim não”, eu falei: “Não, mas eu queria que o Senhor me fizesse esse favor, se pudesse, ver o que o Senhor podia fazer” e tal, ele falou: “Não, seja sincero, o Senhor arrumou coisa melhor? Seja sincero pra mim, se o Senhor arrumou eu vou ajudar a controlar, sei que o Senhor não vai mentir”, falei: “Não, arrumei, eu estou com uma proposta aí pra ir pra CTBC”, aí ele pegou falou assim: “Oh, eu nunca estive dentro da CTBC, mas é a melhor empresa aqui de Uberlândia”, ele falou assim pra mim: “Amanhã o Senhor está liberado, pode trazer a carteira que o Senhor está liberado, o Senhor é gente boa, sabia que o Senhor era gente boa, o Senhor é esforçado, eu vou liberar”, aí no outro dia o Oswaldo Firmino passou lá em casa na hora do almoço e colocou dentro, fui no carro dele, eu não tinha carro, uma bicicletinha, uma bicicleta, fui no carro dele, cheguei lá ele me levou no Seu Alexandrino, a hora que eu olhei o Seu Alexandrino falei: “Meu Deus do céu, mas o que eu vou fazer?”, aí o Seu Alexandrino me perguntou: “O que o Senhor sabe fazer?”, falei: “Oh Seu Alexandrino, eu estive trabalhando lá na Souza Cruz eu já sei emendar uns fios”, aí ele pegou e falou pro Oswaldo, aí o Oswaldo pegou e falou pra ele: “Oh, Seu Alexandrino, eu trouxe ele, ele é meu primo, pra trabalhar aqui”, aí o Seu Alexandrino pegou e falou: “Não Oswaldo, leva ele lá pro departamento de energia”, aí ele me levou lá pro departamento de energia, passou lá no Doutor Luiz, me apresentou pra ele, aí o Oswaldo falou pro Doutor Luiz: “Oh, Doutor Luiz, o Seu Alexandrino falou pra eu levar ele, eu trouxe ele pra trabalhar, e falou pra eu levar ele pra energia porque ele estava trabalhando lá na Souza Cruz, já sabe emendar uns fios”, aí o Doutor Luiz falou: “Não, eu gosto dessas pessoas desse jeito mesmo, que está começando esforçado, pode levar ele pra lá que vai dar certo”. E eu comecei lá e eles não me pediram a carteira não, eu falei: “Está danado”, mas não falei nada não, trabalhei uns três dias, falei: “acho que o Seu Alexandrino está querendo ver se eu sei fazer alguma coisa mesmo pra depois pedir a carteira”, porque na verdade eu comecei a trabalhar três dias, eu trabalhei três dias, eles me registraram no dia 21.

 

P/1 - O Senhor se lembra da data correta?

 

R – Eu, 21 de novembro 1977. Aí eu preocupado porque eu já tinha saído, falei: “Ah, mas o Seu Alexandrino não falou nada”, tudo tinha que passar por ele naquela época, tudo passava por ele, ele não falou nada, aí passou três dias o departamento pessoal me chamou, era aqui, Machado de Assis com a João Pinheiro, era uma casinha ao lado ali, aí eles me chamaram: “O Senhor traz a carteira e o Senhor vem assinar uns papéis aí”, eu desci, cheguei lá a hora que eu assinei e falei: “Graças a Deus, está beleza”, aí eu fui refletir em casa, falei assim: “Espera lá, a CTBC é uma empresa de nome, porque uma firma lá de São Paulo que já vem falando pra mim que a CTBC é uma excelente empresa, eu tenho que pegar de unhas e dentes”, ele me chamou, a hora que eu assinei os papéis lá pra mim já foi uma maravilha. Aí a gente começou a trabalhar, e isso, naquela época não era coordenador era chefe mesmo, e o meu chefe do departamento falou pra mim: “Oh, só tem uma coisa, a gente esperou três dias o problema de viajar, trabalhar a noite, porque aqui a gente não tem hora, o Senhor está dormindo, chama o Senhor tem que vir”, eu falei: “Não, isso pra mim não é problema não, é solução”, falei pra ele assim: “É solução pra mim”, “Oh, porque muitos às vezes vem e não dão conta do recado”, eu falei: “Não aqui, eu estou acostumado a pegar boi pro chifre, não tem disso não”, e fui. Aí venceu os noventa dias, aquele batidão lá e o Seu Alexandrino rígido, sempre tinha que levar aquelas requisição de fita isolante, e chegava lá ele falava: “Não, o senhor está... tal dia”. Por exemplo, se eu levava uma requisição pra ele assinar, a gente tinha que ir com uma requisição nele, ele assinava pra gente pegar o material no almoxarifado, ele falava assim: “Oh, hoje está com dez dias”, às vezes já não lembrava, na hora ia ver falava: “Está com dez dias que eu assinei, está gastando muito, muita fita isolante”, aí eu voltava e falava: “gente, mas esse velho é danado, tem uma coisa que conta ele”, e eu ficava com aquilo pensando, passava mais dias a gente ia com requisição de outra coisa, ele falava, aí eu pensei: “Acho que eu não vou aguentar ficar aqui dois anos não, não vou aguentar não”, e a gente viajava, era só nós pra dar conta de tudo, era Paranaíba, era o Estado do Mato Grosso todo, São Paulo e Minas, só tinha um departamento de energia, então na mesma hora que a gente estava aqui chamava lá em Paranaíba, a gente pegava um carro aí, saía, e às vezes pra voltar ficava dez, quinze dias, aconteceu várias vezes, agora a primeira viagem que eu fiz eu saí pra ficar três dias, eu fiquei quinze, por exemplo, eu deixei meu filho doente, a minha mulher estava doente, eu fui, não tinha celular pra gente ficar... A gente trabalhava na CTBC mas às vezes a gente ia pro mato, às vezes não tinha nem condições, a gente ia, por exemplo, fazia aterramento, abrir valeta, fazia aterramento, era no barro mesmo, a gente passava até, por exemplo, quando a gente estava novo, começando não sabia, tinha aqueles macetes que a gente foi aprendendo, que eu poderia ir lá na Central no DG fazer uma ligação e a gente foi aprendendo, o próprio coordenador foi passando isso, mas só que eles passavam, era bem rígido, passava aos poucos, eu falei: “Gente, mas eu deixei...”. Toda vida eu parabenizei a diretoria da CTBC, toda vida eu dou os parabéns pra eles, por exemplo, a gente estava lá trabalhando, o coordenador tinha, não era secretária, a gente tinha um... Como era só homem no departamento de energia, até isso aí pensaram, era homem, o secretário era homem, o coordenador mandava lá na minha casa pra saber o que é que estava faltando, ele ia na Dona Ilce, fazia um vale, levava pra esposa, a esposa talvez ficava assustada com aquilo e falava: “Espera lá, o que é isso, não, eu não estou precisando”, às vezes ficava acanhada, mas ele sabia que ia precisar, precisava às vezes comprar, nessa época a gente não tinha cartão, hoje é tudo cartão, é tudo mais fácil. Naquela época não tinha nada disso, aí mandava, a hora que a gente chegava, e eles só falavam: “Não, não preocupa não que aqui a gente resolve”, aí quando a gente chegava fazia o acerto, aí a minha mulher, por exemplo, falava, não só a minha, de todos os funcionários fazia isso, aí eu falei: “A gente está no céu e não sabe”, porque uma pessoa que é humano não tem nada com isso porque ele não era responsável pela minha família, eu pensava, falava assim: “não tem nada com isso”, então esse coordenador hoje, é um cara muito humano, parabéns pra ele, então essa aqui é a empresa que eu tenho que estar mesmo, então essa aqui...

 

P/1 – Quem era esse coordenador?

 

R – Dilson Dalpiaz Dias, então esse coordenador ele fazia isso pros funcionários, só que tinha uma coisa, chegava era cobrado, ali você tinha que acertar tudo direitinho, ali acertava tudo direitinho, ninguém também não ia, por exemplo, deixar, porque o cara estava fazendo aquilo.

 

P/1 – Seu Jacy, como era o Seu Alexandrino, como era a relação com ele, como que ele se dava com o Senhor e o seus colegas?

 

R – Olha, eu com o Seu Alexandrino a gente dava muito certo, eu trabalhei muito junto com ele, muito mesmo, e eu fiz o nome com o Seu Alexandrino, ele tinha lá no Gaiola de Ouro, no apartamento dele, ele morava no Gaiola de Ouro, e eu estava começando a parte elétrica e não estava assim, não tinha uma experiência pra resolver, mas eu tinha aqueles pulinhos do gato, ele chamou lá, ele levantou quatro horas da manhã pra ler o jornal, e a campainha dele era musical, e ele testava a campainha e ela não funcionou, e eles tinham mandado o Mauro lá, e aí o Doutor Dílson falou pra mim: “Seu Jacy, o Senhor vai lá no Seu Alexandrino lá no Gaiola de Ouro”, nessa época o auxiliar, nem técnico, não dirigia tinha o cara, o motorista pra levar a gente, ele só dirigia, “Gaiola de Ouro?”, falei: “Onde é Gaiola de Ouro?”, falou: “Não, pode deixar que o motorista sabe onde é. Olha lá, cuidado lá que é lá no Seu Alexandrino”, falei: “Tudo bem”, cheguei lá ele estava lendo o jornal, e ele pegou e falou assim pra mim: “O Senhor veio aqui pra resolver ou pra passear? Porque veio um aqui ontem e não resolveu”, eu falei: “Seu Alexandrino, quem teve aqui ontem?”, “O Mauro”, falei: “Opa, espera lá, se o Mauro veio ontem e não resolveu, então não é bem assim”. Falei: “Seu Alexandrino, o negócio é o seguinte, essa campainha do Senhor é um pouquinho complicada e eu tenho que levar lá no departamento porque eu tenho que consertar ela e tenho que deixar lá no mínimo, eu vou ficar oito dias em teste, porque o dia que eu trazer ela, ela não vai dar esse defeito.” Aí o Seu Alexandrino falou pra mim: “O Senhor pode ficar quantos dias o Senhor quiser mas só que eu quero que ela funcione, o Senhor faz outra, o Senhor resolve, o Senhor está aqui pra resolver”, eu falei: “Não, eu vou resolver”, peguei a campainha, nem café ele não me deu, porque quando a gente ia e não resolvia não tomava café lá no Seu Alexandrino, e achava que ele estava até certo. Por que? A gente não tinha mostrado serviço ainda, ele estava certinho, não trabalhou, então tinha que mostrar, eu peguei a campainha levei, cheguei lá e falei: “Mauro, você esteve lá e a campainha voltou com o defeito”, ele falou: “Ah, mas não pode. O que é que você fez?”, falei: “Não, eu trouxe ela, eu trouxe a campainha”, “Não, vamos chamar o engenheiro Tarcísio então, vamos trocar umas ideias aqui”. Chamamos o Tarcísio, Tarcísio Melo Garcia, engenheiro em eletrônica, pra ele eu tiro o chapéu, aí o Tarcísio veio, ele falou assim: “Seu Jacy, por que o Senhor teve essa curiosidade de tirar a campainha e trazer?”, eu falei: “Não, Tarcísio eu sou novo aqui e se eu levar essa campainha lá e ela voltar a dar o defeito eu vou pra rua, e eu já vi que aqui eu vesti a camisa dessa empresa e eu vou agarrar de unha e dente, aqui o que depender de mim eu não vou pra rua não, só se um dia eles não me quiserem, se não quiser aí é outra coisa, mas da minha parte eu vou fazer, então eu quero consertar ela, nós vamos consertar ela aqui, deixar ela em teste aqui, meu pensamento são uns oito dias, o Senhor acha que está bom?”, “Não, uns oito dias é suficiente”, aí consertamos a campainha, juntou todos os técnicos, todo mundo, era do Seu Alexandrino, todo mundo que estava ali tinha que consertar, era do patrão, patrão a gente tinha que fazer tudo pra consertar, aí pegamos, deixamos testando a campainha, apresentou defeito nenhum, resolvemos o problema, não foi só eu, e eu tive a humildade de falar pra ele, cheguei lá não apresentei que foi só eu, cheguei e falei pra ele: “Olha Seu Alexandrino, eu levei porque lá a gente tem mais recurso, tem equipamento, a gente lá é uma equipe, lá tem os técnicos, têm os auxiliares, têm o engenheiro, aí ele pegou e falou pra mim: “Parabéns pro Senhor, parabéns porque eu pensei que o Senhor ia fazer igual o outro, não ia levar a campainha, e o Senhor fez o correto, e realmente se o Senhor arrumasse aqui ela ia voltar a dar o defeito”, aí falei: “O dia que ela der defeito o Senhor me chama”, aí ele me levou lá pra cozinha, a Dona Maria preparou aquele café, o pão de queijo, que a Dona Maria gostava de agradar a gente e gosta até hoje, apesar que agora deve ter um ano, dois anos que eu não vou lá, sempre ela me chamava lá, dava uns probleminhas, agora tem uns dois anos, acho que ela até esqueceu de mim, não me chama lá, aí eu falei pra ele: “Seu Alexandrino, o dia que ela der problema o Senhor vai ligar lá e me chamar, eu vou vir aqui”, aí passou, passou, nada, não chamava, aí eu preocupado falei com o Tarcísio: “Tarcísio, mas o Seu Alexandrino”, “Não, você pode ter certeza que não deu defeito não, pode ter certeza, se tivesse ele já tinha chamado mesmo”, essa campainha não deu defeito. Aí a gente desenvolveu um projeto retificador, e o Tarcísio lá, nós começamos a desenvolver esse projeto porque estava comprando o retificador da Saturno e tal...

 

P/1 – Saturno?

 

R – É, da Saturno, aí era muito caro, vamos desenvolver, talvez isso acho que não pode nem ir ao ar, mas vamos economizar dinheiro, e desenvolvemos esse projeto, começamos a fazer esses retificadores.

 

P/1 – Pra que serve esse retificador?

 

R – Retificador retifica a corrente alternada pra contínua. Por quê? Tem gente que fala assim: “Telefone não gasta energia”, gasta sim e muito, só que a energia não vem da concessionária em AC, aí ela passa no retificador, uma fonte retificadora, ela retifica e passa pra DC, aí 48 volts. Por quê? Quanto menor a tensão, maior a corrente, então pra isso... Porque aí a tensão é baixa, 48 volts, mas a corrente, o consumo é alto, então se fosse em AC o transformador tinha que ser coisa de louco, então a gente começou essa fábrica de retificador e eu fiz, ainda acha por aí, aí eu tive uma ideia de ir numerando eles, eu fiz até o 133, aí o Dílson pegava, o Seu Alexandrino achou que ele poderia não estar, aí ele tinha que apresentar, aí ele me chamou, a gente pegou o retificador, fomos lá na sala dele, na verdade não era sala, era gabinete, a gente falava gabinete. “Hoje eu vou no gabinete do Seu Alexandrino” era nossa Senhora, era a melhor maravilha que tinha, a gente ficava feliz de ir lá, aí levamos lá, aí o Dílson pegou e falou pra ele: “Oh, Seu Alexandrino isso aqui foi um projeto desenvolvido aqui e tal, tal”, ele pegou e falou: “Parabéns pra vocês, vocês estão de parabéns, é desse jeito mesmo é que se faz, desse jeito nós vamos longe”, já começou em 77, 78. Aí já comprou a ABC Inco aí ele chegou e falou: “Oh, eu já vi que vocês são pessoas esforçadas e lá está um negócio de louco, eu quero que vocês vão pra lá”, aí transferiu o departamento de energia pra ABC Inco, só motor na ABC Incro tinha seiscentos, 622 motor queimado na ABC Incro, a gente chegou lá era um absurdo, não tinha asfalto, não tinha nada, mas como a gente vinha lá do fundo aquilo tudo era...

 

P/1 – Acostumado.

R – Acostumado, é a palavra correta é essa, estava acostumado e não achava nada estranho, e o dia que organizou eles falaram assim: “Agora vai voltar pra industrial”, “Ah, mas nós vamos voltar?”, “Vai”, só que a gente estava na ABC Inco, mas atendendo toda a CTBC, uma das empresas que comprou que estava lá embaixo, nada funcionava, estava funcionando, e a gente falou: “Ah, mas espera lá, agora que o negócio melhorou”, aí a Dona Ophélia pôs uma sopa lá, pra nós era uma maravilha a sopa da Dona Ophélia, comia aquela sopa, tinha um prazer de ir lá na cantina tomar sopa, assim a Dona Ophélia... Porque ela que gerenciava as cantina, não é a Dona Ophélia que fazia a sopa não, ela que gerenciava as cantinas, e a Dona Ophélia parece que ficava feliz de saber, da gente ir lá tomar sopa, então ela incentivava, e já começou a incentivar, aí falou: “Não, vocês tem que voltar lá”, aí eu falei assim: “Mas espera lá, agora que melhorou, nós estamos no céu agora, nós vamos voltar?”, eu já não queria vir pra indústria. “Não, o Seu Alexandrino disse que é pra vocês voltarem”, aí ficou algum dos colegas, aí falou: “Não, então vamos deixar alguém”, dividiu, o pessoal falou: “Não, quem quiser ficar fica quem não quiser...”, aí eu peguei falei: “Gente, ABC Inco não, o meu negócio é CTBC”, “então, quem ficar vai ficar na Inco?”, “É, na Inco, vai dar baixa na carteira”. Eu falei: “Não, da CTBC só se me mandar embora, do contrário se eu tiver escolha, então eu vou voltar”, aí voltamos lá pro CDI que era energia, aí o Seu Alexandrino pegou e falou: “Oh, porque eu vou começar a construir esses prédios aí e nós precisamos de vocês”, ele falou, começou a construção daquele prédio, isso eu tinha feito um em Franca, já tinha feito lá em Paranaíba, Mato Grosso, mas um predinho de dois andares, três andares.

 

P/1 – A instalação elétrica ficava por conta da equipe do Senhor?

 

R – É, nessa época toda a parte elétrica era, mas como essa época eu ainda era, estava começando, ainda era o auxiliar do departamento de energia, daí precisamos construir prédio, começou o da 232. O Seu Alexandrino ia lá na 232, ia quatro vezes por dia porque quem falar que ele não ia pode consultar os arquivos, porque isso aí está em todos os arquivos, ele ia quatro vezes ou mais por dia, o mínimo era isso aí todo dia, e ele cobrava mesmo, aí fizemos, o dia que eu fiquei mais assim, passei a admirar ainda mais o Seu Alexandrino, eu ia cortar uma barra de cano que tinha seis metros, e eu ia cortar uma barra de cano de seis metros pra tirar, eu não lembro a medida mas eu sei que era um metro e pouquinho, e ele me chegou e falou pra mim: “O Senhor vai cortar uma barra de cano pra tirar esse pedaço?”, falei: “Vou, Seu Alexandrino, eu não tenho um pedaço aqui”, ele falou: “Mas lá no almoxarifado tem”, eu falei: “Não, mas lá no almoxarifado eu não posso entrar, eu só chego lá na porta com a requisição e pego o material”, “Mas quem falou que o Senhor não pode entrar?”, eu falei: “Não, eu não posso entrar”, “Não, então eu vou lá buscar”, eu falei: “Mas espera lá, o Seu Alexandrino mandou eu medir, isso aqui tem que ser uma medida exata, é praticamente uma luva de união” e eu torcendo que não desse certo, que ele não trouxesse certo, falei: “Ele vai trazer e eu vou ter que ir lá buscar, vou ter que ir lá e eu já estou com a medida, ou ele vai ligar”, eu esperando que ele ligasse, ele falou: “O Senhor senta aí e espera”, aí o Dílson chegou lá e falou: “O que aprontou aí?”, “Não, o Seu Alexandrino viu eu cortando e ficou bravo demais, disse que lá no almoxarifado tem, eu falei que eu só chego lá, eu não sei se tem, eu chego com a requisição e pego o material, eu não tenho autorização pra entrar lá, do chefe de lá”, e ele falou: “Nossa, Seu Jacy, mas ele vai lá, a coisa vai ficar feia”, tudo bem, eu falei: “Não, eu não vou sair daqui não, vou ficar aqui”, fiquei lá esperando ele, aí ele chegou com o cano e eu falando: “Não vai dar certo, ele não pediu a medida, eu não saí de lá pra ninguém...”, porque eu pensei: “se eu sair ele liga alguém, eu quero ver se ele vai trazer porque eu tenho que falar pra ele, eu tenho que...”, torcendo pra ser curto pra não dá pra eu ter que cortar o cano, pra eu salvar a minha pele, porque na verdade eu não estava fazendo errado porque lá na 232 eu não tinha o pedaço que dava, aí o Seu Alexandrino chegou, me entregou o pedaço de cano ainda falou pra mim assim: “Oh, tem rosca dos dois lados”, eu falei assim: “Mas Seu Alexandrino espera lá, o Senhor não ligou, o Senhor não mediu, como é que o Senhor sabe?”. Ele falou: “Não, eu olhei e sei que dá, coloca aí”, e eu torcendo pra que ele encolhesse, pra não dar, foi a continha, não faltou, e lá era coisa que se faltasse quatro milímetros não dava, e eu enrosquei e falei: “Seu Alexandrino, parabéns pro Senhor, que realmente, agora, eu quero que o Senhor entenda que eu não estava fazendo errado porque eu não tinha”, aí ele falou assim: “A partir de hoje o Senhor está autorizado a entrar dentro do almoxarifado a hora que o Senhor quiser, se o Senhor precisar de um pedaço de cano, qualquer coisa de material o Senhor vai lá, eu vou falar com o Augustinho”. E essa época era o Zé (Vigueira?) que era o chefe do almoxarifado, “Vou falar com o Augustinho e com o Zé (Vigueira?), a partir de hoje, o dia que eles impedirem do Senhor entrar lá o Senhor vai lá no meu gabinete e me chama”, falei: “Então tudo bem.” Eu falei, eu cheguei lá à tarde no departamento falei: “Mas não pode, a visão do Seu Alexandrino é demais. Mas não pode, eu não saí de lá, o único que esteve lá foi o Doutor Dílson e eu falei, eu não vou sair que eu quero ver se ele vai pedir”, é lógico que eu ia passar as medida pra ele, eu como um cara que queria aprender a profissão eu falei: “É uma visão muito grande a pessoa pegar um negócio desse”, eu ainda falei pro pessoal lá, cheguei falei pro Tarcísio: “Tarcísio, o Senhor é inteligente, o Senhor não faz isso”, ele falou: “Ninguém de nós faz”, eu falei: “Mas parece que tem uma coisa que conta pro Seu Alexandrino aí”, aí ele falou: “Ah, isso aí é experiência”. E a gente terminou aquele prédio...

 

P/1 – O Senhor está falando do Prédio da João Pinheiro com a Machado de Assis?

 

R – Não, fez primeiro o 4020 lá na João Pinheiro, lá na 232, lá perto da BR, aquele lá foi construído primeiro, terminou aquele, eu e o Mauro, foi só nós dois, que fez toda a parte elétrica, todinha daquele prédio, o Mauro já era um técnico e eu como auxiliar, e o Mauro é um cara que me ajudou muito, ele conhecia muito e eu aprendi a profissão com ele, se fosse só fazendo curso eu não aprendia o que eu aprendi na prática com ele, e aí o Seu Alexandrino falou pra nós, aí gente saiu em Teleco naquela época, tem Teleco, alguns quadros lá, me parece que eu tenho guardado Teleco com o Seu Alexandrino, e tem Teleco a gente saiu até, já começou a fazer a propaganda, aí o Seu Alexandrino pegou e falou assim: “Oh, vocês dois vão lá pra 236, vão levantar o prédio lá”, eu: “O que?”, “Vão levantar o prédio lá”, e isso tinha acabado hoje praticamente, a gente falou: “Não, mas a gente ainda tem...” ele falou: “Não, isso aí já fica pra outros, vamos embora” e já veio pra 236 e já foi começar, e aquilo era projeto, vinha só os croqui pra gente, não tinha nem projeto porque não dava tempo fazer projeto, e eu me lembro daquele prédio ali da 236, tem projeto, pode confirmar em projeto que eu, aquele prédio ali, eu não olho nada em projeto, algumas coisas a gente vai inteirando os 38 anos, vai esquecendo algumas coisinhas, mas eu lembro, eu não olho quase nada de projeto, eu não preciso do projeto. Fui eu que fiz, mas aí não, aí eu já estava empolgado porque aí ele já me passou a ser o encarregado da obra, aí tinha que fazer o aterramento, no projeto era fazer nas quatro estaca. O Seu Alexandrino chegou pra mim e falou: “Não é pra fazer nas quatro estacas, quantas estacas que tem?”, falei pra ele: “Seu Alexandrino, as estaca que precisam fazer são 275”, falou: “O Senhor vai fazer, qualquer um que chegar aqui e falar que é pra mudar o Senhor não muda não, fala comigo, eu estou aqui toda hora”, fizemos, fiz a solda da cota 00 a nove metros lá dentro do barro, cabeça da estaca, aí falei pra ele: “Seu Alexandrino, esse aterramento aqui vai dar menos alguma coisa”, aí ele falou: “Mas é isso que a gente precisa, central telefônica, é isso que a gente precisa meu filho, oh, esquece um pouco esses papel, papel é bom, o Senhor tem que olhar os papéis lá, mas o Senhor tem que fazer o que o Senhor achar que está certo, não cuida muito dos papéis não, faz desse jeito, o Senhor não muda não”, falei: “Ata, mas aí eu não vou mudar”, aí na época alguém chegou e falou: “Não, mas precisa mudar”, eu falei: “Não, você quer que eu mude? Põe no projeto e assina”, “Quem falou que é pro Senhor fazer?”, “O Seu Alexandrino”, aí acabou, falou que era o Seu Alexandrino acabou, ninguém desobedecia não.

 

P/1 – Ele entendia do riscado mesmo?

 

R – Ele entendia sim, o Seu Alexandrino. A gente tinha que admirar ele porque a parte elétrica é complicada, pois ele entendia, se tivesse errado ele sabia falar pra gente que estava errado, então ele entendia sim, ele sabia que estava errado, ele sabia o que tinha que fazer, então ele foi fazendo, aí a gente fazia, ele chegava e falava pra nós, às vezes fazia uns rascunho, aí contratou um engenheiro, um tal de Heleno, veio da Granja Rezende, e famoso e tal. Chegou, trabalhou poucos dias, pouco tempo não deu conta do recado.

 

P/1 – Por que, Seu Jacy?

 

R – Porque ele queria, por exemplo, ele fazia o projeto e era um projeto rascunho, não era o oficial, mas como era muito corrido o serviço, então a hora que vai executando a obra tem que fazer algumas mudanças, aí e ele não concordava da gente fazer as mudanças, eu falava: “Meu amigo, ao invés de eu te seguir eu vou seguir o vovô”, a gente acostumou a chamar ele de vovô, só falava vovô, não é vovô, aí acabou, o cara não discordava daquilo não, aí vinha o pessoal explicava pra ele, o Seu Alexandrino falava: “Não, mas eu quero desse jeito.” Aquela laje do PS lá era pra pôr uma tubulação nela, ele chegou e falou: “Não é pra pôr a tubulação, eu não quero que passa nenhum cano dentro desses pilares”, e ele falou pra mim qual era os pilares, os pilares da sustentação daquele prédio não tem um cano de meia polegada, pode olhar qualquer projeto do prédio que não tem, ele falou, e aí a que era arquiteta que calculou a ferragem, que era a Marta, e o Carlos Alberto era o engenheiro civil, aí eles... Quando começou nessa primeira laje eles falaram aqui: “Oh, aqui tem projeto, mas o projeto é da cabeça do Seu Alexandrino, não adianta se a gente teimar com ele, ele sabe tudo, não adianta”, aí eu falei: “Carlos Alberto, você tenha ciência que o Seu Alexandrino sabe”, ele falou: “Não, sabe, a base está aí, furou nove metros ao lado desse prédio que ele foi o construtor, ele não deu o desnível de nada, então por aí vocês tiram a base o tanto que ele conhece.” Quando a gente fazia se ele chegava e falava pra gente não é pra fazer assim, a gente, às vezes, ficava meio na dúvida “Mas será que ele está certo, será que está errado?”, porque qualquer projeto hoje, a gente tem que analisar pra gente chegar a uma conclusão, nunca que a pessoa chega e fala de estalo assim, fala a primeira palavra e acerta, isso é muito, olha lá hein, era só o Seu Alexandrino pra fazer isso, e a hora que a gente fazia outra laje, que a gente já estava fazendo as alvenarias, a gente falava: “É gente, vamos tirar o chapéu pro Seu Alexandrino que ele tinha razão”, os próprios engenheiros falavam pra nós que era os auxiliares técnicos, era os técnicos. Então quando fez a terceira laje, ele falou assim: “Em menos de um ano tem que funcionar a central”, a gente pegou a cabine de força, mudou ela pra garagem, pôs um tablado lá, fez provisório, e a parte elétrica é que era mais complicada, por que a gente tinha que mexer com alta tensão, é 13.8, então um negócio delicado, mas ele falou: “Mas como vai fazer?”, a gente trabalhava, por exemplo, teve dia que eu trabalhei, não era todo dia, três horas da manhã, sete horas a gente já estava lá de novo, por quê a gente tinha aquele compromisso que tinha que funcionar uma central antes de um ano. Quando a central estava, que começou o pessoal da Ericsson pra mexer, a laje já estava pronta, passou uma tinta lá correndo, começou o pessoal, aí começa, praticamente a infra-estrutura, o equipamento, sempre começa a infra-estrutura da central, a parte de ferragem, e o pessoal lá, ele chegava, teve um dia que o pessoal da ABC Propaganda me perguntou, era o Marquetti naquela época, ABC Propaganda, falou assim: “Seu Jacy, que horas que o Seu Alexandrino chega?”, eu falei: “Tem dia que ele chega cinco e meia, seis horas”, falou: “Mas, por exemplo, o Senhor tem uma noção?”, eu falei: “Oh, mais ou menos eu sei”, eu falei: “Amanhã é sexta-feira, amanhã ele está aqui cinco e meia, seis horas da manhã”, está no Teleco, eu não me lembro mais, foram várias pessoas que foi me perguntar se aquilo... Eu não lembro mais se está no Teleco só que foi muita gente me confirmar se aquilo era verdade, eu não lembro se é cinco e 45 ou seis e 45 da manhã ele já estava lá junto com a gente naqueles quadros de energia, e teve muitas vezes que ele pegava fio junto com a gente, então ele coordenava, por exemplo, aquele que estava errado ele via que estava errado e a gente chegava a conclusão que ele estava certo.

 

P/1 – Vamos trocar essa fita... O senhor continuar relatando para nós, que o senhor já não era mais um auxiliar, já era um encarregado, e como é que foi o seu trabalho daí pra diante, quer dizer, a empresa cresceu, a CTBC se expandiu, começou a prestar serviços em uma série de cidades, o senhor saía muito, ia resolver problemas fora, como que era?

 

R – Saía muito, assim que tinha os problema a gente era acionado e a gente ia, e a gente sempre procurava resolver os problemas, tinha que resolver, a gente ia pra resolver.

 

P/1 – Quem que era a equipe? Era o senhor e mais quantas pessoas?

 

R – Na época era eu, o Mauro, Mauro César Bonvini, Reinaldo Mamede, e o (Lorico?), Odilon e (Ogeda?), essa era a equipe da parte elétrica, nessa época era dividida a equipe, tinha climatização, a gente era AC e tinha a equipe de DC que era os retificadores.

 

P/1 – AC? Ah, sim.

 

R – AC e DC. Aí a gente dividiu pra não ficar carregado demais, aí dividiu, por exemplo, se desse um problema lá em Franca, por exemplo, falava: “Não, é corrente contínua”, ia a equipe de corrente contínua, era AC ia a equipe de AC pra resolver.

 

P/1 – Perfeito. Nessas viagens tinha tempo determinado pra ficar ou era...

 

R – Não, a equipe, por exemplo, aí a gente informava, não tinha tempo, por exemplo, o nosso chefe falava que a gente tinha que ir pra resolver só que a gente informava, tudo que ia passando a gente ia informando, a gente, por exemplo, “Olha, estou fazendo isso, isso”, se era defeito, porque o defeito, às vezes, a gente pode ir resolver em meia hora ou pode ficar um dia, dois dias, só que a gente mantinha ele tudo informado, e o Seu Alexandrino também ficava sabendo, agora nós já estamos na época do Doutor Luiz.

 

P/1 – E como era a relação com ele, o Doutor Luiz, que já assumiu a linha de frente da operação?

 

R – Agora, é, o Doutor Luiz é uma pessoa que a gente admira muito, porque ele começou e ele assumiu o grupo e o grupo só foi crescendo, a relação dele com os funcionários então, é muito boa a relação dele, porque ele é um patrão que parece que ele não é patrão, porque dificilmente um ano que ele não vai em toda mesa de funcionário, ele vai pega na mão, e uma coisa assim do Doutor Luiz que a gente acha ele até muito simples, por ser um dono de um grupo ABC, é ele poderia passar perto da gente nem falar bom dia, nem boa tarde, ele é uma pessoa que passa não deixa de pegar na mão da gente, cumprimentar, perguntar como vai, o que está acontecendo, então isso aí a gente fala assim: “Será que é porque eu sou mais antigo, talvez ele me conhece?”, não, mas a gente vê ele fazer isso com todo mundo, eu já vi, por exemplo, ele perto de funcionário olhar no crachá pra, às vezes, falar o nome e ele cumprimenta a pessoa, então a gente vive o dia-a-dia junto com o patrão. Acho que isso aí é o que incentiva a gente como funcionário e dá tudo pela empresa, a gente veste a camisa acho que é nesse momento, por quê, o patrão não tinha nada que, por exemplo, falar com a gente, então ele acha importante falar com a gente, isso é que traz a gente pro lado dele por exemplo, e aí a gente veste a camisa mesmo e barco pra frente porque a gente sente elogiado, é um elogio, por exemplo, eu pelo menos, como pessoa, na minha pessoa, eu acho que pra mim isso é muito importante.

 

P/1 – Seu Jacy, vamos pensar numa coisa aqui, as tecnologias se sofisticaram, ficaram mais complexas, melhoraram, se modernizaram, mas a energia elétrica permanece a mesma, não é? O problema da energia...

 

R – Não, a energia em si ela permanece a mesma mas ela foi mudada e melhorado muito a tecnologia da energia.

 

P/1 – Como foi isso, como foi esse processo desse primeiro momento que o senhor era auxiliar pra depois que ficou mais experiente e conhecedor do seu negócio?

 

R – Não, e a gente que é o técnico hoje é mesma coisa, por exemplo, um médico, o advogado, se ele largar os livro, os curso, ele está aperfeiçoando, ele vai ficando pra trás, ele vai ficando na retaguarda, então, o técnico não pode parar de pegar os livros, ir buscando novas tecnologias, não vai anos, hoje, pra ter nova tecnologia. Agora, pra isso a CTBC é uma empresa que investe muito nos funcionários, parabéns pra ela, porque todas as tecnologias que tem, a CTBC está mandando, a gente está fazendo curso, está aperfeiçoando, então por isso que a gente está atualizado com a tecnologia, qualquer novidade de tecnologia a gente está tendo acompanhamento.

 

P/1 – Como é o seu trabalho hoje, Seu Jacy?

 

R – O meu trabalho hoje... Passou uma fase aí que estava mais terceirizando o serviço, então a gente praticamente estava mais coordenando o serviç. A gente está passando agora por uma fase… A gente está voltando a pegar na ferramenta, é aquilo que a gente aprendeu a fazer então é uma motivação a mais, porque a gente está tendo os conhecimento da teoria e está vivendo o dia-a-dia na prática, eu acho que isso é muito importante, porque se o técnico ficar só na teoria ele vai ficando distanciado dos equipamento porque a tecnologia está muito avançada, hoje por exemplo, está vindo tudo microprocessado, então por exemplo, se você não tiver estudando e buscando algum livro como que você vai entrar lá no notebook e ver o que está acontecendo no nobreak, o que está acontecendo, então é tudo microprocessado, o técnico tem que estar... E não precisa pensar que está velho, eu por exemplo, cara fala assim, me chama de velhinho, eu nunca pensei velho, eu sempre estou fazendo curso, estou sempre estudando, por exemplo, eu devo uma matéria, porque eu não tenho Crea, eu só devo uma matéria e eu vou fazer as prova agora esse ano, eu levei umas bombas, já fui reprovado, essa matéria só devo desenho, então pra mim está sendo muito difícil porque eu não acostumei a desenhar, então o desenho não é fácil, não é fácil fazer uma prova de desenho, só que eu estou buscando na escola e estou fazendo o dia-a-dia, então, acho que as duas coisas... É uma engrenagem.

 

P/1 – Os problemas que aparecem na sua área hoje são mais complicados do que antes?

 

R – A não, hoje é muito mais fácil.

 

P/1 – É mais fácil?

 

R – Hoje é mais fácil, hoje é tudo mais fácil, por exemplo, dá um defeito a gente já sabe onde está o defeito, as coisas que são microprocessado te ensinam a trabalhar, então hoje está muito mais fácil, tudo é mais fácil.

 

P/1 – Fácil de localizar o defeito?

R – É, eu não sei se é com a experiência, a gente vai tendo mais visão, mas por exemplo, eu acho mais fácil hoje.

 

P/1 – Como é o seu cotidiano de trabalho, o senhor continua tendo horários fixos ou fica na disponibilidade que era antes?

 

R – Não, a gente, por exemplo, nós não temos horário, nosso horário é móvel, a gente não bate ponto, por exemplo, a gente chega não tem hora pra ir embora, só que estava ficando por exemplo, muito desgastante a equipe, então o Joãozinho do TH até falou pra mim um dia, eu procurei ele falei assim: “Eu acho que o meu chefe até não está vendo o que a gente faz, eu quero voltar a bater o ponto”, aí ele pegou e falou pra mim: “Mas por quê?”, falei: “Não, parece que eu não estou... Eu trabalho a noite inteira e parece que ninguém está falando nada e tal, e eu quero bater o ponto pra eu mostrar”, aí o Joãozinho pegou e falou pra mim: “Não, o senhor tem que pensar”, meu coordenador hoje falou isso pra mim depois, numa avaliação que eu falei isso pra ele, ele falou: “Não, o senhor tem que ficar preocupado, e se nós tivéssemos pegando no pé do senhor, agora se o serviço está em dia, nós não estamos preocupado, a tarefa que o senhor tem que fazer, os equipamentos não param, se o senhor tem que dar uma manutenção, o senhor dá, o senhor já vem com o problema e a solução, então nós não temos que nos preocupar”, Aí o Joãozinho falou pra mim: “Não, vocês não vão fazer isso, vocês tem que fazer o seguinte, quem vai controlar isso são vocês”, e a gente passou a controlar e demos muito bem com isso, porque aí nós marcamos o plantão, a semana que eu estou de plantão eu vou trabalhar a noite inteira, os outros estão descansando, aí se eu trabalho e dia que eu tenho… Eu vou compensar, eu saio na compensação, aí beleza, porque a semana que eu estou de plantão eu estou me desgastando, mas depois eu vou compensar, vai recuperar isso aí, e os meus colegas são da mesma forma, então não é o coordenador que tinha que falar, era a gente mesmo. E a gente na verdade não sabia, a gente estava faltando, por exemplo, um empurrão pra gente saber, aprender fazer as coisas, saber controlar, a gente queria que todo mundo estivesse presente, hoje por exemplo, se a equipe precisa, aí ele vai ligar, mas aí a gente vai atender ele, o Cor, por exemplo, vai chamar o plantão.

P/1 – Quem vai chamar?

R – O Cor.

 

P/1 – Cor o que é?

 

R – O Cor (risos). O Cor é onde sai todos os alarmes da regional, dos equipamentos, que seja, retificador, nobreak, climatização, grupo gerador, falta de água, sai lá, aí o Cor pega, sai o alarme, aí ele liga pra gente pra gente ir ver o que está acontecendo, se foi falta de energia, o que deu defeito no equipamento, a gente vai e conserta, nós temos que ir e pôr pra funcionar, e nós temos um grupo gerador móvel que a gente vê se for um problema de energia mais sério, que se a bateria não aguenta a gente leva esse gerador, pegamos o caminhãozinho lá que tem um gerador em cima, vamos pra LI, Aerb ou a central, e põe o gerador pra funcionar até tirar o defeito, tirou o defeito e volta ao normal.

 

P/1 – O senhor falou em LI, o que é LI?

 

R – Hein? LI é uma central.

 

P/1 – O senhor falou A...

 

R – Não, eu falei Aerb.

 

P/1 – Aerb?

 

R – É, porque tem a Aerb que é celular, tem a central celular e funciona, Aerb porque funciona a fixa e a móvel junto com o celular.

 

P/1 – Seu Jacy, vamos falar um pouquinho da sua família, afinal de contas o senhor casou, veio pra cá e teve filhos. O senhor tem quantos filhos hoje?

 

R – Eu tenho quatro filhos, a minha filha mais velha chama Deusa Fernandes Oliveira, ela casou, eu já tenho, da Deusa tenho um casalzinho de netos, inclusive fiquei muito feliz com o meu netinho essa semana, porque o pai dele não manja muito de futebol não, e não conhece nada de futebol, nunca foi, nunca jogou bola, não tem simpatia por futebol, e o meu netinho chegou e falou pra eu comprar uma camisa do meu time pra ele, eu falei: “Mas meu time, meu filho, está bravo”, aí ele falou: “Mas qual é o time do senhor?”, eu nunca tinha falado pra ele, eu falei: “Não, meu time é o Santos, eu sou torcedor do Santos”, falou: “Eu quero a camisa do Santos”, aí as menina brincava “Não, é do Flamengo, Vasco.” “Não, é o time do vovô, é o Santos”, e ele tem apenas dois anos.

 

P/1 – E os outros filhos?

 

R – Tem o Gilson, Gilson Fernandes de Oliveira, ele casou, tem uma filhinha também, a Jéssica, ela está com oito anos, e tem a Dulce também, tem a Taís, meus filhos casaram mais ou menos numa época só, tem oito anos também a Taís e agora está esperando uma menininha, vai ter mais uma netinha, então eu vou inteirar o quinto.

 

P/1 – São três filhos então?

 

R – Três filhos casados, e têm o Junior, Jacy Fernandes de Oliveira Júnior, ele vai fazer agora 21 anos, inclusive ele, os dois filhos homem, o Gilson aprendeu a profissão comigo também, e o Júnior também, a mesma coisa. O Gilson fez um curso de eletrônica, trabalhava no Martins, aí a Coca fez uma proposta pra ele e aí ele me perguntou, o dia que a Coca fez a proposta, e eu falei pra ele: “Mas está preto no branco?”, ele falou: “Está”. E o que ele estava ganhando no Martins e a Coca ofereceu o dobro pra ele, aí eu falei: “Meu filho, quem é novo não pode enjeitar proposta não, a sorte do homem está no solado do pé, então tem que ir pra frente”. Aí ele trabalha na Coca hoje, agora o Júnior começou a trabalhar comigo quando ele tinha oito anos, por isso que eu sempre falo que criança tem que trabalhar, porque aprende a profissão novo, aí falei pra ele: “Oh, vocês não podem aprender a profissão do pai não, porque isso é muito ingrato, vocês tem que estudar e tal”, ele falou: “Não, mas nós vamos estudar, mas...”, e hoje todos são profissionais. O Júnior está fazendo curso, ele ainda não tem formação profissional, mas eu confio em deixar pra ele, hoje ele está naquela firma terceirizada, ele está na CTBC, e eu vou ser sincero que, não por ele ser meu filho, poderia ser filho de qualquer outra pessoa, pela capacidade dele eu tenho confiança de entregar a chave da cabine de qualquer coisa pra ele, ele dá conta do recado e tem conhecimento.

 

P/1 – Tudo filho do pai dele.

 

R – Tudo, é.

 

P/1 – Seu Jacy, o que o Senhor vê pro futuro da companhia, da CTBC? Como o Senhor enxerga esse... O Senhor que está a tanto tempo aqui, o que o Senhor olha daqui pra frente, o que o Senhor consegue ver no horizonte?

 

R – A CTBC, eu enxergo tudo pra frente, eu fico um pouco preocupado que na minha opinião a empresa precisava estar mais, como que eu falo a palavra, mais rápida, por exemplo, falou em vender pra Ribeirão, eu já acho que tem dinheiro pra comprar, vender Minas, eu já acho, tudo bem, eu sei que o patrão não pensa a forma que eu penso, mas o que eu penso na empresa é que ela, estou enxergando na empresa que ela vai comprar muitas teles ainda, eu tenho certeza que vai, com essas cabeças que tem aí, e o patrão, eu sei que a vontade do patrão é essa também, porque a gente conversa sempre com ele, a gente vê, e tenho certeza, eu acho que o que segura um pouco é o governo, se o governo abrisse um pouquinho já estava bem mais na frente, isso é meu sentimento, isso é o que eu sinto.

 

P/1 – Seu Jacy, e pra uma pessoa que estivesse chegando agora na CTBC, não necessariamente fosse um especialista em eletricidade, não fosse trabalhar com energia, mas o que o Senhor diria pra uma pessoa que está chegando agora depois de tantos anos de escola aqui, de janela, o que o Senhor diria pra uma pessoa que está chegando agora? Que empresa que eles vão encontrar?

 

R – Por exemplo, se ele estiver chegando na CTBC?

 

P/1 – É, entrando agora, o senhor está falando...

 

R – Não, ele vai chegar aqui e encontrar uma empresa que dá valor ao funcionário, sempre eu falo, a pessoa que chega no grupo ABC pra trabalhar, eu não vou dizer só na CTBC, no grupo ABC, eu acho que ele tem que dar valor, porque são umas pessoas... Eu acho que é uma pessoa hospitaleira, dá valor na pessoa, muitas das vezes as pessoa que talvez vem e sai da CTBC não foi porque o dono, os diretor quiseram não, talvez a pessoa saiu pra melhor, às vezes provocou a saída, mas é uma empresa que a gente sempre fala, é aquele ditado, a gente chegou na CTBC a gente veste a camisa e aquilo fica no coração, esse nome de CTBC, de grupo ABC. Qualquer lugar que a gente viaje a gente fica com orgulho, é igual falar da família da gente, por exemplo, eu várias vezes já viajei à São Paulo, Rio, eu estou num hotel, às vezes eu lá vendo uma televisão quietinho num canto, mineiro é sempre quieto, e tem que ficar quieto, tem mais é que ouvir e falar menos, a gente já vê aqueles grandes empresários falar: “Oh, lá no Triângulo Mineiro a CTBC é uma empresa que olha lá, parabéns pra CTBC”, a gente só vê elogio, hoje por exemplo, pessoa terceirizada, quem não quer prestar serviço pra CTBC? Porque a CTBC é uma empresa que cumpre com as obrigações, eu por exemplo, não sei falar, não sei, CTBC nunca chegou um dia que o seu pagamento não estivesse na sua conta, então é uma empresa que merece todo elogio, não é porque eu estou na CTBC que eu estou falando isso não, estou falando a realidade da empresa, então é uma empresa que dá valor ao funcionário, é uma empresa que todo mundo gosta de trabalhar, por exemplo, você vai aí o cara está: “Não, mas eu tenho que trabalhar, prestar serviço pra CTBC, quando está terceirizando e tal”, se fosse uma empresa qualquer o cara não procurava, então é uma empresa que está de parabéns, merece elogio.

 

P/1 – É Seu Jacy, muito obrigado pelo seu belo depoimento. Tem alguma coisa que o senhor gostaria de ter falado e acabou não falando?

R – Que eu gostaria?

 

P/1 – É. Algo que tenha passado nessa conversa aqui?

 

P/2 – O que o senhor achou de ter dado depoimento aqui, ter contado a sua história?

 

R – Uai, eu acho que pra mim isso é um orgulho, é uma motivação a mais pra mim, eu já fico empolgado e começo a falar, porque, talvez vocês tenham até que cortar alguma coisa porque a gente empolga, eu tenho mais que parabenizar vocês, porque pelo que eu estou falando aqui eu estou mostrando que todo mundo que trabalha na CTBC é empenhado com a qualidade, de buscar alguma coisa que é verdade, porque o que a gente está falando… Se for pra olhar arquivos, documento, está tudo documentado, às vezes está falando o arroz com feijão mas é porque o dia-a-dia é isso aí, então a equipe de marketing hoje, vocês estão de parabéns na empresa, todo mundo dentro da função, e a parte de amizade… Porque hoje a gente, eu por exemplo, eu costumo falar, até brinco muito, às vezes eu chego em casa, o pessoal me fala assim: “Ah não, mas você vai dar ordem”, eu falo: “Não, ordem eu não dou nem lá em casa, porque eu vou lá só pra dormir” a minha patroinha ainda brinca comigo, fala: “não, você vem aqui só pra dormir”, então a gente, na empresa, estamos mais juntos com os funcionários do que com a própria família legítima, porque eu me considero irmão de todos os funcionários do grupo ABC, porque a gente veste a camisa e são pessoa que quando a gente precisa de qualquer informação, buscar qualquer conhecimento, a pessoa tem, por muito humilde que a gente seja, a pessoa tenta informar e ajudar qualquer um, então eu acho isso importantíssimo em uma empresa pra ela crescer conforme o grupo ABC cresceu. 

Estão de parabéns, o nosso presidente com toda a diretoria está de parabéns, e outra coisa que eu gostaria de falar é que uma coisa no grupo, na CTBC, é que, qualquer pessoa se falar que tem alguma porta fechada eu acho que ele está enganado, porque a porta de qualquer diretor é aberta pra qualquer pessoa chegar e falar: “Oh, isso, isso e isso”, só tem uma coisa, se tiver correto eles vão dar os parabéns, mas se tiver errado eles vão falar porque é que está errado, então isso aí que é qualidade. Por exemplo, tem empresa, a gente vê falar, eu não tive muita experiência em trabalhar em outras empresas, praticamente só trabalhei em duas empresa, só trabalhei em duas, praticamente não, duas, mas a gente vê, por exemplo, várias empresas grandes os funcionário não tem direito de falar nada, aqui na CTBC você pode questionar, você chega no diretor, você fala, você questiona, por isso que a empresa cresce, porque a gente teve um convenção com o Doutor Luiz e acho que foi uma das primeira convenção, eu não me lembro, mas o Doutor Luiz falou assim: “Oh gente” a gente era lá, sei lá, umas novecentas pessoas ou mil por aí, não me lembro, ele falou: “Eu gostaria que vocês achassem os problemas da CTBC”, aí todo mundo “Maravilha”, entregou, mandou o pessoal, entregou um lápis, um papel, um rascunho e todo mundo escreveu, porque falar do problema é facinho, eu questionar aqui um problema é facinho, achou todo mundo maravilha, todo mundo encheu uma folha de papel, deu uma borracha se caso precisasse apagar apagava, então o técnico tem facilidade de achar problema, ele está convivendo, talvez a área comercial não tenha facilidade porque tem um técnico, e as palavras técnicas são diferentes, e os técnicos, principalmente os técnicos. Coloquei todos os problemas. “Vou entregar pra ele”, aí ele sorriu e falou: “Não, é o seguinte, aqui tem quase mil pessoas e dessas cabeça eu sei que vão ter muitas ideias ótima, agora vocês deram o problema, levantaram o problema, agora como fazer a solução? Anotem”. Aí o pessoal pegou e, como é fácil falar dos problemas, e resolver? Aí ele pegou, mas aí questionaram, “mas papapa, papapa”, “Não, faz um grupinho de dez, uns têm mais facilidade”, aí fez os grupinho de dez e levantou a solução, aí levantou, no outro dia sete horas da manhã já estava com a diretoria reunida pra falar sobre aquilo lá, os problemas e as soluções, e tenho certeza, porque a gente que vê o dia-a-dia viu como deu um impulso nas LIs, nas centrais aí, nas centrais remotas, foi através disso aí, então você vê que, olha a ideia dele, do Doutor Luiz. E parabéns pra ele, porque se não apresentasse a solução pra ele, ele ia perder muito tempo, então como a pessoa levantou o problema ele já passou a solução, foi mais fácil dele analisar com a diretoria, por isso que era um grupo.

 

P/1 – A solução veio do grupo?

 

R – A solução veio da parte técnica, então já engrena, já pega aquilo que tenha proveito e o resto já elimina, por isso que chegou nesse patamar que está hoje.

 

P/1 – Beleza Seu Jacy, beleza, ótimo, perfeito. Seu Jacy, muito obrigado.

 

P/2 – Muito obrigado.

 

R – Não sei se...

 

P/1 – O senhor falou “Vai ter que cortar”, a gente não corta nada viu?

 

R – Não? (risos)

 

P/1 – Não corta nada, deixa tudo quieto, o que vale é o que o senhor disse, não é o que a gente acha que tem que ser, o que vale é o que o senhor disse, é por isso que é importante que...

 

R – Agora, é...





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