Busca avançada



Criar

História

Uma vida que integre você a tudo aquilo que está ao seu redor

História de: Marco Aurélio Roberto
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/09/2015

Sinopse

Marco Aurélio Roberto narra a vinda de seus avós para a cidade de São Paulo, relembra a infância regada a música, brincadeiras, passeios de bonde e de trem. Valoriza o aprendizado no colégio, onde vivenciou a ditadura militar, assim como os frutos culturais que nasceram da repressão. As noites de discoteca, os caminhos que traçou até chegar ao curso de arquitetura e os rumos profissionais que o tornaram consultor de desenvolvimento. Hoje Marco roda o Brasil através do Motorhome em busca de histórias de vida.

Tags

História completa

Eu nasci em São Paulo, no bairro do Ipiranga, no Hospital Leão XIII, que é em frente ao Museu da Ipiranga. Mais paulistano do que isso, só nascendo no Bixiga. Meu pai e minha mãe também nasceram em São Paulo. A família do meu avô veio da cidade de São João Del-Rei para Campinas e depois para São Paulo. Meu avô Sebastião trabalhou no O Estado de São Paulo. Ele foi um dos funcionários mais antigos e mais velhos, no bom sentido, porque ele viveu 103 anos. Ele trabalhou no jornal Correio de Campinas, começou a carreira dele e conheceu a minha avó Maria. Casou em Campinas e veio pra São Paulo. Isso foi provavelmente na década de 1920 pra 30, porque o meu avô nasceu em 1887 e o meu outro avô, Arthur Roberto Filho, nasceu em 1886; eu gravei muito isso porque foi o ano da Lei do Ventre Livre, a lei da libertação dos escravos pela princesa Isabel. O meu avô Arthur tinha uma história diferente. Ele trabalhou e se aposentou na fábrica Votorantim de cimento.

Meu pai conheceu minha mãe em São Paulo, em um desses passeios, antigamente se passeava muito em parques. Meu avô Arthur era uma pessoa muito rígida e o meu pai se formou em Contabilidade, mas ele foi um cara extremamente esforçado porque ele fez tudo escondido. Meu avô não queria que ele estudasse, queria que trabalhasse porque é o que ele achava que dava certo. O meu pai continuou estudando, fez curso de Contabilidade, depois fez Economia. Trabalhou 35 anos na mesma empresa, na Fepasa Ferrovias Paulistas. A minha mãe era uma pessoa mais dedicada pra casa. Ela gostava muito de costura, ela fez corte e costura, modista e tudo o mais, trabalhou com uma tia minha chamada Aparecida que levou ela para uma dessas famílias bem tradicionais de São Paulo, e elas confeccionavam todas as roupas dessa família. Ela trabalhou a vida toda dela nisso. As minhas roupas e as da minha irmã eram feitas pela minha mãe.

A gente morou primeiro na Casa Verde, numa das casas do meu avô Arthur. A gente ia pra casa dele e andava muito de bonde. Tinha uma loja de armarinhos na mesma rua e aquele dia meu pai, não sei por que razão me deu um carrinho de presente. E a gente estava indo pra passar um domingo na casa do meu avô antes do Natal. Domingo de sol, de bonde, foi uma época muito gostosa.

No Ipiranga a casa era grande. O meu avô Sebastião era uma pessoa muito vaidosa. Ele colocava gotas de perfumes nas rosas que eram plantadas no jardim da casa da minha avó. Naquela época se vestia em terno, camisa de linho, os sapatos de couro. De vez em quando eu brincava de engraxar. A família toda da minha mãe é muito musical. Eu estudei piano, minha irmã e minha mãe também. O meu avô tinha uma banda, uma mini-orquestra. Os meus tios todos tocam; clarinete, piston, saxofone, instrumento de percussão, piano, violino. A gente tocava as músicas que eram sucesso na época; chorinho, músicas populares brasileiras.

Quando eu tinha três anos o meu pai comprou um terreno e começou a construir uma casa. E fez no mutirão, apesar de alguns profissionais trabalharam na época, mas a minha família era muito unida. Todo mundo tinha seu próprio poço, desde pequeno já aprendi como é que trocava a gaxeta da bomba do poço. Eu aprendi a fazer tudo o que eu sei com o meu pai, acho que por isso que eu gostei tanto de Arquitetura. Eu fiquei lá até os 15 anos e depois mudei para o bairro Parque Continental.

A Fepasa é onde é hoje a Estação Júlio Prestes, onde tem a Sala São Paulo. Meu pai trabalhava no segundo andar, como a sala dele era de fundos, dava pra ver a José Paulino, a estação da Luz. E eu tenho essas recordações porque eu viajei muito de trem na minha vida, nossas férias eram de trem. Era uma festa porque o trem te proporciona coisas que você não tem hoje, tinha restaurante, biblioteca. Uma pena que tenham destruído essa coisa legal que são as ferrovias. O Liceu Coração de Jesus era próximo, nos Campos Elíseos. Eu ia pra estação Sorocabana a pé e vinha de trem com o meu pai e depois ia pra escola. Tinham muitos alunos que tomavam o mesmo trem, então a gente se cruzava, marcava o horário do trem pra todo mundo se encontrar, era muito legal.

Aquela época foi de muitas revoluções e no palácio do governo tinha um túnel de escape que dava justamente no vestiário do colégio. Era uma porta de aço. A gente encheu tanto pra poder abrir essa porta que um dia o zelador abriu pra gente ver o que tinha: era outra porta, que depois tinha outra porta e assim por diante. Até que um dia a gente conseguiu entrar três portas pra dentro, foi o máximo que a gente conseguiu chegar.

Nessa época tinha greve e os militares estavam na rua. Eu tinha muitos amigos que os pais eram militares do Exército. Eu ia até Quitaúna, onde era o quartel e de lá eu ia com eles de ônibus ou de jipe do exército, senão não tinha como ir. Eu me livrava um pouquinho dessa vigia porque todo mundo era muito vigiado. Mas meu pai tinha muitos amigos que passaram períodos bravos, sumiram com os caras. Alguns voltaram e outros não. A pena é que os caras que assumiram esses governos depois não souberam valorizar tanto aquilo que tanto a gente lutou pra poder ter, que foi a democracia.

Foi uma época de muita mudança, tanto como começou o rock n’roll, até o psicodélico e depois aqui no Brasil, da MPB. Esse pessoal teve o privilégio de ter essa riqueza de mudança, de briga, de intempéries que fortaleceu. Tinham muitos barzinhos, você convivia com os caras, com Toquinho, Chico Buarque, Wilson Simonal esse pessoal todo. A época das discotecas também era muito legal. Muita gente boa veio para o Brasil fazer shows. De Billy Paul, Donna Summer, Sarah Vaughan, nossa!

Aí fiz vestibular na USP pra Arquitetura. Foi legal, mas eu acabei não terminando, e fiz na Escola Panamericana. Foi uma escola muito legal pra mim porque fiz um monte de coisas que tem a ver com Arquitetura, Urbanismo e Decoração. Eu trabalhei desde os meus 15 anos. Primeiro eu trabalhei num escritório de um amigo do meu pai, depois na Folha de S. Paulo; fui office-boy. Quando estava terminando os estudos fui trabalhar numa construtora que construiu o lugar que eu morava, que construiu o Shopping Continental. Mais tarde eu entrei pra Xerox, na área de vendas, que foi uma decepção pra mim que era formado. Foi cansativo porque era uma vaga pra cem pessoas. E eu acho que por eu não conhecer nada e ser uma pessoa com uma formação bem eclética que eles me contrataram. Eu entrei com uma cabeça diferente, comecei a inovar coisas e eles não aprovavam, eu achava ótimo porque eu adoro quando tem que inovar e eu tenho que brigar para a inovação. Isso me motiva. Quatro anos depois apareceu uma empresa completamente diferente e um amigo me chamou e falou: “Marco, você quer trabalhar num negócio diferente?”. Eu falei: “Que negócio?” “Está vindo pro Brasil uma empresa chamaa Learning International e é muito bom o negócio” “Mas o que é?”. Ele falou: “Não tenho a menor ideia, mas os caras estão investindo um milhão de dólares aqui”. Eu falei: “Cara, é muito dinheiro!”, ele falou: “Então, vem fazer o teste”. Fui fazer o teste e passei. E foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida porque é uma área de desenvolvimento humano onde você tem tudo o que as pessoas precisam pra poder trabalhar melhor. E foi aí que começou essa formação. Esse nome coach surgiu depois, mas internamente já existia. E fui me formando em todas as áreas, de treinamento pra dar as empresas, pra administrar as empresas, e isso que dá pra você a competência de ser um cara que tenha esse conhecimento de consultoria e coaching.

E o projeto que eu tenho hoje, o Motorhome, lida com gente e procura trazer uma coisa que as pessoas estão precisando muito, que é sair da casinha, então eu falo assim: “Você está estressado, você está doente, por quê? Você precisa saber por que você está assim. Você tem paixão pelo que você faz? Se você não tem, vai fazer o que você gosta! A outra coisa é: “O que é que eu quero fazer? Por que eu estou aqui? Qual é o meu papel? Eu vou participar de um processo que melhora a vida das pessoas?”Eu tenho que ter essa informação, porque senão eu vou fazer o que todo mundo está fazendo, sai de casa, vai pro trabalho, do trabalho vai pra escola, vai pra faculdade ou vai pro curso de inglês, ou vai pra academia e volta pra casa. Isso não é vida! Você tem que ter uma vida que integre você a tudo aquilo que está ao seu redor.

O Motorhome apareceu da minha vontade de fazer coisas diferentes, dar esse presente pras pessoas, como é que elas podem despertar para um outro universo que elas têm e elas não estão percebendo. É um trabalho que a gente chama de escolha. Todo mundo tem as suas. Eu, particularmente, acho que não tem escolhas erradas e certas, tem escolhas.Se vocês falam: “Puxa, mas você não tem uma casa?” “Tenho” “Não, mas você não tem um lugar fixo” “Tenho” “Não, mas isso é um Motorhome” “É. Eu posso parar ele, ele fica fixo. Está vendo essa ancorazinha que tem aqui? Essa âncora eu jogo e fica ali”. Eu brinco muito pras pessoas entenderem que elas estão muito apegadas a coisas que não são tão importantes. Nos últimos dez, onze meses rodei 43 mil quilômetros com o Motorhome. Ele começou em Curitiba. Um dia eu estava subindo da fábrica do Motorhome em Joinville e na estrada eu pensei: “Eu estou com um Renault, eu conheço o vice-presidente da Renault, eu vou parar na fábrica da Renault e falar com ele”. Eu conheci esse cara numa festa de um bistrô francês lá em Curitiba. Cheguei na recepção e disse que queria falar com ele. “Ah, o senhor tem hora marcada?”, disse que não. “Ah, ele marcou com o senhor?”, eu falei que não. “Como que eu falo pra ele?”. Eu falei: “Dá pra você levantar um pouquinho?”. A menina levantou da recepção e eu falei: “Tá vendo aquele carro ali?”. Ela viu o emblema e falou: “O senhor é da televisão?” “Não. É um projeto que eu comentei com o Alan numa festa e acho que ele vai gostar de conhecer. Fala que é o Marco Aurélio que esteve em Curitiba há dois anos e que está aqui pra mostrar um projeto com o carro da Renault”. Ela ligou. Ele falou que não podia me atender, mas que ele sabia quem era e do que se tratava. Aí a assessora me disse que ele estava em reunião e falou: “Vamos fazer o seguinte, ele falou que vai mandar alguém pra falar com você rapidamente”. No outro dia marcamos um encontro e ele ficou encantado com o Motorhome e levou toda informação pra lá. Até hoje tenho essa parceria com a Renault. Porque o projeto é legal, porque eles gostaram e porque se eu não tivesse passado lá não tinha acontecido nada disso. As pessoas que estão na mesma frequência se aproximam naturalmente.

O meu sonho é fazer esse projeto virar por todo Brasil, depois pegar a América, América do Sul, passar a América Latina, passar na América do Norte e me embrenhar por aí. Meu outro sonho é andar num hidroavião, que eu ainda não andei. E ter uma companheira, mas tem que ser uma pessoa que tenha a mesma cabeça que eu, que tenha disponibilidade pra fazer o que eu faço e não é fácil, então tem que ter alguém que... Uma hora ela vai aparecer, ela está por aí me esperando.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+