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História

Uma vida política

História de: Ana de Cerqueira César Corbisier
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/03/2014

Sinopse

Em sua história de vida Ana de Cerqueira César Corbisier, nascida em São Paulo, capital, relata como na década de 60 trabalhou como assistente de produção na TV Cultura e passou a integrar a ALN (Ação Libertadora Nacional) atuando no GTA (Grupo Tático Armado). Como exilada Ana morou na França e em Cuba onde fez treinamento de Guerrilha e viveu algumas das mais enriquecedoras experiências de sua existência. Além de exilada, precisou viver por muitos anos na clandestinidade. A trajetória de Ana é definida por muita resistência e luta política, porém em suas memórias está a alegria de receber cartas de amor.

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História completa

Meu nome é Ana de Cerqueira César Corbisier e eu nasci em São Paulo em 16 de abril de 1941. A família do meu pai era do Rio de Janeiro; e da minha mãe, daqui. A família da minha mãe é uma família muito conservadora, chamada de os quatrocentões aqui de São Paulo; Cerqueira César. Eles são primos dos Mesquita, do Estadão, e têm uma família assim, você tem que andar bem na linha, têm padrões bastante rígidos. A família do meu pai era do Rio de Janeiro. Da parte paterna, eles eram todos oficiais da Marinha e muitos conspiraram no golpe de 64, junto com a família da minha mãe aqui em São Paulo. E a parte materna, eles eram muito ligados à coroa, os irmãos dela eram monarquistas. Era todo mundo muito conservador, muito tradicional. Eu meio que fui um patinho feio, não sei como eu saí assim (risos), não consigo saber muito bem. Mas o fato é que desde que eu tinha 13 anos de idade, eu já tava na favela. Eu fiz parte daquele movimento da igreja, da esquerda católica do Vaticano II, da Igreja Progressista, até hoje é da Libertação, era bem ligada aos dominicanos. Minha família toda era udenista [União Democrática Nacional], eu já era getulista, eu era a favor da Petrobras loucamente com 12, 13 anos de idade. Eu sempre tive umas posições assim, diferentes da família.

 

Eu estudei em colégio de freira, aliás, péssimo colégio, no Sagrado Coração de Maria, péssimo. Por sorte eu tinha feito um bom primário, eu tenho base de português, principalmente, história, de humanas em geral eu tenho boa base. Meu pai também sabia muito português. Meu pai era professor. Nós, a família nuclear, não tínhamos condições financeiras, porque meu pai era professor e na época não queria que minha mãe trabalhasse. Ela fazia as unhas da família, bordava muito bem pra família, tudo dentro de casa. Por isso mesmo ela me empurrou muito pra fora. Eu fui fazer faculdade, fiz Ciências Sociais na USP [Universidade de São Paulo], me formei em 68, no ano cabalístico de 68, mas mal participei do movimento estudantil, porque eu tava com filho pequeno, amamentava, meu marido não queria que eu estudasse, cada ano era uma luta, eu levei oito anos para fazer uma faculdade de quatro. Mas já meio ali querendo saber. Por quê? Como ele não me deixava trabalhar também, não sei como a gente casava nessas condições naquela época, mas casava. Quando veio o golpe em 64, eu não me conformava que os meus filhos iam viver numa ditadura. E eu me lembro de uma reunião do pessoal da Democracia Cristã, eu era a única mulher e era bem mais moça, na época eu tinha 28 anos, eles tinham, sei lá, 40. Enfim, eu sei que aquela indignação foi crescendo, crescendo, e quando eu quis separar, o meu marido fez questão que queria ficar com meus filhos, queria ficar com as crianças. E eu o achava muito solitário, eu achei que era importante ele ficar com as crianças, porque eu tinha uma facilidade muito grande de relacionamento, e ele não. E eu gostava dele, quer dizer, a gente não tinha mais um casamento, mas eu não tinha nenhuma raiva dele, nada disso. Eu deixei as crianças com ele. Eu tinha que dar um sentido pra minha vida, quer dizer, se ele quis ser mãe, eu tinha que ser pai. E na minha cabeça o pai, além de ser provedor, tem que apontar rumos, futuro, permitir o futuro. Aí eu me envolvi.

 

Em 67 eu me separei. No dia seguinte que eu me separei, eu fui falar: “Quem tava organizado?”. Eu ficava pensando. Porque eu não tinha tempo de fazer movimento estudantil, então eu não sabia direito quem tava organizado no quê. Eu não mapeava as organizações. Aí eu me lembrei do Aloysio Nunes, que hoje é senador. Que era que nem um irmão meu, porque os pais eram amigos e os avôs já tinham sido amigos, tinha uma relação de família ali. Eu gostava muito dele, e ele de mim também. E eu fui procurá-lo, porque eu sabia que ele tava no Partidão, no Partido Comunista. Era a única pessoa que eu sabia onde tava. Eu achava o Partidão bem sossegado demais para minha cabeça, mas era o único que eu sabia. Aí quando eu fui conversar com ele, ele me disse: “Eu tenho uma coisa melhor pra você”. E aí me falou da ALN [Aliança Libertadora Nacional], que foi o movimento do Marighella [Carlos Marighella], que se cingiu com o Partidão e propunha a luta armada. E aí eu me dei quem nem um peixe n’água. Eu participava de um grupo que chamava GTA na época, Grupo Tático Armado, que era um grupo de ação. Cada um fazia o que sabia, o que queria. Lógico, tinha muita disciplina, muita compartimentação, isso tinha. Tipo, você tava aqui, por exemplo, hoje me perguntam: “Você conhece fulano?”. Da mesma organização, eu não conhecia. Você conhecia o teu grupo, mas não todo mundo, porque era uma questão de segurança.

 

Eu fui pra França porque a polícia ficou em cima de mim. Na última hora eles me confundiram com outra moça, então meu nome ainda demorou seis meses pra cair. Mas saiu no jornal, tudo indicava que eles iam me pegar, tanto que eu não voltei pra casa, nem nada. Quando eu cheguei lá, o meu chefe, que era o Soares Romora, que depois foi diretor da TV, presidente, mandou um recado pra eu não voltar, que a polícia tinha estado lá e tinha vasculhado a minha mesa. Lógico que eu tinha deixado a mesa limpinha, então não deu problema nenhum de endereço, nada, mas eu não voltei. Aí o Marighella mandou ordem pra todo mundo que tava na França ir pra Cuba, mas muitos não foram. E lá a gente treinou, fez treinamento de guerrilha, rural, urbana, tudo. Trabalhei num monte de coisa, tudo. Porque aqui você tem que ganhar certo salário, você não vai trabalhar de peão, porque seu salário não vai dar, fora que você não tem preparo pra aquilo. E lá não, lá eu podia trabalhar, porque a gente ganhava 40 pesos por mês dos cubanos. Então eu fiz de tudo, trabalhei em hospital, fui parteira, fui cabeleireira, trabalhei em gráfica, trabalhei na agricultura, tudo assim. Ou seja, uma experiência de vida única, que aqui eu não poderia ter nunca, não teria. Então fui livre lá, até porque o nome era outro, não tinha que dar satisfação pra ninguém de família, não tinha pressão social. A pressão lá é por trabalhar, se você trabalhar, tá tudo certo. Nossa! Depois, você vê, o sistema, era um país pobre, bem pobre, que resolve os problemas básicos. As pessoas estudam, têm atendimento à saúde, têm casa pra morar, comem, fazem esporte, têm acesso à cultura. Adorei.

 

Fiquei lá, acabei ficando seis anos. Porque como eu sou mulher e eu tenho um defeito na perna, os cubanos morriam de medo de eu voltar e ser muito fácil de detectar por causa do defeito. Mas eu me dei muito bem, eu fiquei quatro anos clandestinidade. Meus companheiros todos foram mortos, sobramos o Dirceu e eu. E tem até uma carta que eu mandei para o Dirceu da última vez que ele foi pra tirar a prótese. A gente tinha um sistema também de comunicação. Eu tenho uma carta que eu mandei pra ele, não sei porque tá comigo, aliás. Talvez ele tenha me dado quando voltou, ou voltou com os documentos que vieram de Cuba, eu sei que eu tenho uma carta desse período. O meu negócio é por a mão na massa. Então pra mim, ter ido pra Cuba foi determinante. Ver que era possível uma mudança social e econômica só com a mudança de organização do país. As lutas que organizei na Bahia também foram muito importantes pra mim, porque foi uma experiência incrível. Eu tava sozinha, eu tinha que inventar, que criar da minha cabeça, eu não sei da onde vinha tanta força. E depois ainda teve outro episódio. Quando eu voltei, eu sou fundadora do PT [Partido dos Trabalhadores], e eu continuava iluminada, continuava dando certo, porque eu fui a primeira secretária, secretária mesmo, não secretária política, secretária.

 

O mais difícil de morar longe foi ficar longe dos filhos. Com certeza essa foi a dificuldade. Não vê-los... Marcou-me muito um negócio, não vê-los se alfabetizarem, porque é um momento muito importante. Eu não vi. Porque eu os deixei com quatro e sete. E voltei, eles tinham 14 e 17. Então eu perdi a infância deles. Isso eu acho que foi o mais difícil. O mais velho mexe com teatro e circo. Fazia trapézio, engolia fogo. Agora ele não tá fazendo porque ele já tá com 50 anos, então não dá. Mas ele dirige, é ainda ator também, até tá levando uma peça, João e o pé de feijão, que ele ainda roda pelas paredes, anda pelas paredes. E é bonito. Como ele fez muito esporte e faz, até porque apareceu uma diabete, então ele é obrigado a fazer muito esporte, muita academia, ele tá numa forma física ótima para os 50 anos dele. O outro é psicanalista. Fez Psicologia na PUC [Pontifícia Universidade Católica], depois fez Filosofia na USP e fez aquele curso de Psicanálise no Sedes Sapientiae, sabe? É um superprofissional, especializado em adolescência. Então mestrado, doutorado. Bonito também, magrinho, tá com problema de tireoide, então tá magro demais da conta, mas é bonito, elegante. Eu brinco que não sei como eu tive um filho lorde, porque ele é muito elegante. E o mais moço, que tem 31 anos, largou tudo aqui, resolveu morar em Ubatuba, porque diz que São Paulo é um horror, não sei que, foi morar em Ubatuba. A mesma praia, o mesmo loteamento que a minha mãe morava. E fez uma padaria integral lá, que é uma graça, virou point, deu supercerto. Casou com uma chinesa, a moça é filha de chinês. Eu brinco que é a liga das nações, que a minha nora mais velha é de origem italiana, bem italiana, fala alto, come bem, cozinha bem, esse tipo, um mulherão assim; a outra é judia, família judia, então é aquele narizinho, olho azul enorme, e é arquiteta da FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo], muito chique; e a terceira é china e é tatuadora. Olha só. Eu morria de medo de tatuagem por causa da polícia (risos), agora eu já to acostumada. E ela é ótima, maravilhosa. Eu dei muita sorte com minhas noras. E tem um filhinho. Agora eu já to com quatro netos, o primeiro tem um, o segundo tem gêmeas, e esse último já tem uma filhinha. Então trabalham muito. As duas coisas que eu acho mais interessantes, eles são muito trabalhadores, todos, e são muito éticos.

 

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