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História

Uma vida pela luta

História de: Janaína Macruz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/02/2020

Sinopse

Janaina inicia sua entrevista falando da trajetória política de seus pais, que os levou para a região do Araguaia por pedido de Dom Pedro Casaldáliga, no período da ditadura militar. Conta das dificuldades e dos progressos da prefeitura de seu pai, ao mesmo tempo que coloca tudo isso sob a perspectiva de uma criança que viveu fortes emoções por conta desta situação. Fala sobre as mudanças constantes de casa forçadas pela perseguição política, a reunião dos militantes no Circo do Araguaia e o estabelecimento da família em Belo Horizonte. Descreve os percalços da vida escolar e sua opção por engenharia de produção na UFMG. Diz à respeito também da cena cultural contemporânea da capital, as mobilizações de rua na Copa de 2014, nas Olimpíadas de 2016 e no Carnaval de 2009 - experiência que pavimentaram a ousadia do Circuito Urbano de Arte (CURA), da qual é uma das fundadoras.

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História completa

Meus pais são paulistas, eles eram militantes estudantis na época da ditadura, atuavam em grupos lá em São Paulo e aí eles acabaram indo, por causa de um convite do bispo Dom Pedro Casaldáliga, para a região do Araguaia, trabalhar na luta da terra com posseiros indígenas e, então, eles largaram tudo com 22, 24 anos de idade, foram morar lá. O Dom Pedro convidou eles para participar da equipe, aí eles foram lá atuar e é isso, você querendo ou não, você chega lá, você pode fazer qualquer coisa: “Você já deu aula?”. Não importa se você já deu aula, você vai começar a dar aula, trabalhar com educação, fazer reunião de mobilização e tal. A galera se comunicava muito, então toda a região da prelazia se comunicava muito e chegou em um momento que eles resolveram ocupar a institucionalidade. E aí eles ganharam três prefeituras simultaneamente, uma prefeitura, assim, totalmente horizontal, popular, foi uma experiência muito mágica também, uma vanguarda na época. E aí a questão de meio por virar liderança política na institucionalidade, a perseguição começou a ser maior. E assim que meu pai estava entregando o mandato dele para um companheiro dele que tinha ganhado a segunda eleição, ele já tinha sido ameaçado de morte muitas vezes, aí ele foi mais uma vez, sendo ameaçado e o pessoal falando que os capangas estavam na cidade. E aí ele, minha mãe e o segurança foram na delegacia mais uma vez avisar, quando eles saíram da delegacia, eles andaram dois quarteirões, fechou uma caminhonete na frente deles e metralharam o carro. Aí meu pai levou três tiros, minha mãe falou que o que ela pensava era: “Eu não quero ficar cega”, então ela fechou os olhos, deitou no banco de trás, assim, o segurança levou um tiro e meu pai conseguiu fugir, levou mais o último tiro nas costas, ele se escondeu em um chiqueiro e meu pai e minha mãe ficaram umas quatro horas sem saber um do outro. Aí, bom, nessas quatro horas, já tinha sido acionada a polícia, o governador, todo mundo. Ele conseguiu ir para o hospital da cidade e sobreviver, porque já existia hospital na época. Aí a questão foi essa, porque aí com esse atentado, a gente acabou sendo resgatado por um avião do governo do Estado para Cuiabá, e a gente ficou lá. O hospital cheio de polícia e tal, nós ficamos de favor na casa de um deputado que a gente nem conhecia, morando escondido, meio fugido, durante uns dois anos, na verdade, um ano no Rio de Janeiro, em uma casa paroquial também, porque a gente não podia voltar para São Paulo, porque era óbvio, não podia voltar para a região. Então nós ficamos morando escondidos esse tempo, eu tinha seis anos de idade. Aí depois desse um ano no Rio, a gente voltou para São Paulo, aí foi um choque, né? Depois de treze anos, você morando em casa de pau a pique, brincando na rua, nadando no Rio, vida bem de roça, assim, sem muito acesso, né?. Então, é isso. A gente vem, eu e meus irmãos, a gente vem dessa história super bonita, eu tenho super orgulho disso, assim, eu acho que dá, querendo ou não, assim, você dá uma linha na vida, né? Muito bonito que eles entregaram a vida para a luta mesmo.

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