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História

Uma vida para o magistério

História de: Vera Lúcia Fortunato Pieroni
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 05/02/2009

Sinopse

Em seu relato, Vera Lucia relembra momentos marcantes de sua infância, período em que sua mãe morreu, causando diversas mudanças em sua vida, como o impedimento de estudar que sofreu de seu pai, que achava que por ser menina deveria aprender cuidar da casa e mais tarde os conflitos com sua madrasta, que fizeram com que ela fosse adotada por uma nova família, com a qual pode estudar e ter uma infância mais saudável. Recorda como, apesar das dificuldades, conseguiu estudar, se formar em letras e posteriormente, se tornar diretora do colégio Roberto Weguelin, ao qual se dedicou integralmente, transformando a escola e a comunidade ao redor.

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História completa

P/1 – Bom dia.

 

R – Bom dia.

 

P/1 – Bem vinda para a entrevista. Qual o seu nome completo, o local e a data de nascimento?

 

R – Vera Lúcia Fortunato Pieroni. Nasci aqui no Rio, que era a antiga Guanabara e que depois houve a união, não é? Eu nasci na Zona Oeste, em Santa Cruz do Matadouro.

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais, e o que eles faziam ou fazem?

 

R – Faziam. Os dois falecidos. É, meu pai era pedreiro. Trabalhou um bom tempo numa fábrica de tecidos - Nova América - e depois partiu para essa parte de obras. E minha mãe era do lar, mas morreu muito cedo, muito novinha.

 

P/1 – Você sabe a origem da sua família, Vera?

 

R – Sei. Meu pai é de uma família de São Fidélis, que fica próximo a Campos, uma cidade aqui do Rio. E minha mãe nasceu na Serra de Taquara com Petrópolis.

 

P/1 – Seus avós você conheceu? Você sabe de onde eles eram?

 

R – Dos paternos, eu conheci só a avó - meu avô havia falecido alguns anos antes - e maternos eu conheci os dois, inclusive minha avó faleceu com 97 anos, ano retrasado; meu avô é que faleceu cedo, com 56 anos.

 

P/1 – E eles eram brasileiros?

 

R – Todo mundo (risos).

 

P/1 – Você tem irmãos?

 

R – Tenho.

 

P/1 – Quantos? (risos)

 

R – Treze (risos).

 

P/1 – Treze irmãos (risos). Quantos homens e quantas mulheres?

 

R – Treze. Olha, é porque é em fase, não é? Tem, do primeiro casamento do meu pai, eu e mais três irmãos, e do segundo casamento - porque meu pai casou quando minha mãe faleceu - ele tem cinco: aí é uma moça mais quatro homens; no caso, tem três com quatro, sete - sete homens. Do primeiro e do segundo são sete homens e duas mulheres, então são nove. E aí eu fui adotada, com dez anos, e entrei numa nova família em que eu era a mais velha, e aí teve mais cinco, então nós somos seis. Eu vou contando tudo, dá uns catorze.

 

P/1 – E como era a convivência com esses seus irmãos todos, quando você era pequena? Você chegou nessa família nova, que você estava falando, e você era a mais velha de todos eles?

 

R – Isso, sou a mais velha do primeiro, sou a mais velha do segundo e sou a mais velha também do terceiro, não é? Muito boa, quando eu cheguei lá... Porque era assim, eu não conseguia me entender com a madrasta, não é? E então, o meu pai que me criou era chefe do meu pai biológico, ele ficou sabendo da história toda, que minha mãe tinha falecido e tinha deixado quatro crianças, inclusive uma menina e três meninos. Aí a esposa dele, na época, se interessou, não é? Eu estava com nove anos e estudava numa escola da Prefeitura de Caxias, no lugar onde eu fui criada, e ela chegou um dia lá e perguntou se eu era... “Você é a filha do fulano?”. Porque ela falou o nome do meu pai errado, aí eu falei: “Olha, eu acho que é Marcio Nilo e a senhora falou Marciano, e meu pai não é Marciano, é Márcio Nilo”. Eu sempre fui muito questionadora, desde criança (risos). Ela falou: “Ah, então é isso mesmo. E você gostaria de morar na minha casa?”. Aí eu, na confusão com a minha madrasta, falei: “Gostaria”. Ela falou assim: “Então, tá!”. Eu falei: “Ah, mas a minha madrasta não vai deixar, não vai deixar isso acontecer. Ela é muito brava, ela briga com todo mundo, ela bate em todo mundo”. Aí ela falou assim: “Ah não, vou lá, vou conhecer, vou conversar com ela”. Eu falei: “Ó, chegando lá já oferece alguma coisa que ela vai deixar; se oferecer alguma coisa...”. Aí ela chegou lá, conversou com ela direitinho, e ela: “Mas quem vai me ajudar? Eu tenho uma porção de filho pequeno, ela que me ajuda”. Porque eu era uma empregada para ela, não é? Ela falou assim: “Não, mas olha só, eu vou mandar umas roupinhas para esse nenê que está vindo, eu vou mandar sempre umas compras”. Ela: “Ah, então melhorou, então pode levar, pode levar porque essa garota é rebelde, não presta”. E, nossa, falou mal de mim! Mas aí eu fui para essa casa, não é? E quando eu cheguei lá era assim um sonho, não é? Porque tinha em casa três crianças,  que são meus irmãos - porque agora o Chiquinho está com 45 mais ou menos, o outro com 42 e tem a minha irmã com 39, e depois foi nascendo mais, não é? Mas quando eu cheguei lá eram três. E no dia em que eu cheguei foi assim interessante... Isso eu tenho que contar. É, uma casa muito bonita, com quatro quartos, e tinha já um quarto em que dormia a menina menor, que é a Mônica, com a avó. E já tinha uma cama, não é? Tudo preparado, tudo arrumadinho. Eu cheguei, mais ou menos, umas sete horas, foi muito engraçado porque eu sempre... Eu era muito tímida, sabe? Eu era assim, mas aonde eu chegava eu ficava quietinha, procurava ver primeiro o ambiente. Aí sentei no cantinho do sofá, eles sentaram todos em carreira, mas sentaram e foram me apertando. Eu queria falar que eles estavam me apertando e eu não conseguia (risos). Aí eu falei: “Ai, meu Deus, o que eu faço?”. Eu queria... Pensando assim: “Ai, meu Deus, o que eu faço? Eu falo para chegar para lá? Aí eles vão achar que eu sou chata, vão me devolver; não, não quero voltar!”. E aquilo rolava assim, e foram me apertando, e foram chegando, foram chegando, e eu fiquei assim, espremida no sofá, não é? Aí, até que minha mãe percebeu: “Deixa a menina, sai daí”. Aí: “Só quero ficar perto dela, não é a nossa nova irmã?”. E ela: “É, mas não é para vocês ficarem em cima dela desse jeito. Sai todo mundo.” Eu já fiquei assim, não é? “Ela me defende”. Ela estava de saída, mas aí me levou no quarto, sabe, falou: “Olha, esse vai ser o seu armário, e aqui é sua cama, esse é seu quarto”. Aí me apaixonei, não é? Nossa senhora, era tudo de bom essa casa. Hoje em dia ainda pertence à Nova América, a fábrica, não é? E está assim, um pouco abandonada; e no outro dia eu fui à cachoeira, que nós tínhamos um projeto lá, e fiquei triste de ver a casa, não é? Porque era um quintal muito grande, todo gramado, e está muito abandonada.

 

P/1 – E você quando passou a morar com eles, você via sempre seu pai?

 

R – Não, não. Apesar de ser no mesmo bairro, eu não procurava porque tinha medo da minha madrasta se arrepender e falar assim: “Quero de volta”. Porque ela andou falando, não é? Aí eu falava: “Eu vou fugir, vou sumir, mas não volto para aquele inferno, não adianta que eu não volto”. Mas aí, com o tempo, eu mesma preferi me afastar, quando eu estava assim, mais ou menos com uns doze anos. Minha mãe falava: “Vai lá, vai ver seu pai, vai ver seus irmãos”. Mas estavam todos espalhados, os três que minha mãe deixou. Tinha um na casa da minha avó, que era o menor - um dos menores. Eu sempre levava merenda para a escola - estudava na escola pública - e tinha uma preocupação muito grande com o meu irmão; então, passava lá e deixava a merenda para ele. E sempre chegava lá na escola e dava meu jeito, mas sempre deixava... Era maçã que eu levava. E uma coisa que me lembro muito que eu levava era biscoito cream and craker com amendocrem (risos), uma coisa assim que marcou, não é? Porque eu levava sempre isso, minha mãe preparava nas merendeiras, nas coisas, aí eu passava na rua da minha avó e deixava lá para ele, e ia para a escola.

 

P/1 – Você ia com seus irmãos, com seus outros irmãos para a escola?

 

R – Teve um período em que eu estudava na parte da manhã, não é? Aí eu ia sozinha, porque eu era considerada assim... Praticamente uma criança de rua, andava na rua o dia inteiro  porque dentro de casa é que eu não ficava. Aí ela sabia que eu podia ir sozinha, que eu conhecia tudo, então ela deixava. E teve um período que não, teve um período em que eu é que levava as crianças, porque eu era a mais velha, tinha essa missão de levá-los para a escola, entendeu?

 

P/1 – Quantos iam para a escola com você?

 

R – Eu e mais dois, porque a Mônica era muito pequenininha. A Mônica, quando eu fui para lá, tinha dois anos, não é?

 

P/1 – Então o seu cotidiano era escola. Você ficava muito na rua, você brincava?

 

R – Antes, antes. Depois que eu fui para lá, aí eu comecei a entrar na coisa de nada de rua, nada de vizinho, nada, entendeu? Aí foi...

 

P/1 – E antes, você brincava muito na rua?

 

R – Ah, nossa, adorava.

 

P/1 – Do que você brincava mais?

 

P/1 – Muito de pique-bandeira, pique-esconde, amarelinha, tudo que você pode imaginar, entendeu? Fazia roda, chamava os garotos para a briga, comprava a briga dos outros porque eu sempre fui assim, espírito justiceiro. Aí eu: “Vai bater? Bate em mim primeiro”. Fazia roda, cuspir... Olha, Jesus amado, eu era muito atentada. Era uma defesa porque minha mãe morreu eu tinha sete anos; aí aprendi a me defender, não é? Então, ninguém chegava e fazia nada não porque eu virava bicho, principalmente com os meus irmãos, defendia eles, porque a minha madrasta é viva e é louca, e ela, assim, fazia umas coisas que não dava para entender.

 

P/1 – E aí, com os novos irmãos, você brincava com eles? Do que vocês brincavam?

R – Nossa, eu era a mais velha - a mais velha - e tinha que dar... Aí eu já estava caminhando para os dez anos e brincava muito, mas também ajudava em casa. Andava muito de bicicleta, o quintal era enorme, adorava andar de bicicleta com eles e não tinha muito essa coisa de brincadeiras porque eles eram bem mais novos, então eles me respeitavam. Minha mãe saía e: “Olha, toma conta, hein Vera!”. Nunca bati, mas de vez em quando dava umas prensas neles. Sabe, a minha irmã fala até hoje: “Vera, eu não esqueço os beliscões que você dava. Olha... Como doía, meu Deus do céu!”. Eu falava: “Por quê? Porque teimavam, não é?”. Eu falava uma coisa e eles faziam outra, eu tinha que dar conta, aí eu ia quietinha, assim, pegava e torcia. Ela falava assim: “Meu Deus, isso era horrível”. “E se falar vai levar outro pior” (risos).

 

P/1 – E você tinha amigos para brincar, da sua idade?

 

R – Não, quase não tinha assim colegas, sabe, de ir lá na minha casa, nunca; era muito assim de brincar na escola, eu inventava as brincadeiras, não é? “Vamos brincar de pique-bandeira, hoje é pique-bandeira”. “E hoje, nós vamos brincar de quê?”. Sempre o negócio era brincar. Eu ficava pensando assim: “Ai, tomara que chegue a hora do recreio para poder brincar”. Aí todo mundo mandava bilhete: “Vera, hoje vai ser o quê?” (risos). Gente, quando você nasce com o espírito de liderança, até mesmo sendo tímida... Mas eu tinha essa coisa assim, com os menores, de tomar conta, sempre de proteger porque a quantidade de irmãos, não é? E cada vez arrumava mais (risos). Aí tinha essa proteção, não é?

 

P/1 – E na escola?

 

R – Na escola eu sempre participava. Era festa, era... Com doze anos eu ensaiei uma quadrilha e fui premiada... Com as crianças menores. Eu montei essa quadrilha e sempre fui assim de organizar muito, de gostar de organizar. E fui premiada: tirou em primeiro lugar na disputa com as outras escolas.

 

P/1 – E qual era o prêmio?

 

R – Ah, era uma medalha. Não era nada assim de coisa... Era uma medalha. Mas aquilo para mim foi... Nossa, eu com doze anos disputar com outras escolas uma quadrilha, não é?

 

P/1 – E esse concurso foi na escola ou foi em outro lugar?

 

R – Foi assim... Foi num clube que convidou várias escolas da localidade, entendeu? E eu consegui, não é? E até as professoras na época ficaram assim: “Poxa vida, ela tem doze anos e conseguiu tirar em primeiro lugar.”

 

P/1 – Então você tinha essa liberdade dentro da escola de fazer uma quadrilha com pequenos? Como era a escola?

 

R – Tinha, tinha, eu era do Centro Cívico. Eu hasteava a bandeira, chegava lá, sabe, arrumadinha, cuidávamos das festas, a diretora chamava.

 

P/1 – E você tinha uniforme nessa escola?

 

R – Tinha, tinha uniforme.

 

P/1 – Você lembra como era?

 

R – Era a saia pregueada azul marinho e a blusa abertinha na frente, com bolsinho escrito.

 

P/1 – E os meninos também tinham?

 

R – Tinham, os meninos também usavam, usavam calça comprida de tergal. Esse era o nosso uniforme. E as meninas, saia porque não era permitido usar calça comprida naquela época, não é?

 

P/1 – E além das brincadeiras do pátio que você gostava, você lembra das disciplinas, você lembra do que você mais gostava dentro da sala de aula?

 

R – Gostava, sempre gostei de Português, adorava Português, História, sabe? Assim, de ler em sala de aula. A professora falava: “Quem vai ler?”. Eu já era a primeira.

 

P/1 – E o seu primeiro contato com os livros foi onde e quando?

 

R – Foi numa escola estadual, na Taquara mesmo, onde eu cresci, fui criada e... Mas não tive tempo assim... Só tive tempo de ser alfabetizada, que aí eu entrei... Só podia entrar com sete anos na escola, não é? Não entrava antes. E aí eu entrei com sete anos. Logo que eu entrei, a minha mãe faleceu. Então teve aquela parada, não é? “Vai ficar com quem?”. Aí fica com a tia, fica com a avó, fica com não sei quem, e eu fiquei sem estudar; só fui voltar a estudar mesmo com mais ou menos de oito para nove, que aí eu fiz um teste, entrei na segunda série. Mas foi a minha vizinha, que era diretora, quem fez a minha matrícula, porque tem uma história: o meu pai não podia saber que eu estava estudando, eu estudava escondido.

 

P/1 -  Por que? Ele não deixava?

 

R – Porque ele falava assim, que eu como menina não tinha que estudar, tinha que aprender a fazer os serviços de casa, entendeu? Então ele não deixava, ele falava assim: “Não, você não tem que estudar, você tem que ajudar em casa”. Como a minha madrasta adora uma rua, ela andava o dia inteiro, que ela tem deficiências, não é? Aí eu fiz um acordo com ela, eu falei assim: “Ó, eu vou estudar e faço tudo dentro de casa, arrumo a casa, faço tudo para você; e você não conta para o meu pai”. Aí falei com a minha vizinha e ela fez a matrícula, não é? Entrei lá na segunda série, numa escola do município.

 

P/1 – E ele não descobriu?

 

R – Não, ele não descobria, ele virava... Eu tinha um acordo com a diretora assim: eu pegava uma hora, não é? Na segunda série. E meu pai pegava duas horas, mas ele saía sempre cedo. Aí ela sabia... Minha filha, eu corria muito para chegar à escola, eu chegava lá quase (risos)... Mas todo mundo, a escola toda sabia, entendeu, que meu pai não podia saber que eu estava estudando. E ela falava assim, ela explorava, não é? “Eu quero que você faça isso, eu quero que você faça aquilo, eu quero não sei o quê, vai arrumar a casa, vai...”. Meu Deus do céu, aprendi a cozinhar com sete anos, sete e poucos, entendeu?

 

P/1 – E você na escola, você gostava da escola, brincava…?

 

R – Adorava, era o meu espaço assim, entendeu? Adorava. Era a primeira aluna em tudo, não é? No final da segunda série eu fiz um teste, mas um teste assim, oral, de quatro contas, no quadro - que hoje em dia nem se passa mais essas contas para o aluno - mas aí passou, colocou as quatro contas; aí eu já estava nessa casa e essa minha mãe me ajudou muito, não é? E pela idade também, porque eu já estava muito atrasada. Mas aí eu fiz as quatro contas e passei para a quarta série, eu pulei a terceira, não tem a terceira no meu histórico, que eu fui amparada na quarta série.

 

P/1 – Certo. E você tinha amigos na escola?

 

R – Ah tinha, a escola acho que toda (risos). Todo mundo queria conversar comigo, não é? Ah, e tinha aquelas briguinhas também, ciúmes, ai ficava com ciúmes uma da outra, mas nunca esquentei com isso não. Mas nunca assim, não levava... Nunca tive o hábito assim de levar para minha casa, porque a minha mãe sempre falava: “Ah, pode trazer. Mas cuidado com quem vai trazer, tem que ter cuidado com isso”. Aí eu preferia nem levar, entendeu?

 

P/1 – Brincava na escola?

 

R – Isso. Tudo era na escola, as reuniões, tudo que eu fazia (risos).

 

P/1 – E como é que era? A merenda ainda era dada pela escola ou você levava merenda para essa escola?

 

R – Não, levava. Aí eu fazia isso: deixava a minha merenda lá. Mas a diretora tinha uma dificuldade muito grande na época, o município, não é? E aí, às vezes ela recebia, às vezes ela não recebia, e ela falava assim: “Amanhã eu quero fazer um sopão. Então, se cada um trouxer um legume nós vamos fazer uma sopa maravilhosa”. Aí eu adorava, adoro sopa, aí levava, falava com a minha mãe, levava até mais. “Ah, então leva, leva para fazer a sopa”. E sempre merendei, não é? Entrava naquela sopa, mingau de aveia, hum, nossa...

 

P/1  - E você já sabia cozinhar, não é? Então você ...

 

R – Já sabia fazer.

 

P/1 – O que você fazia de comida assim, que você sabia?

 

R – Olha, sabia fazer o arroz, sabia fazer feijão, entendeu? O arroz, a primeira vez que eu fiz arroz, eu tenho que contar, foi muito engraçado. Menina, (risos) quase que levei uma surra. Eu fui fazer o arroz, que não tinha ninguém para ensinar, e eu não tinha altura para enxergar o que eu estava colocando na panela. Aí eu peguei uma caneca assim, que eu achei que era água, mas era café (risos). Aí despejei dentro do coisa – ai, meu Deus do céu - quando despejei, mexi, não é? E tampei a panela direitinho. Aí, quando o meu pai chegou, ele falou assim: “Estranho, esse arroz está doce”. Aí eu falei assim: “Ué, doce? Mas eu não botei açúcar, eu tenho certeza que eu botei sal, pai”. “O que você fez? Você botou alguma coisa nesse arroz, ele está doce e está escuro. Você deixou queimar?” (risos). “Não pai, eu não deixei queimar”. Aí ele: “Você botou alguma coisa aqui”. E eu: “Será que foi café?”. “Ah, ainda tem coragem de falar que você botou café”. “Pai, mas eu não alcanço, quando peguei a caneca assim, pensei que era água...  Dentro da caneca”.

 

P/1 – E o seu arroz depois ficou mais branquinho?

 

R – Ah não, aí eu aprendi a fazer arroz, eu tinha todo o cuidado de fazer arroz. Eu puxava a cadeira, aí colocava na beira da pia, lavava louça... isso com sete anos. Que meu pai casou logo, não é? A preocupação dele eram os quatro filhos, o que ele ia fazer; então, nove meses depois ele casou, foi muito rápido, eu não tinha ainda nem oito anos.

 

P/1 – Então você fazia comida e ajudava em tudo de casa?

 

R – Ah fazia, fazia.

 

P/1 – E na nova família você cozinhava ainda, você ajudava sua mãe?

 

R – Não, só ajudava, mas a comida ela que fazia. E me chamava para aprender. “Ah, eu quero que você aprenda a fazer isso aqui”. Aí para o final eu já estava dominando, aí ela deixava: “Ah, você cozinha melhor do que eu”. Entendeu?

 

P/1 – Você gosta de cozinhar até hoje?

 

R – Gosto, adoro.

 

P/1 – E descreve um pouquinho como era sua escola, como era o prédio, você lembra?

 

R – Ah, foi abaixo. Foi feita uma nova escola do município, não é? É na Taquara, na Taquara lá, que tinha o nome de Fonte Limpa, por causa da água, não é? E essa escola, no governo do Zito mesmo, na primeira gestão, ela foi demolida e fizeram outra, porque era uma escola muito pequenininha e muito antiga, não é? Foi a primeira escola dali, a primeira escola do bairro; quer dizer, eu estudei lá quando eu tinha mais ou menos nove anos, porque aos sete eu estudei na Nova América. Aí fiquei sem estudar até os nove anos, e aí entrei lá com nove anos, quando voltei para a casa da minha madrasta.

 

P/1 – Ah, você voltou para a casa da sua madrasta?

 

R – É, porque fui morar num outro bairro, bem longe dali, na casa da minha avó. E na casa da minha avó, no bairro, não tinha uma escola perto, entendeu? E aí não deixava mesmo, meu pai não autorizava, e ela também... Pessoa antiga, não é? “Ah, não posso te levar”. Não tinha aquela preocupação do Conselho Tutelar, como tem hoje. E aí fiquei esses dois anos sem estudar, e querendo muito, não é? Vendo os meus primos indo para a escola, mas a minha avó não deixava porque eu tinha que fazer o serviço de casa.

 

P/1 – E depois que você foi para a sua nova família é que você retornou à escola?

 

R – Isso, aí eu fiz a minha matrícula, não é? Fiz a minha matrícula... Que era a minha vizinha, que também tentou me adotar, mas a minha madrasta não deixou. Um dia, ela pegou um cabo de vassoura e resolveu partir para cima da diretora, não queria nem saber que era diretora. Aí ela: “Não vai pegar, não vai pegar essa menina, essa menina me ajuda, não vai pegar”. Aí ela falou assim: “Vera, o jeito é você... Eu faço a sua matrícula, e você vê como vai fazer; eu sei que você vai chegar todos os dias atrasada, mas você tem como recuperar isso e tem que ser assim, porque ela não vai deixar. Todos os dias ela vai vir para cá, para o meu portão, querer...”. E era uma cerca, ela atravessava aquela cerca lá, eu morria de medo. Então eu falei: “Não, tudo bem”. Aí foi quando essa família apareceu.

 

P/1 – E na escola você tinha algum professor de que você gostava mais, que marcou você?

 

R – Ah, tinha uma professora, mas essa professora faleceu.

 

P/1 – E porque você gostava dela, o que ela fazia de bom?

 

R – Porque ela era assim... Era muito calma, não é? Dificilmente ela brigava com a turma e o jeito dela assim... De tratar todo mundo com igualdade. Isso ai fez com que eu me apaixonasse por ela - Maria de Araújo. Tem até uma escola com o nome dela.

 

P/1 – Ah é? Lá perto da sua casa?

 

R – É, é perto, só que é Magé. Já passa para Magé, outro município.

 

P/1 – E ela dava aula de quê?

 

R – Ela... É integrado, não é? No caso, no primário, é área integrada. Então ela dava Português, Matemática, Geografia, História, entendeu? Professora primária, há uma integração.

 

P/1 – E você depois continuou a estudar nessa escola até quando? Depois você mudou?

 

R – Ah, até a quarta série. Aí eu fiz o teste, passei para a quarta, e da quarta série... Ainda tinha na época em que eu terminei a quarta série, foi quando acabaram com a quinta série, admissão, não é? Então eu passei da quarta para o primeiro ano do ginásio.

 

P/1 – Foi em outra escola?

 

R – Outra escola.

 

P/1 – E como foi, na entrada?

 

R – Aí já foi uma escola particular.

 

P/1 – E como era nessa escola? Você gostou dessa escola? Como foi?

 

R – Ah, gostei, gostei também. Lá foi que eu me apaixonei, de fato, por Português. Porque, na verdade, eu me apaixonei pela professora, entendeu? Adorava o jeito que ela explicava: “Ah, eu quero ser igualzinha a ela”. Então foi por isso que eu fiz na faculdade, Português (risos).

 

P/1 – Ah, você se formou em Letras.

 

R – Isso.

 

P/1 – E o que ela fazia de tão especial assim, que te marcou? O Português... O que te marcou mais?

 

R – Nossa, o jeito como ela explicava, que parecia fazer o Português, que é difícil... Tornava muito fácil, sabe? O jeito que ela explicava. “Nossa, muito fácil”. E Matemática eu achava horrível. História eu gostava, minha segunda opção era História, entendeu? Ela passava de um jeito, falava assim de orações subordinadas que, hoje, quando você fala, todo mundo: “Ai, isso dói, não é? Ai, isso é horrível, não quero nem saber”. Mas ela falava assim de um jeito que você pegava com muita facilidade, eu era a primeira aluna também, ganhei uma bolsa, não é? Aí fiz a quinta série, ganhei a bolsa como melhor aluna e fiz a sexta, sétima e oitava sem pagar nada.

 

P/1 – Ah, foi até o final do ginásio...

 

R – Isso, foi um prêmio.

 

P/1 – E vocês tinham outras disciplinas diferentes como Artes, alguma coisa assim... Esportes?

 

R – Ah tinha, tinha técnica de laboratório - que eu não sei nem por que - técnicas comerciais, era técnica de tudo, não é? Você dava várias disciplinas assim; OSPB, que era a antiga Moral e Cívica, não é? Nós tínhamos muitas matérias.

 

P/1 – E lá tinha uniforme também?

 

R – Tinha que usar uniforme.

 

P/1 – Era diferente do outro?

 

R – Era, aí já podia usar... Já era calça comprida de tergal e a blusinha continuava branca. Eu tinha até um retrato, mas... E esse uniforme era para todo mundo, e não podia pisar lá sem; quem não queria usar calça comprida usava a saia pregueada, entendeu? A calça também, a saia de tergal, assim, azul marinho, pregueada. Seguia... Apesar de ser particular, seguia a mesma regra do município e do estado.

 

P/1 – E você frequentava outros locais nessa idade? Além da escola você saía com amigos já, ou não?

 

R – Não, não. Tinha um... O que tinha lá, que ainda continua - e que agora nem é mais - tinha um clube, e com mais ou menos treze anos eu comecei a frequentar o clube. Por que eu comecei a frequentar? Não é porque minha mãe deixava, é porque o meu pai se envolveu na diretoria e ele era diretor social, e minha mãe também, do grupo feminino. Aí ela ia e eu ia também, não é? Eu gostava, porque lá encontrava outro grupo. Eu tinha um grupo na escola, que era distante, tinha que pegar ônibus, porque não tinha assim... O ginásio, lá no bairro, era em outro bairro, e aí, no caso, eu tinha um grupo lá, mas era a mesma coisa: não levava para casa, entendeu? Ficava lá aquele grupo.

 

P/2 – E esse clube ainda existe?

 

R – Esse clube existe, só que foi comprado pela Assembleia de Deus, que é uma igreja que tem em frente porque, realmente, era horrível, não é? Era culto e baile. Você imagina... Em frente mesmo. Aí agora eles compraram, não é? A Assembleia de Deus. E transformaram em salas para estudo bíblico, estão comprando tudo; uma parte do clube... Não tem mais esse clube não. Mas, nesse clube eu fui princesa, olha só...

 

P/1 – Princesa do quê?

 

R - ... Participava de desfile. Fui princesa porque era voto que vendia para ajudar o clube, e aí teve uma menina que foi a rainha e eu fui a primeira princesa, entendeu? E minha mãe também fazia assim uns desfiles, e eu é quem desfilava, abria o desfile. Ela falava: “Não, você vai. Você é magrinha”. Porque eu era bem magrinha, não é?. “Não, você tem jeito sim, você que não...”. Ai, meu Deus... E as garotas também: “Gente, eu não vou sozinha; ter uma modelo só? Vamos embora” (risos). E todo mundo desfilava, muito engraçado.

 

P/1 – Que mais você fazia no clube?

 

R – Tinha assim uma coisa que eu adorava: era carnaval. Quando começava - começava no sábado - eu só acabava de pular na quarta-feira de noite. Minha mãe ia, e aí ficava quebrada. Meu Deus do céu... Olha, eu pulava de dia, na matinê, e à noite eu estava lá, minha mãe de frente.

 

P/1 – E você se fantasiava?

 

R – Tudo. Fazia fantasia, saía bloco de homem, saía vestida de homem, trocava, entendeu? Eu saía de homem e os rapazes saíam tudo vestido de mulher, até meu pai saía vestido de mulher, era farra. Acho que foi, assim, uma época muito boa.

 

P/1 – E as paqueras, como é que entravam aí?

 

R – Ah menina, eu até que paquerava, mas meu pai era tão bravo (risos). Meu pai não deixava ninguém chegar perto. Ele: “Namorado só com quinze anos”. Aí ficava contando: “Ai, meu Deus do céu, tomara que chegue quinze anos”.

 

P/1 – Mas conseguia paquerar escondido?

 

R – Paquerava, não é? Minha mãe sabia das paqueras, mas ele não. Ele até sabia, no fundo sabia, só que ela controlava, contornava a situação para ele não querer bater, não é? Mas nunca me encostou a mão, nunca me bateram, nada disso. Mas falavam assim de um jeito rude de falar, eu era mais velha, não é? Aí, Nossa Senhora, cada grito que ele dava: “Eu não quero”. Já tremia na base. Aí eu falava: “Meu Deus do céu, quinze anos”. Quando eu fiz quinze anos já tinha pretendente.

 

P/1 – Só oficializou?

 

R – Aí fiquei noiva com ele, fiquei noiva dele com... Até dezoito anos comecei a namorar. Fiz quinze num dia e no outro já estava lá (risos).

 

P/1 – E onde você conheceu o namorado?

 

R – Lá mesmo, era irmão da costureira do lugar. Aí minha mãe levava... Na verdade, esse rapaz passou a ser meu vizinho, só que quando ele foi morar na casa da irmã dele foi exatamente a época em que eu saí, não é? Então, eu o conheci, na verdade, depois que eu já tinha saído de lá, mas era meu vizinho.

 

P/1 – Vocês namoraram e noivaram até dezoito anos? Casou com ele?

 

R – Não.

 

P/1 – Desmanchou o noivado?

 

R – Ele me trocou por uma colega (risos).

 

P/1 – Ah, e aí você continuou paquerando outros?

 

R – Continuei. Tive outros namorados, não é? Que no intervalo desmanchava, namorava outro, aí voltava para ele, e minha mãe falava: “Ele não presta, larga ele!”. Ai, ai, minha mãe tem uma visão assim, ela é incrível. Porque ela falava assim: “Não é para você, você tem que arrumar um rapaz trabalhador, um rapaz que goste realmente, que queira formar uma família, não é?”. Porque eu falava para ela assim: “Quando eu casar, vou levar todo mundo para a minha casa”. Todo mundo era o pessoal que eu tinha deixado, não é? Aí ela: “Você não pode fazer isso. Você não tem que dar conta dos seus irmãos, eles têm lá... Têm o pai”. Porque cada um ficou num lugar, aí ela sempre falava isso, e ela é que me chamou a atenção para esse detalhe: “Você observa ele quando está perto da menina com quem ele casou”. E eles são casados até hoje, já têm neto e tudo, entendeu? Ela já foi minha chefe na Secretaria de Educação (risos).

 

P/1 – É mesmo?

 

R – É, acho que quebrei esse gelo, sabe? Porque eu sentia assim que ela me evitava, e cheguei um dia para ela e falei assim: “Olha, com você, sinceramente, tem que ser o profissional, você não é mais minha amiga, entendeu? Como era antigamente”. Porque era minha vizinha. “E não tem porque você achar que eu tenho raiva de você, ao contrário, acho que você me fez um favor”.

 

P/1 – (risos) E quando foi que você namorou firme para casar?

 

R - Quando eu estava trabalhando na fábrica.

 

P/1 – Foi seu primeiro trabalho?

 

R – Foi meu primeiro trabalho. Eu conheci essa pessoa lá, entendeu? Aí, comecei a namorá-lo com dezenove anos, com vinte e um eu casei e com vinte e dois eu enviuvei. E com vinte e três eu ganhei minha filha, porque quando ele morreu eu fiquei grávida. Aí, ele... Nós ficamos casados... Eu casei em 1980, 1981, ele faleceu em 1982.

 

P/1 – E como foi seu casamento?

 

R – Foi assim... Não deu muito tempo para você falar porque com dois meses de casado ele sofreu o acidente; então foram assim seis meses de muita luta, não é? Porque ele ficou muito debilitado, e quando ele melhorou mesmo, quando ele voltou a trabalhar, começou com uma febre assim, do nada, e ficou mais ou menos uns vinte e oito dias doente, internado, e faleceu devido a esse acidente de moto.

 

P/1 – Aí você criou a sua filha sozinha ou teve ajuda da sua mãe? Como foi?

 

R – Com a minha mãe, sempre com a minha mãe. Quando ele faleceu, eu morava numa casa da Nova América, porque ele era eletricista - um dos eletricistas - e aí nós tínhamos uma casa pela Nova América. E aí eu fui morar com a minha mãe, onde eu moro até hoje. Aí, fui para lá, não entrei mais na casa. Depois pegaram tudo e levaram. E fiz... Meu pai me ajudou a fazer essa casa onde eu moro hoje.

 

P/1 – Você mora hoje com a sua filha?

 

R – Isso, com minhas duas filhas. Mas aí é tudo dividido, não é? Porque foi desmembrado, aí ela me deu essa parte da casa.

 

P/1 – Voltando um pouquinho, você fez o ginásio e depois você fez Normal ou algum outro?

 

R – Parei.

 

P/1 – Parou um pouco? Você foi trabalhar?

 

R – Fui trabalhar.

 

P/1 – E foi nessa empresa?

 

R – Isso. Porque aí eu parei, terminei o ginásio com, mais ou menos, dezesseis para dezessete porque houve aquele atraso, porque mesmo passando para a quarta série... É uma coisa aí: o admissão era uma quinta série, e eu praticamente... É como se eu tivesse feito assim a quinta série, mas eu não fiz; quando eu saí da quarta série, entrei na quinta série que, na verdade, passou a ser a quinta série ginasial, não é? Na sequência, que não era assim, não é?

 

P/1 – Aí você parou um tempo?

 

R – Parei. Fui trabalhar porque eu queria trabalhar, já que não podia estudar. Por que eu não podia estudar? Não era porque era particular, eu tinha uma bolsa garantida até o segundo grau lá mesmo nessa escola, que era uma escola particular; eu ganhei essa bolsa, entendeu? Os professores falaram que iam lá em casa, a minha mãe falava o seguinte... O que ela fala sobre isso? Porque eu já conversei com ela: “Por que você não me deixou terminar o Normal?”. Aí ela: “Porque você era... Ficava doente, você ficava muito magra e eu tinha medo de você ficar assim, doente, até morrer. Porque você estudava demais”. Fui rotulada... Na época, eu nem entendi, fiquei muito brava com ela porque ela não me deixou terminar o segundo grau. Aí eu não consegui entender. Aí, depois, mais tarde, que ela explicava, ela falava: “Vera, você... Por que eu fiz você parar? Porque você já estava assim, rotulada como a melhor aluna”. Eu sabia que não podia deixar cair as notas, porque se caíssem as notas eu perdia a bolsa. Aí ela falava: “Não, você não vai estudar, ninguém vai me convencer, eu não quero uma filha doente, eu não quero uma filha maluca. Daqui a pouco você está maluca com esse negócio”. Eu entrava noite a dentro estudando, entendeu? Ela chegava assim no meu quarto e apagava a luz. Ela apagava a luz e eu ficava no escuro (risos); aí eu já sabia que era... Isso eram duas horas da manhã, três horas.

 

P/1 – Você ficava direto?

 

R – Direto. Aí ela falava: “Eu não vou deixar porque você vai ficar doente. Eu não quero você doente, não adianta. Vai fazer segundo grau, você vai morrer, você não vai nem concluir o segundo grau. Quando você parar com esse negócio que você tem que ser a melhor, você volta a estudar”. E aí eu falei: “Então, já que não vou estudar, vou trabalhar”. “Não, você não vai trabalhar porque não precisa trabalhar”. “Eu quero trabalhar porque eu não vou ficar aqui dentro de casa não, só fazendo serviço”. E aí foram várias discussões, não é? “Eu vou trabalhar”. “Você não vai trabalhar”. E eu: “Tá bom!”. Um dia eu fui lá na Nova América...

 

P/1 – Você estava contando como foi que você começou a trabalhar. Como você entrou nessa empresa?

 

R – Meu pai já trabalhava lá há bastante tempo; no caso, os dois: o biológico e esse que era o chefe. Aí falava com ele: “Arruma um emprego para mim?”. E ele: “O que é isso? Você não vai trabalhar lá, e não sei o quê. O que as pessoas vão pensar? Que eu, além de ser chefe, coloco minha filha para trabalhar”. Eu falei: “Eu trabalho em qualquer lugar”. “Mas por isso que você não vai trabalhar em qualquer lugar na fábrica”. “Mas eu quero trabalhar, eu quero ter o meu dinheiro”. Aí ele falou assim: “Não adianta que eu não vou arrumar o trabalho para você”. E minha mãe: “Não tem nada que trabalhar”. Eu falei assim: “Não me deixa estudar e não me deixa trabalhar? Nossa, aí não, não aceito”. Aí chorava, chorava, chorava. Porque eu nunca fui assim, de responder, sabe? Falava não, eu não falava mais nada. Aí eu falei com... De tanto falar, eu pensei assim: “Quer saber? Não vai dar um jeito não? Espera aí que eu vou dar um jeito nisso”. Aí eu fui lá dentro da Nova América, no escritório, chamei lá o responsável, que era o Jobé: “Jobé, eu quero um emprego”. “Seu pai sabe disso?”. “Não”. “Mas seu pai vai me matar”. “Não, não vai te matar não. Quando ele vir, eu já estou trabalhando”. Aí ele: “Olha o que você está arrumando, hein? Olha o que você vai fazer. Meu Deus do céu, o [_____?______] vai me matar”. Eu falei assim: “Deixa que quando ele vir que eu estou trabalhando, ele não vai poder me tirar porque eu não vou sair”. Aí ele: “O que você vai arrumar? Eu não tenho nada em escritório”. Porque eu tinha curso de datilografia, já tinha o ginásio, que naquela época era alguma coisa. Aí ele falou assim: “Serve sala do pano?”. Eu falei: “Faz o que lá?”. “Embala as peças, ué, você vai aprender”. Eu falei: “Ah, então serve qualquer coisa, me coloca lá”. “Não tem... Aí que seu pai vai me matar, porque eu não vou colocar você no escritório, não tenho vaga para você ser datilógrafa, não tenho, e vou colocar você na sala do pano com a peãozada lá? Ai meu Deus, pode me matar”. Aí fui para lá, todo mundo me olhava, não é? Olhava assim: “Nossa, a filha do fulano”. Aí meu pai (risos)... Aí ele falou com meu pai, não é? Ele falou: “Olha, a sua filha vai começar a trabalhar amanhã”. E ele: “Mas quem foi que arrumou? Quem?”. Aí chegou na hora do almoço - porque ele almoçava em casa, a casa era dentro da fábrica - aí ele: “Que história é essa? O que você... como é que você conseguiu tudo isso? Você tirou carteira? Você tirou tudo?” (risos). “Eu dei meu jeito aí”. “Meu Deus do céu, eu não falei que eu não queria? Olha onde você vai trabalhar... Tem homens, tem mulheres, tem tudo. Você é uma garota”. “Eu vou fazer dezoito anos, não sou mais criança”. Aí minha mãe foi... E ela que dava, sabe... A última palavra era dela, não era do meu pai não. “A sua mãe precisa de você, que não sei o quê”. Porque aí já tinha mais filhos, não é? Aí ela: “Não, deixa ela trabalhar, deixa trabalhar. Porque eu só vejo chorando, não sei mais o que faço, pego ela chorando, chora, aí quando eu pergunto, não é nada. É isso, porque ela quer trabalhar. Não quer trabalhar? Deixa trabalhar”. Aí foi quando eu trabalhei, trabalhei lá dois anos.

 

P/1 – E o que você fazia exatamente?

 

R – Eu embalava peças de [____?____] porque as peças passam na máquina, enrola, sai do coisa, aí vem assim, num carrinho, e naquele carrinho você coloca uma tala na máquina, tem a máquina, e aí você coloca no coisa e a manivela no coisa vai enrolando, aí faz aquelas... Quando você vai numa loja, aí tem aqueles rolos, não é? Tem sempre uma tala; aquilo que a fábrica fazia também - além do tecido, embalava. Tinha outras pessoas que colocavam... Meu trabalho era só esse. Mas depois surgiu uma vaga no escritório, aí eu fui para o escritório desse departamento, que era a sala do pano, não é? Aí... E me dava super bem no escritório, aí no escritório já era diferente. Eu fazia contagem, tipo assim a estatística de quantos rolos iam em cada caixa, a metragem de cada peça e tudo. Não podia passar um centímetro, entendeu? Era toda a minha responsabilidade.

 

P/1 – Como foi que você se sentiu quando começou a trabalhar?

 

R – Nossa, muito bom, hein? A hora voava, adorava fazer serão. Nossa, fazia serão porque o dinheiro vinha mais, adorava. O chefe falava assim “Olha, tenho que entregar não sei quantas peças. Quem pode ficar?”. “Eu”. E batia o recorde, embalava assim 500 peças, 600 peças durante o dia.

 

P/1 – O que você comprou com o seu primeiro salário? Você lembra?

 

R – Eu comprei... Comprei roupa, na época; comprei roupa para mim. Porque minha mãe dava, dava assim... Como é que era... Como meu pai era chefe, podia comprar. Aí comprava as peças, ela ia lá, escolhia o tecido, tinha um departamento que era para comprar o tecido. Ainda tem, até hoje, e é um tecido maravilhoso. E aí, no caso, ela ia lá, escolhia tecido para todo mundo da família, sabe, aí comprava e levava na costureira, e escolhia também os modelos. Eu ficava, nossa, contrariada, mas não falava nada. “Não está bom esse? Olha o que eu escolhi para você”. Até que um dia ela escolheu... Aí tem um detalhe, não é? Ela escolheu um modelo para mim, eu era muito magrinha, e ela escolheu assim, era de manguinha e aqui debaixo do busto com laçinho assim... E bata. Aí, um dia, entrei no armarinho e a moça falou assim: “Ai que gracinha sua primeira filha, já vem o segundo, não é?”. Ah, (risos) não usei mais o vestido. Cheguei em casa e falei: “Você não vai escolher mais a minha roupa, a mulher pensou que eu estava grávida com esse vestido”. “Mas tão bonito!”. “Não, eu não vou mais. Você não vai mais escolher”. Nossa senhora (risos).

 

P/1 – Como era o seu cotidiano? Você já estava com mais de dezoito anos, você trabalhava o dia inteiro, não estudava, mas você tinha lazer, você saía com amigos e namorava?

 

R – Não, não.

 

P/1 – Você ia para casa?

 

R – Para casa, dentro da fábrica mesmo, não é? Ia pelos fundos e já chegava na minha casa, era assim cinco minutos para passar o cartão e chegar no meu departamento, entendeu? Não, minha mãe nunca deixou sair, nada disso; sair com namorado, nem pensar...

 

P/1 – Mesmo agora com vinte anos?

 

R – Porque... O que ela falava? “O povo vai dizer, vai meter o malho: está vendo? Ela solta porque não é filha dela”. Entendeu? E até certo ponto eu entendia isso. Só teve uma vez que eu teimei e fui jantar fora porque era meu aniversário.

 

P/1 – Foi jantar fora com os amigos ou com o namorado?

 

R  - Fui jantar fora com o meu namorado. E aí eu tinha dentista, aí combinamos. Minha mãe implicava muito com ele - com esse namorado que foi meu marido - porque ele tinha moto e, na época, menina que andava em garupa de motoqueiro não prestava. Ela não queria que as pessoas falassem mal de mim, não é? “Olha, é um lugar pequeno, vão falar que você não presta; não quero você andando de moto com ele”. “Sim senhora”. Aí ele me trazia, chegava perto de casa eu descia, chegava perto de casa a pé, claro. Aí, nesse dia, eu falei: “Olha, você tem que arrumar um carro porque, de moto... Vamos supor que aconteça alguma coisa na estrada, não é? Como eu vou explicar isso?”. Aí ele: “Não, pode deixar. Vou trocar com um colega meu”. Ele também era terrível. Aí trocou, aí foi. Olha, passei mal a noite inteira, porque comi assim em fração de segundos, engoli, não comi, não mastiguei, porque tinha horário para chegar em casa, tinha que chegar antes da dez, não é? E fui oito horas, entendeu? Então... Porque foi depois do dentista. E a minha avó sabia, mas ela não contava não, ela ficava na dela. Aí ela: “Nossa, hoje demorou o dentista, não é?”. Aí eu: “Ai, vó, tinha tanta gente lá!”. Olha, mas passando mal, a comida toda, acho que estava toda inteira. Foi a noite toda passando mal, com aquela aflição, aquela... Eu querendo levantar para fazer um chá, mas a minha mãe ia escutar e perguntar: “Está passando mal de quê? Você não estava passando mal ontem aí quando cheguei...”. E eu falando: “Ai, meu Deus do céu, ela vai descobrir, vai descobrir”. Aí fiquei assim. No outro dia... A gente marcava para entrar na fábrica juntos, não é? Aí ele vinha de moto do bairro dele e aí passávamos no portão todos os dias depois que a gente começou a namorar, mas isso levou um ano, um ano assim na paquera, entendeu? Que eu paquerava, aí ele me chamava para sair e eu falava: “Minha mãe não deixa”. E ele: “Não é possível; e se eu for lá pedir?”. “Nossa, quando você chegar lá com essa moto aí vai ser pior”. Mas aí, quando eu comecei a namorar, ela me deixou sair pela primeira vez, porque aí nós tínhamos ido a Petrópolis, no cinema. Mas aí a gente foi de ônibus, aquela coisa... Eu tenho até essa data, não é? 15 de Dezembro (risos) de 1979, foi quando nós começamos mesmo o namoro.

 

P/1 – Oficialmente?

 

R – Isso.

 

P/1 – E você ficou dois anos na empresa, e depois?

 

R – Aí depois, quando eu casei… porque eu casei em 1981. Aí, 1979 já não... Eu entrei no início, na fábrica, e comecei a namorar ele no final do ano, e em 1981 saí, porque me casei; quer dizer, eu saí em 1980, no final de 1980, porque eu casei em fevereiro de 1981.

 

P/1 – E como foi que você entrou na faculdade? Você disse que fez Letras...

 

R – Ah, a faculdade foi mais tarde, bem mais tarde.

 

P/1 – Teve sua filha?

 

R – Tive, eu já estava com a segunda.

 

P/1 – Ah, com outro...

 

R – Depois de quatro anos eu conheci uma pessoa, e aí minha filha se apaixonou primeiro. Também tem uma explicação, não é? Se apaixonou primeiro, ele era assim muito carinhoso com ela, e aí ela começou a chamar de pai, porque ela não conheceu o pai, não é? E aí ela chamava o meu pai de pai, e minha irmã também, que era pequena, brigava todos os dias:  “Ele não é seu pai, é seu avô”. “É meu pai, é meu pai, é meu pai. É pai da minha mãe, é meu pai”. Aí eu falei assim: “Meu Deus do céu, que confusão é essa? No mesmo quintal, como brigar por causa do pai”. Aí, quando eu o conheci, eu falei para ele: “Nossa, a Patrícia fala o tempo todo, chama meu pai de pai, a Bebel briga porque não é o pai”. Aí ele: “Não, mas eu vou ser o pai dela”. E aí começou: “Olha, a partir de hoje eu sou seu pai”. E aí ela começou: “Ah, então você é meu pai? É meu pai”. Ele levava todo dia... Passava lá, levava ela na praça, e ela adorava, não é? E quando eu vi, ela já estava chamando: “Meu paizão”. E ela ficou anos e anos chamando de meu paizão. Eu falei assim: “A minha filha se apaixonou primeiro, não é? Porque eu fui gostar dele depois”. Eu vi a situação e falei: “Agora estou perdida”. (risos).

 

P/1 – Ela tem pai e você não tinha namorado (risos)?

 

R – Pois é.

 

P/1 – E aí, como foi para você casar com ele? Casou com ele ou não?

 

R – Fui morar com ele, não é? E a minha filha tinha completado três anos, com quatro eu ganhei a Priscila, que era dele, e vivemos quinze anos juntos assim, mas hoje sou separada.

 

P/1 – Ah, e ele trabalhava com quê?

 

R – Policial. Primeiro ele era bancário, depois ele saiu, fez a prova, passou. Eu ajudei na época, fiz até a redação, entendeu? Eles fazem uma redação lá, e o ajudei, de certa forma, a entrar na polícia. E já está se aposentando.

 

P/1 – E a faculdade entra onde?

 

R – Quando eu ganhei a minha filha, a Priscila... A Priscila estava com dois anos, aí eu fiz vestibular. Ele não queria, na época, não é? Isso era uma das coisas assim que eu falei: “Eu tenho que fazer faculdade, preciso fazer faculdade, não quero permanecer de primeira a quarta série”. Gosto muito de criança, mas eu vejo assim, além... Quando chegar em uma idade em que você tem que ter muita paciência, não é? Eu prefiro dar aula para adultos, para adolescente, e aí falava isso com ele. E ele: “Que nada, que não sei o quê, olha fulana...”. Ficava dando assim, exemplos, não é? “Mas eu não sou a fulana”. E aí fui fazer a faculdade contra a vontade dele, aí paguei a minha faculdade, que eu já era do estado, eu tenho vinte e dois anos de estado e aí eu já tinha feito concurso, trabalhava em um bairro lá próximo, e falei com ele: “Você não quer me ajudar, lamento, mas eu vou estudar”. Aí foi quando eu fiz a faculdade.

 

P/1 – Você disse que já era do estado. Você já trabalhava no estado?

 

R – Isso. Quando o conheci, eu já estava terminando o segundo grau, não é? Aí, terminei o segundo grau - ele foi até meu padrinho, no caso - mas não tínhamos nada, não éramos... Ele era só o colega do meu irmão. Aí falei assim: “Gente, preciso arrumar um padrinho para entrar na igreja, eu vou entrar...”. E meu pai não podia. Aí meu irmão: “Eu vou trabalhar, então, que tal o Ernesto?”. E eu: “É, serve” (risos). Aí eu comecei a falar com ele: “Eu quero estudar”. Aí começamos a nos envolver, coisa e tal. “Ah, então você quer fazer faculdade? Mas não dá, não sei o quê”. Quer dizer, fomos morar em janeiro, em junho eu engravidei da Priscila, aí ele adorou, não é? “Ah, agora quero ver você estudar grávida, não é?”. Aí eu falei assim: “Não me impediu no segundo grau!” Porque quando o meu marido morreu, eu estava fazendo o básico, entendeu? O básico. E grávida da Patrícia. Ele morreu em julho e ela nasceu em dezembro. Aí ele falou assim e eu: “Deixa, vai nascer. Você vai ver se eu não vou estudar”. Eu sempre falava isso com ele, sempre o estudo me perseguindo, não é? Outra batalha. E ele falando assim: “Você tem que cuidar das crianças, você tem que ver, você vai ter duas crianças e como você vai?”. “Eu vou dar um jeito”. “Ainda trabalha; você é maluca? Vai estudar?”. Aí, quando ela fez dois anos, arrumei uma pessoa para tomar conta. Porque aí eu trabalhava e tinha que estudar à noite, entendeu? Era assim barra, não é? Uma coisa muito puxada, porque você ter filho pequenininho e trabalhar e estudar, só para guerreira mesmo, só para mulher, não é? (risos). Porque isso aí para homem... Homem não consegue não; homem, está difícil! Quero ver cuidar de tudo assim, organizar a casa...

 

P/1 – Aí você entrou?

 

R – Aí entrei, fiz vestibular. Minha primeira opção foi Letras e a segunda opção História. Aí passei para Letras, terminei, e em momento nenhum ele falava: “Não, venho para casa cedo. Não, vou tomar conta dos filhos para você estudar”. Aí eu combinava com a menina, sabe: “Ah, você fica, você dorme”. Para o final, ela já estava dormindo.

 

P/1 – Mas você combinava com a menina para ficar com as suas filhas?

 

R – Para ficar com as minhas filhas.

 

P/1 – E deu certo? O tempo todo? Você foi fazer faculdade?

 

R – Deu certo. O tempo todo da minha faculdade essa menina trabalhou lá em casa, que hoje é minha cunhada. Porque aí ela conheceu meu irmão e casou com meu irmão (risos).

 

P/1- Ah, ficou na família (risos)?

 

R – Isso, está na família.

 

P/1 – E como é que foi que você tornou-se diretora? Você foi primeiro professora ou não?

 

 

R – Professora. Fui professora da primeira escola em que eu entrei, João Vicente, e agora estou de volta a essa escola, com outra matrícula. Trabalhei lá sete anos e as coisas assim... Saí dessa escola por opção, porque fui convidada para ser professora orientadora do CIEP, quando teve o Darcy Ribeiro, não é? Uma nova escola, que seria o CIEP, dia inteiro, tempo integral com as crianças. Eu tinha muita curiosidade de saber como é que funcionava isso, aí fui para lá. Eu procurando minhas ideias, aí fui para lá, trabalhei seis meses nessa escola, nesse CIEP; eu tinha turma, tinha turma num horário e era orientadora em outro horário, então, eu trabalhava o dia inteiro, era assim a famosa 40 horas, não é? Trabalhava de manhã, de oito até às cinco da tarde nesse CIEP. Aí trabalhei seis meses e, quando foi em janeiro, com a mudança de política, a mãe da minha ex-cunhada chegou para mim e falou assim: “Eu peguei uma direção e quero que você seja a minha vice”. Aí eu: “Mas, vice?”. Eu fiquei assim, porque é uma escola enorme, que é a Fernando Figueiredo, onde a Shirley fez o Normal, não é? Uma escola com 2400 alunos, com todos os cursos: contabilidade, formação geral, formação de professores, aí... Mas eu nunca tive medo de desafio não, desafio para mim é uma dose a mais para você se agitar e pegar, você não pode ter medo. E aí eu falei assim: “Ah, seja o que Deus quiser, vamos embora”. Eu já conhecia o projeto do Darcy Ribeiro, não concordava com algumas coisas, e isso daí fez com que eu saísse mesmo. Aí peguei essa direção, fiquei lá quatro anos - foi em 1994. Quando foi em 1997 teve mudança de novo, (risos) teve mudança de Prefeitura, foi quando entrou o famoso Zito, não é? Que agora estão fazendo a campanha “Volta Zito, volta”. E aí ganhei e fiquei nas duas direções um ano. Fiquei, em 1997 - meu Deus do céu – na Roberto Weguelin e sendo vice da Fernando Figueiredo. Aí eu falava para ela “Não, não se preocupa, eu dou meu jeito”. Mas eu sabia que ela estava sobrecarregada. Aí fiquei aquele ano, quando foi em 1998 eu pedi exoneração de cargo e fui trabalhar numa escola mais perto da minha casa, que era para facilitar a ida para a Roberto Weguelin.

 

P/1 – Por que você achava que a proposta do CIEP... Que o CIEP era mais desafio? Você não concordava com algumas coisas? Como é que era?

 

R – Era um desafio, mas o que acontecia... As pessoas não levavam a sério, porque pela programação... O Darcy Ribeiro era um gênio e ele pensava muito assim em tirar a criança da rua, não é? Principalmente aquelas crianças que as mães deixam com vizinho, com não sei quem, e vão trabalhar. Então, ele tinha essa preocupação de manter a criança em tempo integral, a criança chegando, tomando café, almoçando, tomando banho, a parte da recreação. Ele teve a ideia... Era assim, uma ideia genial, mas tinha que ser levado a sério. E aí, as pessoas que iam para esse CIEP não eram preparadas, a capacitação era muito pouca, porque nós tivemos... Os orientadores... Tivemos assim uma semana de capacitação; uma semana não capacita ninguém a nada, não é? Mas, então, eu comecei a ver assim... Eu falei: “Meu Deus do céu, o projeto é excelente, mas se as pessoas não levarem a sério vai dar em nada, vai virar bagunça”. E foi o que aconteceu, não é? Foi o que aconteceu. Tinha um projeto que tinha tudo para dar certo e não deu certo; tanto que hoje são pouquíssimas que têm esse regime integral que seria... Seria, nossa, excelente. Uma escola que poderia oferecer tudo, não é? Tiraria a criança... A criança chegaria em casa depois das cinco, já não teria mais aquele tempo de brincar e ficar na rua, não é? Então, a proposta era assim, excelente. Mas as coisas que fui vendo, sabe, aquele negócio... “Vamos fazer de conta que acontece”, mas na verdade não acontecia. E isso aí foi me deixando assim... Eu falei: “Ah, não é isso não. A proposta era boa”. Porque eu estudava muito, era orientadora, mas eu via que as pessoas não estavam preocupadas. E isso daí... Não bati de frente com ninguém, cheguei para as diretoras, que eram cinco, cinco diretoras cada CIEP tinha...

 

P/1 – Cinco? Dividiam-se pelo período?

 

R – Isso, pelo coisa. Uma era diretora geral, administrativa, tinha diretora que cuidava da merenda, tinha diretora da parte pedagógica, tinha diretora da parte da manutenção, entendeu? Então, tinha cinco diretoras e era para dar mais do que certo. Aí cheguei para a geral e falei para ela: “Ó, recebi uma proposta e estou indo para a Fernando Figueiredo”. E ela: “Puxa vida, Vera, queria tanto que você continuasse, não é? Começamos em agosto e em dezembro você já está saindo!”. Eu falei assim: “Não, não dá porque essa pessoa é muito minha amiga e eu tenho certeza que é uma parceria, assim, que vai dar certo, não é? Ela tem os mesmos pensamentos em relação à educação, são próximos”. Fui para lá e fiquei, só saí de lá porque... O que acontece? É muito difícil uma direção - imagine duas, não é? Por final, já estava trocando os caminhos. Eu caminhava, descia no lugar errado: “Hoje eu tenho que ir para o Roberto Weguelin”. E quando eu via, já estava descendo lá na outra rua, não é? Aí eu: “Ai, meu Deus do céu, era para ir para a Roberto Weguelin e desci aqui”. Então eu fui assim percebendo que não ia dar certo.

 

P/1 – Aí você ficou na Weguelin? Como diretora até hoje?

 

R – Na Weguelin, até hoje.

 

P/1 – E quais são os maiores desafios como diretora hoje?

 

R – Nossa, (risos) eu falo que enfrento um leão e mato dois por dia, meu Deus do céu! Lá, o que acontece é que eu peguei assim uma escola... Ela estava destruída, não é? Tanto a parte física quanto a parte emocional das pessoas. Por quê? Tinha uma diretora que tinha um modo de pensar muito estranho; ela falava assim... Por exemplo, ela tratava as pessoas como subalternos, não é? Tem assim alguns registros: “Oi, subalternos”. “Terei uma reunião com os subalternos”. Então, ela chamava todo mundo de subalterno (risos). E eu achava assim, meu Deus... Primeiro que a escola não parecia escola, parecia um depósito de alunos e professores. E aí, quando cheguei... Lembro de que cheguei com a Shirley. Porque a Shirley já tinha trabalhado lá, ela tinha uma matrícula na Prefeitura e outra no estado, e aí, para que eu me tornasse diretora do município eu teria que ter como vice uma pessoa com matrícula. Então, eu pensei assim: já há quatro anos, três anos trabalhando com a Shirley, e observava muito o trabalho dela, não é? Ela sempre trabalhou com uma quarta série, e ela sempre planejava festas, projetos... “Ah, é essa daí que eu quero”. Aí, cheguei para ela... Na época ela ficou com muito medo, porque ela tinha batido de frente com essa ex-diretora, também pelo pensamento dela. Porque ela chegou para a Shirley - quando a Shirley trabalhou lá - e falou assim: “Se você não ler na minha cartilha, você está fora”. E aí devolveram a Shirley, não é? E a Shirley: “Meu Deus do céu, vou voltar para lá, a mulher vai achar que...”. Eu falei: “Não, nada disso. Ela não está mais lá”. E aí foi... Levou um tempo para que ela tivesse convicção de que tinha condições de ser vice-diretora de uma escola que estava cheia de... Repleta de problemas e desafios, não é? Violência; não tinha muro, entendeu? O primeiro desafio que eu encontrei lá foi o fato da escola não ter segurança nenhuma e, muitas das vezes, eu convivi com uns bandidinhos da localidade, e eles na janela da sala de aula, fumando maconha. E eu tinha que ir para lá conversar, sabe? “Puxa vida, você está fumando aqui, está atrapalhando a aula, não é?” Aí: “Não, não, tudo bem”. Aí apagavam: “Ah, mas eu estou esperando o fulano”. “Ah, então eu vou esperar junto com você”. E eu ficava ali, junto com eles. E o pessoal falava: “Vera, você é louca”. E eu falava: “Não, o que eu estou fazendo? Não estou fazendo nada demais. Como eles também não estão fazendo nada demais, eu também não estou fazendo nada demais; então, vamos ficar”. E aí eles ficavam e eu ficava junto com eles.

 

P/1 – Você ficava esperando?

 

R – Ficava esperando. Aí eles viam, sabe, que eu não arredava pé. Para o professor dar aula, porque enquanto eu estava ali, o professor dava aula. Quando eu saía, eles ficavam mexendo, implicando com o professor: “Aí professor, não sei o quê”. E os professores reclamavam. Então, sempre que fazia aquele bolinho - porque não tinha muro, era tudo quebrado, não tinha portão, eles entravam e iam para as janelas por causa das meninas - aí eu ficava... Eles ficavam muito danados (risos), eu ficava. E: “Aí, diretora, deixa eu estudar nessa escola”. “Ah, meu filho, não tem vaga”. E assim eu fui peneirando, peneirando.

 

P/1 – Nunca te ameaçaram, alguma coisa assim? Teve alguma coisa muito difícil de lidar?

 

R – Teve. Uma vez eles espalharam... Espalharam em Imbariê que eles tinham me matado. Aí isso deu, assim, um susto geral, não é? Porque eles falaram um fato que aconteceu. Eles estavam bebendo... Aí já estava inaugurada a escola, com grade e com tudo, e tinha uma turma na rua, xingando, estava com um garrafão de vinho já vazio, então, além da maconha eles estavam bêbados, totalmente loucos. Aí a menina virou para mim - uma das inspetoras - e falou assim: “Vera, eles estão a fim de arrumar confusão”. Aí xingavam, sabe, e eu falei assim: “Gente, deixa para lá, deixa eles lá, eles vão cansar, é só vocês não falarem nada, não responde. Deixa pra lá!”. Aí, nisso, a outra amiga da Secretaria veio com o celular e falou assim: “Vera, olha, a Secretaria”. Aí eu peguei o celular, não é? Eles estavam lá na rua, e nisso um viu e falou assim: “Ih, ela está chamando a polícia”. Aí correram, saíram correndo. Eu não entendi, não é? Dei graças a Deus, foram embora. Só que eles chegaram lá na rua, que é uma famosa, que é a Avenida B, falando assim: “Olha, mataram a diretora da Roberto Weguelin. Tá lá. Tá estendida lá com não sei quantos tiros”. Eu não estava sabendo de nada, e fiquei até o final. Fechei a escola, fui embora, andei aquele pedaço, dez minutos a pé, sem saber que tinham me matado. No outro dia, fui direto para a Secretaria. Aí, quando estou na Secretaria, alguém ligou para mim - foi uma professora da Fernando Figueiredo - aí ligou e falou assim: “Vera, pelo amor de Deus, é você mesmo?”. Aí eu: “Ué, claro que sou eu” (risos). “Você tem certeza?”. Eu falei “Ih, caramba” (risos). “Zezé, o que foi?”. E ela: “Não, é porque chegou uma notícia agora que tinham te matado. Que você estava ainda morta lá na porta da escola, Vera. O que aconteceu?”. Aí eu: “Hum, isso aí, olha, é trote daquele pessoal da B. Mas eu estou bem viva”. Ainda falei assim para a menina da Secretaria: “Não posso demorar, porque, com certeza, se foi ontem o assassinato, o enterro é hoje. Eu vou para ele”. Aí elas falaram: “Vera, você ainda leva na brincadeira?”. Mas depois disso, na semana seguinte, o chefe, um dos chefes, o gerente do movimento foi na escola e conversou comigo. E queria saber quem era... Quem fez isso, e eu falei para ele que não sabia. E, realmente, tinha assim, uns dois conhecidos, ex-alunos, mas os outros eu não conhecia. Daí ele falou assim: “Não, porque eles não podem fazer isso. Eles fizeram, foi uma brincadeira, mas que poderia trazer a polícia toda aqui para dentro, e nós não queremos, entendeu? Porque isso foi uma ameaça, eles podem fazer alguma coisa”. Eu falei: “Eu não acho isso. Não briguei, não discuti, não tem nada”. O que eles acharam... Aí a moça da barraquinha em frente falou assim: “Vera, quando você estava no telefone, um falou: “Ela está chamando a polícia, vamos cair fora. Entendeu? Foi isso que deu”. Aí eles resolveram fazer isso, não é?

 

P/1 – E, Vera, o que a escola significa para você?

 

R – Ó, eu vejo a escola como a minha segunda casa, tá? Minha segunda casa, família mesmo, e eu tenho assim todo o carinho, não é? Acho que, como eu quero paz na minha casa, quero paz na escola, harmonia. Que as pessoas realmente trabalhem para o aluno, em prol do melhor para ele. Então eu vejo assim, como meu segundo lar. Porque eu passo a maior parte do tempo é na escola, não é?

 

P/1 – E você pensa como, essa escola do futuro? O que você deseja que ela tenha de diferente ou de melhor?

 

R – Olha, eu penso assim: cada vez melhor... Melhorar. Mas também fico preocupada com a minha saída, não é? Eu penso muito em sair e acabar indo por terra, entendeu? Porque você tem... É aquele negócio, não adianta falar assim: “Não, porque os professores vão dar continuidade”. Nem sempre, dependendo da pessoa que entrar e fizer assim… E podar... Porque, geralmente, a diretora tem assim, muito medo. Quem? Por exemplo, a Shirley é uma pessoa que ameaça. Por que ameaça? Pode achar que ela quer pegar uma direção, por causa do trabalho dela, por causa do envolvimento dela com o aluno, não é? E tem outras mais. Então, a primeira coisa que eu fico pensando de entrar... Teria que entrar uma pessoa que realmente estivesse sintonizado com a ideia de uma qualidade de ensino, não é? Realmente preocupada com isso. Porque se entrar só porque entrou, através da política, mas se não estiver afinada com esses objetivos, vai tudo por terra, acaba com tudo.

 

P/1 – E quais os recursos que você tem na escola? Digitais, como TV, vídeo, você tem?

 

R – Tenho tudo. Tenho laboratório, não é?

 

P/1 – Tá, de informática.

 

R – Tenho duas televisões. Tem uma televisão que ela... Eu pedi para fazer uma grade, ela tem rodinha, então é para a sala de leitura e para professores também passarem vídeos, não é? Tem dois vídeos, tem data show, tem todos os recursos.

P/1 – E os professores usam bastante?

 

R – Usam, adoram usar, e eles gostam demais. A televisão eu vejo para lá e para cá; aí tem que agendar, não é? E a outra fica na biblioteca.

 

P/1 – E o programa “Todo Mundo”, como você soube dele? Como chegou na sua escola?

 

R – Em 1998 nós montamos um projeto que nós gostaríamos muito de termos um computador. Não estávamos pedindo muito não, sabe? Nós montamos esse projeto, sentamos e pensamos: “Puxa vida, tão bom se tivesse um computador, não é?”. Queríamos um computador, e depois iríamos tentar outros; mas de início nós queríamos um computador. Aí eu fiz o projeto, não é? Fizemos tudo direitinho e levei lá para a Secretaria; aí, quando foi no final de 1998, nós tivemos que sair de lá porque aí a escola já estava assim, metade interditada, não é? Por causa dos problemas. Porque eu já peguei, em 1997, ela muito, muito, muito mesmo quebrada e tudo, e chegou a um ponto assim... Não podia entrar no refeitório porque tinha um vazamento, e o refeitório ficava alagado; não podia entrar na cozinha porque as paredes davam choque; não podia usar o banheiro porque era tudo entupido, toda a tubulação, tudo errado. Eu falei: “Meu Deus do céu, como eu vou usar uma escola assim, com mil e poucos alunos?”. Aí, de tanto falar... O Conselho Escolar também tem um peso muito grande nas escolas, se todas as diretoras colocassem o Conselho Escolar para funcionar elas teriam assim um aliado, porque o Conselho Escolar é formado por pais e professores, não é? Então dá para você saber  exatamente como a escola está caminhando, porque eles passam, eles são termômetros - ver se está em baixa, se está em alta... E ter mais acesso aos pais, porque eles reclamam, porque eles precisam da escola, não é? Até que ponto precisam da escola. Então, eu vejo uma força muito grande no Conselho, eu trabalho muito com o Conselho Escolar. E esse Conselho foi que deu assim força maior para que a escola saísse dali e fosse feita a renovação, a transformação da escola, não é? Porque ela foi transformada, ela saiu de um depósito e passou a ser uma escola de verdade, entendeu? E nós ficamos, nesse período, emprestadas ao CIEP; aí volto eu para o CIEP, não é? Voltei eu lá para o CIEP, e lá no CIEP era tudo muito assim, limitado: “Não pode, não pode, não pode”. Por exemplo, meus alunos não podiam entrar na biblioteca, tá? Eu tinha feito com eles todo o sacrifício para ter uma biblioteca - era pequenininha, mas eles tinham. Então, eles tinham esse hábito de leitura, de pesquisar na biblioteca, e lá não podia. Não podia nada: não podia entrar na biblioteca, não podia ir para o andar de cima, não podia usar a quadra, não podia nada. Mas como eu estava lá emprestada, de favor, não é? E a briga com os políticos... E aí quando chegou em dezembro de 1999 nós fomos despejadas do CIEP. Despejadas! Assim... Me chamaram e falaram assim: “Vera, infelizmente, se você não puder tirar sua escola daqui, vai vir um caminhão do Garotinho, do governador, vai botar as suas coisas dentro e vai despejar lá na porta do Zito”. Que aí já era outro local. E eu falei: “Meu Deus, mas não pode fazer isso, a escola é grande demais”. Nós ficamos com o setor todo do CIEP, ficamos com o segundo andar todo. E não... Mesmo assim não dava, pela quantidade de turmas que eu tinha. Até a quadra, os vestiários eram transformados, foram transformados em sala de aula, porque o CIEP não usava, não é? É o que eu falei: a proposta era uma, só que as pessoas faziam totalmente diferente. Então aquilo lá estava totalmente largado, abandonado; aí transformamos em duas salas de aula. E até era usado... O consultório dentário era sala de aula, porque não era usado. Chegamos, o material todo assim para o canto porque estava tudo abandonado. Então falei com ela: “O que você tiver de sala abandonada eu preciso para acomodar a escola toda”. “Não, tudo bem, você vai limpar. Se tiver a pessoa aí”. “Não, até professor limpa”. E ficamos assim. Aí, nisso, foi quando nós entramos também... Em 1999, além do despejo, foi assim um ano marcante para a escola porque foi quando nós entramos no programa “Amigos da Escola” também. Todas as escolas receberam a ficha de adesão e eu levei aquilo ali; eu falei: “Não, tem que surgir alguma coisa boa disso aí”. E surgiu.

 

P/1 –  O “Amigos da Escola” é o projeto da TV Globo, não é? De voluntários?

 

R – Isso. Aí, é a única escola de Caxias que participa, entendeu? Não tem outra escola. É a única que levou mesmo. Aí, depois, todo mundo perguntando: “Como é que você conseguiu? Você conhece alguém?”. Eu falei: “Não, simplesmente eu mandei a minha ficha de adesão, só isso. E eles mandaram o retorno”. E em 1999 isso foi feito; em 2000 eu já estava recebendo o material da Rede Globo, desse projeto, que é um projeto assim maravilhoso, porque eles mandam muita coisa boa para você montar projetos, e foi com esses livros, esse material, que nós conseguimos montar projetos de fato, que incide... [áudio interrompido]

 

P/1 – Então, você estava falando que tinha que sair do CIEP, que vocês foram despejados.

 

R – É, eu cheguei e a diretora falou assim para mim: “Vera, eu sinto muito, mas isso não partiu de mim – imagina - nem da minha coordenadoria. Foi uma ordem lá do Rio”. Por quê? O Garotinho, com o prefeito, já estavam brigando, não é? A briga já estava feia, que nem se falavam, aquela confusão toda. E aí o Garotinho, para afrontar o Zito, resolveu fazer isso. Partiu para a briga e colocou: “Não, agora está lá emprestado? Vai sair agora, dou 24 horas para desocupar”. Isso foi num dia, em que eu fui avisada, não é? Aí, quando eu cheguei no outro dia para ver se era verdade mesmo, olha como era verdade: já tinha uns caras lá pegando tudo que era meu e botando no pátio; aí sumiu troço, sabe, muita coisa que sumiu e que depois eu fui ver, e meu Deus do céu...

 

P/1 – E foram pessoas da Secretaria, ou não?

 

R – Da Secretaria, que receberam ordem de colocar. Porque eles não estavam brincando.

 

P/1 – E os alunos estavam lá nesse momento?

 

R – Não, porque foi uma época de dezembro, aí já estavam de férias. Porque eu até antecipei, fui à Secretaria e falei: “Gente, nós não podemos nada. Tínhamos que antecipar isso, não é? Colocar para a primeira semana de dezembro e não ir até o dia 20, não tem condições”. E aconteceu nesse intervalo o despejo. Aí fui para a Secretaria, meu Deus, um nervoso, porque eu não sabia... Eu falei: “Gente, como, onde eu vou botar uma escola? Uma escola de mil alunos?”. Aí fui procurar, fui na Secretaria: “Ah, Vera, junta com o seu pessoal e vê lá onde você pode arrumar, procura lá uma escola desativada”. E eu falei: “Meu Deus, no final do ano, assim, é muito difícil”. “Ah, vê o que você pode fazer”. Eu que tive que fazer. Aí, fui de Caxias até Imbariê pedindo a Deus: “Meu Deus, me dê assim uma luz, porque eu quero encontrar esse local, porque eu tenho que colocar, eu não vou colocar a escola totalmente fragmentada, um pouco aqui e um pouco ali”. Porque isso eu tinha conseguido - eram cinco turmas no CIEP, cinco turmas no outro e... Entendeu? Porque eu tinha trinta turmas, hoje eu tenho trinta e seis, não é?

 

P/1 – Eram mil alunos mais ou menos?

 

R – Mil alunos. Aí, nisso que eu desci, eu falei assim: “Bom, vou começar do nada, vou descer na Praça de Maria e quem eu encontrar vou perguntar: “Você sabe onde tem um galpão, uma escola desativada, ou alguma coisa assim?”. Porque eu nem tinha mais contato com os pais, os alunos estavam de férias. Aí encontrei uma menina que trabalhava em outra escola, mas que mora ali ainda, eu falei assim: “Mônica, eu estou com um problema muito sério. Tem que colocar a escola... Tirar a escola do CIEP, levar para algum lugar, e eu não sei para onde. Você não sabe de alguma fábrica desativada?”. Porque tem vários lugares com fábricas assim fechadas. Aí ela: “Olha, na própria rua da Fernando Figueiredo tem uma fábrica ali que era fábrica de quentinhas”. Aí eu: “Fábrica de quentinhas?”. Não conhecia, aí fui lá. Mesmo sendo diretora, vice-diretora de uma escola mas, dentro da escola, não tinha contato; eu via aquele prédio lá mas, para mim, ainda funcionava, não é? Aí funcionou quentinha, funcionou bijouterias, a dona... Aí tem o prédio do lado, e eu fui ver. A menina falou assim: “Olha, tem uma proposta aí da Igreja Universal”. E eu falei: “Ai, meu Deus do céu, Igreja Universal está na minha frente”. “Mas, se o pastor não fechar comigo até o dia tal você volta aqui, porque daí eu vou fechar com você”. Aí fiquei rezando, não é? Acho que eu pedi tanto, meu Deus do céu, eu rezando: “Meu Deus do céu, tomara que o pastor desista, arrume outro lugar. Porque ele não tem que colocar mil crianças e eu preciso”. Aí quando eu cheguei lá no dia em que ela marcou, ela falou assim: “É seu o galpão”. Aí eu fui para a Secretaria: “Arrumei o espaço, gente, agora tem que ser com vocês, que eu não posso entrar nessa parte”. “Ah não, tá, tudo bem”. Aí levei o telefone da dona direitinho. Era um galpão, sabe, todo aberto, não tinha nada. E como transformar aquilo ali numa escola? Aí tinha primeiro andar e segundo andar, ainda tinha uma escada, primeiro e segundo andar, no segundo andar não tinha banheiro, só tinha um banheirinho. Embaixo tinha dois banheiros, que eram para funcionários - feminino e masculino, uma coisa assim. Aí fui lá, ela me mostrou tudo, e eu falei: “Meu Deus do céu, o que eu vou fazer? Transformar isso aqui numa escola? Ah, mas eu vou conseguir”. Aí fui para a Secretaria, mostrei tudo: “E você, o que acha, Vera? Você foi lá, viu?”. “Vi, tem condições. Vocês podem começar a obra lá”. Tudo com divisórias, não é? Aí o que eles falaram... Aí foi chegando caminhão com coisas, e eu não saía de lá. Caminhão com os tapumes. Você sabe o que é tapume de obra, canteiro de obra, não é?

 

P/1 – Aham, que não é divisória.

 

R – Não é divisória, não é isso? E aí as salas que eu consegui dividir em casa, com tapume, tudo bem. Ao invés de subir a escada... Não tinha teto, não é? Não tinha teto. Aí o que acontecia? A parte da frente, assim, que subia escada, a sala, aluno subia, jogava bolinha. Olha, meu Deus do céu, daí o que eles fizeram? Aquele pedaço ali eles cercaram com tapume, era tudo assim, não tinha porta e não tinha teto, o teto era aquelas telhas de amianto, não é? Numa altura que... E embaixo era um forno, mesmo colocando ventilador. E era assim... E o piso era verde. Eu falei assim: “Meu Deus, sinto que estou entrando na Mangueira”. Porque o tapume era todo rosa, era vermelho, aquela Mangueira. Isso aqui não é escola... Ah, escola de samba, eu falei: “Vocês encaram”. Olha, foram assim meses e meses até chegar o dia da inauguração da escola. E isso, nós ficamos um ano, um ano desde que nós fomos despejadas, não é? Nós fomos despejados em 1999 e passamos o ano 2000 todinho nesse galpão, que não tinha porta, não tinha nada. Eu gostava muito daquela musiquinha: “Era uma casa muito engraçada, não tinha porta, não tinha nada” (risos). Entendeu? Nada. E aí, no caso, eu também não pude fazer matrícula, porque as salas eram bem menores. A Sayonara, na época... Ela entrou nesse concurso de 1998, foi chamada em 1999, e ela dava aula numa sala em que não cabia nem a mesinha dela; então ela colocava a mesinha assim no corredorzinho para ela poder entrar e escrever no quadro. Aí, quando ela ia lá, escrevia no quadro: “Cadê as canetas? Cadê as coisas?”. Passava outra aluna e pegava... De ginásio. Olha, e ela: “Vera, eu não posso. Vou ter que dar aula com a bolsa pendurada ou senão deixar com o aluno, porque pegam tudo daqui dessa mesinha”. E eu: “Ai, Jesus!” Isso era uma das reclamações, não é? Porque tinha muito mais, entendeu? E aí eu não fiz matrícula, fiquei só mesmo... Saindo duas oitavas séries, não é? Diminuiu, aí caiu mais ou menos para 900 alunos, fiquei com 900 alunos nessa escola, nessas divisões que fizeram direitinho, mas era horrível, sabe? Eles batiam no coisa para implicar com o lado, aquela coisa de adolescente. No primeiro segmento não era assim tão coisa porque as professoras contornavam bem, mas os professores do ginásio... Aí eu me sentia assim no lugar deles e falava: “Nem sei se eu conseguiria dar aula num lugar desse”. Porque não tem... Você não consegue. Você falava aqui a outra sala escutava tudo, atrapalhava a outra sala, aí a outra falava e atrapalhava a outra do lado; olha, era realmente um inferno. Mas nós ficamos um ano resistentes, fazendo festa e tudo, entendeu? Que eu gosto de fazer festa.

 

P/1 – Aí foram para o prédio novo?

 

R – Aí em março, em nove de março de 2001, é que nós fomos para nossa escola nova. Tem um detalhe: deixamos tudo lá nesse galpão, recebemos tudo novo, entendeu? Não levei uma carteira. Para não falar, só levei o freezer, não é? O freezer que eu levei e alguns ventiladores, também só levei o que estava bom, mas... E a parte assim, da Secretaria, documentação. O resto deixei tudo lá.

 

P/1 – Vida nova mesmo?

 

R – Isso, aí eles deram tudo novo para essa escola.

 

P/1 - E foi aí que você recebeu os recursos mais tecnológicos e equipamentos?

 

R – Isso, aí esse projeto tinha ido para lá, já em 1998, não é?

 

P/1 – Ah, o “Todo Mundo”?

 

R – Em 1998. Não, o projeto... O nosso projeto tinha ido lá para a Secretaria e aí veio a proposta do “Todo Mundo” para a Secretaria de Educação, não entramos em contato com eles assim. Aí eles me ligaram perguntando assim: “Vera, você gostaria de participar de um projeto? É um projeto de informática”. Eu falei: “Meu Deus, Deus ouviu, não é?”. Aquele projeto... Pensei naquele projeto de 1998; e aí eu falei assim: “Claro”. “Você tem uma pessoa para mandar para São Paulo? A pessoa vai passar quinze dias em São Paulo”. “Tenho”. Não tinha nada. “Você tem um espaço para colocar dez computadores?”. “Claro” (risos). E depois eu pensei assim: “E agora, a pessoa?”. Tinha que pensar na pessoa; aí pensei na Sayonara, que era professora de quarta série, eu nem sabia que a Sayonara mexia em computador, não é? Não tinha computador na escola. Aí eu falei assim: “Ah, Sayonara”. E a outra pessoa? A Shirley, que ela já não era mais a vice-diretora. Aí a Sayonara foi para São Paulo. O tempo em que ela ficou em São Paulo fazendo a capacitação foi o tempo que a Secretaria... O que a Secretaria precisava fazer? Só colocar divisória, porque a sala onde funciona hoje - porque funciona desde quando foi inaugurada - é o final do refeitório, tanto que ela é toda de azulejo, porque é o refeitório. E aí eu andei a escola toda pensando: “Eu falei que tinha um lugar, e agora? Ah, eu vou arrumar esse lugar”. Aí fiquei em pé no refeitório olhando: “Esse refeitório é tão grande, podia fazer uma sala aqui. Espera aí”. Aí fui à Secretaria e falei: “Eu tenho um espaço”. “Você tem um espaço? Onde é o espaço que você arrumou?”. “No refeitório”. “Mas no refeitório, vai acabar com o refeitório”. “Não, porque é muito grande aquilo, gente, aquilo é para comer quatrocentas crianças, pelo amor de Deus, ninguém come junto assim, que não dá vazão, não é?”. Aí a menina foi lá, olhou - que era subsecretária - aí ela olhou: “É, realmente, dá uma sala boa aqui”. E uma sala imensa. Você nunca foi lá não, não é?

 

P/1 – Não, não fui.

 

R – Nossa, você vai gostar de conhecer. É um espaço assim... Aí, quando você chegar lá você vai ver: “Ela falou azulejo, é referência”. E tem divisória com porta, tudo fechadinho.

 

P/1 – Virou uma sala?

 

R – Uma sala de informática.

 

P/1 – Para os computadores?

 

R – Isso.

 

P/1 – E qual é o seu papel no programa “Todo Mundo” hoje?

R – Olha, essa parceria... Eu procuro participar de todos os projetos, não é? Porque tem os cursos: “Vou fazer um curso agora, vou fazer a minha inscrição e vou fazer um curso”. Não sou assim, não é minha praia, tá? O negócio de computador não... Eu sei porque tenho em casa mesmo, mando e-mail, mas não é aquela coisa de ficar ali fissurada, e não sou... Entendeu? Minha filha é formada em informática, ela que me dá as dicas: “Patrícia, socorro!”. Aí ela: “Mãe, não é assim”. Mas participo sim, dando total apoio, todos os encontros marcados eu estou lá e estou sempre firme, já é o terceiro encontro de que eu participo, não é?

 

P/1 – Esse de Natal?

 

R – Isso, eu fui... O primeiro de que participei foi em 2006; participei em João Pessoa, em 2007 e fui a Natal esse ano. E no ano que vem vai ser no Rio, não é?

 

P/1 – Isso. E o de 2006 foi o de Itacuruçá?

 

R – Isso.

 

P/1 – Tá. E você acha que o programa mobilizou a comunidade em torno da escola?

 

R – Com certeza.

 

P/1 – O que trouxe a comunidade para a escola, pelo programa?

 

R – O que eu senti é que o aluno, desde o primeiro ano até a oitava série, tem orgulho de ter aqueles computadores. Porque eles mexem ali, tem uma programação em que todas as turmas entram no laboratório, tem quatro professores - que são a Sayonara, a Shirley, tem a Osileide e tem o Tadeu - e isso fez assim uma revolução, não é? Não tem aquele coisa de saber que tem um computador que até há pouco tempo ninguém tinha acesso, nem a própria escola tinha acesso e, de repente, o aluno vê que ali, na frente dele, na escola dele, tem computador - e é uma escola pública! - e tem computador que ele pode estar acessando a Internet, porque eles têm esse espaço. Lá também são formados multiplicadores, que são os próprios alunos multiplicadores, que eles vão passar as informações deles, que eles conseguiram com experiência, para os menores.

 

P/1 – Informações de informática, do uso de computador?

 

R – Isso, isso. Eles aprendem com os FMLs e repassam isso para as outras crianças. Então está sempre com multiplicadores, que a gente chama monitores. Tem alunos excelentes, que dão banho, adolescente é tudo, não é? Adolescente não tem medo de nada, eles enfrentam mesmo, ajudam muito os professores, ao contrário. Então eu vejo assim... Para o lugar que é... Talvez se fosse uma comunidade com mais condições e tudo não teria feito tanto, dado tanto certo, assim, aquele efeito, não é? Talvez não teria dado. Eu fico imaginando assim, que é diferente a outra escola que também tem esse... Que veio depois, não é? Lá os alunos não entram com essa frequência que entra lá, por quê? É Caxias. Cada esquina, cada lugar, eles têm o quê? Têm computadores, têm acesso em casa, e em Imbariê é uma área assim muito carente, mas muito carente mesmo; não é aquela coisa mais ou menos carente não, é muito carente. Carente em tudo, em todos os setores, e principalmente carente de informações, não é? Porque na maioria das famílias a mãe trabalha fora, ou não tem o marido, ela que sustenta os filhos, deixa com o mais velho, o mais velho é quem toma conta dos menores, que leva para a escola, só vem... Muitas mães só chegam em casa para o final de semana, entendeu? Às vezes você liga: “Ah, como é seu nome? O que você é do aluno?”. “Ah, eu sou irmão”. “Ah, eu sou irmã”. Dificilmente fala assim: “Eu sou a mãe”. Sabe? Então eu vejo assim: as pessoas têm a escola como uma referência. Por exemplo, a mãe que trabalha, que vem de quinze em quinze dias, que vem... Tem na ficha lá, quando precisa eu ligo diretamente: “Ó, seu filho fez isso, preciso de você aqui”. “Ah, dona Vera, vou ver se consigo sair mais cedo. A senhora me espera aí até sete horas?”. “Até sete horas da noite eu espero, ou marco no sábado, precisamos conversar sobre seu filho. Você está sabendo com quem ele está andando?”. Porque também eu tomo conta de tudo, não é? Não que seja fofoqueira não, mas eu tomo conta. “Você sabe com quem está andando? Olha, está andando com fulano, fulano, fulano e fulano. E eu sei que eles têm envolvimento com certos lugares, envolvimento com o movimento. Você está sabendo disso?”. Então, muitas vezes eu chamo a mãe mesmo e falo: “Ó, namorar nem pensar”. Quando fala em namorar: “Ah é? Está namorando? Já pediu em casa? Vai namorar em casa, porque aqui eu não quero pegar, hein? Se eu pegar já sabe, eu vou suspender, eu vou ...”. Daí eu falo o que vou fazer, mas no fundo não faço nada, quando eu pego assim eu chamo, converso: “Olha como fica chato, aqui é uma escola. Já pensou se todo mundo resolver namorar? Então não vai servir nada a escola. Vai ser um parque de namoro”. Aí eles ficam rindo, não é? “Namora em casa, tá? E não é escondido da mãe não, fala para a mãe”. Aí uns falam assim: “Ah, minha mãe é brava, não sei o quê, e não sei o quê”. “Conversa, melhor amiga é a mãe”. Aí converso muito com eles, não é? E todos os professores. Porque nós temos essa visão. Precisa, tá? Não é apenas o nosso emprego, é uma coisa que faz parte da nossa história, da nossa vida; você poder orientar. É claro que a escola não vai fazer cem por cento nunca, escola nenhuma, entendeu? Mas nós podemos fazer chegar a oitenta por cento, com certeza. E eu acho que a Weguelin faz isso com a comunidade, aí tem um outro lado, não é? Todo mundo quer estudar nessa escola. Por quê? Uma escola que tem espaço, é uma escola que tem fama que ensina, é uma escola que tem laboratório de informática, é uma escola que tem uma quadra coberta, é uma escola que tem um consultório dentário, e as escolas particulares deixam a desejar, não é? Muitas mães já chegaram para mim: “Ah, Dona Vera, estou tirando de uma escola particular, estou trazendo para cá porque me falaram que aqui a criança aprende”. Porque nós temos um projeto. A criança fica retida num ano, no ano seguinte ela já está entrando no projeto e, para não deixar que isso aconteça - mais um ano de retenção - então a escola está sempre assim, preparada; quem vai pegar? Já tem a professora que vai lidar com aquela situação de alunos retidos, entendeu? E vem caindo, vem caindo, a taxa de retenção era enorme e vem caindo. Assim, por exemplo, ano passado, ano retrasado, eu tive... Porque eu faço o perfil da escola no final do ano para entregar à Secretaria, e aí eu tive assim, mais ou menos sessenta e seis alunos retidos do terceiro ano do ciclo, que é a antiga segunda série. Porque só vai para a terceira série se estiver lendo, interpretando, sabendo as contas. E aí, sessenta e seis. Ano passado já caiu para trinta e três, então... E esses trinta e três já estão dentro do projeto, e esse ano já sai, já vão para a terceira série sabendo ler. Mas ler mesmo, sem aquela dificuldade de gaguejar; então tem essa preocupação. Eu acho que isso aí faz uma diferença muito grande, porque é uma coisa que a escola tomou posse e ninguém fala o contrário. A Secretaria não é a favor, tá? Não é a favor porque você praticamente... Você coloca, junta aquele grupo que não sabe, e isso não é a proposta da Secretaria. Você tem que colocar os que sabem com aqueles que não sabem. Isso no dia-a-dia, numa turma normal, dá certo. Você tem aqueles que: “Ah, você ajuda o coleguinha no coisa, e tal”. Então, aquela interação faz com que o outro aprenda; mas quando você tem um grupo muito grande, que a proposta seja única para eles... Porque aí fica mais fácil para a professora, para ela poder estar trabalhando a mesma coisa, o mesmo conteúdo para todos e não trabalhar assim, totalmente fragmentado o conteúdo, que é horrível - eu já trabalhei assim e é horrível: você trabalha com um que pega no lápis; aí trabalha com outro que não sabe nem como pegar no lápis; aí já trabalha com outro que sabe muito além, ele sabe escrever, ele sabe ler, então, fica muito difícil, você acaba tirando o interesse daqueles que sabem, porque eles falam assim: “Poxa, mas eu já sei isso, eu já sei escrever, o que eu estou fazendo aqui com esses meninos? Eu vou ensinar? Eu não sou professor!”. Eles falam, porque eles são sinceros, a criança tem essa qualidade que ninguém tira, que é a sinceridade - fala e pronto, é aquilo mesmo. Então, nós temos essa preocupação e eu acho que isso aí é que faz a diferença na Roberto Weguelin. E a preocupação: “O que nós vamos fazer com aqueles que ficaram retidos?”. Porque sempre tem aquela preocupação assim: “Vamos distribuir. Você pega trinta e coloca três numa sala, quatro em outra, cinco em outra”. E quando você vê, no próximo ano, os mesmos ficaram retidos. Por quê? A professora não vai se preocupar com os retidos, porque geralmente eles não têm nenhuma motivação para estar ali fazendo a mesma série, e a professora também não está preocupada: “Quem mandou ficar retido? Quem mandou?”. Então ela vai se preocupar com aqueles que estão chegando, novos na série, que não ficaram, que passaram, a maioria. Isso daí é um grupo assim... Não adianta falar: “Eu gosto de pegar problema”, porque é mentira; o professor gosta de pegar uma turma pronta, entendeu? E dificilmente você encontra um professor que: “Não, eu quero esse desafio. Eles não sabem ler? Eu vou fazer ler, eles vão aprender a ler comigo.” Então é difícil. Se colocar vinte, dois levantam o dedo e falam: “Eu pego”. E é o que eu tenho lá. Eu tenho duas professoras que enfrentam isso e falam: “Não, esses é que eu quero, entendeu? Eu não quero aluno pronto, eu quero aquele aluno que não está pronto na alfabetização, é isso que eu quero”. E nós temos esse grupo que enfrenta mesmo; a Shirley é uma, não é? A Shirley é maravilhosa em todos os sentidos assim... Porque ela pega. Por exemplo, onde coloca... Eu falei com ela: “Você vai ser professora de sala de informática”. “Mas Vera, eu não sei nem ligar computador”. “Dá-se um jeito, entra num curso”. Aí ela entrou, fez um curso vip de um mês (risos) e hoje é FML, entendeu? Então ela não teve medo desse desafio. Ela: “Ai, Vera, você coloca a gente nessa situação”. A Sayonara ficou assim: “Sayonara, estou mandando você para São Paulo, você vai?”. “São Paulo, fazer o quê?”. “Uma capacitação de informática”. “Mas, Vera, eu nem...” (risos). “Sayonara, nós não podemos perder essa oportunidade. Nós vamos ganhar um laboratório”. E ela: “Ah, é mesmo? Isso vai ser bom”. E foi embora, entendeu? Então, ela também enfrenta, quer dizer, é bom a escola ter assim um grupo que não tem medo de nada porque eu sozinha não sou nada, não é? Quer dizer, eu tenho ideias de direcionar os projetos, falar até onde nós podemos ir, falar: “Não gente, não pode. Isso daí a Secretaria não vai aceitar”. Então tem coisas assim... Tem umas loucuras que eu falo, e elas: “Ah Vera, ótimo. Vamos embora, depois nós vamos ver o que vai dar isso”. Então nós temos assim, sonhos, nossa, nós temos sonhos, sonhos assim que eu falo com todo mundo o seguinte: “Quando você sonha sozinho, nem sempre o sonho vira uma realidade”. Porque você está sonhando sozinho, não é? E, às vezes, as opiniões são importantes, um dá um toque, outro dá outro toque, e quando você sonha assim, coletivo, que tem esse pensamento coletivo, o sonho vira realidade. Lá na Roberto Weguelin nós falamos muito isso: “Vamos sonhar juntos? Vamos lá”. Então eu já estou fazendo grandes transformações lá, ampliando sala dos professores... Porque é pequena, entendeu? E diminuindo as salas, as salas são enormes, eu já tive oitava série com sessenta alunos e... Porque teve essa necessidade, eu tive que aumentar uma quinta série. E nem foi culpa da escola, nem minha - uma diretora lá que esqueceu de passar para a quarta série dela, porque eles tinham uma data para fazer inscrição no estado e ela não passou. E aí essas crianças ficaram sem a quinta série. Eu abri... As mães foram me procurar: “Vai lá, vai lá que a dona Vera vai dar um jeito”. Aí eu falei: “Ai, meu Deus do céu, não, como é que pode?”. Eu fiquei sabendo: “A diretora esqueceu, não falou a data, as crianças não fizeram a inscrição e aí perderam a vaga”. “Não, vou pensar aqui”. Aí falei, juntei todo mundo: “Gente, tem uma turma de quinta série sem vaga, o que nós vamos fazer?”. Aí vimos trinta e poucos de uma, trinta e poucos de outra, e: “Vamos juntar a oitava série? É uma saída”. Mas aí tem que falar com os professores, não é? Porque você pegar sessenta alunos... Essa turma tinha que ser exemplar. E foi, o ano inteiro. Conversei com eles o porquê da necessidade de colocar, de estar colocando sessenta alunos dentro de uma sala, a sala ficaria muito lotada... E eles não perdiam aula, estavam sempre ali e ajudavam. Eu falei: “Conto com vocês, vocês estudam aqui desde pequenininho, nunca pedi nada, então agora estou pedindo isso”. E foi assim uma oitava série exemplar em disciplina, em tudo, sabe? De participação... Porque a oitava série tem uma participação muito grande, não é? Tudo eu volto para a oitava série, tudo eu vou na oitava série: “Vou fazer um projeto assim...”. Oitava série primeiro. “Sai nos desfiles cívicos”. Oitava série primeiro. Porque eles estão saindo da escola, e aí eles pedem muito assim: “Puxa vida, por que a senhora não coloca segundo grau aqui?”. Porque no município não tem segundo grau, tem que atender primeiro a parte de creche, que agora é que chegou ao número de trinta e seis creches, isso é pouquíssimo, entendeu? Para quinhentos mil eleitores, oitocentos e poucos mil habitantes que nós temos em Caxias. Então é... Tanto a família como o próprio aluno, o professor, veem assim a escola Roberto Weguelin como um exemplo, um orgulho, entendeu? Eu sempre falo assim com as pessoas, que não têm que ficar comparando. Eles comparam e falam: “Ih, na escola do meu primo não tem computador, não tem consultório, não tem não sei o quê”. E eu falo: “Não faça isso, porque o seu primo vai querer vir para cá e não tem vaga; então você não fica falando isso para o seu primo”. “Mas, dona Vera...”. Às vezes eu passo assim na rua - tem uma rua lá que eu uso muito, porque eu venho da minha casa e ando dez minutos - e aí quando eu passo... Quando chega final do ano, eu vou parando; por exemplo, se eu pretendo chegar à escola umas nove horas, eu chego às onze, porque vou parando: “Dona Vera, eu preciso de uma vaga. Sabe o que é? É que meu filho estuda, sabe, lá não sei onde, mas não ensina”. Eu falo assim: “Opa, se você está falando da outra escola, então quando você sair da minha você também vai falar de mim. Então não tem vaga” (risos). É porque eles ficam... mas eu sei, umas são sinceras e falam: “Sabe por que eu quero trazer meu filho para cá? Porque tem consultório dentário, porque tem sala de informática, porque aqui ensina muito bem”. Então, virou assim uma referência dentro do terceiro distrito, que é em Imbariê e aquela parte ali, Santa Cruz e tudo.

 

P/1 – E Vera, além da Weguelin, que você fica lá o dia todo, não é?

 

R – Fico. E as outras matrículas. Eu tenho duas matriculas, não é?

 

P/1 – Tem o que? As outras matrículas?

 

R – Tenho outra, tenho duas matrículas.

 

P/1 – Como assim, você tem duas matrículas?

 

R – Do estado. É porque eu não tenho matrícula na Prefeitura, entendeu? O salário mais baixo, o meu, está entre o apoio, que são as merendeiras e o porteiro, o servente; o meu está aí no meio, não é? Porque eu sou apenas... Eu presto serviço, eu sou cedida do estado para a Prefeitura, mas o meu salário mesmo é do estado, que é baixíssimo, não é? Todo mundo sabe.

 

P/1 – E você fica só na Weguelin?

 

R – Isso. Eu faço parte da unidade de convênio - existe uma unidade de convênio - para que eu fique cedida para a Prefeitura. E aí, a minha carga horária toda do estado é lá na escola, mas independente disso, de ter matrícula do estado, eu gosto de chegar lá de manhã e sair de noite, de saber tudo. Eu fiquei uma semana fora e quando eu cheguei, meu Deus do céu, que confusão. Fiquei sabendo até que duas professoras discutiram, e eu falei: “Ai, meu Deus, isso nunca aconteceu. Eu tinha que estar aqui, porque eu chamo na hora”. Não tem esse negócio assim de fofoca, fofoca não pode existir aqui, porque a fofoca atrapalha, ela acaba com qualquer trabalho, entendeu? O tal de disse e me disse; se falou vai ter que confirmar por que falou: “Por que você falou isso?”. Então o pessoal já sabe que as fofoquinhas assim eles não me falam não, porque quando chega para mim, eu já: “Quem foi que falou mesmo? Ah, foi fulano, espera aí, vamos resolver isso agora”. Então eles têm um medo assim... “Ai, ela vai chamar”. Entendeu? Então, já teve época de eu chamar: “Vem cá, o que você falou mesmo para ela? Repete aqui que eu quero entender a história”. “Não, eu falei...”. “Não foi assim que você falou não, fulano está falando...”. Pronto, acaba. Porque fofoca não pode existir. E hoje o pessoal é muito unido, sabe? Eu acho até que eles são unidos demais. Porque às vezes eu chego assim na cozinha: “Cadê fulano, gente?”. “Ah Vera, é que hoje, olha, eu que estou fazendo o serviço dela porque ela precisou sair, sabe, para resolver isso”. “Ah, está bom”. O negócio é não parar o serviço, porque é muita merenda: mil cento e poucas merendas é muita coisa (risos).

 

P/1 – E a sua vida pessoal? Além do Weguelin, com a sua família, suas filhas, o que você faz de lazer? Como você divide isso?

 

R – Olha, é uma correria, você não tem ideia da quantidade. Com esses irmãos todos, tem os aniversários, sou madrinha de onze crianças, onze pessoas porque agora já estão até casados; então eles falam muito assim: “Poxa, você só vive enfiada dentro daquela escola”. Aí, o que eles fazem quando eles querem falar comigo? Eles vão lá na escola (risos).

 

P/1 – (risos) Sua casa.

 

R – É, eu vou assim: “Sábado você também se mete lá na escola”. Às vezes eu preciso, porque tem um programa, um projeto do Governo Federal, que é a “Escola Aberta”. A escola aberta para a comunidade.

 

P/1 – No final da semana vocês abrem as escolas?

 

R – Isso.

 

P/1 – E ela é bem frequentada no final de semana? Tem bastante gente?

 

R – É frequentada, tem oito oficinas, entendeu?

 

P/1 – E você fica lá no final de semana ou não? Você só dá uma olhada…?

 

R – Às vezes, agora eu estou fazendo um curso, não é? Aí falei com a coordenadora... porque eu sou apenas diretora, não sou coordenadora do projeto não, tem as pessoas... Mas eu gosto de ver de perto se estão tratando direitinho a escola, porque eu sou ciumenta. Ah, tenho ciúmes, tenho.

 

P/1 – E é uma cooperação com a Unesco, esse projeto?

 

R – Isso. Aí, o que ela faz? Eu falei para ela, quando eu comecei a fazer o curso de informática... Aí, comecei a fazer o curso e falei assim: “Olha, eu não vou poder vir sábado para cá, quando eu terminar o curso”. E menina, eu não termino porque eu estou sempre em alguma coisa: é desfile cívico, não sei o quê, é festa, é... Eu falei para a minha professora assim: “Eu não sei, eu vou levar um ano para terminar esse curso” (risos).

 

P/1 – E as suas filhas, com que idade elas estão agora?

 

R – A mais velha tem 25, que é do meu primeiro casamento, e a Priscila tem 21. A Patrícia é formada em Informática e está fazendo pós-graduação na UFRJ; e trabalha, não é? Ela trabalha na FAETEC [Fundação de Apoio à Escola Técnica] com curso, também curso básico, e agora ela está trabalhando também no SENAC, que ela assinou contrato de um ano; então ela está trabalhando na FAETEC e no SENAC, é um corre-corre, e ainda faz pós, entendeu? E ainda namora, e tem namorado, não é? Porque o namorado também está terminando Informática, então, está todo mundo na mesma área. E a outra passou para a Federal, ela estuda em Seropédica, que é um lugar bem distante daqui do Rio, todo mundo sabe que é bem longe mesmo.

 

P/1 – E ela faz o quê nesse trabalho?

 

R – Faz Zootecnia, que eu também não sabia o que era. Quando vi, minha filha estava indo para um lugar: “Mãe, passei para a Rural”. E eu falei: “Meu Deus do céu, e agora?”. E o pai “Não, você não vai largar a faculdade aqui”. Porque ela estava fazendo Biologia, não? Porque eu falei assim: “Você tem que fazer alguma coisa; vai ficar em casa parada esperando ser chamada?”. E ela começou a fazer Biologia. E aí o pai achou assim, que ela ia para um lugar muito longe. “Mãe, meu pai não vai deixar.” Eu falei: “Seu pai não tem que impedir isso. Você tem que ir. Eu vou conversar com ele e ele vai aceitar”. Aí, de início... Porque ela está no quinto período... No primeiro período eu tive que alugar uma casa com ele, comprar tudo de uma casa até ela conseguir a vaga no alojamento, que foi outra história. Eu: “Priscila, você é uma ótima artista, a Globo te perde. Chora, minha filha, faça qualquer coisa”. Aí, todo semestre, acaba um período, e eles pedem tudo meu, não é? Porque ela contou uma história lá triste, ela falou: “Mãe, não é que eu chorei com a história? Que eu fiquei imaginando assim, olha... Uma pessoa nessa situação, coitada dessa pessoa”. Porque ela falou que o pai dela não ajuda - e é mentira, ele tem adoração por ela - que eu tenho trabalho... Porque eu tinha que mandar meu contra-cheque do estado, que é baixo, aí eu falei com ela assim: “Você sempre confirma isso: 'a minha mãe hoje está diretora, mas amanhã ela pode não estar mais nada, aí ela pode perder esse salário'”. Toda vez ela fala a mesma coisa. Aí o rapaz falou assim: “Nossa, a sua mãe está um tempão nessa escola” (risos). Ela não sai do alojamento, e se Deus quiser ela vai terminar lá nesse alojamento, não é?

 

P/1 – Nós vamos finalizando essa entrevista, então, a penúltima pergunta: que aprendizados você acha que tirou da sua vida até hoje?

 

R – Sabe, acho que a pessoa que eu sou, não é? Eu aprendi a ter paciência com as coisas, porque nada acontece de uma hora para outra; aprendi a escutar, a ouvir; é necessário você ouvir mais do que falar. Eu não falo sempre assim, eu escuto mais porque todo mundo tem os seus problemas, e chega e despeja. Eu aprendi que é muito bom você sentir que as pessoas confiam em você para poder contar coisas que, de repente, não podem nem ser faladas. E tudo o que eu sou foi porque aconteceram essas coisas comigo, porque eu acho que se não tivesse acontecido nada disso, a minha vida seria muito sem graça; então, acho que hoje tem um histórico, é uma história de luta, de guerra mesmo, não é? Porque eu falo: “Nossa senhora, eu luto com vários leões e pelo menos dois, três eu mato por dia, dos problemas, e acho que estou nessa direção até hoje e muitas pessoas falam assim: “Ah, Vera, ninguém tem condições de tirar você daí, porque já passou Prefeito, já entrou outro, está saindo outro e ninguém fala que vai te tirar”. Porque eu tenho a consciência tranquila do trabalho realizado em equipe - porque ninguém faz nada sozinho nessa vida - e tenho assim, muita fé em Deus, porque todos os sonhos idealizados, para virar realidade você tem que ter um pensamento positivo, você não pode deixar nada atrapalhar o seu sonho, entendeu? Se é um sonho principalmente que leve uma qualidade de vida - não falo nem de ensino, de vida - para o ser humano, eu acho que vai ser válido para o resto da minha vida. Então, eu acho que dou de exemplo o que eu aprendi, e estou assim, acho que aos pouquinhos, passando, não é? No caso, eu perdi o Marcelo para a direção de outra escola, mas ele falou assim: “Vera, tudo que eu sei... Eu lembro muito do que você falava comigo”. Porque ele é afoito, nossa: “Calma, não é por aí, vamos pensar de novo. E se isso, isso e isso, se fizesse assim?”. Então, acho que isso é muito importante, você não pode sair fazendo, você tem que sentar, você tem que ver se não vai prejudicar ninguém, você tem que estudar cada assunto - não importa se é um aluno ou se é um professor - você tem que estudar bem para não magoar ninguém, para quando você chegar você ter certeza do que você está falando; não é o que você pensa, é a situação. Então eu tenho isso assim no coisa, acho que por isso, não é?

 

P/1 – Você estava contando para a gente os aprendizados da sua vida. E você quer falar mais alguma coisa? Porque a gente tem uma última pergunta.

 

R – Não, eu resumo tudo assim: eu acho que nada na vida acontece por acaso, isso é uma certeza que eu tenho, tá? Nada, nada, nada acontece por acaso, e se eu estou à frente de uma direção, isso aí eu vejo e encaro como missão. Porque pelo lugar que é, pelas coisas que acontecem, eu vejo como missão, uma missão dada assim, por Deus. Foi determinado, ao nascer, que eu passaria por essas coisas, entendeu? Então, muitas coisas assim que eu escuto: “A criança que passa fome não aprende”. Hum hum, passei fome e aprendi; então eu, sabe... Esses pontos assim: “A criança que não tem a mãe...”. Não, eu não tive mãe, fui criada por outra pessoa que nem conhecia e hoje amo como minha mãe, que é minha mãe, a gente se dá super bem e me ensinou muito, na minha vida toda. Uma pessoa que eu tenho como exemplo é minha mãe que me criou, não é? E procuro entender as pessoas, porque cada um tem o seu pensamento, tem a sua diferença, não tento impor a ninguém as minhas ideias. As minhas ideias, os meus pensamentos são meus, entendeu? Não tenho que ficar impondo isso a ninguém, porque uma das coisas que as pessoas tentam é: “Ah, eu vou por aqui, você vai também, você, você e você”. Não, eu vou por aqui porque eu tenho um motivo para ir; agora, se vocês tiverem motivos parecidos venham comigo, se não tiverem eu não posso fazer nada, não é? Então, eu penso muito nisso, de missão. Todos nós temos essa missão e cada um tem uma missão mais branda, outros não, também porque eu acredito muito no resgate, o resgate que nós temos que fazer aqui enquanto tivermos a permissão de Deus de estar aqui; a gente tem que cumprir a nossa missão, e aí eu procuro cumprir da melhor maneira possível - pelo menos tento, não é?

 

P/1 – E gostaríamos de saber o que você achou de participar dessa entrevista?

 

R – Ah, adorei. Poxa, há muito tempo que eu não falava assim, menina, porque é aquele negócio: eu gosto muito e aí escuto mesmo, a pessoa senta lá e conta, conta, conta sua história, daí eu falo: “Olha, cuidado com esse ponto. Você já pensou nisso? E se fosse assim?”. Se coloca no lugar da pessoa, porque uma das coisas que eu acho que o ser humano tem que fazer é se colocar no lugar... Uma vez eu escutei uma palestra em que o palestrante falou assim: “A melhor mãe é aquela que nunca teve um filho”. Aí ele foi: “O melhor professor é aquele que não tem isso como profissão; aí ele é o melhor professor, porque se ele fosse professor ele faria assim, faria assado, e se ele fosse mãe, se esse ser humano fosse uma mãe faria assim, faria assado, bateria, botaria de castigo, mas não é mãe, nem tem filho...”. E aí ele foi falando: “O presidente, o melhor presidente é aquele que nunca foi nem vereador”. E é verdade, porque nós temos esse negócio: “Eu nunca fui. Ah, mas se eu fosse, eu faria assim, assim, assim”. Por quê? Está colocando suas ideias. E as pessoas colocam muito as ideias como as principais; é tudo, não assim entendendo, nem compreendendo a diferença de cada um. Eu acho isso muito importante, eu acho que isso é que deixa assim a afinidade dentro da Roberto Weguelin. Eu falo muito disso, eu falo: “Passa saquinho”. Aí já sabem: de paciência. Porque eu falo que nós temos que levar o saquinho, que nós temos que levar. “Ah Vera, e se furar?”. “Costura”. Mas nós temos que ter muita paciência para lidar com o público, porque quando o pai chega nervoso, querendo dar na cara da professora porque a criança chegou em casa contando uma história, e aí o pai vai e já vai armado: “Eu vou pegar, eu vou bater, eu vou fazer e vou acontecer”. Então ele não pode chegar lá e encontrar uma pessoa que discuta, que rebata, aí você vai ter uma briga feia, não é? Então, gente, eu falo: “Trouxe o saquinho?”. Daí elas falam: “Eu já sei, da paciência”. Por quê? Quando a pessoa chega, a pessoa chega com todos os seus problemas, e a escola tem que entender isso, é obrigada a entender isso. A pessoa chega com os problemas... Às vezes está desempregada; às vezes está numa situação de separação; de repente, perdeu um filho para o tráfico, porque isso acontece... Então a pessoa chega com aquilo tudo e ela está exatamente esperando encontrar uma pessoa que revide tudo para que ela possa botar as coisas para fora. Mas a escola não é essa pessoa, tem que chegar aqui e você tentar contornar. Aí eles falam assim: “Vera, a pessoa chegou aqui gritando, e gritava, e gritava, e falava que ia bater, que ia pegar, que ia não sei o quê. Aí você vai com calma, leva lá para sua sala, aí a pessoa sai daqui rindo, e abraça o pessoal!”. Gente, primeiro eu escutei: “Por que o senhor veio? Não, o senhor está certo”. Ele está errado, vontade, Nossa Senhora, de falar poucas e boas: “Não, o senhor está certo de reclamar, fez muito bem em vir aqui falar isso, vou tomar providências, o senhor pode deixar que isso não vai acontecer mais”. E: “Ai, eu sabia que era só com a senhora mesmo que eu ia resolver isso”. Então a pessoa sai daqui pelo menos com uma satisfação, e é isso que nós temos que dar: é satisfação. Não é brigar com pai. Então, eu falo sempre isso: olha a maneira de falar. A minha sala é perto, aí quando escuto alguém já... Levanto, vou para lá e: “O que foi? Como eu posso ajudar? O que aconteceu?”. Aí: “Não, dona Vera, ahm ahm ahm...”. Porque às vezes a pessoa, não é? Caramba, mas também faltou demais e não quer que coloca falta? Aí vamos ver por que faltou, aí você já vai conversando, aí você já vai sentindo que a pessoa vai ficando mais leve: “Não, dona Vera, tive que faltar...”. Aí conta lá uma história triste, às vezes é verdade e às vezes é mentira, não é? A mesma coisa é ajudar alguém. O que já chegou de gente lá que já matou filho, já saiu do tráfico: “Dona Vera, eu preciso sair do tráfico, será que a senhora pode me dar uma ajuda?” Aí: “Quanto você está precisando? Se eu tiver aqui”. “Ah, quinze reais, trinta reais. Porque eu vou para a minha terra”. “Com trinta reais?”. “Não, eu vou dar um jeito”. “Ué, você falou trinta”. Daí as pessoas falam assim: “Vera, você é maluca”. Teve uma vez que um rapaz fez isso, não é? Foi lá e contou a história dele, triste, que eu quase chorei: “Meu Deus, coitado. Quanto você precisa?”. “Ah, quinze reais”. Levei um susto: “Quer dizer que você vai embora para a sua terra?”. “Ah, vou dona Vera, vou juntar com o que eu tenho, vou sair do tráfico, não aguento mais essa vida, se eu ficar aqui vão acabar me matando”. Contou a história dele. Passando cinco dias, já tinha até esquecido que eu tinha dado dinheiro a ele e dou de cara com ele na minha rua, pertinho da minha casa, só que ele não esperava; então eu vi, ele mentiu, mas eu vi o seguinte: eu fiz a minha parte de ajudar, ele contou e eu ajudei, ajudei porque acreditei, e mesmo que ele mentisse não é para mim que ele vai prestar contas, é para Deus; então, é um fardo a mais que ele vai carregar e, infelizmente, a gente sabe que tem essas coisas, que as pessoas mentem, matam a mãe, mata filho, mata... entendeu? E vai lá e conta a historinha triste, não é?

 

P/1 – Então, Vera, muito obrigada pela participação.

R – Tá, obrigada a você pela oportunidade que deu. Naquele dia lá, eu fiquei pensando: “Ah, será que minha escola vai ser chamada? Acho que não vai ser chamada não”. Porque eram muitas escolas, não é? Muitas escolas e vocês tinham falado que tinha um número fazer essa entrevista, aí eu nem esperava; quando ligaram e falaram assim, eu falei: “Nossa...”. Parecia um prêmio, sabe?

 

P/1 – Que bom.

 

R – “…Ai, que bom, nossa, vão botar a Weguelin”. Depois, na próxima etapa, eu falo dos sonhos, do que vou fazer naquela escola.

 

P/1 – Combinado. Quando você for a São Paulo você vai lá dar mais um pouco da sua entrevista no Ponto de Cultura, dos sonhos.

 

R – Nossa, dos sonhos.

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