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História

Uma vida nova no Brasil

História de: Sidonie Feith
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/03/2020

Sinopse

Sidonie (ou Sidônia, como costuma ser chamada) perdeu parte de sua família em campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Veio para o Brasil e aqui também enfrentou muitas dificuldades: a barreira da língua, a saúde frágil de uma filha, necessidades materiais. Nesta entrevista, ela nos conta suas lembranças.

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História completa

 

P/2 - D. Sidonia, por favor, qual e o seu nome completo e a data do seu nascimento?

R - Meu nome e Sidonie Feith. Eles escreveram Sidonie, em vez de Sidonia. Eu tenho oitenta anos e nasci no 28 de setembro, 1907. Na Tchecoslováquia. Holešov.

P/2 - Holešov e o nome da cidade?

R - É uma cidade da Morávia. Em alemão é Holleschau, mas em tcheco é Holešov, na Morávia.

P/2 - Como era o nome do seu pai e o da sua mãe?

R - A minha mãe [se] chamava Carolina Grun, ou Lina. Grun, como verde. E do meu pai foi Ignats Engel, como anjo. Ele teve a sorte de morrer antes dessas deportações, com sessenta anos. Agora, que mais?

P/2 - O nome da sua mãe, de solteira, o sobrenomezinho? Fala só o sobrenome. 

R - Grun. Lina Grun. Como verde. Ela, casada, foi Engel. 

P/2 - Engel. Desculpe, eu que não entendi. Quantos irmãos e irmãs a senhora teve?

R - Eu tive quatro irmãos. Nenhuma irmã. 

P/2 - Pode falar o nome deles?

R - Em alemão ou em... Foram... 

P/2 - Como a senhora achar melhor.

R - Ernst, como Ernesto, Ludwig, Fritz, como Frederico, e Viktor. 

P/2 - E seus avós também eram dessa cidade da Tchecoslováquia? Ou eles provinham de uma outra cidade?

R - Bem, os meus avós... 

P/2 - Fala um pouquinho dos avós do pai e da mãe.

R - Bom, por parte da minha mãe eles moravam na cidade de Olmitz - Olomonc, em tcheco, na Morávia. Morávia é uma parte da Tchecoslováquia. E outros, da parte do pai, moravam... Em tcheco Uherske Hradiste, mas eu vou dizer em alemão, é mais fácil. Ungarisch Radisch, também na Morávia.

P/2 - A senhora lembra um pouco da casa onde viveu nessa cidade da Tchecoslováquia? Como era a sua casa, o seu bairro?

R - Eu estava propriamente vivendo não onde nasci, mas na cidade de Brun - em tcheco Brno.

P/2 - Por que que a senhora estava vivendo em Brun? Por quê?

 

R - Brun, na Morávia; três horas com o trem para Viena. (risos) 

Nós fomos parte, desta vez, da monarquia austríaca, até 1918. E lá, eu vivi naquela cidade, meu pai era oficial da... Foi oficial na estrada de ferro, já na época da Áustria monarquia, mas depois ele continuou naquela cidade mesmo. Ele foi social democrata, sabe? Esta vez foi uma coisa muito assim, que acharam perigosa. (risos) 

Lá eu vivi bastante tempo, até 33. Fui educada nas escolas alemãs, escolas não muito altas, e depois trabalhei num escritório. 

P/2 - A senhora ainda se lembra o nome dessa escola e depois o nome desse escritório que a senhora trabalhou?

R - Bem, eu me lembro, mas... (risos)

P/2 - Não tem muita importância. Só se lembrar fácil, fala.

R - Chamava-se em alemão Burgerschule. Burgerschule, escola dos cidadãos. Mas isso ainda na monarquia. E depois, absorvi uma escola de comércio e entrei... Com quinze anos, entrei num emprego. Aquela firma se chamava Gerstmann & Lindner. Meu primeiro emprego. 

P/2 - O que a senhora fez nesse trabalho?

R - Fiz datilografia. Mas foram ainda outras firmas onde entrei depois e... Esse é meu neto.

(PAUSA)

P/2 - Estava falando da escola, né? A escola…

R - Depois, para me educar um pouco mais, frequentei de noite o que se chamou Volkshochschule. Escola alta... Não sei.

P/1 - Escola para o povo, para o público.

R - Para o povo. Sim. Lá estudei inglês. Também tinha, desta vez, muitos cursos em psicologia. Chegaram...

P/1 - Mas isso na cidade de Brun, ainda?

R - Brun. Sim. 

P/2 - A senhora queria estudar o quê? Da sua vontade, a senhora tinha vontade de estudar alguma coisa especial? De se formar? De trabalhar em quê?

R - Queria, mas nós, como fomos muitos filhos, não tínhamos tantos meios. (risos) Mas sempre me interessei por muitos assuntos, especialmente aquele... Desta vez surgiu aquela ciência... Psicologia não, pelo Dr. Freud. Foram muitas palestras que chegaram da Viena, gente que deu essas palestras, como, Dr. Alfred Adler.

P/2 - A senhora tinha quantos anos quando ouvia essas palestras?

R - Bem, talvez tivesse mais ou menos... Espera... Mais ou menos vinte anos. Mas antes ainda... Então... Nao sei se a senhora quer saber...

P/1 - Não, pode contar o que a senhora tiver de memória, a senhora pode ir contando pra gente. 

R - Isso, mais ou menos... Nós tínhamos muitas organizações lá para... Que foram ligadas à social democracia, ao Partido Social Democrata. E proporcionavam também viagens para a juventude. Foi propriamente uma troca de gente. Por exemplo, nós viajamos para a Dinamarca, fomos convidados. E eles viajaram para a Tchecoslováquia, ficaram lá, hospedados de graça. (risos) 

P/2 - Mas era uma viagem de lazer ou a senhora era delegada, foi alguma... 

R - Não, sempre na época de férias escolares. Foi assim uma espécie de troca de amizades, sabe? Não foi mandada, só quem queria. E também pela Europa, íamos à Alemanha. 

P/1 - Mas eu não estou entendendo uma coisa. A senhora, então, já estava envolvida um pouco com um partido político? É isso? Não? 

R - Não, eu não estava. Só assim... Não propriamente. Mas fui nesse partido que se chamou Social Democrata, que tinha uma grande organização de juventude. Eles fizeram muita coisa pra educar também a gente e para ‘solidizar’... Fazer mais sólidas as amizades com todos na Europa. 

P/2 - E a senhora frequentava essas viagens, a senhora frequentava com outras pessoas? Eram judeus, não judeus, como era isso?

R - Não eram só judeus, também outros, mas tinha muitos judeus lá. Especialmente o líder dos judeus era, desta vez, Dr. Czech, que foi social democrata e, depois, ministro da Tchecoslováquia. 

P/2 - E a sua cidade, como era? A casa que a senhora morou, a sua cidade, o seu bairro?

R - A casa onde morei foi muito modesta, porque fomos cinco filhos. O meu pai trabalhou muito e deixou todos estudando. Uns foram ao ginásio, um outro foi para escola técnica. E assim pelejamos. (risos) A casa foi muito modesta, como já disse. Tinha só dois quartos e uma cozinha, e dependências tinha pouco. Tínhamos que buscar água no corredor. (risos) Mas também trabalhamos bastante em casa. 

P/2 - Era prédio ou era uma casa? Era uma casa?

R - Não, foi num edifício que foi propriamente para os... Para os... 

P/2 - Os empregados da empresa?

R - Nao, da estrada de ferro, que deixou como... Chamava-se regie, sabe, nós não pagávamos muito aluguel. Os homens receberam... Eu não sei como se chama isso.

P/2 - Emprestado pela companhia para o funcionário morar.

 

R - Sim. Tínhamos que pagar relativamente uma pequena coisa para morar lá, depois foi a Primeira Guerra Mundial. A guerra, ela durou até... Começou de ano 14 e demorou até 1918. 

E lá, então, sofremos bastante na Primeira Guerra. Tinha poucos alimentos. Até que eu fui buscar… Eu tinha dez anos, mais ou menos, nem dez, e mandaram-me para os campos, com os camponeses. Chama-se isso hamstern, sabe hamstern? Não... Para... Não sei. Pra ter mais alimentos, então. E nós tínhamos que deixar lá, às vezes, para os camponeses… Eles não deram de graça, tínhamos que deixar roupas. Também queriam fumo, mas não tinha, ou açúcar, então foi uma espécie de troca. 

Isso foi já na fronteira com a Áustria, mas eu viajei muitas vezes para ajudar. E meu pai foi mandado para a Polônia para dirigir esses comboios da guerra. Ele estava lá, mas não lutou. Ele foi lá como oficial.

P/2 - Pelo trabalho mesmo. E seus irmãos, serviram a guerra?

R - Meus irmãos, desta vez, estavam ainda nas escolas.  

P/2 - Eram menores.

R - É. O último, mais novo, nasceu só em 17, antes do término da guerra. Mas eu me lembro que tínhamos tempos duros. Muitas vezes minha mãe disse... Eu cheguei para dizer: “Estou com fome.” Ela disse: “Não tenho nada. Tem que esperar até que chegue a comida.” Ela esperava batatas e essas coisas. Muita... Muita luta. Mas quando terminou a guerra já melhorou bastante. A Tchecoslováquia se separou da Áustria [em] 18 e fundou a Tchecoslováquia, o estado. O primeiro presidente foi um homem muito bom, Dr. Tomáš Garrigue Masaryk. Ele foi um filho de um escravo. Não propriamente escravo... 

P/1 - Servo. Um camponês.

 

R - Sim. Ele chegou a estudar e foi muito inteligente. Todo mundo gostava dele. Voltamos para ele, Dr. Tomáš Garrigue Masaryk. Muito conhecido, sabe? 

Depois da guerra, todo mundo procurou trabalho e achou também, mas não foi bem pago. (risos) Mas a gente viveu bastante feliz, porque já não tinha guerra. E a juventude se divertiu sempre. (risos) Não pensava mais nos tempos duros e... Mas depois também chegaram dias difíceis, quando veio a inflação, a grande inflação - isso já foi em 1928, 29, mas quem mais sofreu com isso foi a Alemanha. A Tchecoslováquia não tinha tanta inflação porque tinha muito campo, lavradores, então eles não passaram tanta fome como nos outros lugares. 

Depois chegou a historia de Hitler, né? Ele apareceu em Munique, mas ninguém o tomou a sério. Pensaram: “Ah, esse é um palhaço.” Mas infelizmente eles não o julgaram direito, porque na Alemanha também foram tempos ruins. Essa inflação enorme, depois muito desemprego. Ele prometeu muito emprego e, em geral, xingou os judeus, botou toda a culpa nos judeus. Disse que eles eram a desgraça deles, eles que fizeram tudo isso e estão em todo o mundo fazendo ‘ruim’. 

P/2 - E isso que o Hitler falava na Tchecoslováquia, a senhora sentia que os tchecos estava começando a se influenciar pelas ideias do Hitler? Os tchecos estavam começando a sentir antissemitismo também? Como é que essas ideias do Hitler começaram a chegar para vocês na Tchecoslováquia?

 

R - Foram muito combatidas, especialmente pelos social-democratas. Mas ele foi tão... Ele contou com o desemprego, prometeu [para] a gente emprego e contou também com esses antissemitas, que tinha bastante lá. Então, quando ele foi nos anos 30, 32, foi nomeado como... Como chama? 

P/2 - Chanceler.

 

R - É chanceler, não? É uma pena que a minha filha não está. Ela sabe alemão, podia ajudar. 

Todo mundo disse: “Ah, Hitler vai-se embora, é ridículo.” Mas ele subiu... Ele... Até gente inteligente... Professores concordaram com ele, entraram naquele partido nacional-socialista, que foi uma coisa horrorosa. Mas muita gente já tinha medo, porque disseram: “Isso vai acabar ruim.” E pediram [para] parentes na América do Norte e outras partes para fazer o possível pra viajar [para] lá. Isso talvez não tenha sido tão difícil nessa época. Difícil foi depois, quando ele chegou ao poder. 

P/2 - A sua família também estava pretendendo emigrar já nessa época? A senhora já estava com alguma ideia de emigração? Quando começou a ficar forte o antissemitismo?

R - Não. Nós pensávamos que ele não conseguiria subir. E não contamos com o povo alemão, que seguiu a ele como um Messias, sabe? Pensavam: “Ele é a salvação.” Mas quando chegou lá nos anos 38, 39, nós já sabíamos que queríamos emigrar. A maioria das pessoas queria, mas não conseguiu. Também minha mãe, meus irmãos não conseguiram. 

Eu tive a sorte de receber aquela chamada da nossa sobrinha aqui. E no ano 39... No ano 40, viajamos, então. Tivemos sorte. Para Viena, depois Itália e, com o navio de Gênova... O navio se chamou Oceania. Um dos últimos navios para sair... Já tinha começado a guerra, não? Mas antes eles tinham tirado os rádios, nós não podíamos ouvir rádio. Proibiram os alemães, quando ocuparam... 

Estou dando pulos, né. (risos) Esqueci de dizer. Quando os alemães chegaram, me lembro, no quinze de março, ouvi falar pelo rádio: “Todo mundo vai ficar em casa. Não saiam para a rua, os soldados alemães ocupam a cidade.” Foi uma coisa horrorosa. 

P/2 - D. Sidonia, nessa época que a senhora estava falando para a gente da Segunda Guerra, a senhora já tinha se casado. Como foi…

R - Eu casei no ano 34. 33, acho. 33. E depois nasceram as filhas.

P/2 - Com quem a senhora casou?

R - Como? 

P/2 - Com quem a senhora casou? Como foi seu casamento? Quem era o seu marido, o que ele fazia? Como é que vocês se conheceram?

 

R - Meu marido se chamou Wilhelm Feith. Ele morreu no dia oito de janeiro, aqui, com 88 anos. Ele nasceu [em] 1899. 

Foi um marido muito bom, sempre se preocupava conosco. E no ano [de] 34 nasceu a primeira filha. Mariana Erika. Conheceu?

P/1 - Não. Não conheci.

R - Mãe da Cláudia. O nome dela, da filha, era Mariana Erika Feith. 

P/2 - Como é que a senhora conheceu seu marido? Ele também participava do Partido Social Democrata?

R - Sim. Ele foi social democrata e perseguido pelos nazistas. Ele nasceu em Berlim e tinha trabalhado lá até ano 30 e... Não, ele veio... 

Não, não é assim. Ele também foi um tempo para Viena, viajou para a Áustria porque lá estava morando a mãe dele, minha sogra. Ele ficou lá algum tempo, mas depois voltou para Alemanha e aceitou um emprego no... Como se chama? Onde se fazem impostos... 

P/2 - Na Fazenda. No Ministério da Fazenda?

R - Mais ou menos assim. Impostos. Foi... 

P/2 - Não tem importância. Ele tinha uma profissão? Uma profissão certa? O que que ele era?

R - Sim. - Ele foi... Como se chama? De livros. Meu Deus! Eu sabia tudo. Ele foi... De contas, sabe? 

P/2 - Contador. Contabilidade.

R - Contador, sim. E lá foi no Ministério de... Não sei. Mas... Lá na Tchecoslováquia, ele... Nós moramos depois na cidade de Praga. Sim. 

P/2 - Como foi que a senhora o conheceu? Foi dentro do partido que a senhora conheceu?

R - Sim, mais ou menos. Tinha essas reuniões da juventude socialista e foi lá que eu o conheci. Ele já tinha emigrado da Alemanha porque foi no ano 33. 33, parece.

P/2 - Ele tinha emigrado por motivo já de perseguição?

R - Ele foi perseguido pelos nazistas porque tinha um jornal que se chamava Freies Deutschland, Alemanha Livre, e às vezes escrevia artigos para ele. E quando os alemães chegaram nós queimamos tudo porque tínhamos medo que o pegassem. Então... Enquanto isso, meus irmãos foram mandados para campos de concentração. Primeiro foi Ludwig. Ele foi nas... Como se chama?

P/2 - Campo de trabalho?

R - Não. Na Tchecoslováquia, ainda. Mandaram para [um lugar] onde se tirava... Uma coisa perigosa que se tirava da terra. 

P/2 - Era um campo de trabalho?

 

R - Não propriamente ainda, mas eles forçaram a gente a trabalhar. Primeiro foi em Theresien, Theresienstadt, mas depois mandaram para aquelas minas... Para achar urânio. E lá foi perigoso. 

Esse foi o Ludwig que mandaram, depois o mandaram para Auschwitz. O segundo, Ernst, foi mandado para Theresienstadt. 

P/1 - Isso em que época, D. Sidonia? A senhora se lembra?

R - Como?

P/1 - Em que ano foi?

P/2 - Que os seus irmãos começaram a ser obrigados a sair para a concentração…

 

R - Isso deve ser 39 porque nós já tínhamos saído e eles foram mandados depois... Eles tinham que deixar a casa deles e foram muitos juntos, num apartamento só. Eles não podiam ter casa própria. E depois mandaram um fora e outro fora. 

Ernst, o mais velho, foi mandado para Theresienstadt. E lá estava um amigo da escola dele, que se chamava Jakob Edelstein. Ele tinha que ser uma espécie de burgomestre. Os alemães disseram que tinha que cuidar dos judeus lá, mas ele foi uma espécie de burgomestre. Também assinou aqui, viu? Jakob Edelstein, janeiro [de] 43. Isso foi em 43. 

Lá, então, ele ficou quase até o fim da guerra, o irmão Ernest, mas ele tinha sorte, ele tinha que ser fuzilado. Mas quando os russos chegaram, os alemães deixaram o campo, a cidade.

 

R - Edelstein foi muito corajoso. Depois um desses alemães o fuzilou porque ele tinha feito uma coisa que não devia, os alemães consideram muito ruim para eles. Quando uma criança nasceu e quando um velho morreu, botaram o nome dele na criança para não aumentar a população, não deviam ser mais gente do que tinha registrado. Os alemães fizeram uma espécie de contagem, mandaram todos fora da cidade de Theresienstadt, contaram e viram que tinha muito mais gente, então no interrogatório eles pegaram o... Filho de Jakob Edelstein e o fuzilaram diante dele.  O filho dele, um rapaz já, e disseram: "Olha, você vai dizer tudo que você sabe sobre esse caso ou nós vamos fuzilar esse seu filho." E o Edelstein, que sempre foi muito corajoso, disse: "Verdammtes Schwein!” Miserável! 

Edelstein era também um dirigente na organização dos sionistas e conseguiu mandar muitos, especialmente jovens, para a Palestina. Ele mesmo sucumbia. Ele chegou como jovem da Polônia, Harodenka, e estudou junto com Ernesto, meu irmão, na Handel Akademie de Brno. E foi um rapaz muito honesto, muito bom, sempre. 

Depois, o meu terceiro irmão, Fritz, primeiro foi mandado para Theresienstadt e minha mãe também. Fritz com a esposa dele, a minha mãe e os irmãos da minha mãe, tios.  

P/1 - Mas nessa época, a senhora também estava nessa cidade, não? A senhora viveu essa…

R - Não. Não. 

P/2 - O que aconteceu com a senhora e o seu marido nesse período, quando os seus irmãos começaram a ser mandados pro campo de concentração, sua família?

R - Eu não estava mais lá. Nós tínhamos já viajado em 1940. 

P/1 - A senhora estava em Praga, não?

R - Como? Já viajáramos. Tivemos aquela sorte, né?

P/1 - Ah, já viajaram pro Brasil. Quando é que a senhora veio pro Brasil?

R - No ano 40. 

P/1 - A senhora lembra a data, direitinho?

R - Eu me lembro. 21 de fevereiro de 40. 

P/1 - A data que a senhora saiu de lá, de Gênova, foi essa data?

R - Não. Quando chegamos para cá. Brasil. 

P/2 - A senhora veio direto da Tchecoslováquia para o Brasil ou a senhora ainda passou por outros países?

R - Passamos pela Áustria, onde tínhamos que morar com... Não podíamos ir num hotel. Judeus não eram permitidos no hotel, então moramos junto com muitas outras num pequeno apartamento. Toda essa gente foi mandada depois para campos de concentração. 

P/2 - Nessa época, a senhora e o seu marido deviam conversar sobre os acontecimentos da guerra. Vocês tinham medo que fossem mandados para um campo de concentração e fossem morrer também? Vocês discutiam sobre isso, tinham medo e por isso quiseram emigrar? Seu marido e a senhora já estavam conscientes disso tudo que ia acontecer. Não tinham esperança que a coisa fosse melhorar, só que fosse…

 

R - Ah, já, muito. Mas eles também... Bem, não parecia a nós. Foi cada vez pior. Muita gente que tinha dito: “Ah, vocês não viajam. Hitler vai sair, não é tão perigoso.” Mas, infelizmente, se enganaram. 

Esses outros irmãos ainda foram mandados, junto com minha mãe, primeiro em Theresienstadt e depois para... Um foi para... Não. Eu não sei que campos foram. Na Polônia. E minha mãe, Frederico, a família e tios perderam lá a vida. Não foram mais encontrados depois da guerra. Mas o mais novo, o Viktor sobreviveu até 45. Eles mandaram essa gente naqueles navios Cap. Arcona, Deutschland e mais um que eu não me lembro o nome, Thielbecek - foram lá no Báltico e deixaram lá. Mas nesse dia, três de maio de 1945, a RAF, inglesa, apesar que já estava assinado o armistício e não podiam mais, eles mandaram lá aviões e bombardearam os navios. Muitos pularam dentro da água gelada e perderam a vida. Mas um, que se chamava Burian, que foi um tcheco que se salvou falou depois, no rádio, sobre isso. E meu irmão, que tinha voltado de Theresienstadt para Brno, ele ouviu no rádio aquela lembrança daqueles infelizes que perderam lá a vida, então ele foi para Praga e perguntou se conheceu um Viktor Engel, meu irmão. Ele disse: “Sim. Ele pereceu.” Foi trágico, porque ele tinha só 34 anos e foi no último dia da guerra. 

P/2 - Ele se atirou no mar também?

R - O irmão. Mais novo. 

P/1 - Qual foi o irmão que ouviu no rádio isso?

R - Ernesto. Quando os russos chegaram, então, os alemães deixaram os campos. Por exemplo, aquele em Auschwitz, eles mandaram os restantes presos para as estradas. E ainda, atrás deles, metralhadoras, sabe? Esse irmão, Ludwig,  caiu na estrada, num vale; os russos chegaram e salvaram muita gente ainda com vida. E aquele... O mais novo, então, tinha perecido por causa desses bombardeios porque talvez os ingleses pensaram que eram contagiados de tifo; não sei por que eles os fuzilaram ainda dentro do mar. Depois, na rádio, em tcheco, eles falaram disso e disseram que não é bom lembrar mais isso. Não sei por que eles fizeram. Não escreveram mais sobre isso. Parece que os ingleses não queriam. 

P/1 - Essa catástrofe que eles fizeram, né?

 

P/2 - Erraram. 

A senhora viajou com o seu marido. A senhora conseguiu se corresponder com alguma pessoa da sua família, ainda durante o tempo que eles estavam no campo de concentração? Nunca mais? A senhora perdeu o contato?

R - Não. A minha mãe tinha escrito para América do Norte, porque ela se preocupava ainda assim. Eu não escrevi mais para ela, porque estava incerta do nosso futuro aqui. Nós passamos tempos difíceis aqui, também, no começo. Muito difíceis. E também a minha filha menor - Elisabeth, ela morreu já, [em] 1973 - estava sempre doente. 

Já na viagem foi uma coisa horrorosa. Saímos de Praga quando tinha trinta graus abaixo de zero, foi um inverno horroroso. Ela já estava doente, estava gripada, não quis comer. E quando chegamos para... Viajamos primeiro para Veneza e depois para Gênova, mas ela estava todo esse tempo doente. E quando chegamos para o navio, Oceania - fomos os primeiros lá -, eu com ela, ela perdeu os sentidos. Ela começou a ter espuma na boca, com muita febre. Felizmente, lá foi o médico, deu remédios, mas ela esteve toda a viagem doente. Quando chegamos para cá, ainda estava muito doente. 

Naquela viagem, me lembro também de uma coisa. O meu marido procurou nossas malas. Não tinha muita coisa não, mas eles mandaram no navio errado. Para a América do Norte. (risos) Que coisa, não?

P/2 - Vocês perderam as malas?

R - Mas depois eles conseguiram mandar. Eu me esqueci também [de] uma coisa... 

P/1 - Mas por que que a sua mãe escreveu pra America do Norte?

R - Porque lá tinha uma tia. Ela não sabia nosso endereço porque eu não tinha escrito, então ela escreveu e aquela tia me escreveu. Ela se preocupava muito conosco, porque eu não escrevi. E depois, foi a última coisa que eu ouvi. Eu só achei uma carta dela quando procurei aqui, que ela escreveu... Porque ela teve que ir para Theresienstadt. 

P/1 - A senhora ainda tem essa carta?

R - Eu acho que sim. Com a morte do meu marido, eu fiz muita procura e desarrumei tudo. Preciso ainda ter um tempo pra procurar.

P/2 - E o seu pai? O seu pai foi junto com a sua mãe pro campo ou ele continuou trabalhando no trem?

R - Meu pai foi morto antes, quando já estávamos lá. Ele morreu [de] câncer. Eu achei o túmulo dele na cidade de Brno, Brun.

P/2 - Em que ano que ele morreu? A senhora lembra?

R - Não lembro. Deve ser mais para... Peraí. Ele ainda conheceu minha filha, Mariana, então deve ser lá pra 37, 38, parece, que morreu. Antes dessas coisas. 

P/2 - E sobre seus irmãos, a senhora não teve nenhuma noticia? A senhora só soube que ele foi, que eles foram pros campos... Quem se salvou, nem o outro que morreu em 45? Os outros três.

R - Não. Depois da guerra, tinha um jornal na América do Norte que se chamava Aufbau e a gente procurava os perecidos. E lá, então, meu marido e eu mandamos investigações sobre nossos parentes. Sobre a minha mãe, os irmãos. Recebi muitas cartas de gente que emigrou para a América do Norte e me deram o endereço do meu irmão, Ernst. Então, escrevi para ele e para o Ludwig e eles me escreveram ainda muitas cartas. Eu perguntei: “Cadê a minha mãe?” Eles disseram [que] o Ludwig viajou para a Polônia para verificar se não voltou para um lugar. Mas eles, os alemães, tinham massacrado todos, todo mundo. Desses eu recebi cartas e os endereços, ainda. 

P/2 - E a senhora sabe como cada um morreu? A senhora sabe como foi a forma que os alemães mataram a sua mãe?

R - O Ludwig, [quando] voltou de Auschwitz, disse que eles fizeram de maneira seguinte: eles abriram valas, fuzilaram todo mundo e deixaram cair nas valas. Ele me escreveu, depois infelizmente não acharam mais ninguém. Só esses dois. Ele e o irmão de Theresienstadt voltaram. E aquela tinha ainda a sorte... Ele tinha que ser fuzilado. Eles os usaram também contra os aviões Flugabwehr (defesa de ataque aéreo). Em casos perigosos, não. Eles tinham... Em vez dos alemães, atacaram aviões. Puseram eles em frente, tinham que fazer o que mandaram. 

P/2 - A senhora se lembra, tem mais informações do que aconteceu com a sua família, um pouco mais detalhado, um a um. A senhora já contou muito bem de três. Do que se salvou e depois morreu pelos ingleses, o outro…

R - Não. Não escreve dos ingleses, vão ficar zangados. Bombardearam porque pensaram que estavam contaminados de tifo. Chegaram dos campos.

P/2 - E aqueles outros, os que não se salvaram, a senhora tem alguma informação de como eles morreram? A sua mãe, a senhora já falou que ela deve ter sido fuzilada. E dos seus outros irmãos, a senhora sabe mais alguma coisa?

R - Parece que os outros também morreram dessa maneira. Quando os alemães chegaram em Theresienstadt lá estava muito superlotado, então eles queriam que os judeus fossem pra outros lugares. Prometeram a eles que na Polônia seria um gueto muito bom. “Vocês podem viver sua vida lá”, disseram para a gente, para atrai-los para a Polônia. E minha mãe, coitada, caiu nessas palavras e ele se... Foi voluntariamente, disseram. Os parentes, os irmãos, os tios e outros da família não queriam deixá-la só, então foram junto com ela.

P/2 - A sua família era religiosa? A sua mãe queria ir para esse gueto, voluntariamente, para...

R - Não, não propriamente. Foi normal, sabe? 

P/2 - O que se fazia na sua casa? O que o seu pai e a sua mãe faziam nessa parte da religião judaica? Tinha uma tradição? Antes da guerra.

R - Eles foram para o templo quando tinha essas grandes festas, como Pessach, na festa de Pessach e também Yom Kippur e Ano Novo. Os meus avós foram muito religiosos, mas nós, menos. Então... Mas sempre fomos ligados... Eu não fui religiosa, até que sou ateia. Não posso acreditar em Deus quando aconteceram essas coisas e [ele] deixou massacrar seis milhões de judeus.

P/2 - A sua família tinha ideias mais fortes, ideias políticas mais fortes do que ideias religiosas?

R - Sim.

P/2 - A sua família tinha pessoas ateias. A sua família era mais ateia?

R - Não, não eram. O meu pai nunca... Ele sempre disse: ninguém vai dizer kadish para mim. Sabe o que é kadish? [Ele disse] para mim, e se queixou. Mas um irmão que foi socialista, ele mesmo, depois de chegar do campo, foi lá, disse kadish para ele. (risos) Então ele, parece, acreditava mesmo, apesar que disse que não acreditava. Mas eu não sou hipócrita, eu não vou dizer que acredito. Eu sou ligada ao povo judeu e sofro muito, sofri muito com eles. E ainda sofro quando se faz injustiça, antissemitismo, mas eu não vou dizer que sou crente. Eu não sou. Eu me sinto judia e uma parte do povo judeu. 

P/2 - A senhora tem mais alguma lembrança sobre esse período da guerra pra contar pra gente ou eu posso perguntar já pra senhora como é que foi a sua vida no Brasil? Como é que a senhora prefere? A senhora ainda tem mais alguma coisa da guerra pra contar pra gente? Tudo que a senhora quiser contar é ótimo.

R - Pode ser, mas... Como já disse, sou velha já. Depois de um tempo, eu me lembro das coisas.

P/2 - Se a senhora também quiser falar alguma coisa que a senhora não queira que grave, a gente desliga o gravador. Se a senhora ainda tiver alguma coisa pra contar... 

R - Sim, sim. Bem. Esse foi... Foram anos terríveis, porque tinha muita pena de gente que ficou lá. Eles até não acreditaram que tínhamos a sorte de ter essa chamada. Ela chegou… Um telegrama de Viena, que está lá, não sei por que mandaram para Viena, tem lá a chamada. Eu telefonei para o meu marido e disse: “Ah, eu nao sei que é isso.” Ele disse: “Meu Deus, você não sabe que é nossa salvação, não? Vamos.” Mas, infelizmente, só para nós. E queria mandar, depois, também para eles, para a família, mas não foi mais possível.

P/1 - Mas foi a senhora que pediu pra essa sobrinha fazer a chamada?

R - Parece [que] meu marido escreveu para ela, mas eu não sei [ao] certo. Acho que eles conheciam-nos ainda. Porque a mãe do meu marido já tinha emigrado para o Brasil. 

P/2 - Porque era mais fácil conseguir visto para imigração quando já tinha uma pessoa da família que chamava, né?

R - Sim. Então, ela fez isso para nós porque o meu marido tinha também lá na Europa ainda muitos parentes. Eles foram para a Itália, foram também numa espécie de campo de concentração... 

P/2 - Na Itália?

R - Sim. Com o Mussolini. Foi uma... Que os judeus tinham que se concentrar. E depois, eles escreveram para a América do Norte, onde tinha também parentes deles, e eles mandaram um permit - permit se chama, uma espécie de chamada. Mas eles tinham que lá pagar para... Uma soma para... 

P/2 - Um depósito para viajar.

R - Sim. Mas muitos judeus foram. E depois, uma parte foi para a França. E quando a França  foi ocupada, tiveram que sair também. Foram para a América do Norte. Tiveram sorte ainda. 

P/2 - A família do seu marido, então, conseguiu se salvar? Teve que viajar várias vezes, mas ainda conseguiu se salvar. Irmãos dele?

R - É. Esses conseguiram.

P/2 - Os irmãos do seu marido conseguiram?

R - Não, ele não tinha mais irmãos. Tinham morrido já antes. Mas a irmã, que foi para a Itália, depois para a França, depois conseguiu ir para a América do Norte. Até que o filho dela, Hans Heger, foi alistado na América do Norte, e lutou na Europa contra os nazistas.

P/2 - Esse irmão da senhora que conseguiu se salvar, o Ernst…

R - Aquele? Qual deles? 

P/2 - Um deles conseguiu se salvar.

R - Dois. Um de Theresienstadt e outro de Auschwitz.

P/2 - E eles viveram até que ano? Estão vivos ainda?

R - Não. Eles morreram também. Um, esse [de] Auschwitz, ele disse que não podia esquecer. Isso ficou tão triste. Mas ele achou a mulher dele, com a filha, na cidade de Praga. Elas sobreviveram. Ela não era judia, sabe? Ela lavou roupas para outras para poder viver, porque não tinha ajuda nenhuma. E a filha dela, Helena, ainda está viva hoje. Ela está na Suíça, mas foi primeiro para a Tchecoslováquia. Depois, eles fugiram. Quando os russos chegaram para lá, no ano 68, então, ela conseguiu vir para a Suíça. Mas o irmão dela, o Viktor, ainda está na Tchecoslováquia. O filho desse Ludwig. Casou lá, tem filhos.  

P/1 - E o Ludwig morreu em que ano? A senhora se lembra?

R - Deve ser 58. 

P/2 - Morreu logo depois?

R - Eu vou ver as cartas dele, que ele ainda escreveu, do seu filho. 

P/2 - Se a senhora não se incomodar, a gente poderia tirar xerox dessas cartas? A senhora tem isso…

R - Estão em alemão. 

P/2 - Se a senhora nao tiver problema de emprestar pra gente, nao tem problema. A gente vai ter tradutor também, justamente por que isso está acontecendo muito. Tem muita gente emprestando documentos em outras línguas.

R - Sei. Vou achar ainda. Eu vou procurar tudo. Mas tem que me dar paciência, porque… (risos) Nesses dias eu tenho que fazer muita coisa. Tenho que fazer radiografia, tenho que fazer um exame de urina, porque eu tenho pedras nos rins, tem que ser controlado. Eu tinha que ser operada, mas eu não quis. (risos) 

P/2 - Tem que tomar chá de quebra-pedra.

R - Como? 

P/2 - Chá de quebra-pedra. Aquele chá que toma para quebrar pedra dos rins.

R - Não, mas... Bem, eu já ouvi falar disso, mas não tem propriamente. O médico disse que não tem. Parece que quer operar mesmo. Bom negócio. (risos) Não, mas... Eu sou covarde, mas antes eu não era. Com a idade, a gente fica assim. Depois, penso que já sou velha, e como as coisas hoje também não são muito rosadas, nao tenho vontade muito de viver muito tempo. Não vale a pena.

P/2 - Ah, que é isso. Mesmo [por] pouco tempo, tem que viver bem.

R - A senhora ainda é muito nova, né?

P/2 - Mas mesmo vivendo pouco tempo, tem que viver bem, sem dor. A senhora deve ter muita dor, né?

R - De vez em quando. Mas eu não sou assim, [do tipo] que chora logo. (risos) 

P/2 - A senhora quer contar pra gente, então, como é que foi a vida de vocês? Como é que começou essa vida nova aqui no Brasil? Como vocês trabalharam, como é que foi a criação…

R - Isso também é uma história... 

P/2 - A criação dos filhos? O que seu marido fez aqui, se ele continuou também tendo uma atuação política?

R - Não foi fácil, não. - Tá bem. Nós chegamos aqui, então, em 21 de fevereiro [de] 40. 

P/1 - Quanto tempo demorou a viagem de Gênova pro Brasil?

R - Eu acho que foram duas... Mais de duas semanas. Mas quando eu vi, no navio, a primeira vista, eu fiquei feliz. Eu vi, o navio se aproximou, parece que foi Recife... Onde tem esses elevadores. Bahia, não?

P/1 - Bahia, Salvador.

R - Sim. Então, eu vi de longe umas palmeiras e casas brancas, eu fiquei tão feliz. Achei tudo bonito. Muito bonito. Disse: “Deve ser... Vai ser uma vida boa, não?” Só tinha pena que os outros ficaram lá. E quando... Então, a irmã do meu marido foi nos receber nos cais e nós fomos para a casa deles, que foi aqui na... Eles tinham uma casa alugada. 

P/2 - A senhora desceu na Bahia? 

R - Não. 

P/2 - Desceu no Rio. Só parou um pouco no porto da Bahia. 

R - Sim, sim. Espera, não sei. Eu desci na Bahia, mas foi outra vez. Misturou tudo. Foi outra vez, quando viajei no navio da Inglaterra para cá. Mas não muito tempo. Mas... Então, eles nos... 

P/2 - Mas a senhora veio encontrar os parentes do seu marido aqui no Rio?

R - Ela nos levou para a casa deles. Tinha lugar para nós e...

P/2 - Eles moravam onde, aqui no Rio?

R - Moravam na Av. Copacabana, acho, em frente da... do... Como é que se chama? Aquele cinema lá. 

P/2 - Roxy.

R - Roxy. Em frente do Roxy. Foi uma casa pequena que depois foi derrubada, mas não era deles. Eles tinham alugado. E o marido da minha cunhada, então, ele fez lá... Tinha negócio com fazer... Com poltronas, essas coisas. 

P/2 - Estofamento.

R - Estofador. 

P/2 - O seu marido tem duas irmãs, mulheres, né?

R - Sim. Uma foi para a América e uma veio para cá, mas esta já estava aqui há muito tempo. Acho que foi depois da Primeira Guerra, vieram para cá. Então... 

P/2 - A senhora está cansada?

R - Não. 

P/2 - Acho que está. Então, como é que foi o início da vida de vocês aqui?

R - Não foi muito alegre, não, porque eles tinham medo que... Nós chegamos quase sem nada. Só tinha uns dólares e também salvamos uns relógios, que um vizinho nosso, na Tchecoslováquia, para não perder uns reloginhos, abriu um batedor de carne e botou dentro, sabe? (risos) Para ter alguma coisa. Nos não podiamos... Apesar disso, não tínhamos muita coisa. O marido trabalhou, mas não tinha muitos meios; chegamos para cá com dez dólares. 

P/2 - Qual foi o... Os primeiros trabalhos que o seu marido começou a fazer já eram com contabilidade? Aqui. Que trabalhos que ele fez? Onde ele se empregou?

 

R - Ele aprendeu, como jovem, em Viena, fazer bolsa. Mas nunca praticou... Ele foi depois de Viena para a Alemanha e lá foi guarda-livros. Mas ele me ensinou [a] fazer bolsas e eu, como sabia bem costurar, também o ajudei. 

Mas antes disso tínhamos tempos ruins ainda. A cunhada disse que não poderíamos mais morar lá e alugou para nós, na Santa Clara, uma... Um apartamento pequeno. Como não podíamos pagar o aluguel, arranjamos um outro lugar mais barato em Madureira, mas foi um erro porque aqui podíamos trabalhar com esses consertos de bolsas e assim... 

P/2 - Vocês ficaram muito... Quanto tempo lá na casa deles?

R - Como? 

P/2 - Quanto tempo a senhora ficou na casa dos cunhados?

(PAUSA)

R - Pouco tempo. A minha filha menor, Elisabeth, morreu na Inglaterra em 1973. Tinha só 35 anos. E os filhos dela ficaram, depois, comigo. O menino que veio aqui, um está ainda na Inglaterra. Agora... 

P/2 - Como é que ela foi pra Inglaterra?

R - Como? 

P/2 - Como é que ela foi pra Inglaterra, a sua filha, Elisabeth? 

R - Bem, quando já estávamos muito tempo aqui, ela queria ser bailarina e foi pra Royal Ballet School. Ela gostou sempre de balé... 

P/2 - Ela tinha quantos anos, mais ou menos?

R - Tinha mais ou menos dezenove anos, mas ela já tinha aprendido aqui. 

P/2 - E ela tinha nascido em que data?

R - Em Praga. 

P/2 - Em que ano que ela nasceu

R - Em 1938, 23 de agosto. 

P/2 - Então a senhora a tinha mandado pra estudar balé?

R - Não, não. Ela ficou aqui conosco. E sempre esteve doente, me preocupei muito com ela. Ela tinha pielites, ela não comia bem, era magra assim. Sofri muito com ela. Mas o que nos ajudou foi, aqui a... Como se chama? União, se chama União de Refugiados. Conhecem? 

P/2 - Conhecemos.

 

R - Então, eles nos deram para viver… Tínhamos também uma amiga de lá que viajou, que meu marido ajudou a chegar para cá. Ele foi lá no comitê de refugiados em Praga e ele tinha oportunidade de mandar essa senhora, o marido dela se chamou Davidovsky. Então os encontramos aqui e eles nos ajudaram muito. 

Eles tinham uma alfaiataria, foi alfaiate, então emprestou o telefone dele, e nós fizemos reclames nos jornais. Foi em alemão que [avisaram], com nosso endereço, que fazíamos consertos de bolsas  - porque não tínhamos material para fazer novas, não é? Então... E também uma amiga, que se chama Fayga Ostrower, mas ela é pintora.

P/1 - Fayga Ostrower? Conhece bem a Fayga?

 

R - Fayga Ostrower. Sim. Ela nos ajudou muito. Ela arranjou uma máquina para costurar couro, costurar bolsas. E também sempre nos ajudaram essa gente para [eu] ficar viva. (risos) Em 1945, eu tinha de ser operada de vesícula e como não podia trabalhar pedi à Union para deixar ficar as crianças, ainda pequenas, no Lar da Criança, só por duas semanas. Anos depois tinha mais uma operação, mas também sai dessa. 

Nesse tempo, então, desenvolveram-nos e eu ajudei marido também. E tínhamos fregueses particulares. Primeiro, consertos e depois fizeram também uma espécie de bolsas para amostra; eu fui visitar os fregueses em casa e tinha um livrinho de encomendas. E assim a gente progrediu, de pouco a pouco, sabe? Mas moramos, depois...

P/2 - Vocês progrediram nesse ramo mesmo?

R - Como?

P/2 - Vocês progrediram nesse ramo de fazer sapato, bolsa?

 

R - Bolsa, sim. Nós também tínhamos um amigo que chamava Staretz. Ele já morreu, ele tinha uma fábrica de bolsas também e ajudou muito. Ele não foi egoísta. Ele mostrou ao meu marido pra botar esses fechos, porque isso meu marido não sabia. E tudo isso que não sabíamos, aprendemos dele. Muito bom. Staretz, também um emigrante, mas tinha gente boa também, que nos ajudou.

Mas todo esse tempo, a minha filha estava sempre doente. O que me preocupou mais foi ela, fraca. Depois ela se recuperou e nos mandamos as crianças... Nós fomos ainda para... Mudamos para Mundo Novo. Sabe o que é Mundo Novo, em Botafogo? Uma espécie de morro. E depois, quando tínhamos mais fregueses, fomos para Copacabana. 

Eu me lembro de uma casa. O marido me mandou procurar casa. Fui na Rua Francisco Otaviano, [em] que moramos e trabalhamos também em bolsas. E pouco a pouco tinha mais fregueses, uma recomendou a outra e assim fomos adiante. Depois, mandamos as crianças para a escola. Grande preocupação...

P/2 - O seu marido não tentou trabalhar como contador?

R - Ele podia, mas ele não sabia português. Ele podia, na Mesbla, mas foi tão pouco que ele podia ganhar, então... Ele tinha que ganhar mais para sustentar, nao é? Assim, depois da Rua Francisco Otaviano em Copacabana tínhamos uma oportunidade de alugar uma sala, ao lado de cine Metro, e as freguesas chegaram lá. E depois já foi muito melhor. Ainda lutamos, mas foi muito melhor. 

P/2 - A senhora ainda tem alguma coisa dessas bolsas que a senhora fazia naquela época? Ainda tem alguma coisa pra mostrar pra gente?

R - Para mostrar o quê? 

P/2 - Pra nos mostrar uma dessas bolsas, um desses trabalhos que a senhora fazia.

R - Tenho aqui muitas. Mas já são velhas. (risos)

P/2 - Depois a gente vai ver.

R - Ih, está muito... Mas fizemos bastantes boas bolsas. E as freguesas gostaram, porque por dentro também eram acabadas com couro - isso hoje já se não faz, né?

P/2 - Vocês chegaram a abrir alguma loja? Tiveram alguma loja, uma fabricazinha?

R - Não. Tinha uma alugada aqui, também, na Galeria Alaska. Foi só alugada. E lá também fizemos bons negócios até certo tempo depois. O marido ficou cansado, velho. Eu tinha ainda…. Nesse tempo eu tinha, no ano [de] 45, uma operação grande, sabe - isso esqueci de dizer - que também me prejudicou muito no trabalho. Tinha... Como se chama? Cálculos na vesícula. E tinha que operar. Então eu mandei as crianças...Pedi para a União, eles mandaram para um lar de criança por esse tempo, quando estava no hospital. Fui ao hospital e eles me deram um empréstimo, a União, que depois paguei pouco a pouco, para poder fazer a operação.

P/1 - Mas essa união era ajuda a refugiados, mas só judeus ou não judeus também?

P/2 - Era uma organização judaica?

R - Judaica. Sim. 

P/2 - E o seu marido morreu em que data? Qual o ano?

R - Meu marido? Janeiro, com 88 anos. Nesse ano. Mas ele tinha sofrido muito. Ele estava com câncer e sofreu muito, sabe? Para ele foi uma salvação.

P/2 - Sidonia, o seu marido continuou a ter ideias socialistas no Brasil? Ele trabalhou, no Brasil, pela causa?

R - Não. Ele sempre foi socialista. Natural, ele não podia [participar de] nenhum partido, mas ele acompanhou pelas cartas que recebeu da Europa, dos amigos e também pelos jornais. Sempre fomos a par de tudo. 

Eu tenho também um primo lá, em Israel. E aquele... O pai dele foi irmão do meu pai, então esse… Às vezes, mandamos... Como chama? Correspondência. 

Até meu neto foi também para Israel, mas ele não gostou de lá. Foi para Inglaterra novamente. Ele é inglês, eles nasceram na Inglaterra. Quando a minha filha morreu, então, os levamos para o Brasil, mas o pai não se interessou. 

Minha filha Elisabeth tinha casado na Inglaterra. Depois da morte dela levei os meninos para o Brasil, no ano [de] 1973, para ficar conosco. 

P/2 - E aqui no Brasil, vocês frequentavam alguma sinagoga?

R - Não propriamente não, mas lemos muito sobre... Quer dizer, panfletos que aconteceu aquela ARI e tudo isso. E também meu marido... Elisabeth, minha filha, gostava de ir para as reuniões dos jovens na ARI. Ela tinha muitos amigos lá, como Alfredo Lemle, Miriam e outros. Ele se zangou com meu marido e comigo, porque não fomos religiosos. Meu marido conversou muitas vezes com o falecido Dr. Lemle.

P/2 - Com quem vocês tinham amizade aqui no Brasil? Que grupo vocês tinham amizade? Tinha um grupo que vocês frequentavam mais?

R - Não, foram amigos que conhecemos de lá, já. E também aqui, por exemplo... Estou toda confundida, os anos. 

P/2 - Então, deixa perguntar outra coisa. Como foi a educação dos seus filhos no Brasil? O que que eles se tornaram? 

R - Eles foram aqui até no Colégio Mello e Souza, a minha filha maior e a pequena também. E uma, Mariana, foi muito dotada, foi sempre uma das primeiras. Eu me lembro quando em Olaria, foi também na primeira classe lá, porque ela tinha que aprender português, ela sabia logo mais do que as outras brasileiras. (ri) 

P/1 - Mas a senhora chegou a morar em Olaria também?

 

R - Sim. Olaria. Primeiro, fomos para Madureira e lá as duas meninas ficaram muito doentes. Uma sempre foi doente, mas a outra foi... Não sei que foi, ela pisou em cima de uma coisa; eu não tinha tempo de lidar muito com eles, trabalhadeira… Tinha uma espécie de envenenamento... Ficou toda pálida. Mas depois, a União mandou um doutor para lá; ele deu uns remédios que foram [deixando-as] melhor. Mas em Olaria foi ruim porque lá só tinha muito mosquitos, enorme. E eu não sabia se comprar Flit contra os per... Contra os mosquitos ou comida. (risos) Foi muito ruim, sabe? Então, eles se... Foram todas arranhadas de tanto coçar e o médico mandou, então, lavar com um sabão comum. Eles deram também uns remédios e elas melhoraram. 

Eu tinha que viajar com elas pra União para mostrar e no caminho me perguntaram se elas tinham sífilis, porque foram todas arranhadas. (risos) Eu me assustei, porque... Meu Deus, como elas podiam pegar sífilis? E também foram... Fomos depois para o Hospital Cruz Vermelha e eles constataram que não era... Foi desses arranhões. Então…

P/1 - Mas a senhora morou em Olaria logo depois que saiu da casa da sua cunhada?

 

R - Não. Primeiro fomos para Santa Clara, mas lá não podia ficar. Na Santa Clara, 14 porque lá eles não queriam pagar; na cunhada, não podíamos também, não que... Não podíamos pagar o aluguel, então nos mandamos para Madureira. 

Lá tínhamos alugado uma casa pequena, mas também foi muito difícil lá. Nós ainda não sabíamos falar quase nada de português, mas tinha vizinhos também que foram muito bons. Brasileiros, sabe?

P/1 - Judeus. Não?

 

R - Como? Não. Mandaram o médico, porque viram como a minha filha estava com muita febre. Eu não sabia, não podia falar, então ela foi também no médico que tratou às custas deles. Foram muito bons. 

Depois, de lá, mudamos para Olaria, onde tinha um complexo de casas de pescadores. Lá tínhamos que pagar uma soma, mas com o dinheiro que a União também nos deu, pagamos, então. Sempre atrasados. Mas os outros lá na casa, os pescadores, nunca pagaram, então nós fomos os únicos. (risos) 

P/2 - Onde era? Qual era o nome dessa aldeia de pescadores? A senhora lembra ainda o bairro?

 

R - Sim. Foi em Olaria - agora se chama Pedro Ernesto. E lá também, como essa filha sempre me preocupou, ela tinha diarreia, todas essas coisas, mas ela foi tratada pelo médico da União. 

Um dia, elas brincavam lá fora e um balanço das crianças... Bateu nela. Ela desmaiou, foi cheia de sangue. Um desses pescadores a pegou e botou na... Uma bicicleta. Eu, atrás dele, fui para o hospital. Lá tinha um hospital, Getúlio Vargas se chama, não sei, e lá também trataram dela. 

Depois, então, lá ficamos algum tempo, até que...

P/2 - Vocês tinham boas relações com os pescadores? Tinham boa amizade com os pescadores?

R - Sim, eles foram muito bons. Só uma coisa me surpreendia. Eu mandei um rapaz para me buscar uma coisa, dei um pouco dinheiro, uma comida, mas ele não voltou. Eu fiquei tão surpreendida, porque ficou com meu dinheiro. (risos) E me disse lá um rapaz bom: “Você não deve confiar aqui em ninguém. Eles são pobres”, ele disse, “eles tiram o dinheiro onde podem.” (risos) Então, lá... De lá…

P/2 - E lá a senhora fazia as bolsas, atendia aqui na zona sul?

R - Bem, isso muito depois. Fizemos primeiro lá consertos. Mas como tínhamos algum dinheiro e uma freguesa nos deu uma pele grande, em vez de pagar a bolsa fizemos dessa pele amostras. Depois, uma freguesa me mandou para a outra e assim ganhamos o que fomos vivendo.

P/1 - Foi, então, mais tarde, que a senhora pode mandar sua filha para estudar na Inglaterra. Quando a senhora estava com a condição melhor de vida. 

P/2 - A senhora teve duas filhas? 

R - Sim. Elas foram até o secundário. Então... Mas a menor não quis estudar. A outra estudou Química na universidade. Ela foi a melhor no vestibular. Ela sempre foi melhor. Agora é tradutora, mas é também química. Ela está naquele... Não. Como é que chama? Já fez as provas pra entrar no... Como é que chama? 

P/1 - Do Estado?

R - Não. Para entrar na Universidade. 

P/1 - Vestibular.

R - Vestibular, sim. Ela foi ótima. Mas ela depois conheceu o meu genro e eles casaram quando estava ainda na escola. e ela se queixou que a filha não deixou ela estudar, não podia. Mas ela, mesmo assim, terminou. Com uma outra moça, as únicas moças nesse ano lá. E terminou muito bem. Depois trabalhou... Era no Estado também, recebeu uma... Um emprego como química. Mas agora ela faz traduções, que gosta mais, pelo gosto dela. Traduções técnicas em alemão e inglês. 

P/2 - O seu casamento não foi arrumado, não?

R - Arrumado de alguém? Não. (risos) Não. Absolutamente não. 

P/2 - Na sua família não fazia muito isso.

R - Não. Os meus pais foram muito liberais.

P/2 - Fala um pouco de sua mãe, como ela era.

R - O quê? Não entendi. 

P/2 - Como era a sua mãe? Fala um pouco da sua mãe.

 

R - Ela foi muito boa. Uma pessoa muito boa. Ela, por exemplo, podia dar a última camisa, como se diz, para os outros. E também, tinha lá judeus pobres, e ela deu... Nós tínhamos carvão do Estado, então deu carvão, batatas, para eles.

Um dia essa chegou para nossa casa e ela me viu trabalhar lá. Disse: “A senhora tem uma magra meshore. Sabe o que é meshore? Magra, uma empregada muito magra. Minha mãe disse: “Essa é minha filha.” “Meu Deus, uma judia trabalha tanto?” “Por que não?” (risos) Fiz os serviços da casa, né. Isso me lembro. 

A minha mãe, ela foi ótima. Só que ela se esforçou demais, em vez de ter uma... um... Como chama? Sossego, ela foi para esses campos. Ela tinha uma aposentadoria do meu pai, podia ter vivido bem, mas eles tiraram tudo, os alemães. Não podia ter. Ela ficou sem nada.

P/2 - A senhora recebeu indenização de guerra?

R - Não. O meu marido nunca pediu. Ele disse que ele não quer deles nada. Só agora ele tinha uma aposentadoria, mas ele tinha pago a aposentadoria então, nada de graça. E até agora eu também recebo aposentadoria de viúva, mas tinha também preocupações.

P/2 - Os seus irmãos chegaram a fazer bar mitzvah?

R - Sim. 

P/2 - Teve alguma festa que a senhora queira contar?

R - Ah, sim. O meu pai insistiu e... Tinha bar mitzvah e também foram... Mas eu mesma... Eles sabiam até rezar, sabiam até escrever em hebraico. Eu nunca, achei sempre muito difícil, mas eu sabia muito bem da Bíblia. (risos) Até fui numa aula dos outros, sabe, não judeus, e ele pensou, o padre, que eu era também cristã. Queria me dar uma nota boa porque sabia tão bem da bíblia. (risos) Depois, ele disse: “Você não pode continuar conosco, você ainda é judia.”

P/2 - D. Sidonia, naquela hora que a senhora estava explicando esses documentos que a senhora tem, o gravador não estava ligado. A senhora pode explicar de novo pra gente? Que significam esses…

R - Sim. Esse foi aquele Edelstein, sabe, que foi lá… Eles eram uma espécie de vale ou de dinheiro, aqui, quittung [recibo].

P/2 - Dentro do campo de concentração?

R - Duas coroas. Foi pouco dinheiro, mas... 

P/2 - Dentro do campo essas notas eram feitas?

R - Sim, porque eles não queriam ter... 

P/2 - Pelos judeus mesmo que eram feitas?

R - Pelos judeus, sim, porque eles não queriam dar a eles dinheiro regular. Eles pensaram que iriam fugir, mas não conseguiram nada. Isso meu irmão, depois, Ernesto, me mandou. Para ver como eles foram.

P/1 - Como é que será que ele guardou isso?

R - Como? 

P/1 - Como é que ele guardou? Como ele conseguiu?

P/2 - Como ele conseguiu guardar?

R - Ah, ele guardou certas coisas. Guardou. 

P/1 - E ele mandou pra senhora quando a senhora já estava no Brasil, é isso?

R - Sim. Quando terminou a guerra, ele tinha...

P/1 - E o que que se conseguia comprar com esse dinheiro, a senhora sabe?

R - Bem, isso eu não sei, mas os alemães, quando chegou um controle da Cruz Vermelha para visitar esse campo de Theresienstadt, disseram que tinham boa vida lá os judeus, mas não foi verdade. 

P/2 - A senhora consegue traduzir isso aqui? Ou talvez a senhora não consegue mais enxergar. Wer diese Quittung... A senhora lê? Consegue ler esse pequenininho, traduzir pra gente?

R - Ah, sim. Wer diese Quittung falscht… Quem vai falsificar esse... esse... 

P/2 - Ah, tá. Nao tem nada a ver.

R - Ou quem também imitar...

P/2 - Esse aqui é italiano, não é? Esse aqui?

R - Não. 

P/2 - É feito lá também dentro do campo?

R - Engraçado, esse nem vi.

P/2 - Acho que é dinheiro italiano. É lira, não é?

R - Esse é italiano. Engraçado.

P/2 - Mas esse não. Esse é uma cópia.

R - Eu não sabia... 

P/1 - O que está escrito aqui, em caixa alta?

R - E... Como se chama? "Recibo sobre duas coroas." Aqui: "Quem vai falsificar"...

P/2 - Mas isso era impresso dentro do campo?

R - Sim. "Quem falsifica ou faz notas novas, falsificadas, vai ser severamente castigado."

P/2 - E isso aqui?

R - Esse aqui foi porque ela não tinha passaporte. Ela foi no passaporte do marido. 

P/2 - Essa era sua filha?

R - A filha, Elisabeth. Ela se chama Elisabeth Feith. Mas eles, os alemães, obrigaram botar Sara. E os homens tinham que botar Israel. Wilhelm Israel Feith. Assim, para mostrar que somos judeus. 

P/2 - Quando ela foi estudar balé? Isso foi quando?

R - Um documento de saída. Um minutinho.

(PAUSA) 

R - ...como empréstimo, nós pagamos de volta. E também marido para o lar de crianças, entrou para o lar dos velhos. Aliás, a minha sogra foi para o lar dos velhos, aqui. Ela estava velha, doente.

P/1 - O seu marido contribuía pro lar das crianças e dos velhos como? Ele participava, ajudava? O seu marido ajudava no lar dos velhos, isso também?

R - Sim. Ele ajudava o lar de crianças também. 

P/1 - Ah, ele ajudava.

P/2 - Diz pra gente o que é.

R - Isso são flutuantes. Quando foram esses mortos naqueles Cap Carcona. 

P/2 - Isso é uma página de uma revista. De que país? Da Alemanha mesmo? 

R - Não. Isso meu irmão me mandou. 

P/1 - Da Tchecoslováquia?

R - Sim. O caminho de volta, se chama isso. 

P/2 - Foram os navios bombardeados pelos ingleses?

R - Não sei. Pode ser sido mandado da Alemanha para nós, depois da guerra. Esse e aqueles que foram bombardeados. 

P/2 - Em que estava o seu irmão, Ernst.

R - Muitos judeus foram para a China, para Hong Kong.

P/2 - A senhora conhece gente da sua família, foi alguem pra lá?

R - Não. Eu conhecia, não sei se já morreram. Não soube mais deles.

P/2 - Tchecos que foram para Hong Kong?

R - Foram uns também... Espera... Para a China. Sim.

P/2 - E isso aqui? Isso aqui também é uma página de um jornal ou de uma revista.

R - Terceiro [de] maio, em Lübeck. Lübeck e onde foram esses navios lá na...

P/2 - Esses daqui, do bombardeio.

R - Eu posso traduzir isso para o alemão ou para... 

P/2 - Não, se a senhora se lembrar um pouquinho do que é isso, a senhora fala só um pouquinho. Não precisa traduzir tudo agora. A gente traduz depois.

R - ''Esse terceiro de maio vai ficar para sempre na memória. Foram 52 tchecoslovacos que foram... Que foram salvos... No campo de concentração Hamburg Neuengamme, até... O fim da vida deles."

P/2 - Isso tinha relação com o seu irmão, com os acontecimentos ligados à morte do seu irmão, Ernst, não é?

R - Sim. Ficou o meu irmão lá.

P/2 - Viktor.

R - Isso eu posso traduzir.

P/1 - Isto está escrito em tcheco, não é. Talvez possa traduzir em alemão, porque é mais fácil encontrar uma pessoa para traduzir alemão.

R - Eu posso traduzir em alemão e a minha filha Erika, se ela tiver tempo, vai traduzir para português.

P/2 - Ou então, a senhora pode ler e guardar um pouquinho do que diz aí e dizer pra gente depois. Você acha que precisa traduzir palavra por palavra?

P/1 - Acho que é melhor. Fica guardado.

P/2 - E esse aqui? A senhora se lembra? É o mesmo assunto? Também é sobre o bombardeio, sobre essa data?

R - É. "Não vamos esquecer nossos... '' Eu vou traduzir isso, porque é difícil agora.  

P/2 - Então depois a senhora traduz.

R - Sim, mas pode ser na semana que vem? Porque nesta semana estou muito ocupada.

P/2 - Claro. A gente só vai tirar uma cópia xerox. Agora, senhora…

R - Porque é muito emocionante. Isso está escrevendo como foi lá. Esse foi aquele Burian. Ele foi diretor de... Teatro. 

P/2 - O autor.

R - Voltou. Um amigo do meu irmão.

P/2 - O jornalista que escreveu?

R - É. 

P/2 - E as suas fotografias, as fotografias que a senhora tem, tem alguma coisa pra mostrar pra gente?

R - Eu talvez vá ainda... Ainda vou encontrar fotografias.

P/2 - Alguma foto da sua casa, lá na Tchecoslováquia, da sua vida…

R - Como? 

P/2 - Alguma foto da Tchecoslováquia, da sua casa? 

R - Ah, sim. Pode ser.

P/2 - Tem pra mostrar pra gente?

R - Eu vou ver se ainda acho. (risos) Eu tenho misturado. Desde que o marido morreu, fiz muita procura por documentos, então tem que fazer ordem.

P/2 - Vai dar muito trabalho pra senhora?

R - Mas como eu sou preguiçosa... (risos) Não. Eu sempre fui muito ativa, mas [com] a idade não, a gente fica descansando mais vezes. Eu tenho...

P/1 - A senhora podia procurar e daqui a uma semana a gente volta a telefonar e vem um outro dia só pra olhar o material, junto com a senhora.

R - É. 

(PAUSA) 

P/2 - Isso era de uma revista dos comunistas?

R - Não. Porque isso... Nós achamos ou alguém nos mandou isso para ver, porque isso nos interessava aqui.

P/1 - Mas aqui do outro lado, a senhora disse que está escrito: o caminho da volta. É isso?

R - Como? 

P/1 - O caminho da volta. Den Weg zuruck. Isso quer dizer... É uma matéria, então, sobre esses navios, sobre os judeus que foram mandados nesse navio, não é? 

P/2 - Essa parte daqui também tem relação com o bombardeio?

R - Não, não tem nada sobre isso. Isso é sobre pintura moderna. (risos) 

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