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História

Uma vida no Remanso

História de: Maria Lina Bispo dos Santos
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 20/05/2008

Sinopse

As lembranças do trabalho na roça e das cantigas de roda - “cantava roda até altas horas da noite”. A diversão da festa de São João. Festança boa, com direito a fogueira, comes e bebes, foguete, cantoria e dança - tudo que o Santo gosta, o folguedo indo até de manhã cedo.

A emoção de lembrar da amiga Rosa, mais irmã que prima - irmã gêmea até parece. O encantamento com as Caminhadas - vaidade de menina-mulher se aprontando pra entrar cantando nas escolas, dançando, a criançada de pé, batendo palmas, cantando junto.

A beleza da Ação Griô, dos versos cantados até perder a voz, tudo sem ensaio, versos que contam as estórias, que ensinam, que honram a tradição.


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História completa

Nasci num lugar afastado, de nome Remanso. Fica na Bahia. Nasci de pai vaqueiro e mãe da roça. Foi em 10 de janeiro de 1932.

De meu pai, guardo na memória ele “andando por aí, por essa encantada tudo, trabalhando aí nesse mundo”. E de mãe, lembro dela levando a filharada - eram seis irmãs - pra ajudar na roça. Mas também tinha brincadeira. Principalmente ali por volta do meio-dia, quando mãe ia pra casa “culiar”, fazer coisas, fazer comida. Aí a gente brincava de batizado das bonecas: fazia comidinha, fazia festa. Essa era a brincadeira. Mas, de noite, juntava as irmãs e ia cantar as cantigas de roda, fazia aquela “rodona”, ia dizer as cantigas.

Vou deitar no colo dele

pra ele me carinhar.

quero ver a valentona

que vai me tirar de lá.

no colo dele,

eu vou deitar

 

Outra coisa que lembro é da festa de São João. Era uma beleza! A gente acendia a fogueira, assava carne, batata, aipim; a gente rezava, soltava foguete, bebia, dançava até de manhã cedo. Os homens iam com tambor, bumba, gaita, e as mulheres cantando e sambando.

Das lembranças daquele tempo de criança, de mocinha, essas eram as melhores. Como é forte, também, a lembrança da amizade, desde sempre, com Rosa; é o que sempre digo: ela é mais do que prima, é uma mãe, uma irmã, sei lá. Só sei que uma nunca está sem a outra, até hoje: e lugar onde uma não está, pra outra nunca é bom.

Agora, o que me encanta hoje, no presente, são essas Caminhadas do Griô. Já fui longe com o Márcio, que é sempre muito cuidadoso com a gente - já fui pra São Paulo! Ele sempre consegue uma casa, perto de onde a gente vai se apresentar, que é pra gente se arrumar, ficar bonita pro momento. E daí por diante é só alegria e emoção: nas escolas, a gente já entra cantando, dançando… A criançada bate palmas, se agita, recebe com aquela euforia, vem escutar as cantigas, vem cantar também, acompanha os versos. Eu, por exemplo, gosto muito de chegar com a Gabiraba:

Bê, bê, bê, bê, Gabiraba, lá no bebedor

Gabiraba, meu chapéu caiu

Gabiraba, meu amor ‘panhou’.

Gabiraba!

E aí, a gente vai dizendo outros versos, a alegria toma conta de todos. E, particularmente aqui em Lençóis, foi mais emoção ainda, porque é terra da gente, é pessoal da gente, e é o Encontro da Ação Griô. E o interessante é que, nunca, nas Caminhadas, a gente ensaia - já sai fazendo a Caminhada e dizendo os versos.

Amanhã vou embora

De hoje estou me arrumando

Oh, João, Salvador vou ir

………………………………………..

Benedito foi atrás

Encontrou chapéu

Oh, João, Deus te dê o céu

……………………………………….

Aquele salvador,

Aquele coitadinho!

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