Busca avançada



Criar

História

Uma vida na Aché

História de: Antonio Gilberto Depieri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 17/05/2004

História completa



P - Eu queria começar pedindo para o senhor dizer seu nome completo, local e data de nascimento.

R - Antônio Gilberto Depieri, nascimento no estado de São Paulo, em 3/11/1939. 

P - Na cidade de São Paulo.

R - São Paulo. 


Pais e avós

P - Eu queria lembrar um pouquinho da origem da sua família. Os pais do senhor nasceram aqui na cidade de São Paulo?

R - Meus pais são brasileiros, tanto minha mãe como meu pai. Minha mãe nasceu aqui, estudou na Itália e voltou. Ela não falava nem português, nem italiano. Misturava tudo. Mas os dois eram brasileiros. 

P - O senhor sabe por que ela foi para a Itália?

R - Porque meu avô se sentiu mal aqui e o médico disse: "O senhor vai morrer". Ele disse: "Então eu vou para a Itália morrer". Chegou lá, ficou bom e voltou. 

P - Os avós do senhor eram italianos?

R - Eram italianos. M


P - O senhor sabe um pouquinho da vida deles lá na Itália?

R - Não, na Itália eu não sei nada, não. 

P - E por que eles vieram para o Brasil?

R - Eles vieram como imigrantes porque não tinham como viver lá. Vieram como imigrantes e aqui fizeram a vida. 

P - De que região da Itália?

R - Veneza. 

P - Vieram casados, o senhor sabe?

R - Vieram casados. Eles tinham sete filhos. Três eram italianos e quatro eram brasileiros, ou vice-e-versa, não me lembro bem. 

P - Eles vieram para o Brasil e começaram a trabalhar com o quê?

R - Meu avô começou com uma fábrica de lingüiça e minha mãe ajudava lá na fábrica. M


P - E onde ficava essa fábrica?

R - Na Rua Scipião, na Lapa mesmo. 

P - O senhor conheceu essa fábrica?

R - Conheci. 

P - Como era?

R - Era do lado de casa. Eu gosto de beber e culpo o meu avô, porque à tarde ele me levava para jogar bocha. Ele jogava e tomava cerveja, e eu tomava um copinho, eu era pequenininho. Toda tarde eu ia com ele ver o jogo de bocha e tomava uma cervejinha. Meu avô parece que tinha dois metros de altura. Era um espetáculo. 

P - Como ele se chamava?

R - Pedro. As festas nossas lá começavam de manhã e iam até à noite. Tinha um barracão no fundo da casa que era enorme, e vinha toda a família.

Casa da infância

P - Como era essa casa? Era do lado da fábrica de lingüiça?

R - Até hoje está lá, só que depois que os meus avós faleceram, que dividiram as partes, então ficou cada um com uma parte. Eu e minha irmã ficamos exatamente com a casa que nós nascemos e mais um pedacinho. Depois eu cedi para minha irmã e ela acabou vendendo agora, há pouco tempo. 

P - Quer dizer que seus avós vieram, moraram nessa casa, os pais do senhor se criaram lá e o senhor também nasceu lá?

R - Eu nasci lá. Nasci com a parteira. A parteira bebia e antes de eu nascer, minha avó ficava atrás dela para ela não beber. (risos) 

P - O que mais que o senhor se lembra dessa casa?

R - Ela tinha um porão enorme e no fundo meu avô fazia vinho. Todo ano a gente fazia. E fazia no pé. Esmagava tanto que ficávamos uns 15 dias com a canela com cor de vinho, Era tudo no pé. Sei que ele matava cabrito, matava leitão... Fazia o diabo, lá. 

P - As crianças ajudavam?

R - Eu só não via matar, mas depois ia ajudar. Depois que estava morto eu ia. Mas todo mundo ajudava a fazer o vinho, todo mundo. Eu engarrafava, era o engarrafador. Eu enchia a garrafa. Tinha um copinho do lado, porque como não podia encher muito, quando meu avô tapava, então botava no copo. Só o cheiro deixava o sujeito meio bêbado. E a gente tomava o que ficava, diminuía o copo. Então saía sempre bêbado. (risos)

P - Tinha que fazer uma degustação também.

R - Isso era demais. 

P - Mas quem morava nessa casa?

R - Morava eu, meu pai, minha mãe e meus avós. Só nós, porque minha mãe sempre morou com os pais.

Pai açougueiro

P - E o pai do senhor, fazia o quê? Ele foi ajudar o sogro na fábrica de lingüiça?

R - Não, meu pai inicialmente era estofador de automóveis. Quando estourou a Guerra, houve um desemprego total. Aí ele montou um açougue na Rua Monteiro de Mello, na Lapa, porque meus tios eram todos açougueiros. Na Lapa, toda família tinha açougue. Aí ele montou um açougue. 

P - O senhor também conheceu o açougue?

R - Sim, porque quando ele faleceu eu tive que tomar conta, fiquei um ano no açougue. Mas aí eu cheguei para minha mãe e falei: "Não dá para acordar às quatro horas da manhã". 

P - Quantos anos o senhor tinha?

R - Eu devia ter o quê? Uns 19, 20 anos. 

P - Como o senhor descreveria seu pai, Sr. Depieri?

R - Meu pai era gozado. Enquanto ele trabalhou na Sonervit - na época era esse o nome da firma, e acho que até hoje existe -, ele nos sentava na mesa e ele usava gravata borboleta e paletó em casa. Quando ele entrou para o açougue, acabou, virou completamente. Nunca tinha bebido na vida e começou a beber... Quer dizer, mudou totalmente. 

P - Como era esse dia-a-dia do açougue? O senhor acompanhava o seu pai?

R - Não, não.

P - Sonervit era uma empresa de estofados?

R - Era uma empresa de automóveis. Não sei exatamente se fazia só estofamento. Houve a guerra, então houve aquele desemprego, aí que ele entrou no açougue. 

P - E lá o senhor não ia muito?

R - Quase não ia. Eu só fui depois que ele faleceu, porque alguém tinha que tomar conta.

Primeira escola

P - O senhor passou a sua adolescência como? Estudando?

R - Estudando. 


P - O senhor estudou onde?

R - Primeiro no Campos Salles. Nessas fotografias, nem sei que escola era, era escola primária, eu não me lembro. Depois fui para o Campos Salles, depois fiz científico no Osvaldo Cruz, no largo do Arouche. 


P - Dessa primeira escola, o senhor tem alguma lembrança?

R - A primeira era ali na rua Fausto, eu não me lembro bem. 

P - E a professora?

R - Era Dona Laura. 

P - Como era a Dona Laura?

R - Eu não me lembro. 

P - O senhor era bom aluno?

R - Não, nunca fui. (risos)

Brincadeiras e travessuras da infância

P - Como era o Sr. Depieri menino?

R - Minha mãe achava que eu era ruim demais. Eu apanhava na hora do almoço, à noite... Todo dia. 

P - Quais eram as brincadeiras favoritas?

R - Era futebol. Era futebol o dia inteiro. A rua era de terra e a bola era de meia. A gente fazia de meia e jogava. De vez em quando metia o dedão na terra e o dedão ficava desse tamanho. 

P - Aí era futebol o dia inteiro?

- Era futebol. 


P - Além do futebol, vocês brincavam de outras coisas na rua?

R - A gente ficava o dia inteiro na rua, a gente só vivia na rua. Era escola e rua. 

P - Não tinha o que tem hoje, das crianças não poderem sair?

R - Não. Era rua. Depois que eu entrei no Colégio, então a gente ia nadar na prainha, que era na Vila Hamburguesa. Cabulava aula e ia para a lá nadar. Foi onde eu aprendi a nadar.

P - Era uma represa?

R - Era uma represa onde eles tiravam areia e iam fazendo aqueles lagos. Era um perigo, porque morreu gente. Até uma vez nós fomos lá, morreu um sujeito. Nós éramos todos pequenos. Tínhamos 14, 15 anos, e morreu um senhor. Mas ninguém foi salvar, porque ninguém tinha peito de ir lá, porque tinham os buracos. O cara entrava, daqui a um pouco ele afundava. Era tudo areia que tinha embaixo. Era esse o divertimento na época do colégio.

Primeira escola

P - Do Campos Salles, que lembranças o senhor tem?

R - Eu tenho muito amigos de lá que são meus amigos ainda hoje. Inclusive o médico que fez o primeiro parto da Terezinha, estudou comigo lá. 

P - A disciplina era muito rígida na escola?

R - Não era muito, não. Porque o Campos Salles era de uma família, era familiar. Então não tinha muita coisa, não. 

P - E tinha uniforme?

R - Não, não tinha, não. Eu acho que não tinha. Não me lembro, mas não tinha uniforme.

P - Como o senhor ia para a escola? Ia a pé?

R - A pé. Não era muito longe porque era na Rua Doze, era perto da Scipião, uns 1.500, 2.000 metros. 

P - O senhor trabalhava nessa época em que estudava?

R - Não, nunca trabalhei. Até os 19 anos eu nunca trabalhei. Só estudava.

Emprego de propagandista

P - Qual foi o primeiro emprego? Foi no açougue?

Depieri - O primeiro emprego foi o açougue. Depois trabalhei foi na Metalúrgica Matarazzo, quando eu vendi o açougue. A minha mãe vendeu, aí eu fui trabalhar na Metalúrgica Matarazzo, lá no escritório. Ficava naquela mesa, e o gerente na frente. Depois de um mês cheguei para minha mãe e falei: "Não dá, nesse emprego não fico. Quero ser alguma coisa, vendedor...". Aí fui procurar emprego de propagandista. 

P - Por que propagandista?

Depieri - Porque eu encontrei um amigo, e como eu estava procurando emprego há um mês, ele disse: "Você não quer ser propagandista?". Eu nunca tinha ouvido falar, mas respondi: "Vamos lá". Vou te levar na Wintrop. Foi meu primeiro emprego de propagandista. Lá fiz o teste, entrei e fiquei três meses. 

P - O senhor se lembra do primeiro dia de propagandista?

Depieri - Lembro. O meu supervisor era um argentino, um cara chato. Eu me saí bem, não tinha problema nenhum. Vou até contar porque fiquei três meses: eu morava na Lapa e fazia a Penha. Ia na Vila Carrão, descia do ônibus e fazia a avenida toda, até o fim, à pé. Um dia ele saiu comigo e falou: "Vamos fazer juntos?". Falei: "Vamos". Porque os supervisores de vez em quando saíam juntos para saberem como estava. Saímos, descemos do ônibus e começou uma chuva torrencial. Paramos em um bar e ficamos. Chegou umas 11 horas, ele falou: "Eu vou embora...", porque não dava para sair. A chuva era total, e não tinha guarda-chuva. Deu quatro horas, cinco horas, e nada. Eu peguei o ônibus e fui embora para casa. No dia seguinte ele falou: "Você não trabalhou?" Eu disse: "Não. Como é que podia trabalhar? Como é que eu ia visitar o médico todo molhado?". Ele me mandou embora e eu entrei na Squibb. Aí que eu conheci meu sócio lá na Squibb. 

P - Quanto tempo o senhor ficou na Squibb?

Depieri - Foram uns quatro anos. 

P - Como propagandista?

Depieri - Fui propagandista, depois fui vendedor. Só vendia para repartições públicas. 

P - Também em São Paulo?

Depieri - Também em São Paulo. 

P - O senhor se lembra um pouco do dia-a-dia da época do Squibb?

Depieri - A Squibb foi o melhor emprego que eu tive na vida. E foi gozado porque eu fazia a Rua Marconi. Eu deixei de fazer a Penha, depois fui fazer a Marconi. A Marconi era uma moleza. Era uma rua de 200 metros, e tinham 200 e tantos médicos. Então eu só fazia ali. Eu me lembro que tinha o número 34, em que os propagandistas ficavam todos reunidos. Eu passava, e os caras: "Oi, Antonio". Eu dizia: "Deixa eu terminar, quando eu terminar o meu serviço eu paro aqui". Não parava mesmo. Minha meta eram 12, 15 médicos. Enquanto eu não terminava, eu não parava. Terminou? Aí tudo bem, vamos lá conversar. Desses caras, todos eles ficaram propagandistas até o resto da vida. Se eu estou numa firma que estão me pagando bem, eu gosto, tenho que trabalhar e não ficar conversando. Falei: "Tudo bem, meu negócio é trabalhar para a Squibb porque eu gosto". Realmente foi uma firma em que eu me senti bem. 

P - Por que o senhor gostava?

Depieri - Porque eu ganhava bem e os amigos eram bacanas. Era uma firma que eu realmente gostava. 

P - Esse número 34, o que era? A portaria de algum prédio?

Depieri - Era um prédio. O prédio 34, de médicos, mas era lá onde as pessoas se reuniam. Tinha um barzinho em frente, e depois que terminava a gente ia no barzinho tomar uma caipirinha, tal. Mas enquanto não terminava a tarefa, não tinha jeito.

Noivado e casamento

P - Nessa época o senhor já era casado?

Depieri - Eu me casei quando estava na Squibb. 

P - Como foi o casamento? Onde o senhor conheceu a esposa?

Depieri - A esposa eu conheci na Rua Roma. Tinha um barzinho que eu freqüentava entre a Roma e a Esparta, e ela morava do lado. Aquele bar era o dia-a-dia. Então ficava olhando. Ia em um bailinho na Água Branca, dançava lá... E começamos a nos conhecer. 

P - Muitos anos de noivado?

Depieri - Nove, porque eu não tinha dinheiro para casar. Não tinha dinheiro mesmo. Então ficava aquele noivado, não comprava enxoval... Ela fez o enxoval dela e eu não tinha como pagar. Aí, na Squibb, saiu um concurso que eu ganhava mais ou menos, vamos supor, dez mil reais. Naquele mês eu ganhei 80, pelo concurso. Deu para eu comprar tudo à vista. Aí me casei. 

P - Deu para comprar os móveis? Depieri - Tudo. 

P - E foram morar onde? Depieri - Eu morava na Rua Fausto, no quarto andar, num prédio sem elevador. No último andar, sem elevador. (risos) M

P - Era um apartamento? Depieri - Era apartamento. M

P - E da festa, da cerimônia da igreja, o senhor tem alguma lembrança? Depieri - Meu casamento foi simples. Eles eram pobres, eu também, então não tinha muita coisa para a festejar. M

P - A esposa do senhor trabalhava, era estudante? Depieri - Não, não trabalhava. Eles eram ricos e ficaram pobres. Mas até então ela não precisou trabalhar. Depois que ela casou ela foi trabalhar para mim. (risos) Eu me lembro bem, eu tinha um terno que não amassava. Eu só tinha aquele terno, então, no sábado ela lavava, no domingo ela passava e na segunda eu usava. (risos) Naquele tempo o propagandista andava de gravata e paletó. Hoje já não usa mais. M

P - E tinha uma maleta também. Depieri - Na Squibb, na Wintrop, tinha um anestésico para dentista, você tinha uma cota mensal para vender. Você saía com aquilo na mão e vendia para os dentistas. De manhã você vendia para dentistas e à tarde você propagava para médicos. A mala era desse tamanho. M

P - E lá na Squibb, como era? Depieri - Na Squibb era mais sossegado porque não tinha dentista e a Rua Marconi era uma rua central, era muito mais gostoso. Aí eu passei para as repartições públicas e deslanchou.

Criação da Prodoctor
M

P - O senhor disse que lá na Squibb conheceu os futuros sócios... Depieri - Isso, porque quando eu entrei, meu supervisor era o Adalmiro Dellape, que se tornou meu sócio. E o Victor, quando eu saí, ele entrou no meu lugar, na repartição. Eu que o introduzi. Aí começa a história do Aché. É o seguinte: o Victor foi para a Squibb, passou para a repartição pública, ficou no meu lugar. E eu comecei a trabalhar para vários laboratórios. Depois de um ano, o Adalmiro saiu da Squibb. Ele foi até gerente geral, saiu da Squibb e montou uma fábrica de móveis na Benedito Calixto, onde foi nossa primeira firma. Só que isso era só deles. No fim do dia, nós nos encontrávamos: eu, o Victor, o Adalmiro e o irmão dele. Umas seis horas a gente parava lá, fazia um pouco de hora e ia embora. E eles falavam: "Vamos montar alguma coisa?" Eles queriam montar uma loja de móveis na Lapa. Falei: "Vamos lá, vamos procurar uma loja". Fomos lá, procuramos um ponto na Lapa. Na Rua Doze era a mais famosa que tinha. Conseguimos, acertamos tudo, parece que demos um sinal, inclusive. Precisava arrumar um emprego para a o Victor, porque o Victor tinha que sair da Squibb. Eu falei: "Victor, a Sintofarma faz repartição pública, e o cara que faz não conhece nada. Vamos que eu te introduzo lá, e com o conhecimento nosso nós vamos embora". E na manhã seguinte fomos na Sintofarma, eu e o Victor. Chegamos lá, uma bagunça Os propagandistas diziam: "Ih, o negócio está bravo". O Dr. Edmundo, que era um dos donos, nos atendeu. Começamos a conversar e tal... Ele disse: "Repartição você pode fazer". "Mas como vocês trabalham?", nós perguntamos. "O único lugar que nós realmente trabalhamos é São Paulo, porque o resto a gente dá para distribuidores no Brasil todo. Vocês não têm interesse de fazer aqui em São Paulo?" "Temos." "Precisava ter alguém que fizesse isso para nós." Saímos eu e o Victor de lá, fomos na casa do Adalmiro. O Adalmiro tinha problema de úlcera e estava acamado. Fomos lá e contamos a história. "Vamos lá, a gente assume a Sintofarma e tal… Vamos amanhã mesmo lá. Vamos lá falar com o Dr. Edmundo." E ele falou: "Vocês têm 15 dias para montar a firma de vocês". M

P - Para fazer a distribuição? Depieri - Da Sintofarma na capital. E eles tinham dado entrada na loja. O gozado foi que logo depois chegou um cara que dava o dobro, não sei se era judeu ou árabe. No fim chegamos lá, acertamos, o cara estava louco para desfazer o negócio e desfizemos. Deixamos de ser lojistas para ser propagandistas. Montamos do lado. Na Benedito Calixto tinha uma casa, do lado, e nós alugamos. Começamos ali a Prodoctor, que era a distribuidora da Sintofarma. M

P - De onde veio esse nome, Prodoctor? O senhor se lembra? Depieri - "Para o doutor". Foi entre nós, arrumamos. Inclusive quando compramos o Aché, nós íamos botar Prodoctor. M

P - Só uma dúvida, o senhor disse que na Benedito Calixto era um ponto de encontro do senhor com o seu Adalmiro… Depieri - É, porque eles tinham uma fábrica de móveis. M

P - Era uma relação de amizade? Depieri - Sim, porque nós trabalhamos juntos na Squibb. Só o irmão dele não, mas nós ficamos juntos porque ficava todo mundo junto ali no fim do dia. M

P - Mas só os quatro? Depieri - Só os quatro.

Compra do Aché
M

P - Entre todos os propagandistas surgiu uma afinidade entre vocês? Depieri - Eu saí da Squibb, o Adalmiro saiu e montou essa fábrica de móveis. Eu falava para a ele: "Seu negócio não é móveis". Ele carregava móveis nas costas. Eu falei: "Nosso negócio é outro, é remédio mesmo". Até que acertamos esse negócio e montamos do lado, os quatro sócios. Montamos a Prodoctor e começamos distribuindo para a Sintofarma. O negócio foi indo bem. Realmente, tudo que nós fazíamos para a Sintofarma na capital, eles fizeram para o resto do Brasil. A Sintofarma começou a crescer com as idéias da gente. E nós loucos para ter um laboratório. Procurávamos, íamos de um lugar ao outro, era "x" de dinheiro, não tinha jeito... Um dia viram um anúncio no jornal, parece que foi o Adalmiro e o Victor, de uma fábrica lá no Imirim, lá em Santana: "Tem um aí que dá para a fazer". Os donos eram três e estavam brigando. Era um laboratório que só era conhecido em Curitiba: "É bom porque ninguém conhece, está ótimo". Fomos lá e fechamos negócio. Era para pagar em não sei quantas vezes. Chegamos para o Dr. Edmundo e o José Carlos, que eram sócios da Sintofarma, e falamos que tínhamos comprado um laboratório e que nós íamos trabalhar para eles também, mas sem problema nenhum. Falaram: "Não, ou nós entramos de sócios, ou nós tiramos a representação de vocês". Ele nem conhecia, nem sabia o que era aquilo, só que ele queria entrar de sócio. M

P - Quantos eram os sócios iniciais do Aché, então? Depieri - Nós começamos os quatro: era eu, o Raphael, o Adalmiro e o Victor. Mas como eu estava contando, botamos o Dr. Edmundo e o José Carlos, que eram da Sintofarma. Mas eles nem foram, nunca conheceram aquilo. Não sei se eles ficaram um ano com a gente, mas nunca foram lá. M

P - Vocês chegaram a conhecer o local? Depieri - Que local? M

P - Lá no Imirim? Depieri - Sim, fomos os quatro. No dia seguinte fomos todos para fechar o negócio, menos o Dr. Edmundo e o José Carlos, que eram da Sintofarma.

O Aché da Nova dos Portugueses
M

P - Como estava o laboratório nesse momento que vocês foram lá para comprar? Depieri - O laboratório era o seguinte, eles iam bem em Curitiba, mas em São Paulo não eram muito conhecidos. Então para nós era ótimo. Se fossem mal conhecidos pelos médicos, era um problema. Como não eram, dava para a fazer a coisa certa. M

P - Mas qual era o tamanho do laboratório? Era um casarão? Depieri - Eram duas ruas: a Imirim e a outra debaixo era a Dona Elfrida. O laboratório era pequenininho. Depois iam todas as casas até a outra rua lá embaixo. Quando nós começamos, começou por ali. Começamos a fabricar, a vender alguma coisinha... E os outros nem iam lá. Falei: "Tem que tirar os homens daí. Como nós vamos trabalhar com eles?" Demos uma reviravolta e eles saíram. Ficamos só nós. Começamos com nosso produto-chave que é o Moderex. Moderex era um moderador de apetite. Nós íamos trocar o nome do Aché, íamos botar Prodoctor. Mas eu me lembro bem que na Marconi, quando eu trabalhava pela Squibb, tinha médico que não atendia laboratório nacional. Squibb era americano, tudo bem. Mas nacional eles não queriam nem saber. E o nome Aché era francês, então ficou o nome. E outra coisa quanto ao Moderex. Quando falava para o médico "Aché", ele dizia: "Tem Moderex, pode entrar". O que alavancou o nosso negócio foi o Moderex. M

P - Antes de chegar no Moderex, eu queria esclarecer um ponto com o senhor. O que os senhores exatamente adquiriram ao comprar o Aché? Era um laboratório que tinha muitos produtos? Tinha um patrimônio? Depieri - Eles tinham alguns produtos que eles tiravam de cavalo. Usavam cavalo com tudo. Tinha o Combiron... Dava para trabalhar. Mas aí o Victor, que conhecia bem os produtos de farmácia, começou a mudar algumas fórmulas. Naquela época, era mais fácil. E começamos a fazer. Combiron tinha, mas era diferente a formulação. Demos uma melhorada e foi indo. Agora, a chave mesmo foi o Moderex. M

P - E saiu do Imirim quando? Depieri - Depois começamos a crescer. Aí ficou um labirinto, até lá embaixo, na Rua Dona Elfrida. Quanto mais vendia... Porque a gente vendia horrores. Aí compramos um terreno na Dutra, lá onde hoje é o Aché. Começamos a construir e em 1973 nós mudamos para lá, na Dutra. M

P - Isso que foi vendendo horrores, o senhor está se referindo ao Moderex? Depieri - Aí começou a vender tudo: saiu o Somalium, Combiron, Sorine... Começou a vender tudo. Aí o laboratório "pegou". M

P - Como estava organizada a produção lá no Imirim? Depieri - No Imirim ficávamos eu e o Raphael, era a produção e a parte do dinheiro. Na cidade nós tínhamos um escritório no centro, na Praça das Bandeiras, onde ficavam o Adalmiro e o Victor, que lidavam com os propagandistas. Então ficava uma parte no Imirim e outra com outras funções.

Expansão pelo Brasil
M

P - Já havia uma distribuição na capital e depois foi para o interior? Como foi isso? Depieri - Nós tínhamos a distribuidora da Prodoctor da capital, aí começamos a montar para todo o Brasil, para distribuir o Aché. M

P - Como foi essa expansão? Depieri - O Aché em Curitiba ia indo bem e tal, depois nós começamos a montar em tudo quanto era lugar, no Brasil inteiro. M

P - A idéia era atingir o Brasil todo? Depieri - Atingir o Brasil inteiro. Até hoje é um dos laboratórios que visitam todos os lugares do Brasil. M

P - Como foi tomada essa decisão: "Vamos nos espalhar pelo Brasil, não vamos ficar só nas capitais"? Depieri - Nós tínhamos produtos, como vermífugos, que eram mais interessantes para o Nordeste, e outros tivemos que fazer em todo o Brasil. A nossa idéia era tocar para a frente mesmo. M

P - No Sul o senhor disse que já tinha uma aceitabilidade grande do nome... Depieri - No sul, não. Em Curitiba, Paraná. Tinha um dos donos trabalhava bem lá. M

P - Mas já existia uma filial quando vocês compraram? Depieri - Já tinha. Depois nós montamos todas de forma diferente. M

P - E como era a situação do mercado farmacêutico no Brasil, naquela época? Era uma época em que surgiram muitos laboratórios nacionais? Depieri - Nacionais tinham poucos. A maioria que tinha na época, os americano compraram. Então ficamos nós, na época. O Sintofarma ficou. Depois nós paramos também, não fizemos mais negócios com eles. Tinha a Farmasa, que tem até hoje, mas a maioria era americano e europeu. M

P - E tinha uma política do governo de incentivar a industria farmacêutica nacional? Depieri - Não, éramos nós mesmos. (risos) M

P - E como o Aché conseguiu essa afirmação no espaço, no mercado? Depieri - Nós conhecíamos bem. Não entendíamos de remédio, mas sim de como vender remédio. E nós tivemos sempre uma posição: quem vende para nós é o médico, então nós propagamos. O médico é quem receita. É que nem hoje, o médico receitou para o teu filho, você vai comprar aquele remédio. Se o farmacêutico disser: "Não, tem outro", você não vai comprar. Então, ele é que vende para você. M

P - E era uma postura diferente, comparado com outros laboratórios? O Aché inovou nisso? Depieri - Inovou. Inovou na propaganda. O Aché começou a visitar tudo quanto era médico. E os outros... Por isso que deu aquela subida enorme. Foi diferente de todo mundo. M

P - Como que foi formar essa força de vendas. Como se criou uma equipe tão grande espalhada pelo Brasil? Depieri - A gente conhecia isso, nós trabalhamos na parte de vendas e propaganda. Todos nós trabalhamos de propagandistas. Então sabíamos tudo o que era bom e ruim. Eu pegava quem fazia visita no lápis só... Visita no lápis quer dizer o seguinte: não visitou e colocou no papel que visitou. Eu, antes do Aché, trabalhei como supervisor na Prodoctor. Era supervisor de uma equipe. Ele vinha aqui, eu falava: "Você não visitou esse médico". (risos) Já sabia. Era na malícia. Sempre trabalhei naquilo.

Moderex e Somalium
M

P - O senhor falou do sucesso do Moderex. Como surgiu esse remédio, de onde veio? Depieri - Moderex é o seguinte: o Victor era muito amigo de um médico, e ele que deu a fórmula para o Victor. Porque todo moderador é um produto que dá aquela euforia, então ele associou um tranqüilizante ao produto final. Foi um sucesso total, na época. O cara tomava e não ficava ligado e não comia. Foi o Dr. Geraldo Medeiros. Ele falou: "Por que você não lança um negócio assim?". Nós lançamos e foi embora. Outro grande sucesso foi o Somalium, tranqüilizante. M

P - Como surgiu a idéia do Somalium? Depieri - Somalium foi como o Moderex, que tem um tranqüilizante. Só que o Moderex era associado um com outro. Somalium não, era só um tranqüilizante. O nome também foi bonito. M

P - Quem inventava os nomes: Moderex, Somalium? Depieri - A maioria era o Victor e o Adalmiro. O Victor era o que mais entendia de produtos novos. M

P - O senhor cuidava mais de qual parte? Depieri - Produção. Ficávamos só eu e Raphael. Nós ficávamos só lá no Imirim, na fábrica. M

P - No pico das vendas do Moderex, como era a produção? Tinha que ficar até de madrugada? Depieri - Era dia e noite, não tinha jeito. Nossa sala de comprimidos era do tamanho dessa salinha aqui. Aquilo era dia e noite, sábado e domingo... Não parava. Nós chegamos a vender 300 mil unidades mensal. Era uma venda espetacular, um negócio pequenininho. M

P - Como era a máquina naquela época? Depieri - Era pica-pau, fazia uma por vez. (risos) Não era rotativa, não. Mas foi um sucesso. Depois compramos rotativa, aí tudo bem. M

P - Na época do Imirim era só pica-pau? Depieri - Já tinha a rotativa, senão não dava conta.

Mudança do Aché para Guarulhos
M

P - Isso que alavancou o caixa do Aché para mudar para Guarulhos? Depieri - Não tinha mais jeito para aumentar. Tinha que derrubar tudo e fazer no Imirim. Mas aquilo não ia resolver. Se derrubasse, como que a gente ia fabricar? Então nós começamos a procurar terreno em tudo quanto foi lugar. Achamos em Guarulhos, compramos lá e começamos a construir. E foi o Ruy Othake que fez o primeiro projeto. Teve aí uma Bienal, e tal... M

P - O senhor lembra da escolha desse terreno? Por que decidiram por aquele? Depieri - Cada um saiu para um lado. Não sei qual sócio que descobriu esse. Eu queria mais perto da Lapa, no fim foi para lá, tudo bem. M

P - E no início das construções, o senhor lembra? Depieri - Quem tomava conta era o Raphael. Só eu ficava no Imirim e o Raphael ficava na construção. Ele cuidava de tudo. O Braulino era da época da construção. O pai do Victor fazia as entregas dos remédios para nós em uma Kombi. M

P - Por que nessa época do Imirim, produzia, entregava? O propagandista fazia a cobrança, a entrega, tudo? Depieri - Não. Só fazia a venda e a cobrança. A entrega fazíamos nós. M

P - E a mudança o Imirim para Guarulhos, o senhor lembra? Como foi? Parou a produção para levar tudo? Depieri - Foi de uma sexta-feira até domingo. Na segunda-feira estávamos trabalhando em Guarulhos. Foi uma guerra. Foi uma guerra total. M

P - Quem participou? Depieri - Todo mundo, não teve quem não participasse. Me parece que de sexta a domingo nós fizemos tudo. M

P - Máquinas, matérias-primas... Depieri - Tudo. Na segunda-feira estava funcionando o Aché em Guarulhos. M

P - Essa mudança para Guarulhos significou uma mudança na forma de produção? Depieri - Sim, porque ali já foi dentro dos padrões, então ficou melhor. Lá era tudo apertadinho.

Filiais pelo Brasil
M

P - Sr. Depieri, nessa época a Prodoctor continuava existindo paralelamente ao Aché? Depieri - Continuava, porque nós fizemos o seguinte: todas as filiais nós colocamos o nome de Prodoctor. Nós fizemos um negócio que ninguém fez no Brasil, na época. Nós montávamos uma firma em cada capital, com nome de Prodoctor. O Aché vendia para a Prodoctor e a Prodoctor revendia. Porque naquela época não tinha esse meio de distribuição que tem agora, que é facilitado. Era difícil você pegar um produto de São Paulo e mandar lá para o Nordeste. Então nós mandávamos daqui para nossa firma do Nordeste e a firma distribuía por lá. Todas as nossas filiais eram Prodoctor. Era uma outra firma. M

P - Chamava de Prodoctor? Depieri - O Aché vendia para a Prodoctor e a Prodoctor revendia. M

P - O propagandista fazia a venda e a cobrança? Depieri - A venda e a cobrança. Depois mandava para a filial na capital, onde fosse. M

P - As filiais tinham seus estoques também? Depieri - Tinham estoques, tudo. Porque era revenda. Era outra firma. Até, na época, pegamos algumas outras coisas para revender. Outros produtos de fora. M

P - E quando a Prodoctor foi incorporada pelo Aché? Depieri - Começaram a surgir as distribuidoras. Era mais fácil de levar os medicamentos, então, para que ter dois faturamentos? Faturamos tudo em São Paulo, em Guarulhos, e aí distribuía direto. Aí o Aché vendia diretamente para o Brasil inteiro. M

P - O senhor lembra em que época isso acontece? Depieri - Não lembro bem. Aí começou a ter firma especializada na distribuição. Era mais fácil do que fazer dois faturamentos. M

P - Quer dizer que não tinha mais os estoques nas filiais? Tudo saía de Guarulhos para a distribuidora? Depieri - Teve uma época que nós acabamos com tudo. Saía aqui de Guarulhos. Nós temos um monte de Prodoctors por aí. Vamos vender uns terrenos, umas filiais, isso não se usa mais.

Energisan
M

P - Nessa época também o grande sucesso não era mais o Moderex, na época que terminou as filias. O senhor se lembra quais os outros sucessos? Depieri - Teve vários. Aí não era mais um, eram todos mais ou menos iguais. M

P - O Energisan fez muito sucesso? Depieri - Energisan fez um sucesso terrível. Teve um problema lá que morreu uma mulher, que acabou com o produto, mas o que vendeu, isso, não está escrito. M

P - O senhor se lembra como surgiu a idéia do Energisan? Depieri - A fórmula foi do Victor. Eu vou contar uma história que eu achei gozada. Tinha um rapaz que casou lá no Aché, nós estávamos no Imirim, e eu falei para a ele: "Você pode falar para todo mundo que você tomou uma dose do Energisan e que sua lua-de-mel foi um espetáculo". A turma fazia fila Eu aprendi a dar injeção nos caras, porque todo mundo queria tomar Energisan. (risos) Eu nunca tinha dado injeção na vida e aprendi a dar. Mas é verdade que eu não gostava de tomar injeção. Eu jogava tênis, nas quartas-feiras, eram em quatro. Um dia eu estava mal e falei: "Não vou". Mas se eu não fosse não tinha jogo porque eram em três. Eu fui no ambulatório e tomei Energisan, eu joguei que foi um espetáculo. E eu tenho um medo de injeção... Depois nós usamos em cavalo, isso aí. Vendia muito no Jóquei. Foi um sucesso, realmente. M

P - Isso foi um caso especial? O Aché nunca teve produção para área de veterinária? Depieri - Nós vendíamos para gente, mas eles pegavam cinco ou seis ampolas e aplicavam. Os propagandistas iam lá no Jóquei e vendiam.

Compra da Bracco-Novoterápica
M

P - Eu queria que o senhor contasse a história da Bracco-Novoterápica. Depieri - A Bracco, quem sabe muito bem é o Adalmiro, ele que produziu, ele que foi lá e fez todo o negócio. Eu e o outro ficávamos muito no Imirim, não tínhamos muito contato. A Bracco foi o Adalmiro que fez todo o negócio. M

P - Foi importante para a história do Aché? Depieri - Foi uma compra de uma multinacional. Foi a primeira de várias que nós fizemos. Primeiro foi a Bracco, depois foi a Merck, foi a Warner e foi a Schering, essa última. M

P - Essas aquisições foram importantes para a história do Aché? Depieri - Ah, foram. Na época foi o seguinte, como a indústria farmacêutica estava muito mal, foi o nosso negócio. Todo mundo queria vender e nós compramos. M

P - Quer dizer que foi num momento de crise em que o Aché investe, porque tinha um caixa de uma outra época, é isso? Depieri - Nós acreditamos no Brasil: "Tem essa fase ruim, mas vai melhorar". Então, nessa fase ruim, nós compramos. Em vez de vender, a gente comprava. Em seguida veio a fase boa. (risos) O Brasil é que nem a Argentina: fica ruim, sobe; desce, sobe; desce...

Crise no Plano Cruzado
M

P - Qual foi a pior crise da história do Aché? Depieri - Do Aché? Crise não teve. O grande problema nosso foi o Plano Cruzado. O Plano Cruzado que nos pegou sem preço e vendendo horrores. E se você não vendesse eles queriam te prender porque estava faltando produto. E faltava mesmo. E vender não dava lucro Eu me lembro que eu estava em Ilhabela, eu estava lá passeando e chegou um sujeito: "Eu quero um Sorine". Custava uns seis reais... "Me dá uma dúzia." O cara comprou. Era tão barato que o cara comprou uma dúzia. Essa foi uma época ruim. M

P - Tinha controle de preços? Depieri - Tinha. Em dezembro eles iam dar um aumento para nós. Estava tudo acertado, mas estava aquela euforia do Plano Cruzado, e passou para fevereiro. Em fevereiro deu aquele congelamento total e nos pegou sem aumento e tinha que vender. Aí foi uma época ruim. Foi realmente uma época que nós passamos mal. M

P - De que forma isso foi superado? Depieri - A maioria quase que entra bem, mas conseguimos superar. A gente fazia economia de tudo.

Mudança do Aché para Guarulhos
M

P - Na época de Guarulhos, o senhor acompanhava de perto a produção também? Depieri - Quando fui para Guarulhos eu fiquei na produção. Depois eu fiquei na tesouraria. Era sempre eu ou o Raphael. Quando saiu o Raphael, eu fiquei na produção e aí dividíamos. A tesouraria sempre ficou comigo. Depois eu coloquei o meu filho, o José Luiz. M

P - E na produção, teve uma época de modernização? Depieri - Teve. M

P - Que momento que foi esse? Depieri - Foi em Guarulhos. Foram máquinas novas, os ambientes todos... Fizemos um laboratório de primeira. M

P - Mudar para Guarulhos fez com que a imagem do Aché ficasse diferente? Depieri - De fora não parece muito. O sujeito que entra é que vê que aquilo é grande. De fora você vê um prédio baixinho. M

P - E o clima lá na fábrica de Guarulhos, o senhor se lembra como era? Depieri - Ali a gente conhecia todo mundo. Vieram todos lá do Imirim. Até hoje tem gente de 30, 35 anos. A maioria a gente conhecia por nome. Vai crescendo e depois você só lembra dos antigos. Puseram muita gente. O Aché cresceu tanto que a gente não lembrava mais de ninguém. M

P - Mas sempre teve um clima familiar? Depieri - Sempre, sempre. M

P - Por quê? Depieri - Porque nós começamos por baixo, estava sempre ali, então o funcionário tratava a gente como outro funcionário, não tinha diferença nenhuma. M

P - E o que tinha de descontração? Tinha jogo de futebol? Depieri - Tinha o Grêmio, tinha tudo. M

P - O senhor participava do jogo de futebol? Depieri - Se não jogando, de juiz. (risos) Sempre fazia alguma coisa. Churrasco, festinha é o que não faltava. M

P - O Aché nas filiais, no resto do Brasil, a equipe dos propagandistas é diferente do Aché de Guarulhos? Depieri - Não, não é. Eu também não conheço. O Victor e o Adalmiro que iam para lá. Quem mais saía mesmo era o Adalmiro. Eu quase não conhecia as filiais. Eu conhecia quando eu ia passear, então eu visitava. Quando fui a Salvador, eu fui visitar a filial. Até então eu não conhecia. M

P - O senhor falou da saída do Sr. Raphael, eu queria que o senhor contasse um pouco desse momento da empresa Aché. O que representou essa saída? Depieri - Aquilo lá foi um mal-entendido. Eles eram irmãos. Houve uma briga com o filho e ele não quis mais ficar na sociedade. Saiu e não teve problema nenhum. M

P - Aí teve que rearranjar as funções? Depieri - Não tinha muito. Eu fiquei na produção e na tesouraria, o Victor ficava na parte de produtos novos e o Adalmiro na parte comercial. Mas já estava tudo engrenado e não teve grandes problemas.

Família no Aché
M

P - E os filhos do senhor, começam a participar do dia-a-dia do Aché quando? Depieri - Todos eles participaram. Meus dois filhos e minhas duas filhas. Trabalhavam no escritório. M

P - Ia todo mundo trabalhar junto? Depieri - Todo mundo. Minhas filhas eu levava de carro, meus filhos iam nos carros deles. Depois começamos a ver que era melhor tirar os filhos do negócio. Ficava muito... Foram saindo. M

P - Depois os dois voltaram? Depieri - Eles voltaram não na firma, eles são do Conselho. Agora não tem mais nenhum parente lá.

Saída do Aché
M

P - Essa mudança é recente... O senhor se afasta do dia-a-dia do Aché? Depieri - Há um ano. Eu deixei no ano passado. M

P - Como foi essa decisão? Foi difícil? Depieri - Não. Dissemos: "Vamos profissionalizar?". Tudo bem, ótimo. "Conselho?" Eu falei: "Então eu não vou fazer mais nada. Eu saio". Meu filho vai bem, então eu falei para ele: "Vocês ficam no Conselho. Para quê vou ficar eu? Eu fiquei 35 anos". Eu me afastei totalmente, deixei para eles. Eu confio neles. M

P - Foi impactante? Foi uma quebra de rotina? Depieri - Para mim foi. Nos 15 primeiros dias, pensei que ia morrer. Eu brigava com minha empregada, brigava com todo mundo. Mas acostuma. Agora também não quero mais trabalhar. M

P - Antes do senhor se aposentar, como era o seu dia-a-dia lá no Aché? O senhor acordava cedo e ia para a lá? Depieri - Ia para a lá e ficava o dia inteiro. M

P - A que horas o senhor saía? Depieri - Saía cedinho, chegava no Aché nove e meia e não tinha hora para voltar. Almoçava lá e tudo. Era assim, de segunda a sexta. Bom, eu não conhecia São Paulo mais. Se eu saísse para dar uma volta eu me perdia, porque minha vida era: sábado e domingo ia ao clube, ou então eu ia pescar. De segunda à sexta, Aché. Eu não conhecia São Paulo mais, e não conheço até hoje, só saio com o motorista, senão me perco. M

P - Era um dia-a-dia bem dedicado à empresa. Depieri - Teve aquele impacto. Acordava de manhã e o que eu ia fazer? M

P - Essa época, afinal, foi uma época de muitas mudanças. Quais as principais mudanças, do ponto de vista do senhor, que o Aché começou o ano passado e está passando ainda? A profissionalização é uma delas? Depieri - Tem que ser. Porque sociedade, se não profissionalizar, não vai para frente. Tem alguns probleminhas, mas vai se arrumando. M

P - Qual mudança o senhor destacaria? Depieri - No Aché? M

P - É Depieri - Estou por fora do Aché. (risos) M

P - O senhor se afastou mesmo? Depieri - Me afastei em definitivo, não fui mais. M

P - Antes do senhor sair, qual foi a melhor época do Aché? Depieri - Sempre foi boa, sempre foi uma época boa. Porque a gente trabalhava com gosto. Teve divergências na sociedade mas sempre trabalhamos. Era uma maravilha M

P - O senhor achava que o Aché chegaria aonde chegou quando vocês começaram, lá atrás? Depieri - Eu acho que sim. Nós torcíamos para isso. Acho que sim. M

P - Já tinha essa meta? Depieri - A meta era essa.

Sonho para o Aché
M

P - E daqui para frente, o que o senhor sonha para o Aché? Depieri - Se for bem, o Aché não acaba nunca. Tem que crescer cada vez mais. É um orgulho nacional, porque começamos do nada e hoje é a maior indústria da América Latina. Tem que sustentar isso. Vamos sustentar esse momento, essa mudança, ver se vai dar tudo certo. Mas deve dar. M

P - E o dia-a-dia do senhor hoje? O senhor não vai mais lá no Aché? Depieri - Acordo cedo, corro sete quilômetros todo dia, dou um trotezinho de manhã, aí eu vou lá na holding, fico lá até a hora do almoço. Não dormia de dia, nunca dormi porque no Aché não dava para a dormir. Agora tiro uma sesta e ia jogar golfe. Aí pegou o braço aqui, não estou jogando golfe. De sábado e domingo vou pescar, passear de barco ou vou jogar tênis no clube. Essa é a rotina.

Diversão no Aché
M

P - O senhor falou da pescaria várias vezes. A gente viu que tem um lago no Aché com uns peixes também. O senhor que teve a iniciativa? Depieri - Fui eu que fiz tudo. Eu inclusive botei os alevinos. Tem um peixe americano chamado black bass, coloquei lá. Depois fizemos uns campeonatos de pesca. M

P - De que época é o lago, o senhor se lembra? Depieri - O lago faz tempo que tem, teve uma arrumadinha, coloquei uns alevinos, fui buscar numa fazenda para o pessoal brincar um pouquinho. M

P - Chegou a pescar lá no lago do Aché? Depieri - Do Aché... Gozado, tinha traíra lá desse tamanho. Isso era do lago mesmo, próprio. O sujeito que morava lá, que tomava conta, pegou 118 peixes. Não todo dia, pegando assim, por dia. Aí comecei a colocar alevinos e o pessoal pescava depois do horário de trabalho, de sábado e domingo. Agora nem sei como está aquilo. M

P - O senhor pessoalmente pescou lá? Depieri - Pescava, pegava de tudo lá. M

P - Pegava o quê? Depieri - Pegava o reque, tilápia, traíra... M

P - E quem preparava esse peixe depois? Depieri - A gente brincava, fazia churrascada ou então levava para casa.

P - E jogo de futebol, o senhor aproveitou o campo depois que estava construído? Depieri - Eu não jogava mais futebol. Daí nós fizemos uma quadra de tênis do lado. (risos) Futebol, só de juiz, essas coisas. M

P - Tênis o senhor chegou a jogar lá? Depieri - Jogava com um pessoal nosso do clube. No sábado fazia um churrasco, mas é muito longe. M

P - E festas do Grêmio, o senhor lembra de alguma em especial? Depieri - Todas elas eram especiais. M

P - A Festa dos Veteranos, bem tradicional. Depieri - Todo ano tem. Conforme a idade... M

P - E assim, datas especiais como 15 anos, 25 anos, tem alguma que o senhor... Depieri - Todas elas, a cada ano é um que faz tantos anos, então a gente dá placa, faz aquelas festinhas. M

P - Ah, sim, dos veteranos, mas e do Aché mesmo? Quando o Aché completou 10 anos, 25 anos, o senhor se emocionou com isso? Depieri - Sem dúvida. M

P - Agora já chegou nos 35. O senhor lembra de alguma comemoração especial? Depieri - Todas foram especiais.

Filhos e netos
M

P - Atualmente o senhor mora com quem? Depieri - Com minha esposa. M

P - Os filhos e netos moram perto? Depieri - A Paula, a Patrícia e o Carlos moram no mesmo conjunto. Não no mesmo prédio, mas no mesmo conjunto de prédios. Só o José Luís que está um pouco mais afastado. M

P - E os netos, quantos são? Depieri - São sete. M

P - E as pescarias, os jogos de tênis, os netos participam? Depieri - Só o filho do José Luís que de vez em quando gosta de pescar, os outros são pequenos Ele está com 12 anos, é o único que gosta de fazer alguma coisa.

Sonho de vida
M

P - Sem pensar no Aché, pensando na vida do senhor, qual o sonho de vida que o senhor tem? Depieri - Eu não me preocupo muito com isso, não. (risos) M

P - Tem algo que o senhor gostaria de realizar? Depieri - Não, eu já falei para os meus filhos que o que eu pude fazer eu já fiz. Eu não tenho mais o que fazer. Você que tem que viver para os seus filhos. Eu criei, agora vocês é que têm que criar os seus filhos. Eu atualmente estou sossegado. Não quero ter mais problemas, quero continuar no golfe, ver se esse meu braço melhora, tomar meus whiskys de vez em quando...

Contar sua história
M

P - Para finalizar eu queria fazer mais uma última pergunta: saber o que o senhor achou de ter contado a sua história? Depieri - Essa história eu não esqueço nunca, eu já contei até para amigos. Eu conto porque é uma história interessante que acontece na vida. Você vai fazer uma coisa e no fim é outra. M

P - Onde estaria a loja de móveis hoje em dia? Depieri - Quem podia imaginar que teríamos um laboratório? M

P - Apesar de o senhor já ter isso em mente, de saber onde o senhor queria chegar. Depieri - Eu achei que móveis não era o nosso negócio, mas como não tinha outra coisa... Mas no fim deu certo, felizmente. M

P - Muito obrigada. Foi ótimo. Depieri - Obrigado a vocês.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+