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História

Uma vida inteira no Brás

História de: Nair Gutierrez Motta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 10/04/2019

Sinopse

A história de Nair conta sobre a vida de uma família humilde, descendente de espanhóis, que vive até hoje no bairro do Brás, na cidade de São Paulo. Nair conta que durante sua infância até a comida era simples, pois o pai, que era sapateiro, não conseguia sustentar a família sozinho, fato que fez com que ela tivesse que abandonar os estudos quando tinha aproximadamente dez anos, para trabalhar e ajudar no sustento da casa. Apesar de simples, a história tráz a lembrança das comidas típicas espanholas, como a morcilla, muito utilizada pela mãe de Nair no preparo das refeições. A narrativa aborda a chegada do metrô no Brás, as desapropriações de imóveis de Nair e outros moradores, as mudanças no comércio da região e o atraso, que Nair atribui ao esquecimento da região pelos governantes. 

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História completa

P/1 - Projeto Memória nos Bairros, depoimento da dona Nair Gutierrez Motta, realizado em sua residência no Brás, por Stella Franco, hoje é dia 6 de outubro de 2000, realização Museu da Pessoa. Então, dona Nair, para a gente começar, eu queria que a senhora dissesse seu nome completo, local e data de nascimento.

R - É Nair Gutierrez Motta, eu nasci no dia 6 de julho de 1930, nasci na rua Silva Teles, aqui no Brás.

P/1 - E qual o nome dos seus pais?

R - Meu pai chama Plácido Gutierrez Pérez, está vivo, com noventa e quatro anos, e minha mãe chamava Dolores Vila Lobo Gutierrez, mas já está falecida há seis anos.

P/1 - E a senhora conheceu os seus avós?

R - É, eu conheci minha avó e meu avô pela parte da minha mãe, do meu pai não.

P/1 - Como é que eles se chamavam?

R - Ah, meu avô chamava Pepe Vila Lobo Martins e a minha avó chamava Dolores Vila Lobo Martins.

P/1 - A senhora sabe a história dos seus avós?

R - Meu avô, quando veio da Espanha...

P/1 - Qual avô? Paterno ou materno?

R - Pai da minha mãe, ele veio e começou a trabalhar na rua Santa Rosa, de carroceiro, ele dirigia uma carroça, agora minha avó não, né, minha avó fazia só serviço de casa, né, que tinha muitos filhos.

P/1 - Ah, é? quantos filhos, a senhora sabe?

R - Ela teve cinco filhos.

P/1 - Cinco filhos.

R - É.

P/1 - Eles contavam histórias da Espanha?

R - Sempre contavam, né, que eles estavam bem lá, que não estavam mal, mas puseram na cabeça de querer vir para o Brasil, então vieram, né, e quando chegaram aqui, eles foram morar no... eles viveram uma parte em Jundiaí, depois de Jundiaí, eles vieram aqui para o Brás, e moraram na rua Claudino Pinto, há muitos anos, e depois vieram morar na Caetano Pinto, que a Caetano Pinto tinha poucas casas naquela época, não tinha quase muitas moradias por aqui. É isso que eles me contavam.

R/2 - Olha, você não contou, eu em São Paulo fui morar em Campo Limpo...

R - É. Agora meus pais também moraram, é, quando vieram, meu pai veio da Espanha, minha mãe e meu pai vieram, meu pai da Espanha foi para a Argentina, pequeno, com seis anos, e minha mãe tinha quatro anos. Aí depois se conheceram na Espanha, a família, e depois foram morar na Argentina e da Argentina vieram para cá. Meu pai tinha doze anos e minha mãe tinha dez anos quando vieram para cá, quer dizer, que a família dos dois eram muito conhecidas, muito amigas, tinham muita amizade.

P/1 - A senhora sabe em que anos mais ou menos eles chegaram?

R - Ele tinha... meu pai, doze anos, ele está com noventa e quatro anos...

P/1 - Então se ele nasceu...

R - ...faz oitenta e dois anos que ele está aqui no Brasil.

P/1 - Certo. A senhora sabe porque que eles vieram para o Brasil?

R - É, naquele tempo lá a família daqui do Brasil mandava cartas para a Argentina, que aqui se ganhava muito dinheiro, que a vida era muito boa, então eles acharam que aqui eles ganhariam melhor a vida do que lá na Argentina, quando eles vieram para cá.

P/1 - Que que seu pai veio... acabou trabalhando com o que aqui?

R - O meu pai?

P/1 - É.

R - O meu pai primeiro começou em sapateiro.

P/1 - Aqui no bairro?

R - É, aqui no bairro, aqui na Caetano... na... morou aqui na avenida Rangel Pestana e depois veio morar na Caetano Pinto. Agora, quando ele veio da Argentina ele foi morar um pouco de tempo no Campo Limpo, que é perto de Jundiaí, lá foi que ele começou a trabalhar de sapateiro, trabalhou muitos anos. Aí depois ele começou a trabalhar nas feiras, surgiram as feira aqui no Brasil, então ele começou a trabalhar, cada dia era numa feira que ele ia vender roupa.

P/1 - Ah, roupa?

R - É, ele começou a vender roupa.

P/1 - E onde que pegava roupa para vender?

R - Ah, ele vendia... pegava nos atacadista, né, naquele tempo lá, primeiro começou vender frutas e depois de frutas, ele começou... Algumas fabriquinhas que tinham começado, que estavam trabalhando, aí ele pegava das fabriquinhas, que faziam a mercadoria.

P/1 - E a mãe da senhora trabalhava?

R - A minha mãe trabalhou no Sudan.

P/1 - O que era?

R - Era fábrica de cigarros.

P/1 - Ah, o que ela fazia lá?

R - Ela empacotava.

P/1 - Empacotava o cigarro?

R - O cigarro.

P/1 - E ela contava como que era na fábrica?

R - É, dizia que a relação das colegas era boa, é, e ela trabalhou muitos anos, ela veio com dez anos, começou a trabalhar no Sudan com treze, quatorze anos, aí ficou trabalhando até depois que ela casou. Ela trabalhou mais ou menos uns quinze anos nessa fábrica.

P/1 - É?

R - É.

P/1 - E quando ela teve os filhos continuou ou não?

R - Não, depois já começou a ficar em casa.

P/1 - Sei.

R - Que ela teve eu, teve minha irmã, então aí já começou mais a fazer as coisas dela, em casa, né?

P/1 - Dona Nair, a senhora lembra da sua casa de infância?

R - Minha casa de infância, morei muitos anos no quintal.

P/1 - Sei.

R - Que morava...
(PAUSA)

P/1 - Então, a gente estava falando da sua casa de infância.

R - É, nós moramos muitos anos, que aqui na Caetano Pinto tinha muitos quintais.

P/1 - Ah, é?

R - É, que morava muita famílias, que vieram de fora, morava muita, muita família, cada uma morava num quarto e cozinha. Então nós moramos muitos anos num quarto e cozinha.

P/1 - Onde que era?

R - Aqui na Caetano Pinto.

P/1 - Era um quarto e cozinha?

R - Um quarto e cozinha.

P/1 - Não tinha banheiro?

R - Não, o banheiro era para toda gente que tinha, era no fundo do quintal.

P/1 - E quem mais que tinha nas outras casas vizinhas?

R - Ah, todos que moravam eram gente simples, gente pobre, moravam todos, cada um morava num quarto e cozinha.

P/1 - É?

R - É.

P/1 - E como era a casa, tinha mais irmãos?

R - Eu?

P/1 - É.

R - Só tinha uma irmã.

P/1 - Uma irmã.

R - É.

P/1 - Qual que é o nome dela?

R - É Deise Gutierrez Vila Lobo.

P/1 - Certo.
(PAUSA)

P/1 - E como é que era o cotidiano da casa? O dia-a-dia.

R - O viver da vila?

P/1 - É.

R - Era para simples, né, a gente comia coisa simples porque o dinheiro não dava, o dinheiro sempre era curto, o pessoal ganhava muito pouco.

P/1 - Que que vocês comiam?

R - Ah, geralmente arroz, feijão, né, ovos, ovo frito, um bife uma vez ou outra.

P/1 - E onde é que eram feitas as refeições?

R - Eram picados, a minha mãe que cozinhava.

P/1 - É?

R - É, que minha mãe que fazia.

P/1 - Ela criava os filhos?

R - Ah, sim, minha mãe sim, minha mãe criava as duas, né, eu e minha irmã.

P/1 - E vocês almoçavam juntas?

R - Sim, sempre.

P/1 - E o pai da senhora também?

R - Também, minha mãe e meu pai sempre se deram muito bem.

P/1 - Mas ele voltava do trabalho para almoçar?

R - Ele vinha, tinha dias que não dava para ele vir, porque ele queria fazer trabalho a mais, porque ele trabalhava de sapateiro, né, e ele ganhava pela quantidade que fazia, né, então, quer dizer, que naquele tempo também ganhava pouco os que trabalhavam, sempre, operário sempre ganhou pouco, né, aqui no Brasil.

P/1 - Dona Nair, como é que era o seu pai e sua mãe, como é que a senhora descreveria os seus pais? Eram bravos, eram...

R - Não, minha mãe só que foi sempre de muito respeito, a gente só de olhar na cara do pai e da mãe a gente já sabia o que estava errado.

P/1 - Ah, é?

R - Muito respeito.

P/1 - Eles eram... não eram bravos, não?

R - Não, não, só que eles queriam as coisas todas certas, né?

P/1 - Por exemplo.

R - A educação que ele deu para mim, para a minha irmã, foi uma educação muito boa, tanto meu pai como a minha mãe.

P/1 - E tinha alguma profissão que era valorizada na família, por exemplo, eles gostariam que os filhos... as filhas tivessem uma profissão ou não?

R - É, naquele tempo lá eu estive na escola até o terceiro ano do primário, eu tive que sair para trabalhar, porque o que o meu pai ganhava sozinho não dava, agora já minha irmã não, minha irmã tirou diploma do grupo e meus pais queriam que ela estudasse, mais que nada, ela não quis mesmo estudar, né?

P/1 - E a senhora foi trabalhar onde?

R - O primeiro emprego meu, eu comecei com dez anos e meio.

P/1 - Nossa!

R - Numa firma, numa casa particular, naquela época era uma fabriquinha muito pequenininha que estava começando.

P/1 - Era fábrica?

R - Era uma fabriquinha muito pequena.

P/1 - O que a senhora fazia lá?

R - Eu... aqueles papelões que vão dentro da seda, para embrulhar a seda, eu colava aquelas fitas em volta, esse foi o primeiro emprego.

P/1 - Essa era fábrica do que?

R - Então, era fábrica de, chamava... tabuleiro, mas era uma tábua, não é tábua, madeira, puxa vida, que quer dizer aquilo lá? Não, era papelão com, com uma madeirinha em volta, que era para embrulhar o cetim na seda, naquela época eles embrulhavam, então nós fazíamos esse serviço. Aí com quatorze anos eu entrei trabalhando numa fábrica de tecelagem.

P/1 - Como é que chamava?

R - Puxa vida! Era na rua Capitão de Lima... não me lembro, era de suspensório, fazer peças para fazer suspensório, naquela época prendia muito suspensório, usava muito nas calças, né, o pessoal, a mocidade toda usava, então era fábrica disso aí, de fazer.

P/1 - E como é que a senhora ia até o trabalho?

R - Eu ia a pé, apesar que não era muito grande, era muito longe, né, é uma travessa daqui da rua Claudino Pinto.

P/1 - A senhora ia e voltava?

R - Ia e voltava andando.

P/1 - Ia sozinha ou tinha outras colegas que iam junto?

R - Não, tinha uma colega que trabalhava junto comigo, morava perto da minha casa.

P/1 - Vocês iam juntas?

R - Sim, nós íamos juntas e vínhamos juntas.

P/1 - Como é que era o cotidiano, o dia-a-dia dentro da fábrica?

R - Não, era tudo família que trabalhavam lá, né, porque também era firma. É, de começo, quando era firma pequena também, mas os que trabalhavam lá eram todos gente boa, gente humilde, que trabalhava porque precisava. Então, mas esse foi um dos empregos que eu tive, depois quando eu tinha quinze anos, aí comecei já a vender um pouco de roupa também.

P/1 - Onde?

R - Eu vendia... começaram as feira, naquela época também, as feirinha, né, que chamava, então eu ia todo o fim de semana e vendia nas feirinhas, porque o ordenado era muito pouco. A gente trabalhava, trabalhava de segunda a sexta na fábrica, e de sábado e domingo pegava o que tinha de coisa para vender. E ia vender.

P/1 - E onde a senhora pegava essas coisas, dona Nair?

R - Então, o que eu te falei, as vezes eu comprava de loja, né, tinha loja aqui na avenida. É, naquele tempo lá também, no carnaval a gente vendia boné, na cidade, é, eles deixavam trabalhar na cidade, eu fazia os bonés, e mesmo a mercadoria que eu vendia, eu fazia também.

P/1 - E por que boné? Usava boné no carnaval?

R - É, naquela época saía muito, agora não, agora não existe mais carnaval, né, carnaval agora é só no salão mesmo.

P/1 - E essas feirinhas que a senhora estava contando, onde que eram?

R - As feirinhas cada dia eram num lugar, de domingo era na Lapa, de sábado era em Santana, de quinta-feira era na Vila Mariana, mas só que não é como está agora, né, naquele tempo lá era tudo... você via muito era casinha térrea, casinhas pequenas, não é esse negócio de prédios como tem agora, né?

P/1 - Como é que vocês iam até as feiras?

R - Até as feiras nós íamos de bonde.

P/1 - Ah, é?

R - É, às vezes tinha um caminhão de japonês que naquele tempo não era feira, eles iam com caminhão e levavam verdura, arroz, feijão, então eu acompanhava também aquele caminhão e ficava... fiz Praça da Árvore, né, mas era tudo feirinha muito pequena, né, que depois que começou a aumentar, o povo e começou a aumentar, barracas de feira e tudo, né?

P/1 - Como que era o bonde, dona Nair?

R - Ah, o bonde era aberto tudo, dos lados, né, a pessoa, como quero dizer, puxa vida, eram todos abertos nos lados os bondes.

P/1 - E pagava?

R - Pagava, só que eu não me lembro quanto que pagava naquela época. Eu sei que era coisinha mínima, né, mas eu não estou lembrada, porque o dinheiro cada vez vem um tipo, né? Antes era cruzeiro e depois foi, primeiro, antes do cruzeiro o que era? Era outro tipo de dinheiro, depois veio o cruzeiro e agora o real.

P/1 - Dona Nair, tinha práticas religiosas na família da senhora?

R - Nós sempre fomos católicos.

P/1 - E vocês iam à igreja?

R - Sim, sempre. A igreja aqui do Brás é uma igreja muito antiga, é, aqui da... da igreja, como é que chama?

P/1 - Bom Jesus.

R - É o Bom Jesus, é das mais antigas, aí depois surgiu a capelinha aqui da Caetano Pinto, a marrom, que é muito... os italianos iam muito, né, vão por causa que essa nossa senhora é de lá da Itália.

P/1 - Casaluce.

R - É, da Casaluce. Então todos os anos, quando era o dia dela, eles vinham com a, como é que quer dizer, com a fotografia dela, entravam nos quintais, porque a maior parte por aqui era tudo quintal, não tinha prédios, então cada um dava um pouquinho para ajudar a igreja, porque aí foi que começaram a construir a igreja.

P/1 - E com quem a senhora ia à missa?

R - Na missa eu ia com a minha mãe, às vezes ia com a vizinha do lado, quando minha mãe não podia ir, mas geralmente a gente sempre ia, né?

P/1 - Como é que era, dona...

R - É como eu te falo, a igreja naquele tempo era uma coisa muito pequenininha, né, depois é que pegaram e construíram maior, né?

P/1 - E vocês costumavam viajar?

R - Não, naquela época lá a gente, o que ganhávamos, não dava para ir a canto nenhum.

P/1 - Ah, é?

R - Naquela época não.

P/1 - E o que vocês faziam para se divertir?

R - Nada.

P/1 - Nada?

R - Aí depois que começou cinema, né, a gente às vezes ia no cinema.

P/1 - Onde era e qual era o nome ?

R - A, tinha aqui na Gasômetro, na rua do Gasômetro o cinema, tinha o Ideal também, na rua do Piratininga, e tinha aqui também, puxa vida, não me lembro como era o nome do cinema que tinha aqui na Rangel Pestana, só que na avenida Rangel Pestana tinha um também, ah, e tinha lá, lá na rua do Gasômetro tinha outro, que depois abriram também, era mais cinema só.

P/1 - Como era, dona Nair, esse cinema?

R - O cinema?

P/1 - É.

R - Não é como agora, a mesma coisa, cinema era comum lá, era... agora estão mais chiques, né, que eles estão fazendo mais em , que está tendo mais cinemas agora, que eles estão pondo...

P/1 - O que a senhora lembra de ter assistido no cinema, que filmes?

R - Naquela época não me lembro não.

P/1 - Como?

R - Naquele tempo lá, eu não me lembro, apesar que eu não ia muito em cinema também, porque a minha mãe era uma pessoa que ela não deixava muito a gente sair.

P/1 - Ah, é?

R - Naquele tempo lá a gente era muito seguro, andar não deixava.

P/1 - E de criança, quais eram as brincadeiras de criança?

R - Brincadeira era pular corda (risos) pular corda, brincar de casinha, como criança, né?

P/1 - Brincava na rua?

R - Não, minha mãe não deixava.

P/1 - Não?

R - Nós brincávamos dentro do quintal, né, no quintal sim.

P/1 - Ah, é?

R - Mas em rua não.

P/1 - Dona Nair, essa escola que a senhora foi, que a senhora fez três anos, como é que chamava?

R - É aqui, é o Romão Puiggari, até agora tem, até agora, essa escola é antigas.

P/1 - E que lembranças a senhora tem dessa escola?

R - Ah, lembrança é que eu gostava muito, né, mas infelizmente eu tive que sair no terceiro ano para... até meu boletim da nota eles não quiseram dar, porque não queriam que eu saísse, que eu estava com boas notas para passar para o quarto ano, mas eu fui obrigada, porque na minha casa estava passando... a gente estava passando até em situação ruim, porque meu pai trabalhava de sapateiro e naquela época parou a saída do sapato, parou muito, então eu fui obrigada a começar trabalhar.

P/1 - A senhora ficou triste de sair da escola?

R - Ah, eu fiquei, porque gostaria de ter continuado, né?

P/1 - Que que a senhora mais gostava lá?

R - É, eu gostava das colegas, né, que estudavam comigo, gostava muito das professoras, da diretora.

P/1 - E o que a senhora não gostava, dona Nair, da escola?

R - O que eu não gostava? Não, sempre gostei muito.

P/1 - E como que era a disciplina na escola?

R - Lembro que naquele tempo lá era muito boa, as professoras eram um pouco, como quero dizer, elas, as professoras naquele tempo era um pouquinho severas, não é como agora não, que deixa passar muitas coisas, né, mas naquele tempo não.

P/1 - E o que elas faziam para manter a disciplina, como é que elas conseguiam controlar?

R - Não, elas controlavam com o jeito delas, com o modo de elas agirem, né?

P/1 - E tinha uma roupa especial para assistir aula?

R - Tinha, tinha, naquele tempo lá usava avental branco.

P/1 - Ah, é?

R - É, em cima da nossa roupa, nós usávamos avental e uma fita branca bem grande na cabeça.

P/1 - É, e os meninos?

R - Os meninos usavam era calça azul-marinho e camisa branca, é, usavam guarda-pó também, eles também usavam guarda-pó.

R/2 - Guarda-pó.

P/1 - Sei.

R - Avental branco.

P/1 - E o que tinha de atividade paralela na escola, tinha esporte, aula de ensino religioso?

R - Não, de religioso tinha.

P/1 - É.

R - É. Tinha uma pessoa da igreja que ia sempre, né?

P/1 - O que ela fazia lá?

R - Bom, rezava, né, junto com  a gente, né, e eu fiz a primeira comunhão também aqui na igreja Bom Jesus.

R/2 - Eu morei em Campo Limpo.

P/1 - O senhor contou para a gente.

R/2 - Em Campo Limpo nós alugávamos a sala da frente, ficava de frente para a escola, lá tinha... porque ali era uma cidade pequena e não tinha muito habitante, e nós morávamos naquela casa, na sala da frente do meu pai, dava para a escola.

P/1 - E como é que era o grupo de amigos da senhora aqui no bairro?

R - Bom, naquele tempo lá amigos a gente tinha só os colegas da escola, porque...

R/2 - Sabe de onde vinha professora?

P/1 - Não.

R/2 - De Jundiaí.

P/1 - De onde, Jundiaí?

R/2 - Jundiaí.

P/1 - É?

R/2 - Jundiaí é uma cidade já muito velha.

P/1 - Sei.

R/2 - Cidade velha, grande, e eu morava dez minutos fora de Jundiaí.

P/1 - Dona Nair, a senhora estava contando para a gente do grupo de amigos, né?

R - É. Naquele tempo lá, principalmente a minha mãe, minha mãe não era mãe de deixar a gente sair com amigas, nem nada.

P/1 - Ah, é?

R - É, a gente só tinha amiga mesmo era na escola, que a gente se dava bem com todas elas, né, mas de sair assim minha mãe não deixava, não.

P/1 - Mas e quando a senhora ficou mais jovem?

R - Ah, eu não tive mocidade.

P/1 - Não?

R - Como agora, que se diverte em tudo, a gente não teve naquela época.

P/1- Mas a senhora teve amigas que se divertiam, conhecia?

R - Não, era muito difícil, viu, os pais eram mais seguros naquele tempo, não deixavam muito os filhos saírem.

P/1 - Entendi. E namorado, como é que aconteceu os namoros, dona Nair?

R - Se eu te falo, eu comecei a namorar com vinte e um anos.

P/1 - É mesmo?

R - E casei com vinte e quatro.

P/1 - Como é que aconteceu isso?

R - Ah, era justamente também que morava aqui na Caetano Pinto, perto de casa, aí com mês veio falar comigo, né, me pediu em namoro, e eu não queria, porque eu tinha receio da minha mãe, né, eu não queria, não queria, aí depois de tanto dar em cima, comecei a namorar, e namorei três anos e casei.

P/1 - E como é que dava em cima na época, dona Nair?

R - Que dava em cima? Ah, é que ele marcava para a gente sair tudo, mas eu, como minha mãe não deixava, né, então eu nem saía, aí um dia ele veio falar comigo na porta de onde eu morava, na hora que eu ia saindo, aí eu falei que não, que só se ele fosse falar, que não para ver se deixava eu namorar, aí foi que ele foi falar com minha mãe.

P/1 - Ele teve coragem?

R - Foi, teve.

P/1 - E sua mãe?

R - Ah, minha mãe na primeira falou que não estava querendo, né, mas já se eu queria... aí foi que ela aceitou.

P/1 - Entendi.

R - É, mas naquele tempo lá não é como agora que, que marca um dia, marca outro, com vários, né, naquele tempo não.

P/1 - Em que anos a senhora casou, a senhora lembra?

R - Puxa vida! Eu estou um pouquinho fora do dia, eu sei que foi no dia 18 de setembro, a minha filha está com quarenta e dois, foi quarenta e três anos atrás, quarenta e três anos atrás, nós estamos no ano 2000.

P/1 - Então foi em 1957?

R - É, mais ou menos isso.

P/1 - E teve noivado?

R - Se eu tive noivado?

P/1 - É.

R - Eu tive três anos de noivado.

P/1 - Ah, era assim?

R - É, três anos.

P/1 - Namorava, mas teve assim um dia que fez o noivado, punha a aliança de noivado ou não?

R - Não, quando ele falou comigo para entrar na minha casa, depois de dois meses ele já trouxe a aliança, né?

P/1 - Ah, é?

R - Mas não teve nada, né?

P/1 - Não teve uma festa?

R - Nada, nada, nada.

P/1 - E daí como é que foi o casamento, dona Nair?

R - O casamento? (risos) o casamento foi uma droga. (risos)

P/1 - Por que, dona Nair?

R - É porque aconteceu o seguinte: (risos) casamento, quando eu casei, eu vi que a educação dele era completamente diferente da minha.

P/1 - Ah, é?

R - É. A gente gostava das coisas certas, depois ele foi uma pessoa que nos primeiro anos ainda trabalhava, mas depois já começou a trabalhar no ferro-velho, na rua com o irmão dele, começou na bebida, foram vinte e seis anos, uns anos ainda ele foi bom no começo, mas depois foram vinte e seis anos de purgatório, porque ele começou na bebida, começou depois um dia ele trabalhava, outro dia não... agora é que eu abri a loja, né, nova, e foi aí que eu sobrevivi, mas com a loja, né? Sempre eu fui uma pessoa que eu cortei roupa, meu pai também sempre me ajudou, começamos a trabalhar juntos, então meu pai me ajudou muito, né? Minha mãe também, que minha mãe cuidava dos meus filhos, que eu tenho dois filhos, Antônio Carlos Motta e minha filha Sônia Maria Motta. Então aí, mas casamento para mim foi...

P/1 - Mas teve uma festa de casamento?

R - Sim, teve, na Carneiro Leão.

P/1 - Carneiro Leão?

R - Aí na rua Carneiro Leão, onde eu morava e tinha a lojinha, né, eu já tinha a lojinha naquela época.

P/1 - Era na casa da senhora?

R - Na minha casa.

P/1 - E foi na igreja?

R - Foi aqui também, na Bom Jesus.

P/1 - E a senhora mandou fazer um vestido especial para o casamento?

R - Mandei, mandei fazer um vestido de noiva.

P/1 - Onde?

R - Foi uma costureira conhecida minha que fez.

P/1 - Como que era o modelo, dona Nair?

R - É, o modelo tinha um pouquinho de véu atrás, tinha a grinalda, né, na cabeça, e o modelinho era fechadinho, né, com mudinha comprida, fechadinho.

P/1 - Dona Nair, descreve para a gente como é que era o bairro antigamente, o Brás.

R - O Brás antigamente tinha área só de quintais, né, quintais grandes, compridos, que moravam muita gente. Aí, de um tempo para cá, começaram a derrubar, né, pediam os quintais, o pessoal teve que sair e aí foi que começaram a levantar os prédios, né?

P/1 - Por que o pessoal começou a pedir? Quem pediu?

R - É, porque geralmente os que moravam pagavam muito pouco, né? Depois, como os quintais já fazia muito tempo que estavam... já começaram ficar os quintais muito cheios de gente e o pessoal não cuidava, aí começou a estragar tudo, então os proprietário pediram as moradias, os quintais, para fazer prédio. Como fizeram, que tem muitos prédios por aqui.

P/1 - E como que era a relação com os vizinhos, tinham italianos?

R - Tinha, tinha, mesmo onde nós morávamos, mesmo minha mãe, minha mãe era argentina, ela faleceu. Ela era argentina, e se dava muito com uma italiana, chamava dona Rosa, a dona Rosa fazia comida italiana, dava para a minha mãe e minha mãe fazia comida espanhola e dava para a dona Rosa.

P/1 - É…?

R - É. Eram muito, muito amigas, os vizinhos mesmo, se davam muito bem, tanto um como o outro, mesmo que tinha muitos italianos e tinha muitos espanhóis que começaram a vir para cá, muitos vieram em... porque a Caetano Pinto é a rua mais antiga que tem, né, os que vieram então vieram para cá também, muitos foram para o interior, mas a maior parte veio para cá, naquele tempo lá, que na Caetano Pinto, lá no fundo, tinha um terreno grande que era cheio de carro, carro, carrinhos de carroçaria que chamava, né, que usava com burro na frente, e as pessoas quase não usavam caminhão, usava era mais...

P/1 - Carroças.

R -  ...carroças, então tinha esse terrenão muito grande na Caetano Pinto, lá embaixo, e depois tinha os quintais, né, pegava com os quintais perto.

P/1 - Tá certo. E que lugar do bairro que a senhora mais gostava, que a senhora mais gosta?

R - Ah bom, eu sempre gostei daqui desse pedaço, aqui na Caetano Pinto.

P/1 - Por quê?

R - Ah, porque a gente, já bem dizer, se criou aqui, né, a gente já... eu nasci na... minha mãe depois, logo em seguida veio para a Carneiro Leão, da Carneiro Leão veio para Caetano Pinto, e nós estamos morando até agora aqui na Caetano Pinto.

P/1 - E como é que era o comércio aqui no bairro?

R - O comércio sempre foi, aqui no Brás, sempre foi comércio pequeno, nunca foi comércio assim, né, comércio grande.

P/1 - E era mais o que dona Nair?

R - Ah, aqui era misturado, né, tinha quitanda, tinha venda, tinha leiteria, né, da dona Teresa, lá embaixo, tinha padaria, tinha churraria, que hoje em dia nós não temos.

P/1 - Ah, é?

R - O pessoal fazendo churros. Tinha um casal que fazia churros, o Diogo da dona Dolores fazia, era uma delícia, mas agora não tem mais por aqui churros, se eu não me engano parece me que falaram que tem na rua, parece que é na rua Mem de Sá, está escrito ali, mas nunca é como aquele que faziam antes.

P/1 - Como que era aquele?

R - Eles eram, era massa, né, de trigo, e eles faziam em umas frigideiras grandes, mas acho que era o modo deles prepararem, que era uma delícia.

P/1 - Ah, é?
R - Você comia um pedaço de churro com café-com-leite, né, o café preto, que seja, era uma delícia.
P/1 - É mesmo.
R -Ai que gostoso que era. Mesmo morcillero também, que tinha casa de morcillas. Sabe o que é morcilla?
P/1 - Morcilla é linguiça?
R - Linguiça preta, aquela linguiça de gomos, preta.
P/1 - Que nem um chouriço, né?
R - É isso, chama, chama chouriço, né?
P/1 - Tinha morcillera aqui?
R - Tinha, primeiro foi aqui na Caetano Pinto e depois foi, saiu daqui, e foi para aqui na travessinha da rua Sobral, né, e...
P/1 - Como é que comia a morcilla?
R - Minha mãe fazia muito em puchero, fazia com grão de bico, feijão branco, com macarrão, punha morcilla, punha toucinho.
R/2 - Se usava muito com arroz e feijão.
R - É. punha carne, músculo na sopa, né, fazia, ficava como espécie de uma sopa, mas era uma delícia a morcilla, dava um gosto muito gostoso.
P/1 - E na morcillera como que é? As pessoas iam para lá só para comer morcilla?
R - É, a gente comprava por quilo, né, eles vendia por quilo só, para levar para casa.
P/1 - Ah, eles vendiam.
R - É, vendia... comprava... Que vendia, vendia morcilla e vendia linguiça, mas a morcilla deles era uma delícia, agora não se vê mais.
P/1 - E a senhora falou das leiterias, eu ouvi dizer que tinha um leiteiro que passava entregando o leite...
R - Ah, sim, tinha um leiteiro e tinha um padeiro também.
P/1 - Ah, é? Como é que era?
R - É, eles iam entregando de casa em casa, nos quintais, eles entravam nos quintais também. E tinha a leiteria também, que eles vendiam aqui, era uma casa de comércio, vendia de tudo e também vendia leite, né, da dona Teresa.
P/1 - E tinha leite de cabra?
R - Leite de cabra... foi logo no começo, eu sei que naquele tempo que meu pai veio para cá, pessoas aí, que já faleceram, falavam que vinha, mesmo nesse lugar que eles guardavam aqueles carrinho de coisa, de... que tinha cavalo na frente, carroça, né, eles tinham também boi, tinha vaca, e eles vendiam também leite lá, é, para o povo que morava por aqui.
P/1 - Entendi. E, dona Nair, a senhora se lembra de procissões na rua?
R - Ah, sim, tinha.
P/1 - Como que eram?
R - A procissão é como agora, né, como o dia que faz a procissão daqui da igreja, daqui também, da Casaluce, daqui da igreja do Bom Jesus, andava até lá e saíam as procissões pela rua.
P/1 - Ah, é?
R - É. Pegava quarteirão, né, entrava pela Piratininga, saía pela Campos Sales e entrava pela Caetano Pinto, e todo o pessoal punha aquelas toalhas lindas, estampadas, na janela.
P/1 - Ah, é?
R - Punham aquelas de rendas branca que, quem tinha, né, porque eram janelas de portas baixas, né, de casas baixas, então eles punham.
P/1 -E que que significava? Para que que colocava?
R - É, porque disse que era devido o santo que ia passar, né, devido ao santos.
P/1 - Entendi. Dona Nair, eu ouvi dizer que tinha um lugar aqui que era de fazer enterro, né, que era Rodovalho que chamava, a senhora se lembra? 
R - Não.
P/1 - Que era uma carroça, que carregava o caixão, a senhora lembra disso?
R - Desse aí...
P/1 - Rodovalho, o senhor lembra?
R - Rodovalho...
R/2 - Fala alto para mim.
P/1 - Rodovalho.
R/2 - Rodovalho.
P/1 - O senhor lembra?
R/2 - Lembro.
P/1 - Como era?
R/2 - Era de cavalo ali essas coisas.
P/1 - É?
R - Então, pelo tempo do meu pai, que veio para cá...
R/2 - Na Vila da Moóca tinha, viu, a Visconde tinha.
P/1 - É?  Era de enterro, seu Plácido? Era de enterro?
R/2 - É.
R - Que fazia enterro, então era quando ele passava com as carroças.
P/1 - Ah, tá. E...
R /2 - Fazia enterro.
P/1 - O que era Rodovalho?
R/2 - Ah, era de enterro.
P/1 - Era de enterro mesmo. É eu ouvi falar. (PAUSA) E que fábricas tinha aqui no bairro, além dessas que a senhora falou, a Sudan...
R - Tinha a Matarazzo, que era pequena naquela época, depois começou construir; tinha o Fontoura.
P/1 - Fontoura?
R - É, de Biotônico Fontoura.
P/1 - Ah, era aqui?
R - Aqui, aqui em frente.
P/1 - É.
R - Tinha o Matarazzo, tinha o Fontoura, agora a fábrica do Sudan era do tempo da mamãe.
P/1 - Sei.
R - Agora do meu tempo tinha Matarazzo, né, desde que eu nasci já estava
P/1 - Matarazzo era tecido?
R - Não, Matarazzo era negócio de tampas de garrafa, essas coisa, né, e na rua Capital para cima, tinha aquela fábrica que eu trabalhei também, né, fábrica de suspensório, tinha uma fábrica de camisa também, mas eu não me lembro o nome da fábrica, e por aqui tinha uma adega que depois eles abriram aí na Camilo Leão, né, isso foi no meu tempo, e é assim.
P/1 - Tá certo. E praça, tinha aqui?
R - Praça?
P/1 - É.
R - Praça, a única coisa era o Largo da Concórdia.
P/1 - Ah, é? Como é que era antigamente lá?
R - Antigamente tinha um teatro que eles puseram.
P/1 - Ah, é?
R - Tinha um teatro lá mesmo, na praça.
P/1 - Como é que chamava?
R - Puxa vida! Não sei se era o mesmo nome da praça, do Largo da Concórdia, não sei se é do Largo... o nome Largo da Concórdia ou era Colombo, uma coisa assim, eu sei que era uma... lá na praça tinha o teatro.
P/1 - A senhora foi alguma vez?
R - Eu acho que fui umas duas vezes.
P/1 - É, o que a senhora lembra lá de dentro?
R - Não, que eles trabalhavam, né, eram artistas, né, que ia apresentar, né?
P/1 - Era bonito?
R - Era muito bonito. Depois tiraram, derrubaram aquele prédio, e fizeram, deixaram a praça livre, né, tiraram.
P/1 - E as pessoas iam passear na praça?
R - Iam.
P/1 - Tinha footing aqui?
R - O que?
P/1 - Footing, sabe o que que é? Esse passeio de paquera.
R - Tinha aqui na avenida, na avenida tinha.
P/1 - Qual avenida?
R - Aqui da Rangel Pestana.
P/1 - Ah, é?
R - Tinha, mas eu, como a minha mãe não deixava eu sair, eu não saía.
P/1 - Como que era a iluminação do bairro, dona Nair?
R - A iluminação?
P/1 - É.
R - Sempre teve as luzes aqui na Caetano Pinto, teve sempre na avenida, sempre, desde que eu nasci até agora, eu sempre vi.
P/1 - E que que mudou na iluminação de lá para cá?
R - Olha, eu te digo uma coisa, eu estou achando que está a mesma coisa, né, a iluminação é a mesma coisa. Que Brás está muito atrasado, isso sim eu falo, que os governo eles não estão olhando justamente aqui para o Brás. E o Brás é uma história de muitos que vieram, que já se foram, que já faleceram, muita gente do antigo, que veio para cá, e vieram para onde, vieram para cá, para o Brás. Mas aqui o Brás está muito atrasado, eles deviam ter feito uma melhoria, uma coisa melhor, né, umas escolas melhores para pessoas que não podem pagar, umas faculdades, isso daí, nada disso fizeram e a gente paga...
R/2 - Nair, nós mesmo a casa que nós morava tinha sala e aquela sala era aluguel para escola.
R - Então... Outro dia até estavam falando aqui na loja minha, as freguesas, que o Brás está muito atrasado, que não tem uma escola boa para os filhos, né, que precisaria ter, mas sai um governo, entra outro, e sempre está a mesma coisa.
P/1 - Dona Nair, deixa eu fazer uma perguntinha para a senhora, a senhora lembra se as ruas eram de terra batida ou de paralelepípedo quando a senhora era criança?
R - Não, porque desde que eu nasci sempre foi igual, né? Sempre foi a mesma coisa, não era terra não, na minha época já não era.
P/1 - E aí quando que colocaram calçado, a senhora lembra como é que foi que tiraram paralelepípedo?
R - Não, porque no meu tempo já estava, viu, desde que eu nasci...
R/2 - O quê?
P/1 - Se o chão era de terra batida aqui no Brás, o chão era de terra batida ou era de paralelepípedo?
R/2 - Não. Já era tudo calçamento, eu estou com setenta anos, desde que eu me conheci sempre foi assim, já estava, já tinham feito calçamento na rua toda.
P/1 - E a senhora falou que a senhora andava de bonde, né?
R - Isso, isso.
P/1 - A senhora andou de ônibus também?
R - Andei, naquela época tinha começado também, mais ou menos, é já tinha ônibus e tinha bonde, porque que eu me conheço desde... Mas quando eu nasci já tinha.
R/2 - Sim.
R - Então, quando eu nasci já tinha, são setenta anos já, que eu completei.
P/1 - Entendi. E qual que era melhor: ônibus ou bonde?
R - Olha, eu digo uma coisa, o ônibus é que corre mais, né, agora o bonde, se a pessoa levava [pano] para corte, essas coisas, facilitava mais, porque punha na parte da frente, né, que eu mesmo ia para a feira, eu punha o bonde na frente, eu ai mais acomodada, né, mas para ir mais rápido é o ônibus, né?
P/1 - Dona Nair, a senhora se lembra quando foi feita a instalação da linha telefônica?
R - Não me lembro, não.
P/1 - Como era?
R - Esse mesmo aí, já faz muitos anos que eu tenho, né?
P/1 - Mudou alguma coisa na sua vida com o telefone?
R - Não, o telefone ajuda muito por uma coisa de muita necessidade, o telefone é muito útil, né, eu, para mim... só que agora como eles estão cobrando, a conta está vindo muito, eles puseram aumento e tudo, a gente só liga mesmo o mais preciso, né, mas para a gente, o telefone, é uma coisa útil para uma necessidade.
P/1 -  E o abastecimento de água aqui, como é que era?
R - Sempre foi igual, agora que a marcação está diferente, né, mas o negócio da água sempre foi igual.
P/1 - Mas faltava água antigamente?
R - Não, aqui nunca faltou.
P/1 - Nunca faltou água aqui.
R - Nunca, que eu me conheça, nunca.
P/1 - Tá certo. E a senhora acompanhou a construção do metrô?
R - A construção do metrô? Eu acompanhei, porque infelizmente eu perdi três propriedades por causa do metrô.
R/2 - Esse negócio da água, Nair comprava um pote assim e punha em cima da pia e enchia de água.
P/1 - E onde pegava a água, seu Plácido? Onde pegava essa água?
R/2 - Essa água vinha da rua, vinha da chuva.
R - É, sempre veio da ligação da rua, né, então...
R/2 - A água vem da rua.
R - Agora, negócio do metrô, eu tinha três propriedade, três sobrados na Mário Barreto.
P/1 - Na Melo Barreto?
R - Na rua Mário Barreto, lá no fundo da rua, pegaram sem necessidade, uma sim passa o metrô, mas duas fizeram prédio de apartamento em cima daquele terreno, casas lindas que eu tinha, casas muito bonitas.
P/1 - Como a senhora conseguiu comprar essas casas?
R - Trabalhando, né, trabalhei bastante, dia e noite trabalhando, aí construí, comprei elas, né, comprei, dei entrada, depois fui pagando, quando a gente estava mais sossegado, veio o metrô e levou tudo.
P/1 - Como eram as suas casas, que foram desapropriadas?
R - Minha casa era sobradinho, era, tinha cozinha em baixo, a sala, em cima tinha dois dormitórios, banheiro, e embaixo tinha mais um banheiro.
P/1 - E pagaram pela...?
R - Foi a primeira a ser chamada aqui.
P/1 - No bairro?
R - Aqui no bairro.
P/1 - Para desapropriar?
R - Para desapropriar.
P/1 - Quem chamou, dona Nair?
R - Foi o metrô, né, dizendo que eu precisaria sair em trinta dias, e eu falei para eles que não ia entrar em acordo porque eles queriam me dar uma miséria. A casa, naquela época, valia quinhentos cruzeiros, queriam me dar cento e trinta. Então eu fiquei nervosa, comecei a gritar e ficar... fiquei, eu fiquei ruim mesmo, nervosa, quando me falaram aquilo, eu falei para eles: “olha, eu não roubei, eu comprei com sacrifício, paguei a casa, e agora vocês querem me tomar a casa, ainda se vocês me pagassem o certo, né, para ajudar o povo, devido ao metrô, mas prejudicar uma pessoa que fez sacrifício para comprar, para dar uma condução para o povo, então nesse caso paga o certo, senão me dão uma casa em outro lugar para morar”. No fim das contas, depois me chamaram de lado para me dar um pouco mais, e que eu não falasse mais nada, que iam me dar um pouco mais e eu não aceitei, pus na mão do advogado, pus na mão do advogado, do Dr. João Miguel. E o Dr. João Miguel discutiu, eram três sobrados, os três sobrados não alcançavam quinhentos cruzeiro, aí foi que eu peguei um e meio com o advogado, que eu ganhei a casa, mas depois, quando eu ganhei e eles começaram a construir, eu vi que o que eles estavam fazendo era uma coisa injusta, o que eles fizeram, né, porque eles não deviam ter pegado tanto terreno como pegaram, e depois que aconteceu, que eles estiveram dando os terreno para companhia de construções particulares, que ganharam dinheiro às custas daqueles que foram prejudicados.
P/1 - E a senhora lembra da construção? Como é que foi, como é que a senhora viu eles derrubando as casas?
R - A minha casa ficou a última, derrubaram todas, que o pessoal ficavam com medo de por advogado, que vocês sabem, tem advogados que trabalham direito e tem outros que não, né? Então eles ficaram com medo, e o pessoal saia, a pessoa que aceitava o dinheiro do metrô, o prazo que eles davam era de trinta dias, então a minha casa, a casa cinco, as duas, a outra foi também derrubada, mas a casa cinco não, a casa nossa demorou oito meses para ser derrubada, por causa que eu entrei pela justiça, pelo advogado, Dr. João Miguel. E ele foi quem segurou, por enquanto, eu levantei aqui, que aqui eram duas casas velhas que eu tinha aqui, aí peguei, levantei aqui, pedi um dinheiro emprestado para o Bradesco para depois ir pagando, para ir pagando, aí levantei aqui.
P/1 - E a senhora tinha essas casas todas que... quais eram as utilidades delas?
R - As utilidades dela, uma casa morava a minha irmã, que era casada.
R/2 - Tinha outra velha.
R - Tinha, tinha duas casas velhas aqui, uma casa era da minha irmã, que ela era casada, né, e a outra casa moravam meus pais. E a outra morava eu, que era casada, quer dizer que era só a família que usava, né, então, aí o metrô veio e derrubou todas elas, ficamos oito meses, olha, se você visse como era doloroso, ver gente sair de mudança, hein, sendo... Teve um senhor, da casa 15, já estava doente, sofria do coração, morreu, viu, porque o aborrecimento que o rapaz pegou, acabou aqueles dias de pagar a casa dele, com sacrifício, e o metrô pegou, isso foi uma injustiça, viu? Porque não digo a minha ainda, eu não incomodava, porque eles tiveram que passar mesmo o metrô, o metrô passa pela casa 28, que era minha, mas a casa do meu pai e a casa da minha irmã não tinha necessidade de ter derrubado, eles pegaram muito terreno sem necessidade.
P/1 - Dona Nair, e além disso teve algum transtorno que a senhora se lembre mais, se teve falta de água, se teve desvio de trânsito?
R - Não, falta de água, não. Aqui o Brás nunca, o mais aborrecimento que eu tive foi isso aí, que eles pegaram minhas propriedades, com o sacrifício que eu fiz, e queriam me dar uma miséria.
P/1 - A senhora acha ou lembra se quando eles começaram a desapropriar, construir o metrô, a gente ouviu dizer que tinha muitos ratos…?
R - Ah, bom, ratos e baratas apareceram, né, mas isso aí acho que é comum, né, quando o pessoal derruba geralmente sempre surge, né?
P/1 - É.
R - Barata geralmente eu via.
P/1 - E teve que fazer alguma coisa no bairro, para evitar algum problema?
R/2 - Acabaram com esses ratos e...
R - Acabou.
P/1 - Como é que eles fizeram?
R - Acabou porque parece que o...
R/2 - E a barata também acabou.
R - ...parece que o próprio do metrô, que estava tomando conta, parece que eles puseram remédio, parece que eles mataram as baratas que começaram a surgir, né, nós mesmos, que fomos a última [família] a sair, as barata vinham todas para nós.
P/1 - Ah, é?
R - É, porque como a parte ficou aberta do lado, da propriedade do lado também foi embora, né, aceitou metrô e eu chamei todos os proprietários, eu e meu pai, chamamos todos eles, para ninguém aceitar pelo metrô, né, devido... para nós não ficarmos sem as propriedade.
P/1 - E tinha lojas também ou eram só as casas que foram desapropriadas?
R - Não, naquela parte lá. Da minha parte era toda moradia, geminadas, né, eram tudo, mais era residência lá na Melo Barreto. Agora, se não me engano, parece que pegou um pouco onde o metrô passou por lá, não sei se pegou algumas, mas acho que comércio, acho que foi pouco, se pegou foi mais residência.
P/1 - A senhora foi na fundação, quando foi inaugurado?
R - O quê?
P/1 - O metrô.
R - Ah, eu não, não quis nem saber.
P/1 - A senhora estava com raiva?
R - Não, eu fiquei, eu fiquei mesmo porque, olha, quando eles me chamaram lá, que eu fui a primeira pessoa, fui eu e meu pai, né, fui a pessoa, a primeira pessoa a ser chamada, ah, eu fiquei louca, viu? Sabe o que é você fazer sacrifício de ter um teto para morar e só tinha aquele teto naquela época, hein, e o metrô chegar, sem mais nem menos, mandar uma notificação, como eles me mandaram... Fiquei louca, eles tiveram que me levar na outra sala, porque quando eles me falaram eu ainda falei para eles: “o que, esse cento e trinta, cento e trinta e cinco mais ou menos, vocês querem me dar o que é uma parte da casa”, porque a minha casa valia quinhentos e eles quiseram me dar cento e trinta e cinco. Agora, aí então eles falaram que iam dar um pouco mais, me chamaram para outra proposta, para me dar um pouco mais e eu não aceitei, que o mesmo que eles queriam me dar um pouco a mais, era uma miséria o que eles queriam me dar.
P/1 - A senhora já andou de metrô alguma vez?
R - Eu andei, mas a “roda rolante” eu me sinto mal, não posso, eu já caí uma vez.
P/1 - A escada?
R - A escada rolante.
P/1 - Ah, é?
R - Eu caí uma vez, não sei se eu pus o pé em falso, né, ou me deu tontura, eu sei que olha, eu fui de embrulho, viu, aí eu desço os degraus.
P/1 - A senhora vai na escada?
R - Eu vou pela escada, porque... apesar que eu faço de tudo para não ir pelo metrô.
P/1 - Mas o que a senhora sentiu a primeira vez que a senhora andou de metrô?
R - Ah, eu senti um pouco de receio, né, parece que minha cabeça virou. É, agora tem gente que diz que é uma maravilha, né, que é só pôr o pé ali, vai rápido, mas para mim foi uma tragédia, ainda eu levava um pacote na mão, fui eu com o pacote e tudo, de embrulho, rolei tudo, até lá embaixo.
P/1 - Na escada rolante?
R - Na escada rolante.
P/1 - E dentro do trem?
R - É, dentro do trem é normal.
P/1 - Tá certo. E depois que inaugurou o metrô aqui no bairro, o que a senhora acha que mudou no Brás?
R - Que mudou no Brás? Olha, eu te digo uma coisa, eu acho que continua a mesma coisa, pode ser que para  as pessoas que trabalham, como eu não pego metrô, pode ser que beneficiou, não sei, mas o meu genro diz que vai lotado, tem gente que vai até com a porta meio aberta, que fica trançado lá...
P/1 - É?
R - ...de tanta gente que entra, né, pode ser que melhorou para as pessoas que vêm longe, o metrô, mas para mim, aqui no Brás, para mim é a mesma coisa.
P/1 - Dona Nair, que festas que ela...
R - É, para mim, eu acho a mesma coisa, para mim prejudicou, que não deviam ter pegado minhas propriedade.
P/1 - Dona Nair, e que festas eram realizadas aqui no bairro?
R - Aqui no Brás, aqui no bairro, que eu me lembre só as da igreja mesmo, outras coisa não teve.
P/1 - Quais são as festas de igrejas aqui?
R - É daqui da Caetano Pinto, que fica um mês, né?
P/1 - E a São Vito, a senhora lembra?
R - A São Vito, quase não vou muito para lá, né, mas também é antiga também, a igreja São Vito.
P/1 - É?
R - É.
P/1 - E eram cheias essas festas?
R - Ah, sempre foi, mesmo minha filha, trabalha aí no caixa todo o ano, né, sempre foi, a festa aqui, sempre foi muito... o pessoal tem muita crença, né?
P/1 - E tinha alguma outra festa que a senhora se lembra, carnaval?
R - Ah, bom, carnaval sim, carnaval antigo era lindo, aqui na avenida então...
P/1 - Qual avenida?
R - ...serpentina, confete, era cheio pelo chão e tudo, né, mas agora não, agora não existe mais nada disso.
P/1 - Que avenida que era, que passava?
R - Aqui, avenida Rangel Pestana.
P/1 - Ah, é?
R - É. É lindo, os pessoal vinha com as cadeiras, sentava aí na avenida, via tudo aquele movimento. Era muito bonito, agora já não.
P/1 - Levavam cadeira?
R - É, para sentar. Agora não, agora você vê é só em salão de baile, e o pessoal viaja muito agora, parece que não existe mais, parece que cada ano está acabando tudo.
P/1 - No carnaval as pessoas passavam na rua de carro, desfilando ou a pé?
R - A maior parte era tudo a pé, mas tinha carros também, né, mas muita gente era a pé, tinha que ver o povo como gostava, era uma alegria, é, existia serpentina, confete, lança-perfume, era lindo, e mesmo a festa da Caetano Pinto, da Igreja, agora não é como antigamente, quando morava tudo aqueles italianos aqui na Caetano Pinto. A festa vinha até aqui, olha, pegava a rua inteira, agora não, agora é só aquele pedacinho da igreja, só aquele pedaço da igreja.
P/1 - E futebol, tinha aqui no bairro?
R - Tinha o clube aí, que os meus tios, que faleceram já, eles jogaram aí. Como era o nome do clube, que o senhor jogava dominó também? Miliciano?
R - É. Os Milicianos, tinha aqui na Caetano Pinto, lá no final.
P/1 - Os milicianos?
R - É, no final aqui da Caetano Pinto. O pessoal, pessoas de idade, jogava dominó, que não existe mais, e tinha mais, é, e tinha...
P/1 - É?
R/2 - Eu fui, bati, eu bati o título de campeão, número um...
R - Agora eu digo uma coisa, viu, eu digo uma coisa. o Brás está...
R/2 - Era uma coisa louca, eu pegava a pedra na mão e ela caía, eu dominava.
P/1 - O senhor dominava no dominó?
R/2 - Sempre.
R - É, meu pai tem a taça que ganhou no dominó. Viu, eu acho que aqui o Brás está um pouquinho abandonado.
P/1 - Sei.
R - O governo devia dar mais alegria para o Brás, viu?
P/1 - O que a senhora menos gosta daqui?
R - Não, a única coisa que eu acho que, não é que eu não goste, eu gosto, porque eu sempre morei aqui, né? Mas é que eu acho que o governo devia dar melhoramento aqui para o Brás, que o Brás está muito parado, antigamente tinha aquela alegria, o povo, agora não tem, agora não sei, será que é em todo o lugar?
R/2 - Por que, Nair?
R - Que eu acho que...
R/2 - Parece que o Brás agora está...
R - Não, mas o Brás antigamente tinha mais festa, carnaval, vinha o carnaval, a pessoa não via a hora que vinha o carnaval.
R/2 - Agora que faz mais festa.
R - Que nada! Agora não tem mais nada. Agora ou é que a televisão segurou muito as pessoas, você sabe, o pessoal hoje em dia fica mais dentro de casa, com medo de ser assaltado. Ah, outra coisa também, que eu... que eu, se fosse o governo, tirava esse negócio, dessas criança na rua Piratininga, como é que chama?
P/1 - Cetrem.
R - O Cetrem, porque aqui é uma Babilônia, viu, não faz muito roubaram, eles passam, pegam a mercadoria da porta da quitanda, outro dia entrou quatro, porque disse que os elementos que eles não aguentam lá dentro, eles põe para fora. Então aqui entraram no meu filho também, aqui no mercadinho, também querendo pegar as coisas, viu, eu não sei se eles fumam também esse negócio de...
P/1 - Droga?
R - ...de droga, e eles ficam meio aloucados, olha, eu diria uma coisa, viu?
P/1 - Dona Nair, como é que a senhora gostaria que o bairro fosse daqui a cinquenta anos? Que que a senhora gostaria que tivesse?
R - Olha, eu gostaria que pusessem mais escolas, né, pusessem, se vê, coisas para alegrar o povo daqui, né, tirar... (esse lenço aqui tem que pôr no...) antigamente tinha uma escola que chamava escola Vargas, onde tem esse negócio de Cetrem, né, que fala.
P/1 - S.O.S. Criança.
R - S.O.S. Criança, tem uma escola aí que chamava Getúlio Vargas, era uma escola que era boa para as pessoas estudarem, né, para os estudantes e tudo, e tiraram para colocar esse negócio aí, que isso aí devia pôr num lugar mais retirado e pôr escolas para o povo daqui, né, escola, recreio, um pouco para pessoas se alegrarem mais. Porque o povo aqui no Brás, eu estou achando que está muito, muito paranoico meu, (riso) devia ter coisas para, como é que se diz, para deixar o povo... se por acaso tem umas festas, coisas assim, quer dizer que... para vez do Brás ir para a frente, o Brás está indo para trás.
P/1 - Dona Nair, e com quem que a senhora mora hoje?
R - Eu... moro eu, a minha irmã, né, e meu pai.
P/1 - E como é a sua rotina hoje em dia?
R - Minha rotina é só trabalhar e ficar dentro de casa.
P/1 - A senhora trabalha onde? Conta para mim.
R - Eu tenho a lojinha aqui embaixo, aqui embaixo da minha casa, e quase todo o mês eu vou para Santos, levo meu pai, fico uma semana.
P/1 - Que que a senhora vai fazer lá em Santos?
R - Lá em Santos eu tenho uma freguezinha, que eu costuro para ela, né? Então eu levo umas costuras para ela para lá.
P/1 - Vocês vão de que para lá?
R - Nós vamos sempre de lotação, mas quando meu genro pode me levar de carro, ele me leva, e quando ele não pode, a gente pega a lotação no Jabaquara. Meu genro me leva até o Jabaquara, nós pegamos a lotação e descemos na porta onde nós temos o apartamento.
P/1 - E a senhora tem dois filhos, né?
R - Eu tenho dois filhos.
P/1 - E tem netos também?
R - Tenho.
P/1 - Como é que eles se chamam?
R - Um chama Danilo Pilares, o outro chama Denis Pilares, o da Sônia, o Danilo está com vinte e um anos...
P/1 - O que eles fazem?
R - O Danilo trabalha no Matarazzo, no escritório, agora o Denis tem dezessete anos, trabalha em uma firma de computação...
P/1 - Computação.
R - ...de aparelhos, né, ele que conserta, ele que faz, e agora do meu filho tenho três netos, tenho uma neta minha, que está na escola com onze anos, vai fazer onze anos, tenho outro menino de seis e tenho outro menino de quatro para cinco anos.
P/1 - Dona Nair, que lições a senhora tirou de toda sua experiência de vida que a senhora gostaria de deixar registrada?
R - Que eu gostaria de deixar registrada? (PAUSA) É, que eu me sacrifiquei bastante, né, para deixar um bem estar para todos os meus filhos, né, meus netos.
P/1 - E a senhora tem algum sonho que gostaria de realizar?
R - Se eu gostaria de realizar?
P/1 - Tem algum sonho, é. (PAUSA)
R/2 - Arrumado, não?
R - É (PAUSA) que eu gostaria de ver se o comércio melhora, né, para... porque você sabe, hoje em dia, do jeito que está a situação, os filho da gente andam sempre “apertados”, então o sonho meu era de ver se eu ganhava um dinheiro para poder ajudar e deixar eles mais folgados, porque o comércio caiu muito.
P/1 - E tem mais alguma coisa que a senhora gostaria de falar que eu não tenha perguntado aqui do bairro, alguma lembrança?
R - Não, lembrança no momento não, a única coisa que eu pediria, né, por exemplo, se eu pudesse falar com o Governo, né, o prefeito... porque justamente a mais, não sei qual a parte que a gente poderia falar, para ver se todas essas coisas que eu falei, para ver se eles dariam uma melhorada.
P/1 - Tá certo. Seu Plácido, o senhor tem alguma lembrança do Brás antigo que o senhor gostaria de falar?
R/2 - Eu tenho a mesma.
R - É a mesma, né?
P/1 - Tá certo.
R - É, porque a gente sempre foi do trabalho, né, a gente, graças a Deus, está sobrevivendo. Tá certo, tem meses que a gente se aperta um pouco, né, porque o que a gente ganha... porque eu consegui tudo o que queria e estou aqui, Deus me tem dado vida.
P/1 - Está de parabéns, noventa e quatro anos.
R - É, e outra coisa, os aposentados, eles devia dar uma melhora para os aposentados, né, porque aposentado está ganhando muito pouco.
P/1 - Seu Plácido, o senhor lembra da fábrica de cigarros Sudan?
R/2 - Sim.
P/1 - Como era lá?
R/2 - (PAUSA)
P/1 - Sua mulher trabalhou lá?
R/2 - Não trabalhou lá, a Lola trabalhou, mas casada não.
R - Casada trabalhou um pouquinho.
P/1 - Mulher não podia trabalhar depois que casava?
R/2 - Que?
P/1 - Mulher não podia trabalhar depois que casava?
R/2 - Não, podia trabalhar sim, podia trabalhar.
P/1 - É?
R/2 - Se era solteira e casava, continuava a mesma coisa.
P/1 - É, entendi. Tá bom. Então eu agradeço a entrevista.

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