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História

Uma vida iluminada

História de: Pedro Sérgio Libanori
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/07/2005

Sinopse

Nasceu em São Paulo, capital, em 23/10/1935. Aos 14 anos começou a trabalhar como office-boy. Também foi entregador de impostos e vendedor de discos. Em 1959, montou uma loja de móveis, postes e iluminação para jardins na Rua da Consolação. Com a constante visita dos vendedores de lustres, interessou-se pelo ramo e passou a se especializar. Hoje possui duas lojas: a Lustres Libanori e a Toda Luz na rua que é considerada o grande centro da iluminação em São Paulo.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO Meu nome é Pedro Sérgio Libanori, nasci em São Paulo, no dia 23 de outubro de 1935. Meu pai é Atílio Libanori, nascido em Ribeirão Preto, estado de São Paulo, e a minha mãe é Ana Fernandes Libanori, nascida na capital, São Paulo. IMIGRAÇÃO DOS AVÓS Meu avô veio da Itália. Veio ele e quatro irmãos, junto com meu bisavô. Sendo que um deles, quando chegou ao Brasil, acho que por falta de comunicações, desviou, perdeu o contato. Todos eles foram para Ribeirão Preto, e há pouco tempo nós ficamos sabendo de uma família Libanori que tem em Taquaritinga. A gente presume que esse irmão que perdeu contato com os outros três tenha ido para lá. INFÂNCIA Nasci na Aclimação. O que eu me lembro da Aclimação era chácaras, que marcou muito a infância. Tinha os campinhos de futebol, a vizinhança que era tudo alegre, aqueles amigos que a gente tinha pelo bairro inteiro. Aquilo me marcou muito, porque hoje a gente não consegue ter aquela amizade de antigamente, por falta de tempo ou por falta de sair na rua. As famílias se reuniam em festas, na própria rua a gente fazia aquelas festas comunitárias. A brincadeira dos meninos basicamente era o futebol, a gente jogava muito. Brincava de se esconder, amarelinha, a gente inventava muito brinquedo. Eu morava em uma travessa sem saída. Isso facilitava mais o convívio com a vizinhança. Era uma casa, um sobrado bem grande, uma casa bem espaçosa, não tinha muito quintal. O quintal da gente era a própria rua, mas era uma casa bem confortável, a gente vivia tranquilo. EDUCAÇÃO Fiz uma parte do primário no Grupo Escolar Rodrigues Alves, que ainda existe na Avenida Paulista. Fiz o primeiro e o segundo ano. Inclusive, era época de guerra naquela época, 1943 e a gente ia um pouquinho apavorado. Não sabia o que podia acontecer, era uma guerra mundial. Depois de lá eu fui estudar no Colégio Ipiranga, fiz até o científico. Depois fui para a Escola Paulista de Agrimensura, fazer um curso de engenharia de campo. Estudava basicamente loteamentos, estradas, cálculos. Depois casei e parti para o comércio. SEGUNDA GUERRA MUNDIAL Naquela época, as notícias chegavam pelo rádio, e quase não pegava direito. Não sei o que era um pouco sensacionalismo ou então o que era fato real. A coisa era de proporções terríveis. As armas cada dia mais aperfeiçoadas, coisas absurdas que a gente via, destruições. Aquilo me marcou também um pouco na infância porque a gente é inseguro, não sabe o que é que podia acontecer. Se ia ter mesmo uma invasão no Brasil. A gente ouvia comentários dos pais, dos vizinhos, todo mundo preocupado com isso. O racionamento ajudou aquilo a ficar uma coisa bem forte. Você não encontrava mais pão, não encontrava gasolina, açúcar. A gente vivia um regime de guerra sem luta. Isso ficou muito na minha lembrança. Talvez, por um lado, até me deixou ter uma vida mais tranqüila, porque quem passa por isso já vai se calejando. SÃO PAULO ANTIGA Eu sou fã de São Paulo. E São Paulo era uma cidade tranquila. Tanto é que meus pais iam de domingo ao cinema e, às vezes, quando eles iam jantar fora, eu ia da minha casa, pegava um ônibus, ia encontrar com eles lá no centro. Você vê a tranquilidade que era, eu ia sozinho, com dez, 12 anos. Nós nos encontrávamos, depois saía para tomar um lanche, qualquer coisa assim. São Paulo era livre, a vizinhança, por exemplo, lá de casa, vivia de portas aberta. Quando ia chamar um amigo meu, já entrava na casa, todo mundo se conhecia. Assim foi a São Paulo que eu conheci, que adoro até hoje do jeito que ela é. TRABALHO DO PAI Meu pai tinha uma caminhonete. Ele comprava, por exemplo, materiais elétricos, comprava lâmpadas, essas coisas, e distribuía. Ia para Santo Amaro, que era tudo distante naquela época. Santo Amaro era praticamente uma outra cidade, era uma viagem. Depois ele começou a trabalhar como entregador de café. Vendeu a caminhonete e trabalhou em vários cafés. Trabalhava e distribuía para São Caetano, São Bernardo, Santo Amaro. Aí ele quis trabalhar por conta, comprou um táxi, trabalhou de táxi muito tempo. E ele era sócio de uma metalúrgica junto com três tios meus, mas não participava, quem tomava conta eram meus tios. Ele entrou com capital lá. Inclusive, naquela época, depois de um certo número de funcionários nas metalúrgicas era obrigado a frequentar o Senai. Então eu cheguei a fazer curso do Senai. Foi um ramo que eu comecei gostar, porque é muito artístico, é uma coisa bonita. Você vê aqueles repuxados, aquelas montagens, fixações. Naquela época, começou a sair o fluorescente. Então, ele fazia artigos de fluorescentes para bares, restaurantes. Com o tempo, a metalúrgica não conseguiu evoluir e parou. Nessas alturas, eu também já estava montando a minha loja. INFLUÊNCIAS DO PAI Meu pai influenciou muito mesmo foi na minha formação, porque ele era uma pessoa muito rígida. Ele achava que ser pobre não era defeito, o defeito era não ser honesto. Ele como um motorista de táxi era um homem exemplar, trabalhava de sábado, domingo. Ele trabalhava para não deixar faltar nada em casa, então acho que nós crescemos dentro desse ambiente. Tinha que estudar, tinha que trabalhar. Isso daí me transmitiu muita coisa, ser uma pessoa lutadora, ser uma pessoa que não tem medo de enfrentar o trabalho. Não me influenciou em carreira nenhuma, me deu liberdade de escolher, eu é que sempre gostei de comércio. Achei que esse ramo de lustre era bom, batia com a minha personalidade, e fui montando a minha lojinha da Consolação, comecei lá em 1959. TRAJETÓRIA PROFISSIONAL Comecei a trabalhar com 14 anos. Fui office-boy, fui tudo na vida, trabalhei em loja de disco, era vendedor. Naquela época era aquelas bolachonas. A loja ficava na Domingos de Morais. Depois fui trabalhar com um tio meu também, que ele também tinha uma loja variada, tinha vasos, alguma coisa de lustre, lanternas, holofotes. Ele trabalhava muito com artigos de decoração de jardins. E eu fui pegando gosto pelo comércio SÃO PAULO ANTIGA Naquela época, eu conhecia o centro de São Paulo inteirinho. Eu era o office-boy de uma firma de engenharia. Levava cartas, ia na prefeitura, tinha em vários lugares que aprovava plantas. Fui até entregador de impostos nas horas vagas, eu pegava os bicos assim. Então eu ia de sábado e domingo entregar impostos. Fazia tudo bonde. São Paulo era tão esparramada e tão pouco habitada que, às vezes, por exemplo, lá no Brooklin, você ia numa casa aqui, depois a outra lá que era no Brooklin mesmo, e tinha que andar quase meia hora. As casas eram muito distantes umas das outras. TRAJETÓRIA NO COMÉRCIO – LOJA NA CONSOLAÇÃO A Consolação já estava se tornando um núcleo de lustres. A concorrência era grande, mas tem a vantagem de concentrar a freguesia. Em 1959 eu abri a loja lá. Eu não comecei exatamente com lustres. Eram vasos, algumas plantas, essas lanternas de jardins, holofotes, artigos de postes. Mas como a Consolação era coisa de lustres, aos poucos eu fui colocando. No fim acabei com tudo que eu tinha e fiquei, praticamente, só com lustres. Praticamente, fiquei só especializado em lustres. Achei que era um ramo que eu podia ter um relativo sucesso, comecei a me aprofundar, criar modelos. Eu desenhava, bolava coisas para ser um pouco diferente do tradicional. SÃO PAULO ANTIGA – CONSOLAÇÃO A Consolação era estreitinha, passava o bonde Pinheiros, o bonde Vila Buarque, Vila Madalena. Era uma rua tranquila, o sujeito podia parar o carro. Não tinha movimento nenhum, porque o maior movimento era para Augusta e pela Angélica. Me lembro bem quando eu comecei, era tudo casa velha, tudo casas centenárias, de pé direito alto. Aquilo foi transformando. O comércio lá era muito pouco, tinha algumas oficinas mecânicas, tinha cabeleireiro. A maior parte era casa de família, tinha cortiço. Aquilo foi valorizando em função da avenida, o terreno começou a ficar muito caro, então essas casas todas foram desaparecendo para dar lugar a edifícios. AMPLIAÇÃO DA CONSOLAÇÃO E MUDANÇA DA LOJA Por volta de 1966, 1967, começou a abrir a avenida. Eu estava mais perto do centro e eu vim para mais perto da Avenida Paulista, porque o lado que foi desapropriado me atingiu. Tive que procurar um armazém num lugar diferente e fui lá para cima. É o prédio em que eu estou até hoje. Ali era uma boate, chamava Chiquetito. Quando eu abri, foi uma época boa para o Brasil inteiro. Era 1959, 1960. Já estavam montando indústrias automobilísticas, o Brasil estava atravessando uma fase muito boa comercialmente. Era uma época áurea mesmo, uma época em que tudo dava certo. O povo estava entusiasmado. Todos os ramos conseguiram desenvolver bem. O Brasil começou a se modernizar, já não dependia tanto do estrangeiro. CLIENTES A gente vendia bem, chegamos até exportar mercadoria, vendia para o Brasil inteiro. São Paulo naquela época teve um desenvolvimento muito grande, estava tudo concentrado aqui. Chegamos a exportar para a Bolívia, Uruguai, Argentina. Apesar de a Argentina também ser muito desenvolvida nesse ramo de lustre. O Brasil tinha coisas diferentes e vendia, não é tanto como é hoje, hoje a gente precisa correr atrás. FORNECEDORES Fornecedor que existe até hoje, que é uma potência, é a Montalto. A Montalto hoje é uma das principais firmas de lustres. Muitas outras fábricas fecharam. Fora as fábricas de lâmpadas, que são multinacionais, que é a Philips, a Sylvania que também a gente compra muito deles. PRODUTOS O básico mesmo do material é feito em latão, alumínio, ferro e bronze. Os complementos têm opalina, opalina tem umas que são pintadas à mão. Tem o cristal, que ele também leva, às vezes, uma camada de cor por fora, depois eles lapidam. Forma aquele contraste quando você acende, dá um efeito muito bonito. Tem o trabalho com pergaminho, enfim é uma variedade muito grande. Tem o vidro colorido, antigamente, tinha uma cor finíssima, uma cor que se não me engano só existia no Brasil e na Tchecoeslováquia. Não deram continuidade nisso daí porque quem fazia era uma pessoa só. A pessoa acabou falecendo, então não teve quem conseguisse dar sequência mesmo, era uma joia. MODA A iluminação mais ou menos segue uma regra. Ela acompanha mais o mobiliário. Se a tendência é para colonial, então você tem que começar a compor os lustres. Lustre é um complemento, então ele tem que seguir aquilo que é o essencial, que é a base da decoração. O que geralmente é implantado em móveis a gente segue a tendência. E procura também ter aquelas coisas neutras, aquele colonial clássico, só que é mais modernizado, mais estilizado. ATENDIMENTO AO CLIENTE De vez em quando saem uns cursos de iluminação, então a gente manda gente. Além disso, a gente vai em feiras para ver o que tem de moderno, recebe catálogos. Uma série de coisas que a gente tem que estar sempre acompanhando para poder orientar o cliente. Nossos vendedores lá instruídos para poder atender a clientela. Se precisar, também temos pessoas que instalam, quando a peça é mais difícil. O cliente só tem mesmo que ir lá, ver o que ele gosta e o resto a gente resolve. É muito variado o estilo de cliente. Para lidar com o público a gente tem que ter, inclusive, um pouco de psicologia. Cada tem um tipo, uma personalidade, então você tem que se amoldar, ver se ele é alegre, se ele é sério. Tem que estar sempre de acordo com o cliente. EXPOSIÇÃO DAS MERCADORIAS Nós temos spot na parede, abajur no chão mas, geralmente, é para cima, no teto. Mas tem que ter uma maneira fácil de tirar, o cliente quer ver isoladamente. A gente tem lugares próprios para expor o lustre, numa certa altura, isolado, para ele ver como é o lustre, tudo direitinho. Antigamente, as casas de lustres eram com vitrine, com tapete. Nós, quando entramos, achamos que isso daí constrangia muito o cliente. O sujeito tinha vergonha de entrar. Então, acho que nós popularizamos o lustre. Nós entramos lá, abrimos uma porta, fizemos uma loja bonita, bem limpa, bem arrumada, bem exposta, mas sem supérfluo, porque assim o cliente fica mais à vontade. Se ele quiser fumar, ele fuma; se está chovendo e estiver com o pé molhado, ele entra. Ele vai encontrar lustres finíssimos, bem arrumadinho, bem limpinho, só que fica uma coisa mais aberta. Nós criamos nosso estilo. Hoje em dia acho que uma ou duas lojas ainda mantêm aquele negócio de vitrine, o resto seguiu a nossa tendência. CLIENTES Nosso público é 99% residência. A gente atende, às vezes, um restaurante, uma livraria que vai abrir, mas é mais para fazer decoração de residência. UNIÃO DOS COMERCIANTES DA CONSOLAÇÃO São Paulo foi evoluindo, foi crescendo, então começou esparramar inclusive o comércio. Então, nós criamos uma associação, que fui eu e mais uma meia dúzia de colegas. Foi surgindo uma ideia, daquilo foi crescendo, foi entusiasmando e um mais entusiasmado que o outro e abriu uma associação. Fui o primeiro presidente inclusive. A nossa reunião foi numa pizzaria, em vez de terminar em pizza, nós começamos em pizza. Hoje está desativada. Mas reunimos, tocamos, fizemos uma ata, a turma me escolheu. Naquela época, era ditadura militar, tinha que registrar. Então me puseram lá, eu tive que ir no Dops dar meus documentos, para ver meus antecedentes. Passou todo essa burocracia, deu tudo certo e aí começamos a trabalhar. A associação foi bem durante um tempo, nós fizemos campanhas: "Consolação é o maior Centro Comercial de Lustres da América do Sul". Aquele canteiro central, que tem na Rua da Consolação, foi feito por nós, com plantas, tudo bonitinho. Também tivemos muitos eventos sociais, reuniões, nos aproximamos muito. Tem muita gente que entende que concorrência às vezes é inimizade e não é nada disso. A gente reunia inclusive fabricantes que, às vezes, nem conhecia. Você trabalhava com uma fábrica e não sabia nem que eram as pessoas. Fizemos aquela praça que hoje tem lá no final da Avenida Paulista, que tem uma lâmpada estilizada, na esquina da Consolação com a Paulista. Chama praça Thomas Edison, que foi inaugurada no centenário de Edison. Então, muita coisa foi feita, mas cada um tem seus afazeres, não teve mais quem quisesse assumir a presidência e está lá. Não está fechada, mas está desativada, não tem ninguém mais tomando conta, deu aquela parada. Espero que um dia essa nova geração venha com o mesmo entusiasmo da velha geração e recomece tudo outra vez. EMBALAGENS Hoje a gente quer que venha embalado do fornecedor em caixa de papelão, porque vem protegido, fica mais fácil para gente e para o cliente. A não ser em casos especiais, vidros, que a gente tem que fazer uma embalagem diferente, isolada. Antigamente, vinha muito a granel, estragava muito a mercadoria. Aquilo, às vezes, era pintado, um raspava no outro. Nesse ponto aí melhorou muito. AVANÇOS TECNOLÓGICOS Os soquetes eram tudo de baquelite, de plástico, hoje não, é de louça, não tem perigo de choque, não tem perigo de curto. O lustre é uma coisa de eletricidade, então tem o aquecimento, o mau contato, pode causar incêndio. Mas o lustre está tão tecnicamente perfeito que quase não tem jeito de haver problema com ele. Eles passam por um teste de qualidade. CLIENTES ANTIGOS Tenho clientes que comprou comigo quando casou e hoje traz os filhos que estão casando para comprar também. A gente fica gratificado com isso daí, isso é o maior prazer que a gente tem. É saber que você fez alguma coisa que agradou outras pessoas. SONHOS A vida foi tão boa que eu acho que tudo que eu fiz que faria outra vez. Me sinto um cara muito feliz, realizado. Tenho uma família unida, tenho funcionários que estão comigo há mais de 30 anos. Minha maior riqueza foi isso, ter amigos quando fui presidente da associação, a minha recompensa está nisso daí. Ter amigos, ser feliz, viver com saúde, na paz de Deus, acho que fui um privilegiado. REFLEXÕES SOBRE A ENTREVISTA Acho que isso daí é uma das coisas que a gente vai conseguindo na vida, é poder expor aquilo que você fez. É um retrato da tua vida, é uma coisa bem gratificante. Fiquei satisfeito, valeu a pena.

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