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História

Uma vida feita na Lapa

História de: Manuel Fernando Rodrigues
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 23/06/2001

Sinopse

Manuel Fernando Rodrigues, nascido em 1934 na Ilha da Madeira, em Portugal. Trabalha na lavoura em sua própria casa até 1953, quando vem para o Brasil com a mãe e os irmãos para reencontrar o pai. Cresce junto do bairro da Lapa, em São Paulo, onde passa a trabalhar como feirante nos negócios da família. Conta sua história de vida revelando a trajetória da própria cidade. Entre as frutas e flores das banquinhas vive momentos de amizade, amor, perdas e de ressignificação de sua própria identidade. "Me sinto mais paulista do que português", diz o comerciante. Elo entre os que já foram e a geração a qual deu origem, Manuel revela uma fenda no tempo entre o antigo e o contemporâneo, na qual as reverberações dos sonhos do passado se consolidam com o desenvolvimento do país e de uma vida.

Imigrantes: Memórias de um Cotidiano

Depoimento de Manuel Fernando Rodrigues

Entrevistador por Stella Maris Scatena Franco e Bárbara Tavernard Thompson

São Paulo, 27 de junho de 2001

Realização – Museu da Pessoa

Entrevista IMG_HV004

Transcrito por Marina D’Andréa

Revisado por Ana C Calderaro


P/1 – Por favor, diga seu nome completo, local e data de nascimento


R – Manuel Fernando Rodrigues, Ribeira Brava, Ilha da Madeira, Portugal. Data, 15 de dezembro de 1934.


P/1 – Como é o nome dos seus pais?


R –Meu pai, Antônio Quintino Rodrigues Gago. De gago não tinha nada. Mas… Só o nome. (riso) Ana Augusta Costa, minha mãe.


P/1 – Eles também eram da Ilha da Madeira?


R – Também, todos madeirenses.


P/1 – Eles nasceram lá?


R – Tudo lá.


P/1 – O senhor sabe a história dos seus antepassados, de como eles chegaram na Ilha da Madeira?


R – Não, os meus antepassados eram de lá mesmo, de origem da Ilha da Madeira. Todos de Madeira, meus avós, todos. Tem o meu avô que era viajante. Viajava o mundo inteiro. Porque pai era o marido da minha avó, parte de minha mãe. Inclusive, faleceu aqui no Brasil, está aqui, né. Faleceu em 1951.


P/1 – Ele já tinha vindo para cá então antes?


R - Meu avô estava aqui.


P/1 – Ah, ele veio junto com vocês.


R – Não, não. Minha avó veio junto mas o meu avô já estava aqui. Ele veio pra aqui em 1800 e alguma coisa. É antigo. Veio para aqui e ficou por aqui. Esqueceu a família lá.


P/1 – O que ele veio fazer aqui?


R – Ele viajava, era viajante, andava bastante e depois, no fim da vida, ficou no Brasil. Parou aqui, ficou aqui. Morreu na Vila Dalila. Hoje está enterrado no cemitério da Vila Formosa, no início do cemitério da Vila Formosa, 1951. Você vê quantos anos faz.


P/1 – Então o senhor já conhecia o Brasil antes de vir?


R – Ah, sim. O Brasil é conhecido.


P/1 – Bom, o Brasil já era colônia de Portugal, então...


R – Mas mesmo assim, eu conhecia bem. Morava um tio meu em Santos, e nós viemos pra casa dele, no começo. Estávamos em Santos e viemos pra São Paulo.


P/1 – Mas, antes disso, na sua infância, como era a sua casa?


R – Lá na Madeira? Era difícil.


P/1 – Por quê?


R – Madeira é um lugar pequeno. Desenvolvimento não tinha quase. E menos na Madeira. (risos) Desenvolvimento no mundo era naquele tempo pequenininho. E Madeira é um lugar pequenininho, [tinha] então um desenvolvimento muito pequeno. Então ali vivíamos de agricultura, lavoura. Comércio pequeno, também não tinha. E nós tínhamos que trabalhar na lavoura para sobreviver na época. Era quase o mundo inteiro na lavoura. Trabalhava na lavoura até vir pra cá.


P/1 – E as terras eram de vocês?


R – Eram nossas mesmo. Até hoje estão lá. Não vendemos nada. Tudo lá.


P/1 – O seu pai tinha uma casa de secos e molhados?


R – Na época tinha. Quando nós éramos pequenos, tinha. Secos e molhados.


P/1– Ficava perto da sua casa?


R – Pertinho.


P/1 – Como era lá, descreve por dentro.


P – A nossa primeira casa que nós tínhamos lá era de sapé. Forrada de sapé em cima. A senhora sabe o que é sapé?


P/1 – Sei.


R – A senhora sabe aquelas palhoças que fazem de sapé aqui? Lá se usava muito na Madeira naquele tempo. Naquela época, há 50, 60 anos atrás. As casas cobertas de sapé. Mas era dividido em partes por dentro, assoalho...


P – E era grande?


R – Grande.


P – Quantos irmãos o senhor tinha ao todo?


R - Todos eram 15 irmãos. Só que morreram quatro, ficaram 11. Agora já morreram mais dois, ficaram em nove só.


P/1 – E cabia todo o mundo dentro dessa casa?


R – Cabia.


P/1 – O senhor contou, também, que a Ribeira Brava ficava bem próxima do litoral.


R – Ribeira Brava é no litoral mesmo. À beira do oceano. À beira do mar.


P/1 – Vocês iam brincar no mar?


R – Nós íamos ao mar toda semana. No verão, primavera. A gente descia tudo para o mar. Que nós morávamos afastados do mar um pouco. Nós morávamos em um lugar alto. A vila da Ribeira morava baixo. Mas nós morávamos em cima. No alto, bem alto, então dava pra ver o mar lá embaixo. De onde nós morávamos dava para ver a vila. Dava uns 20 minutos à pé para chegar lá.


P/1 – Ah, vocês moravam um pouquinho afastados da vila.


R – Bem afastados. O lugar mais bonito que eu vi em vida. Que é um lugar alto. A vila baixa. Que nem Santos. Você pega da serra para baixo, descendo, vai para Santos. É a mesma coisa. É que Madeira é montanhosa. Madeira é montanha. Ela é bonita, mas montanhosa para xuxu.


P/1 – Vocês iam a pé para a praia?


R – Para a vila, a pé. Em Madeira não tem praia, é pouquinha praia. Madeira não tem praia. Não existe praia na Madeira quase. Pouquinha.


P/2 – Vocês nadavam?


  1. Nadavamos... Dentro do mar.


P/2 – Conta um dia engraçado que aconteceu com o senhor. Como é que era um dia feliz do senhor e seus irmãos?


R – Nós ali éramos sempre felizes. Porque em lugar pequeno se conhecia todo mundo, então juntava meia dúzia de moleques e iam embora. Naquela época o lugar era restrito. Então nós morávamos aqui, tinha meia dúzia de casa aqui, tinha outra lá, então se conhecia todo o mundo. Se juntava e ia embora.


P/2 – Levava comida.


R – Não, nós íamos e voltávamos. Ia depois do almoço. Era pertinho. Era lado a lado. Mas, se íamos depois do almoço, íamos para a praia. Ia para a praia. Não, ia para o mar. Voltava lá, ficava duas, três horas no mar e voltava.


P/1 - E a sua mãe acompanhava as crianças?


R – Não. Mas já não era mais criança. Já era moleque de 12, 13, 15 anos, não era mais criança.


P/1 – Já podia ir sozinho.


R – Já íamos sozinhos.


P/1 – E tinha liberdade ou os pais eram muito rígidos?


R – Não, nós íamos à vontades. Não tinha perigo lá. Lá no nosso lugar na Madeira, onde nós morávamos, mesmo no centro também, naquela época não tinha problema quase. Porque era um lugar pequeno, então não tinha perigo nenhum. Trânsito não tinha. Então não tinha nada. Carros nem existiam.


P/1 – E vocês ajudavam seu pai na...


R – Na lavoura, sim. Comércio e lavoura. Desde pequenininhos.


P/1 – O que o senhor fazia para ajudar?


R – Ah… Nós íamos, levávamos tudo.


P/2 – Mas e o senhor, o que fazia?


R – Nós formávamos, carregavamos as coisas, ajudavamos o pai, levava isso, levava aquilo, essas coisas que tem na lavoura.


P/1 – E na plantação, que produtos que...


R - Tinha feijão, batata, milho. Lá batatinha se chama semila, na Madeira. O nome original dela é esse mesmo. Semila, sabe? Não é batata.


P/2 – E ela tem um formato diferente?


R – Não, não. Mesma coisa. Só que lá temos mais variedades que aqui. Temos cinco, seis variedades de batata.


P/2 – E no que elas variam?


R – Variam de cor, de qualidade e de tamanho. Temos batatas lá que são compridas no tamanho. Grandes. Só que não são gostosas para comer. Mas temos muitos tipo de batatas lá. E o tipo é a semila, que vem da Holanda. A semente dela é holandesa já que não existia batata em lugar nenhum, só na Holanda. Então a semente vinha de lá. E até hoje ela vem como semila, a semente da Holanda.


P/1 – E vocês plantavam esses produtos e transportavam para a loja?


R – Plantavamos e traziamos para a casa, para o gasto. E, lógico, pro comércio também.


P/1 – E para outros lugares vocês vendiam?


R - Não, porque a produção era pequena, não dava para vender muito. E o comércio era pequeno, não tinha muita gente pra gastar.


P/1 – Vocês iam para o continente?


R – Não.


P/1 – Nunca foram?


R – Não. Sabe qual a distância de Madeira pro continente? Mil e poucos quilômetros.


P/1 – Nossa, é longe.


R – Não, não é longe. É perto. Só que tem que ir de navio ou de avião. Naquele tempo não tinha avião, então tinha que ser de navio.


P/2 – Quando tempo levava da Madeira até o continente?


R – Madeira para o continente em navio é uma noite e um dia.


P/1- É longe.


R – É... Um pouquinho.


P/1 – Mas vocês tinham vontade, ouviam notícias de lá?


R – Não! Não tínhamos nem interesse de ir ao continente.


P/1 – E tinha tudo na Madeira, escola?


R – Madeira tem tudo.


P – O senhor estudou lá?


R – Estudei lá.


P/1 – Com quantos anos o senhor foi pra escola?


R – Ah, nós íamos moleques. Mas com trabalho... Eu estudava aqui, estava lá, e ficava pouco tempo. Nós tínhamos que trabalhar. Lavoura ali tinha que fazer na Madeira, não é que nem aqui. Madeira você tem que plantar e regar. Na Madeira se planta mas não chove como aqui. Aqui, esperam a chuva. Lá, tem que regar ela.


P/1 – Vocês regavam como?


R – Com água.


P/1 – Mas com...


R – Não, não, são feitos levadios... Chama levada lá. A água vem da levada e vai acompanhando. Então, as lavouras não são feitas não a granel. São feitas todas em rede assim.


P/1 – Como umas calhas.


R – Umas calhas e a gente vai plantando. E aquilo vai ficando ali. Duas ou três vezes por semana tem que regar, porque o calor é muito lá e seca tudo.


P/2 – O senhor tinha uma função específica na lavoura?


P/2 – Tinha alguma coisa da qual o senhor tomava conta?


R – Não, nós fazíamos tudo. Lavouras para uva, cortava uva, fazia uva, plantava batata, plantava semila, plantava tudo. Couves, ervilha, feijão.


P/2 – E a família se mantinha do quê?


R – Da lavoura. Se mantinha da lavoura.


P/2- Ah, é?


P – Porque a gente plantava e colhia, então harmonizava. A Europa não é como aqui. A Madeira ou outro lugar da Europa são iguais. Ali se produz uma vez ao ano, praticamente. Não se produz duas vezes.


P – Em que estação do ano que vocês colhiam?


R – Nesta agora.


P – No inverno?


R – Não, inverno aqui. Lá é verão. Aqui é inverno, lá é verão. Então agora a colheita lá é nesta época. De trigo, batata doce...


P/1 – O inverno era rigoroso lá?


R – Lá é rigoroso. Na própria Madeira, que é quente, é rigoroso [o inverno]. Madeira tem quase o clima nosso aqui no Brasil. Já fica mais [próximo da] África. Madeira é mais perto do Brasil do que o continente. É que Madeira já é caminho pra cá. O continente é mais para cá, mais a norte. E é frio lá.


P – Como vocês faziam pra se aquecer?


P – Ah, lá é dose. Em Madeira tinha que fazer fogueira.


P/1 – Ah, vocês faziam fogueira?


R – Fogueira, para se aquecer. Naquele tempo não tinha nada. Nem luz elétrica não tinha.


R – Vocês faziam fogueira onde, no quintal?


R – Não, dentro da casa mesmo. Tinha que ter cuidado para não queimar.


P/2 – Chegou a queimar alguma vez?


R – Não. Em Madeira, não. Madeira não tinha luz elétrica onde nós morávamos. Não tinha nada.


P/1 – Nem no vilarejo?


R – Nada, em lugar nenhum. Só em Funchal, no centro da cidade. Nem nas ruas dos bairros não tinha luz, que é a vila. E quando nós chegamos aqui... Está pensando que tinha luz? Não tinha.


P/2 – Não tinha não, nem em Santos?


R – Não, em Santos tinha. Mas aqui, para o lado do Piqueri, Freguesia do Ó, para aquele lado não tinha luz. Mas nós fomos morar em outro meio, e a luz chegou naquela altura. Não tinha luz também.


P/1 – Quando o senhor veio para o Brasil, o senhor tinha quase 17 anos. Como surgiu essa ideia de vir para cá?


R – Não, o meu pai já estava aqui. Então meu pai veio, meus irmãos vieram, meu tio já estava, então viemos todos para cá.


P – Por que o seu pai veio para cá?


R – Minha tia chamou ele para cá. Meu irmão veio antes. Veio e ficou na casa da minha tia, em Santos. Depois minha tia mandou chamar o meu pai. Então meu pai ficou aqui um ano e pouco e nós viemos atrás depois. Minha avó, mãe de minha mãe, que estava junto, também veio conosco. E o pai da minha mãe é o que faleceu aqui, em 1951.


P/1- E da sua família quem veio na última leva? Foi a sua mãe, o senhor...


R – Viemos em todos, o resto.


P/1 – Quantas pessoas eram?


R – Viemos em seis filhos, minha mãe e minha avó. Oito.


P/1 – Seu pai já estava estabelecido.


R – Já estava aqui em Santos. Depois veio para São Paulo. Quando chegamos aqui ele já estava em São Paulo.


P/1 – O senhor lembra dessa viagem de navio?


R – Foi uma viagem bonita. Quando subimos em Funchal, o mar estava tão bravo que o navio teve que ficar uns dois quilômetros longe. ( risos) Porque o navio não encosta.


P/1 – Não tinha porto.


R – Tem, mas não encostava no porto. O porto lá é pequenininho. O navio não encostava então ficava fora. Nós tínhamos que ir de barco para o navio.


P/1 – E a bagagem?


R – Ia toda de barco, barcos pequenos. Então o barquinho pegava aqui no porto e nos levava até o navio.


P/2 – Então como foi? O mar estava bravo...


R – Bravo pra danar. Naquele dia foi um absurdo.


P/1 – O senhor sentiu medo?


R – Nós éramos moleques e naquela época não tínhamos medo. (risos) Moleque não tem medo. Depois, o mar começou a amansar, e ficou mansinho. Na hora que embarcamos já estava lento o mar. Mas até aquela altura estava bravo. Na beira do mar não passavam nem carros. O mar jogava pedra para dentro, um quilômetro de mar terra a dentro. O mar da Madeira ali é bravo mesmo. A Madeira é no meio do oceano.


P/1 – O senhor tinha ideia de que estava vindo para ficar, ou achava que ia voltar?


R – Não, nós viemos para ficar mesmo.


P/1 – O que o senhor achava disso?


 

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História completa

P/1 – Por favor, diga seu nome completo, local e data de nascimento

 

R – Manuel Fernando Rodrigues, Ribeira Brava, Ilha da Madeira, Portugal. Data, 15 de dezembro de 1934.

 

P/1 – Como é o nome dos seus pais?

 

R –Meu pai, Antônio Quintino Rodrigues Gago. De gago não tinha nada. Mas… Só o nome. (riso) Ana Augusta Costa, minha mãe.

 

P/1 – Eles também eram da Ilha da Madeira?

 

R – Também, todos madeirenses.

 

P/1 – Eles nasceram lá?

 

R – Tudo lá.

 

P/1 – O senhor sabe a história dos seus antepassados, de como eles chegaram na Ilha da Madeira?

 

R – Não, os meus antepassados eram de lá mesmo, de origem da Ilha da Madeira. Todos de Madeira, meus avós, todos. Tem o meu avô que era viajante. Viajava o mundo inteiro. Porque pai era o marido da minha avó, parte de minha mãe. Inclusive, faleceu aqui no Brasil, está aqui, né. Faleceu em 1951.

 

P/1 – Ele já tinha vindo para cá então antes?

 

R - Meu avô estava aqui.

 

P/1 – Ah, ele veio junto com vocês.

 

R – Não, não. Minha avó veio junto mas o meu avô já estava aqui. Ele veio pra aqui em 1800 e alguma coisa. É antigo. Veio para aqui e ficou por aqui. Esqueceu a família lá.

 

P/1 – O que ele veio fazer aqui?

 

R – Ele viajava, era viajante, andava bastante e depois, no fim da vida, ficou no Brasil. Parou aqui, ficou aqui. Morreu na Vila Dalila. Hoje está enterrado no cemitério da Vila Formosa, no início do cemitério da Vila Formosa, 1951. Você vê quantos anos faz.

 

P/1 – Então o senhor já conhecia o Brasil antes de vir?

 

R – Ah, sim. O Brasil é conhecido.

 

P/1 – Bom, o Brasil já era colônia de Portugal, então...

 

R – Mas mesmo assim, eu conhecia bem. Morava um tio meu em Santos, e nós viemos pra casa dele, no começo. Estávamos em Santos e viemos pra São Paulo.

 

P/1 – Mas, antes disso, na sua infância, como era a sua casa?

 

R – Lá na Madeira? Era difícil.

 

P/1 – Por quê?

 

R – Madeira é um lugar pequeno. Desenvolvimento não tinha quase. E menos na Madeira. (risos) Desenvolvimento no mundo era naquele tempo pequenininho. E Madeira é um lugar pequenininho, [tinha] então um desenvolvimento muito pequeno. Então ali vivíamos de agricultura, lavoura. Comércio pequeno, também não tinha. E nós tínhamos que trabalhar na lavoura para sobreviver na época. Era quase o mundo inteiro na lavoura. Trabalhava na lavoura até vir pra cá.

 

P/1 – E as terras eram de vocês?

 

R – Eram nossas mesmo. Até hoje estão lá. Não vendemos nada. Tudo lá.

 

P/1 – O seu pai tinha uma casa de secos e molhados?

 

R – Na época tinha. Quando nós éramos pequenos, tinha. Secos e molhados.

 

P/1– Ficava perto da sua casa?

 

R – Pertinho.

 

P/1 – Como era lá, descreve por dentro.

 

P – A nossa primeira casa que nós tínhamos lá era de sapé. Forrada de sapé em cima. A senhora sabe o que é sapé?

 

P/1 – Sei.

 

R – A senhora sabe aquelas palhoças que fazem de sapé aqui? Lá se usava muito na Madeira naquele tempo. Naquela época, há 50, 60 anos atrás. As casas cobertas de sapé. Mas era dividido em partes por dentro, assoalho...

 

P – E era grande?

 

R – Grande.

 

P – Quantos irmãos o senhor tinha ao todo?

 

R - Todos eram 15 irmãos. Só que morreram quatro, ficaram 11. Agora já morreram mais dois, ficaram em nove só.

 

P/1 – E cabia todo o mundo dentro dessa casa?

 

R – Cabia.

 

P/1 – O senhor contou, também, que a Ribeira Brava ficava bem próxima do litoral.

 

R – Ribeira Brava é no litoral mesmo. À beira do oceano. À beira do mar.

 

P/1 – Vocês iam brincar no mar?

 

R – Nós íamos ao mar toda semana. No verão, primavera. A gente descia tudo para o mar. Que nós morávamos afastados do mar um pouco. Nós morávamos em um lugar alto. A vila da Ribeira morava baixo. Mas nós morávamos em cima. No alto, bem alto, então dava pra ver o mar lá embaixo. De onde nós morávamos dava para ver a vila. Dava uns 20 minutos à pé para chegar lá.

 

P/1 – Ah, vocês moravam um pouquinho afastados da vila.

 

R – Bem afastados. O lugar mais bonito que eu vi em vida. Que é um lugar alto. A vila baixa. Que nem Santos. Você pega da serra para baixo, descendo, vai para Santos. É a mesma coisa. É que Madeira é montanhosa. Madeira é montanha. Ela é bonita, mas montanhosa para xuxu.

 

P/1 – Vocês iam a pé para a praia?

 

R – Para a vila, a pé. Em Madeira não tem praia, é pouquinha praia. Madeira não tem praia. Não existe praia na Madeira quase. Pouquinha.

 

P/2 – Vocês nadavam?

 

  1. Nadavamos... Dentro do mar.

 

P/2 – Conta um dia engraçado que aconteceu com o senhor. Como é que era um dia feliz do senhor e seus irmãos?

 

R – Nós ali éramos sempre felizes. Porque em lugar pequeno se conhecia todo mundo, então juntava meia dúzia de moleques e iam embora. Naquela época o lugar era restrito. Então nós morávamos aqui, tinha meia dúzia de casa aqui, tinha outra lá, então se conhecia todo o mundo. Se juntava e ia embora.

 

P/2 – Levava comida.

 

R – Não, nós íamos e voltávamos. Ia depois do almoço. Era pertinho. Era lado a lado. Mas, se íamos depois do almoço, íamos para a praia. Ia para a praia. Não, ia para o mar. Voltava lá, ficava duas, três horas no mar e voltava.

 

P/1 - E a sua mãe acompanhava as crianças?

 

R – Não. Mas já não era mais criança. Já era moleque de 12, 13, 15 anos, não era mais criança.

 

P/1 – Já podia ir sozinho.

 

R – Já íamos sozinhos.

 

P/1 – E tinha liberdade ou os pais eram muito rígidos?

 

R – Não, nós íamos à vontades. Não tinha perigo lá. Lá no nosso lugar na Madeira, onde nós morávamos, mesmo no centro também, naquela época não tinha problema quase. Porque era um lugar pequeno, então não tinha perigo nenhum. Trânsito não tinha. Então não tinha nada. Carros nem existiam.

 

P/1 – E vocês ajudavam seu pai na...

 

R – Na lavoura, sim. Comércio e lavoura. Desde pequenininhos.

 

P/1 – O que o senhor fazia para ajudar?

 

R – Ah… Nós íamos, levávamos tudo.

 

P/2 – Mas e o senhor, o que fazia?

 

R – Nós formávamos, carregavamos as coisas, ajudavamos o pai, levava isso, levava aquilo, essas coisas que tem na lavoura.

 

P/1 – E na plantação, que produtos que...

 

R - Tinha feijão, batata, milho. Lá batatinha se chama semila, na Madeira. O nome original dela é esse mesmo. Semila, sabe? Não é batata.

 

P/2 – E ela tem um formato diferente?

 

R – Não, não. Mesma coisa. Só que lá temos mais variedades que aqui. Temos cinco, seis variedades de batata.

 

P/2 – E no que elas variam?

 

R – Variam de cor, de qualidade e de tamanho. Temos batatas lá que são compridas no tamanho. Grandes. Só que não são gostosas para comer. Mas temos muitos tipo de batatas lá. E o tipo é a semila, que vem da Holanda. A semente dela é holandesa já que não existia batata em lugar nenhum, só na Holanda. Então a semente vinha de lá. E até hoje ela vem como semila, a semente da Holanda.

 

P/1 – E vocês plantavam esses produtos e transportavam para a loja?

 

R – Plantavamos e traziamos para a casa, para o gasto. E, lógico, pro comércio também.

 

P/1 – E para outros lugares vocês vendiam?

 

R - Não, porque a produção era pequena, não dava para vender muito. E o comércio era pequeno, não tinha muita gente pra gastar.

 

P/1 – Vocês iam para o continente?

 

R – Não.

 

P/1 – Nunca foram?

 

R – Não. Sabe qual a distância de Madeira pro continente? Mil e poucos quilômetros.

 

P/1 – Nossa, é longe.

 

R – Não, não é longe. É perto. Só que tem que ir de navio ou de avião. Naquele tempo não tinha avião, então tinha que ser de navio.

 

P/2 – Quando tempo levava da Madeira até o continente?

 

R – Madeira para o continente em navio é uma noite e um dia.

 

P/1- É longe.

 

R – É... Um pouquinho.

 

P/1 – Mas vocês tinham vontade, ouviam notícias de lá?

 

R – Não! Não tínhamos nem interesse de ir ao continente.

 

P/1 – E tinha tudo na Madeira, escola?

 

R – Madeira tem tudo.

 

P – O senhor estudou lá?

 

R – Estudei lá.

 

P/1 – Com quantos anos o senhor foi pra escola?

 

R – Ah, nós íamos moleques. Mas com trabalho... Eu estudava aqui, estava lá, e ficava pouco tempo. Nós tínhamos que trabalhar. Lavoura ali tinha que fazer na Madeira, não é que nem aqui. Madeira você tem que plantar e regar. Na Madeira se planta mas não chove como aqui. Aqui, esperam a chuva. Lá, tem que regar ela.

 

P/1 – Vocês regavam como?

 

R – Com água.

 

P/1 – Mas com...

 

R – Não, não, são feitos levadios... Chama levada lá. A água vem da levada e vai acompanhando. Então, as lavouras não são feitas não a granel. São feitas todas em rede assim.

 

P/1 – Como umas calhas.

 

R – Umas calhas e a gente vai plantando. E aquilo vai ficando ali. Duas ou três vezes por semana tem que regar, porque o calor é muito lá e seca tudo.

 

P/2 – O senhor tinha uma função específica na lavoura?

 

P/2 – Tinha alguma coisa da qual o senhor tomava conta?

 

R – Não, nós fazíamos tudo. Lavouras para uva, cortava uva, fazia uva, plantava batata, plantava semila, plantava tudo. Couves, ervilha, feijão.

 

P/2 – E a família se mantinha do quê?

 

R – Da lavoura. Se mantinha da lavoura.

 

P/2- Ah, é?

 

P – Porque a gente plantava e colhia, então harmonizava. A Europa não é como aqui. A Madeira ou outro lugar da Europa são iguais. Ali se produz uma vez ao ano, praticamente. Não se produz duas vezes.

 

P – Em que estação do ano que vocês colhiam?

 

R – Nesta agora.

 

P – No inverno?

 

R – Não, inverno aqui. Lá é verão. Aqui é inverno, lá é verão. Então agora a colheita lá é nesta época. De trigo, batata doce...

 

P/1 – O inverno era rigoroso lá?

 

R – Lá é rigoroso. Na própria Madeira, que é quente, é rigoroso [o inverno]. Madeira tem quase o clima nosso aqui no Brasil. Já fica mais [próximo da] África. Madeira é mais perto do Brasil do que o continente. É que Madeira já é caminho pra cá. O continente é mais para cá, mais a norte. E é frio lá.

 

P – Como vocês faziam pra se aquecer?

 

P – Ah, lá é dose. Em Madeira tinha que fazer fogueira.

 

P/1 – Ah, vocês faziam fogueira?

 

R – Fogueira, para se aquecer. Naquele tempo não tinha nada. Nem luz elétrica não tinha.

 

R – Vocês faziam fogueira onde, no quintal?

 

R – Não, dentro da casa mesmo. Tinha que ter cuidado para não queimar.

 

P/2 – Chegou a queimar alguma vez?

 

R – Não. Em Madeira, não. Madeira não tinha luz elétrica onde nós morávamos. Não tinha nada.

 

P/1 – Nem no vilarejo?

 

R – Nada, em lugar nenhum. Só em Funchal, no centro da cidade. Nem nas ruas dos bairros não tinha luz, que é a vila. E quando nós chegamos aqui... Está pensando que tinha luz? Não tinha.

 

P/2 – Não tinha não, nem em Santos?

 

R – Não, em Santos tinha. Mas aqui, para o lado do Piqueri, Freguesia do Ó, para aquele lado não tinha luz. Mas nós fomos morar em outro meio, e a luz chegou naquela altura. Não tinha luz também.

 

P/1 – Quando o senhor veio para o Brasil, o senhor tinha quase 17 anos. Como surgiu essa ideia de vir para cá?

 

R – Não, o meu pai já estava aqui. Então meu pai veio, meus irmãos vieram, meu tio já estava, então viemos todos para cá.

 

P – Por que o seu pai veio para cá?

 

R – Minha tia chamou ele para cá. Meu irmão veio antes. Veio e ficou na casa da minha tia, em Santos. Depois minha tia mandou chamar o meu pai. Então meu pai ficou aqui um ano e pouco e nós viemos atrás depois. Minha avó, mãe de minha mãe, que estava junto, também veio conosco. E o pai da minha mãe é o que faleceu aqui, em 1951.

 

P/1- E da sua família quem veio na última leva? Foi a sua mãe, o senhor...

 

R – Viemos em todos, o resto.

 

P/1 – Quantas pessoas eram?

 

R – Viemos em seis filhos, minha mãe e minha avó. Oito.

 

P/1 – Seu pai já estava estabelecido.

 

R – Já estava aqui em Santos. Depois veio para São Paulo. Quando chegamos aqui ele já estava em São Paulo.

 

P/1 – O senhor lembra dessa viagem de navio?

 

R – Foi uma viagem bonita. Quando subimos em Funchal, o mar estava tão bravo que o navio teve que ficar uns dois quilômetros longe. ( risos) Porque o navio não encosta.

 

P/1 – Não tinha porto.

 

R – Tem, mas não encostava no porto. O porto lá é pequenininho. O navio não encostava então ficava fora. Nós tínhamos que ir de barco para o navio.

 

P/1 – E a bagagem?

 

R – Ia toda de barco, barcos pequenos. Então o barquinho pegava aqui no porto e nos levava até o navio.

 

P/2 – Então como foi? O mar estava bravo...

 

R – Bravo pra danar. Naquele dia foi um absurdo.

 

P/1 – O senhor sentiu medo?

 

R – Nós éramos moleques e naquela época não tínhamos medo. (risos) Moleque não tem medo. Depois, o mar começou a amansar, e ficou mansinho. Na hora que embarcamos já estava lento o mar. Mas até aquela altura estava bravo. Na beira do mar não passavam nem carros. O mar jogava pedra para dentro, um quilômetro de mar terra a dentro. O mar da Madeira ali é bravo mesmo. A Madeira é no meio do oceano.

 

P/1 – O senhor tinha ideia de que estava vindo para ficar, ou achava que ia voltar?

 

R – Não, nós viemos para ficar mesmo.

 

P/1 – O que o senhor achava disso?

 

R – Normal.

 

P/1 – Mudar de país...

 

R – Normal. Nós não estranhamos muita coisa não. Meu pai estava aqui, minha tia estava aqui, então com pouca coisa saímos. O resto ficou lá. Ficou lá uma irmã minha só, era casada. A única que era casada ficou lá. O resto ficou aqui. Vieram todos solteiros.

 

P – Quando o senhor chegou em Santos, qual foi a sua primeira impressão?

 

R – Primeira impressão é terra nova, bonita. Quando o navio encostou meu tio estava no esperando nas docas. Meu tio morava ali perto do porto. Ficamos lá na casa dele uns 15 dias antes de vir para cá. Depois viemos todos para São Paulo e ficamos por aqui.

 

P/1 – Como vocês vieram de Santos para São Paulo?

 

R – De ônibus, naquela época só ônibus tinha.

 

P/1 – Chegando aqui foram morar em que bairro?

 

R – Lapa. Sempre na Lapa. Nunca saímos da Lapa.

 

P/1 - Seu pai já tinha comprado a casa, alugado?

 

R – Meu irmão tinha comprado pois foi ele quem veio primeiro. Tinha comprado. Nós ficamos na casa dele e depois fomos para o Remédio. No Remédio tinha comprado outra casa. Então mudamos para lá.

 

P/1 – Essa primeira casa na Lapa ficava em que rua?

 

R – Rua Pio XI, centro da Lapa.

 

P/1 – Como era essa casa?

 

R – Uma casinha pequenininha.

 

P/1 – Tinha quantos cômodos?

 

R – Acho que eram dois ou três cômodos, só.

 

P/1 – Para quantas pessoas?

 

R – Acho que naquela época eram uns dez ou doze, já. Estava minha avó junto com a gente.

 

P/1 – E vocês foram trabalhar?

 

R – Nós sempre trabalhamos. Trabalhamos com frutas naquela época.

 

P/1 – Tinham uma banca?

 

R – Tivemos diversas bancas de frutas.

 

P/1 – Na rua?

 

R – Na rua.

 

P/1 – Como era o dia-a-dia dessa rua quando vocês vendiam frutas na Pio XI?

 

R – O dia-a-dia era normal. Naquele tempo era assim, o povo saía de manhã e chegava à noite do trabalho. Aquela correria para cá e para lá. Tinha um ponto de ônibus que ia pra Pinheiros. A garagem da CMTC [Companhia Municipal de Transportes Coletivos] também era ali encostado.

 

P/1 – Os clientes eram passageiros do ônibus?

 

R – Passageiros. Os clientes eram pessoas de passagem. E quem morava ali, pois já morava muita gente na Lapa na época. A Lapa é velha, não mudou muita coisa. Mudou muito foi aqui a Pompéia, Perdizes, esse bairro daqui de Pinheiros. Mas a Lapa não mudou muito. Você não vai pra Lapa faz tempo.

 

P/1 – É, agora faz tempo que não vou.

 

R – É, mas a Lapa mudou pouca coisa.

 

P/1 – E os seus clientes brincavam com vocês?

 

R – Sim, era tudo gente amiga, gente conhecida. Eram do dia-a-dia, sempre aqueles mesmo.

 

P/1 – Já conhecia o cliente?

 

R – É, o freguês vinha sempre. O freguês vinha, de um lado para o outro. Mas eram sempre os mesmos, a população é sempre aquela mesma. Não mudava muita coisa.

 

P/1 – O senhor não teve dificuldade em falar alguns termos?

 

R – Não, nada. Acostumamos muito bem aqui.

 

P/1 – Que nem a batata e a semila.

 

R – Pepinela. Você sabe o que é pepinela?

 

P/1 – Não.

 

R – É chuchu.

 

P/1 – Chuchu?

 

R- (risos)

 

P/1 - O que mais?

 

R – Pepinela é chuchu aqui. Nós temos lá as nonas. Você sabe o que é nona?

 

P/1 – Não.

 

R – Fruta-do-conde, aqui.

 

P/1 – Mas o senhor teve que aprender o nome da fruta aqui?

 

R – Não, mas as frutas são iguais, só os nomes são diferentes. A fruta é a mesma coisa.

 

P/1 – Onde vocês buscavam essas frutas para vender?

 

R – Mercado Central. Tudo no Mercado Central, naquela época. Não é, Bigodes? E como no Mercado Central, muitas vezes chovia, entrava lá com um metro também para pegar frutas... No Mercado Central sempre chovia e enchia de água demais.

 

P/1 – No Brás?

 

R – Não, na Cantareira.

 

P/2 – Na Cantareira?

 

R – É, Mercado Central da Cantareira.

 

P/1 – Não é o Municipal.

 

R – É, Mercado Central é o municipal. Nele tem o mercadinho de cá das verduras, e o de lá das frutas.

 

P/1 – Como vocês faziam o transporte?

 

R – A gente pagava o carreto. O caminhão é que carregava. Os caminhões iam lá de manhã cedo, carregavam o caminhão e traziam para nós. Não era só para nós, entregava para outros mais. Então o caminhão carregava. Naquele tempo eu não tinha caminhão. Pagava carreto. É, foi difícil. A vida não é fácil.

 

P/1 – E todos os irmãos foram trabalhar?

 

R – Todos os irmãos na fruta. Esse meu primeiro irmão que chegou aqui no Brasil, primeiro foi trabalhar nos bondes, em Santos. Depois ele trabalhou na refinaria União, em Santos também. Depois veio para São Paulo para trabalhar com frutas com a gente. Todo mundo com fruta.

 

P/1 – E a sua mãe trabalhava?

 

R – Minha mãe trabalhava em casa, só em casa. Ia trabalhar onde? Não tinha jeito de trabalhar. A parte de casa já era muita gente. Eram dez irmãos, mais os dois, 12.

 

P/2 – Ela cozinhava para todo o mundo?

 

R – Para todo mundo.

 

P/1 – O que ela cozinhava? Ela continuou cozinhando comida portuguesa?

 

R - Mesmo sistema nosso. As comidas eram iguais às de lá.

 

P/1 – Eram iguais?

 

R – A mesma coisa cozinhava. Comprava os mantimentos e cozinhava igual.

 

P/1 – Não tinha diferença na comida?

 

R – Não. A comida de lá e comida aqui tinham os mesmos. Então fazia igual.

 

P/2 – E o senhor falou que na Lapa tinha muito italiano.

 

R – Na época tinha bastante italiano.

 

P/2 – Você ficou amigo?

 

R – Não, sempre fui amigo. Nós nunca tivemos inimigos na Lapa.

 

P/2 – O senhor chegou a trocar receitas? Sua mãe trocava receitas com as senhoras italianas?

 

R – Não, minha mãe não tinha muito contato. Minha mãe não saía de casa quase.

 

P/2 – Não?

 

R – Não, ficava em casa direto. Poucas vezes ia para a rua. Minha mãe era caseira, não saía quase fora. O contato dela era pouquíssimo.

 

P – Vocês são católicos?

 

R – Sim.

 

P/1 - Sua mãe ia à missa?

 

R – Sim, aqui também.

 

P/1 – Ela ensinou a religião para vocês?

 

R – Sempre. A religião, sempre. Embora eu não seja muito fanático para ir na igreja. Mas religião não tem nada a ver uma coisa com a outra. Religião você tem que ter cabeça, não religião.

 

P/1 – E lá na Lapa vocês frequentavam alguma igreja?

 

R – Igreja? Onde nós morávamos tinha igreja. A igreja da Lapa é a Nossa Senhora da Lapa.

 

P/2 – O senhor ia à missa de Domingo?

 

R – Ia. Todos os domingos eu ia.

 

P/2 – O senhor disse que chegou adolescente e que o senhor andava por aí e as meninas desmaiavam, choravam...

 

R – Não desmaiavam, não. As meninas se engraçavam muito. É, naquele tempo de molecada... Mas nós éramos montes, nós todos os irmãos tínhamos presença. Todos eles. Então, a meninada ficava... Até hoje se eles se lembram de alguma coisa e pensam “ah, naquele tempo que passou”. (risos)

 

P/2 – Como foi que o senhor conheceu sua esposa?

 

R - Foi aqui em São Paulo.

 

P/2 – Como foi? Onde foi?

 

R – Foi no mercado mesmo, ela passava lá. Dentro do mercado.

 

P/1 – O senhor estava falando da banca... A banca era na rua Pio XI?

 

R – Banca era na rua. Mas tínhamos diversas bancas... Umas seis, sete bancas na Lapa.

 

P/1 –Então vocês montaram uma banca fixa no mercado?

 

R – Não, depois que o mercado abriu nós entramos.

 

P/1 – Depois que o mercado abriu?

 

R – É, que no mercado nós entramos em 1956, e ele abriu em 1954. Já estava um ano na Lapa. Já estava um ano e meio na Lapa quando o mercado abriu.

 

P/1 – Chegaram em 1947?

 

R – Meu irmão chegou em 1949, primeiro. Meu pai em 1950, meus irmãos em 1952, e nós em 1953.

 

P/1 – Vocês chegaram em 1953 em 1954 já abriram o mercado...

 

R – Abriu o mercado. Então nós chegamos em 1953, no começo do ano. O mercado abriu no meio do ano seguinte.

 

P/2 – E em que ano vocês foram para o mercado?

 

R – Em 1954.

 

P/2 – Na época do IV Centenário de São Paulo.

 

P/1 – O senhor lembra dos festejos?

 

R – Sim, foi muito bonito.

 

P/1 – O que o senhor viu de festejo?

 

R – Festejo total. São Paulo é o centro. Naquele tempo o prefeito era o Jânio Quadros. Foi a primeira vez que eu vi um prefeito. E esses festejos da cidade... Foi uma festa muito bonita. Tocava naquela época.... Era o Mario Zan que fazia música no IV Centenário. Até hoje tem.

 

P/1 – O senhor lembra de alguma música?

 

R – Tenho o disco dele, até hoje.

 

P/1 – O senhor sabe cantar um pedacinho?

 

R – Não. Isso, não.

 

P/1 – Sabe, sim. Ele está encabulado. (risos) Sabe, sim.

 

R – Não, quem cantava eram as meninas naquele tempo.

 

P/1 – Seu Fernando, eu ouvi dizer que tinha uns papeizinhos prateados que eles jogavam.

 

R – Tinha, sim. Tinham os papéis que eram pra enfeitar as festas. Tinham os papéis.

 

P/1 – Que eram uns triangulozinhos.

 

R – Não. Jânio fez uma festa muito bonita naquele ano.

 

P/1 – O senhor chegou a ir ao Ibirapuera na época em que ele foi inaugurado? Foi na época do festejo?

 

R – O Parque eu acho que foi depois. A Prefeitura não era __________ naquela época.

 

P/1 – E na Lapa teve algum festejo para comemorar o IV Centenário?

 

R – Não, na Lapa não teve nada.

 

P/1 – Não, tinha que ir pro centro?

 

R – Tinha que ir pro centro.

 

P/1 – Que roupa o senhor usou?

 

R – Ah, nós tínhamos roupas boas naquele tempo. A gente mandava fazer terno no alfaiate. Naquele tempo não tinha roupa feita, mandava fazer tudo. Ia ao alfaiate fazer o terno direitinho.

 

P/1 – Chapéu também?

 

R – Nunca usei chapéu, mas se usava chapéu naquela época.

 

P/2 – A vida em São Paulo foi melhor que a vida na Madeira?

 

R - Não, a vida em São Paulo para nós nunca foi ruim. Porque nós trabalhávamos com bastante conforto.

 

P/2 – Tinha mais conforto do que na Madeira?

 

R – Mais. Mais, porque nós começamos a trabalhar no comércio, e nós tínhamos mais conforto, sim. Não me queixo. Não tenho queixa nenhuma de São Paulo. Ninguém de nós se queixa de São Paulo.

 

P/1 – E na Lapa, quando vocês foram para o mercado, dava mais dinheiro que na banca?

 

R – Não. Dava menos.

 

P/1 – Por que?

 

R – Porque o mercado era um lugar novo. O mercado quando abriu não tinha acesso quase. Não tinha ruas. E ali começaram a fazer ponte. Em volta ao mercado. Então fecharam o mercado e ficou fechado ali uma temporada com as obras. Então o movimento era restrito. Não tinha público. Depois, quando terminaram as obras da ponte e abriram as ruas, sim. Então começou a melhorar. Mas levaram cinco, seis anos na ponte. Era briga do Jânio e Ademar de Barros. Ademar no Estado e o Jânio na Prefeitura. E eles não se davam, brigavam. (riso) Para o Jânio precisava atravessar a ponte por cima da linha do trem. A linha do trem era do Estado e a ponte da prefeitura. O Jânio não se dava com o outro. Então brigavam um com o outro e ficavam paradas as obras. E nós, sofríamos.

 

P/1 – E vocês ficavam de que lado, do Jânio ou do Ademar de Barros?

 

R – Naquele tempo nós não tínhamos muita opção política. Nós queríamos trabalhar.

 

P/1 – Mas quem tinha um projeto melhor para vocês?

 

R – Para nós, interessante a ponte. Que era da prefeitura. Tinha que terminar a ponte. E a obra da ponte atrapalhava nós, do comércio. O mercado estava praticamente isolado.

 

P/1 – Demorou seis anos?

 

R – Acho que até mais.

 

P/2 – Mas nesse meio tempo o senhor continuava tendo a banquinha na rua?

 

R – Na rua. Sempre na rua.

 

P/1 – O senhor ainda tem até hoje?

 

R – Não. (risos)

 

(Pausa pra trocar a fita.)

 

Início do Lado B da Fita 1

 

P/2 - Flor?

 

R – Sim, era fruta e mudamos para flor. Mudei para flores em 1962.

 

P/1 – O senhor trabalhava com uma banca de frutas no mercado e depois resolveu mudar?

 

R – Antes eram frutas. Depois pusemos um bar no mercado. No próprio lugar onde estão as flores hoje, tinha um barzinho. Depois trocamos tudo por flores.

 

P/1 – E o barzinho o que vendia?

 

R – Era um barzinho normal.

 

P/1 – Não era um barzinho português?

 

R – Não, era um barzinho paulista mesmo. (risos)

 

P/1 – Não tinha bolinho de bacalhau?

 

R – Não, naquele tempo não tinha. Naquele tempo não fazia bolinho de bacalhau. Tinha muita coisa no barzinho...

 

P/1 – O que tinha de comida?

 

R – Tinha tudo que é de comida. De comida, não...

 

P/1 – É, petiscos...

 

R – Petiscos.  A minha mãe... Ela fechava a sardinha uma com a outra... Enchia a sardinha assada... Assada, não. Frita! Ela fechava lá dentro e ficava tipo um sanduíche.

 

P/2 – Recheava com quê?

 

R – Recheava como sanduíche. Ficava gostosa na época.

 

P/1 – Com o que ela recheava?

 

R – Recheava com legumes, com cebolas, com salsinha, tomate. Ficava gostosa. E vendia muito aquilo lá. Era normalmente o petisco do barzinho.

 

P/1 – Essa foi uma receita que ela trouxe lá Ilha da Madeira?

 

R – É. A receita veio de lá.

 

P/1 – Porque aqui nunca vi essa sardinha.

 

P/2 – Nem eu.

 

R – Mas é gostosa, experimenta fazer ela.

 

P/1 – O senhor come ainda essa sardinha?

 

R – Eu não gosto. O pessoal lá gosta. Nunca gostei muito de sardinha.

 

P/1 – E o que mais que a sua mãe fazia que vendia bem?

 

R – Ah, minha mãe fazia mais ariche. Nós tínhamos outros ingredientes que vinha de fora. Mas vendia muito churrasco, fazia churrasco na chapinha. Vendia bastante lá.

 

P/1 – Neste mesmo lugar onde tinha o bar, vocês montaram a banca de flores?

 

R – Não, ampliou. Ampliou com flores. O bar era aqui, as flores ali… Então ampliou tudo. Eu queria montar tudo bar na época. Então, _______________. Então, tudo flores. Então, _______, ou uma coisa ou outra. Eu queria naquele tempo montar tudo bar.

 

P/1 – Por que o senhor preferia bar?

 

R – Naquela época o barzinho, o espaço era pequeno. Então queria aumentar para ficar maior. Muita gente, uma freguesia muito grande. Naquela época a gente tinha uma freguesia muito grande no barzinho. E o espaço pequeno. Então queria montar em um espaço maior. E a prefeitura enguiçou, disse que não dava. Então, está tudo flores.

 

P/1 – A prefeitura não deixou?

 

R – Na época não deixou, e agora não deixa também.

 

P/1 – Vocês tiveram dificuldade para conseguir o alvará com a prefeitura?

 

R – Não.

 

P/1 – Quem foi que viu?

 

R – Naquele tempo era sorteio. Quando vim para o mercado, era sorteio. Então, davam uns papeizinhos com numeração. Então o mercado tinha ‘x’ de boxes. Então fizeram ‘x’ de papeizinhos. Então sorteavam.

 

P/1 – Vocês foram sorteados logo?

 

R – Sorteamos com três boxes seguidos um do outro.

 

P/1 – Que sorte!

 

R – É!

 

P/1 – Vocês não escolhiam?

 

R – Não, ninguém escolhia nada. Só pegava o papelzinho.

 

P/2 – E era honesto?

 

R – Era honesto. Com o Jânio era honesto. Se fosse com outro político, capaz de não ser. Mas com o Jânio era honesto. Você pegava o papelzinho, sabia qual era o número e pagava.

 

P/1 – Vocês pagaram?

 

R – Nada, não pagamos nada.

 

P/1 – Nem imposto?

 

R – O aluguel se paga normal a prefeitura. Os impostos, as margens... É uma firma. O mercado é uma firma que é de fora, igual.

 

P/1 – Quem eram os clientes do mercado?

 

R – No Mercado, depois, aumentou muito a clientela. Até 1960 o Mercado estava parado, mas depois limparam as ruas, ficou grande, e então aumentou freguesia. Encheu de gente lá.

 

P/1 – Quer dizer que a partir de 1960 foi que aumentou?

 

R – Desenvolveu.

 

P/2 –Eram clientes vindos de que regiões da cidade?

 

R – Ah... para o mercado vinha gente de longe. Desde o Guaianazes vinha gente de lá. O Mercado da Lapa era famoso por causa do abastecimento. Era bem abastecido. Então muita gente.

 

P/2 – Por que o senhor mudou da fruta para flor? Foi uma opção sua ou foi uma coisa que vocês discutiram em família?

 

R - Da fruta para flor foi o seguinte: na época nós tínhamos muita fruta lá dentro do mercado, e resolvemos mudar da fruta para flor. Isso foi em 1962.

 

P/2 – Quem resolveu?

 

R – Foi eu e o nosso povo.

 

P/2 – Sua família?

 

R – Nós resolvemos mudar.

 

O/2 – Porque já tinha muita...

 

R – Muita fruta. Naquela época tinha umas dez barracas de fruta lá dentro. Então é muito. Então mudamos para flor. Naquele tempo flor não existia. Flor só tínhamos nós na Lapa, no Largo do Arouche, e aqui em Pinheiros, no cemitério. O Araçá não tinha flores. Aquelas barracas não existiam.

 

P/1 – E na Doutor Arnaldo?

 

R – Lá também não tinha. Lá tinha só em Finados. Finados fazia ali. O resto, limpava. Depois formaram aquela feira de flor ali, mas não tinha. Então, quando comecei a trabalhar com flor só tinha no Largo do Arouche, que lá é antigo naquelas bancas, e nós na Lapa. O resto não existia. Aqui perto do cemitério, tinha essas casas, também, perto do cemitério São Paulo. Até os anos 1960,1970. Para cá começou a crescer tudo. Começou supermercado, que não tinha também, não existia. O primeiro supermercado que veio pra São Paulo chamava Peg-Pag. Rua das Palmeiras. Você não lembra disso...

 

P/1 – Eu lembro. Virou Pão de Açúcar depois.

 

R – Eu acho que não tem nem mais.

 

P/1 – É, não tem mais.

 

P/2 – Eu lembro desse da rua das Palmeiras também.

 

R – É, Rua das Palmeiras, Peg-Pag, o primeiro que veio.

 

P/2 – O senhor ia lá passear?

 

R - Não, era um mercadinho pequeno, uma lojinha pequena.

 

P/2 – Mas o que o senhor fazia para se divertir?

 

R – Ah, eu não tinha muitos amigos não. Poucos amigos. Em São Paulo nunca criei muita amizade. Sempre fui meio restrito.

 

P – A sua família.

 

R – Não, nem nós não saíamos juntos.

 

P/1 – Cada um por si.

 

R – É, cada um para um lado.

 

P/1 – Mas tinha algum lugar onde o senhor gostava de fazer passeio?

 

R – Tinha lugares para onde nós íamos mais, sim.

 

P/1 – Onde o senhor ia?

 

R – Mais assim para a cidade. Ia pra Lapa, vinha para Pinheiros, para o lado do Jardins, para cá.

 

P/1 – Mas o que era, era passeio de rua, era de dançar?

 

P/2 – Era de carro...

 

R – Não, nunca gostei de dançar, nunca fui em salão de bailes.

 

P/1 – Cinema?

 

R – Ao cinema nós íamos. Pegavamos as gatas e íamos ao cinema.

 

P/2 – Pegavam as gatas.

 

R – Pegava a gatinha e ia pro cinema. É, naquela época nós… Quando pegava, chegava mais perto, acontecia.

 

P/1 – Mas era no respeito?

 

R – Ah, sim. Às vezes. (risos)

 

P/1 – E era sessão de noite?

 

R – À noite, sempre à noite. De dia nunca fui ao cinema.

 

P/1 – Tinha um cinema que o senhor preferia?

 

R – Não. Naquele tempo tinha bastante cinema, não é que nem hoje. Hoje tem poucos. Naquele tempo tinha bastante. Só na Lapa tinha uns seis.

 

P/1 – O senhor ia na Lapa mesmo?

 

R – Não, às vezes quando calhava. Às vezes calhava na cidade, se eu estava na cidade, ou na Lapa... Quando calhava.

 

P/1 – Que tipo de filme o senhor gostava de assistir?

 

R – Nós não tínhamos preferência.

 

P/1 – De guerra, de romance...

 

R – Não, de guerra não vou. Ia mais aos de romance. Romance é mais bonito.

 

P/1 – O senhor lembra de algum filme que o senhor ficou emocionado e não esqueceu nunca mais...

 

R – Sei, filmes bonitos. Já escutou falar da Violetera, _____________________. Da Violetera você lembra?

 

P/1 – Violetera?

 

R – Um filme espanhol muito bonito.

 

P/1 – Ah, vocês viam cinema espanhol.

 

R – Não, o filme era espanhol mas o cinema era aqui.

 

P/1 – É, é.

 

P/2 – Tem algum filme em que o senhor levou a sua esposa? O senhor foi ao cinema com ela quando o senhor namorava?

 

R – Não, nós não lembramos do filme. Chegávamos, íamos ao cinema mas não escolhiamos o filme. Chegava no cinema, o filme passava, e nós víamos.

 

P/2 – E tem algum que o senhor lembra, que ela lembra?

 

R – Não, eu também não lembro.

 

P/2 – Vocês assistiam ao filme?

 

R – Assistiamos. (risos)

 

P/1 – O senhor falou que vocês se conheceram no mercado...

 

R –É, ela era da Lapa, trabalhava na Lapa.

 

P/1 – E era freguesa do senhor?

 

R – Não. Ela passava por lá.

 

P/1 – Como é que se deu essa paquera?

 

R – Ah… Na paquera nós paqueramos uma, paqueramos outra... Até que acertou uma. (risos)

 

R – O senhor paquerava todo o mundo?

 

R – (risos) Ah, de vez em quando.

 

P/1 – Como ela se chama?

 

R – Conceição.

 

P/1 – E ela é brasileira?

 

R – Portuguesa. Só que é do continente. Não é da Madeira não.

 

P/1 – De que lugar de Portugal?

 

R – De Vila Real. É do norte.

 

P/1 – Como vocês se conheceram?

 

R – Aqui.

 

P – Mas como foi nesse dia?

 

R - Ah, ela era moleca também, veio para cá em 1958. Ela era novinha também na época, aqui. E, por acaso... Sabe como é que é. Nós nos conhecemos por acaso.

 

P/2 – Eu sei. Mas que idade ela tinha? Quem puxou o papo com quem?

 

R – Naquela época ela tinha uns 16, 17 anos. Acho que tinha 18 anos, parece.

 

P/2 – Ela tinha 18. E o senhor?

 

R – Eu já tinha uns 20 e pouquinhos.

 

P/1 – Ela ia lá comprar flor? Quem puxou o papo?

 

R – Não. Nós éramos intrometidos sabe? Nós sempre nos intrometemos nas coisas.

 

P/ 2 – Não, eu não sei não, o senhor vai contar. Como é que é ser intrometido? (risos) Não vem me dizer que então o senhor encontrou e casou. Não é isso. (risos)

 

R – Ah… Demorou pra casar. Olha, bastante.

 

P/2 – Por que, os pais não deixavam? O senhor foi lá pedir?

 

R – Não. __________ com o pai dela. O pai dela faleceu aqui também. A mãe dela ainda é viva, está com quase 98 anos. Mora na Lapa também. O pai dela estaria com 98, parece, vai fazer agora no fim do ano.

 

P/1 – E ela era bonita? O senhor ficou apaixonado pela beleza dela?

 

R – É, era bonitinha na época, não era feia não. Até hoje é bonita. (risos)

 

P/2 – Conta como o senhor paquerou ela.

 

R – Ah... é difícil Bárbara.

 

P/1 – Sabe o que eu queria saber do mercado? Se existiam outros imigrantes também, donos de barraca...

 

R – Tem, tem bastante. Tem italianos, espanhóis, tem diversos...

 

P/1 – O que tem mais de imigrante no mercado? Nacionalidade...

 

R – Tem português, tem italiano, tem espanhol, tem sírio, tem chinês, tem japonês. No mercado tem tudo.

 

P/1 – Tem uma especialidade? Por exemplo, português vende mais um tipo de coisa, italiano outro tipo...

 

R – Não. Tem português que tem barzinho, português que tem laticínios, português que tem frios, tem português com flores, tem italiano que tem cereais... Tem todo o tipo de comércio lá. Chinês tem frituras, tem avícola...

 

P/1 – E tem briga?

 

R – Não. Lá não existe briga.

 

P/1 – É tudo na paz.

 

R – Cada um trabalha no seu ramo, né.

 

P/2 – Não tem nenhuma briguinha de vocês contra a administração? Vocês nunca fizeram uma greve?

 

R – Não, mas a administração de vez em quando atrapalha. Vem com problemas, mas nós resolvemos os problemas com eles.

 

P/1 – O senhor disse que não estranhou a comida. Tinha alguma outra coisa que o senhor não conhecia e veio conhecer só no Brasil?

 

R – Sim, tem algumas coisas que só no Brasil tem. Lá fora não tem. Lá fora não tem mandioca, não tem jabuticaba, caqui não tem. Na Madeira não tem caqui. Mamão lá na Madeira tem, que é o papaya. O papaya aqui é igual ao de lá também. Lá existe há muitos anos.

 

P/1 – Quando o senhor viu jabuticaba gostou?

 

R – É... Frutinha diferente. Fomos acostumando. Na Madeira também tem frutas que aqui não tem. Nós aqui, quando começamos a trabalhar com frutas, não tínhamos frutas nacionais, quase. Pouquinhas. Tudo importado.

 

P/1 – De onde vinha?

 

R – Vinha de todo o lado. Vinha da Grécia, ou vinha da Espanha. Melão vinha da Espanha, uvas... Era tudo importado. Maçã vinha da Argentina, vinha dos Estados Unidos, Canadá. Aqui não tinha maçã. Tem a maçã agora, há pouco tempo, mas não tinha nada.

 

P/1 – Os fornecedores...

 

R – Eram do Mercado Central. Nós comprávamos lá. A uva da Grécia, gostosa, vinha em caixinhas pequenas, embaladas, bonitas. Da Espanha vinha uvas em barricas.

 

P/1 – Que frutas que saíam mais lá no mercado quando vocês tinham barraca de fruta?

 

R – Nós vendíamos mais na rua essas frutas do que no mercado.

 

P/1 – Tinha alguma que vendia mais?

 

R – Se vendia mais fruta estrangeira do que nacional. Nacional tinha banana, laranja, abacaxi... Três, quatro tipos de fruta nacional. O resto era estrangeiro.

 

P/1 – Tirando as frutas, teve outras coisas que o senhor não conhecia? Por exemplo o Carnaval.

 

R – Não, carnaval lá na Madeira chamava Entrudo. O nome dele certo é Entrudo. Não é carnaval.

 

P/1 – Como é o Entrudo?

 

R – Ah, no Entrudo tem umas brincadeiras que nem aqui, a mesma coisa. Só que o Entrudo é em um dia só. Aqui se leva quatro dias.

 

P/1 – É em fevereiro também?

 

R – Também. Mesma época. Mas lá só é tem a terça-feira de Carnaval. Uma brincadeira da aldeia lá. E lá é Entrudo. Depois daquele dia, acabou. Não tem mais festa.

 

P/1 – Quando o senhor chegou aqui o senhor foi ao carnaval brasileiro?

 

R – Nós ia no carnaval. Íamos para Santos, e às vezes ficávamos uma semana em Santos. Carnaval em Santos era bonito.

 

P/1 – Era na rua ou no salão?

 

R – São Paulo não tinha carnaval quase. Era Rio e Santos. Nas baixadas tinha. Na rua.

 

P/1 – Tinha corso ou não tinha mais. Aquele desfile de carros.

 

R – Tinha. Desfile de carro, tudo, tinha. Era bonito o carnaval em Santos.

 

P/1 – Vocês se fantasiavam?

 

R – Não. Nunca fui muito de fantasia. Nós íamos só acompanhar aquilo. Acompanhávamos o cortejo. O Carnaval naquela época era mais bonito que hoje. Porque era um carnaval feito na rua, sadio. Não tinha a baderneira que tem hoje. Carnaval mais bonito de hoje é mais lá para o norte. Em São Paulo não tem quase Carnaval mais. Naquele tempo tinha... O Carnaval era bonito. Cortejo bonito, aquelas músicas bonitas… Hoje não tem música de carnaval mais. Naquele tempo nós tínhamos marchas bonitas.

 

P/1 e P/2 – Tinha.

 

R – Você não acompanhou, mas tinham marchas bonitas.

 

P/2 – O senhor se lembra de alguma marchinha de Carnaval?

 

R - Várias delas.

 

P/2 – Então, canta pra gente.

 

R – Ah, eu não canto (risos). Mais tarde eu canto. Mas tinha músicas bonitinhas... Gostosas músicas de Carnaval naquela época.

 

P/1 – Isso o senhor era solteiro. Depois de casado...

 

R – Casado... Era mesma coisa sempre. Casado se parava mais, fazia menos…

 

P/1 – Seu casamento foi em que ano?

 

R – Foi em 1971.

 

P/1 – Teve festa, Seu Fernando?

 

R – Teve festa. Festa bonita.

 

P/2 – Com a família toda?

 

R – Família toda.

 

P/1 – Onde foi essa festa?

 

R – O casamento foi na minha casa mesmo. Padre, tudo em casa. O casamento não foi na igreja, foi em casa mesmo.

 

P/1 – Sua esposa também é católica?

 

R – Também.

 

P/1 – E vocês decidiram não fazer na igreja?

 

R – Não… O padre, o cartório, foi tudo em casa.

 

P/2 – Por que vocês decidiram fazer em casa?

 

R – É moderno... Menos confusão.

 

P/1 – Vocês têm filhos?

 

R – Tenho dois.

 

P/1 – Meninos?

 

R – Um casal.

 

P/1 – Quantos anos eles têm?

 

R – Hoje o mais velho está com 29 já. Fernando. E tenho a Vera, que está com 27. Os dois são advogados formados.

 

P/2 – Essa casa onde o senhor mora hoje, como foi que o senhor comprou? É a mesma casa da família?

 

R – Não. Essa eu comprei agora há pouco. Faz três anos que comprei ela. Fica na Visconde de Pelotas. Morava encostado à outra casa praticamente. Morava na rua Aliança Liberal. A Visconde aqui e a Aliança logo atrás. Era comprada. Essa comprei em 1969.

 

P/1 – Sempre na Lapa?

 

R- Alto da Lapa.

 

P/1 – Qual o tamanho da casa de 1969?

 

R – Um pouco menorzinha do que esta hoje.

 

P/1 – Qual a importância da Lapa? Desde que o senhor chegou o senhor ficou sempre lá...

 

R – Acostumamos. É costume.

 

P/1 – E se o senhor tivesse que sair desse bairro para mudar para o Brooklin?

 

R – Eu não gostaria mais, embora seja bom o Brooklin. A gente se acostuma em um lugar. Nós viemos para a Lapa e ficamos na Lapa. Nunca saímos da Lapa.

 

P/1 – Seus filhos estudaram na Lapa?

 

R – Meus filhos estudaram no Colégio Campos Salles, no centro da Lapa, depois foram para a faculdade. Se formaram em Mogi, na Brás Cubas. E a Vera é formada em direito e em magistério.

 

P/1 – O senhor não tem netos ainda?

 

R – Tenho uma netinha, Manuela. Seis anos, ela é novinha. É do meu filho.

 

P/1 – Como é seu dia-a-dia hoje? O senhor acorda...

 

R – No dia-a-dia de hoje eu trabalho. Levanto, trabalho, vou deitar, levanto, trabalho... (riso)

 

P/1 – O senhor levanta, sai de casa e vai direto pro mercado?

 

R – Direto pro mercado. O café da manhã é no mercado.

 

P/2 – Que horas o senhor chega no mercado?

 

R – Sempre às sete e meia. O mercado abre às oito. Antes de abrir eu estou no mercado. Todo o dia. Faz tempo isso.

 

P/1 – Tem um dia fixo para receber fornecedor ou é todo o dia?

 

R – Não, do fornecedor nós pegamos a mercadoria fora. Melhor buscar sempre fora. Duas ou três vezes por semana.

 

P/1 – Não tem alguma história assim de algum cliente enfezado?

 

R – Não. Os comerciantes se entendem bem. Comerciante não pode enfezar cliente, sempre tem que amansar ele. Mesmo que ele seja bravo, você não pode ficar bravo com o freguês.

 

P/1 – Como se faz para amansar um cliente?

 

R – É só não falar. Deixar ele falar à vontade. Quando ele quer banana madura, dá verde. Quando ele quer banana verde, dá madura. (risos)

 

P/1 – Ele não fica mais bravo ainda?

 

R – Não, você tem que brincar com o freguês. Quando o freguês está bravo você brinca com ele. Então ele esquece a braveza dele e vai maneirando. É que nem o mar. Quando o mar está bravo você espera a maré descer. Então não adianta você ficar bravo com o freguês. Com o freguês a gente se entende. Nem aquele freguês que você tem. Aquele freguês tanto traz freguês como leva freguês.

 

P/1 – Leva freguês embora?

 

R – Naturalmente que leva freguês embora. Você briga com ele e ele tem outros amigos fregueses. “Aquele lá é malcriado, não vou lá mais.” Então o outro também fica pensando aquilo e também não vai mais. Entendeu? Então o freguês tanto traz como leva freguês. Você não pode ficar bravo com freguês.

 

P/1 – O senhor nunca perdeu as estribeiras.

 

R – Não, porque não adianta.

 

P/1 – Chega lá um e fala “ah, essa goiaba com bicho…”

 

R – “Ah, com bicho que é gostosa, vale mais. Com bicho vale mais que já que tem bicho que leva…” (risos) Tem que pagar mais caro! (risos)

 

P/2 – E conta mais, o que o senhor fala das frutas? Se eu vou escolher uma fruta e pergunto qual é a melhor para isso? O senhor sabe dizer?

 

R – Depende do tipo que ele vai querer. Para esse que quer banana você não pode dar um abacaxi. Se quer abacaxi não pode dar banana. Você tem que dar o que ele quer.

 

P/1 – Verduras o senhor nunca vendeu.

 

R – Não. Não trabalhamos com verdura.

 

P/2 – E flor, como é vender flor?

 

R – Mais complicado que fruta, sim. Flor já é mais complicado, mais difícil. Flor o freguês às vezes quer isto, às vezes quer aquilo... O freguês ele às vezes olha uma e nós temos que pôr a outra.

 

P/2 – (riso) Por quê?

 

R – Porque ela às vezes tem que sair mais rápido do que aquela outra. Então tem que achar a pior e pôr para o freguês melhor. O freguês tem que levar o pior e dizer que é o melhor. Só tapeio o freguês na brincadeira. E ele leva a pior dizendo que é a melhor.

 

P/1 – Achando que é a mais bonita.

 

R – É. Justamente.

 

P/1 – Que dura mais...

 

R – Dura mais... Para o freguês tem que falar tudo isso. Ele pergunta: “Dura muito?” “ Dura, até acabar, dura.”(risadas)

 

P/2 – Na realidade o senhor não mente. (risos) Não é mentira, não é que o senhor está enganando o freguês.

 

R – Não, não. Levo na brincadeira e o freguês sente a brincadeira.

 

P/1 – Que tipo de flores o senhor vende hoje. Crisântemo, rosa...

 

R – Vendo tudo, todo o tipo.

 

P/1 – Vende flores raras também?

 

R - Não porque é difícil flor desconhecida. Ponho na banca só para enfeitar. E ela acaba estragando. E, hoje, a flor para enfeitar é cara.

 

P/1 – Tem flor que sai mais? Crisântemo?

 

R – O que sai mais é flor mais barata. Crisântemo em vasinho sai mais. Coisas bonitas e mais baratas. Tem flor que é feia e é cara.

 

P/1 – Se chega um jovenzinho lá e fala “olha, estou começando a namorar uma menina…”

 

R – Então tenho que arrumar um maço de rosas para o moleque. Só conheço rosa, não conheço outra flor. Então só tenho que pôr rosas para eles.

 

P/1 – Que cor o senhor indicaria?

 

R – Qualquer cor. Depende se é velha, se é nova...

 

P/1 – Se for velha?

 

R – Aí tem que ser rosa vermelha.

 

P/2 – E se for jovenzinha?

 

R – Se for jovenzinha, rosa rosa. Rosa mais delicada.

 

P/2 – Quando se dá uma rosa branca?

 

R – Rosa branca é mais para paz, o camarada está por cima então leva rosa branca. (risos)

 

P/1 – E rosa amarela?

 

R – Rosa amarela também. Rosa amarela é para quando está mais apaixonado. Gosta mais da moça.

 

P/2 – O senhor dá esses aconselhamentos todos?

 

R – Ah, eu quase não paro na banca mais. Quando você me encontrou lá? Difícil...

 

P/2 – Como busca de gato e rato.

 

R - É difícil me encontrar lá. Chego de manhã, saio e só chego à noite, depois.

 

P/1 – O senhor gosta de algum tipo de esporte?

 

R – Nada de esportes.

 

P/1 – Qual o seu lazer? Qual o seu hobby?

 

R – Não, meu lazer é passear, andar, caminhar. Por todo o lugar. E gosto de andar a pé. Pego o carro só pra ir longe. Para perto, sempre a pé.

 

P/1 – Então o senhor vai da sua casa hoje...

 

R – Não, vou de carro. São só dois quilômetros.

 

P/2 – Já fez esse caminho a pé?

 

R – Já fiz a pé. Demora meia hora.

 

P/1 – Nesses anos todos que o senhor está na Lapa, o que mais marcou o senhor em termos de transformação do bairro? Mudanças...

 

R – Não só na Lapa, é em São Paulo, no mundo inteiro: a violência.

 

P/1 – Mas lá tem muita violência?

 

R – Não. Não é perigosa não, mas roubinho tem. Roubam lá na Lapa todo dia. Antigamente não tinha isso.

 

P/1 – No mercado também?

 

R – Dentro do mercado, não. Raramente. Mas fora do mercado assaltam muito.

 

P/1 – Mas não tem moleque que passa lá e pega uma frutinha?

 

R – Não. No mercado é raro. Nós temos segurança no mercado. Então o segurança sempre olha. A molecada conhece, tem medo. Ma raramente roubaram. Às vezes vem um moleque lá e pede e a turma dá.

 

P/1 – E de coisa boa, o que o senhor acha que o bairro ganhou nesses anos todos?

 

R – De bom, tudo tem. Bairro tem tudo bom. Gente boa, comércio bom, tudo bom.

 

P/2 – Agora, porque o senhor trabalha há muitos anos, o senhor anda na rua cumprimentando todo o mundo?

 

R – Nós conhecemos um bocado de gente na rua.

 

P – Então hoje o senhor é amigo da metade da Lapa?

 

R – Ah, de um pedacinho.

 

P/1 – O senhor lembra de coisas que vendeu? Tem pessoas que o senhor marca mais?

 

P/2 – Ele trabalha há 50 anos...

 

R – Nós temos um grande conhecimento da Lapa. Fui criado na Lapa, praticamente. Muita gente já morreu. Daqueles amigos nossos, muita gente já se foi. Está gravando já, Bigodes? Então muita gente já foi embora. Nós conhecemos muita gente nova que chegou na Lapa. Mas os velhos, aqueles velhos veteranos que nós conhecíamos, morreram quase todos já. Nós conhecemos netos, bisnetos, tataranetos dos velhos. São amigos, amigos nossos. Então a gente conhece todo o pessoal. Quando comecei a trabalhar com fruta, naquele tempo, para você ter uma ideia, em 1953... Nós fomos lá para rua Domingos Rodrigues, – pois tínhamos uma barraca – que era única estrada que era a saída para o interior. Não tinha as marginais, não tinha nada. Então assim a entrada para a cidade era por ali. Então você entrava e descia a Domingos Rodrigues para ir para o interior, e subia a Gago Coutinho para ir para a cidade. E eu tinha barraca de fruta tudo ali. Naquela época, era bem grande. E pegava freguês do interior, porque tinha muita gente do interior. Prefeitos, vereadores, juízes de direito, paravam ali para comprar as coisas. Chegava no fim do ano não tinha fruta que prestava. Era um problema. Não era que nem hoje. A fruta vinha toda importada e era pouco. Chegava uma época e não tinha. Chegava de novembro para frente e não vinha mais fruta. Muita fruta estragava porque não era embalada que nem hoje, era embalada a granel. E não tinha frutas boas para servir o freguês.

 

P/2 – O que o senhor fazia? O que o senhor falava para o freguês?

 

R – Não falava nada. (riso) “Sirva-se à vontade.” Então o freguês é que se servia. Eu não servia ninguém. Porque se não tinha fruta boa para servir e eu não servia. Se eu servisse, ele ia achar ruim. Então mandava ele se servir. Então ele punha no pacote, contava, pagava e ia embora. Se eu servisse, ele reclamava. Ele pegava e não ia reclamar. (riso)

 

P/1 – O senhor tem ou já teve muitas clientes pechincheiras? Dessas que chegam e falam que está muito caro...

 

R – Sempre teve.

 

P/1 – E o senhor faz um descontinho?

 

R – Eu falo o preço e ela paga. Às vezes ela quer desconto e nós fazemos. Não tem jeito... Nós não vamos brigar com o freguês. Tem freguês que não dá lucro, tem freguês que dá. Nem todo o freguês dá lucro. Tem freguês que empata. Ou melhor: tem freguês que leva duas dúzias por uma dúzia. (riso) Então é sempre assim, o freguês...

 

P/1 – Tem que dar para não perder o freguês!

 

R – Às vezes é preferível nem cobrar do freguês. Você não cobra nada. “É, leva embora... não precisa pagar hoje.”

 

P/1 – Se não ele fica lá enchendo o saco?

 

R – Não enche o saco, não. Ele atrapalha outro freguês. Então é preferível não atrapalhar o outro, mandar embora do que atrapalhar. É mais fácil você mandar o freguês embora de graça, do que atrapalhar outro freguês.

 

P/1 – Seu Fernando, a gente está quase acabando. Então eu queria que o senhor dissesse quais são os seus sonhos.

 

R – Meu sonho? Viver bem. (risos)

 

P/1 – O que é viver bem para o senhor?

 

R – Tendo amizades, batendo um papo, gostoso. Acho que todos nós temos esse sonho. Não eu, só. Todos. Viver bem. Amizades, nada de brigas. Você vivendo bem, está em paz. Se está amolado, não tem paz, não. Então você tem que não procurar encrenca. Não procurar atritos com ninguém.

 

P/1 – Quais o senhor acha que são as suas principais qualidades.

 

R – As minhas qualidades? Todas. (risos)

 

P/1 – Se o senhor fosse falar alguma coisa para esse pessoal que está começando com barraca, querendo entrar pro comércio, qual o conselho que o senhor daria?

 

R – Hoje é difícil. Virou tanta bagunça na rua... Naquele tempo não tinha essa bagunça.

 

P/2 – Mas um conselho de como tratar o cliente...

 

R – O cliente de hoje é difícil tratar. Porque o cliente hoje ficou tão complicado... O cliente vem aqui e quer uma coisa, vai ali e quer outra coisa, então ele nunca está satisfeito. Ele nunca pára aqui. Vai para frente, vai lá para baixo. E no final, volta de novo para cá. Ele acha que você nunca está cobrando o preço certo.

 

P/1 – O senhor acha que ele hoje faz mais pesquisa do que antigamente?

 

R – Justamente. Faz mais pesquisas.

 

P/1 – Sim, mas e a metodologia de tratar o que cliente, para fazer o cliente sair feliz?

 

R – Hoje se vende bem. O cliente hoje não é que nem naquele tempo. Hoje é mais fácil tratar o cliente. O cliente hoje ele chega em um lugar e não quer a mercadoria. Quer saber se tem. Naquele tempo era mais difícil tratar o cliente porque ele procurava coisas que às vezes não tinha. Então era difícil tratar o cliente. Hoje não, hoje se encontra tudo. Então hoje é mais fácil.

 

P/1 – Seu Fernando, tem alguma coisa de tradição que o senhor e a sua família tenham trazido de Portugal?

 

R – Não. Nossa tradição é aqui. A nossa tradição é paulista. De Portugal não tem mais nada.

 

P/1 – O senhor se sente mais...

 

R – Paulista do que português. Estou vivendo aqui.

 

P/1 – O senhor nunca voltou pra lá?

 

R – Voltei.

 

P/1 – Quando foi?

 

R – Faz cinco anos que estive lá, a última vez.

 

P/1 – E a primeira vez?

 

R – Na primeira vez eu estava aqui há quase 30 anos. Em 1981.

 

P/1 – O senhor foi lá passear?

 

R – Sim, vou lá passear e volto.

 

P/1 – O que o senhor sentiu ao chegar lá depois de 30 anos longe.

 

R – Pouca coisa. Você não sente muita coisa lá.

 

P/1 – O senhor não se sentiu emocionado?

 

R – Não. Os costumes mesmo, não tem muitos... Quando cheguei lá em 1981 encontrei todo mundo, agora cheguei lá e não encontrei ninguém. Tinham morrido todos. Eu só tinha uma tia lá, e morreu também depois que eu vim para cá de novo. Agora só tenho primos lá.

 

P/1 – E a casa do senhor antiga ainda estava lá?

 

R – A primeira não. A segunda está.

 

P/1 – O senhor foi visitar?

 

R – Fui.

 

P/1 - O senhor lembrava da sua infância?

 

R – Nessa última casa que nós moramos, já fomos grandes. A outra casa que lhe falei que era de sapé, fomos pequenos lá. Mas à outra, já fomos grandes. Que era uma perto da outra. Essa já é casa moderna, casa mais nova. Mas a primeira casa que nós moramos, é uma casa bem de sítio.

 

P/1 – Quem construiu essa última casa. Vocês construíram?

 

R – Não, já estava feita. Compramos feita já.

 

P/1 – Hoje, se o senhor pudesse mudar alguma coisa na sua vida o que mudaria?

 

R – Não. Não tem nada pra mudar. Estou satisfeito. ( risos)

 

P/1 – O que o senhor achou de ter dado esta entrevista e ter contado a sua história?

 

R – Ah, ótimo. É uma história real. (riso) Não se inventa nada. Porque a história de nós todos é uma história.

 

P/1 – Não tem diferença se é português, se é brasileiro...

 

R – Não, não. Porque história é tudo igual. Porque nós, do nosso passado, somos diferentes de hoje. Tinha menos conforto, hoje tem mais conforto. Naquele tempo não tinha nada. E agora que vai cortar a luz vai voltar o tempo da terra nova. (risos)

 

P/1 – É, agora vai todo o mundo conhecer como é que vocês viviam naquela época.

 

R – Justamente, vamos voltar ao tempo da pedra.

 

P/1 – Até a gente.

 

R – Até a gente. Até os mais novos. Porque nós chegamos sem luz, e agora voltamos a não ter luz. (risos)

 

P/1 – Então tá, a gente queria agradecer a sua participação...

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