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História

Uma vida escrita em cartas

História de: Marcos Antonio de Moraes
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 12/11/2013

Sinopse

Marcos Antonio de Moraes nasceu em Porto Feliz, interior de São Paulo. Em sua história relata como Porto Feliz era muito pequena e a cultura chegava basicamente pelos Correios. Aos 12, 13, anos Marcos queria saber mais do que se passava no mundo, conhecer além daquele universo pequeno de sua cidade natal. Seu espaço para buscar o saber tanto da cultura quanto das nações que transcendem aquelas dos amigos mais próximos da convivência era através dos Correios. Doutorado em literatura brasileira Marcos é docente, pesquisador e membro da Equipe Mário de Andrade do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEB-USP). Desenvolve pesquisas interdisciplinares, focalizando as relações entre literatura brasileira e memorialismo (correspondência de escritores).

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Frase de efeito: eu sou professor e em geral eu preparo a minha aula já imaginando que eu preciso seduzir o meu aluno, inicio a aula com uma frase de efeito e fico imaginando de que modo essa frase de efeito pode me dar os fios dessa minha narrativa que é uma aula. Eu fiquei pensando qual seria a frase de efeito, não encontrei nenhuma para essa narrativa de vida que é a minha em relação à correspondência.

Eu sinto que quando eu olho pra minha trajetória, a carta a cada passo vai sendo reformulada, ressignificada, me dando uma série de ideias para pensar a minha própria vida. A carta foi meu objeto de trabalho a vida toda, tem sido e vai continuar sendo, ela também tem um poder de encantamento que eu sempre retomo como uma experiência de vida. Eu nasci numa cidade do interior de São Paulo. Chama Porto Feliz. Cidade muito pequena em que a cultura só chegava pelos Correios, quer dizer, nos anos 80, 81 quando eu tinha 12, 13 anos, que eu queria saber mais do que se passava no mundo, que aquele universo pequeno da cidade. O meu espaço do saber tanto da cultura quanto das nações que transcendem aquelas dos amigos mais próximos, da convivência, era os Correios.

Os Correios para mim tinham esse conforto de fazer com o que era visível apenas como uma experiência, se transformar numa vivência afetiva. Como é que eu fazia isso? Como é que eu conseguia então transformar a distância em proximidade? Talvez a minha geração que se interessava por ler, do interior, só podia, só vivenciava essa experiência da leitura por meio do reembolso postal. Meu pai era professor de história, mas ele tinha outras funções. Fazia muita coisa, era vendedor. Mas livro era uma coisa que em minha casa nunca faltou, exceto por uma condição que eu nunca gostei que meu pai lia e jogava fora o livro. Em geral, anualmente, ele fazia uma grande fogueira e todos os livros iam embora. Minha primeira briga com ele, minha primeira e única, foi quando eu recusei esse “manda para uma fogueira”, “isso é meu a partir de agora”. Então, os livros, eles chegavam para nós pelo correio. Até os 14 quando eu não podia pagar, quem pagava os meus gostos e os livros que eu queria comprar eram os meus pais.

Minha mãe é uma pessoa que não terminou o curso fundamental, que seria até a quarta série naquele momento, mas ela sempre leu muito e lê ainda hoje. Ela gosta muito do Guimarães Rosa e ela não acha ele difícil. Então o que eu leio ela lê também. Às vezes ela lê e diz: “Ah, você precisa ler aquele livro que eu gostei muito”. Eu não li ainda, preciso ler. Então a relação com a leitura, com a escrita e com o universo da cultura sempre foi privilegiada em vários pontos, para uma família de classe média o livro era uma coisa importante.

O livro, enciclopédia, talvez seja uma coisa do interior, de ter na sala uma enciclopédia. Ou mais de uma. A espera de uma carta está associada a uma quantidade de afetos impressionantes. Quer dizer, me lembro, isso é muito curioso, que eu esperava muito. O carteiro passava às duas da tarde na minha rua. Eu esperava que o carteiro passasse e uma angústia de que talvez ele pudesse subir a escada da minha casa e deixar a carta. E todo dia eu ficava esperando o carteiro chegar. Certo momento o carteiro começou a demorar muito para trazer a carta e, até hoje minha mãe não sabe, eu falei: “Mãe, eu vou pintar o número da nossa casa, está muito apagado.” Imaginava, ficava imaginando aos 12 anos que o carteiro não estava encontrando o endereço para trazer a carta.

Eu guardo cartas. Eu acho que eu sou a geração que viu a carta morrer, a carta que não se conhece hoje, com o papel, a escrita, o envelope, a escolha do papel, os desenhos, o selo, a coleção de selos associada à correspondência, receber a carta e guardar o selo, não o selo do colecionador que vai e compra, mas o selo que constitui uma passagem na nossa vida. A recepção da carta, a presença efetiva da transferência do objeto, estou falando objeto aqui, mas estou pensando sempre que esse objeto tem uma dimensão eu diria anímica, ela não é só um objeto, ela traz com ela uma quantidade de valores, de sentimentos, o próprio objeto que nós recebemos, a carta, que vem pelos Correios, é como se a outra pessoa viesse até nós. Uma espécie de documento que vai ser potencializado por alguma coisa que é experiência do outro, a figura do outro.

Me lembro que também foi por conta da carta que eu me formei em Letras e o último ano a Therezinha [Therezinha Apparecida Porto Ancona Lopez], que depois veio ser minha orientadora de mestrado, me chamou para ajudar numa pesquisa que era organização da correspondência do Mário de Andrade. Mário de Andrade quando morreu em 45, pediu para lacrar por 50 anos as cartas dele. É curioso, mas por que eu fecho as cartas por tempo tão longo? Por que eu não permito que as pessoas tenham acesso a essa documentação? No mais por que que eu guardei essa correspondência? Existem projetos de dimensão histórica, guardar isso significa forjar um gesto de permanência dessa documentação. Que hoje a gente já sabe, recebe mil cartas importantíssimas, mas tem mais. Porque guardar, fechar isso por um tempo tão longo dá também para você diluir aquilo que eram as fofocas, diminuir as tensões, aquilo que talvez depois de 50 anos perde um pouco o calor.

Mário foi muito reservado em relação às cartas dele. Isso também desse cuidado, desse dado moral ligado à correspondência. Por exemplo, às vezes, com a Anita, um exemplo que para mim é muito marcante, Anita Malfatti, que para o Mário é a pessoa mais importante do Modernismo, quer dizer, estopim que começa, que expõe 17, que ensina para o Mário o que é Modernismo. A exposição dela tem essa importância. Enfim, fez uma viagem pra Europa e ela manda uma carta pro Mário, do navio, na qual se declara. Uma declaração de amor. Nós não conhecemos essa carta, nós supomos que seja porque ela vai dizer: “Mário, escrevi pra você uma carta e essa carta é uma carta que lesa a amizade. Quer dizer, eu confundir as coisas. Então por favor, rasgue essa carta”. Então, em nome da amizade, ela pede que ele rasgue a carta. O que ele faz? Ele rasga a carta. Claro. Aí nós perdemos o documento, mas nós conseguimos reencontrar toda uma ambiência, porque a carta em que ela pede pra que ele rasgue, ele rasga.

Pouco tempo depois Anita vai assistir a primeira exposição de Tarsila em Paris. A grande exposição dela. A exposição que nós conhecemos com as obras do que depois vão dar Pau Brasil, que vão dar já a tração de vanguarda. E Anita não gosta daquela exposição e faz um relato bastante negativo do que ela viu. Na verdade nós temos aí dois modos de ver a arte moderna. E Anita, depois de uma carta muito longa diz: “Mário, por favor rasga essa carta”. Aí não, aí Mário não rasga. Nós precisamos perceber qual a dimensão desse conjunto. É preciso que a amizade seja preservada, mas em nome da história do Modernismo, essa carta que conta as divergências estéticas de duas das pessoas mais importantes, isso não pode ser jogado fora, isso não pode ser perdido no legado cultural.

Só um outro exemplo que para mim é muito marcante, como ele tá muito preocupado em guardar a carta como documento da história. Quando nós lemos uma carta, a carta diz muito menos do que a gente pode imaginar porque quando eu escrevo para você, a quantidade de dados que nós temos em comum precisam ser retomados na carta. Quando um terceiro lê, quando ele lê, ele vai ter que encher de significado aquilo que está vazio. Então nós nos projetamos muito nas cartas. Nós damos, atribuímos os significados que às vezes não estão nas cartas. A carta se compõe de vazios. Nesses vazios é que nós leitores da carta nos colocamos, interpretamos. A carta é o lugar do equívoco. “Você quis dizer isso pra mim?”, “Não, não quis dizer isso, quis dizer outra coisa” e aí a retomada, o desdobramento, a carta favorece essa retomada da escrita, a retomada do “eu quero contar a minha vida”, ou “eu quero avaliar determinado fato”.

Eu esperava o carteiro passar sempre. Passava sempre duas e meia horas da tarde, eu nunca conversei com o carteiro, mas eu conhecia, mesmo porque ele era irmão da minha cunhada. Então eu o reconhecia. Havia uma referência, mas isso nunca significou muita coisa a figura do carteiro. Talvez fosse mais importante quem estava por baixo do uniforme. Eu fico pensando em o quanto essa figura representa para algumas comunidades. O que significa em termos de portador de uma notícia, portador do bem e do mal. Quer dizer, não é só uma profissão. Eu sempre imaginei que ele traz esperança ou que ele traz um certo medo da notícia do que vem.

Eu acho que a história da correspondência deve ser contada não só a partir do texto. Isso é uma coisa que eu sempre discuti em sala de aula e com os amigos. Sempre se pensa muito no que se diz, mas não no complexo em torno da correspondência.

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