Busca avançada



Criar

História

Uma vida em prol do cooperativismo

História de: Jair do Amaral
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/01/2016

Sinopse

Em seu depoimento, Jair do Amaral fala sobre diversos fatos de sua infância em Pirituba: das brincadeiras de rua, até como se dava o processo de reutilização e coleta de lixo. Estudou Ciências da Computação, formou-se em Educação Física e atualmente estuda Gestão em Tecnologia de Cooperativismo. Trabalhou na área de eventos e lá, descobriu possibilidades de atuar em projetos focados em sustentabilidade, como a coleta seletiva. Fundou a Cooperativa Crescer e, junto com demais instituições, a Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem, a FEPACOORE.

Tags

História completa

Nasci em São Paulo, em 18 de abril 1971. Meu pai é Nelson do Amaral e minha mãe é Marinalva de Souza Amaral, também nasceram em São Paulo. O meu pai trabalhava na Pincéis Tigre, e minha mãe, pelas histórias que eu ouço, trabalhava nas Pernambucanas. Tenho dois irmãos, o Josiel e o Gilson do Amaral, um é engenheiro mecânico, e o outro, engenheiro elétrico. Passamos toda a nossa infância em Pirituba, brincávamos juntos, aprontávamos juntos. Era uma casa bem simples, mas com um quintal bem grande. Lá tinha a nossa jabuticabeira enorme, várias árvores frutíferas, criava galinha, era como se fosse uma casinha da roça. Eu gostava de ouvir música de vinil, inclusive até hoje eu tenho esse costume; a nossa ligação com eletrônico era mais no videogame, o Atari, aqueles jogos mais antigos, mas as brincadeiras mesmo, nossa diversão, era sempre lúdica, na rua, enfim, solto.

Nessa época era muito a cultura da reutilização. As embalagens praticamente não existiam, porque vinha tudo num saquinho de papel. O leite, você fazia aquela troca, colocava o vidro na porta de casa, passava o caminhão do leite, ele pegava a garrafa vazia e colocava a garrafa cheia. Com o lixo a mesma coisa, você colocava o lixo numa lata de tinta, que passava lá o caminhão do lixo pra recolher o lixo, ele pegava e batia essa lata no caminhão e devolvia a lata. Era uma função das crianças correr atrás das latas, porque eles nunca deixavam a lata na porta de casa, eles pegavam, na correria da coleta de lixo, e saiam batendo e iam jogando as latas pras calçada.

Quando passei na oitava série eu já estava procurando trabalho. Comecei a trabalhar na PUC de São Paulo com 13 pra 14 anos, fiz um concurso lá e fui selecionado. E dentro da PUC tem um plano de carreiras, que concluindo o segundo grau você pode prestar um concurso pra outro cargo. Entrei na PUC, em Ciências da Computação e cursei dois anos. Só não era o curso que eu queria. Aí eu voltei à minha infância, à esportiva, e prestei Educação Física, que é um curso que não tem na PUC. Entrei na UniCastelo, em Itaquera. Quando eu concluí, eu já estava meio que chegando num teto, num limite na PUC. Comecei a trabalhar na Secretaria Setorial do Centro de Ciências Jurídicas, Econômicas e Administrativas, depois eu fui pra humanas, pra tesouraria, depois pra Faculdade de Psicologia, na Faculdade de Psicologia. Mas também comecei a cansar da rotina, aí eu fui pra Coordenadoria Geral de Estágios, que também tinha um monte de mudança e foi um dos motivos pra eu ter ido pra lá, porque a coordenadora soube desse trabalho que eu fiz na Faculdade de Psicologia. Eu fiz toda essa mudança de rotina de trabalho, de atendimento ao aluno, mas chegou um momento que eu falei: “Ah, não”, aí teve um plano de demissão voluntária, entrei nesse plano, peguei a grana e fui pra Bahia e passei um ano lá dormindo na rede.

Depois trabalhei no SESC Pompéia, no SESC Ipiranga, como peão artístico, que são aqueles caras que fazem montagem de evento, exposição. Nesse período eu tive contato com bastante gente que trabalhava com eventos, produtores e acabei acompanhando alguns, também nessa parte de montagem de cenografia e tudo mais, e acabei me interessando por essa área. Nessa época, em Pirituba, tinham uns artistas que estavam criando uma ONG chamada Movimento Eco Cultural, pra desenvolver uma feira de artes e de cultura, com palco, música, teatro etc. E aí eu tive contato a pessoa que estava desenvolvendo, que era o presidente dessa ONG, o Jetro Menezes. Eu falei que eu tinha interesse pela área, e ele disse que precisava de alguém. Comecei a trabalhar nessa ONG com esses projetos. Era feita a feira, acabava e depois não tinha mais nada programado. Todo mundo trabalhava seis meses, organizava aquele evento grande, que atingia lá 80, 70, 80 mil. Eu falei: “A gente tinha que usar essa força para programar um próximo projeto, a gente já tem quem tá captando recurso”. E comecei a escrever um projeto chamado Programa Permanente de Educação Ambiental, que era pra ser desenvolvido dentro da unidade de conservação do Parque Estadual do Jaraguá, e apresentei pra diretoria. E logo que acabou a feira eu consegui fechar um patrocínio bacana pra realizar tanto o institucional, que era o necessário lá do parque, a Secretaria do Meio Ambiente, Governo do Estado de São Paulo etc, quanto o de iniciativa privada, pra realizar todas as atividades propostas no projeto, de quatro meses de duração. Todo final de semana era feita uma atividade dentro do parque. Uma delas era desenvolver palestras de sensibilização pra coleta seletiva no parque, e foi aí que acabou linkando a minha ida pra questão da coleta seletiva. No ano seguinte a gente já pegou como tema a questão da reciclagem, coleta seletiva, e fizemos uma feira chamada Movimento Eco Cultural.

Tudo isso acabou a me inserir na questão da reciclagem. Em 2002 a Erundina começou a incentivar a criação de pontos de coleta seletiva em São Paulo, e aí em Pirituba tinha um, que fica lá até aonde é hoje, mas o grupo que estava lá não estava atuando direito. Esse amigo que me colocou dentro do Movimento Eco Cultural estava como coordenador do Programa de Coleta Seletiva da Cidade de São Paulo. Aí um dia eu encontrei com ele e ele falou: “Pô, Jair, a gente tá com um galpão aqui, a prefeitura tem um galpão todo estruturado, só que a coleta seletiva não funciona, porque o grupo que tá cuidando lá é um grupo que usa o caminhão pra fins próprios, o cooperativismo não funciona lá. Você não quer montar uma cooperativa e assumir essa central de triagem de Pirituba?”. Quando eu fui ver, em 2006 eu tinha fundado e formalizado e constituído a Cooperativa Crescer, em Pirituba, só que eu participei como cooperado, sócio cooperado. E ela tinha objetivo de ser a gestora da Central de Triagem de Pirituba, que era essa estrutura mantida pela prefeitura, que estava inativa. Eu fiquei mais em projetos e parcerias, buscando parceiros locais, tivemos que começar do zero, criar todos os roteiros de coleta, fazer o trabalho de educação ambiental porta a porta. E a gente procurava tirar essa pessoa que tá puxando carroça na rua pra vir pra dentro da cooperativa, pra se formalizar como sócio cooperado, ter, recolher a previdência social, seguro odontológico, seguro de vida, de acidente de trabalho, participar dos cursos e treinamentos. Temos parceria com o SENAI, com o SEBRAE, com o SENAC. A gente sempre tá desenvolvendo algum projeto de formação pra, ou pra ser a cooperativa um trampolim da pessoa pro mercado de trabalho ou pra que pessoa, em termos de cidadania, comece a, pelo menos, compreender o universo que ela tá inserida. Porque às vezes, a maioria tá lá na cooperativa por uma necessidade, a pessoa não tem formação nenhuma, ela tá excluída do mercado de trabalho, socioeconomicamente, muitos são regressos do sistema penitenciário também, que a gente tem uma parceria com a pastoral carcerária. A Crescer nunca fez parte do Movimento Nacional de Catadores, menos da metade dos meus cooperados eram catadores. São pessoas que estavam ali fora do mercado, em situação de vulnerabilidade socioeconômica e nós trouxemos pra dentro.

Em 2013, nós constituímos a Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem, que é a FEPACOORE, e agora a gente tá fazendo um trabalho de fortalecimento da federação e direcionando as demandas das cooperativas que são associadas à FEPACOORE, nós somos em 15 cooperativas, mas pra questão de profissionalização de gestão, de produção, de cooperativismo, e não do assistencialismo, do: “Por favor, tadinho de nós, nós não somos ninguém, ajuda a gente”. Porque quando você monta uma cooperativa, você tá montando um empreendimento econômico, de geração de renda e trabalho, ela tem CNPJ, ela tem as suas obrigações legais, fiscais, tributárias, você tem a administração de cooperativa, ela tem uma responsabilidade junto ao seu corpo de sócios cooperados, não é uma fundação, uma instituição de caridade.

Tem ainda o Movimento Eco Cultural, que faz um trabalho de bastidor pra constituição, por exemplo, de cooperativas. Eu estou terminando o curso de graduação de Gestão em Tecnologia de Cooperativismo, que, com a federação, eu sou diretor presidente, fui escolhido, mas faltavam mais informações técnicas pra eu poder realmente buscar atingir os objetivos sociais da federação. Esse curso começou a me abrir uma série de possibilidades de formações e treinamentos e capacitações que a gente pode oferecer pra essas cooperativas que são associadas à FEPACOORE, ou até às que não são associadas. O presidente da cooperativa não manda nada, os sócios cooperados então nem se fala, as decisões que deveriam ser tomadas em assembleia geral ordinária ou extraordinária são tomadas de reunião de bar, é coopergato que a gente chama, cooperativa que tem dono. Então é nisso que a Federação Paulista de Cooperativas de Reciclagem vai atuar, em dar autonomia pras cooperativas, de mostrar pras cooperativas que elas têm que caminhar de forma autônoma, não impede de ter parceiros, mas que a gestão tem que ser feita, de ter alguém, algum colaborador ajudando. Nós temos a OCESP, que é a Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo, temos o SESCOOP, que é o Serviço Social do Cooperativismo, todos dão suporte pra cooperativa atuar de forma independente, sem intervenção estatal e de terceiros.

Pelo Eco Cultural vou continuar desenvolvendo projetos de implantação, é aonde eu me sustento. A cooperativa é legal, ela gera uma renda bacana, mas não é suficiente pra eu manter o meu filho estudando. Eu recebo através de consultorias que eu realizo pelo Movimento Eco Cultural pra implantação e gerenciamento de coleta seletiva em empresas, condomínios, municípios. Está em andamento a implantação de coleta seletiva no município de Olímpia, então nós constituímos uma cooperativa lá. Com o know-how que eu adquiri nesse período, eu sou contratado pra desenvolver essa atividade num município, como eu faço em Pirituba, fizemos em Mairiporã, Franco da Rocha, Olímpia, Catanduva. Em empresas também, a própria PUC pediu um projeto de elaboração de um plano de gestão integrada de resíduos sólidos para todos os campus.

O maior desafio das cooperativas é auto sustentabilidade. São 22 cooperativas conveniadas, mas nós sabemos que tem mais de 70. Temos aí 50 cooperativas fora do sistema de coleta seletiva, que não recebem nenhum subsídio. Eu acho que o maior desafio é a manutenção da regularidade fiscal, tributária, manter legal, e a segunda é a de geração de trabalho e capacidade administrativa, em todas elas. A Crescer está com um projeto de implantação de um sistema integrado de gestão, que interliga todos os processos da cooperativa, desde a coleta, do material que é coletado, a quantidade de material que entra todo dia, o material que é processado, separado na esteira, compactado, estoque, RH, contas a pagar. A gente quer integrar todas as informações num sistema, num CD, que você possa treinar e distribuir isso pras cooperativas. Uma vez funcionando, a gente vai, pela federação, implantar nas cooperativas. 

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+