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História

Uma vida em Carajás

História de: Carlindo Milhomen Araújo
Autor:
Publicado em: 16/10/2015

Sinopse

Carlindo ingressou na Vale no início do projeto Carajás, em uma época que o local não tinha possibilidade de acesso a não ser por avião ou helicóptero. Não havia estradas e os empregados passavam longos períodos completamente isolados. O tempo foi passando e Carlindo viu o projeto se concretizar, com as áreas de mineração e os núcleos urbanos. Nesta entrevista, ele nos conta sobre o contato com os índios, os períodos de confinamento e o conhecimento medicinal das plantas da região, que adquiriu com tantos anos de vivência em Carajás.  

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História completa

 

P/1 - Então, a primeira pergunta. Eu vou pedir para o senhor se apresentar: o nome completo, data e local de nascimento.

 

R - Já pode? Meu nome é Carlindo Milhomen Araújo, nascido em cinco do onze de 35 [na] cidade de Montes Altos, Maranhão.

 

P/1 - O nome dos pais do senhor?

 

R - João Dias Araújo e Maria Milhomen Araújo.

 

P/1 - A família do senhor é toda do Maranhão?

R - Todos do Maranhão. A família Milhomen é uma família... Fui criado praticamente dentro da pequena cidade de Grajaú, foi se estender a Montes Altos e aí foi crescendo. Mas a origem foi da cidade de Grajaú, do Maranhão.

 

P/1 - Grajaú?

R - É.

 

P/1 - E a atividade... O pai do senhor fazia o quê?

 

R - Todos agricultores, mexiam com fazenda, com pequena fazenda. E quase toda a família... Estão no mesmo ramo.

 

P/1 - Estão no mesmo ramo?

 

R - Estão no mesmo ramo.

 

P/1 - Mexem com terra...

 

R - Todos mexem com terra, agricultura, pequenas fazendas. Outros têm uma fazenda um pouco maior, outros menores, mas o ramo é o mesmo. 

 

P/2 - O que se plantava lá, seu Carlindo?

 

R - Ah, essa região não é muito fértil. É mais arroz, milho, mandioca e criação de gado. 

 

P/1 - O senhor nasceu no sítio, na fazenda?

 

R - Nasci na cidade de Montes Altos.

 

P/1 - Na própria cidade.

 

R - Na própria cidade.

 

P/1 - E cresceu ali?

 

R - Cresci ali. Com a idade de dezoito anos eu vim para Imperatriz, [me] empreguei no DNER [Departamento Nacional de Estradas de Rodagem], estudei, onde eu fiz o segundo grau, e fiquei quatro anos no DNER. Depois do DNER eu saí, dei uma volta fora, no Mato Grosso; andei à toa, depois voltei. Aí vim para... Nessa rodada vi que o negócio não era bem assim, voltei, aí [me] empreguei numa firma em Marabá. Nessa firma eu trabalhei como encarregado geral, fui produzir negócio de extração de castanha e fazenda também. O dono da firma tinha umas oito fazendas, eu trabalhava como encarregado daquelas e extraía castanha. Tive… Extraí quatrocentos a quinhentos mil ______ de castanha.

 

P/1 - De castanha?

 

R - É, de castanha do Pará. 

Em 60... 68 foi quando surgiu Carajás. Eu estava nessa firma, aí um amigo meu falou: “Olha, descobriram uma mina de ferro aqui perto.” Falei: “Onde é isso?” “É aqui perto. Tem um avião que pega o pessoal aqui e leva para lá.” Falei: “Então, vou dar uma olhada lá nesse trem aí.” 

O pessoal gostava muito de mim [e dizia]: “Não vai, fica aqui.” Já tinha oito anos na firma, tinha muita confiança. Botaram o pé na parede: “Não vai, não vai.” Eu falei: “Eu vou, esse negócio lá eu vou dar uma olhada.” 

No dia quatorze de junho de 68 eu vim. Peguei o helicóptero e vim para Carajás. Cheguei, olhei, fiquei meio desanimado; tinha umas quinze pessoas. Barraco improvisado, no meio do campo. “Acho que não compensou muito eu sair de onde eu estava para vir para cá, não. Mas é ferro, né?” Outro falou: “Isso aqui é só ferro, esse troço que você está vendo aqui é ferro. Ainda tem um futuro nessa coisa aí.”

Fiquei. O pessoal escrevendo: “Volta para cá, seu lugar está aqui.” Falei: “Não, vou ficar aqui.” A chefia, a direção da empresa era americana, da Meridional. O gerente da firma gostou muito de mim: “Não, você não vai. Você fica aqui.” Falava muito ruim o português, mas dava para entender. “Fica aqui, eu gostei de você.” Inclusive ele tinha trabalhado... Quando ele viu meu nome, Milhomen… Ele tinha trabalhado com alguém na Icomi [Indústria e Comércio de Minérios S.A.].

 

P/1 - Com algum Milhomen na Icomi.

 

R - É. Ele falou: “Você não tem um parente lá na Icomi?” Eu falei: “Tenho. É meu tio.” Ele: “Ah, trabalhei com ele, é gente boa. Você quer ir embora?”, ele falou. “Não. Eu vim para cá, gostei. Ficar no meio do mato...” 

Mostrou os projetos. “Isso aqui é ferro.” Apesar de falar bastante mal o português, dava para a gente entender. Aí eu: “Não, vou continuar, né?”

P/2 - Mas o que o senhor fazia aqui?

 

R - Na época, [quando] eu cheguei, eu fazia umas picadas, que era o início da coisa. O forte do trabalho nessa época era malhas, as picadas. Os geólogos faziam as malhas, faziam as pesquisas, sondavam, e já tinha o início de umas pequenas galerias, que era onde tiravam amostras mais profundas. Porque a sonda era uma sonda portátil, não tinha muita capacidade de perfuração; ela furava quarenta, cinquenta metros, no máximo. A sonda [era] bem pequena - acho que hoje ainda existe por aí, como amostra -, então ela não tinha muita capacidade de profundidade na rocha. 

Mas a gente já estava iniciando umas galerias, até a fazenda G1. O G1-DN1 chegou a quatrocentos metros - não chegou a quatrocentos, chegou a trezentos e poucos metros. Mas... A tendência era isso: melhorar os barracos, fazer picada para os geólogos fazer as pesquisas, tirar amostras. E com aquilo eles iam... Com aquelas perfurações eles viam a malha de ferro, qual era a espessura e a direção que o ferro se aproximava, se aprofundava mais. Nessa época, me deram um cargo de encarregado de serviço de campo. Dá lá... Dez homens, você vai fazer picada para cá...

 

P/1 - O senhor entrou?

R - Eu entrei com... Uma semana depois eu peguei um cargo de encarregado. E aí, uma ideia... A quantidade de pessoas que tinha, porque o meu número era dezessete. Aquele crachazinho tinha um número, cada pessoa tinha um crachazinho e tinha um número: um, dois, três. O meu era dezessete.

 

P/1 - Dezessete? Quem eram essas pessoas, as pessoas que estavam aqui? Que tipo de pessoa era?

 

R - É, porque já tinha... Eram braçais, ajudantes de serviço e [um] geólogo. E algum sondador que sondava, trabalhava na sondazinha. Uma sonda pequena que você transportava manualmente, puxando um [guincho] tifó. Mudava a sonda para lá. 

Já me deram esse cargo de encarregado e aí eu continuei… A tendência era melhorar a estrutura. A infraestrutura da coisa tinha que melhorar, fazer acampamentos. A pista de pouso era pequenininha também, pousava mais avião de asa fixa, mas era avião pequeno. Depois a gente ampliou um pouco e começaram a descer os aviões grandes, como esse DC3 que tem aí no aeroporto, outros aviões da FAB [Força Aérea Brasileira]. 

Em pouco tempo trouxeram uma Toyota porque lá não tinha carro também, a gente andava à pé. Trouxeram uma Toyota e depois uma caçamba. Essa caçamba era utilizada para receber o material que vinha no avião e colocar no almoxarifado, como alimento, ferramenta, óleo diesel. O avião transportava… A ponte aérea Carajás-Marabá e Carajás-Belém, transportando alimento e combustível para motor de luz, essas coisas. Depois que trouxeram essa Toyota trouxeram uma caçamba, depois trouxeram um D6zinho desmontado também, num avião da FAB, para... A gente ampliou a pista e o avião da AER trouxe um D6. Auxiliou muito na abertura de estrada. A primeira estrada que foi aberta foi de N1 para N4... Para N2. 

 

P/1 - O senhor participou dessa abertura?

 

R - Essa abertura, eu que fui o cabeça da história. Fui eu que fiz a picada, depois acompanhei o serviço. Depois trouxeram uma serraria portátil também, que... Começamos a serrar madeira e já fizemos... Começamos a construir casas de madeira serrada. Pequenas casas, mas tudo de madeira serrada já. E também essa serraria servia para serrar madeira para escoramento das galerias. Você ia furando as galerias e ia forrando, escorando, para evitar desmoronamento. Tudo era forrado com madeira. Essa serraria a gente mudou para a N2, depois abriu a estrada até N2. E aí veio: N2, N3, até chegar N4. Aí tinha ramal para N8, N5, que é ali hoje onde...

 

P/1 - Cada um tinha que abrir uma picada ligando uma à outra...

 

R - Tinha que abrir uma picada. Depois o tratorzinho, um D4, ia abrindo a estradinha.

 

P/1 - Mas para abrir picada o que tem que ser feito? Como é esse trabalho?

R - A topografia vai na frente, vai dando a direção. Primeiro você fazia um voo de helicóptero e você pegava a direção, pegava uma bússola. A estrada do salobo também foi uma estrada que depois eu abri. Não tinha estrada. 

As pesquisas foram se ampliando mais, foi encontrada alguma formação de cobre, que... Isso já depois de encontrada alguma formação de cobre, a pesquisa foi andando. Foi aberta essa estrada, que veio... Chamaram de MM1, MM2, MM3 e aí que ficaram... Atravessou o rio, já é o salobo, né?

 

P/1 - Já é o salobo?

 

R - É o salobo. Essa... Também aberta uma estrada de cinquenta, cinquenta e poucos quilômetros. É isso: a gente pegava um helicóptero, pegava uma bússola, pegava a direção da estrada, depois centralizava, pegava a bússola e ia embaixo. A topografia... O ideal é esse, o rumo é esse, e a topografia mandava... Você mandava a máquina atrás. 

 

P/1 - E vamos embora!

 

R - Vai embora. Quando chegamos com essa estrada no N4, aí voltamos um pouco e pegamos outra direção, para Serra Sul. Serra Sul é outra jazida de minério de ferro, equivalente a essa N4. São sessenta... 65 quilômetros daqui até lá.

 

P/1 - 65 quilômetros?

 

R - 65 quilômetros. Também foi feita a mesma coisa. Foi descoberta e vista pelos geólogos. Eles iam andando de helicóptero, fazendo pesquisa, depois a gente pegava a direção e fazia a estrada para lá. 

 

P/1 - O senhor conhece... O senhor tinha familiaridade com mato, quer dizer, isso para o senhor era tranquilo?

 

R - Eu praticamente eu nasci na roça, nasci na fazenda. Isso para mim não fez muita diferença - ficar na floresta, aqui na floresta amazônica. Como é... Não é bem uma floresta aqui no Carajás, porque você vê, onde existe a floração de minério de ferro a vegetação toda é baixinha. Então não é bem uma floresta densa, não é uma... Mas de qualquer maneira você estava sendo confinado aqui. Não tinha estrada, o acesso aqui era aéreo. Não tinha como, não tinha jeito, porque era... Avião, você não tinha opção. Você voava daqui a Marabá, só via floresta. 

 

P/1 - Só floresta?

 

R - Só floresta.

 

P/1 - Você voava daqui a Belém, era só floresta, não tinha outra coisa. Você via uma abertura, praticamente um campo; era quando chegava Carajás. 

Continuando, aí eu fui indo. Passei de encarregado a supervisor para ser encarregado dessa serraria e supervisor da construção civil, da montagem das casas, da construção das casas.

Foi montada também uma pequena marcenaria, onde [se] fazia os móveis, fazia... Começou desenvolvendo… Fazendo mesa, cadeira, cama, fazendo... Porque antes, quando a gente chegou aqui, era aquela caminha de campo, que chama campeira. Você a pegava, fechava aqui, botava aqui e ia embora para o outro acampamento. Levava nas costas. O colchãozinho já vem dentro, o colchãozinho fininho; você pega a cama, fecha, põe aqui e vai para o outro acampamento. Chegando lá, você só abriu, puxa os pezinhos, pronto. A cobertura era de lona: você pegava umas forquilhas, enfiava aqui, botava as travessas, cobria a lona e fazia o dormitório, fazia... A cozinha vinha do lado, a cozinha onde fazia a comida. Era isso. 

 

P/1 - Estava pronto o...

 

R - Estava pronto.

 

P/2 - Como era a comida?

 

R - A comida era carne, arroz, feijão. Muita conserva, enlatado era o que tinha mais porque fechava aqui, Carajás fechava. Ficava dez, quinze dias fechado, o avião não entrava.

 

P/2 - Fechava o quê? O tempo?

 

R - O tempo. A neblina fechava as pistas, aí você tinha... a companhia mantinha sempre um estoque no almoxarifado de enlatado, que era o que mantinha a alimentação de todo mundo. Era salsicha, carne em conserva e enlatados, demais, feijoada, esse troço. Era segurança para não faltar alimentação.

 

P/1 - A mentalidade era ter comida para todo mundo.

 

R - É, a mentalidade é ter comida direto para todo mundo. E mantinham dois enfermeiros, mantinham uma emergenciazinha. Em cada acampamento tinha uma emergência; [tinha] tudo que você precisava, não tinha nenhum problema. Você podia ser picado por algum inseto, ser picado por cobra, ser picado por... Você tinha uma emergência em qualquer canto que você estivesse, não tinha nenhum problema.

 

P/2 - Tinha muito caso de doença? 

 

R - [Era] muito sadio, aqui não tinha. Surgiram alguns casos de malária, muito pequenos, pessoas que a gente... Na pesquisa, porque depois a gente fez um raio da pesquisa em média de cem quilômetros em volta, tudo foi pesquisado. Às vezes… Muitas vezes o pessoal de pesquisa, que estava no campo fazendo pesquisa, encontrou pessoas com... _________, caçadores, com malária. E traziam, às vezes com leishmaniose, medicavam, e às vezes, chegou... Teve uma ocasião que essas pessoas [se] contaminaram, trouxeram malária, e contaminaram algumas pessoas que estavam no posto médico lá. 

 

P/1 - No posto médico.

 

R - E é incrível, eu não tinha a menor ideia que malária contaminava a pessoa assim. Pensei que era um mosquito que podia picar a pessoa, e se o mosquito estivesse com o vírus passaria. Mas passa... Depois que a pessoa está doente, qualquer mosquito que...

 

P/1 - Que a pica...

 

R - … picar o doente e picar outra pessoa transmite. Surgiu o caso daí, pessoas que vieram do campo pousando na enfermaria e as pessoas que estavam na enfermaria [se] contaminaram. 

 

P/1 - O senhor nunca teve problema?

 

R - Eu nunca tive. (risos) Eu não. Eu tive problemas aqui com malária depois da estrada Carajás-Marabá. Eu tive malária porque na época da construção da barragem de rejeito da... Depois da montagem da usina eu, como fiscal de obra, fiquei na barragem fiscalizando o ________ da barragem e peguei malária. Mais não, sempre fui... Nem gripe nem nada, sempre tive… 

E é muito... Apesar da gente estar confinado era muito divertido, porque você ficava aqui, no trabalho, de dia a dia, correndo para um lado, para o outro. A cada trinta dias as pessoas saíam, né? E cada sessenta dias a pessoa de nível... Ajudante de serviço só saía com sessenta dias. Mas no dia você estava... No escritório já estava a passagem dele preparada, o helicóptero ia buscar onde o cara estivesse. O cara às vezes não estava nem esperando e o helicóptero chegava. “Fulano, fulano, tem que ir.” Ah, o cara ficava maluco: “Ah, já é o meu dia?” Aí saía correndo. 

 

P/2 - Perdia a noção?

R - Passava rápido.

 

P/1 - E ía para onde?

 

R - Marabá ou Belém ou Imperatriz. O avião DC3 já estava lá na pista, só esperando. Já estava relacionado todo mundo que estava de folga lá. O cara saía, ficava dez, oito dias - o dia que ia e o dia que vinha contava dez. Mas para ficar junto com a família era oito dias, praticamente.

 

P/1 - Oito dias?

 

R - É. Praticamente, o dia que vai; assim que chegava, não sabia a hora que saía. Mas tinha dez dias para isso.

 

P/2 - O senhor quando tirava folga ia para o Maranhão?

 

R - Eu ia para o Maranhão. No dia da folga eu já estava doido para sair. (risos)

 

P/1 - Estava só esperando?

 

R - Estava esperando. No início, logo que eu cheguei aqui, eu gostei do trabalho. Apesar de ser no mato eu gostei, ficava no meio da turma. “Vamos embora, vamos fazer isso!” Eu fiquei seis meses e quinze dias aqui dentro, sem sair.

 

P/1 - Sem sair, direto?

 

R - Sem sair, direto, aí foi que o gringo falou: “Olha, você tem que sair, senão você vai ficar maluco, você vai ficar doido.” (riso) Aí, eu disse: “Está bom, vamos embora.” Eu queria ficar mais um dia. “Não, você vai ter que sair.” “Está bom, então eu vou sair.” Saí. Mas teve pessoa que chegou... O cara o esqueceu um pouquinho e ficou um ano. 

 

P/1 - Ficou um ano?

 

R - Um ano aqui dentro. 

 

P/1 - Fica tão concentrado por lá e...

 

R - É, o cara concentrado. Cada dia você vai para um canto, vai fazer uma coisa diferente; vai passando que não dá para notar. “Ah, já estou com...” 

Esse queria ficar mesmo, ele decidiu. Ele ficou porque quis ficar. Disse que estava com alguns problemas financeiros lá fora, queria ficar para juntar um dinheiro pra ir. Mas o normal era noventa dias, o cara tinha que sair. 

 

P/2 - O pessoal ficava contando o calendário, marcando direitinho?

R - Contava. Revistinha ali, olhando, só via mulher na revista... (risos) E contando os dias: “Tal dia eu vou!”

Naquele dia já estava com a bolsa arrumada, no jeito. Se ele estivesse no campo, já estava ouvindo as ordens do helicóptero: “Ah, já vem o helicóptero me buscar.” O helicóptero levava, colocava N1 - lá era a base - e [de] lá pegava o avião de asa fixa para ir para Belém ou Marabá ou a cidade de origem dele.

 

P/1 - Se o sujeito tinha medo de voar ele estava perdido!

 

R - Ah, não, não tinha jeito. 

 

P/2 - Ele nem vinha!

 

R - O troço era tão... Aconteceram tantos casos que a gente via coisas meio estranhas... Tinha um camarada que era cozinheiro e todo dia ele via o avião voando de Marabá, que o avião ficava... Era ponte aérea, direto. Era tudo, carne, alimentação, óleo diesel. O cara ficava olhando. Ele colocou na cabeça que devia ir embora e queria ir por terra. O sujeito juntou o enlatado numa mochila e um dia de noite ele ó... [Partiu] no rumo que o avião voava.  

 

P/1 - Foi a pé.

 

R - Foi a pé. Desceu, pegou a picadinha, desceu a serra e... No outro dia: “Cadê fulano?” Eu falei: “Não apareceu.” Aí eu falei assim: “Olha, acho que ele foi embora. Se ele estava com uma sacola andando aí...” “Ah, não é possível.” Aí foi aquela correria. O gringo falou: “Pega umas pessoas e vai atrás.” Juntou umas cinco pessoas e pegaram a batida dele... Foram sair em Marabá.

 

P/1 - Foram sair em... Ele conseguiu chegar em Marabá. 

 

R - Não chegou porque ele chegou numas fazendas próximas, na beira do [Rio] Itacaiúnas. Lá o cara botou num barco e levou para Marabá. 

 

P/1 - E levou para Marabá.

 

R - Foi. Mas eu acho que...

 

P/1 - Teve medo de voar?

 

R - Ele teve medo de voar. Não sei porque que ele colocou aquilo na cabeça, porque avião tinha direto. O cara ia, chegava... Era quarenta minutos de Carajás a Marabá, 45 minutos. (riso) Belém era um pouco mais, mas se fosse para Marabá era... Imperatriz gastava um pouco mais.

 

P/1 - A primeira vez que o senhor andou de helicóptero foi essa vez que o senhor veio para cá ou não?

 

R - A primeira vez que eu andei de helicóptero foi a vez que eu vim para cá. 

 

P/1 - E aí, como foi a sua sensação?

 

R - Ah, eu não gostei muito, não, porque não era nem aquele helicóptero, aquele menor, que tem hoje. Não sei nem onde é que ele está, bem menor do que esses que a Vale tem hoje, era assim... Parecia um não sei nem o que... Uma bola, sabe? Era todo vidro na frente, a gente sentava ali do lado do piloto, só iam quatro pessoas lá. 

 

P/1 - Quatro pessoas?

 

R - Só piloto, o co-piloto e duas atrás. Era aquela bola. E tudo era vidro lá, você entrava ali dentro e olhava do lado, você via tudo. Não tinha nada, só vidro. E aquele negócio andando assim: “Vixe, Maria!” É, mas o cara está andando nesse avião aqui [e] não caiu. Não é possível que vai cair comigo, né? (riso)

 

P/1 - “Justo comigo, não!”

 

R - “Não é possível.” 

Aí vim. Depois eu acostumei, todo dia eu pegava... Ia para o trabalho. Às vezes você vinha para a N4, era de avião, para a N2, era de avião, acabou! Acabou mesmo. Era direto, às vezes... A cada quinze dias eu ia a Marabá. Eu tinha muitos conhecidos, muitos... Em vez de eu ir para Imperatriz, a minha cidade, eu ia para Marabá. “Ah, só vou tirar três dias, quatro dias.” Ia para Marabá a serviço, comprar alguma coisa. Estava indo direto. Acabou o medo. 

Passou algum vexame, porque fechava muito aqui e várias vezes… A gente veio duas vezes aqui em Carajás e voltava para Marabá, não conseguia abaixar.

 

P/1 - Não conseguia pousar?

 

R - Não conseguia aterrissar, não. A gente vinha, rodava, rodava, voltava para Marabá. Muitas vezes nós estávamos chegando em Marabá [e] o cara do rádio falava: “Volta que limpou.” O povo voltava. Quando estava chegando em Carajás, falava: “Vai para Marabá que fechou de novo.” (riso) Voltava para Marabá.

 

P/1 - Voltava para Marabá?

R - Numa ocasião, nós estávamos voando. Já estávamos mais de trinta minutos rodando em cima de Carajás, não via... O comandante falou... O Grotti, não sei se você chegou... O Grotti é um dos caras também que deram início ao trabalho aqui. O Grotti falou: “Eu vou rodar aqui até mais tarde. Se não der, eu já vou embora para Marabá.” “Está bom. Vai rodando aí.” E tinha aqueles vales, não sei se você conhece lá em ______ - aqueles vales monstros, serra dum lado e aquele vale no meio. Às vezes o avião ficava contornando a pista, vendo a pista, o altímetro do avião está dizendo que você está a tantos metros. Não está! Você está... Para baixo, você está, tantos... Dois mil metros, três mil metros. Lateral você está a zero, quase. 

 

P/1 - Porque está no vale, voando dentro do vale...

 

R - É porque está no vale, dentro do vale. O altímetro acusa para baixo, não acusa lateral. Muitas vezes você está andando, o comandante está confiado porque ele não está vendo nada, porque [o tempo] está fechado. Houve até um avião, chegou... Estava rodando nesse tipo, mais ou menos, a gente calculou. Quando ele olhou do lado, o paredão estava na frente; ele remeteu o avião, mas estava muito carregado. Ele remeteu o avião e saiu levando árvore, saiu tudo, caiu. Quer dizer, morreu todo mundo. 

 

P/1 - Morreu todo mundo. Estava indo para o trabalho e era...

 

R - Ele estava rodando. Era um avião fretado, que estava trazendo betonita para a sonda. E o cara está voando, sobrevoando lá, caçando uma brecha para entrar. O comandante tinha outro avião rodando também. Conversando com outro, ele falou: “Olha, eu vou voltar lá para Marabá. É bom o senhor voltar.” Ele disse: “Eu vou dar mais uma voltinha, se não der eu volto. Eu vou embora.” Nessa voltinha que ele estava andando, o comandante falou: “Você deve ter muito cuidado, tem muita serra aí.” Ele disse: “Não, mas eu estou a tantos metros de altura.” Quer dizer, ele estava mesmo, para baixo! Lateral ele estava zero. Quando ele viu... Estava pertinho da pista, só que ele viu o paredão na frente; ele remeteu o avião e saiu tirando árvore bem de baixo, para cima. Ele saiu levando... Foi levando a árvore. Ele conseguiu chegar em cima, só que ele já foi... O avião já quase todo... Perdeu asa, perdeu trem de pouso, perdeu tudo. Quer dizer, morreu todo mundo, pegou fogo. O avião caiu, foi... Se não tivesse pegado fogo não tinha acontecido nada, mas caiu, pegou fogo, morreram todos. Na cabeça da pista já, pertinho, pertinho. Três toneladas de betonita, a tripulação... Só estava a tripulação. Morreram seis, cinco pessoas. 

 

P/1 - Companheiros de vocês lá na...

 

R - Toda a tripulação do avião, o pessoal do avião. A gente correu para lá, estavam os caras pegando fogo, dava até dó; ainda tinha um que estava vivo, mas morreu logo depois. Pessoas que estavam lá todo dia a dia com a gente, então, essas coisas... Foi uma das coisas que chocou muito a gente no começo, aqui. Não tinha estrada, você tinha que depender só de avião, você fica... Algumas pessoas ficaram: “Eu não vou mais de avião.” 

 

P/1 - Desconfiados…

 

R - Mas não tinha opção, tinha que ir, não tinha jeito. Muita gente pediu [as] contas, foi embora, com medo de andar. 

Bom, aí... Eu estou contando muita coisa. 

Mas continuaram as pesquisas. Serra Sul, a gente abriu estrada para lá, fizemos acampamento. Ficamos um ano na Serra Sul fazendo galeria também. Enquanto isso, tinha outras equipes que faziam pesquisa, tipo a Docegeo [Rio Doce Geologia e Mineração S/A] hoje faz, continua fazendo pesquisa. Em volta de um raio de cem, cento e poucos quilômetros, até Santana. Eu, graças a Deus, saí da pesquisa porque passei para construção civil e fiquei. Não fui mais nessas aventuras malucas. 

 

P/1 - Isso em que ano?

R - Isso já em 70... Cargo de encarregado eu peguei logo no primeiro mês. Passei a supervisor já em 71, 72... 71! Eu continuei trabalhando. Tomava conta da serraria, supervisionava a construção civil, galeria, essas coisas. Trabalhei em galeria também, mas já sou... Como supervisor, olhando os trabalhos, trabalho de revestimento, esses tipos de coisa. 

 

P/1 - Tudo isso do _______ da galeria. 

 

R - É. 

Com o desenvolvimento da empresa, com o desenvolvimento [é] que a gente viu o que era Carajás, aí eu tomei gosto, fui ficando. Fui continuando e graças a Deus eu estou até hoje aqui. Muito satisfeito, porque a Vale para mim foi uma mãe, foi tudo. 

 

P/2 - Seu Carlindo, enquanto o senhor trabalhava com os americanos, enquanto ia se instalando... Esse projeto das pesquisas aconteciam, vocês acompanhavam o conhecimento da reserva - da reserva não, da jazida?

 

R - Acompanhava. Da jazida.

 

P/2 - E ia-se tendo noção da dimensão disso?

R - Isso é que causou a permanência de muitas pessoas. No meu caso, eu fui uma porque fui tomando conhecimento do que era Carajás, o que tinha em Carajás. Eu fui tomando esse conhecimento, fui trabalhando em galeria, eu vi o que tinha, várias descobertas: descobriram cobre, ouro. Porque lá o salobo é misto, ouro e cobre, tudo junto. Essas coisas, com a quantidade de ferro que tinha Carajás, o cara vai tomando gosto com aquilo e vai vendo o que é, o que é o projeto Carajás. Isso aqui é uma coisa para não acabar. Você via o projeto da ferrovia, o projeto da usina. Comecei a olhar, falei: “Isso aqui não tem... Só saio daqui se me mandarem embora.” (riso)

 

P/1 - Vai crescer?

R - “Ele vai crescer.” Porque logo em 70... Em 74, foi montado um minibritador na N4 para teste de minério e funcionou. Era meio rústico, de madeira roliça; não era coisa de madeira sanada, mas para teste. Essas amostras iam para Belo Horizonte e os resultados você via... O que... A sonda furava duzentos, trezentos metros, furava ferro. A capacidade da sonda não dava, parava no ferro.

 

P/1 - Até duzentos, trezentos metros de ferro...

R - De ferro. Quer dizer, aí... No meu caso, eu falei: “É coisa para muitos e muitos anos.” Depois vi o projeto da estrada de ferro, projeto da usina. Acompanhei tudo isso. E cada coisa... Começava... Cada projeto, cada coisa que desenvolvia eu sempre estava na frente. Estrada da Serra Sul, eu estava na frente, quem abriu fui eu; construção do núcleo de Serra Sul, quem tirou toda a madeira fui eu; levei a serraria portátil, montei lá e tirei. As galerias daqui, todas fui eu que produzi material para o revestimento. Eu via, tinha galeria aí com quinhentos metros. Você vai vendo aquilo, vai tomando gosto, vai... 

Depois, você tinha um tratamento de primeira qualidade, você tinha... Era muito bem... Já a partir do americano, passou para a Vale do Rio Doce para a AMZA [Amazônia Mineração S/A] mas a AMZA é Vale, você sabe disso, né? [Pensei:] “Ah, eu vou na frente, vou ver até onde vai a coisa.” E você vai, cada dia você descobre uma coisa a mais. A descoberta do manganês, eu acompanhei a trajetória toda da picada, do cara que descobriu aquilo. Ele tinha medo de andar no mato, eu andava com ele. (riso)

 

P/1 - Ah, é? Ele tinha medo de andar no mato?

 

R - Com medo de se perder, o que ele fazia? Ele saía, ia para a serraria, onde ele tinha montado a serraria para a construção das casas adiante da N2, um pouco. Ele ia para a serraria e falava: “Eu tenho medo de me perder.” O que ele fazia? Ele amarrava uma linha aqui e saía desenrolando a linha no meio do mundo! De tarde ele voltava pela linha. (riso) No outro dia ele pegava outra linha, emendava naquela e continuava. De tarde ele voltava pela linha. Não tinha como perder! Ia desenrolando a linha no meio do mato. (riso)

 

P/1 - Era um geólogo que descobriu manganês... O manganês azul, né? 

      

R - É, um geólogo que descobriu o manganês azul. Descobriu, a gente abriu a estradinha para lá, aí você vai... É mais uma coisa. Manganês, cobre, níquel, a cada dia mais você toma gosto com a coisa. Você vai vendo o que é o projeto Carajás. 

Já em 80... 78, descobriram mais a Serra Leste ali, a Serra Pelada. Deu aquela confusão toda, mas de qualquer maneira está na região. A gente viu... Depois descobriram o ouro do Bahia, isso já foi bem recente. E eu, cada coisa que... A montagem da usina toda, eu participei como fiscal de obra. Da sondagem fui eu que participei, da sondagem ao desmatamento; a montagem, terraplanagem, tudo fui eu que participei. 

Você vai vendo aqueles projetos que você viu há dez anos, como eu vi o projeto da linha de ferro, o projeto da usina, vê a coisa funcionar, como eu vi, ajudei. Você tem gosto de ver aquilo. Quando eu vi há dez anos, vi aquilo no papel: “Será que isso algum dia vai ser feito? Em cima de um ferro desse, essa estrada não vai chegar aqui nunca.” Olha lá. Está na fila aqui; não chegou aqui em cima, chegou lá embaixo. A usina vai até lá. Essas são as coisas que contribuíram muito para a gente ficar.  

 

P/2 - Como que o senhor, os seus colegas de trabalho, acompanharam essa mudança dos americanos para a Vale, para a AMZA?

R - Para a AMZA. Isso foi... Para nós que estávamos aqui não fez muita diferença, porque a Meridional, apesar de ser uma companhia... Não era nacional, mas ela cuidava muito bem dos operários, dos funcionários. Depois [veio o] problema do governo, indenização da Meridional, tirar a Meridional, e a Vale assumiu a coisa. Existiu uma defasagem no meio, porque você sabe que a Vale, naquela época... Chegou uma época que até desativou a coisa, acho que 70 e... 74, né? Ficaram poucas pessoas. Essas poucas pessoas que ficaram, ficamos na Docegeo, intermediando lá o... Acabou - acabou não, saiu da área. O governo indenizou a parte da Meridional e nós ficamos: “E agora? Vamos para a rua?” (riso) Aí ficou... Passamos para a Docegeo, mas emprestados. A Docegeo é uma perna da Vale, filha da Vale. Nós estamos encostados ainda aqui, alguma coisa. Ficamos até... Na minha carteira nunca mexeram, não mexeu nada. E outras pessoas, ficaram poucas pessoas. 

Um ano depois, a Vale, a Meridional… A AMZA assumiu novamente, aí começaram novamente todos os trabalhos que estavam sendo feitos. E todo mundo suspirou novamente. “Ai, graças a Deus voltou.” (riso) 

 

P/1 - Vai para a frente.

 

R - Vai para a frente. Eu, no meu caso, não tinha a menor dúvida que aquilo não ia falir, que aquilo não ia acabar, porque eu acompanhava de perto as pesquisas. Conversava muito com os engenheiros, com os geólogos, então eu via que aquilo não tinha como acabar. 

 

P/2 - Por que era muito….?

R - Porque era muito [minério]. O governo, claro, tinha interesse... O Brasil tinha interesse nisso, então eu nunca desanimei. Isso aqui é uma pequena defasagem, uma pequena fase que entrou nessa divisão de empresa, mas isso não vai acabar, vai continuar, como foi.

 

P/2 - Teve muita diferença do que era o trabalho com a Meridional do trabalho com a AMZA?

R - Muito pouca. Pouca diferença, porque as pesquisas continuaram normalmente. E a administração, na deixa de mudar alguma coisa… De um país para outro país existe uma grande diferença, alguma diferença existe. O americano, você sabe, ele é muito bom, mas muito radical, você sabe disso. Então, existe alguma... Quando passou para a AMZA melhorou alguma coisa.

P/2 - Mas como assim? No que ele é radical, o que incomodava?

R - É, incomodava. Você tinha muita dificuldade de dialogar com eles, porque precisava do intérprete para... Você estava falando uma coisa, explicando uma coisa, o cara já transmitia outra coisa um pouco diferente. Você... Eu cheguei de... Eu não falo inglês, mas eu entendo. (riso)

 

P/2 - Entende?

 

R - Você estava explicando uma coisa para ele e o intérprete já passava a coisa para ele com algumas pequenas diferenças.

 

P/1 - Mas não de má fé?

 

R - Não sei se é de má fé, eu não sei...

 

P/2 - Mas comprometia?

 

R - É. Por algumas pequenas coisas comprometia. Às vezes o cara estava dialogando com você, perguntando as coisas para você numa boa fé, até elogiando pelo seu trabalho, alguma coisa, e muitas vezes o cara transmitia legalmente outra coisa, cortava alguma coisa. São pequenas coisas que deram para passar, não tem muita diferença.

 

P/1 - E a relação entre vocês, o pessoal que está aí desde o comecinho: geólogos, pioneiros… Como é que era esse dia a dia entre vocês? A conversa, o relacionamento?

 

R - Isso era muito bom, porque o geólogo que fica no campo junto com o trabalhador, com o peão, no caso... Tem muito geólogo, o doutor Tiê ficou muito... Na época ele trabalhou aqui, ele estava estagiando; hoje ele é diretor do Sistema Norte - Sistema Sul. Foi para o Sistema Sul, voltou para o Sistema Norte. Ele ficou muito tempo na N2 conosco e morando no barraco de lona, na caminha que fechava, não fazia muita diferença. Ele conversava com a gente normal. 

O geólogo no campo vira peão - nem todos, tem alguns que procuram ficar mais no canto deles; outros não, ficam com a gente, jogam dominó, jogam baralho. No campo a vida é essa. De noite você vai jogar um dominó ou jogar um baralho, bater, esse tipo de coisa, senão... Não tem outra coisa, senão a cabeça vai pensar besteira. (riso) 

Quando melhorou a N1, a companhia comprou uma maquinazinha de filme, que passava o filme na parede.

 

P/1 - Ah, é? Isso já no começo?

 

R - É, no começo.

 

P/1 - Interessante.

 

R - Depois, construíram uma casinha. Depois que a gente serrou madeira, melhorou, construiu um cinema, aí já melhorou a coisa. Quem ficava nos acampamentos próximos, N2, N4, de noite já vinha: “Ah, vai para o cinema.” Já tinha carro, aí vinha para o cinema. Você começou... A civilizar mais a coisa. E aí foi melhorando, o cinemazinho, depois já tinha... Depois que abriu a estrada também já veio bastante carro, aí de onde estava você ia para o cinema. Toda noite você ia para o cinema. Não tinha outra coisa para fazer. 

 

P/1 - Que filmes que passavam?

 

R - Ah, bang-bang, a turma torcia quando passava aqueles filmes que passava….

 

P/2 - Era toda noite? 

 

R - Toda noite. O pessoal que estava mais distante só vinha mais de final de semana, mas o pessoal que ficava próximo, o pessoal mesmo do acampamento, era toda noite assistindo. Terminou o jantar, ia para o cinema. Um dia botaram uma pequena lanchonete lá: vendia cigarro, balinha, não sei o que, só não vendia bebida alcoólica.

 

P/2 - Bebida não.

 

R - Não. Já era alguma coisa, né?

 

P/1 - E em termos de regulamento, tinha muita repressão? O que podia fazer, o que não podia fazer?

R - Não podia beber. Bebida alcóolica não podia. O restaurante era dividido em dois, era A e B. Era o geral, e tinha o tipo B, que era dos engenheiros e dos encarregados. A comida era quase... Praticamente era a mesma, só que lá era servida na mesa. Lá não, era no bandejão, enchendo e passando na roleta. (riso)

 

P/2 - As pessoas não se incomodavam com isso, existir essa diferença?

 

R - Algumas pessoas às vezes falavam, mas [era] muito raro. Eu sempre comi no restaurante B, mas eu sempre entrava porque eu vinha com a turma, só entrava lá, nunca vi... Ninguém me reclamou nada. Só para... “E a comida que está saindo para você agora?” “É a mesma, rapaz, saindo ali. A mesma que está saindo para vocês está saindo ali.” Só que lá era servido, o cara... O garçonzinho vinha: “O que você quer?” Pegava para a gente, mas a comida era a mesma. Não tinha diferença. Sei lá, você ficava sentado lá na mesa e lá era um correntão, passando a bandeja. (riso)

 

P/2 - E o pessoal podia comer à vontade? 

 

R - Podia comer à vontade. Podia repetir o bandejão, isso aí não tinha problema. As comidas, desde... A partir da Meridional entrou pela AMZA, saiu pela Vale. A comida [era] à vontade e excelente.

 

P/1 - Não podia faltar farinha. 

 

R - Não podia faltar, não. A companhia se preocupava muito com o trabalhador, ela chegou a colocar gado aqui em cima para ver a adaptação do gado para caso de emergência; quando o avião não pudesse aterrissar, faltasse comida, tinha o gado aqui, que podia utilizar. Como sistema de experiências. Se o gado se adaptava, porque era um capim nativo; não era um capim especial, mas colocou. E esse gado chegou a aumentar. Só que a gente, graças a Deus, não precisou utilizá-los. Só uma vez só que comeu um boi; o resto ficou, criou. Depois que civilizou tudo foram embora, sumiram na mata, começou... As fazendas começaram a se aproximar, o gado acho que começou a sentir os outros e foi embora. 

 

P/1 - Vocês criavam gado...

 

R - É, ficava aqui na N5. Colocaram búfalo lá na Serra Sul [como] experimento, porque lá tem vários lagos muito bonitos. Foram embora também, para as fazendas próximas. (risos) 

 

P/1 - E caça, seu Carlindo, tinha?

 

R - Bastante.

 

P/1 - Bastante?

R - Bastante, como ainda hoje tem, porque a companhia preserva tudo. É proibido matar qualquer tipo de bicho, por mais que ele seja depredador dos outros, não... Onça, como picada de onça, cobra, a companhia proibiu. Para manter o equilíbrio ecológico tem que ter todos os tipos. Por isso que a Vale proíbe tudo.

 

P/2 - Mas o pessoal seguia, obedecia?

 

R - Não tem mais caça porque a agricultura está se aproximando. Vai apertando muito a caça e o animal não tem muita noção. Se vai ali para o meio da colônia, os colonos matam. Mas ainda tem quantidade. Pelo menos aqui na área de 411 mil tem bastante, na área indígena também. Isso aí é sem problema. 

E todo esse trajeto... A parte pior que eu passei foi na época de pesquisas, logo que eu cheguei aqui, que acompanhei as pesquisas, ainda... Dois meses. Você voava de helicóptero; chegavam os geólogos: “Aqui, tem que fazer uma clareira aqui.” A gente descia na corda, ficava lá no meio do mato... Descia na corda! Aí você abria a clareira, o helicóptero vinha, colocava o rancho. Você ficava lá, não tinha... [Ficava] sem saber nem para onde é que estava Carajás, não sabia para onde é que estava nada. Não tinha picada, não tinha nada. Você fazia uma clareira, de lá você fazia uma malha de picada, mil metros para cada lado. Isso nos quatro pontos, fazia mil para cá, mil para cá, mil para cá, mil para cá. Depois o geólogo ia lá, falava: “Olha, daqui a tantos metros [tem que] fazer outra clareira, mudar vocês.” O que tinha que fazer? A gente voava de helicóptero, uma bussolazinha: “Nesse morro aqui, nessa montanha aqui, quero uma clareira.” Voltava, deixava a gente nessa clareira, a gente já estava com a bussolazinha na mão, já sabia qual o grau que eu ia entrar. Aqui eu entrava com a equipe, fazendo a picada, até achar lá - quatro, cinco, oito quilômetros; não tinha problema, tinha que...

 

P/1 - Até encontrar o lugar?

 

R - Até encontrar. Quando encontrava, fazia a clareira. O comandante falava assim: “Daqui a oito dias eu venho aqui mudar vocês.” (risos) [A gente] ficava lá.

 

P/1 - Ficava oito dias lá?

 

R - Ficava oito dias lá.

 

P/2 - O que era pior?

 

R - Pior, porque você fica no meio de uma floresta.

 

P/2 - Mas o que incomodava mais?

 

R - Incomodava o medo que muitas pessoas tinham de índio, de onça, de não sei o quê. Como a gente via muita coisa de índio, rastro, índio tocar buzina, você: “Se o índio atacar, nós vamos para onde? Não tem estrada, não sei para onde eu corro.” Você ficava ali.

 

P/2 - Chegou a encontrar alguns?

R - Encontrar não, mas mexer com a gente, roncar, fazer zoado de noite, eles faziam. Bem pertinho.

 

P/1 - Eles faziam pertinho?

 

R - Faziam. Você já pensou? Teve camarada que quando o helicóptero chegou foi embora, pediu conta, não ficou mais lá, não. (risos)

 

P/1 - Não volta mais.

 

R - Eu fiquei lá dois meses e graças a Deus me tiraram de lá. Eu estava com uma equipe de cinco pessoas fazendo curso no projeto Buritirama.

 

P/1 - Nesses oito dias não fazia nada? Ficava oito dias, depois que abria a clareira...

 

R - Ficava esperando.

 

P/1 - Ficava esperando.

 

R - Ficava esperando, ficava deitado lá. O helicóptero vinha, pegava: “Está pronta a clareira?” “Está.” Pegava a gente aqui, botava lá para outra. Agora na outra não precisava mais descer, porque a gente já tinha ido por terra e a tinha feito lá. 

 

P/1 - Você criava pontos e desses pontos você ia pra outros lugares.

 

R - A gente já ia, mudavam a gente para lá. De lá voava de novo: “Agora tem outro rumo para cá.” Os geólogos já vinham com mapa, tudo, aquelas curvas de nível, diziam: “Aqui nessa montanha eu quero outra clareira.” Voava daqui para lá, pegava o grau na bússola, voltava, ficava aqui, pegava por terra, ia chegar lá. Passava rio, passava igarapé, tinha que chegar lá.

 

P/1 - Tinha que ir de qualquer jeito?

 

R - Tinha que ir.

 

P/2 - O que vocês ficavam fazendo enquanto esperavam? Arriscavam andar por ali, ficavam quietinhos?

 

R - Eu só deitava.

 

P/1 - Só deitava?

 

R - Só deitava. (riso) O pessoal caçava às vezes, matava bicho para comer. Eu não saía de lá, ficava lá.    

 

P/2 - E esses rastros de índios, o que eram?

R - Certo dia nós estávamos na beira do Rio Preto, era um dia de domingo. A gente tinha chegado e era um barraquinho de lona coberto assim, comprido; a gente deitado lá dentro. Deu meio-dia, a gente estava todo mundo deitado lá; tinha chegado do trabalho até meio-dia, aí de tarde nós não fomos mais, ficamos lá. E o cozinheiro estava lá no final do barraco. Todo mundo dormindo e ele estava acordado. Ele viu uma zoada ali no mato, correndo, correndo. Pegou, entrou dentro do barraco, um bicho correndo atrás do outro. Uma onça correndo atrás da outra. Passou dentro do barraco, debaixo das redes de todo mundo. Quando chegou lá fora, no meio do cozinheiro, ele estava com uma espingarda, atirou numa onça e matou; a outra pulou por cima e correu. Quando ele deu aquele tiro, que veio aquela correria do pessoal... 

 

P/1 - O pessoal já caía da rede...

 

R - “O que aconteceu, o que aconteceu?” Você abre o olho e vê a onça pulando dentro do barraco: “Ih, meu Deus!” O pessoal ficou nervoso. (risos) De graça não faz mais medo, __________. (risos) 

Esse tipo de coisa foi das piores, mas o resto para mim foi ótimo, não teve mais problema. Graças a Deus me tiraram de lá e eu vim para cá. (risos) Esse negócio não serve, não.

 

P/2 - O que eram esses rastros de índio que vocês viram?

R - De índio?

P/2 - É.

 

R - A pegada deles a gente via. Num local de lama a gente via, mato quebrado. A gente sabia que eram eles, ficava meio ________. 

 

P/1 - E esse contato com as aldeias próximas?

 

R - Não tinha ainda. Depois foi que a Vale começou... Quando a Vale começou a ter contato com esses xikrin, os padres já tinham há muito tempo. Já estavam lá tentando educá-los, tentando... Também ______ civilizava, estão civilizando ao máximo, então não deu muito problema, não. 

 

P/1 - E seu Carlindo, em relação... Como o senhor vê essa transformação toda? O senhor mesmo comentou, a agricultura aumentando… Quando o senhor chegou aqui era só mato?

 

R - Só mato!

 

P/1 - E hoje essa mudança toda...

 

R - Hoje essa mudança... É, você fica meio em dúvida. Você fala para as pessoas: “Isso aqui era isso, isso aqui só tinha mato, isso aqui...” Como a N5. A N5 foi uma cidade, um núcleo de apoio à montagem da usina e à construção desse núcleo de Carajás, aqui no núcleo urbano hoje. Hoje você vê lá, não tem... Se você teimar, falar que era uma cidade, era um núcleo, o cara fica assim: “Aqui era um núcleo? O povo tirando minério lá?” 

Hoje a lavra está chegando lá, né? Nunca teve nada aqui na vila. Tinha quatro bancos, padaria, mais de três mil casas, tudo tinha. Se você visse a transformação toda, diria assim: “Não é possível, eu acompanhei tudo isso?” Dia a dia você vai indo... Para mim é gratificante, agora tem pessoas que [dizem]: “Ah, eu não fico em um lugar desse, não fico em um matagal desse.” Apesar de ter começado na roça, ter trabalhado na roça, eu me adaptei muito bem. 

 

P/2 - O senhor participou então da construção...

 

R - Da coisa. Porque você vê o que eu vi, quando eu cheguei não tinha N2, não tinha N3, não tinha nada. Já tinha no mapa, os geólogos traçaram isso. Não existia nem estrada, nem picadinha para lá. Existia uma pequena… Uns pequenos alojamentos, cobertos de lona, uns quatro alojamentos. Tinha um que era restaurante e tinha um pequenininho, que era escritório. Você chegava ali [às] sete horas da noite, do trabalho, tomava banho. Não tinha cineminha, não tinha nada. Tomou banho, cama. Dormia. [Às] cinco horas da manhã você tinha que estar de pé, já ter tomado café, para pegar estrada, porque era no pé. De N1 até N4 foi feito a pé, o cara vinha a pé e voltava a pé. Trabalhando. 

Tinha uma equipe de uns quarenta homens que trabalhava comigo. Nós fomos fazendo tudo na mão, tudo manual, a estradinha. Depois chegou o primeiro carro e o segundo carro, que começaram a dar apoio, levar alimentação [ao] meio-dia, essas coisas. 

Antes a alimentação ia de burro. A gente ia para o trabalho de manhã, ao meio-dia o burro ia levar a alimentação lá na ______. Ficava o volume de um lado, do outro. Montava no burro, e o cara ia no burro com a carga de _________ pro pessoal trabalhar. Tinha dia que o burro corria com a carga e derramava tudo. (riso) Derramava tudo, né?

 

P/2 - Como foi para o senhor esse crescimento, chegando tantas pessoas para morar aqui, para instalar, mesmo para efetivar o projeto...?

R - Isso antes era sonho. Vendo o projeto até o núcleo, aqui, principalmente N5, que era justamente para dar apoio à montagem da ferrovia, à montagem da usina e à montagem do núcleo definitivo, que seria esse núcleo urbano... Você via aquilo no projeto: “Isso vai existir? Dentro de quanto tempo?” E quando a coisa começou a andar, você fica: “Ah, mas como está melhorando.” Você vai vendo. 

Mulher você só vê na revista. E em cada sessenta dias a gente saía para a cidade de origem. (riso) Aí você ouvia falar que tinha um núcleo: “Ah, mas quando é isso?” A gente ansioso para que aquilo acontecesse. Quando a estrada Marabá-Carajás deu acesso todo mundo se sentiu praticamente dentro da cidade, porque qualquer coisa você pegava o carro e ia para Marabá.

 

P/2 - A liberdade?

 

R - A liberdade, você se libertava rapidamente. (riso) Enquanto você dependia de transporte aéreo você estava preso ali, você saía no dia mesmo e pronto. Não tinha necessidade... “Ah, eu vou dar um pulinho lá em Marabá e volto.” Não tinha essa história, você não ia não. Só vai no dia que você estava com a sacolinha pronta para você viajar. Mas depois que abriu a estrada, que você [se] sentiu com acesso à cidade, aí cada... Você sentiu: “Ah, agora vai melhorar. Agora vai.” Qualquer coisa... O cara arrumava cada coisa para ir em Marabá, você precisava até ver: “Ah, a mulher adoeceu, a casa encheu de água lá…”(riso) Marabá tinha um negócio de encher, as enchentes... Sempre enche em Marabá. O cara: “Encheu minha casa, eu tenho que ir lá mudar.” O cara vinha, a casa estava no seco, lá não tinha água coisa nenhuma. (riso)  

 

P/2 - Era tudo desculpa.

 

R - Era desculpa para ele ir. Quer dizer, mas era desculpa que compensava o cara aprontar essas coisas. Tinha um camarada lá que o cara enchia o saco dele, ele matou o pai dele não sei quantas vezes. (riso) “Meu pai morreu.” “Ah, deixa o cara ir, o pai dele morreu.” 

 

P/1 - Agora a mãe.

 

R - Agora a mãe, daqui a pouco o pai. “Mas teu pai já não morreu faz tempo?” Aí ele: “Ah, sim.” Não era o pai não, agora era... Arrumava qualquer coisa: “É o filho que está doente.” Aquilo mais é... O pessoal enche o saco do outro para passar tempo. É que acontece do cara aprontar coisas que não estão existindo, nada daquilo.

 

(PAUSA)  

 

P/1 - Então, senhor Carlindo, vamos retomar um pouco essa parte da trajetória do senhor, da atuação no núcleo?

R - Como eu estava mostrando a vocês, eu... Depois que a gente fez essa rotina de pesquisas na N1, N2, N3... N3 foi muito pouco, mas teve também, e N4. N4 foi o foco; não parou, justamente... Onde foram mais concentradas as pesquisas de sondagem e galeria, lá tem G1, G2, G3 e G4, todo aqui no N4 e N5. Aí praticamente foi mudado para a Serra Sul, continuando as pesquisas; foram feitas também duas galerias lá em Serra Sul. 

Eu já tinha falado que eu mudei para lá, mudei serraria, essas coisas, para a construção do núcleo, para apoio da pesquisa, sondagem e abertura de galeria. Galeria é uma... Mais ou menos que uma sondagem também, só que uma sondagem manual, não mecânica. Depois eu continuei, passei a ser encarregado de serviço de equipamento de estrada, trator, abertura de estrada; passei a ser encarregado desse serviço. Foi quando eu abri estrada para o salobo, para manganês, para Serra Sul e vários ramais para serviço de sondagem na área do Pojuca, que é uma estrada que vai para o salobo. Eu abri mais talvez uns quarenta quilômetros de ramais para sondagem para um lado, para outro, aí eu passei a supervisor de fiscalização de estrada. Foi o tempo que abriu a estrada Carajás-Marabá. Foi a restauração da estrada, onde foram construídas 24 pontes e eu acompanhei todas.

 

P/1 - 24 pontes?

 

R - É. Eu acompanhei todo esse trabalho, depois a restauração da estrada. 

Depois eu passei para a área de meio ambiente, já em 84, 85. Montei esse zoobotânico, foi lá perto do aeroporto. Era o primeiro, foi montado lá. Lá foi montada carpoteca, xiloteca, produção de mudas. E depois mudou para cá, para o zoobotânico. Tem coleção de orquídeas, insetário, tudo - você deve ter ido lá, conhece muito bem o zoobotânico. 

 

P/1 - A gente vai conhecer ainda.

 

R - Ainda vai conhecer. (risos) Pois é, aqueles trabalhos ali fui eu, foram elaborados por mim. Eu que comecei, eu que fiz aquilo. Depois eu passei a ser, na área de fiscalização de... Continuei na área de fiscalização de empresas, eles chamam [de] gerente de contrato. Passei para fiscalização das empresas. Qualquer obra aqui eu fiscalizava, tudo de obra civil.

 

P/1 - E as empreiteiras...?

 

R - Empreiteira, tudo.

 

P/1 - Você fazia a ponte da Vale e outras empresas?

 

R - Isso. Com as empresas, empreiteiras. Qualquer empreitada, qualquer obra que a empreiteira entrava, eu entrava como fiscal de obra. Montagem de barragem, essas barragens todas fui eu... Aeroporto, tenda de topografia, tudo fui eu que acompanhei, até o asfalto. Recuperação de área degradada, daqui... Do aeroporto, toda essa mina, estrada daqui a Marabá, foi toda recuperada, já degradada. Faz a obra, o que sobra a gente recupera. E eu é que acompanhei tudo isso. Sempre acompanhando... Só não trabalhei na área do... Hoje, na área de produção de minério, isso eu não acompanhei. 

 

P/1 - O senhor não ficava trabalhando nessa parte?

 

R - Não, nessa parte não. Eu sempre fiscalizava obras, essas obras... Essa usina desde do desmatamento fui eu que acompanhei, a sondagem eu acompanhei, desmatamento, terraplanagem dessa usina, montagem - tudo fui eu que acompanhei.

 

P/1 - O senhor que acompanhou?

 

R - Acompanhei tudo. E [com] tudo isso a gente vai sentindo aquele amor pela coisa, porque está vendo o progresso da empresa, o progresso do próprio Brasil, que hoje... Eu não tinha a menor ideia do que que era Carajás, hoje a gente está sabendo. Você sabe mundialmente o que que é Carajás, né? Quer dizer, isso é muito bom - acompanhar o nascimento, chegar o ponto [em] que está Carajás.

 

P/2 - Sente que fez parte?

 

R - É, tem que fazer parte. (riso) Então, é muito bom você saber que... Hoje Carajás... Praticamente eu sei tudo, porque eu vi nascer Carajás. E ficar adulto, como está Carajás hoje, está... Eu acompanhei tudo, do nascimento até hoje, o projeto. Isso é muito bom. 

Qualquer coisa que acontecer, eu vou querer... O desenvolvimento da empresa, onde começou galeria, começou sondagem, começou tudo, casa de amostra, tudo eu sei. Tudo. Isso, para mim, eu acho muito bom. Porque as pessoas... Às vezes você está num local, as pessoas começam a comentar sobre Carajás e contam cada coisa! Eu fico só olhando assim, o cara não está nem sabendo...

 

P/1 - Que tipo de coisa?

 

R - Não está sabendo que eu sei de Carajás, eu sei a fundo. Tem pessoas que falam: “Ah, em Carajás tem...” Não sei quem falou: “Tem uma laje de ouro coberta com concreto, a Vale cobriu de concreto em cima para ninguém ver aquele troço.” Eu fico olhando: “Que coisa! A pessoa sabe de coisa que não existe.” (risos) 

“Eu sei onde é!” Tem pessoas que sabem, viram colocando o concreto lá em cima do ouro e ficam… Meu Deus, cada coisa! Eu fico só ouvindo, não falo nada. 

Tem vezes que os caras me perguntam: “Você trabalha lá?” “Trabalho sim.” “Diz que tem uma laje lá de concreto, em cima de uma laje de ouro lá, que ninguém viu.” “Ué, se tem eu não sei não.” (risos) Nunca vi.

 

P/1 - Essa é a história que mais circula? A história da laje de ouro?

R - É, a laje de ouro. É o que mais se ouve o pessoal comentar por aí. Os caras chegam a comentar, eu: “Mas me ensina onde que é lá.” Se eu soubesse era o primeiro a tirar um pedaço lá... (risos) Tem cara que fala: “Se tu me levar lá eu te mostro onde que é.” Eu digo: “Rapaz, eu não te levo porque não tem. Eu sei que não tem isso lá.” 

Eu sei que tem ouro lá, ourinho…  Numa jazida de ferro dessa tem ouro, ourinho bobo, né? Você vê laje de ouro, não. [Em] qualquer canto na região aqui, se você peneirar a terra como eles fazem, bater ar, como eles chamam, você vê aquelas fagulhazinhas de ouro. Tem nesse núcleo, Parauapebas ali; qualquer posto que você cava lá você tem fagulha de ouro. Não é ouro de se dizer que tem laje de ouro em qualquer canto. Se tem eu não sei, é a única coisa que eu não sei. (risos) 

 

P/1 - Vai que tem uma laje de ouro.

 

R - Se tem uma laje de ouro e eu não sei, precisava saber, né? (risos) 

Eu continuei na área de recuperação de área degradada, dando apoio também no zoobotânico, até que cheguei ao ponto de aposentar. Hoje eu continuo fazendo algum trabalho para a Vale, mas é autônomo.

 

P/2 - O senhor é autônomo?

 

R - É.

 

P/2 - O senhor se aposentou esse ano?

 

R - Eu aposentei o ano passado, em dezembro.

 

P/2 - E o senhor continua morando aqui?

 

R - Morando aqui, porque eu continuo trabalhando.

 

P1/ - O senhor presta serviço?

 

R - Presto serviço para a Vale. 

 

P/1 - Que tipo de serviço o senhor presta?

 

R - Na área de meio ambiente. Inventário florestal, tudo eu que faço. 

 

P/2 - Qual é o seu trabalho?

 

R - Na área da Vale.

 

P/2 - Como é esse trabalho?

 

R - É desmatamento, para qualquer desmatamento você tem que fazer o inventário. Hoje, com a nova lei do governo, você não pode... Principalmente hoje, que é privatizado. Você tem que fazer um inventário florestal, ver o que que tem naquela área, licenciar aquilo pelo Ibama e aí, depois da liberação, é que pode desmatar. Antes disso não pode tocar em nada. E tudo isso [sou] eu que faço.

 

P/2 - Então o senhor vai conferir, apresentar o que a empresa está pretendendo desmatar, pra requerer…?

R - O que tem na área de pretensão para desmatar. Qualquer obra, barragem, manganês, é desmatar... Caixa de empréstimo, bota-fora, essas coisas. Tudo tem que medir a área, ver qual é a pretensão da Vale; ela mede primeiro, passa o projeto para a engenheira florestal, que é a Hortênsia. A Hortênsia, de vez em quando, [diz]: “Tem isso aqui para fazer.” “Vamos embora, vamos fazer.” Eu vou, classifico, área cubada, ver o que tem de madeira, o que tem de material lenhoso, o que tem de aproveitamento, o que não tem de... Passa aquilo tudo para o Ibama, vai para Brasília e vem a aprovação. Ainda vem a fiscalização conferir. Eu que acompanho tudo aquilo, depois é que sai a liberação do desmatamento.

 

P/2 - Ou não.

 

R - Ou não. Tem muitos casos que o Ibama acha que não é necessário, às vezes corta cinquenta por cento e assim...

 

P/2 - É demorado esse processo?

 

R - É, demorado. Às vezes demora. Dependendo da área, dois meses até...

 

P/2 - Então o senhor tem que conhecer muito bem o que tem ali pra apresentar...

 

R - É, tem que conhecer, porque... A partir de que centímetro de diâmetro você tem que conferir tudo, para cima.

 

P/1 - Quinze centímetros de diâmetro?

R - É. Você tem que conferir.

 

P/1 - E  o senhor já conhece tudo.

 

R - Tudo. Eu trabalhei no museu, prestei serviço no museu; trabalhei na Embrapa [Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária], trabalhei na... No IPT [Instituto de Pesquisas Tecnológicas] de São Paulo, trabalhei... Então eu consegui muitos conhecimentos que hoje estão sendo úteis para a Vale, porque hoje você não desmata se você não tiver isso. E para continuar a obra, tem que desmatar. É bota fora, é ampliação de barragem, esse tipo de coisa. 

 

P/1- E esses trabalhos que o senhor teve nessas áreas, o senhor estava na Vale?

 

R - Estava na Vale.

 

P/1 - Como eram então esses trabalhos que o senhor fez para o IPT, Embrapa? 

 

R - No caso da ferrovia foi tudo feito junto com o pessoal do museu e do IPT. Teve um dia que eu acompanhei aqui até São Luís, tudo isso. 

 

P/1 - Tudo... Todo o processo de desmatamento...

 

R - Tudo fui eu que acompanhei, daqui até São Luís. Depois veio a construção do aeroporto. Teve que ter... O pessoal do IPT que fez e eu que acompanhei tudo, fiz junto com eles. Antes disso, antes de vir para Carajás, eu já tinha feito esse trabalho junto com a Embrapa. 

 

P/2 - Antes mesmo de vir para cá? No Maranhão?

 

R - É. Já tinha feito na Belém-Brasília. 

 

P/2 - Para construir a ferrovia, faz... O senhor foi conferir o que ia ser desmatado?

 

R - O que iria ser desmatado, o que tinha dentro daquela área e coisas que [se] podia fazer de aproveitamento. Depois da construção da barragem - da ferrovia, desculpa, depois eu fui classificar dormente [de madeira]. Eu fui... O pessoal começava a comprar, comprava tudo que é pau, tudo que era madeira.

 

P/1 - Não servia para nada?

 

R - Não servia. Aí eu fui fazer um trabalho, junto com o pessoal do IPT, de classificar.

 

P/2 - E só uma pergunta: se definisse que ali não poderia ser desmatado, tinha que mudar o curso? Como é que se equilibrava?

R - Não, aí não podia. A ferrovia era direcionada a um certo rumo, você não pode desviar porque o governo tinha que liberar o desmatamento. Não tinha jeito, senão não construía a ferrovia. 

 

P/2 - E como é que ficava todo esse trabalho?

 

R - Você tinha que ver o que tinha para aproveitamento, porque tinha que desmatar. Você tinha que aproveitar. 

 

P/2 - Ia desmatar de qualquer forma?

R - Tinha que desmatar, só que tinha que ver o que é que tinha, se a coisa te interessava de um modo, outras coisas...

 

P/2 - Ah, para aproveitar...

 

R - Para aproveitar o que que ia desmatar.

 

P/2 - E hoje...

 

R - Depois, se vai desmatar, se não vai aproveitar... Você não vai aproveitar cem por cento daquilo que você desmata, então, depois, o que vai acontecer? Você vai ter que repor o que sobrou. Você vai repor com o que tinha. Porque [se] você pegar uma espécie que não existia naquela região, não existia naquela área, ela não vai [se] adaptar. Você vai ter que repor mais ou menos dentro...

 

P/1 - Daquelas espécies?

 

R - Das espécies, mais ou menos o que tinha. Claro que você não vai repor tudo que tinha, mas você vai repor mais ou menos com algumas espécies que ocorriam na região, naquela área. 

 

P/2 - E hoje, aqui, esse trabalho que o senhor faz para a Vale também é dessa forma?

R - Também é dessa forma.

 

P/2 - Vai-se desmatar. Só que vai ser feito...

 

R - Só que você vai ter que recuperar, vai ter que repor depois o que sobrou. [Se] você vai desmatar um hectare, você vai usar sessenta por cento e os quarenta por cento você vai ter que repor.

 

P/2 - E esse trabalho é certo? 

 

R - O trabalho é certo. 

 

P/2 - Acontece mesmo?

 

P/1 - E esse trabalho com as empreiteiras foi todo também um pouco por aí? Quer dizer, o trabalho de reposição, foi também nessa linha?

 

R - Na...

 

P/1 - Aquele das empreiteiras...?

R - Não, o trabalho da empreiteira já é outra coisa. A construção... Ia construir a usina, no caso, ia cumprir o sistema de sondagem para ver o sistema do solo. Depois acompanhava o desmatamento, não era mais nada para isso. Era o desmatamento para saber se realmente ela estava fazendo dentro do contrato ou não. Porque fazia um contrato para tirar isso aqui, remover toda essa floresta e colocar em certo local. Ia ter que acompanhar aquilo para saber se ela estava cumprindo o contrato que ela tinha feito com a Vale. Se está tirando mesmo aquilo ali e botando em outro canto, ou está tirando com excesso para faturar depois isso em metro quadrado. 

Por exemplo, se ela faz um contrato para tirar um milhão de metro quadrado e está tirando um milhão e meio, claro que ela vai faturar mais do que... Mais quinhentos mil metros quadrados. É para tirar mil metros quadrados, então não vai tirar em excesso, sem fazer desmatamento desnecessário. Porque além de você estar tirando uma floresta desnecessária, você vai gastar mais dinheiro para repor aquilo ali, desnecessário. “Por que você tirou? Não precisava.” Então você tem que acompanhar isso, você vai fazer... Construir a usina aqui, você vai tirar realmente o que vai precisar para construir a usina. Você não vai tirar mais cem metros para um lado, mais cem metros para cá, para quê? Para faturar dinheiro? Não pode. 

 

P/2 - Não compensa?

R - Não compensa, é prejuízo para a companhia, para isso que ela... O fiscal fica para isso. Depois, remoção de terraplanagem. Aquilo ali é custo de metro cúbico que você tem que tirar. A companhia paga por metro cúbico para remover aquilo ali. Você tem que tirar o necessário, porque se você tirar mais a companhia vai pagar muito mais dinheiro desnecessário. “Para que você tirou mais?” E [para] as companhias empreiteiras, a tendência era faturar. 

 

P/1 - Era faturar?

 

R - Faturar. Aí não tem jeito. Você tem que estar com o olho em cima, você tem que pegar o projeto e executar o que está ali. 

 

P/2 - Seu Carlindo, e as madeiras, esse trabalho de verificar o aproveitamento? Aproveita-se a maioria delas para quê? Quais são as madeiras que mais aparecem, as que são mais aproveitáveis?

 

R - Hoje... Antes, nessa época, não aproveitava nada. Hoje, a área que vai licenciar para o desmatamento, a madeira que vai... As espécies novas, que chama... De aproveitamento, vão [ser] aproveitadas. A empresa que pega para desmatar trinta hectares de manganês, dentro do contrato dela já está afixada a cláusula que diz que ela vai ter que tirar todas aquelas espécies que estão lá dentro daquele inventário florestal que a gente fez. Ele vai ter que tirar todas aquelas espécies e colocar no local determinado pela fiscalização. Depois a Vale doa a algumas entidades, como creche, prefeitura, as obras do município, do Parauapebas. Delegacia, alguma coisa. Então, a Vale doa.

 

P/2 - Doa a madeira?

 

R - Doa a madeira.

 

P/1 - A empreiteira tira, mas não lucra em cima daquilo que ela está tirando?

 

R - Não, não lucra. 

 

P/1 - Isso vai para a Vale?

R - Vai para a Vale. Ela tira, mas é para a Vale aquilo.

 

P/2 - E em geral quem ganha essa doação vende ou utiliza a madeira?

 

R - É utilizada, não pode vender. Se a Vale está doando, tem que utilizar. Ela não vai dar também para uma entidade. Agora mesmo a Vale mandou fazer para as creches todas. Mandou fazer berço, cama, banco de colégio para as creches, sei lá. Tudo com a madeira daqui.

 

P/2 - E a maioria da madeira que sai é aproveitável?

 

R - É aproveitável. Com todas... A empreiteira que pega a obra para desmatar, já está amarrada uma cláusula dentro do contrato dela que ela vai ter que tirar e colocar num local determinado. Dali a Vale tem um destino.

 

P/1 - Não, eu falo o tipo de madeira.

 

R - O tipo de madeira? De aproveitamento. Lá está escrito: madeira de aproveitamento. E está o nome lá.

 

P/1 - Do que é aproveitável.

 

R - Do que é de aproveitamento. Depois a Vale dá um destino para aquilo, para aquelas madeiras.

 

P/1 - E nesse processo de o senhor está fazendo o inventário, o senhor conhece todas as plantas, não só as de quinze… 

 

R - Não, não. Quase todas, porque... Nem todas, porque acho que hoje nenhum pesquisador conhece todas, mas quase todas.

 

P/1 - O senhor entra... 

 

R - Entro e vou identificando tudo. Desde arbusto até a maior.

 

P/1 - E os animais, a fauna também, não?

 

R - Não, a fauna não.

 

P/1 - Não. O habitat qual é, os bichos?

 

R - Não, não. Aí não... Já estão sabendo que na época do desmatamento, se existe,  vai ter que se retirar. Ele vai se retirando aos poucos, vai procurando onde tiver floresta.

 

P/1 - O senhor é conhecido como o que conhece todas as espécies, né?

 

R - É, mais ou menos. (riso)

 

P/1 - Livro de receitas médicas, conhece tudo?

 

R - Tudo. As plantas, conheço quase todas. Não é cem por cento porque eu acho é bem difícil. Mas eu conheço todas, medicinais e não medicinais, venenosas e não venenosas.

 

P/1 - E o que o senhor acha dessa flora amazônica? 

 

R - Ah, eu acho que a flora amazônica é um sucesso. É uma maravilha, uma riqueza que nós temos. O que tem de coisas caríssimas… É difícil eu tomar medicamento da farmácia, muito difícil.

 

P/2 - O senhor usa só as plantas.

 

R - Só uso planta, para tudo. É gripe, qualquer coisa. Eu só uso a flora amazônica que é de graça, você pega e tira. Vai ficar comprando? 

 

P/1 - E você foi aprendendo isso como?

 

R - Aos poucos. Nasci dentro da fazenda. Meus avós eram raizeiros, como chamam. Isso aqui é para isso, isso aqui é para isso, você vai criando dentro... Nasceu dentro daquilo, você vai se adaptando, e vai indo até chegar o ponto que eu cheguei. Conheço a flora amazônica quase cem por cento.

 

P/2 - E aqui tem remédio...

 

R - Para tudo que você pensar.

 

P/2 - Dá alguns exemplos, por favor, de alguns? (riso) Ah, aquelas que o senhor usa mais, com mais frequência.

 

R - Ah, dependendo do tipo da coisa. Eu não uso remédio frequente, só uso quando eu tenho alguma coisa, algum problema. [Se] estou gripado eu uso.

 

P/2 - E qual?

 

R - O alcaçuz, um monte de coisa que tem aí.

 

P/2 - Queria que o senhor falasse os nomes!

 

P/1 - É um segredo! 

 

R - É um segredo. (riso) Fica sossegada. Se você tiver qualquer coisa, você me fala que eu trago remédio. (riso)

 

P/1 - Na sua casa, também, todo mundo só... Qualquer problema...

 

R - Isso aí. Tem qualquer coisa, eu já estou dando um medicamento. Garganta, eu já estou dando remédio. Alguns amigos pedem de fora do Rio, pessoal que me conhece, pede. [De] Belém todo mundo pede, eu faço.

 

P/2 - E o senhor recolhe, prepara e manda?

 

R - Preparo e mando. 

 

P/1 - Cada um tem uma forma de preparar?

 

R - É, cada um tem uma forma. Preparo e mando. E muitas pessoas falam assim: “Ah, por que tu não monta aí uma loja, uma coisa?” “Não, eu uso aquilo porque sei usar. Eu uso.” Nunca cobrei de ninguém. Faço garrafa, medicamento para esses caras lá no sul do Belém. [Pra] todo lugar, Belo Horizonte, mando para o cara, nunca cobrei nada. (riso)

 

P/2 - E seu Carlindo, ensina uma receitinha só!

 

R - No caso, qual delas?

 

P/1 - Você escolhe.

 

R - É.

 

P/1 - Uma planta e a fórmula que o senhor prepara, como é que é esse processo?

 

R - Olha, depende da coisa. Eu uso o leite, uso a seiva, a resina, a folha, a raiz, usa a batatinha... Às vezes tem uma que é batata. [Se] a pessoa está com bronquite, tosse, eu uso uma plantinha que se chama contraerva. Ela tem uma batatinha.

 

P/2 - Como ela chama?

 

R - Contraerva. Pisa aquela batatinha, tira um leitinho. Toma dois leites daquele, você está bonzinho já. 

 

P/2 - O leite purinho?

 

R - Puro, puro.

 

P/1 - Desculpa, qual o nome de novo da planta?

 

R - Contraerva. Tem vários, fumo bravo... Cada estado dá um nome, a mesma planta tem um nome diferente. No próprio livro que você tem, você tem um joli, um aflorisco, você tem... [Em] cada estado tem um nome diferente, a mesma planta.

 

P/2 - Qual é mais trabalhosa para preparar?

 

R - Quase tudo é fácil, às vezes você tem que... Tem alguma coisa... Barco, no caso, você tem um jiló, tipo um jiló. Você tem que ter banha de peixe elétrico, tem que ter banha de tartaruga, tem que ter banha de sucuriju, sucuri... Você dá uma massagem ali, se der duas massagens. Se o sujeito não estiver bom... (risos)

P/1 - Resolve na hora.

 

R - Na hora. Dependendo da coisa, um tipo de remédio diferente. 

 

P/1 - Tem planta que nesses anos tem ficado mais difícil de encontrar?

 

R - Tem. Com a continuação do desmatamento, tem plantas que estão em extinção e aí você... Mas é muito relativo. Se tem uma planta que está em extinção aqui, você vai para outro canto. No caso do Maranhão, lá você encontra com mais facilidade. Você tem dificuldade, você tem que se transportar daqui para um lugar para...

 

P/2 - Tem algum que o senhor se lembre que de lá para cá tenha diminuído?

 

R - Esse tipo de coisa para bronquite, para tosse, aqui já não tem.

 

P/1 - Não encontra mais?

 

R - É difícil, né? Muito difícil. Tinha mais na ______ de minério de ferro, está todo destruído o local. Quando eu tenho problema, eu vou ao Maranhão e pego lá. (riso)

 

P/1 - Pega de lá e traz.

 

R - É. Lá tem bastante.

 

P/2 - E seu Carlindo, e o pessoal aqui da região usa esses remédios, esses medicamentos?

 

R - É muito difícil porque, veja, muita gente vem me perguntar: “Ah, estou com tal coisa. O que é bom, o que eu faço?” Se eu tiver remédio eu dou, senão eu indico: “Olha, usa tal coisa.” 

 

P/2 - Se não conhece aquilo que tem...

R - Às vezes não conhece, aí tem que pegar para ele. 

 

P/2 - Mesmo aqueles que nasceram aqui?

R - Mesmo os que nasceram aqui não sabem nada. Estão morrendo, pisando em cima do remédio e não sabem. (risos)

 

P/1 - Aqueles da linha catuaba devem ser os mais pedidos.

 

R - Ah, é o que pede mais, o pessoal. (risos)

 

P/2 - E o senhor ensina esse seu conhecimento?

R - Eu não ensino não, eu preparo e mando. 

 

P/2 - Mas e para os seus filhos, o senhor passa isso? Tem algum deles que se interessa em aprender?

 

R - O meu filho tem dois anos ainda, esse não...

 

P/2 - Mas o senhor tem mais quantos filhos?

 

R - Alguns... O meu irmão sabe muita coisa que eu ensino pra ele. Ele hoje está trabalhando, trabalha junto comigo nessa área. Ele já sabe muita coisa, está identificando no meu lugar lá.

 

P/1 - Está identificando também?

 

R - É. Batelei muito, estou ensinando e ele hoje está fazendo, né? Faz remédio, qualquer coisa pode ir lá que ele faz. Mas é muito difícil, você tem que estudar muito, você tem que ter muito contato. Eu tenho 25 anos, quase trinta anos que eu estou nessa área aí, batalhando; ainda não sei tudo, não sei cem por cento. 

P/1 - É quase impossível.

 

R - Mas eu não me atrapalho muito na Amazônia não, pouca coisa. 

 

P/2 - Quantos filhos o senhor tem?

R - Cinco. 

 

P/2 - E como é que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R - Todos, todos nasceram... Quer dizer, só um que nasceu em Marabá, os outros nasceram aqui.

 

P/1 - Todos nasceram aqui.

 

R - Sou solteiro. Tenho cinco filhos, com três mães. (risos)

 

P/1 - Com três mães?

 

P/1 - Uma de Marabá e duas de Carajás?

R - É, uma em Marabá e três aqui em Carajás. Quatro mães. O pequenininho é o último também. Tem uma mãe separada também. 

 

P/1 - E o senhor tem quantos irmãos?

 

R - Seis. 

 

P/1 - Seis irmãos?

R - É.

 

P/1 - E vocês se espalharam de que forma?

 

R - Tem dois no Maranhão...

 

P/1 - Na terra da família?

 

R - Na terra da família. Tem uma fazenda lá, tem um irmão que toma conta. E tem outro que... E mais dois lá no Maranhão. Tem um que tem uma fazendinha e o outro que trabalha numa fazenda minha... Dois, cada um numa fazenda minha. E tem um aqui, que eu estou tentando passar a área para ele do...

 

P/1 - Do ensinamento, os segredos...

 

R - Treinando ele na cena.

 

P/2 - Como é o dia a dia do senhor, hoje, seu cotidiano?

 

R - Hoje eu continuo morando em Carajás, porque eu presto serviço para a Vale. Para mim é ótimo porque eu gosto daqui, porque a pessoa que passou 31 anos num local tem que gostar, principalmente numa área como Carajás. 

Não só pelo clima de Carajás, pela altitude, você recebe um oxigênio puro aqui. É calmo, você pode largar tudo aí na calçada, na rua, onde você quiser, na porta da sua casa, ninguém mexe em nada. A tranquilidade é ótima em Carajás. Você pode estar tranquilo aqui, que ninguém mexe em nada. Por outro lado, minhas filhas trabalham na companhia e eu tenho que ficar aqui, dou apoio para elas. Eu tenho casa em Parauapebass, mas elas [dizem]: “Ah, pai, não vai, fica aqui. Pra subir todo dia fica difícil.” Foram criadas muito mimadas, sabe, aí eu fico com elas. (risos) 

 

P/2 - Com quem o senhor mora hoje?

 

R - Com as duas... Com as três. Essa daí e as duas que trabalham na companhia, e a empregada. 

Eu fico muito pouco aí, porque eu fico... Quando não estou trabalhando tudo bem, não é direto que eu fico trabalhando na Vale; quando me chamam eu estou aí. 

Quando eu não estou, eu vou para a fazenda. Eu [me] dou muito bem lá e não paro, gosto muito de trabalhar. Lá eu mexo com gado, mexo com cavalo, mexo com carneiro, e aí você vai passando o dia a dia. [Nos] finais de semana eu venho em Parauapebas, eu vou numa festinha, eu vou na praça, bato um papo com um amigo ou com uma amiga. Vai levando, né?

 

P/1 - Vai levando a vida?

 

R - É. Acho que eu me sinto bem, eu me sinto sadio, me sinto com força. Enquanto eu tiver isso, eu estou trabalhando.

 

P/1 - Senhor Carlindo, olhando a sua história de vida, a sua trajetória, se o senhor começasse de novo e pudesse mudar alguma coisa, o senhor mudaria alguma coisa?

R - Em relação a minha vida em Carajás?

 

P/1 - Em aberto, o senhor é que sabe. (risos) Se o senhor pudesse mudar alguma coisa nela, na sua vida, o senhor mudaria?

R - Não, porque eu acho minha vida... Eu não sei, eu acho a minha vida muito boa porque eu sempre me dediquei às coisas. Sempre quando quero uma coisa eu me dedico àquilo, eu sempre me dediquei ao trabalho dentro da companhia. Eu sempre... A minha ideia dentro da companhia era ver o que eu vejo hoje, era chegar ao ponto em que eu cheguei. Chegar a ver extração de minério de ferro, isso é o que eu queria ver. Graças a Deus, eu vi. Então, isso... Estou muito satisfeito, estou muito gratificado com isso. 

Por outro lado, eu, graças a Deus, cheguei ao ponto que eu cheguei dentro da companhia porque eu queria ver o que que era Carajás, estou vendo. E hoje, minha vida… Estou liberto. Graças a Deus estou aposentado, vou para onde eu quero. Continuo trabalhando. Isso aí é o que eu não quero: nunca quero parar de trabalhar. Muitas pessoas já me convidaram, muitas... Essas empresas que me conheceram aqui, o meu trabalho na Vale, empresas que eu fiscalizei vieram me convidar; vieram muitas me convidar e eu: “Não, não vou.” Não vou porque as minhas filhas trabalham, eu não quero deixar elas aí. Por outro lado, eu tenho alguma coisa aqui, tenho um patrimônio, tenho a minha família. Para eu largar e ir trabalhar em outra firma, acho que não é muito compensativo. Não sei, pode até ser, né? 

Há poucos dias, um amigo me convidou de uma empresa, eu fiquei meio balançado. “Quer vir como gerente para cá, trabalhar como encarregado geral da minha firma? Vem, que eu estou precisando.” Insistiu umas duas vezes. Eu fiquei: “Olha, eu vou pensar.” Não sei, de repente eu vou, né?

P/1 - Está pensando.

 

R - É. Para eu ir, eu já vou... Quando a Vale precisar de mim, tiver trabalho aí, eu já não vou poder fazer porque estarei em outra empresa. E a Vale eu não quero nunca... Para mim a Vale foi uma mãe, aprendi muito com a Vale. A Vale me deu todo apoio, fiz curso, fiz treinamento para tudo que é lugar que eu queria, eu ia fazer. Então, eu acho que foi muito compensativo. 

 

P/2 - Sua relação com a Vale continuou a mesma, mesmo depois de privatizar? Tudo isso que o senhor sente pela empresa mudou depois de privatizar?

 

R - Olha, mudou. Com relação à mudança, não tem nenhuma dúvida, mudou. Para ruim... Muita gente fala: “Ah, mudou para ruim.” Deve ter mudado para ruim em algumas pequenas coisas, né? Uma companhia estatal, quando [se] torna uma companhia privada, deve mudar. Não tem nenhum problema. 

Isso aí eu concordo, tem que ter mudança. Corta muita coisa, porque a companhia privada quer faturar, só pensa dia a dia em faturar; não quer nem saber como, quer saber que está faturando. Com isso, [é] difícil não ter mudança, né? Isso é muito relativo. Qualquer companhia, privatizou, vai ter que mudar. Mas foi uma mudança que dá para enfrentar. 

P/2 - Senhor Carlindo, e quais são os seus sonhos, seus projetos para o futuro?

 

R - Eu tenho que... Ainda estou com a cabeça se eu vou montar alguma coisa, eu vou montar alguma coisa para mim. Estou pensando se uma granja, estou pensando se eu monto uma piscicultura, uma coisa assim. Estou começando, estou começando a piscicultura, quero montar... Depois quero montar uma granja. E a ideia é também pegar uma parte de gado de cria, de engorda. Estou começando também e acredito que eu vou lá, né?

 

P/1 - Eu queria perguntar o que o senhor achou de participar desse projeto de memórias e dar o seu depoimento.

 

R - Achei ótimo, e eu acho que... Não sei se respondi ao alcance de vocês. Se depender de mim, eu não tenho nenhum problema. Pode me procurar, eu estou aqui para atender não só vocês, como outras... Estou devendo a vocês as... Mais alguma coisa, mais alguma informação com relação às fotografias, e vou passar para vocês. De repente surgem mais algumas ideias, mais algumas curiosidades de vocês… Estou aqui, se estiver ao meu alcance não tem nenhum problema eu responder.

 

P/1 - Então... (risos)

 

P/2 - Muito obrigada pela sua participação.

 

R - Sem problema nenhum, pode me procurar, eu fico... Se não estiver aqui, eu estou perto. É só falar com as minhas meninas e o pessoal lá, esses pioneiros, que eles sabem onde é que eu estou. Manda um carro lá rapidinho que eu venho. 

 

P/2 - Tudo bem.

 

R - [Em] trinta minutos chega lá.

 

P/1 - É na fazenda?

 

R - É. 

 

P/1 - Onde é? É perto de Parauapebas?

R - Perto, é.



 

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