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História

Uma vida dura

História de: Evanir Bispo do Santos Costa
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 31/12/2014

Sinopse

Vânia, como é conhecida Evanir, é uma educadora que lutou muito na vida. Em seu depoimento ao Museu da Pessoa ela contou as dificuldades da família numerosa, fala sobre a morte do pai e como começou a trabalhar de babá aos sete anos de idade para ajudar a família. Recorda o trabalho como babá em várias casas na Bahia e a ida para Osasco, chamada por uma de suas irmãs. Em São Paulo, trabalhou como empregada doméstica em várias residências. Lembra como conheceu seu esposo e o nascimento de seus quatro filhos. Recorda como começou a trabalhar como cozinheira na escola infantil Pirâmide do Saber, onde auxiliava as professoras. Fala sobre o trabalho que desenvolve na ONG Quintal Mágico e como o Criança Esperança ajudou o projeto “Uma Floresta no nosso quintal”. Finaliza falando sobre o curso de Pedagogia que começou recentemente.

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História completa

Meu nome completo é Evanir Bispo dos Santos Costa. Nasci no dia 4 de abril de 1976, na cidade de Itaju do Colônia, Bahia. Meu pai já faleceu há 11 anos. Chamava-se Severiano Bispo dos Santos. A minha mãe também faleceu vai fazer um ano, Irani Maria de Jesus. Minha mãe nasceu era Itapitanga, Bahia, mas o meu pai me lembrei que era Jequié que é também na Bahia. Meu pai trabalhava na pedreira e veio a acontecer um acidente com ele. Ele ficou três anos no hospital. A perna ele tinha porque era platina, mas o pé era só metade. A minha mãe sempre foi dona do lar. Éramos nove irmãos: Marisvalda, Lucineide, Giane, Maria do Carmo, Eronaldo e eu, Vânia. Morreram dois, ficamos sete.  Quando chegou certa idade eu, como não tinha condições, a minha mãe me deu, fui pra casa de família com sete anos. Fui ser babá.  Cuidei de duas crianças, não esqueço, porque foi o meu primeiro serviço, as crianças chamavam Felipe e Amanda. Eu fui pela escola, porque eu não tinha condições, e pela comida e roupa. Fiquei lá acho que uns três anos. A moça que eu trabalhava chamava dona Rosa. Fiquei lá e eu não tinha salário, era mesmo só pra ajudar a minha mãe. Fiquei três anos, depois não quis mais ficar lá e foi minha outra irmã ficar com ela. E eu virei gente um pouco, aprendi a ler e a escrever por dona Rosa, porque minha mãe mesmo não sabia escrever. Fiquei três anos na dona Rosa.

Quando eu voltei pra minha casa o meu pai não deixava a gente ficar na rua, ter colega era do portão eu dentro, fora ou na calçada mesmo, mas minha mãe não deixava também a gente brincar. Era mais: “Entra pra dentro, procura o que fazer, tem louça”. Mas um pouquinho que eu brinquei, a gente brincava de corda, no quintal com os meus irmãos, a gente brincava de corda, de pega-pega, mas o que eu lembro muito mesmo que me marcou foi elástico, brincadeira de elástico. Eu brinquei muito.

Aos sete anos mesmo, que eu fui pra dona Rosa ela me matriculou na escola e dos sete anos mesmo que eu vim mais a aprender mesmo. Era muito boa mesmo. A escola era grande, dava pra brincar, a diretora era um amor, muito amorosa. Depois que eu saí da dona Rosa voltei pra minha casa, fiquei ajudando a minha mãe. Fiquei um tempo, depois como eu fui trabalhar de novo como babá. Fiquei dois anos numa casa que chamava dona Margarida. Duas crianças também. Era Ariston e Carolina. Fiquei dois anos lá ela viajou... Eu esqueci o nome da cidade. Ela viajou, minha mãe falou: “Você vai viajar com ela? Tem certeza?” “Mainha, sou babá, eu tenho que ir onde que elas forem”. Porque o contrato estava que onde elas fossem eu tinha que ir junto. E fui. Só que chegou lá a dona Margarida transformou. Foi outra pessoa. Era um amor de pessoa, bem tranquila, eu já tinha mais idade, então eu já sabia o que era trabalhar realmente. Depois parei de trabalhar, foi quando em 92 eu tenho minhas irmãs aqui, foi passear lá na Bahia e me trouxe pra cá. Desde 92 eu estou em São Paulo. Vim terminar os estudos aqui, e não estudei mais. Minha irmã foi passear lá: “Você quer ir pra São Paulo?”. Pediu pra minha mãe. “Você quer ir? É isso mesmo que você quer?” “É”. Viemos. Foi rápido, não foi pensativo, pensando nem nada. Surgiu a oportunidade, primeiro veio minha irmã, a Marisvalda, que ela chegou a casar aqui também, ficou um bom tempo, depois a Carminha... Foi assim escadinha. Foi vindo escadinha. A Valda, a Carmen e eu, depois veio minha outra irmã, a mais velha. Ficaram três irmãos lá na Bahia, que é a minha irmã mais velha, a Lucinha, a Giane e Jonas. Ficaram lá na Bahia com minha mãe. Esses nunca vieram pra cá.

Trabalhei com casa de família muito tempo também nas Perdizes.  Aí já era empregada doméstica. Trabalhei muito tempo como empregada doméstica. Fiquei seis meses. Fomos pro tio Damacena, ficamos lá um bom tempo, não lembro quanto tempo a gente ficou lá. Nós fomos morar de aluguel, não sei quanto tempo a gente ficou ali também morando de aluguel, era perto da favela do Sapé. Ficamos ali morando, eu fiquei desempregada na época, só a Valda também trabalhando, ela falou: “É muito pra gente pagar. O aluguel é muito caro”. Viemos pra cá pra Osasco. Então a gente deu essa volta pra vir pra cá pra Osasco.  Aqui eu consegui outro trabalho, a gente também veio morar de aluguel numa casa, na época o aluguel era 160, pra gente era um dinheirão. Ficou a Carmen, eu e a Valda. E a Valda também teve um filho, o Jeferson, que era do primeiro casamento dela, a gente ficou lá um bom tempo. Eu conheci o meu esposo, que é o João. Minha irmã, a Valda, gostava muito de pagode, então ela arrumava aqueles amigos dela, final de semana era só pagode, aquela loucura. Só que eu sempre reservada, não participava e ela falava: “Ai, você não participa.” “Não. Deixa-me no meu cantinho”. O João veio com um amigo dele, a gente se conheceu, conversou, mas não gostava dele, odiava porque ele fumava. Odiava. A gente começou a conversar e ele tinha várias meninas que gostavam dele e foi uma briga muito feia, porque a menina falou: “Ah, eu vou te catar porque você tomou o meu namorado.” “Ele é seu namorado? Ele falou que não tem namorada.” “Não. É meu namorado”. E eu fui trabalhar, isso eu estava trabalhando na casa de uma psicóloga que chamava Miriam Chnaiderman, que morava na Veiga. Fiquei dois anos com ela, um amor de pessoa, muito maravilhosa. E o João sempre me ligava: “Você não vai vir?” “Não. Vou dar...” eu mentia pra ele “Vou dar jantar.” “Você não vai vir pra gente conversar?” “Não posso, a dona Miriam me pediu pra ficar”. Eu fui enrolando-o, chegou um dia eu falei: “Não, vou ter que ir, é a minha casa, né?”. A gente sentou, conversou, falei: “Você falou que não tinha namorada e você tem namorada.” “Quem te falou? Não tenho namorada”. A gente começou a conversar, mas eu não gostava dele ainda. Conversar, a gente foi ao cinema, ele me pediu em namoro. Eu falei: “Eu vou tentar, que eu não gosto de você”. Tentamos, está até hoje. Temos quatro filhos e estamos aí. Eu o conheci no finalzinho de 93 pra 94. Nesse tempo nós ficamos noivos, em 95 nós casamos e em 96 veio a nossa primeira filhinha, a Iasmin, depois Isabela, o João Vitor e o Luís Fernando.

Eu sempre fui voluntária em escola. No Alice Rabechini, que fica aqui próximo, e no Emei Ermírio de Moraes, também fica próximo ao Alice Rabechini. Então sempre fui uma mãe presente em reunião, participava da APM. E no Alice Rabechini tinha uma coordenadora que chamava Valéria, e a Valéria sempre fomos amigas, então sempre que precisava: “Vânia...”. Fiquei três meses na cozinha como voluntária, ficava nos recreios, sempre como voluntária. E a Valéria falou: “Vânia, tenho uma irmã que chama Susie, ela vai abrir uma escolinha, você não quer ir lá?”. Então eu fui, só que lá na Susie era uma escola particular, era bem pequenininha, aqui no Novo Horizonte, a Pirâmide do Saber. Fiquei lá na Susie. Não cheguei a ficar muito tempo porque a Célia era colega da coordenadora daqui que chamava Fabiana, que não está mais aqui. E a Célia falou: “Vânia, faz um currículo que lá na escolinha onde a Fabiana está, está pegando.” “Então está bom, mas eu não tenho Pedagogia.” “Não, mas você trabalha como auxiliar, que auxiliar não precisa”. Eu peguei, trouxe o currículo. Quando eu entrei na Pirâmide do Saber, só que lá eu era cozinheira, só que eram 70 crianças ao todo, não era muita criança porque era pequeno lá. Fiquei lá, depois que eu entrei lá acho que demorou uns 20 dias no máximo, me chamaram e eu vim pra cá. Mas lá também deu saudade porque, querendo ou não eu tinha pegado amor às crianças, porque era muito pouca criança. Eu terminava de fazer o serviço e ia ajudar a dar banho, porque lá você dava banho, dar banho, mamadeira. Vim pra cá. E lá não registrava também, eu falei: “Ah, não. Vou pra lá”. Cheguei aqui eu fui pra uma sala, que é a sala que eu estou, amarela, e muito bom. Muito bom. A primeira sensação que eu entrei eu falei: “Meu Deus, não vou conseguir dar conta de 20 crianças”. Na época era sozinha. Mas saí-me muito bem, graças a Deus. É muito bom. Vai fazer três anos agora em março. Em março de 2011 eu entrei aqui.  O Quintal (Mágico) é maravilhoso. As crianças, o que eles amam mais é o parque. O parque é tudo pra eles. Na minha opinião a sala é muito estressante, porque são quatro paredes, então a criança quer correr, ela quer brincar, ela quer mexer com terra. Terra, mexer com terra pra criança é tudo. Eles mexem com terra, fazem bolo, fazem comida, sentamos com eles, eles falam: “Tia, Vânia, olha, fizemos bolo pra você”. A gente faz de conta que come. Sementinha, eles amam tirar sementinha do pé, a gente vai lá e arranca sementinha do pé e dá pra eles. É maravilhoso trabalhar aqui, não é por que está aqui na sua frente, mas é maravilhoso trabalhar. Tem um quintal, um espaço de ele mexer com planta. Eu, a minha opinião, eu amo mexer com planta, eles gostam de mexer com planta. Teve um dia que a gente foi lá, tirou alface, agrião. Tem lá embaixo, né? Agora não dá pra colher mais porque já passou do ponto, mas a gente tira, eu lavo lá: “Olha, criançada, vamos ajudar a tia a lavar a alface”. Eles ajudam a lavar, eu vou, depois lavo de novo, porque o jeito que eles lavam... A gente come a salada. É muito gostoso.

O meu conhecimento sempre assisti o Criança Esperança. Não ficava a noite toda, mas sempre parava um pouquinho, principalmente os cantores, falavam quanto que estava ganhando. Muito bom. E o projeto aqui com o Criança Esperança é muito bom porque pelo menos é uma oportunidade que a escola tem de mostrar o Criança Esperança e no meu ver, é uma oportunidade que a escola tem de mostrar pra criança, mas muito bom. É muito bom o projeto. Você fala das crianças, de ajudar as crianças que têm dificuldades. Até nessas partes mesmo da criança ter dificuldade de aprender, de não ter condições, eles vão lá e ajudam nas condições. Muito bom nessa parte. O pouquinho que eu entendo é esse lado que o Criança Esperança tem. Se eu não me engano acho que o projeto Criança Esperança pra não sei se é da Floresta, se tem esse sentido, plantar uma floresta, não sei se tem esse sentido, mas é de plantação, de ajudar a plantar. Eu sei que comprou bastante planta. Pé de fruta pra plantar. Mais ou menos o que eu sei é isso. Plantação na escola. Não sei se é o mesmo. Então, é muito bom porque a gente plantou fruta, amora, com eles, romã, a gente já colheu. Amora eles amam, eu falo que é a fruta azedinha porque a gente vai lá, tem que ser uma bem... Não está madurinha ainda, né? Então a gente desce, a gente cata com eles, eles amam amora, eles falam que é fruta azedinha. A gente já colhe, romã também, pitanga que a Ju também comprou um monte de pitanga. E eles: “Pode comer, tia?” “Pode”. Então eu sou do mato. Eu sou do mato, eles vão lá, a gente fala: “Gente, é só dar uma limpadinha e pode comer. O que comer só pergunta pra tia pra vocês não comerem o que não pode”. Mas azedinha eles até agora mesmo antes de você me chamar eu estava lá com eles lá embaixo, eles: “Vamos ver se tem azedinho, tia.” “Vamos. Então a gente vai ver. Gente, não choveu, não tem azedinho, então não podemos colher”. Mas muito bom. É muito bom porque eles amam, eles gostam de estar na terra, eles gostam de mexer com a terra. As minhas turmas, eles gostam de plantar sementinha. Até girassol. Girassol tem uma lá que tem um galhinho seco, então eu: “Gente, vocês querem semente de girassol?” “Pode comer?” “Pode”. Então eu vou lá, cato a sementinha, abro e dou pra eles: “Experimenta”. Eu gosto de plantar, mas a gente já plantou bastante com eles. A gente vai lá eles cheiram a flor: “Olha, essa cheira flor. Tia, vem ver”. Eles arrancam flor, fazem maço de florzinha: “Olha, pra você”. Muito bom eles lidarem com planta. A gente também porque você está ali, você não pensa mais em nada, consegue pensar. A criança já não consegue pensar mesmo, o mundo deles é ali, não tem maldade. É até pra gente mesmo, desestressante, você vai lá, começa a mexer, arrancar um matinho: “Olha, gente, está com mato, vamos limpar?”. Eles ajudam a limpar. Maravilhoso. Ajudam a molhar as plantas. Gostaria que continuasse porque é muito bom. Ajuda bastante. Ajuda, às vezes tem instituição que não tem condições. Até mesmo pra criança, incentivar a criança na brincadeira da criança, no brincar da criança.

Eu ainda vou pra faculdade um pouco receosa, mas é gratificante. Não tem como te falar a felicidade das pessoas que você vê que te amam, dão força, que é o meu esposo, que são minhas filhas. Estou recente ainda, tem quatro meses. Tem muito chão ainda. 

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