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História

Uma vida 'deliciante'

História de: Fanny Abramovich
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/05/2015

Sinopse

Sua data de nascimento é secreta, mas o resto, Fanny Abramovich diz tudo: uma das mais influentes autoras da literatura infanto-juvenil, essa escritora e pedagoga já vendeu mais de um milhão de livros.Nascida e criada no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, Fanny teve uma atípica infância judia e comunista, sempre muito envolvida com política e com a arte. Nesta entrevista, ela nos conta aventuras de sua vida, como uma viagem para um seminário da Juventude Comunista na adolescência, sua participação na lendária Editora Giroflé e a criação de alguns de seus livros.       

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História completa

 

P/1 – Então, Fanny, estamos aqui no nosso terceiro round...

 

R – Terceiro.

 

P/1 – Começou no Museu da Pessoa, depois você participou do nosso evento na Livraria da Vila.

 

P/2 – E a gente quer agora avançar na sua trajetória, mas antes a gente queria dar esse mergulho em episódios da sua infância.

 

R - Bom, foram duas casas, fundamentalmente. Primeiro teve uma casa da minha avó, que era onde…. Quando a mamãe trabalhava eu ficava com a vovó. Claro que eu não lembro, mas eu vi fotos de mim só com fraldinha, indo parece que na carroça do leiteiro, absolutamente feliz, tal qual rainha da uva acenando para multidões. Indo da casa da mamãe pra casa da vovó, onde eu ficava lá o dia inteiro, muito feliz da vida!

Depois morei anos em um apartamento parecendo muito, o prédio é a cara do Ano que meus pais saíram de férias” do Cao [Hamburguer]. É igualzinho! Lá eu morei anos em um apartamento minúsculo, dormiam 82 pessoas, moravam um monte de gente, não tinha lugar pra nada. A saída era no quarto andar; abria o elevador, dava direto pra um corredor, lá era o pátio e lá a gente brincava de boneca, disso, daquilo. Mas nada disso tinha a menor importância, porque o prédio era na [Rua] Prates com a [Rua] José Paulino e em frente eu tinha o Jardim da Luz, que era o meu pátio, meu jardim, meu recreio; era inteirinho pra eu brincar, então nunca me faltou espaço pra absolutamente nenhuma brincadeira. Quem era do Bom Retiro sabia que podia morar num lugar desse tamanhozinho, porque tinha o Jardim da Luz.

Teu filho, que é judeu, sabe que os gói é que podem ficar apertados. Quem não é gói no Bom Retiro de antigamente tinha todo espaço do mundo pra pular, correr e fazer o que quisesse. A questão era o tempo que você ficava em casa. Depois, quem ouviu os cds anteriores vai ouvir com vagar e lembrar tudo que eu já contei de rádio, de poltrona, de gente chegando, de campanha eleitoral da minha mãe, acho que até a bunda da empregada, que era atração marcante.

Depois eu morei anos numa casa que era uma delícia. [Rua] Prates, 155. Hoje não existe mais, virou um motel coreano que é um assassinato histórico, porque era uma memória do Bom Retiro. Não histórica, mas uma memória de muita coisa importante que eu também já contei e que vale a pena voltar atrás, eu acho, só pra ouvir fervilhações, entusiasmos, descobertas de tantas ‘acontecências’, de tantas cabeças diferentes que compartilharam uma casa, vivendo suas diferenças, seus antagonismos sem criar muitos casos. Uma ONU bem-resolvida, comunista, espírita, assistencialismo social, sindicalismo, tudo convivendo numa muito fraterna, muito carinhosa, muito gostosa… E essa...

 

P/1 – Nessa época, você tinha um clubinho?

 

R – Não, nessa época não. Eu tinha, eu frequentava...

 

P/1 – Você frequentava um clubinho? Como era isso?

 

R – Esse clubinho era um clubinho das crianças judias progressistas. Era o lado judaico progressista que não aceitava Israel. Começou onde era o começo do [Colégio] Scholem [Aleichem]. Eu era deste tamanho, era tesoureira e tinha uma caixa de sabonete Araxá [em] que eu guardava o dinheiro das mensalidades. Eu não sei qual era a moeda, mas eu tinha umas moedas lá e eu carregava aquilo. Meu Deus, era tesouro! Literal.

Eu não sei muito bem o que eu achava o que era, porque eu era do tamanho de nada. A gente nesse clubinho ia aos sábados: tinha pingue-pongue, totó, tinha uns campeonatos de alguma coisa assim, chamado ‘esporte de judeu’. Nada de muito corporal, nada de fazer muito esforço: pingue-pongue, essa coisa que ninguém dá pra suar. Então devia ter muita falação, naturalmente. Tinha teatro - não, não tinha teatro, isso é invenção minha, mas era umas coisas desse tipo. A gente saía, ia visitar o Corpo de Bombeiros, coisas desse tipo, mas era muito gostoso porque encontrava… Ainda não tinha o Scholem, eu estava mentindo.

Encontrava outras crianças porque cada um ia a uma escola diferente. Eu ia ao Mackenzie, o outro ia ao, sei lá, Prudente de Moraes e a gente [se] encontrava no sábado. Esse clubinho também tinha colônia de férias Kinderland então a gente passava janeiro junto com as crianças do Rio em Kinderland - já um pouquinho mais velhos, claro. Era isso?

 

P/2 – Quantos anos nessa época?

 

R – Quantos anos?

 

P/2 – Na colônia de férias?

 

R – Kinderland eu passei até onze, doze. Depois eu fui monitora umas duas vezes. Depois nunca mais, comecei a namorar e achei aquilo tudo uma criancice, absolutamente fora de compasso. Mas o legal de Kinderland é que vinham as crianças do Rio, então tinha piscina, tinha cama beliche, aqueles quartos coletivos. Beliche era a suprema glória! E trocar roupa: elas traziam uma roupa, a gente trocava, [tirava] fotografia com roupa. Eu tinha uma fotografia - tenho até hoje, imagino - com uma blusa que abaixa aqui, que era da Lúcia Lenha. A Lúcia deve ter neto de vinte anos, até hoje eu guardo. Que máximo!

Essa colônia ficava em Sacra Família do Tinguá. Antes não era colônia lá, era um lugar aqui em São Paulo que eles alugavam. Era o máximo! E durante o ano a gente se escrevia, trocava cartas. A gente disputava e acho que foi só por isso que eu consegui quem conseguia acabar de ler “Os Miseráveis”. Eu consegui ler o cinco volumes, acho, que por causa disso. Então “o primeiro”, “consegui chegar no segundo!”

A gente lia muito! Claro, a gente trocava cartas diferentes, assuntos diferentes, mas a carta era muito legal. Era a carta com selo, não é essa besteira de e-mail! Não tem nem comparação, “beijos”, “bj”, sabe? Não, era carta mesmo. Trocava, ia levar no correio, tinha remetente! Agora, quando recebo o pacote do correio, eu sempre separo: deixo o que é mais curtido por último e o que é mais curtido é o que vem com o manuscrito, letra manuscrita é o mais... Isso que vem com etiqueta não é nada!

 

P/2 – Você ainda recebe cartas? Que privilégio!

 

R – Ah, de criança! Criança leitora, recebo. E de gente que me conhece, que sabe que madame aqui adora uma carta! Tem gente que me escreve a carta também à mão. Respondo a mão e eles acham que não merecem, porque a minha letra é qualquer coisa de ilegível.

Esse clubinho, essa colônia foi muito legal! A gente se encontrava em Sacra Família do Tinguá uma vez por ano, em dezembro ou janeiro e aí tinha baile, tinha fogueira. E tinha as reuniões dos que eram comunistas. Com doze anos, quis saber o que era. Então saía escondido, descia dos beliches e ia pra caixa d’água da piscina. Os jovens defensores do camarada Stálin… Nem sabia quem era,  mas era escondido, era secreto, um jogo absolutamente fantástico! Agente se reunia lá, falava qualquer bobagem, provavelmente, e voltava triunfante pra aquelas crianças que não sabiam de nada, nem eram eleitas pra coisa nenhuma. Mas eram tão marcantes aqueles dias!

Sábado, na festa do Scholem, passou uma moça, olhou bem pra mim e falou: “Eu não era do Scholem, eu era do [movimento sionista-socialista] Dror”, que era uma parte acionista, “mas eu sou a mãe de não sei quem, de não sei quanto.” “Ah! Você era a mulher do Sasha?” É apresentação que se faça cinquenta anos depois? Mas pra você ver como as coisas eram marcadas.

Foi muito importante, era muito junto, era a idade da turma. Não era o gênio do crime, mas era a idade da turma. A gente ia junto a pé pro cinema - contei mais ou menos isso na outra vez -, no sábado a noite. Passavam na minha casa, comiam uma salsicha abençoada, Ovolmatine - era um menu muito estranho -, íamos a pé pro Marabá, pro Ipiranga, esses dois eu lembro bem, e assistíamos filme.

No clubinho tinha muita discussão de cinema. Eu lembro - não sei, acho que você é muito moço pra isso -, passou um filme com a Pier Angeli que ela dá um beijo na boca, nem é de língua e ela acha que ficou grávida! Aí é um Deus nos acuda. Claro que todos nós entramos em pânico. Nem selinho a gente dava.

Um ginecologista importante da época… Pra você ver como era avançado fazer uma conferência sobre educação sexual, pra explicar que beijinho não dava gravidez, nem muito menos.  

Eu lembro [de estar] em volta daquela mesa de pingue-pongue e a minha irmã que é dois anos e meio mais moça que eu, coitadinha, ali sentada, sem saber do que estavam falando.

Iam acontecendo as coisas. Passava muito filme, acho que era chinês ou russo. Claro que não acabava nunca, mas era uma coisa muito afetiva, muito imbricada, muito ligada. Depois eu me desliguei, porque a gente cresce e os ritos de passagem te levam pra outro caminho.

P/1 – Fanny, tem um episódio da sua infância ligado a quadrinhos?

 

R - Ah, tenho.

Não é um episódio: as histórias em quadrinho, evidentemente, são do império do mal. São americanas, capitalistas, são imperialistas, não pode ver uma coisa dessa. Não precisa nem dizer que é proibido. Acontece que na entrada do cinema, no domingo, tinham pilhas. Podia trocar gibi usado, não podia nem chegar perto. Cobiça, olho gordo, vontade, babação, promessas, xingamentos, de tudo. Até que a pessoa que merece a minha gratidão eterna - ainda hei de fazer essa homenagem, cada vez que eu o encontro ele diz: “Imagina!’, mas é verdade - o Álvaro [de] Moya, bendito seja! Fez um trabalho, um movimento, conferências explicando - ele era comunista - que quadrinhos não era perigoso, não afetava a cabeça, não transformava ninguém em vassalo e deu um alvará, uma benção que toda criança podia ler gibi, quer dizer, as crianças brasileiras, progressistas etc. Ele era casado… Na época, acho que ele era noivo, qual era a mulher dele? A Anita, eram três irmãs. Graças ao Álvaro [de] Moya nós pudemos ler gibi.

 

P/1 – Que gibi que você liam?

 

R – Todos!

 

P/1 – Todos?

 

R – Quer dizer, todos os da época...

 

P/1 – Sim, que seriam?

 

R – Que seriam… Que eu lia era Tarzan, Mandrake. Flash Gordon tinha, mas não era o meu pedaço, sempre tive meio aflição com ficção científica, ai meu Deus. Batman tinha, mas também não me encantava tanto, não sei! Eram figuras, era muito mais a figura e a palavra, a rapidez. Não quero dar uma de semiótica, sabe, mas sair do parágrafo e encontrar aquela coisa trepidante, ágil, ‘acontecente’, sabe, era uma loucura! Eu lembro de um, que era até Disney, que ninguém lembra. Você não deve ter, você não era nem projeto de esperma! Chamava “Esquálidos”, era uma espécie de um ET que ficava, dormia... Na cama tem uma espécie… Como é que chama aquele espaldar da cama? Ninguém lembra. Não, não é criação minha, mas ele se enroscava no espaldar da cama, era uma maravilha.

Tinha uma outra menina, Laura Jane, você lembra? Ela falava: “Areia da grossa, areia da fina, areia, me faça ficar pequeninha!” Você lembra?

 

P/1 – É, mas isso é muito depois?

 

R – Eu adorava!

 

P/1 – Esse refrão, “areia da grossa, areia da fina”...

 

R – “Me faça ficar pequeninha!” Era um Disney não idiota, não piegas, não passava por cima de tudo e acabava. Tinha outros, era um Disney preto e branco, tinha umas coisas muito boas.

O que era muito legal é que tinha dois cinemas no Bom Retiro, mas tinha em todos os bairros. Começava, acho que a uma hora da tarde e terminava às sete da noite. Eu levava a minha irmã; você entrava, tinha dois filmes, 82 seriados, 944 trailers, era tudo em preto e branco. Lá em cima, quando queriam fazer colorido, tinham um papel celofane e botavam no visor vermelho, celofane, verde e amarelo, eu acho, e a tela ficava colorida. Era o máximo da tecnologia!

Muito mais tarde apareceu o óculos de três dimensões - não, o celofane, então você chegava lá a uma e como ele não sabia ler e eu sabia um pouco, então eu lembro que aparecia alguma coisa com legenda. Eu começava: “O pa-to” aí já tinha desaparecido o pato e já era outra coisa.

Pra entrar nesse cinema, claro que não custava muito; eu levava a caixa do Araxá, com o dinheiro do clubinho, mas isso era menor, quando eu era tesoureira. Tinha na porta um monte de gibi que você trocava. Não é que se trocava, pagava lá alguma bobagem, não sei muito bem como era a moeda de troca, mas você trocava e era fantástico, porque era uma iniciação aos mistérios dos quadrinhos e uma atualização permanente.

Tinha, também, pipoca japonesa que chamava, eu acho. Era grudenta e cor de rosa, era um horror. Os dentistas, acho que punham porque todo mundo ia ter que ir no dentista no dia seguinte, era uma coisa absurda. Você ficava lá e os pais dormiam, aproveitavam e dormiam. Toda criança ia sozinha com a irmã, com o irmão; ficava lá, vendo aquilo que não acabava mais. Era fantástico. De Flash Gordon era seriado, era muito legal.

P/1 – Como eram as aulas de piano e balé?

 

R – Ah, você sabe, você é casado com uma judia. Toda menina judia, não tinha conversa - depois você confere com a sua esposa se era assim com ela ou não, ou se ela pulou essa, porque é outra geração.

Tivesse aptidão, talento, vontade, o mínimo de entusiasmo ou não, era obrigada a estudar piano, absolutamente obrigada; o menino, violino, era o mesmo tipo de condições, quisesse ou não quisesse. Tocava a campainha e lá vinha a professora de piano, porque não tinha… Ou você ia na casa da professora de piano porque não tinha piano em casa. Era um inferno, eu passei por umas doze, quinze professoras de piano, odiando absolutamente todas por igual. Era chatíssimo, nunca saí do “Für Elise”, foi o máximo do repertório musical a que eu cheguei.

Fiz exame, acho, pro conservatório; não sei se “Mário de Andrade”, ele chamava, acho que não. Evidentemente, fui reprovada porque não sabia nada. Um inferno. Balé eu já cobiçava um pouco mais, passei brilhantemente - não tão brilhantemente, mas, enfim, consegui galgar as escadarias da escola de balé do Teatro Municipal, que era no viaduto. Ganhei um ‘tufu’ [tutu] que a minha avó fez, a outra avó que era um horror. Chorei dias seguidos porque era errado, me senti marginalizada. Ódio de ser pobre, de não ter a roupa como todas as meninas tinham, enfim. Mas eu ia pra aula. Alguém me levava, porque era no Anhangabaú, não dava pra ir sozinha.

Acho que não durou muito, por alguma razão que eu não lembro. Fui aluna, eu lembro, do professor Michelle Barbano, depois passei por várias professoras em vários lugares, porque eu comecei em outras escolas. No Batista, teve um tempo que, é claro, a gente tinha que ser solidária com companheiras que voltavam de algum ano remoto no Bolshoi, também filhas de companheiros que foram estudar economia marxista ou coisa parecida...

Enfim, eu estudei. Quando eu consegui mandar no que eu queria, aí sim fui estudar. Mas, pequenininha, foi um desencontro de possibilidades.

Com a Eva Wilma no Batista brasileiro, ela fez uma festa de fim de ano, montou… Você não vai adivinhar, não, você não vai adivinhar! Ela fazia “O Quebra-nozes” e tinha a ala dos chineses, a ala dos russos, a ala de não sei o que. Entrava o terceiro ano inteiro, quinto ano inteiro. Eu estava numa daquelas alas, ela chamava Vivinha naquela época. Era menina, dona Vivinha, foi isso.

Os meninos não tinham que aprender balé, aliás era aconselhado que não quisessem. Eles ficavam, tadinhos, tocando aquele violino de lascar. É cultura judaica, faz parte da formação.

 

P/1 – É verdade, lá em casa tem um piano...

 

R – Ela toca ainda?

 

P/1 – Não, os meus filhos, estão lá no piano.

R – Jura? Com quem? Num conservatório?

 

P/1 – Não, com professor!

 

R – Em casa? Coitadinhos.

 

P/1 – Devem estar tendo aula agora, piano é legal.

Mas Fanny, em termos de brincadeiras e jogos infantis existia algum tipo de brincadeira que naquela época vocês brincavam, mas que não sobreviveu e que hoje as crianças não brincam?

 

R – Eu não sei… Não vejo ninguém brincar de barra-manteiga, por exemplo, nem de cabra-cega, coisas desse tipo, singelas.

 

P/1 – O que é o barra-manteiga?

 

R – Barra-manteiga?

 

P/1 – Sou do interior de Minas, deve ter outro nome!

 

R – Tudo que é do interior de Minas é nacional, começa do Doutor Tancredo.  Aliás, o grande mistério pra mim é se o Aecinho - que nome, não? - tem pai ou nasceu direto do avô.  Não sei.

Barra-manteiga? Cabra-cega, galinha do vizinho, não vi mais ninguém brincar disso, que é a coisa mais óbvia e simples que todo mundo sempre brincou. Eu só vejo referência… Não é que eu veja gente brincar de amarelinha porque deve ter algum retardado que brinca disso em alguma novela de televisão, parece que peteca também, deve ter algum grã-fino que achou uma peteca na Austrália ou qualquer coisa desse tipo.

P/1 – Não, mas a peteca popularíssima em Minas com os marmanjos. Você tem quadra de peteca nos prédios, é esporte...

 

R – Fino!

 

P/1 – Hã?

 

R – Fino?

 

P/1 – Não, todo mundo joga, mas é um foco regional.

 

R – Bom, então você tem explicações desse tipo, mas como é que chama bilboquê.

 

P/1 – Bilboquê?

 

R – Você vê gente jogando bilboquê?

 

P/1 – Só em filme.

 

R – Me convidaram pra ir fazer uma palestra não sei onde, logo depois daquele ameno desastre da TAM. Eu falei: “Não vou de avião, mas nem que a vaca tussa!” Então resolvi, bati o pé, que eu ia de ônibus. Parei num daqueles pontos pra comer e achei um bilboquê. Tive um ataque, comprei três bilboquês. Até a mulher da caixa ficou olhando: “O que é isso?”

 

P/1 – Nem ela sabia?

 

R – Nem ela sabia e custava assim, três mil réis - até eu falo mil réis, quer dizer, não tinha nem preço em real. Uma coisa, como é que saiu da referência? Sempre me pergunto, sabe, os brinquedos mais… Não sei, talvez eles joguem, acho pouco provável, mas num condomínio fechado, aí eu não tenho entrada.

 

P/1 – Então as meninas, suas amigas do Bom Retiro e você brincavam do que? Boneca?

 

R – Tudo: escolinha, lojinha, claro!

 

P/1 – Claro!

 

R – Decerto. Ai, meu Deus! A festa de aniversário.

Todas essas coisas: brincava muito de teatro, de sombra, teatro chinês eram com os livros da Melhoramentos, eram lindos! Recortava, eram silhuetas, aí punham um papel meio vegetal, tinha vela até e aquilo se mexia. Era a coisa mais requintada que eu já vi na vida, pros meu sete, oito anos, era um desbunde. Brincávamos muito disso.

Brinquedo que eu sempre adorei, sou fascinada, alucinada e onde eu acho eu compro é caleidoscópio, é brinquedo de brincar sozinha. Eu sou alucinada por caleidoscópio, sempre fui e sempre tinha em qualquer lugar, até feirinha de praia sempre tinha:  “Ah, eu quero!” Eu queria e tinha.

Eu sempre li muito. Sempre brinquei de ler, que é um brinquedo de ler sozinho, mas depois sempre trocava com esses amigos do Rio, com outros amigos aqui de São Paulo. Sempre tinha alguns que liam muito, pelo menos alguns liam muito, que eu lembro. E não esquece que eu tinha falado da outra vez que eu andava muito sozinha. A gente ia a pé pra escola, ia a pé pro curso de inglês. Eu falei do curso de inglês porque eu não tinha mais nada pra ler em português, falei isso, né? E também [ia] pro cinema com a turma.

Uma coisa que eu não falei [é] que a gente… Eu era sócia do Tietê, do Clube de Regatas. Tinha um clube lá. Nadava, tinha piscina. Eu era sócia - não, meu tio era sócio. Lembro que às vezes a gente ia pequenininha e a gente chegava com a senha. O titio tinha dito que era só pra chegar, se tivesse problema era pra dizer “eu sou sobrinha do titio”. A gente ia com a certeza mágica que entrava, não sei o que acontecia. Então tinha essa coisa também, a gente ia muito na piscina lá. E olha o Tietê quando… Não sei o que aconteceu, quando eu era pequena era perto, agora tem uma marginal, tem não sei o quê, nem sei onde ele fica. Outro dia eu vinha de não sei onde, encontrei ele, que já não via nunca mais.

Tinha muito o que fazer além do Jardim da Luz e do clubinho no sábado, tinha muita brincadeira. Brincadeira de ficar sentada, brincadeira de correr, brincadeira de andar, brincadeira de ler, brincadeira de pensar, de escrever.

 

P/2 – Quando você ia pro Jardim da Luz era uma coisa de você passear sozinha?

 

R – No jardim da Luz, não. Era brincadeira de correr, de estar com os outros. Eu lembro assim: tinha gente que tinha bicicleta, eu não tinha, e às vezes deixavam andar na bicicleta. Claro que eu não tinha a menor coordenação motora, o máximo que eu conseguia era me espatifar no arame - não era arame, na cerca.  

Tinha um menino que às vezes eu encontro, o Luiz, virou engenheiro. Eu lembro que a gente corria um atrás do outro. Tinha um outro também, o Daniel. Eu acho que tinha acabado de aparecer a [caneta] Bic, só pode ser, e andando com Bic e se tatuando com Bic, eu não sei que brincadeira louca era essa. Sei que uma vez ele me apareceu numa noite de autógrafos mesmo e falou: “Ah, você tinha que ser escritora, você escrevia já na pele da gente.” Escrevia? Rabiscava umas coisas. Então na Luz não era… O jardim era recreio mesmo, era pular. Diferente pra mim dos jardins onde eu fiquei na França, aí eu ia ler ou pensar, mas também era um pouco de charme.

 

P/1 – Fanny, agora nós vamos fazer um salto na narrativa. Na entrevista anterior a gente termina com você levantando apoios pra poder viajar pra França...

 

R – Terminou aí?

 

P/1 – Mais ou menos aí. Você não conta da França, então você pode durar horas e horas de França, mas a gente podia, pelo menos...

 

R – Eu não contei ainda só uma coisinha, que era a pré-adolescência comunista. Uma vez eu fui fazer um curso, acho que era no Rio, com o camarada Batatinha. Eu tinha, acho que doze, treze anos e o camarada Batatinha idem. Nós éramos da UJC, União da Juventude Comunista.

Qualquer pessoa normal pega um ônibus, desce na rodoviária do Rio. Acho que comunista não: eu desci no quilômetro 38, não sei de onde, eu e o Batatinha. Absolutamente tontos. Meninos com autorização, provavelmente meu pai deve ter ido levar autorização do juizado. Descemos no quilômetro não sei lá o quê e devia ter alguém que veio buscar a gente, aí sobe, anda, porque nada podia ser fácil. Tinha uma trilha, sobe, desce, malinha. Não sei mais quanto a gente ia passar, uma semana, convencidos da dureza que a gente iria enfrentar em nome da melhor condição de vida do proletariado, embora nenhum de nós soubesse muito bem o que era isso. Então estamos subindo atrás do companheiro, proletário, abrindo as trilhas pra nós e no silêncio, pensando -  claro, cada um de nós tinha um nome de guerra, nenhum de nós, em hipótese alguma pode ter o seu nome. O Batatinha devia chamar Maurício, não sei, Salomão, e eu, não me lembro, Fernanda, Luisa, nada parecido com Fanny.

Quando a gente está quase chegando na casa esconderijo - tinha um nome, não me lembro -, tinha um cachorro latindo. Eu tenho pavor de cachorro! Comecei a gritar feito uma maluca: “Tira essas porcarias de mim! Tira essa fera! Ai, socorro!” Lá dentro todo mundo dizendo: “Eu quero me matar se não é a Fannyzinha de São Paulo que tá chegando!” Acabou o sigilo, o esconderijo, acabaram as precauções de segurança. A Fernanda - não, Fernanda não podia ser porque era com f. A Luísa acabou. Eu entrei, o Batatinha também e aí todo mundo bateu palma. Ficamos lá uma semana e o cachorro teve que ser preso...

 

P/1 – Uma semana? O que vocês faziam em uma semana?

 

R – Uma semana! Escondidos. Ouvindo aula. Cada dia era uma coisa, a situação internacional e a libertação dos escravos. A gente não sabia nem o que era internacional, nem situação, a gente era criança de ginásio! E o Batatinha desesperado.

A volta foi igual. Mas tudo era secreto, isso pra quem tem treze anos é a própria aventura. Você pega qualquer livro do Marcos Rey e é isso, tudo o que você quer é ser perseguido, ter nome falso, senha. Tirando o cachorro, “eu quero me matar se não é a Fannyzinha de São Paulo”, acabou tudo! Foi muito engraçado. E assim era, reuniões e reuniões, todas assim.

 

P/1 – E a sua mãe fazia o maior gosto?

 

R – Ah, lógico! Claro! Quando eu entrei na faculdade, eu vinha de uma liderança secundarista braba. Eu tinha liderança grande, aí eu entrei na USP. A mamãe me perguntou se eu já estava: “Como é? Você já tá militando na base do PC?” Eu falei: “Não, mamãe. Tô sendo disputada pela por outras lideranças.” Foi uma das poucas coisas que ela me mandou na vida: “Eu não eduquei filha minha pra não ser militante do PC. Você tem uma semana pra achar a base do PC!” “Sim, senhora.” Fui achar e achei. Aí fui dirigente do movimento universitário até o fim.

Só pra fechar bonito, lembrei agora [que] a minha casa na [Rua] Prates, 155… Em 1964 eu recebi todo mundo da Bahia, os perseguidos. O Capinan foi morar com meu avô, verdade! A carinha dele.

Você conheceu o Lamego? Era um cara legal, só que ele era adolescente, cumprido feito você, cheio de espinha. Botei ele na Giroflê pra office-boy, o Tom Zé, enfiei ele não sei onde, o Gil só que não precisou de ajuda porque fui recebê-lo e ele já tinha emprego na Gessy Lever. Enfim, era aborto pra uma, parto pra outra, emprego pra não sei quem, casa, arrumando tudo. Anos depois, eu encontrei… Sabe o Tenório, um que é psiquiatra? Bom, é um Tenório, psiquiatra conhecido. Mora aqui em São Paulo, veio da Bahia. Ele estava com não sei quem e alguém deve ter dito “ela é a Fanny”. Ele falou: “Você que é a Fanny? Rua Prates, 155, esse era o endereço mágico que corria na Bahia. Eu ainda tenho.” A casa já tinha sido destruída há não sei quantos anos. Então, legal. Minha mãe já estava morta há muito tempo também.

Quando eu fui pra França teve uma festa. Eu fui no domingo, digamos; começou a festa na sexta-feira. Quem estava lá, sentado num quarto tocando, era o Caetano, o Gil, tocando direto.

 

P/1 – Na sua festa?

 

R – Na minha festa, quer dizer, não era minha festa. Era o Bom Retiro dando festa, estava todo mundo lá e eles também, tocando.

 

P/1 – Nossa, que legal. Só pra gente contextualizar aqui: você vai pra França porque você ganha uma bolsa?

 

R – Preciso falar ou fazendo “sim” com a cabeça tá bom?

 

P/1 – Não, você fala: “sim, era uma bolsa”.

 

P/2 –  Aí você ganhou uma bolsa e foi pra ficar quanto tempo?

 

R – Eu ganhei a bolsa por um ano, uma bolsa de estudos. Eles me davam casa, comida, passagem de volta e a passagem de ida o Bom Retiro me deu.

 

P/1 – O Bom Retiro te deu como? Fizeram doações?

 

R – Não. Foi assim: a mamãe tinha morrido há uns dois anos e eu vi que a coisa estava ficando preta pro meu lado. Estavam todos meio achando que tudo bem, a Elisa morreu, a Fanny herda o latifúndio - não era bem um latifúndio, mas enfim, vai ser a sucessora. Falei: “Ah, mas eu me mando daqui já, porque não tem pé nem cabeça.”

Na opinião de todo mundo eu ia ser a nova diretora do Scholem, etc. Aí eu resolvi que o melhor jeito era eu me mandar de país, sabe? E aí eu pedi uma bolsa pra Paris, porque eu queria ir pra Paris. Quem não quer ir pra Paris? Pedi apresentação pra um monte de gente, inclusive eu lembro que eu pedi até pro Flávio Império, que era muito meu amigo. Uma hora eu falei: “Flávio, chega, vão dar a bolsa pra você!” -  ele dava tanto título pra ele mesmo.

Enfim, é pra contar a história inteira? Entreguei lá onde tinha que entregar e no dia que meu tio morreu, no meio do velório - que era um corte vertical na sociedade: tinha professor universitário, senador da República, puta, bicheiro, era uma coisa impressionante - toca o telefone. É a Dona Mariinha Werebe, professora da faculdade e disse: “Você nem sabe, acabou de me telefonar não sei quem.” Falou lá o nome, eu não sabia quem era. “Você tá com três cruzes.” Eu falei: “Meu Deus, eu peguei sífilis e a Dona Mariinha sabe!” Não entendi só por que ela saberia, mas esse mundo acadêmico é sempre uma surpresa, não é?  Bom, aí ela falou que… Ela estava falando com o cônsul da França e ele queria saber se tudo que estava escrito no meu currículo era verdade. “Como não é verdade?” Reinventa, só que não era comum uma pessoa ter feito tanta coisa em educação. As pessoas costumavam começar a trabalhar depois de formadas, não dez anos antes e não costumavam diversificar tanto.

Bom, era verdade e me deram a bolsa, só que a bolsa não dava a passagem de ida, aí tinha umas campanhas - isso vocês devem lembrar, eu acho que era da Globo: “Faça uma criança sorrir”. Eu fiz “Faça uma pedagoga sorrir” e passei pelo Bom Retiro, dizendo assim: “Vale dinheiro, roupa, sei lá, qualquer coisa.” Foi uma loucura porque todo mundo tinha uma relação muito grande comigo, tinha sido aluno, isso e aquilo. De jaqueta - jaqueta não, de japona, sabe? Lembra de japona? Tinha umas seis e meia e umas quinhentas de lã, coisas de tudo quanto era jeito. E absurdo! Demais! A ideia era ter as coisas pra poder comprar a passagem.

 

P/1 – Você fez um bazar?

 

R – Não, não precisou. O presidente do Scholem… Compraram a passagem e ele veio me entregar. O Scholem, eles me deram. Foi a coisa mais linda do mundo! Então eu embarquei pra França como uma espécie de enviada deles, sabe, como se eu fosse a representante do Bom Retiro que fosse pra França. Foi muito lindo! Aí eu fui, fiquei lá um ano e meio fazendo nada porque ninguém entendia o que eu fui fazer. Eu não fui fazer uma tese, então era muito complicado pra eles. Eu não fui fazer pós-graduação, mais complicado ainda. A moça dizia: “Eu vou mandar um piano pra sua casa.” “Mas eu não estudo piano! Não quero outra professora de piano. Pelo amor de Deus!” Aí eu andava por Paris, eu me perdia pelas ruas, eu ia ao cinema toda tarde, eu ia ao teatro toda noite. Bom, eu fiz arte. Aí voltei - não,  fui pra Itália. Inventei uma bolsa de televisão, na RAI Telescuola.

 

P/1 – Fanny, com que planos você tinha que voltar para o Brasil depois dessa temporada europeia? Você voltou para o Brasil querendo fazer alguma coisa específica?

 

R – Não, quando eu fui trabalhava com pré-escola e eu sabia… De verdade, eu sou uma pessoa muito lúdica, muito hedonista, sou mesmo, mas eu sou uma pessoa que, claramente… Não naquela época que eu tinha 25 anos, mas depois foi se consolidando de uma maneira muito clara.

Eu me faço perguntas sobre um determinado ciclo que eu estou vivendo. Quando eu já respondi aquelas perguntas, chega, porque eu não vou ficar me fazendo as mesmas perguntas à vida inteira, tá certo, deu pra entender? Às vezes não. Eu vi que [sobre] pré eu já não tinha mais nada pra me perguntar, então eu sabia que eu não ia voltar pra lá.

A menina que ficou me substituindo estava em pânico, ela achou que ia perder o posto dela. Quando eu voltei, falei: “Vou trabalhar com criança direto no primário fazendo teatro.” Ela não esperava isso. Então fui trabalhar direto com crianças de 1ª a 4ª [série] em teatro e artes plásticas, que era o que eu estava procurando. Depois eu abri a escolinha, fiquei um tempo nisso e depois fiquei procurando outras coisas. A gente pode ficar nisso ou voltar depois, mas sempre [em] ciclos que quando se fecham, se fecham. Não tem por que ficar repetindo a mesmice e ficar confirmando o que, de uma certa maneira, eu já sei.

 

P/1 – Dando um pulinho aí você começa… Pela anotação que a gente tem aqui, em 1986, você começa a ter uma relação com a editora que é a Giroflé, é isso?

 

R – Não a Giroflé foi antes de ir pra Paris.

 

P/1 – Ah, foi antes, mas lá é que você tem o primeiro contato com a literatura?

 

R – De uma certa maneira sim, mas a Giroflê também é uma das primeiras editoras a fazer isso. Eram aqueles livros - não sei se viu - retangulares, belíssimos. Projetos do Fernando Lemos. Era uma editora de três portugueses, vanguarda até hoje, eu até sei porque o Fernando me pediu emprestado agora. Belíssimos! E eu fui orientadora pedagógica. O que aconteceu? Eu não escrevi, não fiz nada. Não era nem escritora, nem nada. Quem escreveu era o Sidónio Muralha, ele, Cecília Meirelles, “Ou isto é aquilo” é a primeira vez que sai.

 

P/1 - Você podia contar um pouquinho mais sobre a editora. Ela era a pioneira, não é isso? Então você falou que eram três portugueses. Era o Fernando...?

 

R – O Sidónio Muralha e o Fernando, ai meu Deus, o outro... é o que faz “Vidas Lusófonas”, Fernando Correia. Eram três portugueses. Eles até tinham uma proposta...

 

P/1 – Ah, que você até escreveu sobre o Sidónio Muralha lá no “Vidas Lusófonas”?

 

R – Escrevi em “Vidas Lusófonas”, você leu? Eu escrevi do Lobato também.

 

P/1 – Isso.

 

R – E eu tenho contato com ele.

 

P/1 – Ah, era o Sidónio que estava na editora! Que bacana!

 

R – E isso é anos 60. Eles são vanguarda até hoje, é uma loucura aquilo! Eram livros, quer dizer, mais vanguarda visual, digamos. O projeto era deslumbrante...

 

P/1 – Funcionava em que bairro a editora?

 

R – Meio ali… Não era [na Rua] Maria Antonia, mas por ali, na [Rua] Major Sertório, não lembro... [Rua] Marquês de Itu… Eles fizeram um projeto muito legal: os intelectuais pagariam ‘x’ por mês pra ajudar - pra ajudar não, eles seriam associados, essa era a diferença e era o que sustentaria, mas não sustentou, claro, não conseguiram. Levantaram não sei quantos nomes e o Fernando Lemos é que ficou anos pagando isso, então faliu. Mas saiu então um livro do Guilherme de Figueiredo... Guilherme de Figueiredo? “A Arca do senhor Noé”. Ele registra o filho contando a história oralmente e a ilustração são fotografias. Eu não gosto das fotografias, mas eu não gosto hoje, 2008; o livro é de 1963.

 

P/1 – E aí editou todos os livros do Sidónio?

 

R – Não, todos não. Ele editou o primeiro depois, que eu acho fraco, é o “Psiu”. Depois eu acho que é o do Fernando Correia, que é “O sindicato dos burros”, e aí... Não sei se é essa sequência, mas também tanto faz, o da Cecília, “Ou isto e aquilo”, que só isso...

 

P/1 – Foi à primeira edição?

 

R – Primeira edição. Quem ilustra é Maria Bonomi.

 

P/1 – Ah, a Maria Bonomi? Que legal! E você tem esses exemplares?

 

R – Tenho, mas estão numa exposição do Fernando Lemos que deve acabar na Galeria Olido - Fernando Lemos, o fotógrafo. Sabe onde é a Galeria Olido?

 

P/1 – E ele tem quantos anos?

 

R – Ah, deve estar perto dos 80. Eu não o vejo há muito tempo, mas tem que estar, pela lógica...

 

P/1 – Entendi. É maravilhoso, porque agora a ideia é [que] através das entrevistas a gente vai levantando essas conexões pra poder avançar.

 

R – E o Fernando é um português muito engraçado, mas muito! Eu não sei se entende o que ele fala, porque ele tem um sotaque, mas ele é muito divertido. E olha, eu acho que em 1964 eles nem fugiram do golpe, acho que fugiram do fisco.

 

P/1 – E você ficou quantos anos com eles como orientadora pedagógica?

 

R – Fiquei até acabar. Eu tive… Não é um privilégio, mas eu tinha esse nariz curioso, então eu fui orientadora da Giroflé, fui orientadora do Arena, na Excelsior chegaram a me chamar depois pra ficar com ele na oficina, então eu fui abrindo uns caminhos que ninguém tinha tentado até então, nem sei se tentaram depois, pra ficar numa orientação do espetáculo, da literatura. Pensa bem, isso é 1960, eu nem era formada e já estava querendo sair da sala de aula, já sabia que tinha outro pedaço que devia ter um olhar mais atento, sem ser didático. Então acho que eu fiquei até acabar na Giroflé, não sei.

 

P/1 – Entendi. Agora confere isso, seu primeiro livro, o “Deixa isso pra lá e vamos brincar”, é de 1986?

 

R – Livro pra criança?

 

P/1 – Infantojuvenil?

 

R – Deve ser, [Editora] Salesianas.

 

P/1 – Aqui não me diz. Por que? Você tem outros que são pra professores?

 

R – São. O primeiro mesmo é o “Teatricina”, que não existe mais nem por decreto.

 

P/1 – “Teatricina”?

 

R – É. É o fim da escolinha, é o registro da escolinha.

 

P/1 – Tá. Isso é em que ano?

 

R – Isso é 1979, alguma coisa assim. É da Funarte, não tá escrito aí? Deve estar.

 

P/1 – Tá, em 1979.

 

R – É, mas esse acho que nem em sebo.

 

P/1 – Então você faz esse primeiro livro e aí o que acontece? Ele que te motiva?

 

R – Eu vou te contar. Eu fiz esse primeiro livro, que saiu pela Funarte, porque eu tinha que deixar um registro da escolinha, que foi uma experiência rica e bonita demais. Eu fechei a escolinha porque faliu, ela quebrou economicamente. Tanto eu berrei que a arte tinha que ser incluída no currículo que ela foi e aí não tinha aluno mais. Inclusive pais, dois economistas pais de alunos, vieram fazer as contas, dízima periódica, pi e raiz quadrada: não dava, não tinha jeito. Ela terminou.

Foi à primeira pessoa que usou a casa do Mário de Andrade pra fins comerciais na [Rua] Lopes Chaves, que também não era um lugar pra ter escola de criança. Eu fui a primeira, antes da Miriam Muniz. Você tá olhando assim? Fiquei anos pagando as dívidas e fechou, então eu não podia deixar sem registrar. Só que naquela época eu jurava de mão e pé junto que eu não sabia escrever - jurava não, eu tinha certeza. Eu li tanto. Qualquer pessoa, provavelmente, que leu muito acha que não sabe escrever. Você vive com parâmetros muito fortes e quem é você? Não precisa ser mineiro pra saber que você é contemporâneo de Drummond, não se meta a besta. Então imagina que eu ia escrever. Quem escrevia pra mim era o Samir; eu escrevia item, sabe?

 

P/1 – Sobre essa questão de escrever...

 

R – Então eu não sabia nem como ia fazer esse livro e as moças da escolinha que estavam comigo sabiam muito menos. Um dia me deu um insight quando eu peguei um remédio em cima da geladeira da casa que a gente estava e vi que podia fazer em forma de bula. Eu empresto pra vocês verem junto comigo. Foi legal.

 

P/1 – Você fez em forma de bula?

 

R – De bula, é nome de remédio! Então não tem que escrever nada. Tem uma parte que é uma entrevista que, digamos que veio o corpo teórico. Quem fez foi o Vladimir Soares, que era jornalista do Jornal da Tarde, muito meu amigo.

 

P/1 – Então teve o “Teatricina” e na sequência?

 

R – Então, o Vlad é quem teve que escrever, coitado, me amaldiçoa até hoje, porque não só eu não sabia escrever, como as professoras que também fizeram parte do livro não sabiam escrever, ele teve que refazer quinhentas vezes. Eu só descobri que sabia escrever em jornal, porque aí que começou, começou em jornal. Você quer que eu conte ou não? O jornal não precisa?

 

P/1 – Não, isso a gente pode pular, porque na verdade você faz mais quatro livros antes de estrear para o público infantojuvenil e são livros importantes...

 

R – Sim, mas são todos livros vindos de jornal.

 

P/1 – Ah, eles são coletâneas. Então era legal você falar que tem...

 

R – Porque fiquei muito tempo depois que eu fechei a escolinha dando cursos pelo Brasil inteiro, naturalmente em cima do que eu tinha feito com as crianças e que elas tinham triado como material legal pra mim, o que elas acharam chato, aborrecido, idiota, lixo. Foi o que eu falei pra elas no papo no Scholem, na conferência: elas são a minha bibliografia, o que não passou no crivo delas as professoras se livraram pra sempre e o que elas consideraram interessante, legal, susceptível, divertido ficou.

Fiquei andando de cima pra baixo e fui também muito júri de concursos, disso e daquilo. E era muito chamada pra coisa de teatro infantil - Deus me proteja, abençoe e me dê o céu pra sempre. Num desses concursos de dramaturgia infantil eu já estava enlouquecida, mas porque só eu mereço tanta bobagem. Porque entre tantos seres na terra fui eu a escolhida pra ler esses desatinos todos e ainda por cima tão mal escritos? Mais ou menos o que eu disse posteriormente sobre um livro do Paulo Coelho que não era livro ainda. Era um texto que eu achei melhor não editar pelo que, naturalmente, seu Civita vai me agradecer até o fim da vida, mas isso a gente comenta outra hora.

Não tendo o que fazer, alguma noite eu montei um artiguinho sobre a minha perplexidade, ira, ímpetos assassinos etc em relação aquilo. Deixei com o Vladi e fui embora pra algum lugar. Acho que fui descansar num hotel. Quando eu voltei, ó surprise! Estava impresso, editado no Jornal da Tarde. Quase morri.

 

P/1 – Olha, no JT?

 

R – JT, não porque o Vladi trabalhava lá - Vladimir Soares, ele era crítico de música, de jazz. Era muito amigo meu, continua sendo, mas naquela época a gente estava muito mais próximo, ele morava em São Paulo. Não sei como eu recebi um recado que o Maurício Kubrusly - eu não sei nunca falar - , que era o editor de variedades na época, me mandou chamar.

 

P/1 - Mauricio Kubrusly, esse da Globo?

 

R – Na época, ele era do Jornal da Tarde, pouco menos atacado. Me mandou chamar, fui e ele falou que gostaria que eu escrevesse alguma coisa. Eu falei: “Tá.” Ele falou: “Se surgir alguma pauta…”

Eu fiz treze. Por que treze? Porque eu gosto do número treze, entreguei. Ele queria as treze. Eu falei: “Tá legal, então você escolhe a primeira.” Ele escolheu literatura infantil. Ele podia ter escolhido qualquer outra, mas depois, pensando bem, eram todas ligadas a alguma coisa que não existia ainda, estava nebuloso. Era ligado a produção cultural pra crianças, literatura, disco, coisas assim pra criança.

Fui pra casa e comecei a procurar coisas de literatura infantil. Resumindo, eu fiz um artigo interessante, consistente. Entreguei pra ele. Ele falou: “Você sabe a diferença de uma matéria pra jornal e uma pra editora?” Eu falei “Por que?” Ele falou: “Porque quarenta laudas a gente entrega pra uma editora, não pro jornal.”

 

P/1 – Quarenta laudas?

 

R – Quarenta. Eu não sabia nada. Não é a única coisa que eu não sabia, a minha ignorância é ilimitada, aí ele me mandou ir pra casa, digamos, resumir. Eu, me sentindo outra vez uma judia perseguida, fui.

Cortei, cortei e assim mesmo saiu uma matéria de duas páginas e eu pus bibliografia. [A matéria foi] aplaudidíssima, aí ele me pediu as outras. Fui fazendo e as matérias foram fazendo sucesso, porque eu entro com o meu deboche, que é um pouco inusitado. Nós tivemos altas brigas porque eu punha reticências e o Maurício dizia: “Não pode reticências no jornalístico.” Eu dizia: “Tô me lixando, eu sou professora e professora não põe ponto final, não tem direito de pôr ponto final.” Então eu ficava com umas matérias que não tinham mais fim, reticências, reticências...  Se hoje eu já falo pouco, você imagina o que eu era - barroca, então eram oito adjetivos pra elogiar e dezesseis pra esculhambar. Não tinha mais fim: reticências, pontos, exclamação, interrogação.

Nisso eu fui descobrindo que estava fazendo alguma coisa, que era a crítica da produção cultural pra criança, aí me ofereceram uma coluna pra criança e eu comecei a fazer. Foi muito legal, isso foi uma coisa ‘novésima’. Eu dei voz pra criança, entrevistava criança. Inventei uma coisa super legal, porque eu falava com a criança pelo telefone, então não tinha barreira nenhuma. Tinha criança que marcava comigo na padaria, sabe? Era um barato, estava protegida. Ela podia dizer o que ela quisesse.

Eram as minhas referências: eu falava sobre brinquedo, música, quer dizer, disco, teatro, essas coisas que eles estão inventando agora, mas só que isso era 1970. Foi muito legal. Um belo dia eles me tiraram, eu fiquei muito puta e eu fazia ainda...

 

P/1 – Sem mais nem menos?

 

R – Sem mais nem menos. Tiraram e queriam que eu continuasse só fazendo a crítica de literatura infantil. Eu não queria mais nada, fiquei furiosa, amarga, decepcionada. Claro, eu falava mal dos brinquedos da Estrela, eu escolhia a dedo os programas de televisão da Globo. Você pode imaginar, então tudo que podia ser anunciante era esculhambado, coisa que eu fiz também com clareza absoluta no programa da Globo, como chama aquele agora? “TV Mulher”, que eles me chamaram pra fazer também um quadro [para] criança, e quinze dias eu vi que falava depois de uma bicha que falava sobre política, uma que pintava o cabelo de acaju, que é reacionária, burra e terceiro time. Ney não sei o que lá...

 

P/1 – Ney Gonçalves Dias?

 

R – Isso. Não é possível. De manhã eu acordava, falava depois dele e antes do Clodovil, ninguém tava nem aí pra mim. Aí eu falei: “Não, o jeito vai ser cair fora e caí rápido.” Todos, eu falava realmente assim: “Nunca vi um brinquedo mais idiota da Estrela. A Estrela faz isso? Vocês sabem bolha de sabão? É grátis, absolutamente maravilhoso! É um brinquedo encantado, mágico, pai faz com os filhos, não custa nada” e [me] dediquei a isso. Um mês e meio eles me mandaram embora, lógico!  Mas esse foi de caso pensado, porque não valia a pena acordar cedo pra aquilo. E com o Jornal da Tarde eu fiquei muito brava, mas muito brava mesmo.

 

P/1 – Então, Fanny, quando se dá o primeiro volume dessa reunião de artigos de jornal?

 

R – Foi “O estranho mundo que se mostra às crianças”. Achei que os artigos já tinham saído, tinham sido gostados. Eu não tinha ainda uma exigência de linguagem, achei que era só recortar, alguém redigitar pra mim ou tinha secretária na época e foi. Claro que hoje eu morreria de vergonha, eu hoje refaço qualquer texto quinze, dezesseis, dezessete vezes, mas na época não tinha nem toques pra isso, então foi “O estranho mundo que se mostra às crianças”.

Eu assustei. As pessoas gostaram, demorei um pouco pra elaborar. Um pouco antes saiu aquela antologia que também foi uma sacada de ideia - a realização foi pífia -, que foi “O sadismo da nossa infância”. Saiu no mesmo ano, eu acho, mas um pouquinho antes, então meio que desvirginou eu saindo. Daí a minha secretária apareceu com um conto e pôs. A mãe da secretária mandou, [é] verdade, então não fica uma coisa não é nem amadora, é um Deus nos acuda. Era uma ideia legal, teve uma senhora chamada literatura infantil que ficou tão horrorizada de alguém pensar numa coisa tão absurda como a criancinha ser sádica que fez um volume contra.

 

P/1 – Ah, é?

 

R –Teve. Eu não lembro do nome da senhora, era Antonieta alguma coisa - não Antunes, lógico. Enfim, poderia ser um livro polêmico e dar pano pra manga muito interessante se eu tivesse brecado algumas contribuições não pedidas ou mesmo pedidas, mas devolvidas e pedido um pouco mais de profissionalismo. Quase todo mundo tirou alguma coisa do diário, redação da quinta série.

Depois veio o “Quem educa quem?” que já foi mais trabalhado, alguma coisa de jornal e boa parte feita especialmente...

 

P/1 – Só um parêntese: você procurou as editoras ou as editoras te procuraram?

 

R – Imagina. Não, essa coleção era uma coleção que eu coordenava na [Editora] Summus, chamada “Novas buscas em educação”, que foi uma coleção importante que marcou época, eu mudei tudo.

A Summus me procurou, pedindo pra organizar uma coleção. Falei: “Se é pra organizar uma coleção do Piaget tem muita gente muito mais competente do que eu pra fazer, tem mesmo que sabe, que [tem] critério, que sabe o que é importante. Eu não sirvo pra isso. Se for pra encontrar um romance que tem um subtexto educacional, que dê pra polemizar com…, aí eu posso fazer.”

Eles toparam. Então eu achei o “Problemas da literatura infantil” da Cecília. Era uma separata que eu tinha da época da escola normal e que foi a primeira vez que saiu um texto do Kascha, que ninguém conhecia no Brasil: “Quando eu voltar a ser criança” que era um romance, o “Eco divertido”, “Imagina quem” e outras coisas do tipo. Isso saiu na minha coleção porque era minha, mas era uma coleção que devolvia todas as teses. Não saiu nenhuma tese, eu devolvia todas dizendo: “Quando você aprender a escrever você manda pra uma editora, quando tiver uma opinião própria também.” Aliás, eu tenho que contar do Paulo Coelho. Não tem nada a ver com isso, mas ficou assim: eu tive por um tempo o melhor trabalho do mundo pra quem é devorador de livro, que era ler, dar pareceres pro Círculo do Livro que não era parecer de inédito.

 

P/1 – Sim, mas de publicação.

 

R – De publicação, então você lê livro que já existe, que já foi editado. Só dizer se vai sair em capa ou em capa dura. Você lê o livro, não compra o livro e recebe pra ler. É dos deuses aquele trabalho.

Eu lia dez, doze por mês e de vez em quando eu tinha que ler os infantojuvenis, coisas desse tipo. Uma vez me caiu nas mãos, eles me pediram pra ler um texto manuscrito e… Sei lá eu como é que chamava...

 

P/1 – “Diário de um mago”?

 

R – Eu acho que era, não sei. Eu li aquilo pasmada e escrevi: “Sugiro que o autor complete o primário, aprenda a escrever porque não sabe escrever sintaxe, gramática elementar. A história não tem sentido, tem que no mínimo de estar chapado pra poder escrever umas coisas desse tipo. Não tem a menor condição de editar, não tem pé nem cabeça. Sugiro devolução imediata e não se tocar mais no assunto.” Eu nunca deixei o meu endereço nessas fichas, senão o doutor Victor estaria atrás de mim. Tinha outras gracinhas, infelizmente eu não lembro porque faz muito tempo. E o Fernando Nuno confiava muito na minha opinião, deve ter dado por findo mesmo o assunto.

 

P/1 – E aí então nessa coleção da Summus saíram esses outros, até o “Quem educa quem?”

 

R – Saiu o “Quem educa quem” e essas coletâneas. Saiu “Mito da Infância feliz”, que era muito bonito, já foi uma proposta menos anarquizada, e saiu também os “Ritos de passagem da nossa infância e da nossa adolescência”. Mesmo assim, não foi a penetração pra discussão com professoras que eu imaginei que fosse. Eu achava que seria um jeito poético ou também humorado de discutir os assuntos de toda infância feliz - que é feliz uma ova, é só fechar o olho e lembrar que de feliz não teve tanta coisa assim. Mas não aconteceu, não sei se por erro de escolha de autor, se por falta de marketing, por alguma coisa não chegou tanto assim. O “Quem educa quem” teve também partes especialmente feitas e aí ele estourou. Dei até entrevista no Faustão, mas quando era no “Perdidos da noite”.

 

P/1 – É mesmo? Na Band?

 

R – “Perdidos da Noite”, lá na Bandeirantes. Ele, de pé, é enorme. Eu olhando pra cima, porque mandava dizer que na escola era bobagem, eu quase virei Santa Teresinha e o livro era muito bom, era muito engraçado. Hoje não, eu até pedi outro dia pro Raul tirar do catálogo porque está superado. É um livro de 1985, mas aconteceu também que veio junto com o aparecimento do Lula, então era uma coisa meio “eu não precisei ir pra escola”, era uma… Não apologia, mas um encantamento com o autodidata. Era uma coisa que não estava explícita, mas que pra mim era um elogio pra minha mãe, sabe? Não precisava estar explícito, mas ela foi uma autodidata. Entrevistas muito lindas, combinou isso com aquilo, com os autodidatas do país, coisas bonitas assim, entrevista com um mestre dos grandes mestres, perguntando dos grandes professores, quem foi o grande professor do Paulo Freire, do Candido, mudando as óticas e o livro. Foi um livro que mexeu, até hoje ele é um pouco falado.

Depois os outros livros de educador, a Scipione me procurou pra pedir um livro de arte e educação e eu falei: “Chega, esse círculo também está encerrado. Se quiser, eu faço literatura infantil.” Foi assim que eu encerrei minha parte, aí fui estudar literatura infantil. O livro saiu em 1989 e aí eu me centrei, estudei muito. Eu já vinha trabalhando, mas de maneira dispersa. Alinhavei, costurei, calhei e quando eu fui, digamos, didatizar da minha maneira ‘cutucante’ pro professor, eu já pude passar pra eles e é um livro que funciona.

 

P/1  - Fanny, qual é a relação dos professores com você, os seus leitores?

 

R – Ah, os que leem.

 

P/1 – Sim, os que leram os seus livros. Como é que foi?

 

R – Também não sou a rainha do MEC, exatamente. Se eles puderem, me enfiam atrás da cortina, porque eu incomodo muito. Incômodo demais, além do que a academia me odeia, porque eu to falando mal da academia o tempo todo; eu me formei e falo que é uma bobagem. Eu pedi demissão da Globo, que eu te contei, e pedi demissão da USP. Eu sou, acho que o único caso, um dos poucos casos disso. Da USP, eu pedi [demissão] por tédio. É verdade, a Dona Mariinha, que tinha me nomeado assistente dela, eu sei que ela falou: “Fanny, pelo amor de Deus, porquê? Deu tanto trabalho - rock, não sei o quê, não queriam porque você é comunista.” Mas eu não pedi pra ninguém fazer isso, é muito chato!

 

P/1 – Fanny, quando sai o primeiro livro que relação de retorno do público você teve?

 

R – Olha, as pessoas que me leem sempre são muito surpreendidas, sempre são muito… Não diria atônitas, eu quero uma palavra menos forte, mas elas não esperam. É muita molecagem, digamos assim, muita transgressão pra uma pessoa que saiu da USP. Aí eu tenho que explicar claramente que a minha luta nos últimos anos, grande, importante é deixar de ser filha da USP e eu consegui, aleluia. Eu fico muito surpresa como sou citada.

As pessoas que me leem, quando eu chego numa escola pra fazer um papo, olham pra mim com cara de Santa Izildinha da veia, sabe: “Olha, é ela!” Em geral, eles ficam decepcionadíssimos, porque imaginavam alguém alto, pelo menos, ou vestida de gente, ou de óculos, andando de tailleurzinho, alguma coisa minimamente decente, não alguém que senta, dá risada, fala palavrão, umas coisas assim, nada junta muito. Depois elas acham encantador ou é muito pra cabeça, elas levantam e vão embora. Criança e jovem simplesmente alucinam, porque eu tenho a idade deles, mais ou menos.

Posso fazer um parentesinho? Eu estive há pouco tempo em Porto Alegre patronando uma semana do livro numa escola judaica de lá, aí um pequerrucho de cinco anos olhou bem pra mim e falou: “Fanny Abramovich, você tem zero ano!” Não é uma maravilha? Não é uma gostosura? Então é essa coisa: pra criança, pro jovem eu falo como eles. Se eu chego com referência ou sem referência, é igual. Esse sábado eu vou encontrar com oito adolescentes que me telefonaram e querem me conhecer. Na boa, eles não acham nenhum quebra-cabeças, sabe? Marcaram no [Shopping] Center 3, um negócio desse, tá anotado.

As professoras, elas se matam. Em Belém do Pará, uns anos atrás eu fui falar, fui dar um curso, uma assessoria lá pra Secretaria de Cultura e falar pra professores, bibliotecários. Enquanto eu estava falando, eu nunca vou esquecer, tinha uma bibliotecária sentada numa cadeira um pouco mais alta; ela literalmente caiu da cadeira - eu não tô inventando! Tem coisas que a gente não é capaz de inventar. Ela nunca tinha ouvido falar que a gente pode adorar, ter prazer em ler. Ela ficou tão pasmada, absolutamente tão aturdida que ela caiu, a cadeira caiu, tudo caiu.

 

P/1 – O mundo dela caiu.

 

R – O mundo caiu e a Maysa não estava. Entende? Porque agora é complicado, pra algumas que sempre falaram que eu falei ou pensaram o que eu digo é muito aliviante, é muito compensador; pra maioria que se defende e só quer achar que é tudo muito difícil, que nada acontece, que elas são umas desgraçadas, que elas não ganham, que não sei o que…

Quando eu conto histórias que acontecem com meus alunos, ex-alunos... Outro dia, numa faculdade aqui falaram: “Como é que você se sente com as maluquices que você faz com seus alunos?” Juro. Olhei pra ela, ela falou: “Bom, eles gostam de você.” Não falei nada. Eu falei: “Olha, eu acho que realmente maluquice eu nunca fiz com nenhum aluno. O que eu fui [é] um pouco relapsa, fui mesmo, foi com os de faculdade, nunca me interessei e fui ganhar o meu, que eu precisava. Mas eles sabiam, eu entrava no primeiro dia e dizia: Tô aqui porque eu preciso pagar algumas contas.” Porque faculdade nunca me interessou.

 

P/1 – Então Fanny, pra gente terminar essa rodada eu queria só que você falasse do seu primeiro livro, que é “Deixa pra lá e vamos brincar” não é isso?

 

R – Ah, mas esse também é recolhimento de, digamos, matéria dessas pequenas de jornal pra criança, não é criação.

 

P/1 – Então o de criação seria qual, o “Espelho, espelho meu”?

 

R – “Espelho”, quer que fale desse?

 

P/1 – Vamos falar desse pra gente fechar essa rodada?

 

R – Pode ser, embora tenham ficado alguns, mas também não precisa falar de um por um de pedagogia?

 

P/1 – Não, não depois a gente só vai pegar alguns que vocês acha que são marcos no seu trabalho.

 

R – Tá certo. O “Espelho, espelho meu” aconteceu assim: um belo dia chegou uma moça em casa, eu não lembro o nome mais. Teresinha? Uma coisa assim.  Ela estava começando uma coleção nova na Brasiliense - faz muito tempo, Caio Gracco ainda era vivo - chamada “Preto no Branco”. Não sei se você se lembra dos livrinhos, mixurucos, pareciam apostila. Não?

Ela me disse que estava convidando jornalistas pra escrever uma história. Trinta laudas, não confundir com quarenta, embora fosse editora. Estava chamando só jornalistas, ela tinha convidado o Ruy Castro, o Gilberto Mansur, não sei mais quem. Não tinha nenhuma mulher, então veio me convidar, se eu podia escrever. Falei: “Ah, Teresinha, Sueli, Marlene, eu não sei, imagina! Ficção, você tá louca, eu realmente não sei. Brigada pela lembrança.” “Ah, mas você sabe, você tenta?” “Ah, claro! Vou tentar, daqui a uns seis meses, qualquer coisa te telefono.” É porque afinal mulher, não sei o quê…

Tomamos um café. “Daqui a uns seis meses eu te telefono.” “Tá bom, te telefono.” “Prazer!” “Prazer.” Um pouco de teatro, mas a questão era essa, aí ela foi embora e eu fiquei com aquilo [na cabeça], “mulher, você é a única mulher”, aí eu falei: “Menstruação!” Primeira menstruação.” Realmente, eu tenho a maior inveja do mundo do Ricardo, ele sabe tudo que eu sempre quis saber, mas ele não menstruou. Fiquei pensando um pouco. Daqui a pouquinho eu já tinha lembrado de um monte de coisas.

Fui deixando, fui andando e uns dias depois eu liguei pro meu gineco porque eu já não lembrava mais de algumas coisas, algumas coisas que não lembrava mesmo. Ele era com quem eu brincava de médico e enfermeira desde pequena, continuamos brincando até hoje. Ele me lembrou de umas coisas que eu já tinha esquecido de primeira menstruação.

Em suma: trinta dias depois ou menos que isso - não vou dizer 28 porque daí é forçar muito a barra. Enfim, vamos fazer um pouco de teatro: 28 dias depois exato, um pouco de cólica, tensão pré-menstrual - que na minha época não tinha, chamava cólica. A gente usava, fala direito!

[Quando] deu trinta laudas, eu entreguei o texto, juro. Não é nenhuma obra do Senhor, evidente, era um texto simples. Eles me pediram pra tensionar um pouco, porque não tinha uma festa, mas foi uma coisa muito simples, era uma linha narrativa única. Enfim, eu consegui menstruar, consegui escrever.

O livrinho… Era uma coleção muito mixinha, você vendo vai lembrar, enfim saiu, andou uma época. O Caio desistiu da coleção, liberou para todos os autores - ele ainda estava vivo, lógico - aí eu ofereci pra [Editora] Atual. A Atual já tinha dois livros lá, o “Quem manda em mim” e “As voltas do meu coração”, mas o editor falou: “Pra Atual é muito curtinho, você vai ter que fazer um outro conto, encontrar um outro tipo de solução, porque é muito pouco.” Ah, eu esqueci: quem ilustrou foi o Carlinhos Moreno, que é o “garoto Bombril”.

 

P/1 – Ele ilustrou?

 

R – Claro, ele ilustrou!

 

P/1 – Ele é um talento ‘mil e uma utilidades’!

 

R – “Eu não me conformo, você gastando aí sendo o garotinho Bombril, me dá nos nervos!” E ele fez, não sei se você sabe, um curso de ilustração na Califórnia, de artes gráficas, isso há muitos anos atrás. Então ele ilustrou, foi o primeiro livro meu e foi ilustrado por ele, nem ele lembrava mais. Nem sei se ele chegou a ilustrar muita coisa depois.

Quando eu fui entregar pra Atual eu fiquei pensando: “O que é que eu faço?” Fiquei pensando um movimento paralelo de maturidade do menino, fiquei pensando nisso, naquilo, até que me deu uma ideia que eu gostei: a menina Débora entrando, tendo a menstruação e a mãe, a Malu, entrando na menopausa. O pai pedindo asilo político em Constantinopla e querendo voltar, mais ou menos em 2018, com a garantia de que o Lula não fosse candidato. E aí ficou legal porque são as duas, a menina e mãe, vivendo conflitos com o corpo: uma entrando com os hormônios, a outra perdendo os hormônios, a menina infeliz porque tem bunda, porque não tem bunda, porque tem cabelo cacheado, porque não tem cabelo cacheado, porque tem peito, porque não tem peito. Ela é muito engraçada, de repente ela fala: “Esse meu armário é um atestado de pobreza.” Eu adoro! A mãe fazendo ginástica e as duas não se encontrando no corpo, esse paralelo ficou muito legal.

A ilustração tá horrenda, feita por um tal de Edu, sem acabar o nome e ter sobrenome e vai ter agora uma nova ilustração. Sempre os meus livros, independentemente de ter que ter mais texto ou não, de vez em quando eu pego e refaço, pelo menos a linguagem.

 

P/1 – Mas como é que foi a vida do “Espelho, espelho meu” com o público?

 

R – Ele anda legal, tem muita gente que lê, a mãe e a filha, eu sei. Uma atriz de Porto Alegre me sondou. Ela quer montar, não sei, não pensei nunca em teatro, mas foi a mesma atriz que fez “Que raio de professora sou eu?” no palco, então eu não sei. Ela perguntou até se eu adaptaria pra teatro, eu não sei fazer isso.

 

P/1 – Muito obrigado. E vamos te incomodar então uma última vez, só pra gente terminar aqui um pouco dessa historinha sobre os seus livros, tá?

 

R – Tá bom.

 


(pausa)

 

P/1 – Então, Fanny, pra começar, a pergunta é: conta um pouquinho dos seus livros infantojuvenis, a trajetória de alguns deles.

 

R – Você me telefonou e me disse que eu não tinha quase falados dos meus livros, é verdade?

 

P/1 – É verdade.

 

R – Meu Deus do céu, que coisa! Eu falei, falei, então quando você me telefonou eu fiquei tão intrigada que eu resolvi separar alguns. Não vou conseguir falar numa sequência cronológica, mas de qualquer maneira este aqui foi o primeiro pra criança, o “Também Quero pra Mim”, foi pela editora Studio Nobel. Quem coordenava essa coleção era o Ricardo Azevedo e ele me pediu pra escrever um livro pra criança. Quem ilustrou foi o Alcy [Linares],  que tinha ilustrado o meu primeiro... Não, primeiro não, tá aí, depois eu mostro. O primeiro juvenil da Ática.

“Também Quero pra Mim” é um livro singelo sobre todo mundo que tem invejinha. E tem, né? (risos) Então é aquela transação: “Você é neto de português, não quero ser neta de português, mas eu também quero um pastel de Santa Clara pra mim. E também quero ir pra Bariloche, eu também quero brinquedo de não sei quem!” É uma coisa, não tem por que ficar de plantão proibindo, é uma invejinha que é tão humana e tão normal, então o livro é isso, uma roda em torno disso. Nada...

Foi muito surpreendentemente fácil, eu não esperava, e foi rápido, de certa maneira, porque foi curto - nunca mais eu fui tão curta na vida, foi uma decepção, eu pensei que eu ia ser curta. E foi um livro pra criança pequena, eu também nunca mais fiz pra criança tão pequena. Pra criancinha mesmo, sete anos, primeiro ano do primário. Eu curti, “Também Quero pra Mim”, também quero mesmo.

É isso, foi um desafio, me pegou de susto, me pegou de surpresa, eu fiz. Na verdade, eu falei pro Ricardo: “Tá, também quero, também vou escrever pra criança”, e fiz.

 

P/1 – Tem tudo a ver com o Alcy, inclusive, né? O Alcy é perfeito pra esse tipo de trabalho.

 

R – O quê, o Alcy?

 

P/1 – É.

 

R – Pois é! O Alcy, deixa eu pegar aqui… Quando eu fui escrever o primeiro juvenil pra Ática, embora... Não, falo juvenil, infantil, tudo junto?

 

P/1 – Fala, pode juntar.

 

R – Eles me pediram um juvenil e tinham pedido não sei o quê, não sei mais quanto. Quando eu entreguei, fui paquerada direto pelo Fernando Paixão - altas paqueras literárias, evidente, pelo Fernando Paixão. Que se torne claro.

Quando eu levei o texto - eu lembro até hoje e falo pra editora -, quem recebeu foi a Carmen. Eu nem sabia que a Carmen existia, a Carmen Lúcia; lembro só que ela olhou pra mim e falou baixinho, ela tava toda encolhidinha e falou: “A gente não tem o costume de receber textos dessa qualidade.” Fiquei roxa.

Era um texto… Você leu? Acho que você vai gostar, é legal, é um texto que… Desculpe a pretensão, mas, digamos, de quem gosta de cinema, então é como se a câmera mudasse de lugar e tudo não é daquele jeito, dependia de onde você estava, onde estava a câmera e como mudou por conta do foco ser outro. São quatro pessoas, quatro jovens que vão passar um feriadão numa praia, então são coisas rápidas que acontecem num feriadão, não é pra grandes elucubrações. Tem a primeira transa, uma menina que dá pra um cara desconhecido, tem um moleque que é seduzido por uma mulher bem mais velha, tem um menino que bebe e tenta se suicidar - ninguém sabe se ele tenta se suicidar mesmo, porque tem gente que acha que ele pulou de bêbado, tem outros que acham… Enfim, você que lida com câmera, você sabe. É muito legal! Lógico que não fui eu quem inventou isso, quem viu “Rashomon” sabe do que eu tô falando. Evidentemente não acordei delirante, megalomania, é só a mudança da câmera. E me deu muito prazer.

Quando eu fui ver as ilustrações, eu tive um ataque, porque eu lembrei que eram as ilustrações da Ática, dos juvenis daquela época. Entrei e falei: “Olha, eu sou comunista, sou membro do Partido Comunista, mas se vier um desenhista da voz operária eu vou ter um ataque já. Eu não quero nenhum Jaime Leão, pelo amor de Deus!”  Antes que eu começasse a conclamar a armada Brancaleone, apareceu do nada o nome do Alcy e aí deu muito certo, porque tem a ver com humor, é leve. Então ele fez esse texto. Esse livro mudou de capa agora, ele não era ensolarado; também nos perdemos tanto daquela época, mudou um pouco de formato, mudaram algumas coisas. Essas páginas também viraram cor de laranja, essas coisas todas, e pra mim o impacto, surpresa, susto e espanto total, ele virou objeto de tese. Parece que a moçada gosta porque eu escrevo em português, escrevo em gíria, invento palavra e tem histórias que não são completamente abobadas, né? Enfim, tem transa real, tem conflitos e dúvidas. Parece que gostaram muito, então é um livro que eu gosto. É um desses livros que eu mexi quando ele mudou de capa - de capa não, capa é o que ele chama mesmo, mudou de casaco e xale e bolsa, de acessórios, mas gostando dele. Tem alguns que eu nem mexo mais, quer dizer, nem mexo. Eu aposento porque não tem mais o que dizer. É uma coleção gostosa, “Sinal aberto”. Não foi o primeiro juvenil, já era o terceiro, quarto, mas foi o primeiro da Ática e o editor agora está querendo outros meus, está esperando na fila.

 

P/1 – Eu vou perder a minha aposta na pergunta, então.

 

R – Faça!

 

P/1 – Você, que não tem uma relação tão boa assim com a academia (risos), como é que foi ver a tese?

 

R – Olha, a tese… Metade da tese ela fez uma entrevista comigo. Eu levei o maior espanto, eu não sou tese, não dá pra me quantificar. Ela estudou não sei mais o quê, não sei quanto, mas saiu de uma premissa que não precisava fazer tese pra isso, pra dizer que eu escrevo diferente dos outros. A professorinha lá do Bom Retiro também sabe e a moça do MEC que não compra meus livros, ela sabe que não compra porque o português não é, como diria, correto, exatamente. Ela não compra porque tem muita gíria, porque tem muita palavra em inglês, em francês, porque tá tudo misturado, porque tem muito neologismo, porque, como diz a Tatiana Belinky, tem “fannyês” e eu tô ficando completamente sem vergonha.

Agora, quando a idade vai vindo, eu não lembro de palavra, eu não tô nem aí, eu invento. E invento não é só palavra, invento tempo de verbo, invento tudo! (risos) Não dá, eu não sou mensurável! Eu sou Emília, não sou Visconde, não adianta querer me enquadrar, não vai dar certo nunca. Tanto que ela disse que o que fez mais sucesso na defesa de tese dela foi a entrevista comigo.

 

P/1 – Que era você.

 

R – Respondido?

 

P/1 – Respondido.

 

R – Tá bom. Ah, olha aí, foi quase de encomenda, esse foi outro livro juvenil. “Que Raio de Professora Sou Eu?”, que foi pra [Editora] Scipione, não era igual a Ática, e não era a mesma coisa que a Ática ainda, era uma empresa separada. Eles me chamaram, eu tinha feito “Gostosuras e Bobices”, e eles me pediram. Já estava correndo aquela história, “a Fanny escreve pra jovens”, então me pediram pra escrever um diário de uma professora. Achei que a ideia não era ruim, mas que diário é uma coisa óbvia, muito datada., Você põe “ela ia votar no Brizola”, três eleições depois fica uma coisa ridícula, né? Ou ninguém mais sabe do que se trata e todas as circunstâncias também ficam. Então eu propus um caderno de anotação, daqueles que todo mundo tem ou tinha, e fiz em cima de um caderno de anotações. Essa daqui virou uma peça de teatro no Rio Grande do Sul, muito legal, então eu gosto muito do título “Que Raio de Professora Sou Eu?”, que foi pra Scipione.

De verdade, ele foi feito pra moleque de quarta série de ginásio, sétima, oitava série, e ele é usado pra burro em pós-graduação - pra você ver por que eu implico, não é à toa que eu implico. Fui fazer uma palestra há não muito tempo, numa faculdade aí que eu não lembro qual era, e eu já estava cansada, então eu falei: “Vamos pegar o livro e ler.” Ia revezando. Eu não vou achar, mas se eu achar, era muito engraçado esse pedaço...

 

P/1 – O trecho que você leu?

 

R – É. Se eu achar, eu leio.

 

P/1 – E a capa [de] quem é, Fanny, você sabe?

 

R – A capa é da Célia Eid, a filha do Salim Eid. No comments, mas... É legal, né? Foi a editora que achou, não me perguntou nada, e assim foi feito.

Essa professora, que não tem nada a ver comigo e eles acham que sou eu, e não é, é uma professora de História e que o tempo inteiro ela está se revendo. Ela está se separando, então está se questionando como pessoa, como mulher, como professora, e é um tempo, ele vai numa temperatura legal. Então ela pensa nos artistas de que gosta, um pouco nos homens bonitos, aquilo que a gente tava falando de padrão das poesias que ela curte, aí o que estava tão engraçado, não dá pra saber onde está porque é uma colagem, né? Namoricos, questionamentos em relação ao aluno, os questionários que ela faz pra ela mesma são muito bons. Desculpe, depois você tira esses ataques de tosse?

É, eu não vou achar. É isso que dá, professora que prepara aula acha, professora que deixa pra improvisar de repente acha outra coisa e fica até engraçado. Em suma, era uma hora que ela falava da princesa Di. Ela fala qualquer coisa da princesa Di e diz: “Não pode dar certo, ela era uma professora muito mixo.” (risos) E tem um monte de observações que são anos de treino de sala dos professores. Não precisa ser você, dentro de qualquer sala de aula, nem sala de professores pra… Posso pedir? Lê um pedacinho, abre em qualquer página.

 

P/1 – Eu?

 

R – É, por que não?

 

P/1 – Então tá. Isso é inédito no museu aqui.

 

R – Inédito?

 

P/1 – É.

 

R – Ué, que bom. Depois você lê também, tá?

 

P/1 – Pode ler então?

 

R – Uma página qualquer que você ache engraçado, assim, que te dê...

 

P/1 – Abri qualquer uma...

 

R – Vai, manda ver!

 

P/1 – “É batata. Tiro certeiro. Ensolarada, calorzinho, ares primaveris e começam os olhares de cobiça dos meus alunos. Olhos subindo pelas minhas pernas, volteando na cintura...” Adorei esse trecho! (risos)

 

R – (risos)

 

P/1 – “...Os pretextos que inventam para colocar a mão no meu ombro, quando venho de saia, é um sucesso, quase que forma uma fila pra ver as pernas, de perto. Dá pra sentir no ar. Na pele. Na cara deles.

Conheço todos esses passos.,Um por um. E assim mesmo fico sem graça. Provocar isso tudo, a essa altura do campeonato… E em garotos de treze, quatorze anos... Claro, figura de mãe, evidente, de mulher madura. Para eles, o suprassumo da experiente. Ainda mais, sendo professora. Faço cara de desentendimento total. E muita escrevinhação na lousa. Haja giz!”

 

R – Foi perfeito. Um menino “desejante”, não é assim mesmo?

 

P/1 – Sempre. (risos)

 

R – (risos) Quer ler mais um pedacinho?

 

P/1 – Vou passar pra ele. Eu vou ser maldoso, vou passar pra ele, mas tem que ser ao acaso.

 

P/2 – “Me enerva, é que não querem raciocinar, entender, compreender o assunto, seja qual for, muito menos se encantar com ele. De jeito nenhum, cabeça fechada, só decorar, saber o ponto pra tirar nota, e a mínima, que já está muito bom, passou e tchau. Quando não conseguem ter relação gostosa com o estudo me angustia, acham um saco antes de saber do que se trata, fico furiosa, mais ainda quando sei que poderia ser bom e bonito. E aqueles que trazem um trabalho ruim? Justamente os que têm condições para apresentar um incrível, mas preferem fazer qualquer coisa, na última hora, de qualquer jeito. Até pra provar que nenhuma proposta da escola pode ser interessante ou gostosa. Pergunta imbecil, aluno burro, dá nos nervos. E aluno preconceituoso? Que de repente fala ‘é mulher, mas também é gente’, ‘é pobre, mas é limpo’, ‘é negro, sabe como é que é, né?’ Tenho vontade de esganar o pescoço do desinfeliz com as minhas próprias mãos, na hora, fico muito mexida. E é que amam e odeiam com a mesma intensidade, em intervalos mínimos. Querem me matar e logo depois vêm saltitando me dar um abraço. É coisa da idade, este humor de gangorra, vai e vem, vem e vai, só quem ama a barra aguenta. Me seguro pra não reagir igualzinho. Paramos, exaustas, com o rosto pegando fogo de tanta energia saindo, meio roucas de tanto que gritamos. Se aluno irrita tanto o professor, imagine a listinha de reclamações deles sobre nós. O que temos que os enerva, dá curiosidade ou medo de saber.”

 

R – Ok. Então é esse tipo, não sei se vocês curtiram, mas de qualquer maneira é esse tipo de proposta. Não é um diário “hoje eu fui comprar batata no supermercado e saiu caro e comprei não sei o quê e falei com o Luis Roberto no telefone”, mas uma coisa mais abrangente e de reflexão. Sem ser uma chatice, uma “estou pensando”, mas uma coisa [em] que eles também sejam envolvidos e que possam vê-la como gente, irritada, irritadiça, furiosa, descrente com eles e eles também, num jogo de estarem pensando. Escrito desse jeito que eu escrevo, é uma coisa, é divertida e pulsa, não é?

É um livro que já tem anos, deve ter uns quinze anos, pelo menos, e ainda continua se perguntando “que raio de professora sou eu”? O incrível é que esse livro, pasmem, cavalheiros, tá traduzido para o tailandês. (risos)  Eu podia ter trazido, mas esqueci. E a própria editora me perguntou: “Mas como é que você conseguiu isso?” Eu falei: “Eu? O mais próximo que eu consegui de tailandês é o cozinheiro paraibano, que é um mestiço.” (risos) Provavelmente a sobrinha de alguém que mandou pra tia, que é professora na Tailândia, né? Está não sei em que edição.

Que eles sejam professores iguais ou parecidos, que tenham um nível de identificação, é que eu acho incrível, ok?

 

P/1 – Ok.

 

R – Então estamos misturando infantis, juvenis, louvado seja Cristo! Pode pôr aqui.

Agora deixa eu ver o que que eu tenho aqui. Estes aqui são os últimos, vão ficar por último, este também. Então deixa eu falar deste, que este é um livro especial do meu coração. A Sylvia Orthof, que foi uma grande escritora pra crianças; na minha opinião, depois do Lobato, a figura mais importante da literatura infantil brasileira foi ela. Fomos muito amigas, amigas irmãs, e ela morreu. Agora já faz doze anos, mas quando estava fazendo dez, achei que devia escrever alguma coisa pra ela, sobre ela, pra quem tava por aqui. E a gente tem uma ligação muito forte, vira e mexe estou recebendo recadinhos dela, e eu tinha certeza que ela estava sempre me dizendo: “Pelo amor de Deus, escreve logo, antes que alguém faça de mim uma tese”, porque se tinha alguém que não tinha cara de tese, nunca na vida, era a Sylvia, que era louca varrida, divertidíssima, engraçada, inesperada, “maravilhenta”, surpreendente.

Eu quis fazer e dar uma cara de festa mesmo. Eu sabia de quinhentas histórias da Sylvia e pedi pro Gê, que era um dos filhos, ilustrar. Achei que ia ser uma coisa muito atrapalhada, afinal a Silvia é uma figura pública, mas a mãe é dele e não sabia se ele ia topar ilustrar, mas ele topou e ficou um livro que... Quem editou foram as Irmãs Paulinas, porque a Sylvia, que era judia e...

Não sei se eu contei a história de logo que eu conheci a Sylvia. Nós fomos num júri, ao mesmo tempo, de teatro infantil das quantas no Rio. A Sylvia tava fazendo o “Representando o Ato”; eu sou organizada e eu fiquei fascinada como ela tinha fichinhas e tudo organizado. Depois ela me convidou pra assistir à peça dela, que estava em cartaz no Rio, que era “A Viagem do Barquinho”, no dia seguinte, não sei quando. Eu fui. Quando acabou, a gente foi tomar um suco, e daí ela me falou que até doze, treze anos, pensava que era filha de pais nazistas.

Já ouvi de judeu achar tudo, mas ser filha de oficiais nazistas foi a primeira vez. (risos). Não sou eu quem está inventando, a Sylvia era muito pior do que eu, de longe. Eu sou uma mocinha bem-comportada perto do que a Sylvia era, de cabeça. E a Sylvia, porque eles falavam muito baixinho, ela achava que eles estavam conspirando. Tem uma palavrinha iídiche que é mshuge, que é ‘louca’, completamente louca e absolutamente apaixonante por essa cabeça absolutamente fora de qualquer prumo que ela tinha. Eu daria tudo pra ter a cabeça dela por cinco minutos, porque era uma cabeça de ponta-cabeça, em que cabiam as coisas mais loucas.

Eu conto algumas coisas: [na] primeira vez que eu fui jantar na casa dela, era nas Laranjeiras, eu acho, eu estava com uma saia de estrelinha. Muito antes de a dona Marie Rouche aparecer aqui e dar cursos e mandar as pessoas comprarem roupa na Modelle que ela manda, eu já comprava em lojinha desse tipo. Eu estava com uma saia bordô de estrelinha; quando eu entrei, a Sylvia quis tirar na hora a minha saia pra fazer roupas dos bonecos, e eu usava meia-calça colorida. Ela falou: “Você fica com a meia. Vai pra casa de meia e essa saia fica com os bonecos, eles vão ficar ótimos!” (risos) Eu não quis dar e me arrependi até hoje, porque ela seria muito mais feliz, a saia, vestindo aqueles bonecos, ia ser uma glória pra ela.

A Sylvia era um suceder de inesperados, [a] cabeça dela era… Ela era fascinada por maquininhas, então quando descobriu o fax, ela me mandava oitocentos fax por dia. Uma das vezes me mandou perguntar sério se eu achava que ela estava plagiando ela mesma porque, como escrevia muito, ela não sabia mais o que estava escrevendo. Então eu escrevi, montei esse livro em quatro atos, porque a Sylvia era uma pessoa de teatro e, realmente, vocês lidam com crianças pequenininhas de um jeito ou de outro. Tem prima, irmã, sobrinho.

Como a Sylvia pra criança pequena nunca teve ninguém, porque como a Sylvia vem de teatro, ela tem o timing perfeito, as falas dela são curtas. Não tem “arrastação”, não tem verbo pomposo, não tem a Crisálida que virou um não sei o quê. A criança não sabe do que se trata, é tudo “pim, pum”. Tudo na “acontecência”, tudo no ato que é teatral mesmo, tudo muito inesperado e tudo muito divertido, sempre muito divertido. Então eu fiz à maneira de teatro, que tem um prólogo. Onde é que estão os atos? Com licença, um minutinho. E os atos têm, cada um, um nome de um livro dela - se a memória não me falha, “A Velhota Cambalhota”, “Saracotico no Céu”.

No fim, tem o programa do espetáculo, que é guarda-chuva de doideiras com um monte de coisas, inclusive com os dezoito melhores livros dela, porque dezoito é o número judaico da vida. Não pus nem dez, nem vinte; eu pus os dezoito melhores livros. E isso, “Saracotico no Céu”, ela chegando no céu e tá lindo. Eu vou ler só um pedacinho porque é muito comprido. A Sylvia me chamava de cigarra ruiva, então... “Sylvia se despediu da terra subindo pro céu, direto, montada num dragão domado por São Jorge, dois velhos amigos seus. Subiu assobiando serestas enluaradas para agradar seus condutores, ‘cocerando’ de curiosidade. Foi chegar, prosear um pouco com São Pedro, encontrar anjinhos que moravam em seus livros e ser levada por um recital de harpas. Aguentou um pouco, achou chatérrimo, levantou e se mandou de fininho. Atentou, ouviu um pianinho irresistível: Tom Jobim tocando e só atendendo aos pedidos especiais do Noel Rosa, do Zequinha Abreu e do Cartola colados bem do lado, querendo naquela hora só ouvir as suas canções. Parado por perto Pixinguinha, sorrindo inteira, Sylvia deliciou, aproximou, cantarolou, amaciou com cada nota soprada, ‘brasileirou’. A Sylvia era austríaca. Depois da cantoria saiu ‘anjando’, levemente torcendo para encontrar caras conhecidas. Topou logo com os seus poetas amados: Vinicius de Moraes, meio de porre; Cecília Meireles soletrando ‘linduras’; Manuel Bandeira se achegou, carregando no colo o seu porquinho-da-índia, primeiro namorado, Sylvia derramou carinho nos dois. Bandeira foi o primeiro a lhe dizer que levava jeito para escrever, sorriu na lembrança; Drummond e Murilo Mendes levaram um papo muito mineiro. Ela volteou, _____ um ‘uai’ e beliscou um pão de queijo, tudo ‘deliciante’.”

Bom, daí, acho que chega, senão... É bonito, né? Eu queria… É que tem uns pedaços tão lindos, acho que aqui vocês vão gostar. Deixa eu ver, é muito? Não é muito, mas vai ficar muito tempo lendo. Mas eu gosto, eu gosto muito.

Assim, pulando vários pedaços: “Olhou um pouquinho pra baixo e enxergou Burle Marx jardinando ‘verdejâncias’ deslumbrantes, estirado debaixo de uma palmeira-imperial; Darcy Ribeiro contando histórias e sonhos do Brasil pra um monte de moças bonitas; Garrincha ‘molequando’ e passando leves passes. Avistou um povo muito especial, os irmãos Marx e Billy Wilder, ‘aprochegou’ pulando numa perna só, altos papos em iídiche, alemão e na língua universal do humor ‘cutucante’, risadas estourando e não sei o quê”.

Eu queria achar outro pedacinho. Aqui também tá engraçado: “Os quatro irmãos Marx mais Billy ____ inventando descabimentos, Harpo tirando objetos alucinados de todos os bolsos e fazendo todos os barulhos dos mil bolsos da sua capa. Marilyn Monroe entrou na ciranda ‘rebolativamente’, juntou gente e anjos pra assistir. Nuvens extras pra acomodar tanto público, uma chiquérrima pra Lady Di, que perdeu a pose e engasgou de tanto rir, estouraram risadas...”

Vai, senão não vai dar tempo. Mas a ida da Sylvia é uma festa, onde ela está, ela já encontrou, ela descobriu...

 

(pausa)

 

P/1 – Pode falar.

 

R – Agora eu vou falar de outros dois de que eu gosto muito. Um especialmente pra um amigo meu que tá aqui na frente, de cabelo cor de cenoura, um lusitano que não é judeu e que é meio arruivado...

 

P/1 – Meio judeu.

 

R – Você é meio judeu?

 

P/1 – Pereira!

 

R – Ah, é. Ele gosta especialmente deste livro, “As Voltas do Meu Coração”, e ele pediu pra eu falar um pouco dele. Este livro é bonito mesmo, ele foi o segundo livro juvenil que eu escrevi - não, terceiro. E de verdade eu comecei...

Não era pra ser este livro, mas aqui eu tô ruiva. Já é outra capa. Teve uma capa primeira, eram ilustrações que eram do Ricardo Azevedo que eram muito bonitas, mas eram pesadas, eram ilustrações mais do cerceamento de 1968; depois quem fez foi o Paulo Bernardo, que viveu tudo aquilo e não ficou tão impressionado, então ficou uma coisa mais... Tanto que ele me fez, né? Quer dizer, ele acha que me fez. Este livro começou da seguinte maneira: era uma menina, uma jovem a quem eu dei o nome de Marília. Ela podia se chamar qualquer coisa, podia chamar Joaquina ou Elisete, chamei de Marília e por aí foi tomando todo um rumo. Eu ia escrever uma história de uma pessoa, uma mocinha com dois namorados, e virou completamente outra coisa, ficou esse perdido lá no meio por conta do nome mesmo da personagem. Os dois namorados existem no começo, mas vão perdendo a importância, o fôlego, a intenção, e a Marília, claro, que vai virando um pouco a Marília do Dirceu e, por conta da Marília do Dirceu, vão virando os inconfidentes, os inconfidentes vão virando, em 1968.

Eu não sou a menina, eu estava em 1968 no Brasil. O Dirceu não é o Zé Dirceu, pelo amor de Deus, né? Eu sou uma mulher de esquerda, eu respeito o Luiz Carlos Prestes e não o Zé Dirceu. Meu pedaço é outro, eu acredito no sonho e não no balcão de negócios, então que fique bem claro que não tem nada a ver com o Zé Dirceu. Como ela se chamou Marília, foi a “Marília de Dirceu”, mas, fora isso, nenhum tipo de homenagem, pelo amor de Deus, não me deem esse tipo de relação.

Foi acontecendo uma puxada histórica numa coisa que ia ser uma aventurinha amorosa inconsequente e aí realmente mergulhei fundo, desde uma pesquisa de determinados acontecimentos da época. Alguns em que estive presente, lógico, quem não esteve nos atos todos de... Não sei por que eu tô com óculos... Nos atos todos de cobertura ao teatro, mãos-dadas protegendo cada teatro, mas eu realmente não lembrava que a “Veja” começou em 1968 e não sei mais quantas outras, quantos outros eventos, “sessentaoitistas”, né? Até porque 1968 foi tão libertador no mundo inteiro - terceiro capítulo (risos) - aconteceram tantas coisas ao mesmo tempo que também o político era fundamental, mas havia tantas facetas libertadoras que tudo se misturava e tudo fica com uma época de grande libertação mesmo.

No livro acontece então essa... Marília e Dirceu então adentram pelas procuras revolucionárias do 1968 e dão em tantas bonitezas que não eram pra ter acontecido, pra terem dado nessa pobreza que deram esses governos de agora. Era pra ser tanta gente, tanto valor, tanta boniteza, tanta dignidade, tanta generosidade morreu e foi torturada e foi arrebentada pra um projeto maior do que “eu quero o meu empreguinho”. Com isso, acabei de brigar com quem ainda não tinha brigado.

Mas que fique claro que eu acho que isso é fundamental mesmo. É um livro que me deixa muito contente porque é uma trajetória, não minha nem de uma pessoa, mas de gerações, de procuras. Fico muito dignificada, contente por ter nascido numa época em que a gente já acreditava e quem teve a benção de ser jovem em 1968 ou no 1960 acreditou, era uma época em que a gente ousava acreditar. Eu fico com muita pena de quem teve um mundo reduzido, não por opção, mas que hoje sobrou pouca coisa pra ficar preocupado com o filhote tão lindinho da baleia, né, esse bebê mimoso. É o que sobrou, né? E uma das poucas coisas que sobraram.

Teve alguns problemas sérios na editoração do livro. A editora não entendia que a Lia Mara era um anagrama de Marília e que o tempo inteiro Marília está conversando com ela mesma. Então ela força outra pessoa que não existe, e a riqueza toda era ela se revendo, ela revendo toda a trajetória dela, revendo os problemas, os conflitos, os limites, chegando ao limite dela, se perguntando, “sofrências”, as decepções, as bonitezas, ela com ela, e não ela com uma pessoa interposta que estaria no Canadá, que não tem absolutamente nada a ver;, isso fragmentou e estraçalhou muitas vezes a narrativa. Assim mesmo é um belo livro, eu gosto muito dele. Valeu gente, é um… Valeu ter nascido nessa época, valeu! Foi uma benção ter dezoito em 1968, foi uma benção ser jovem. Eu não tinha dezoito em 1968, mas foi uma benção ser jovem nos anos 1960. E essa ilustração que é a que está nessas edições, acho que na 26ª edição, sei lá, do Paulo Bernardo... O Paulo Bernardo é um cara de Minas, professor de ilustração, eu acho; ele é um cara especialíssimo e é um cara também que viveu 1968, com as agruras todas do outro lado, das pessoas que foram presas, então ele faz... E depois, não é só ter sido presa, ter sido libertário, mas também era uma época de muita agitação cultural, de muita... Um mundo muito aberto, muito venturoso, muito insaciável. Você ia, ia, USP era uma maravilha, estudar na universidade era um orgulho, coisas assim que eram quase do tempo que os bichos falavam, sabe? Que a gente conta hoje e não se acredita. É um livro que eu me orgulho, de uma época que eu me orgulho.

Aí tem estes dois de que eu gosto. Este “Espantoso” é um livro mais ou menos recente, deve ter uns três anos...

 

P/1 – “Espantoso”.

 

R – Estes dois livros são de duas editoras próximas, Ática e da Scipione - hoje em dias elas são a mesma. Eles têm pouco tempo, são bem recentes. O “Espantoso” não é de espantos de terror, de lobisomens, nem de mula-sem-cabeça, nada disso; é de espanto com situações, não vou dizer cotidianas, mas situações próximas, e que a gente fica meio espantado. A editora mesmo, a Claudinha, quando ela veio pegar o texto ela falou: “Eu não acredito, a Fanny é muito louca porque ela fala em espantos de determinadas coisas. Ela tem um jardim na casa dela, na Paulista, no décimo andar, e acha isso nada espantoso.” E eu tenho mesmo.

Esse espanto… Um deles, por exemplo, eu acho que esses vocês vão lembrar. Sabe o primeiro beijo de língua que a gente espera, sonha, delira, morre de medo, de expectativa e daí é aquela “lambuzação” toda? Você não sabe onde errou e o que aconteceu pra ficar aquilo, então esse tipo de espanto. A gente já vai ler uns pedacinhos.

E este aqui foi o editor que ficou um tempo só na Scipione que me telefonou e queria um texto meu. Ele insistiu tanto que eu fiz um texto chamado “Teimas e Birras”, então não é nada, é teima, que é uma coisa também que tem. Você teima, você embirra, você quer, você não quer, você vai com a cara, não vai com a cara, você tá a fim, não tá a fim, e só isso. E é muito divertidinho. Este “Teimas e Birras” quem ilustrou - eu pedi - [foi] a Mariana Massarani. Eu adoro o desenho dela, sempre quis ser ilustrada por ela. Eu não conheço, mas imagino que ela seja a cara desse desenho. E este aqui eu não sei quem é, foi indicado pela… Quer dizer, escolhido pela editora Pessoa e ‘já viu’.

Eu vou ler um pedacinho de cada um pra vocês, tá bom, vocês querem? Então vamos ver, do “Espantoso” aqui. Não sei o que é, peguei na página treze - eu gosto do número treze. Um pedaço: “De vez em quando volteava um moleque ‘bicicletando’, mas raro um molecote num carrinho de rolimã, muitos sketando, correndo, aprontando, campeonato de bolinha de gude, cuspe à distância e de tirar meleca do nariz, dar ___________, vontade de estar junto, impossível pelo peso da idade, dureza ter quase dez anos e estar muito longe dos treze, mundo mole sem pressa de girar, sem entender, nada de pressa em crescer...”

Acho que tem essa idade mesmo, dos dez aos treze, que é um tormento; você não tá aqui, não, tá ali, e você ao mesmo tempo é dos dois. Eu vejo no meu prédio umas meninas que de tarde brincam de boneca e na manhã seguinte elas estão de esmalte na unha e saltinho e não sei como vai indo a cara dela, como é que elas se sentem?

Bom, vamos ver, cada uma das passagens é gerida por uma interjeição. Nós estamos na “ué”. Ah esse, culpa do moleque de treze anos assediado. Você lê pra mim, por favor? É por aqui, mais ou menos, aquilo que eu tava te falando, aqui nessa página de cá. Começa aí, onde você quiser.

 

P/1 – Tá. “Jussara avançou, subiu os degraus, chegou perto e olhou faiscante, ele sem saber o que fazer, nenhuma ideia, branco total, ela se aproximou mais, parou, ele nem se mexeu. Ela deu mais uns passinhos, chegou do lado dele, parou, ele paralisou, coração acelerou, suou inteiro, pingou, tossiu, espirrou, ela nem balançou. Agarrou ele pelo pescoço, tascou o maior beijo. Ele não acreditou, pasmou! A boca dela lambuzou a dele inteirinha, só cuspe, uma ‘babação’ nojenta, ele paradão esperando a continuação...”

 

R – Tem mais.

 

P/1 – “...Ela beijou sem parar, dentes, língua, lábios, tudo misturado, ela grudada nele, ele paradão na parede. Ela no avanço, ele no recuo, um desacerto, tudo desajeitado, ela parecia um desentupidor de pia. Lembrou, riu, o encanador era mais divertido, muito mais, baitas papos sobre futebol, linguiça com feijão, pagode animado, maior desapontamento. Sonhou muito com o primeiro beijo, tinha quase dez anos e nunca beijou nenhuma garota, só a mãe, as tias, as avós, mas eram beijos diferentes, na bochecha, na mão, não na boca. Rapidinho, tipo, ‘olá, tudo bem’, ‘a benção’, ‘bom ver a senhora’, e não demorados, sem intervalos, sugadores, e sem acabar nunca, ufa!”

Tá bom?

 

R – Gostou?

 

P/1 – Gostei. (risos)

 

R – E aí ainda por cima é assédio sexual de menina, né, ela taca ele na parede,  determinada. Acho que são esses espantos, até da não iniciativa, de ser tomado e ser atacado… Pior que goleiro de futebol, não sabe nem o que faz, e ficar absolutamente inerte.

Deixa eu ver se acho mais alguma situação, é que eu acho que essa eu me lembrei e a gente falou. Ah, essa também é muito engraçada, mas... Você me pediu pra falar da minha obra, é sempre a forma de escrever muito urbana, muito de hoje e muito concisa, as frases curtas.

Onde começa aqui? Não vai dar pra ler inteiro, embora seja curto. Eu gosto disso. A editora diz que todo mundo quer matar o irmão, mas eu escrevo isso.

“Lembro do dia, foi um tempinho atrás, no mês passado mais ou menos, talvez um pouco mais, desimportante a data certa, certeza de que foi no dia que brigou com o pentelho do irmãozinho, brigou mais feio do que sempre, falou, xingou, estapeou o moleque, também socou, mereceu merecido, mas chocou de leve, coisinha à toa, só um pouco de sangue ‘espingando’ do nariz e uns machucadinhos na boca, coisa à toa. O pentelhinho, covardão se encoraja pra encarar uma briga cara a cara engatou na ‘choração’, correu pra contar pro pai, pediu colo, lenço pra secar as lágrimas, examinada cuidadosa nos mil ferimentos sangrentos. Aprontou um escândalo, esperneou, se queixou, berrou, exagerou, tipo vítima na delegacia de polícia, só esperando a ambulância chegar pra levar para o pronto-socorro. Caprichou no drama, ‘dedudurou’ direto, aprontou nas queixas e reclamações, vingança total, o pai enfezou, nem quis apurar os fatos, julgou-os direto sem ouvir o acusado, sempre a favor do caçulinha, sempre contra ele, passou uma baita descompostura, mandou bala numa bronca interminável. Horas de falação, ameaçou com tudo, jurou fazer de tudo, botou de castigo trancado no quarto sem hora pra sair pensando no acontecido, pesando e medindo seus atos. Paulinho deu uma pausa, depois continuou o relato, ficou trancafiado por horas imaginando tudo o que poderia acontecer, todas as ameaças que o pai poderia concretizar, ideias terríveis dançando por sua cabeça, puro horror...”

Aí vem as ideias, né? Deu? Ok? Então tá. E aqui tem... Então é sempre assim, imaginação correndo muito mais do que a concretude da ação adulta e, enfim, os impulsos da alma humana. Você tem irmãos?

 

P/1 – Tenho duas irmãs.

 

R – Teve essas vontades mais ou menos com as pentelhinhas?

 

P/1 – Com a mais nova sim, a mais velha, não.

 

R – Claro, é sempre com a caçulinha. “A mais velha, não”, não está em questão a mais velha. (risos) E esse “Teimas e Birras” que eu falei pra você, eu também acho muito gostoso, situações lúdicas, “cutuquentas”, pensantes, reflexivas, divertidas, embirrentas, teimosas, braço de força, né?

“Em frente e marcha…” Você quer ler? Nem sonhar...

 

P/1 – Ah, lê você, Fanny, tão gostoso.

 

R – “Em frente e marcha: Teca desabalou descendo os degraus, cismou que não ia de ônibus, passou desconfortos suficiente naquela manhã, fim, hora de se presentear com o bem-bom. E sentada numa van tinindo de nova, olhando a paisagem pela janela, pegou o passe e ficou pronta no ponto. A mochila pesou, tirou e apoiou na calçada, liberou os músculos, ‘destensionou’, resmungou: ‘Ai, cansativo  manter o estilo desde de manhã ‘cedicíssimo’.’ Uma garota da moda, Lita, passou, parou e perguntou: ‘Não vai andando pra escola?’ Teca espantou e enojou com a ideia, canseira à toa, suar, despentear por nada. Não, nunquinha, sem chance de subir no ônibus lotado, ficar de pé, ir apertada no meio de gente gorda, sacudindo barrigona e carregando sacolas, peitões e guarda-chuvas, nunquinha…”

Bom, dá pra sentir que tem também toda uma crítica de situações de cotidiano. Essa menina sobe em ônibus, ela tá fazendo estilo, mas sabe o que tem dentro de um ônibus e tem… Acho que dá pra reparar também na linguagem, tem uma elaboração do jeito mesmo que ela parece brincante; ela tem uma música, tem uma cadência, uma rima, e que não é o fato dela não ser pomposa, nem “pompeira”, nem nada disso que significa que ela é de qualquer jeito, ela não é mesmo.

Ok? _____ ou quer...

 

P/1 – Você que manda aqui, Fanny.

 

R – “Curtindo a farra e a folga”, eu gosto de brincar desse jeito, farra, folga, né? Não sei, vamos ver.

“No pátio ‘deforação’ das ‘acontecências’ pipocantes, maior delícia, merendar e entrar no banheiro pra um xixi aliviante, uma penteadela, conferir o visual. Muita atualização nas fofocas, espionagem esperta dos novos lances, garotas de primeiras séries rodeando as rodas, esticando os ouvidos, furando as cirandas dos grandes e forçando a barra para entrar nos papos complicados, curiosidades ‘coceirentas’ e cucas entortadas. Outro jogando barra-manteiga, cabra-cega, gostosuras entusiasmadas, muitos se exibindo no ioiô, bambolê e batendo recordes nas embaixadas. Um garoto da terceira série passou enfurecido, raiva espumante, focou procurando um garoto da outra terceira série, pisadas e a testa franzida anunciando sua teima resolvida, pegar o desafeto e atacar direto, serviço rápido e completo...” Nossa, até tudo rimado. “...aproximou, fuzilou com o olhar, agarrou pelo queixo e detonou um socaço, o esmurrado tonteou, escorregou, esborrachou, deu uma de valente, não gritou, boca fechada, tentou levantar, perturbou com as muitas manchas pelas pernas, arranhões nos cotovelos, sentiu uma dor aguda no queixo, estatelou. O pugilista berrou: ‘Arrasei mesmo o dedo-duro, um tremendo de um mau-caráter, sujeitinho à toa’, em volta formou uma muralha silenciosa, bicos calados, braços cruzados, resolução geral: problema dos dois, resolvido pelos dois...” etc.

 

P/1 – Tá ótimo.

 

R – Então tem muitas historinhas e sempre cruzando num cenário comum, cruzando histórias, personagens. Acho que vocês repararam, adulto nunca tem a menor importância; ele entra, passa, dá três berros, ninguém presta atenção e pronto. E agora, só pra terminar, dois livros que não são novos, até que são antiguinhos -  não, um é antiguinho, o outro é bem novinho.

Este aqui, “De Surpresa em Surpresa”, é um livro que existe há certo tempo e que já teve algumas edições. A última era um espanto de feia, e eu chegava a dizer pras crianças: “Vocês leiam, peçam pra ouvir, mas não olhem porque é assassina!” Agora a Saraiva atual refez, revestiu; eu tinha pedido e eles atenderam. Quem ilustrou foi um ex-aluno meu de criancinha, o Marcio Levyman, que entendia que eu queria.

É uma menina, Tiago, que vai pela primeira vez ao teatro, então a “deslumbrância”, taquicardia, sabe, de chegar a um teatro, a um municipal e ver, sabe? O corredor, o corrimão, o teto, o tapete, a maçaneta, o banheiro, aquela imensidão, a escadaria, aquela coisa, enfim, da “deslumbrância” toda. Naquele teatro maravilhoso e único vai passar um teatro de bonecos, e a coisa é tão linda, tão linda, que o Marcio, que brincou muito de teatro, de bonecos comigo, quando ele era pequeno, peraí... Ele vai fazendo as mãos se trocando, quando a menina quer entrar no teatro também, então tem toda a transação da preparação.

A mãe explica pra ela, porque ela acha que teatro de boneco é aquele teatro de fantoches que tem na escola e, naturalmente, a mãe quando fala, não sabe de nada, porque não é aquela pobreza que a professora improvisa que ela vai ver no teatro. É uma peça de chineses. Acho que vocês nunca viram uma peça dessas, é uma coisa absolutamente deslumbrante. Quando ela põe a roupa, ela escolhe, ela não espera, ela vai virando, você tá vendo que ela tá virando uma marionete? Olha, abriu a cortina e ela tá pequenininha, querendo entrar e subir no palco, e depois eu vou pedir pra você ler um pedacinho porque... E, olha, aqui tá começando o espetáculo, olha que coisa mais linda. Precisa ver essa peça como é linda, o velho chinês, o dragão - não, você nem sabe o que é, é uma lenda antiga. Os caras que mexem, eles vêm todos de preto.

O cara que ilustrou a outra vez, ele nunca tinha visto, acho, teatro de bonecos, então ficou uma coisa meio esquisita o que ele tinha proposto. Olha ali, ela vai quase dançando porque ela vai virando boneco. Ela quer ser boneco, ela vira aquela coisa mágica que você tem uma vez na vida, do teatro que você não pode esquecer.

Lê um pedacinho!

 

P/1 – Escolhe um pedacinho pra eu ler, escolhe um trecho que eu leio.

 

R – Ah, não, abre, deixa abrir e deixa acontecer.

 

P/1 – Tá bom. “Teatro municipal...”, pode ser?

 

R – Mas esse é do... Ah, não! Esse é texto sim, ah sim, eu pensei que era informação.

 

P/1 – “Chegada no teatro, antes de subir as escadas apinhadas de gente ‘borboletando’, o pai de Silvia mandou olhar para cima para ver como estava escrito o nome do teatro, ‘Theatro Municipal’, tão antigo como o jeito de escrever. Depois, direto pra uma das portarias, portas de vidro chiquíssimas, um porteiro uniformizado conferia os bilhetes, rasgou pelo meio e entregou para o pai de Silvia a outra metade. No papelucho estava escrito onde iam se sentar, sem erro, sem confusão, cada um no seu lugar. Deu um sorriso para Camila, ela pensou que ia desmaiar de importância ser recebida desse jeito, por um senhor elegante, de gravata e chapéu, finíssimo. Hora de entrar no teatro, surpresona embasbacante, Camila tonteou, enorme, parecia não ter fim, uma escadaria imensa com uns 500 degraus forrados com tapetes ‘vermelhésimos’. Os corrimãos de mármore brilhante enfeitados com duas estátuas de cobre impressionante, vitrais coloridos enfeitando as paredes, nem num palácio de cinema ou nos livros de fadas e reis vi um assim. Camila atordoou, sem saber para onde olhar primeiro, e o que vê pela segunda, terceira vez, o queixo caiu, o coração acelerou, soltando ais e uis quando descobria uma nova belezura, assombrada...”

 

R – “Assombradada” é mais bonito.

 

P/1 – “Parada no saguão para acompanhar o movimento, abraços, rodinhas, beijocas, gente desfilando, mulheres produzidas e outras desmazeladas, moças com cabelos compridos e camisas berrantes esparramadas pela escadarias, velhinhas subindo os degraus na maior dificuldade, crianças pulando e querendo escorregar pelo corrimão, superdivertido. Chegou o momento de subir a escadaria, depois outra menorzinha até chegar ao fim deles, bem no alto. Uma senhora conferiu os bilhetes e mostrou as poltronas, na frente, fila b. Um pouco de lado, sossegou todos, dá pra ver muito bem, todas as poltronas estofadas de veludo vermelho, ‘chicura’ e conforto, simplesmente demais. Camila sentou, levantou, se esticou, se encostou, só para sentir todas as sensações ‘maravilhentas’ de novo e de novo, incansável...”

 

R – Bonito, né? Você lê bonito!

 

P/1 – Obrigado. (risos)

 

R – Ele tava emocionado, né? Você lê muito lindo.

 

P/1 – Minha irmã é Camila.

 

R – A tua irmã é Camila? Qual, a pequena?

 

P/1 – A mais velha.

 

R – Aquela que você tem um pouco de medo?

 

P/1 – Não. (risos) Ela me tratava como o bebezinho dela quando eu era pequeno.

 

R – Deixa só eu ver uma coisa. Você leu lindo, lindo.

“Camila entendeu a emoção grandona tomando conta dela, pura magia, nem o imenso lustre do teatro conseguiu iluminar tanto, nunca pensou que pudesse existir tanta boniteza no mundo. Ficou com pena da sua mãe, que achou que podia ser parecido com o teatrinho de fantoches da escola, ela não sabia de nada, aquele deslumbramento ela ia guardar pra sempre, certeza. Camila silenciou-se, se perguntou qual foi a maior surpresa: o convite de Silvia, a chegada e a ___________ do teatro, assistir ao espetáculo, conhecer bonecos movimentados por fio e não pelos dedos. Tudo foi importante, diferente, novo, maravilhoso, ai, tudo foi surpreendente! O sábado mais incrível de toda a sua vida...”

Daí vem umas coisas do espetáculo, deixa eu ver aqui... “Camila foi para o seu quarto, só acendeu a luz do abajur, precisando do escurinho pra lembrar de cada momento vivido, sentido, olhado, ouvido, lendura deliciante. O dia mais lindo dos seus nove anos de vida, prometeu ter outros assim mágicos e ‘abraçantes’, inteiramente ‘arregalantes’, tudo novidade, sem nenhuma repetição, só esperar crescer pra trabalhar com teatro de bonecos, pra provocar nos outros o que sentiu naquela tarde. Torceu pra ter outra surpresa de deixar arrepiadamente sem fôlego, sorriu na maior ‘contenteza’, pensou no que ia acontecer no próximo sábado, queria um outro divinamente gostoso. Não sabia ainda o que ia ser, como ia ser, ia inventar uma surpresa pra ela mesma, deu uma piscadela e rodopiou leve como a magia do teatro de bonecos.”

“De Surpresa em Surpresa”, ler é um pouco assim. Eu não vou falar daquele porque este aqui criou um clima que não dá pra falar de mais nenhum, né? (risos) Já tem uma obra?

 

P/1 – Que obra! Primeira vez, das cinco vezes que você veio aqui. (risos).

A gente vai fazer a pergunta final que a gente nunca fez pra você, pela primeira vez. O quê você achou de falar pra gente?

 

R – Eu adorei! (risos) Você acha que eu teria vindo cinco vezes se eu não tivesse gostado?

 

P/1 – A gente também gostou muito, Fanny, obrigado.

 

R – Imagina.

 

P/1 – Obrigado mesmo.

 

R – O que é isso! Quem ganhou a aposta?



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