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História

Uma vida dedicadas às carnes

História de: Luciano Strambi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/07/2005

Sinopse

Identificação. Origem da família e moradia. O trabalho do pai e os primeiros contatos com o açougue. As entregas e formas de pagamento. Os cortes de carne. O transporte da carne e as crises do setor. O Açougue Mato Grosso. A freguesia. Brincadeiras e estudos. As embalagens e a questão da higiene. Os cortes preferidos. Plano Cruzado e o abastecimento. Publicidade e entressafra. Lazer. Participação no Sindicato do Comércio Varejista de Carnes e sua atuação como juiz classista.

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História completa

IDENTIFICAÇÃO

Meu nome é Luciano Strambi, nasci em São Paulo, na Vila Mariana. Em 21 de julho de 1929. Meu pai é Dario Strambi e minha mãe é Tereza Ricci Strambi.

IMIGRAÇÃO DOS PAIS PARA O BRASIL

Meu pai veio primeiro, oito anos antes, e minha mãe veio depois, pra se casar com ele aqui em São Paulo. Eles já se conheciam, frequentavam a escola juntos lá na Itália, a escola e a igreja. E eram famílias conhecidas, famílias vizinhas, amigas. Eles vieram de Lucca. Meu pai veio pro Brasil, na casa de um primo, pra trabalhar, porque a vida era difícil na Itália naquele tempo. Minha mãe também veio pra São Paulo, ficou hospedada na casa de uma amiga antes do casamento. Casaram-se depois de um mês que ela chegou da Itália.

TRABALHO DOS PAIS Meu pai sempre trabalhou no ramo de carnes. Ele teve uma experiência lá em Campos do Jordão, depois veio pra São Paulo e trabalhou na Rafael de Barros, no açougue Central do Paraíso, com o senhor Fernando, por seis anos. Ele preparava as carnes, e fazia entregas naquele tempo com carro movido a animal.

INFÂNCIA

Morei na Rua Abílio Soares, na Rua Coronel José Eusébio, e morei e moro na Rua Mato Grosso há mais de 60 anos. A Rua Mato Grosso fica atrás do cemitério, é uma rua de casas simples. Eu brincava muito no local, eu ia muito na Praça Buenos Aires quando era criança. Até dez anos eu frequentei lá, depois comecei a ajudar o meu pai lá no açougue que ele montou.

INFÂNCIA NO AÇOUGUE

Eu ajudava fazendo entregas de bicicleta. A gente tinha uma freguesia muito grande ali no Pacaembu, na Avenida Higienópolis, Conselheiro Brotero. Depois alguns fregueses mudaram pros Jardins e fomos entregar lá também. Era um açougue mais de entrega do que de balcão.

COTIDIANO NO AÇOUGUE

No açougue de entrega é a gente faz entregas por telefone e no açougue de balcão o freguês vem buscar. A gente que tem freguês de entrega tem um compromisso maior, maior responsabilidade. Tem que ter mercadoria boa, não deixar faltar, e tudo isso aí é trabalhoso. São fregueses mensais, alguns fixos há mais de 30, 40, 50 anos até. O pagamento era mensal. Se não pagava em um mês, pagava em dois meses, até três meses. Não tinha problema. A gente tinha um livro que anotava e no final do mês mandava uma conta para o freguês. Usava caderneta no começo, depois foi um bloco que a gente destacava e mandava pro cliente. Eles pagavam mais com dinheiro, cheque quase não se usava. Naquele tempo não havia inflação. Quase todos pagavam todo o mês, até dia 10, dia 15, uns até dia 20. Como não havia inflação, não tinha muito problema. A loja era como é até hoje. Tem um balcão e atrás a gente desossa, corta carne. Só que naquele tempo o balcão não era refrigerado, era feito de mármore. Tinha uma pedra muito bonita, branca, em cima, mas não era refrigerado. O balcão era só pra embrulhar ou colocar alguma coisa em cima. Atrás tinha umas mesas pra cortar a carne. Nem era mesa, eram uns cepos, que chamavam, de madeira grossa. Meu pai cortava e nós sempre trabalhamos com três, quatro empregados.

O COZINHEIRO DOS MATARAZZO

Foi mais ou menos em 1960. O cozinheiro do Matarazzo passava lá e pegava uns tipos de carne, alcatra, e mostrava pra gente que ele queria aquela parte. Aquela parte é a picanha, hoje que é muito conhecida aqui, de alguns anos pra cá. Naquele tempo, a gente não conhecia, não sabia o nome, conhecia o corte, mas não sabia o que aquela parte lá era. Ele levava as picanhas todas embora porque ele fazia um churrasco lá pros jogadores do Palmeiras. Toda a semana ele vinha lá e levava essas picanhas. Eram dez, 12 picanhas. O COMÉRCIO DA CARNE Antigamente, a gente trabalhava com a carne com osso. Tinha que vender a carne e o osso junto. Hoje não, hoje ninguém compra mais carne com osso, a não ser a chuleta. Era mais ou menos 25% de osso que ia num quilo de carne. A carne tinha o controle veterinário. Todo ano era inspecionada. Clandestino não podia comprar. A gente comprava só de frigoríficos bons. Nós fomos fregueses do Frigorífico Armour muitos anos. Antigamente, operavam muitos frigoríficos internacionais aí: Anglo, Armour, Swift. Hoje já não tem mais. Eles tinham uma carne muito boa. No começo o transporte era feito por carroças. Eu me lembro que a carroça chegava ali no começo da Mato Grosso, os cavalos empacavam lá na subidinha. Tinha que dar até uma força lá pra eles poderem subir. Depois começou a entrar caminhões e aí ficou mais fácil. O caminhão que traz a carne até hoje não é refrigerado. O refrigerado é o que vem do interior pro frigorífico.

CRISES NO COMÉRCIO DE CARNES

A carne sempre teve problemas sérios de falta, de tabelamento rígido, assim, de regras, de dias pra entregar, pra vender, eram fiscalizações muito intensivas. Falava-se muito em jornal, escrevia-se muito sobre carne, todo o dia. Havia muita, muita encrenca no setor. Isso em tempo de guerra, faltou muita carne, muito tabelamento. Eles davam cotas pro açougues. A gente recebia aquela cota, acabou aquela cota tinha que dividir a cota pra todo mundo igual. Podia abrir três vezes por semana. Você podia abrir o açougue, mas não podia vender carne de vaca [risos]. Você podia vender outras coisas: miúdos, fígado, porco. Tinha o horário que você tinha que vender e depois daquele horário você tinha que encerrar o expediente. O horário era pra entrega era das quatro às seis, e pro balcão era das seis às 12.

INFÂNCIA – TRABALHO NO AÇOUGUE

Essa história foi perto de Finados, mais ou menos assim. Naquele tempo, como era atrás do cemitério, os floristas guardavam os pontos ali porque antigamente o cemitério era muito visitado esses dias. Me lembro que havia um florista na esquina, o açougue ficava a 50 metros da esquina. Apagou-se a luz às quatro e pouco da manhã. Havia um movimento estranho de flores. Eu estava saindo com uma entrega de manhã, de madrugada e eu me assustei. Larguei tudo e saí correndo. Meu pai veio e ficou bravo comigo, ficou muito bravo comigo. Percebi que não era nada misterioso e fui em frente. Trabalhei bastante no açougue. Principalmente, quando faltava empregado. A gente tinha uma freguesia muito grande, eram 300 fregueses de entrega. Fazer 300 entregas é bastante. Numa rua só tinha dez, 12 fregueses. Levava 30 a 40 quilos, mas a gente ia e voltava. Depois, comecei a trabalhar no caixa, no telefone. Meu pai trabalhava no balcão. Depois que ele faleceu, contratei outros empregados para trabalhar no lugar dele. Até hoje trabalho no caixa, no telefone.

HISTÓRIA DO AÇOUGUE DA FAMÍLIA

Meu pai trabalhou seis anos lá no Paraíso, na Rafael de Barros. O dono do açougue gostava muito dele e emprestou 6.000 cruzeiros para ele, naquele tempo. Comprou um açougue ali na Rua Coronel José Eusébio, e lá ele ficou seis anos, até que o dono pediu o prédio. Foi quando surgiu a oportunidade de comprar ali na Rua Mato Grosso. Ali tinha uma casa velha, ele derrubou, fez um açougue na frente e a casa no fundo. É onde eu moro até hoje.

SÃO PAULO ANTIGA – HIGIENÓPOLIS

O bairro Higienópolis eram tudo casas grandes, antigas e hoje tem prédios. A dona Cecília Cunha Bueno morava ali na Avenida Higienópolis, antigamente o número era 20A, hoje tem um banco. Passava bonde na Higienópolis, na Angélica, na Rua Maranhão, na Vila Buarque. A Praça Buenos Aires naquele tempo era o seguinte: a gente podia pisar na grama, quando era menino, hoje não pode pisar mais [risos]. Tinha liberdade. A gente rolava de cima até lá embaixo na grama, podia. A única coisa é que a Praça Buenos Aires está cercada por grades, naquele tempo não tinha cerca.

EDUCAÇÃO

Fiz o ginásio, fiz Contabilidade. Fiz o ginásio no Mackenzie. Depois estudei Contabilidade no Graça Aranha. Fiz muitas amizades com os colegas da escola e, mesmo no Mackenzie, ainda vejo alguns colegas, ainda encontro algumas pessoas.

COTIDIANO NO AÇOUGUE

O segredo do açougue é esse: a gente vai sempre renovando e tem sempre carne fresca. Procuramos comprar o necessário e renovar sempre, pra gente ter sempre uma carne muito boa. A gente não deixar sobrar. Mas também se sobrar um pouco, dois ou três dias não estraga a carne. Agora a gente usa o sistema de freezer, se por acaso a gente vê que vai sobrar mesmo, a gente põe no freezer aí já dura mais. A gente já tem uma freguesia mais ou menos certa, e quando tem coisa que tem mais a gente oferece pro freguês. Não que seja ruim, mas só pra ir renovando o estoque.

EMBALAGENS

No começo a gente punha uma folha de papel branco e podia usar jornal. Hoje em dia usa plástico e papel especial de embrulho. O jornal é proibido.

MUDANÇAS NA LOJA

A gente tinha um ventilador antigo no meio do açougue, que ficava no centro [para espantar moscas]. Hoje é difícil a gente ver mosca no açougue, não tem ventilador. [Além disso,] hoje a gente usa uma mesa e o cepo para cortar. [A vantagem do cepo] é que você pode cortar um osso em cima, pode bater o machado, e na mesa é só com a faca CLIENTES A gente conhecia o freguês, então dificilmente havia retorno da carne. Não havia muita reclamação. A gente sabia do gosto do freguês, o peso que ele gostava, que parte que ele gostava, do começo, do fim, do meio. A gente procurava servir direito pra não criar problema. Hoje a gente entrega em qualquer lugar hoje, até no Morumbi a gente tem freguês. O Roberto Carlos morava no Morumbi e mandava entregar carne lá na casa dele, no tempo que ele morou lá. Quando terminou a guerra, o Washington Luís estava nos Estados Unidos e veio pro Brasil e a filha dele, que era nossa cliente, pediu para abrir uma conta para o pai dela. Ele foi morar na Rua Colombo, eu me lembro, e nós abrimos uma conta lá e nós entregávamos carne. O Olavo Setúbal, antes da senhora dele falecer, foi freguês uns 10 anos da gente. Tinha a viúva do Moura Resende, que continua sendo freguesa da gente, há mais de 40 anos. O açougue é bem conhecido no bairro, foi um dos primeiros açougues de São Paulo. Naquele tempo, eram só 300 açougues na cidade.

CARNES E CORTES MAIS PEDIDOS

Antigamente, saía muita carne de vitela no açougue. Hoje quase não se usa mais, muito pouco, encontra-se mais no mercado central. E mais a carne bovina em geral. Corte era filé, alcatra, e continua a mesma coisa.

DIFICULDADES DO COMÉRCIO

A carne sempre foi problemática. Houve falta, houve tabelamentos. O açougueiro compra a carne do frigorífico, o frigorífico compra do boiadeiro. O ponto final é o açougue, a gente é que é o bode expiatório da coisa. A gente vendia carne pro consumidor, mas tanto caíram na realidade agora que a carne não está sendo mais tabelada, porque tem que ser conforme o mercado. Se aumenta, tem que aumentar também. [No período do Plano Cruzado ], como eu tinha uma freguesia tradicional, não podia deixar faltar carne. Só quem tinha assim uma freguesia assim fixa que arriscava ter carne no açougue, porque a margem não dava pra trabalhar.

PUBLICIDADE

Uma vez fui ao cinema e lá na tela do cinema, lá na cortina, lá estava escrito açougue Mato Grosso. Tinha propaganda do açougue lá. Falei: "Pai, o que aconteceu?". "Ah, passaram aqui e fizeram uma propaganda, então eu estou pagando por mês lá ". Na hora que terminava o filme, fechava a tela e tinha todas as propagandas dos comércios ali da redondeza na cortina do cinema. Na hora do intervalo eu fiquei admirado. Mas nós não tínhamos propaganda. Não era necessário, o açougue era muito conhecido, tinha fama de carne boa.

MUDANÇAS NA ENTREGA

Até hoje usa-se bicicleta. Alguma entrega maior a gente faz de carro. E eu tenho um funcionário lá que tem uma motocicleta, ele também faz entrega. O perigo das entregas é o seguinte: por várias vezes o empregado saiu com a carne, com a cesta atrás, e subiu no prédio, quando voltou não encontrou nem a bicicleta nem a carne, levaram tudo embora. Isso foi umas três, quatro vezes. Outro dia roubaram uma bicicleta em frente do açougue. Isso é comum. Peço pros empregados usarem um cadeado quando eles vão entregar alguma coisa, porque roubam mesmo.

COMÉRCIO DE CARNES E O PLANO REAL

A carne do começo até agora, nós estamos no fim de outubro, subiu 70%. No Plano Real, carne foi a coisa que mais subiu. Laticínios também, mas carne subiu mais ainda, por causa da entressafra. Na entressafra, o boi emagrece muito. Não tem capim pra comer, não chove, então ele emagrece muitos quilos. Só com as chuvas que ele engorda uma arroba por mês. Então ele dura dois, três meses pra engordar novamente. Uma arroba são 15 quilos. Agora, se emagreceu 45, três arrobas, já pensou? É prejuízo.

LAZER

Frequento um clube lá perto de casa que é o hobby. Vou lá, faço ginástica, sauna e nado um pouquinho também. Vou à noite lá duas, três vezes por semana e fim de semana eu faço sauna. Tenho um grupo de amigos e a gente sai junto lá pra jantar, toda sexta-feira, sai já faz 12 anos. Moro sozinho lá no açougue, atrás do açougue.

SINDICATO

Sou tesoureiro do Sindicato do Comércio de Carnes há 15 anos. Nós fazemos reuniões todos os meses e eu passo lá uma vez por semana pra ver balanço, dar cheque e bater um papo com o presidente. SONHOS Gosto muito de viajar. Tô aposentado, mas ainda trabalho. Quem sabe daqui a pouco vou dar uns passeios mais longos. Já viajei pros Estados Unidos, já fui pra Europa duas vezes e queria voltar. Tenho uns parentes nos Estados Unidos, em São Francisco. Meu primo também é do ramo de açougue. Ele me levou a um açougue lá, hoje tem os chineses trabalhando, e o açougue era grande. De um lado tinha a carne e do outro lado tinha peixe. No tempo dele não, era só carne.

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