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História

Uma vida dedicada ao trabalho

História de: Hilario Burri
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/09/2014

Sinopse

Hilário Burri recorda em seu depoimento a vida no campo, na cidade de Dois Córregos, a sua rotina de carpir e cuidar da terra. Recorda quando mudou-se para São Paulo com a família em busca de melhores condições de vida. No início, conseguiu trabalho como servente de pedreiro e depois foi fazendo biscates de obras nas casas das pessoas.  Lembra como começou a vender manteiga para um italiano e como aos poucos passou também a vender queijo. Exímio vendedor, tornou-se sócio do italiano na comercialização de queijos e manteiga. Hilário finaliza seu depoimento falando do casamento e dos filhos.

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História completa

 Meu nome é Hilário Burri, eu nasci em 23 de março de 1924. Dois Córregos. Fica no Estado de São Paulo perto de Jaú, que é mais conhecido. Meu pai e minha mãe eram de Itapira, Santo Antônio do Pinhal. Meus avós eram italianos, estavam cansados de sofrer na Itália, então vieram procurar algo novo. Contavam que eles vieram aqui porque era o Eldorado naquela época, vieram aqui e não era nada daquilo. Então mandaram tudo pro cafezal, ser escravo dos donos de fazendas, eram escravos brancos.

Meus pais se conheceram em bailinho de fazenda: São João, Santo Antonio, São Pedro. As festas juninas que faziam naquele tempo e se reunia a juventude da época. Meus pais chamam Ricardo Burri e Angelina Riggi. Meu pai era carroceiro. Na verdade ele era colono, mas trabalhava também para o patrão como carroceiro, essas coisas de puxar material, cereais. Minha mãe, dona de casa pra criar filho. Dez filhos. Sou o quarto. Você sabe que o italiano, eles têm o primogênito, esse primogênito, ele manda em tudo. E eu sofri na mão do primogênito. Quando ele nasceu o meu pai ficou muito contente, mas ele me judiou. Ele mandava até lavar os pés dele, era terrível. Hoje em dia não tem mais disso. E iam todos pro cafezal, era tudo colono. Carpir café, plantar, essas coisas. Essa casa eram duas águas feita de barro e quintal. Tinha horta muito boa. Tinha três quartos. Minha mãe era muito boa, era uma santa mulher. Meu pai era duro, muito duro. Mas minha mãe contava história, reunia todo mundo de noite no quarto dela, sempre o quarto dela. E contava história, a gente ia até uma meia-noite e no outro dia tinha que dar um duro danado. Mas a gente gostava dela contar aquelas historinhas: Chapeuzinho Vermelho, Joãozinho e Maria, essas coisinhas. Os avós morreram cedo. Eu só conheci meu avô paterno, o outro eu nem cheguei a conhecer, da minha mãe.

Todo sábado tinha baile. Tinha uma igrejinha, quem quisesse se batizar era lá também. E outras brincadeiras, homem com mulher é claro, porque sem mulher não adianta. Tinha pouca brincadeira. Brincadeira é aquelas coisinhas de passar anel, uma coisinha e outra. No sábado, quando não tinha baile se reunia sempre. Eu tirava leite da vaca. Minha mãe e meu pai e os outros iam tudo pro cafezal. Depois quando eu cresci um pouco passou, minha mãe fazia esse serviço, ela que levantava, tirava o leite, fervia e depois mandava pra roça também, com pão. Chegava lá, todo mundo comia. Oito horas. Onze horas tinha almoço. Três horas tinha o café. Seis horas tinha a janta. Era assim. Nunca sentei num banco de escola. Os outros foram um pouco, mas eu não. Primeiro porque não tinha escola onde a gente morava. E segundo porque precisava trabalhar, então não tinha que ter escola. Os outros depois, mais tarde um pouquinho, já foram um pouco na escola. Fui um dia na escola de fazenda, um dia e saiu uma briga com a molecada e eu fui pra casa, nunca mais voltei. Nunca mais. Coisa de moleque. Eu assustei e nunca mais. Eu aprendi lendo jornal, livro, qualquer coisa. Mas dizer que me ensinaram não. Tive que aprender na marra, olhando, vendo os outros. E também acho que foi um pouco de preguiça, de má vontade porque poderia ter ido mais tarde. Eu não me interessava, ninguém falou nada também, e passou. Apaixonar mesmo foi já aqui em São Paulo com uma menina que quando saí de lá, ela tinha quatro anos mais ou menos. Eu já tinha 22 quando vim aqui. Ela já tava uma mocinha bonita. Depois o tempo passou e chegou aqui. Eu vi, me apaixonei. Abraço, beijamos e foi uma maravilha. Essa me deu trabalho. Essa deu. Sabe como são as coisas, quando você vai atrás a turma escapa. Sabe que está seguro, o cara está louco atrás. E não casei com ela, casei com outra. Fiquei no Pinhal até 25 anos, quando fui pra Jaú. De Dois Córregos a Jaú é pertinho, meia hora de trem. Naquele tempo era só o trem, a Linha da Paulista. Depois tiraram tudo.  A fazenda era boa pro patrão, como sempre. Era uma vida muito dura, mas era divertido porque a gente tinha muitos colegas, eram tudo amigo. Então qualquer joguinho, qualquer coisa, a gente se reunia sempre. Não era no trabalho, mas assim mesmo nós tínhamos tempo e vontade de contar história até meia-noite, pra de manhã, seis horas ir pro trabalho. Em Jáu eu fiquei praticamente até 25 anos. E depois ainda fomos, um ano em Cafelândia, lá no noroeste, pra lá de Bauru.  Para São Paulo veio meu irmão acima de mim. Pra ver como podia colocar a família. Ele arrumou tudo, casa, alugou tudo. Na Vila Nair, em Sacomã. Você imagine, descer na estação da Luz. Vem lá do mato, a estação da Luz foi fora de série. Daí pegamos um bonde, que eu nem sei mais como é que era, fomos na casa de uns amigos que eram de lá também. Ele nos acolheu, nos deu almoço e tudo e depois fomos pra nossa casinha que já estava alugada pelo meu irmão. Eu morava no Alto do Ipiranga, depois. Saímos dessa casa, meu pai comprou uma casinha lá no Alto do Ipiranga por sete mil, não sei se era réis, eu não sei, eu sei que era sete. E para eu ir até o Sacomã pra tomar o bonde, eu trabalhei no Cambuci, na Rua Alexandre Levi. Elevadores Atlas. Era terra, não tinha nada calçado. Gente de mula, não tinha nada, era tudo barro. A gente saía de lá, de lá de cima, e vinha até o Sacomã. Às vezes precisava levar um sapato porque quando chegava lá estava tudo cheio de barro. E o Alto do Ipiranga, só tinha um ônibus. Eu penso hoje, se alguém falasse que um dia ia passar um trem por baixo da terra ali a turma mandava internar. Porque tinha um ônibus só. Hoje o metrô passa por baixo.  Fui trabalhar na Atlas como servente de pedreiro. Passei a ser profissional e daí até fiz casinha pra mim. E depois entrei no comércio. Fiquei cinco anos. Ainda morava com meu pai. A gente pegava o nosso envelope e entregava na mão dele. E fui ajeitando. Dentro de um ano eu já tinha o sapato que eu queria, que eu via na vitrine, terno, terno do melhor, camisa, tudo.

Tinha um italiano ali na Rua da Cantareira, perto do mercado, ele tinha feito um estoque de manteiga de 50 toneladas, hoje 50 toneladas é nada. Daí esse italiano era muito amigo do outro, falou: “Hilário, você vai vender manteiga que o Maquenga está encalhado” “Mas como? Eu não sei vender manteiga, não sei nada. O que é isso? Nunca vendi nada”. Ele falou: “Não, você vai”. E foi. E deu certo. Eu vendi toda a manteiga do homem, toda. E fiquei por lá. E gostei. Manteiga, era abrir o latão e eu já sabia, só de abrir, aquele aroma que vinha da manteiga. Quando era boa. A turma me chamava para experimentar manteiga. “Hilário, vem aqui. Vê essa manteiga aqui”. Porque eu fazia com amor. Era na Mooca. Hoje já fechou até. Era feirante. Peguei uma turma de feirante. Também foi penando também.  Isso daí aconteceu que eu sofri um pequeno acidente lá no Atlas e me mandaram pra Caixa, eu fiquei. Fiquei na Caixa, mas não tinha nada, tava bom. E comecei a fazer esses biscatinhos pra lá, pra cá, e depois eu comecei, como já sabia de pedreiro, já tinha aprendido lá no Atlas mesmo, comecei a fazer biscatinho e coisa. E foi indo. Foi indo, até esse negócio da manteiga, que eu entrei mais ou menos firme no comércio. E depois esse italiano falou: “Então você vem e trabalha comigo”. Vamos trabalhar. Eu já tinha tirado a carta, porque eu sabia que um dia eu teria que guiar, era o sonho de todo mundo. Tendo um carro ou não tendo. E esse italiano tinha um furgão e ele não sabia guiar. Deu certinho. Falou: “Você quer vir trabalhar?” “Vamos”. Ficamos sócios. Nós fazíamos toda a cidade, todo dia de manhã. Fazia o centro. Eu fazia o centro com ele de manhã. Depois eu deixava ele em casa, almoçava com ele na casa dele e daí ele ficava em casa e eu ia fazer o bairro. Era o Ipiranga porque eu morava lá, então mais era o Ipiranga que eu fazia. Mas de manhã eu fazia tudo aqui o centro: Rua São Bento, Rua da Quitanda, Rua Direita, tudo, de manhã. Era queijo e manteiga, porque faz parte, o queijo e a manteiga é a mesma coisa. Esse meu sócio, o italiano, ele veio, importava, nós importávamos provolone da Itália, eles importavam. Tudo o que vendia era meio a meio. O carro era dele, o furgão, mas eu é que guiava, eu que cuidava, tudo. Mas tudo o que se vendia era meio a meio. Comecei a ganhar dinheiro. No começo, eu vendia pelo menos dez latões de manteiga por semana. Dez de 50 quilos. E vendi toda a manteiga do homem. E depois, então, ele tinha um furgãozinho 29 e me deu: “Vai vender queijo”. Fui vender queijo. Queijinho fresco, era o que mais saía, e sai até hoje, aquele queijinho mineiro. Vendia dez por dia. Ia vender lá na Mooca. E depois comecei a entrar firme, vender provolone, vendia tudo, já vendia tudo. Vendia queijo prato, provolone, parmesão, vendia tudo. Até eu abrir uma loja de queijo lá no Mercado do Ipiranga, lá em cima. Fiz a loja, uma barraca de mercado. Ele foi, um dia, está pronta. Eu falei: “Você quer entrar? Pode vir, vamos trabalhar junto”, essa aqui também entrava na sociedade. Uma palavra dele acabou a sociedade. Eu já tinha os fornecedores, era só pegar e vender lá no mercado. Foi a melhor loja. Eu montei dez. Eu fazia assim, eu não gostava de empregado, então eu dava sociedade. Meu irmão, por exemplo, quanto dinheiro você tem? Ninguém tinha dinheiro? Meus irmãos eram motorista de praça, taxista, o outro era pintor. Fui trazendo tudo comigo.  As lojas eram em Santo André, Ipiranga, na Avenida São João, na Rua Pedroso, essa foi a pior. Na Rua Pedroso, o bairro parecia bom, na Rua Martiniano de Carvalho com a Pedroso. Aquilo foi um fracasso, um ano perdendo dinheiro. E depois vendemos e não recebemos, então, foi um fracasso. Mas aquela do Ipiranga, as outras, cobria tudo, foi muito bom. Tinha que escrever. Muito mal, mas tinha que tirar nota, fui aprendendo, fazer o quê! Eu casei em 1957 com 33 anos. Hoje eu sou viúvo, ela faleceu faz seis anos, O nome dela era Vera. Eu trabalhava lá, ia lá fazer biscatinho, arrumar casa, foi assim que eu conheci. Deu certo. Tivemos três filhos. O mais velho chama Flávio, a do meio chama Luciana e o mais novo chama Hélio. Depois morei no Jardim da Glória, na Aclimação, fiquei 30 anos ali. Mas eu morei antes na casa da Vera porque não tinha dinheiro. E lá tinha um telefone, o telefone naquela época custava cinco mil, pra mim foi bom, eu tinha um telefone, tinha casa e tinha a sogra também. As lojas todas chamavam Queijo Mineiro. Naquele tempo mineiro mandava, mas hoje não manda mais.

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