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História

Uma vida dedicada à pintura

História de: Jorge Henrique André
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 19/11/2021

Sinopse

O encantamento pela cidade de Ouro Preto e os momentos em que fugiu de Ponte Nova pra lá. As recordações de seus pais e da infância. O encontro com sua esposa e os momentos juntos. O trabalho como pintor e a preparação da tinta. As experiências com a pintura de patrimônios e edificações tombadas. As aulas práticas como professor da Escola de Ofícios Tradicionais. Os ensinamentos para os filhos. Sonhos para o futuro e o desejo de aprender mais.

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História completa

P/1 – Agora a gente vai mesmo começar a nossa conversa. (risos) Jorge, eu já falei seu nome mas, por favor, começando agora a entrevista, fale o seu nome completo, a cidade e a data em que você nasceu.

 

R – Eu sou Jorge Henrique André. Natural de Ponte Nova. Nasci em 29 de abril de 1955. Bairro de Vila Alvarenga. 

 

P/1 – Qual o nome dos seus pais?

 

R – Meu pai chama Geraldo André e minha mãe, Maria do Nascimento André. Meu pai é natural de Guaraciaba e minha mãe é natural de Acaiaca.

 

P/1 – Essas cidades dos seus pais ficam em que estado, Minas também?

 

R – Minas, é pertinho de Ponte Nova. E Acaiaca é pertinho de Ponte Nova e Mariana.

 

P/1 – Qual atividade deles, Jorge?

 

R – Minha mãe sempre foi dona de casa e meu pai foi comerciante.

 

P/1 – Eles são vivos?

 

R – Não. Minha mãe morreu em 1976, com 42 anos. E o meu pai morreu em 1993, com 73 anos.

 

P/1 – Que lembranças você tem da sua mãe?

 

R – Eu era muito novo, estudei e me formei com dez anos. Eu era muito estudioso. Como na minha casa eram muitos irmãos, nós éramos doze irmãos, eu lembro muito pouca coisa, porque eu era muito novo, eu sou dos mais novos. Só tem quatro abaixo de mim e tem oito acima. Então, eu sei mais a história da minha mãe e do meu pai. Diz que o meu pai, numa época lá, estava muito bem de vida, tinha uma loja, um armazém. A minha mãe fazia doce de leite artesanal da Ponte Nova. Inclusive eu tenho um irmão que caiu dentro do tacho e eles o apelidaram de “Nenê Mão Pelada”, porque pegou no doce, sabe? Aí nós viemos. Aí, quando eu cheguei numa certa idade, eu tenho lembrança que meu pai comprava muito jornal velho, revista e a gente fazia saquinho com o grude, fazia o grude e fazia o saquinho para embalar frutas, verduras, legumes e saía vendendo, de porta em porta. Naquela época eu tinha nove anos, nove para dez anos. Trabalhei em fábrica de biscoito de polvilho, vendia fruta, fui engraxate na rodoviária de Ponte Nova. Então, a maioria dos meus parentes moravam em Ouro Preto. Aí teve uma época que nós viemos visitar, viemos de trem, de Ponte Nova, visitar. E, quando eu cheguei em Ouro Preto, eu me apaixonei por Ouro Preto. Eu não queria nem voltar e meu pai fez a gente voltar. Aí eu combinei com meu irmão um ano mais novo do que eu: “Nós vamos trabalhar aqui, vender picolé, vender o que for, salgado, vamos juntar um dinheiro e fugir pra Ouro Preto?”. Aí fizemos isso quatro vezes. E, segundo o meu pai, ele já não estava numa situação boa financeiramente em Ponte Nova. Aí, naquele vai e vem, vinha, chegava em Ouro Preto e vinha o ‘juizado de menores’ atrás da gente, conseguia pegar. Muitas vezes eu ficava duas noites dormindo no mato, no sereno, correndo, para não voltar para Ponte Nova, queria ficar em Ouro Preto. E esses dois ‘juizados de menores’ foram de família tradicional em Ouro Preto. Um chama Joaquim Adriano e o outro Lourival Marotta. Aí meu pai apelou, já que a família, a maioria, morava em Ouro Preto e nós mudamos para Ouro Preto durante a Copa do Mundo, em 1970. O primeiro jogo foi Brasil e Tchecoslováquia. Hoje é separado esse país, né? Tem a República Tcheca e a Eslováquia. Na época era Tchecoslováquia. E aí nós mudamos para Ouro Preto. Chegando em Ouro Preto, comecei a vender picolé. Aí fui trabalhar de servente de pedreiro, na Praça Tiradentes, numa obra na Churrascaria Maria. Essa Churrascaria Maria era até tradicional em Ouro Preto. Se não me engano, no início dos anos 1980, ela fechou as atividades dela. Aí, passou um certo tempo, eu conheci esse mestre de pintura, Xavier. Esse homem veio a ser tio do Márcio Fortes, que foi Ministro das Cidades do governo Lula, não sei se você já ouviu falar. Aí eu trabalhei com ele, isso foi em 1972, para 1973, eu trabalhava...

 

P/1 – Jorge... 

 

R – Oi. 

 

P/1 – Eu fiquei curiosa por algumas coisas que aconteceram ainda nessa ida e vinda de Ponte Nova para Ouro Preto. Você devia ter o quê, uns dez anos, doze?

 

R – Eu tinha dez anos. Eu tinha me formado, na época, no quarto ano, eu tinha me formado. Aí a gente vinha para Ouro Preto, tinha uma família... e eu vendia picolé. Eu ia para a portaria da Alcan, colocava na grade, assim, tinha uma grade de alumínio, aí o operário de Alcan vinha, tirava o picolé e me pagava. E o lucro era bom, entendeu? Eu me encantei com Ouro Preto, porque em Ponte Nova, a gente trabalhava muito, mas não via lucro. Eu me encantei com Ouro Preto e não quis voltar. Aí eu usei esse meu irmão mais novo comigo, a gente fugia e vinha embora para cá. Meu pai vinha três, quatro vezes atrás da gente, para tentar levar de volta para Ponte Nova. E ele conseguia, foi durante três e quatro vezes. Chegava em Ponte Nova, a gente trabalhava e vinha embora _______ e ele decidiu vir para Ouro Preto. Aí nós viemos, chegamos aqui, minha mãe viveu aqui seis meses, faleceu... seis anos, faleceu. Aí esse meu mestre também faleceu, aí eu fui para a Alcan, trabalhar na Alcan Alumínio do Brasil. Aí, chegando lá...

 

/1 – Desculpa, Jorge, eu estou te interrompendo assim, porque essas histórias que você está contando são muito ricas, né? 

 

R – Hum hum.

 

P/1 – Então, o seu pai resolveu mudar para Ouro Preto, você acha que foi por tanto que você quis, ou teve outros motivos?

 

R – Não, ele já não estava bem financeiramente, mas acho que ele não tinha opção, ele não tinha decidido ainda o que ele ia fazer da vida dele. Como eu chegava lá e falava muito de Ouro Preto, chorava muito, fazia birra e ele foi vendo aquilo, entendeu? Acho que com aquilo ele se animou e resolveu mudar: “Será que isso é bom?”. Aí demorou um tempo, ele demorou a vender a casa em Ponte Nova. Ele vendeu a casa e nós viemos para Ouro Preto. Mas de tanto eu falar em Ouro Preto, que era bonito, que Ouro Preto era um lugar que corria dinheiro, que a gente devia vir pra cá, pra gente sair daquela situação... Nós nunca passamos fome, mas nós passamos muita vontade de comer certas coisas, fome não chegamos passar, não. Aí ele mudou de religião, para melhorar a vida, eu lembro que ele me ‘deu um couro’, que ele queria me batizar na religião que chama Testemunha de Jeová e eu não batizei. Eu sempre fui um menino muito determinado, desde novo, desde criança. Todos meus irmãos batizaram nessa religião.

 

P/1 – Jorge, você disse que você não quis ser batizado como Testemunha de Jeová, foi isso?  

 

R – Como Testemunha de Jeová, não quis. Aí minha família toda se tornou Testemunha de Jeová, mas não muito praticante. Quando meus irmãos foram virando rapazes, aí que eles decidiram o que eles queriam da vida, aí eles não seguiram mais. E eu sempre gostava de fazer as coisas que eu tinha a visão do que eu queria fazer, com paixão, eu sempre gostei de fazer as coisas com muita paixão.  

 

P/1 – E por que você não quis se converter? O que é que você pensava? 

 

R – É porque tinha que sair de casa em casa pregando, falando, eu achava que eu era muito criança para aquilo. Muitas vezes, minha mãe me levava à força com ela e dava aqueles beliscões na bunda, me dava aqueles beliscões no braço. E para mim era aquilo... Fazer as coisas contra a minha vontade. Mas hoje, eu pensando, uns anos depois, vi que eles faziam aquilo querendo sair daquela situação. Eu não sei por que meu pai quebrou lá, perdeu tudo, porque ele sempre foi um homem muito bem-conceituado. Mas eu era muito novo, meus irmãos mais velhos, que eu tenho oito irmãos mais velhos do que eu. Já faleceram cinco, ainda tem sete vivos. Então, essa vinda para Ouro Preto, minha e da minha família, foi mais por minha causa, por causa da minha teimosia de querer morar em Ouro Preto. 

 

P/1 – Jorge, você falou que a sua mãe, ainda lá em Ponte Nova, fazia doce. Que memórias você tem, assim? Não sei se tem alguma coisa relacionada a essa atividade dela, que ficou gravada.

 

R – Não, eu não tenho, eu era novo. Isso são histórias, não lembro, era muito novinho, eu não tenho. A única memória que eu tenho com ela é que ela ia, levava a bacia de roupa na cabeça, a gente morava ali no Rio Piranga, passa um rio no Centro da cidade. Ela ia lá lavar roupa e eu ia acompanhá-la. Essa lembrança que eu tenho dela, lá em Ponte Nova. É a única lembrança que eu tenho.  

P/1 – E quando vocês foram para Ouro Preto, você falou que logo ela faleceu. Você tem algumas lembranças que ficaram marcadas em você nesse período, que você gostaria de contar para a gente? 

 

R – Da minha mãe?

 

P/1 – É, ela, já em Ouro Preto...

 

R – Ponte Nova mesmo é um período muito triste. Eu sempre fui um cara amável, eu sempre gostei de fazer as pessoas felizes, principalmente quando as pessoas estavam num momento de crise. Eu lembro da minha mãe rolando lá em casa, dentro lá de casa, no chão, batendo a cabeça na parede, de tanta dor de cabeça. Eu era muito criança, mas eu lembro. Eu não conseguia dormir.

 

P/1 – Imagino. Se você pudesse contar para a gente, Jorge, toda essa...

 

R – Vou dar um respiro aqui. Essa lembrança eu tenho muito forte dela, era muito. Quando a dor pegava, era direto. Aí meu pai ficava meio sem paciência, saía de casa, meus irmãos mais velhos já estavam trabalhando e eu ficava do lado, sem poder fazer nada.

 

P/1 – Você sabe o que o que ela sofreu, Jorge, se era uma doença?

 

R – Eu acho que foi... cada um conta uma história, a gente não sabe. Ouvi falar que foi uma pancada na cabeça que ela tomou. Só sei que ela sofreu muito, chegou aqui em Ouro Preto e sofreu muito. E eu a coloquei até no meu plano de saúde na Alcan, na época eu estava na Alcan. Eu a coloquei no plano de saúde, ela fez um tratamento em Belo Horizonte. Ela fez umas três operações na cabeça, mas não teve jeito. No Hospital São Francisco, lá na Concórdia, em Belo Horizonte. Por incrível que pareça, minha mãe faleceu lá e minha esposa faleceu lá ano passado, no mesmo hospital. Só que a mãe com o problema na cabeça e a minha esposa, câncer no fígado. Coincidência.

 

P/1 – Coincidência, mesmo. 

 

R – Mas quando eu começo a falar da minha mãe, eu até perco um pouco, porque era muito sofrimento. Eu a via igual bicho, assim, no chão da minha casa, rolando. 

 

P/1 – Jorge. Só um minuto. A gente imagina, né? Quer dizer, não dá nem para imaginar tanto sofrimento. Mas, pensando na sua mãe ainda, você tem essa lembrança muito marcante de sofrimento. Mas, quando você era menorzinho, você lembra de alguma passagem junto com ela, algum momento assim que ela te ensinou alguma coisa ou não?

 

R – Não, ensinou à gente coisa boa! Até ler a Bíblia dentro de casa. E eu tenho uma irmã que engravidou com dezesseis anos e meu pai queria colocá-la para fora. Chegou a colocá-la para fora e queria colocar ela e a menina para fora. Só que a minha mãe enfrentou meu pai, comprou e falou: “Não. A Sônia...” - que é minha irmã - “... pode ir embora, mas a menina vai ficar. Eu vou criar essa menina. Ela tem dezesseis anos só, você colocando-a para fora de casa com uma filha, ainda?” Meu pai era muito rigoroso, muito... aí ela foi embora. Hoje ela mora em Contagem, Minas Gerais, está muito bem. Nunca mais voltou para casa. Para morar não, ela vinha passear. Depois de muitos anos. Ela e meu pai ficaram sem se falar muitos e muitos anos. E deu a ela um nome bíblico, Sulamita que ela chama. E essa menina é minha sobrinha, mas nós a consideramos como irmã. Então, minha mãe me colocou para eu ensiná-la a ler _________, eu ensinei, com a minha ajuda. Essa minha sobrinha aprendeu a ler na Bíblia, lendo a Bíblia, entendeu? A minha mãe era muito rigorosa e eu tinha que sair com ela no trabalho, de campo em campo, até hoje as pessoas lembram dela. Ela chegou a converter bastante pessoas nessa religião, tanto em Ponte Nova, como em Ouro Preto, nos seis anos em que ela morou em Ouro Preto. Ela chegou a converter. Sempre as pessoas me param na rua e falam dela ainda. Isso é uma coisa que me marcou muito. 

 

P/1 – Legal, Jorge. E do seu pai, se você puder contar para a gente alguma coisa que você...

 

R – Meu pai, eu não sei muita coisa dele. Às vezes, ele ia para o Banco, Banco da Lavoura, que tinha na época, era o Banco Mercantil do Brasil, porque ele era comerciante. Ele criava, na época, esses cabritos, tinha o apelido de ‘Geraldo Cabriteiro’, em Ponte Nova. Chegava e falava ‘Geraldo Cabriteiro’, todo mundo conhecia, sabia quem era. Era um comerciante muito forte, sabe? Eu não sei história, às vezes, eu vou à Ponte Nova e eles me falam, o pessoal mais antigo: “Eu não sei como seu pai perdeu, o seu pai era muito bem-conceituado em Ponte Nova. Tinha armazém, tinha loja, tinha açougue. Sua mãe produzia doce quase para Ponte Nova toda. E de repente, a coisa...”. Eu não lembro, eu era muito novo. Quando eu mudei para aqui eu tinha quatorze anos, quando eu vim para Ouro Preto, com quatorze anos. Então, essa lembrança de que ele era um comerciante forte e ainda teve um comércio aqui em Ouro Preto, muitos anos. Ele morreu comerciante, tinha um comércio na Ponte José Vieira, ali. Em Ouro Preto tudo é apelido, né? Tem a Rua Conde de Bobadela, é a ‘Rua Direita’. Senador Rocha Lagoa, ‘Rua das Flores’. Cláudio Manoel, ‘Rua do Ouvidor’. Eu tenho o apelido de ‘Jorge Bonitão’ lá. Tem gente que tem apelido de ‘Ossos Cascudos’, ‘Sebastião Maria Preta’, ‘João Pé de Rodo’, ‘Bené Cara Suja’. Então, Ouro Preto é cheio de história. (risos) 

 

P/1 – Jorge, o que te encantou tanto em Ouro Preto, que você só queria ir para lá?

 

R – O que me encantou? Os casarios. Ah, eu vi Ouro Preto e encantei. Essa coisa antiga, velha, aquela coisa... E também o lado econômico, que tudo que você fazia surtia efeito de imediato, o resultado vinha. Eu vendia picolé, praticamente, se pudesse, sustentava uma família vendendo picolé. Eu era criança vendendo picolé, ficava na portaria da Alcan lá, a cidade vivia em função dessa empresa. Colocava lá, nem chegava a andar não, para oferecer picolé para as pessoas. Colocava a caixa lá, o pessoal vinha, tirava na hora do almoço, já vinha com o dinheiro, pagava a gente primeiro, tirava o picolé e entrava para dentro da empresa. Aqui eu encantei. E comia muito pão com salame, eles falam mortadela hoje, né? Mas, na nossa época, falava pão com salame. Aqui eu fiquei maravilhado com Ouro Preto, falei: “Eu [não] vou à Ponte Nova, eu vou-me embora, eu não vou ficar lá, não”. Eu falava, enfrentei meu pai: “Eu não vou” “Que isso?! você é criança, só vai ser dono do seu nariz, quando você fizer os 18 anos”. Eu falei: “Mas vai demorar muito, pai! Vamos vir pra cá, nós vamos ajudar o senhor”. E foi o que aconteceu. Eu trabalhei depois em comércio, nunca recebia o meu dinheiro, ele ia lá e pegava o dinheiro em alimento. Foram quatro anos. 

 

P/1 – Jorge, só um minutinho. Você disse que vendia bastante picolé, que dava até para sustentar uma família, mas você falou que o dinheiro depois não sobrava. É isso, entendi bem? 

 

R – Não, o dinheiro sobrava bastante, ué. Porque eu ficava viajando, comprava coisas para mim, ia ao cinema, coisa que eu não tinha feito em Ponte Nova. Aqui em Ouro Preto tinha dois cines lá, um o Cine Vila Rica e outro o Cine Central. Comecei a ir para o cinema e comecei a empolgar com aquela vida.

 

P/1 – Você lembra a primeira vez que você foi ao cinema, a sua sensação? 

 

R – Lembro, lembro.

 

P/1 – Conta para a gente, descreve assim como foi?  

 

R – Eu lembro que eu não parava. Eu comprei roupa nova, comprei um Kichute, todo empolgado e fui para o cinema. E cheguei ali e não conseguia ficar parado, era uma alegria danada. Ia lá na frente, voltava, ia de um lado, ia do outro, esperando o filme começar. E aquilo foi uma empolgação violenta. Eu tenho só essa lembrança. Agora falar sobre o filme, eu nem lembro mais do que era, eu sei que foi fantástico! Foi uma alegria marcante, uma coisa que eu não esqueço, contei pros meus três filhos. Eu tenho três filhos, contei para eles. Eu falei: “Hoje eu trago vocês aqui, que vocês têm tudo em casa, eu faço tudo para vocês. Eu não tive isso, para eu fazer isso, eu tive que trabalhar muito”. Falei para eles. Tive que produzir saquinho para vender legumes, frutas, engraxar sapato, trabalhar em fábrica de biscoito, fugir para Ouro Preto, vender picolé para eu ir ao cinema pela primeira vez. 

 

P/1 – Brincadeiras, vocês em doze irmãos, ou com os irmãos ou com amigos, ainda em Ponte Nova. Você pode dizer se vocês brincavam, além de trabalhar?

 

R – Aquelas brincadeiras de circo. No chão, riscando na terra, uma casa do lado e do outro, fazendo linha. O que eu lembro é isso. E jogar aquelas mamonas no olho, daquelas brincadeiras de esconde-esconde, à noite. E, às vezes, não tinha energia ainda, principalmente em Ponte Nova, no bairro onde nós moramos. Em 1970, ainda não tinha energia lá. O bairro se chama Triângulo e nós morávamos num bairro bom. Mas o meu pai foi caindo, o bairro também, fomos mudando para um bairro inferior. O bairro que nós moramos por último, saindo de lá, era chamado Triângulo. Era um dos piores bairros, não tinha saneamento básico, não tinha nada, não tinha energia, não tinha nada. Eu lembro que as nossas narinas amanheciam tudo pretas, de lamparina, era luz de lamparina. Você colocava a mão nas narinas e você via que estava pretinho. Mas era uma coisa bacana viver e lembrar dessa época. E eu também fazia assim, às vezes, na estrada de ferro, hoje fala ________, nós falávamos estrada de ferro, a gente colocava a perna em cima da linha do trem, na hora que o trem vinha, escondia. Na hora que o trem passava, a gente ia e não via mais nada, passava e destruía tudo. Colocava um montão de pedra, aquelas carreiras de pedras assim, na linha, de um lado, coisa de criança, mentalidade de criança. (risos) É uma coisa muito bonita.

 

P/1 – E essa relação com o trem, com a estrada de ferro? Eu sempre fui curiosa: vocês, crianças, brincando na linha do trem. Qual era a emoção ou se teve alguma situação marcante? Só um minutinho.

 

R – A única fruta que eu lembro que eu não comi lá em Ponte Nova era o abacaxi. Nessa linha do trem, tinha muita fruta, todo tipo de fruta: goiaba, manga, laranja. Essa fruta que vem com semente, como é que ela chama? É uma bola amarela, até esqueci o nome aqui agora. A única fruta que eu lembro que não comi. E maçã também, o meu pai era comerciante e comprava, por isso que eu comi em maçã em Ponte Nova. Caqui, caju, essas coisas a gente tinha tudo. Hoje eu vou lá em Ponte Nova é tudo prédio no lugar, não tem mais nada. A minha infância foi boa por causa disso: não precisei comprar fruta, verduras e legumes, tinha tudo em Ponte Nova lá. Inclusive o lugar que era uma fazenda, hoje é a Câmara dos Vereadores lá.

 

P/1 – Jorge, você disse que era uma emoção grande essa história de brincar na linha do trem? Fala mais disso, se você puder. 

 

R – A gente ouvia a Maria Fumaça apitando de longe e  aí já preparava. Lá era cheio de pedras e a gente corria apostando, depois que o trem passava, a gente olhava, para ver o que tinha acontecido. Não tinha pedra, não tinha mais nada. O peso dela destruía tudo. (risos) Ai, gente, é coisa de criança, viu? Soltávamos muito papagaio. Hoje eles falam pipa, mas no nosso tempo era papagaio. Jogava pião, aquelas coisas, era brincadeira boa, fantástico. 

P/1 – E depois, quando você foi crescendo, ficando mais adolescente, você ainda estava em Ponte Nova, né? Porque você mudou com quatorze anos. Ou lá mesmo já em Ouro Preto, o que é que você fazia para se divertir, quando jovem? Tinha amigos? 

 

R – Aí eu comecei a fazer amigos, em Ouro Preto. Comecei com futebol, eu fui trabalhar no armazém e o meu patrão era presidente de um time de futebol. E as reuniões eram lá, nos domingos de manhã porque, naquele tempo, poucas pessoas tinham televisão em casa. Então, de manhã todo mundo levantava cedo, para ir jogar bola. Ou nos bairros ou lá no Centro, no campo, tinha campeonato. E através daquilo, a minha amizade foi crescendo. Eu fui __________. Aí eu comecei a namorar com essa minha esposa, ela começou a namorar comigo quando ela tinha quatorze anos e eu, quinze. Nós vivemos cinquenta anos. Ela morreu agora, dia 27 de novembro passado, em 2020. Segunda-feira ela completaria 66 anos. Eu sou seis meses mais velho do que ela, eu faço em abril e ela em setembro. Aí eu já conhecia e começamos a namorar, meu pai foi contra. Aí começou aqui e ali, a gente falava que ia pra missa, né? Ia nada, ficava lá no lago namorando. As amizades contando caso. Aí chegava em casa: “Fui na missa”. Nada, não. “Eu fui na missa”. Aí depois eu fui para o álcool também, tomei uns goles, mas com 26 anos eu deixei o álcool.  

 

P/1 – Só fala um pouquinho ainda do namoro com a sua esposa. Foi a sua única namorada?

 

R – Foi a única. Eu a conheci, foi a primeira e encantei. Ela era cor de jambo, era a coisa mais linda. A gente brigava muito, porque ela gostava de usar umas roupas muito curtas. Mas nós fomos conscientes, nós tivemos uma vida feliz, porque nós ficamos onze anos, eu casei com 26 e ela com 25. Nós éramos muito novos, sabe? Nós fomos namorando, namorando, aí meu pai morreu, aí eu lembro que a minha mãe falou: “Não faz coisa com essa menina”, minha mãe gostava muito dela. E os pais dela eram alcoólatras, o pai dela morreu com 37 anos, de álcool. E a mãe dela era alcoólatra também, viveu muito. Inclusive, quando ela namorava comigo, tinha vez que a minha mãe a colocava no canto da cama dela, para dormir com ela. A minha namorada, eu fui e acertei. Que história essa! 

 

P/1 – Jorge...

 

R – Mas ela sofreu mesmo. São duas irmãs, ela e outra irmã. Elas sofreram com o álcool do pai. Eu não cheguei a conhecer meu sogro não, eu conheci histórias dele, ele morreu com 37 anos. 

 

P/1 – Jorge, você disse que sua mãe a colocava para dormir? A sua mãe?

 

R – É que às vezes a mãe dela bebia e a minha mãe não a deixava ir para a casa dela. A minha mãe a segurava e a irmã dela e ficavam lá em casa. Aí outro dia que ela ia embora. Por causa do álcool da mãe. 

 

P/1 – Entendi.

 

R – Ela tinha um tio em Belo Horizonte, que queria levá-las embora, só que a mãe deixava ninguém pegar. Com o álcool dela, com essa coisa toda doida dela, mas ela criou as filhas dela, não admitia passar as filhas dela para ninguém.

 

P/1 – E você disse que namorou sempre com ela, né? Que foram muito felizes.

 

R – É, foi sempre com ela, sempre fomos muito felizes. Não quer dizer que vivemos cinquenta anos e foi um ‘mar de rosas’, né? Teve uns altos e baixos, mas a gente era muito amigo. Eu sei que, no final, agora, eu cuidei dela quatro anos, independente de qualquer coisa. Foram quatro anos pelejando lá em Belo Horizonte, hospital, troca de hospitais, pra cá, viagens, dependendo do SUS, dependendo de muita coisa, mas até o último suspiro dela. E ainda fiz a vontade dela, que ela quis ser cremada e jogar as cinzas no Rio Paraíba do Sul, lá em Aparecida do Norte. Nós fomos lá e fizemos para ela. Eu, meus três filhos e a minha cunhada, porque ela só tem mais um irmão. Aí nós fomos lá ano passado, fizemos o desejo dela. 

 

P/1 – Jorge, se você pudesse escolher um momento junto com ela, assim, ou momentos que você sempre lembra, escolher um para contar para a gente, uma situação, nesses cinquenta anos.

 

R – Ah, teve muitos momentos bons. Eu vou contar já com meus filhos. Quando nós fomos em Aparecida do Norte, com os nossos três filhos, foi uma coisa muito marcante, muito linda. Eu lembro que o ônibus ainda quebrou na estrada e nós ficamos batendo papo a noite inteirinha, até pegar um outro ônibus, para a gente seguir a viagem. Foi bacana pra caramba, foi muito bacana. E outra coisa, foi em 1994. Eu tenho uma filha, a mais velha, tem 38 anos. Ela é de 1982, em 1994 ela tinha doze anos, o outro tinha nove e o outro tinha seis, porque são diferenças de três anos. E veio o Raça Negra, na época eles estavam no auge, até hoje a música deles é sucesso. Aí, a gente na praça e eu com essa minha menina de doze anos, com ela pesada no colo, querendo embora e ela não queria ir embora. Eu nunca vi um show... nunca Ouro Preto teve tanta gente nesse dia, como nesse show do Raça Negra. Isso foi uma coisa muito marcante também. E mais outras coisas, a gente levava cadeira lá para a praça, na estátua de Tiradentes, Carnaval, desfiles de escolas de samba. Ah, momentos muito felizes, teve momentos muito bons. E quando a gente namorava, todo ano, em setembro, a gente ia em Curvelo, na festa de São Geraldo Magela. Isso foi uma coisa que marcou também. A gente ia, mas não ia rolar nada, ia namorar mesmo. Chegava lá e muitas vezes nem entrava na igreja. (risos) Coisa de adolescente, né? Mas foi tudo muito bom.

 

P/1 – Vocês se casaram na igreja? Ou foram só morar juntos...

 

R – Quem salvou essa minha... foi a patroa dela. Ela tinha uma patroa que a considerava como filha. E essa patroa tinha três filhas. Inclusive uma é da família dos Lacerda, é lá de Pindamonhangaba, eles tinham muito a ver com esse negócio da Alcan lá. A minha sogra diz que lavava roupa para ela. E chegava lá muitas vezes bêbada ou tonta, porque falava na época, quando o povo bebia, ficava “bêbado” ou “tonto”. Aí ela pegou essa que foi minha esposa, para ficar com ela lá e a educou. Então, nosso casamento foi  casamento muito bonito, na Matriz de Nossa Senhora da Conceição, 06 de dezembro de 1981. Teve um casamento muito bonito. Inclusive, essas filhas dela a apresentavam, em qualquer lugar que fossem, como irmã delas.

 

P/1 – Você lembra da sua emoção, no dia do casamento? Como é que foi? Descreva um pouquinho. 

 

R – No casamento?

 

P/1 – É. Como que você sentiu, como é que foi quando você chegou, quando ela chegou na igreja, enfim?

 

R – Nossa, chegou linda. Inclusive eu ia passar essa foto, mas infelizmente eu moro sozinho aqui porque, quando eu fiquei viúvo, eu não quis ficar na minha casa lá em Ouro Preto, não. Porque meus filhos se formaram, foram embora, todos eles moram fora. Todos os três trabalham em multinacionais. Um trabalha na ______ , é engenheiro de produção. A minha filha é tecnóloga em Gestão da Qualidade, tem duas pós, fez especialização no Chile e tem quatorze anos na Vale. É uma pessoa bem conceituada. Os três. E o outro era educador físico, aí abandonou e hoje é químico. Ele cuida da água da Gerdau em Ouro Branco, ele é um dos responsáveis pela água. Então, graças a Deus isso eu fiz, eu falei para eles o que eu passei e eu fiz de tudo para eles serem bem-sucedidos na vida. E, graças a Deus, eu olho para trás e falo assim: “Valeu a pena”.  

 

P/1 – Jorge...

 

R – E com a minha esposa também foi a mesma coisa. A minha esposa, não se formou e depois de uma certa idade, aí com 48 anos, ela ingressou na Universidade Federal de Ouro Preto, fez Administração Pública. E ainda fez pós em Etnia. Aí ela se aposentou, era funcionária pública, se aposentou na prefeitura de Ouro Preto. Quando ela ia arrumar um emprego, depois de aposentada, veio essa doença e infelizmente viveu quatro anos e faleceu. Estava muito alegre, de bem com a vida, ia trabalhar, prestar serviço, mas infelizmente a vida... E eu segui o exemplo dos meus três filhos e dela, por isso que eu tô estudando. Eu parei, saí, cinquenta anos fora da escola. Eu me formei com dez anos, quase dez anos e não voltei mais. Eu vim para Ouro Preto, comecei fazer Madureza ginasial, mas aí comecei trabalhar, me empolguei muito com a pintura, aí larguei. Mas eu voltei agora, fiz o ensino fundamental, fiz o médio, já fiz o Enem como treineiro e vou querer ingressar. Se Deus quiser eu vou...

 

P/1 – Muito bom. Jorge...

 

R – É porque é muito exemplo, né? 

 

P/1 – Só um minutinho, vou pedir pra você voltar um pouco. Fala o nome da sua esposa. Você está me ouvindo?

 

R – Tô ouvindo.

 

P/1 – Fala o nome da sua esposa e dos seus três filhos. 

 

R – A minha esposa é Eva Pires André. Ela nasceu em 06 de setembro de 1955. Ela é natural de Ouro Preto. A minha filha mais velha chama Paula Pires André. Ela é do dia 17 de novembro de 1982. Eu tenho o segundo, é Henrique Pires André, 14 de outubro de 1985. E tenho o Edilson Pires André, 02 de julho de 1988.

 

P/1 – Parabéns por tudo isso, né? (risos)

 

R – Eu tenho três netinhos. Eu tenho o Bernardo, de um ano; tenho o Luquinha, o Lucas, de dois anos e o Rafael, de 12 anos.

 

P/1 – Beleza, parabéns! Jorge, você falou da escola, que você fez até os dez anos, depois você retoma mais para frente. Sobre a escola, ou lá atrás, quando você era criança, ou quando você voltou, tem alguma marca importante sobre a escola, alguma situação que vale contar?

 

R – Uma coisa que eu lembro é que tinha uma brincadeira na escola. Na época falava tabuada. A gente ficava lá no final da sala e quem gaguejasse ou errasse, perguntava: “3 x 2?”. E eu sempre ganhava essa brincadeira, aí você dava um passo à frente, retomando a tabuada. Então, eu sempre fui campeão. Então, isso me marcou na escola, a aula de Matemática.

 

P/1 – E depois, quando você voltou para a escola, que você foi fazer, terminar o ensino fundamental e depois o médio, foi tudo à distância, supletivo ou foi...

 

R – Eu fiz o Encceja. E depois eu fiz o Encceja Médio. Mas a prova final a gente ia fazer lá na Escola Estadual Dom Pedro II, em Ouro Preto, o meu certificado é de lá. E o fundamental, Marília de Dirceu, em Ouro Preto também, só que no bairro Antônio Dias. E a Escola Dom Pedro II é no Centro.

 

P/1 – Mas você não fazia na escola? Estudava e ia lá fazer...

 

R – Em casa, eu tinha professor, eu pagava professor particular, para me ajudar. Eu tinha aula de reforço.

 

P/1 – Então não era na escola, né, Jorge?

 

R – Eu comecei a ir na escola, mas só que o ambiente lá, na época, não estava muito agradável não, que as pessoas não estudavam na época certa e os adolescentes, acho que ficava muita bagunça, eu falei: “Ah, num vou”. Até minha esposa não gostou não, queria que eu fizesse lá. Mas eu falei: “Ah, não, mas eu não vou, não”. Ela falou: “Eu fiz, depois de velha eu fui, eu fiz” “Você pode aceitar, mas eu não concordei, não”. 

 

P/1 – E deu certo, né? 

 

R – Deu certo. 

 

P/1 – A gente vai entrar agora, Jorge, eu vou perguntar se a Sônia quer fazer alguma pergunta, que nós vamos entrar agora na parte do trabalho, mesmo, que você ia começar a falar, eu falei para esperar, né? 

 

R – Não, eu queria falar ainda dos meus mestres de pintura em Ouro Preto, o que eu fazia em Ouro Preto, na pintura.

 

P/1 – Ótimo! Então, Jorge, só vou perguntar se a Sônia quer fazer alguma pergunta sobre infância, sobre família. 

 

R – Ah, tá.

 

P/2 – Oi! Então, nossa, tô adorando! (risos) Ficou linda, linda, linda mesmo. Mas ok, vamos seguir, estou aqui, me deliciando e lá na frente eu pergunto uma mais...

 

P/1 – Ótimo!

 

P/2 – ... geral, assim, tá?

 

P/1 – Para o Jorge falar agora, né? 

 

P/2 – Isso. 

 

P/1 – Tá. Então, Jorge, você ia contar isso, não precisa nem esperar a gente falar, né, você já ia contando. Então, em Ouro Preto, você mora, só para gente situar, você mora, morou em Ouro Preto até agora, recentemente?

 

R – Até agora. 

 

P/1 – Então, a sua cidade mesmo, o seu local de moradia é em Ouro Preto?

 

R – Ouro Preto. Criei meus filhos, moro lá faz cinquenta anos.

 

P/1 – Tá. Então, você ia contar que você começou a aprender algum ofício lá. Então, você pode começar a falar, por favor. Só um minuto, que eu vou desligar o microfone.

 

R – Porque, quando eu cheguei para Ouro Preto, igual eu te falei, comecei a vender coisas na rua. Daí depois eu fui trabalhar no armazém. Trabalhei quatro anos. Depois desse armazém, eu não quis mais, eu fui trabalhar nas pinturas. Tinha um colega meu que comprava lá, o pai dele, no armazém e nós éramos muito amigos e ele pegou e me incentivou e me levou para a pintura, com ele. Aí nós começamos com esse Xavier, sei que na época ele era um sujeito bem velho em Minas. A gente trabalhava e a coisa gozada é que o pessoal de antigamente não gostava de ensinar a preparação da tinta, não. Aí a gente estava trabalhando para a preparação, lixando, raspando, eu tirava, removia a tinta com removedor pastoso, outra hora era a gás, aquele bico de ferro, aquele bico de fogo. Botava na porta de igreja, de monumento. E quando chegava, ele preparava, a massa a óleo, lixava, quando estivesse no ponto de pintar, ele chegava na obra, entrava no quarto, num cômodo qualquer lá, trancava a porta, preparava a tinta do jeito dele e depois ele saía com as latas, entregava para gente pintar. Ele não deixava a gente ver a preparação. Aí teve um dia que alguém dele, acho que um sobrinho dele me pegou olhando na greta, vendo-o preparar. Aí me deixou de castigo, me deixou um ano na caiação, só mexendo com a caiação. Porque naquela época, em Ouro Preto, eles eram assim, um pintor com outro, eles não consideravam adversário, nem nada, eles eram inimigos mesmo. Se você trabalhasse com um e quisesse trabalhar com outro, era muito difícil os outros te darem emprego: “Não, você trabalhou com o Xavier, não vou dar não, você não é confiável!” Aquela coisa, das coisas de pessoal antigo, né? Mas eu o agradeço muito, aprendi muito. Para ele me considerar pintor, levou quatro anos. Quatro anos. Mas eu fui uma pessoa muito bem sucedida. Aí ele faleceu e eu fui para a Alcan. Eu fiquei sem chão, né? Eu falei: “Como é que eu vou fazer?” Nós ficamos, eu e esse colega meu. E aí nós dois fomos para a Alcan. Ele chegou até a se aposentar na Alcan. Só que eu saí, o meu negócio não era construção civil, mesmo. Falei: “O meu negócio era a pintura”. Eu tentei... 

 

P/1 – Jorge, só um minuto. Ainda agora, eu queria saber um pouco mais dessa época que você trabalhou com ele na pintura. Vocês faziam pintura de casas ou...

 

R – Não, casas, pintura de casas, escola, era tudo, ele era um cara bem-conceituado. Aqueles casarões antigos lá em Ouro Preto, Educandário em Santo Antônio, tudo, ele prestava serviço para o órgão municipal. Então, ele trabalhava, prestava serviço no órgão municipal, pintando escolas, na área da Saúde e Educação. E pintava particular, em Ouro Preto também. Quando eu estava com ele. A gente ia pros distritos, pras roças, pintava escola, grupo, aquelas coisas.

 

P/1 – E tinham, nesses prédios todos, alguns que eram patrimônios, que tinha que ter conservação especial? 

 

R – Tinha. Esse Educandário de Santo Antônio até hoje lá é um bem tombado, é um patrimônio tombado. Tinha. A gente preparava, tinha todo o processo de pintura, tudo. Coisa que não saía a fogo, a gente removia com removedor pastoso, tudo com equipamento de segurança. Só que, naquela época, a gente aprendia mesmo, porque a gente tinha tempo. Muitas vezes, você ficava um ano numa casa, pintando. E hoje não, hoje é produção, então tem aquela velocidade, essa correria de hoje em dia. E lá não, eu lembro neste Educandário de Santo Antônio, nós ficamos três anos lá trabalhando. Mas ficou um luxo, ficou um luxo. Lá nós aprendemos tudo, desde a preparação, que o principal é a preparação. Você preparar e preparar, para depois você aplicar. E muitas vezes ele falava: “Não, ainda não está na hora de dar o acabamento nessa porta, não. Ainda tem que passar duas vezes  _______ ”. A gente até chorava de raiva, mas era muito disciplinado. Às vezes, a gente chegava reclamando em casa, nossos pais falavam: “Não, isso aí tem que melhorar. Isso para você se tornar um bom profissional”.  

 

P/1 – Jorge.

 

R – Oi.

 

P/1 – O que você fazia principalmente era a parte da preparação?

 

R – Da preparação. Teve uns dois anos...

 

P/1 – E quando era um imóvel... desculpa, vou só continuar, depois você fala. Quando era um imóvel assim como você disse, o Educandário, que era um patrimônio, tinha algum tratamento especial que vocês tinham que fazer? Você, no caso.

 

R – Eu era muito novo, o meu negócio mais era... a gente tirava toda a tinta com espátula. A tinta é uma prospecção, hoje eu falo, é prospecção. A gente tirava aquilo, às vezes, você ficava seis meses só tirando tinta de parede. Seis meses. Depois tinha que riscar...

 

P/1 – E quando era um imóvel, vamos dizer, que não era tombado, aí não precisava desse cuidado? 

 

R – Não, não precisava, não. É essa pintura normal. Esperava o reboco furar, você aplicava a cal, lixava, tinha o selador e vinha com a tinta. Era tranquilo. Principalmente quando era esses prédios de escola, lá em Ouro Preto.

 

P/1 – E o que você gostou deste trabalho, o que te encantou nesse trabalho? Quantos anos você tinha quando começou?

 

R – Nessa época eu estava com dezesseis, dezessete anos. O que me encantou é que eu sempre tinha tranquilidade para trabalhar. Eu fazia a coisa tranquilamente. A gente recebia mensalmente, então você não tinha ninguém te amolando, nem nada, o cliente só queria o serviço bem-feito e com capricho. E isso que era o bacana de trabalhar antigamente, é diferente de hoje. Hoje é muita pressão. A gente mesmo, na escola, põe pressão nos alunos lá, porque o tempo é curto para eles formarem, são cinco meses de curso. 

 

P/1 – A gente já vai chegar na escola, mas ainda falando um pouco desse seu trabalho, você com quatorze anos, eu penso, era um trabalho pesado ou não? Ou tinha um lado que você tinha prazer?

 

R – O problema é que eu tinha prazer, então eu nem pensava nisso, se era pesado ou não. Eu gostava do que fazia, adorava. A gente ia feliz, saía com aquela roupa toda suja de tinta, andando pelas ruas de Ouro Preto, um chama: “Ô, ‘seu’ Jorge, pintor! Ô”, aquela coisa, então eu me sentia feliz com aquilo ali. Você vê que eu abri mão da Alcan, na época, para trabalhar a pintura. Você colocava um uniforme da Alcan, você era um cara bem-conceituado, as portas abriam para você, lá nos comércios. Mas eu não, eu saí e vim para a pintura: “Eu quero ser pintor, eu vou trabalhar na pintura”. Andava com chinelo de dedo, escada nas costas, atravessava a cidade de um lado a outro, trabalhei, criei minha família. Era gostoso. 

 

P/1 – O que te fazia se orgulhar tanto assim, dessa profissão? Só um minuto, espera aí, Jorge. Só um minutinho. Eu vou te dar um sinal, tá? Eu perguntei o que te fazia se orgulhar tanto dessa profissão, que você falou que andava pela cidade. 

 

R – Quando você termina uma obra, é muito elogio e eu fazia no capricho mesmo. Terminava, eles vinham, fotografavam todo o serviço. Era uma coisa fantástica, tinha prazer, ficava namorando a obra. Olhava a parte externa, era uma coisa linda, maravilhosa. Até hoje, eu tenho serviço lá de quarenta anos, que está lá hoje. 

 

P/1 – Você disse que ele guardava um segredo na hora de preparar a tinta. 



R – É, preparação. 

 

P/1 – Por que isso? Você sabe por que isso, Jorge? Todo pintor faz isso, tem alguma história?

 

R – Na época fazia porque ninguém queria crescer, né? O cara era importante, ele era o chefe, na época, tinha essas coisas, então ele queria todo mundo abaixo dele.Então, segurava, não é que ele era ruim não, tratava a gente bem, valorizava a gente. Mas era só isso que acontecia lá, com o mestre. 

 

P/1 – Preparar é o segredo. E pintar, aí podia? 

 

R – Aí podia. Ele chegava e te entregava lá. “Se terminar, me avisa dois dias antes. Se ver que não vai dar para fazer tudo, me avisa que eu venho e volto para preparar mais”. 

 

P/2 – E com quem você aprendeu a preparar a tinta?

 

R – Com o Xavier. Esse moço morreu em 1975.

 

P/2 – E ele te ensinou, assim, especialmente você? 

 

R – Ensinou tudo. Não, não ensinou, não. Essa preparação eu aprendi na marra. Inclusive eu fiquei uns quatro, cinco anos já ganhando, só preparando tinta em Ouro Preto. Quando uma pessoa ia pintar uma casa, me contratava para fazer um ocre, sangue de boi, um verde. Mas eu trabalhei. Cinza, de qualquer tonalidade. Eu fiz muito isso, até contei isso pros alunos lá na minha escola, lá na Escola de Ofícios Tradicionais. Eu reinei muitos alunos lá em Ouro Preto, nesse ponto. Eles fizeram no tempo deles e depois eu fiz, no meu tempo. 

 

P/2 – E até hoje você faz o que ele te ensinou ou você já mudou alguma coisa?

 

R – Não, você é obrigado a mudar, porque o método é diferente, né? É igual a cal mesmo, que chega lá na Escola Tradicional, vem com óxido de ferro, ela já vem toda pronta. É só você hidratar, deixar curtir lá e depois só usar. Temperar do seu jeito, se for igual um leite, ralinha, se a parede a pedir mais grossa, você faz e ela já é toda fixa. Antigamente, você tinha que preparar com sal, fixador, óleo de linhaça, você tinha que fazer todo o processo na cal, bater. Hoje a cal chega praticamente pronta. O que você tem que fazer só é abrir, jogar dentro da bombona, deixar hidratar lá e depois usar. À cego, você fazia argamassa, quase tudo.  

 

P/1 – Jorge, a gente pode dizer que o segredo é esse, do mestre, de preparar?

 

R – É, o mais é isso. De preparar e ensinar também. Eu acho que, nos dias de hoje, você tem que ser feliz e fazer a pessoa crescer também, ela se tornar importante. Coisa que o nosso mestre não deixou a gente ser importante, na época. Só depois que eles pararam, morreram, que nós assumimos o lugar dele. Hoje não. Hoje, o que eu puder fazer para os meus alunos lá já saírem uma pessoa importante e com muita sabedoria, eu passo. Eu preparo na frente deles, depois eles é que fazem, eu não faço nada, não mexo. Para aprender, eles têm que praticar, eles têm que fazer tudo. Então, quando o cara sobressai mais que o outro, ele é que vai dar aula para mim. Igual eu deixei um moço ontem, ele deu uma aula para mim, lá: “Você vai ficar aí, que eu vou olhar uma outra turma ali”. Então, você já começa a delegar poder para pessoa. O sistema hoje é esse. Você não acha que está certo?

 

P/1 – Eu ia perguntar isso para você: o que te fez agir dessa forma? Porque, na época que você trabalhava com outro mestre, você explicou como era. E por que você agora faz desse jeito? 

 

R – Porque eu sofria muito. Por causa disso, as pessoas não deixavam você caminhar com as suas próprias pernas. Por isso que hoje, o que eu posso fazer... eu sou enjoado. Tem hora que falam: “O senhor pega muito no meu pé”, eu falei: “Não, precisa desenvolver, né? O mundo hoje é muito veloz, uai. Então, vocês têm que acompanhar”.

 

P/1 – Jorge, quando você continuou trabalhando com essa pessoa, enquanto você trabalhou com ele, você fazia só a parte que você contou, você não fazia a parte da mistura?

 

R – Da mistura, não. O resto, tudo eu fiz. No final ele já foi deixando, ele começou a ficar meio doente, a gente já estava assumindo. Só que veio um sobrinho dele e o sobrinho dele assumiu a preparação. A gente sabia até mais que o sobrinho dele, mas como eu não sei... passou o sobrinho dele. Aí depois nós trabalhamos um monte de tempo juntos ainda, com o sobrinho dele, todo mundo amigo, aprendendo. Aí depois eu toquei minha própria... aí vamos chegar nesse ponto ainda, do que eu fiz com a minha turma em Ouro Preto, onde eu vou contar para vocês ainda. 

 

P/1 – É, quando chegar na escola. Daqui a pouquinho a gente...

 

R – Não é nem da escola não, é lá de Ouro Preto. Eu como pintor, com a minha equipe.

 

P/1 – Jorge, só para gente se situar, você ficou quanto tempo trabalhando com esse... talvez você já tenha falado, só para retomar: quantos anos você falou...

 

R – Com esse senhor? 

 

P/1 – É.

 

R – Eu trabalhei com ele por quase cinco anos. 

 

P/1 – E depois aí conta como foi a trajetória, até chegar. Pode ir falando, como você se tornou o responsável?

 

R – É igual eu te falei: eu fui para a Alcan, fiquei um ano e onze meses, a minha mãe faleceu, morava lá, ela faleceu e eu saí da Alcan. Aí comecei a trabalhar como ajudante. Tinha um rapaz lá, que era difícil você começar de novo, que ele tinha saído do mercado lá, da água e foi difícil. Eu comecei a trabalhar com o rapaz e tinha um professor lá da universidade, acho que ele ficou observando, viu que eu estava trabalhando muito, quem fazia era só eu e ele gostou do meu serviço. Ele pegou, me chamou e falou assim: “Eu tenho mais uma casa para pintar, mas eu não quero esse rapaz, não. Ele não vem aqui, é ‘nó cego’, quem fez praticamente o serviço todo e muito bem-feito, foi você”. Eu falei: “Ô moço, mas eu não posso, não tenho nada, não tenho escada, minha mãe faleceu há poucos dias agora, eu saí da Alcan, tô ajudando meus irmãos mais novos, eu não sei”. Ele falou: “Eu vou comprar tudo para você”. Olha para você ver como eu era inseguro. “Aí eu vou levar você na casa primeiro, vou comprar a escada, eu vou te dar tudo. Você vai começar do zero agora e vai embora”. Eu falei: “Tudo bem”. Eu falei: “Mas o moço vai ficar meu inimigo, vai ficar com raiva de mim”, ele falou: “Não tem problema. Se realmente ele gostar de você e te valorizar, lá na frente ele vai conversar com você”. Ele foi e comprou, eu pintei a casa dele. Aí ele me indicou para um, para outro e fui embora, fui levando. E comecei a trabalhar. E através disso eu fiquei lá quarenta anos trabalhando lá, quarenta anos em Ouro Preto. Ó, eu fiquei dezessete anos quase, vários anos, eu preparava a cidade toda para a Semana Santa, pintura de Páscoa, chafariz, pátio de igreja, muro da cidade. E ainda tinha uma equipe de limpeza, que limpava os enfeites de procissão com serragem, aquelas coisas, saíam limpando. Eu já pintei umas sete igrejas em Ouro Preto, Museu da Inconfidência. Eu já prestei serviço para o órgão municipal, federal e estadual.

 

P/1 – Jorge, só um minuto. Seria muito importante você, então, contar um pouco desse processo. Você pintava esses espaços e alguns deles eram patrimônio?

 

R – Era tudo patrimônio. 

 

P/1 – Então, conta um pouco dessa relação sua com esses patrimônios. Assim, além da parte de fazer o serviço, tinha alguma... você falou que olhava, ficava orgulhoso, né? Mas na hora que você estava pintando, ou o seu grupo, tinha alguma relação especial com esses lugares ou algum cuidado? Enfim, como é isso?

 

R – Mas você tinha que manter as cores que estavam lá. Tem pastas que eram ocre com azul. Tinha outra que era vermelho sangue de boi, com verde. Tinha outro que era cinza, então você tinha que manter aquilo. Você tinha que ter a qualidade do trabalho, era um trabalho com capricho. E esse pessoal de irmandade da igreja era muito detalhista. Eu gostava do desafio, era bacana, mesmo. Aí, depois que terminava tudo, era só elogio. Então, eu pegava como se a cidade fosse minha, abraçava a causa mesmo, era muito chique, era muito bacana. Tenho saudade disso, tenho saúde para isso hoje, mas infelizmente já tem outros que ocuparam lá e estão levando bacana lá. Mas eu fiz isso. E lavaram as pedras, só que lavaram do modo errado. Hoje eu conheci um menino que mexe com cantaria, eu lavava as pedras com ácido muriático, você já ouviu falar nesse ácido? A pedra ficava bem limpinha, adicionava com a água natural, limpava, ficava linda. Aí fazia aquela caiação branquinha no chafariz. São sete chafarizes. Todinho. Onde era o percurso da procissão. Então, você fazia aquilo com muito orgulho, com muita paixão mesmo.

 

P/1 – Jorge, você falou que fazia do modo que não era para fazer, agora está de outro jeito? 

 

R – Não, era do modo que era para fazer. É só a pedra, lavar, que eu não era da área. Agora está se recuperando, tem um canteiro aí, mas essa profissão parou, né? Canteiro. Agora nós temos um rapaz, ele é até professor lá na escola, o Rinaldo, ele trabalha com a Giovana. Ele é o canteiro. Nós estivemos na Itália em 2001. Eu e ele, nós fomos na Itália em 2001, no projeto Movimento Monumenta . 

 

P/1 – Conta, então, dessa viagem. 

 

R – Depois vou contar.

 

P/1 – Depois. Ô, Jorge, conta então, você falou: “Eu queria contar da minha turma, mas da escola”, que você falou? Antes ainda, esse seu trabalho foi crescendo, né?

 

R – É, eu pintei uma casa, em 1985, em frente ao Grande Hotel em Ouro Preto, num modelo mais moderno. Essa casa saiu até num livro de um arquiteto renomado, não estou lembrando o nome dele aqui. O nome do dono da casa é Valter José do Amaral, ele era dono da Vermelhão Mineração. Topázio Imperial, já ouviu falar? Essa casa em Ouro Preto, em topázio cor de vinho, ficou uma casa chique e foi o maior orgulho para mim também. É uma casa chique, meu nome foi lá, uma coisa... eu chegava lá de chinelinho de dedo.

 

P/1 – E você, como responsável por um grupo, você tinha trabalhado pra uma pessoa, agora as pessoas trabalhavam com você, é isso? Uma equipe?

 

R – Eu tinha uma firma que passaram 86 pessoas nessa firma. Sendo três mulheres. Mas não era funcionária minha, direta. Uma engenheira civil, que tinha que assinar o responsável técnico. E tinha duas da área da contabilidade. E o resto tudo foram homens que passaram lá.

 

P/1 – Mulher pintora não tem muito, Jorge?

 

R – Agora tem. Por isso que eu as homenageei há poucos dias lá, porque eu contei esse caso para elas, que eu tive uma empresa que só passou homens. Agora a gente chega lá na escola e 80% a 90% são mulheres.

 

P/1 – E o que você acha disso? Assim, trabalhar com os homens e com as mulheres, tem diferença e que diferença teria? 

 

R – Algumas chegam mais acanhadas, mais assim. Mas tem mulher lá que faz mais do que um homem. Eu estou observando mulher do setor de alvenaria lá, é carrinho de mão, põe pedra, brita e fazem com aquele amor, aquela paixão mesmo, aquele amor. Eu vejo lá, a maioria. Vocês vão ter o prazer de visitar a escola, vão lá um dia, vocês vão ver. Mas trabalham mesmo, faz massa, faz tudo que um homem faz. Na minha área sobe em altura, pinta, lixa. Não tem isso não, faz tudo. Nem todas, tem umas que é mais delicada ainda, chega mais acanhada, fica assim, aí eu falo para repetir o curso, para entrosar mais, sabe? Fica muito bacana. Mas eu pintei lá em Ouro Preto o Museu da Inconfidência, Casa do Pilar, Museu do Guignard. Já pintei monumentos tombados em Belo Horizonte.

 

P/1 – E a responsabilidade, Jorge, de fazer essas pinturas, do jeito que você falou, com as cores certas? Fala um pouco dessa responsabilidade e da sua equipe.

 

R – É, as cores, mas eu preparava junto com eles, eu não deixava a responsabilidade para eles não, porque eles eram muitos novos. Não era igual comigo não, mas eu preparei. Eu lembro, na época, que foi a maior polêmica em 1986, no governo Hélio Garcia, começou a voltar a Maria Fumaça em Ouro Preto e Mariana. E, para restaurar as estações, porque era tudo tombado, então foi um problema danado. Eu decidi as cores e tudo e todo mundo aplaudiu, os arquitetos da empresa, que vieram de Belo Horizonte, deixaram 100% na minha mão. E depois eles viram que era tudo eu. Às vezes, alguém estava comigo, do meu lado, trabalhando e discordava: “Calma, você vai ver que eu não estou errado. Eu tenho prática. Eu venho olhando Ouro Preto há muito tempo, ali tem que ser o ocre. Ali tem que ser o vermelho”. E também, na época, eu me lembro que em Ouro Preto deu uma febre, era ‘branco gelo’ e ‘azul Del Rey’. Começou assim em Ouro Preto. Você já ouviu falar nesse azul? Branco gelo e azul Del Rey, mas era muito chique. 

 

P/1 – Jorge, já vamos passar para a escola, tá? Não sei se Sônia também quer perguntar, mas eu queria explorar um pouquinho mais com você... você está me ouvindo? 

 

R – Estou ouvindo. 

 

P/1 – Eu queria entender mais qual é o segredo. E você acho que já começou a falar, né? “Calma”. Mas qual é o segredo de você, realmente... esse respeito, né, você ter se tornado mestre mesmo e qual o segredo, vamos dizer assim, de fazer um trabalho que todo mundo elogia? 

 

R – O segredo? O segredo, resumindo, acho que é o capricho. Eu falo com todos os meus alunos: se não tiver capricho, um bom acabamento, não tiver capricho, não é profissional. Em tudo na vida, na casa da gente, em tudo, o capricho tem que reinar. E eles sabem o que é, quando foi para preparar uma tinta com capricho, o que é? Saber a dosagem certa de uma cal, de um diluente. Tinta com tinta, cor e isso, tudo isso, tem que ter capricho. Não é chegar e tentar fazer não, tem que ter um planejamento, tem que fazer, é caprichar. E tem gente que briga comigo por isso: “Você é muito detalhista” e eu falei: “Não, o bom profissional é isso, é diferencial”. Inclusive, quem me levou para Itália tinha sido presidente nacional do Iphan, tinha sido Secretário do Estado na Cultura. Ele se empolgou com o meu trabalho, mas não é que ele fez isso passando a mão na minha cabeça não, é porque ele realmente viu que eu era um profissional, que ele confiava. Me indicou em muitos trabalhos em Ouro Preto. 

 

P/1 – Muito bom. Como que você começou a participar da escola? Como foi esse começo?

 

R – Essa escola é o seguinte: eu nem conhecia ninguém, eu tinha passado da escola, porque quando eu vim da Itália, nós fomos para uma determinada coisa, nós viemos com uma promessa de se tornar até funcionário do Iphan, em Ouro Preto. Cheio de coisa e não deu nada daquilo. E aí eu peguei e me aborreci um pouco com aquilo. Quando eu pego uma coisa, eu pego para fazer bem-feito. Aí eu saí e comecei a trabalhar numa loja de pedras preciosas, fiquei uns anos. E depois eu pegava uma casa ou outra para pintar, mas eu já tinha criado minha família, já estava mais ou menos bem estruturado, eu fui me desligando dessa área e fui para outra. Um belo dia, eu cheguei em Ouro Preto, um senhor me chamou, falou: “Olha, o meu filho está querendo falar com você”. Aí eu fui lá no Museu da Inconfidência, para conversar com ele. Aí ele colocou um livro assim, pra procurar Ney. Ney Nolasco é o gerente de ensino, ele até falou aquele dia lá. O Ney Nolasco. Eu conhecia, eu lembro, ele até casou no meu bairro lá, quando ele chegou para estudar Engenharia em Ouro Preto, ele casou em Ouro Preto, formou a família dele lá. Mas eu sempre só passava e cumprimentava, nunca fui ligado a ele, não. Aí, quando eu fui procurar, era esse Ney: “Você que é o Jorge, o ‘seu’ Jorge?”, eu falei: “Sou” “É porque o Alexandre que ia comigo” - que ele estudava lá na Fundação de Artes, era entrosado com ele – “falou que tudo que ele sabe, que ele aprendeu, foi o senhor que o ensinou, então é o senhor que vai. Sem eu te conhecer, você que vai para a escola”. A minha ida para a escola foi desse jeito, sem conhecer ninguém, através desse menino que foi meu aluno, lá muitos anos atrás. Inclusive eu falei: “Não, não é tudo que ele sabe que eu ensinei não, ué”, ele falou: “Não, ele falou que tudo que ele sabe foi você que ensinou. E ele era o meu cara de confiança. Como ele não vai e te indicou, então é você que vai”. E daí, quando eu cheguei lá, o pessoal assustou, ninguém me conhecia lá, mas hoje, graças a Deus, está todo mundo unido lá, fazendo o melhor que pode. Então, a minha chegada na escola foi através dele. Por isso que é bom você deixar um trabalho bom lá atrás, que uma hora você é reconhecido.

 

P/1 – Você, assim, qual foi a sua primeira impressão, chegando na escola e... 

 

R – E vou falar para você que eu tremi, porque eu nunca tinha dado aula, não. Eu era um instrutor, eu conversava assim pau a pau, mas falar em público, pegar a pessoa... nós temos alunos lá que é arquiteto, arqueólogo, é de todo nível lá, mais para nível superior, do que tudo. Eu assustei, vou falar para você. Eu tenho conhecimento, o conhecimento que você tem ninguém te tira, uma vez que você adquiriu, acabou. Mas nesse negócio de falar em público, eu tô desenvolvendo aos poucos, hoje já está sendo um avanço aqui, não sei se vocês estão gostando da nossa conversa aqui, entendeu? Mas eu era muito travado para falar em público, foi só isso que eu tremi um pouco, quando eu cheguei lá. Mas alguém foi me ajudando, outro me ajudando, chamava pra conversa, igual está aí, você está me entrevistando, a gente está num bom papo, conversando. E vamos levando.

 

P/1 – Jorge, se puder explicar, você disse que ficou pensando que dar aula para essas pessoas, né, cada um com essa formação. E como é o seu conhecimento, você disse: “Esse é meu, né, ninguém vai me tirar”. Assim, você tinha esse conhecimento. E quando você entrou a primeira vez na hora lá de dar aula, primeira entrada sua na turma, você lembra como foi? Essa hora de passar esse conhecimento, a primeira entrada, assim, como você se sentiu, como foi a aula?

 

R – Ó, o meu primeiro dia de aula foi o seguinte: foi até meio travado. Mas só que meu parceiro é formado em restauração, me ajudou bastante. Foi sobre pigmentos naturais. Fui ensinando para eles sobre coleta de material, a produção do material, explicando para eles. A produção do material e a aplicação da tinta. E através daquilo fomos entrosando. Aí fomos lá para sala e começamos a preparar uma roda e um bate papo igual a gente está assim. Eu falei: “Opa, saí numa boa, só eu falando sozinho, agora tem mais pessoas participando”. Procurei me entrosar mais, pegar mais força, mais confiança e fomos levando. Hoje eu já falo com um pouco mais de naturalidade, mas ainda eu vou te ser sincero: chegar no salão nobre lá e falar, ainda não cheguei a falar, não. Eu já escorreguei umas duas vezes lá, vou ser sincero, que eu gosto de falar a verdade, tá? Mas eu estou me preparando para isso, acho que depois dessa entrevista aqui hoje, talvez eu já chegue mais confiante ainda para, no encerramento desse curso, eu já conseguir falar o que eu quero falar. E no início do outro também, eu já vou falar pelo menos uma meia hora lá para eles, sozinho falando. Aquela palestra organizada, né? Introdução, desenvolvimento e conclusão. Você tem que treinar nisso.

 

P/1 – Quem orienta você, por exemplo, sobre isso? Introdução, desenvolvimento e conclusão, que a fala é boa que seja assim. Quem fala isso para vocês?

 

R – É o Ney lá, o gerente de ensino. Ele é engenheiro civil, foi professor 37 anos, aposentado. Ufmg, Instituto Federal de Minas Gerais, foi professor, então ele ajuda a gente bem. E ele está me cobrando nisso: “Não, você tem que desenvolver, você tem que se libertar”. (risos)

 

P/1 – Você está se libertando. 

 

R – Eu, com meus alunos, eu falo demais lá, por isso que eles gostam da minha aula. Mas quando estão todos os cinco cursos dos alunos, os cinco cursos, eu sei falar e eu sou meio travado ainda.   

 

P/1 – Mas o que você teria que falar? Porque quando você está com seus alunos é tranquilo, com a sua turma, mas o que vocês têm que falar nesse lugar maior, com mais gente? É sobre o quê? 

 

R – Na época, eu nem sabia direito que eu tinha que falar, mas depois que eu falei hoje aqui, eu estou sentindo que eu devia ter falado isso, contar a história. 

 

P/1 – Ô, Jorge, mas tem esses momentos de todo mundo junto?

 

R – Tem, é que o mais tem lá. Toda quarta-feira tem, tem um momento da gente junto. A gente vai vivendo e aprendendo. Essa palestra aqui hoje, essa entrevista, está sendo um aprendizado, sabe? Está sendo um aprendizado a mais, eu vou chegar lá mais confiante. E aí eu já posso preparar minhas aulas aqui e levar.

 

P/2 - Mas o que é? É uma reunião com todo mundo, assim, que tem sempre ou são eventos? 

 

R – Você tem Marketing, Empreendedorismo e aí reúne todos os alunos. Aí tem um professor específico, mas pedem pros outros, que querem falar alguma coisa. Então, já vou começar a participar disso, saindo daqui.

 

P/1 – Você falou, Jorge, eu tô achando ótimo que você vai aproveitar esse momento, para levar. Então, vou aproveitar para te desafiar aqui: se você tivesse que escolher, da sua história: “Eu vou levar um pouco da minha história para esse momento”, ligado com a sua sabedoria, com o seu conhecimento e com a sua história, o que você gostaria de contar lá, para eles, então? Resumindo, assim.  

 

R – O que eu gostaria de contar para eles? Eu vou contar a minha infância, vou contar a minha preparação de toda a cidade de Ouro Preto, na Semana Santa. Só isso já é muito longo o assunto, eu já vou me preparar melhor, hoje a gente falou aqui por alto, mas tem bastante coisa. Aí vão me conhecer mais. É muita coisa boa, você tem que conversar mesmo, é uma coisa que eu conversava muito pouco. Hoje você tem que expor mesmo, eu tinha medo de exposição e era muito inseguro. Aí eu tô sentindo que não é tão difícil assim não, viu? Eu tenho que enfrentar o medo mesmo, com coragem, não ter isso não. Vai ser muito bom, principalmente para o próximo curso lá, vai ser muito bom.

 

P/1 – O próximo curso é...

 

R – Eu tenho muita coisa para passar e, muitas vezes, eu não passo. Eu tenho muita sabedoria, muita coisa que eu aprendi ao longo da vida e passar para essas pessoas e tem hora que eu fico travado e não passo. Às vezes, você vê, igual foi outro dia lá um tal de Chiquinho de Assis, o cara é fera na aula, deu aula sobre sino, a história do sino. Sinos. E até todos os professores sentados, assistindo a aula do moço lá. Então, às vezes eu penso: a gente também pode ser essa pessoa lá na frente, chegar lá e contar o que você... 

 

P/1 – É, porque você tem muito conhecimento, né, Jorge? Então, se você...

 

R – É só organizar as ideias, colocar num papel, ir lá e falar, perder o medo, vou fazer e vou agradecer ao Museu da Pessoa. (risos) 

 

P/1 – Ô, Jorge, eu vou olhar aqui...

 

R – Eu vi hoje: “Somos nossas histórias” e é isso que é bacana. Isso eu gravei aqui e vai ser isso a partir de agora, lá para frente, vou colocar isso. 

 

P/1 – Que lindo! (risos)

 

R – Perder o medo.

 

P/1 – Jorge...

 

P/2 - Posso fazer uma pergunta?

 

P/1 – Enquanto isso eu vou olhar aqui o que falta sobre a escola, para te perguntar. Sonia, vai lá com ele.

 

P/2 – Ô, Jorge, e agora? Você apaixonado para pintar e apaixonado para ensinar. E agora, como é que vai fazer, você vai continuar nas duas?

 

R – Eu vou continuar nas duas. É porque nós também estamos...  tem uns problemas lá com a Samarco, você está sabendo, mundialmente, né? 

 

P/2 – Ahn, han. 

 

R – Então, tem igrejas lá que foram danificadas e tudo. Então, a Renova está assinando, parece, ouvi a conversa lá na reunião, contrato com a Escola de Ofícios. E nós vamos para lá, qualificar as pessoas, para desenvolver esse trabalho lá nesses monumentos aí, nos distritos. Então, é isso, eu vou unir a teoria com a prática. A teoria é à noite na escola e a prática é durante o dia lá.

 

P/2 – Você vai pintar lá também, então?

 

R – Vou pintar lá também. 

 

P/2 – Com seus alunos, você vai com os seus alunos?

 

R – Não, a gente vai qualificar as pessoas que a Renova contratar.

 

P/2 – Ah, tá. 

 

R – Se vier... pode acontecer de ter algum aluno trabalhando lá. 

 

P/2 – Tá. 

 

R – É o que eu vou fazer, vou considerar as duas coisas: a prática com a teoria, ensinar e trabalhar.

 

P/2 – Que bom, hein? 

 

R – Gente, eu achei que fosse uma coisa essa entrevista. Mas eu me preparei, vim sem medo, falei: “Vou para essa entrevista sem medo nenhum!” Preparei esse computador, ele estava até parado, fiquei tão animado. Arrumei tudo, comprei a... arrumei aqui e está sendo maravilhoso, viu?! Está sendo maravilhoso!

 

P/1 – Dá um passeio pela vida, né? Dá um passeio pela vida, se move... 

 

R – Vocês são pessoas que estão me dando apoio, pessoas de uma simplicidade ____. 

P/1 – Eu vou te perguntar algumas coisas sobre a escola: Jorge, como é uma aula? Eu sei que você já explicou do que a gente perguntou, mas se você puder descrever uma aula.

 

R – A aula é assim: eu sou o mestre na prática e tem uma menina lá, ela é formada em Restauro no Instituto Federal de Minas Gerais. Ela dá a aula dela com o data show, explica tudo. Então, ela deu aquela aula. Aí, no segundo horário, é o horário meu depois do dela, são dois horários. Cada hora eu vou na prática do que ela ensinou, que aí os alunos já vão para a minha prática, já com uma noção da aula. O que acontece lá é isso. Aprende a fazer, igual dosagens de tinta, eles já estão preparando lá, fazendo o mural do Iphan lá, só com a cal. São 65 cores diferentes da cal. Aí eu já fiz o mural, já riscamos, vai pintar lá e vai ficar na história para os visitantes, todo mundo que chegar lá vai ver o mural. A paleta de cores lá. Aí eu explico, eu vou lá e passo para eles como exemplo e já mando fazer as dosagens certinhas. Tudo numerado, tudo direitinho e vamos embora. Agora...

 

P/1 – Quem deu essa ideia, de fazer isso? Esse mural. Quem teve, trouxe essa ideia, para vocês fazerem?

 

R – Essa ideia a gente já traz... eu mesmo tenho essa prática, desde novo lá fazendo, só que eu fazia particular. Agora essa ideia nós pegamos no Manual do Iphan. 

 

P/1 – Você que pensou, Jorge, em fazer essa paleta de cores ou foi uma orientação que alguém deu no curso?

 

R – Essas paletas?

 

P/1 – É, vocês vão fazer isso, né? Vão fazer todas as cores.

 

R – Já fizemos, já está pronto, agora a gente já vai passar para a paleta de cores, só pintar. As tintas já estão todas prontas lá na oficina de pintura, dentro dos potinhos de plásticos, está tudo lá prontinho. Aí cada aluno vai marcar, tem a numeração direitinha das cores. Aí tem o pigmento natural, isso não tem como pôr, é a cor da terra. Nós conseguimos quinze tons diferentes de terra. Mas nós vamos colocar a paleta também lá. 

 

P/1 – Eu perguntei, Jorge, quem fez a proposta de fazer isso, dessa paleta, com tudo isso?

 

R – Ah, isso foi a ideia do primeiro curso, quando eu estava chegando para lá, quem chegou lá foi Sérgio Norberto, ele veio da área da Restauração, então ele colocou isso no Caderno de Pintura da escola. Hoje ele já foi pra alvenaria e essa menina entrou no lugar dele, na pintura, junto comigo. Ele que era o professor e eu mestre. Aí ele foi para a alvenaria e essa menina entrou e está comigo na pintura. Ele deixou esse legado lá.

 

P/1 – E, Jorge, isso é sobre a escola, por isso que eu tô perguntando. Quem faz a programação?

 

R – A programação tem a Marilene, que é a pedagoga e o Ney, são os dois. Eles não enviaram pra vocês o Caderno dos Ofícios, não? 

 

P/1 – Você recebe esse caderno, para seguir? 

 

R – Eu vou fazer o seguinte: eu vou pedir à Luciana para enviar para você todos eles, digitais.

 

P/1 – Legal.

 

R – Eu vou te mostrar. Ó o Caderno da Pintura aqui, ó. Tem pigmento natural na capa. 

 

P/1 – Que bonito! 

 

R – Está vendo aqui?

 

P/1 – Sim. Agora, sobre o pigmento natural, Jorge - legal, que ficou gravada a imagem - qual a diferença? Você tem que trazer o pigmento, assim, terra? Como é isso? O que é isso? 

 

R – É, você tem que fazer a coleta.

 

P/1 – Onde? 

 

R – Quer ver? Isso foi ontem, fazendo a coleta do pigmento natural, está vendo?

 

P/1 – Abaixa um pouco. 

 

R – Mais?

 

P/1 – Não, levanta. Isso. E vocês buscam isso onde?

 

R – A gente corre atrás, isso chama Morro do Gogô, aqui em Mariana. Esse cinza aqui é 100% argila. 

 

P/1 – Olha! Já deu para ver. Todas as cores que vocês usam tem que ter esse pigmento natural?

 

R – É, todas aqui, várias cores, ó. Cada uma de uma cor, está vendo? A gente buscou, juntos, a união, a gente vai. Tem pessoas que oferecem o sítio deles para a gente fazer a coleta. A gente busca. Cada uma na sua cor, nós estamos com 15 cores diferentes lá, de pigmento natural. 

 

P/1 – Quais cores são?

 

R – Tem o amarelo, vermelho. Tem a cor de terra, aquela terra vermelha, cor de terra. Tem cinza, branco, branco gelo. 

 

P/1 – Tudo vem da terra?

 

R – Tudo da terra, 100% da terra. Só que umas que vêm e a gente vai e sedimenta, faz a sedimentação. Aí tem uns que vêm com a areia, silte e argila. Outras vêm 50% de argila e 50% de silte. E assim vai, cada uma com a sua qualidade. E esse cinza eu sedimentei, foi 100% argila. Parece uma tinta comprada, convencional e não é. 

 

P/1 – E quando é verde, azul...

 

R – Não, verde é muito difícil achar, verde é muito difícil, muito complicado.

 

P/1 – Aí tem que fazer artificial?

 

R – Tem que fazer artificial. 

 

P/1 – Entendi.

 

R – Mas também pode acrescentar. Quando... se a pedra não for muito boa, 

você pode acrescentar uma porcentagem de cal nela.

 

P/1 – Entendi.

 

R – Fica mais homogênea. Tudo isso é aula que a gente dá pros alunos lá, é coisa da imaginação, é coisa do profissional de pintura lá na hora, a gente vai... 

 

P/1 – E quando vocês vão fazer um restauro, pode usar tinta que não seja pigmento natural?

 

R – Pode usar, uai, tranquilo.

 

P/1 – Pode?

 

R – Pode usar. ______, que não é pigmento natural. Porque até na nossa escola ainda, eu vou fazer esse curso agora, não tinha feito não, a tinta pigmento natural a óleo e cal. Eu vou começar a dar aula semana que vem, lá.

 

P/1 – Então, o básico da sua aula é bem isso mesmo? Essas misturas que precisam ser...

 

R – É mistura, ciclos da cal, mistura. A base é essa aí, é pintura. E pigmento natural...

 

P/1 – E as técnicas de pintar também, não? 

 

R – É, a gente tem feito demonstração da técnica têmpera, aquela que você faz com diluente à água, com ovo, a técnica do ovo. A gente faz tudo isso pra eles, lá. 

 

P/1 – São técnicas tradicionais, né, Jorge?

 

R – Faz a demonstração, tudo, pra eles, lá. Técnicas tradicionais. Sistema construtivo tradicional, estão recuperando esses ofícios agora. Que não era cimento, no sistema construtivo tradicional não entra cimento. Só essa cal com areia, é muito resistente, bastante resistente. 

 

P/1 – Agora você como mestre, antes da escola. Eu falo que você era mestre, porque você era uma pessoa que conhecia muito. Quando você entrou na escola, o que você conhecia foi só passar para eles ou teve que organizar tudo isso, nesse programa? 

 

R – Teve que organizar, principalmente eu, que era desorganizado. Eu fazia para mim, lá nos meus trabalhos diários da vida. Lá não, você tem que organizar, uma coisa muito bem organizada, senão não funciona. Lá tem um corpo lá docente muito bom de serviço, tem umas meninas, esse Ney, com a Marilene. E é tudo supervisionado, você dá a sua ideia, vai colocar em prática ou na teoria, eles têm que supervisionar, eles têm que dar o aval: “Vamos fazer isso aí, senão tem...”. Está sendo muito bem aceito, os alunos estão gostando muito do sistema de ensino.

 

P/1 – Então, o seu jeito de fazer na prática, o seu jeito de fazer, quando foi para a escola, você teve que organizar o jeito de passar para eles, ou não?

 

R – Eu que organizei. E ontem mesmo eu organizei lá, todo mundo ficou no centro da aula lá _______, oito meninas lá fazendo, cheguei lá uma e pouco e montei. Eu ainda falo para eles: “Eu estou aqui como uma espécie de facilitador”. Porque a aula é muito curta. São duas aulas muito rápidas, à noite. Aí eu já vou, tenho tempo, estou aposentado, então eu vou mais cedo, planejo tudo direitinho, chego e dou todas as condições. Aí eu fico ali, na cola.

 

P/1 – Jorge, essa parte que eu tô te perguntando é para entender como acontece na escola, sabe? Isso que você está falando é a sua didática, né? Você chega...

 

R – A minha didática, é.

 

P/1 – ... e organiza a sua aula. Isso tudo você foi fazendo sozinho, da sua cabeça ou teve orientação?

 

R – Não, isso foi da minha cabeça, isso é na prática. E eles aprovam, às vezes, eles sabem, mas não falam nada, aí a gente tem uma reunião toda quarta-feira, a gente chega mais cedo e tem uma reunião de consenso lá. Mas todas as minhas aulas foram aprovadas, até hoje nunca ninguém desaprovou, não. Cheguei com as minhas ideias lá, apliquei e estão lá, até hoje.

 

P/1 – Então, você traz o jeito que você vai fazer e aí na reunião eles aprovam e orientam, é isso?

 

R – Aprovam e orientam, mas sempre aprovam, na prática eles sempre aprovam. De vez em quando eles me dão um puxão de orelha lá na teoria. (risos) Na teoria, de vez em quando, eles dizem: “É assim, assim, assim”. Entendeu? Mas na prática é tranquilo.

 

P/1 – Naquilo que você ensinar? Porque você também ensina um pouco de teoria, é isso?

 

R – Ensino um pouco de teoria também. 

 

P/1 – E por que o puxão de orelha, às vezes? Qual é a orientação?

 

R – Porque tem hora que eu fico inseguro, né? Um pouco inseguro. Mas ano passado eu dei as duas, fiquei sozinho, a professora saiu, ela tinha uma empresa, não sei se ela teve contato com alguém que estava com Covid, ela teve que afastar. Aí eu assumi sozinho.

 

P/1 – E aí, como é que foi?

 

R – Estava lá sozinho, fazendo as duas partes. Aí faltou uns dias e ela voltou. Aí teve ______,  se gostar você consegue, porque tem alunos de vários níveis lá, tem aluno que é bom, a gente aprende com eles, vão entrosando e aprendendo.

 

P/1 – É isso que eu ia te perguntar, a reação dos alunos. E como é que é, com as suas aulas...

 

R – Lá tem avaliação. Os alunos avaliam os professores, os professores e mestres e os mestres avaliam... nós discutimos isso na reunião passada, agora, a avaliação. Eles já até mandaram para mim aqui o modelo de avaliação, já está aqui.

 

P/1 – Você avalia os alunos?

 

R – Se a gente não aprovar, daqui a 15 dias vai ter avaliação. 

 

P/1 – Avaliação, você avalia os alunos e os alunos te avaliam?

 

R – Me avaliam. Acho que são cinco ou seis itens de avaliação.

 

P/1 – E como é que tem sido a sua avaliação, Jorge? (risos)

 

R – Hein?

 

P/1 – Como é que eles têm avaliado você? 

 

R – Eu nunca quis olhar não, mas pelo que aconteceu na última formatura, eu acho que foi acima do esperado, acho que foi muito bom.

 

P/1 – Por que, o que aconteceu na formatura?  

 

R – Porque a coordenadora executiva lá falou que até eu estou suprindo: “O Jorge carregou sozinho o curso e está de parabéns”. Falou para todo mundo lá, falou na sala, para todo mundo.

 

P/1 – Eu vou te pedir, nós já estamos caminhando para o final, Jorge.

 

R – Não, mas não esquenta não, vamos conversar, se tiver mais.

 

P/1 – Teve algum aluno ou alguma situação na aula que foi emocionante ou foi marcante, ou que você gostaria de contar?

 

R – Foi no dia da formatura, com aquele protocolo do Covid, foi no final do ano passado, não podia nem chegar perto, no dia de entrega do certificado, todo aquele protocolo. Então, teve três alunos que vieram e falaram: “Eu não quero nem saber, eu vou te dar um abraço de despedida...” - eu achei bacana - “... e quero tirar foto do seu lado”. Eu achei aquilo... pô, então tô sendo bem avaliado, graças a Deus, foi muito bom.

 

P/1 – Você já teve alguma fala de aluno, em relação ao que ele aprendeu com você? Sabe assim, uma demonstração que você acha que foi bastante significativa? 

 

R – Ah, já.

 

P/1 – Você pode contar alguma?

 

R – Teve um aluno que me encontra na rua e faz questão, fico até sem graça, que ele me chama de professor, eu falei: “Eu não sou professor, eu sou um mestre. Eu sou mestre”. Ele falou: “Não, mas eu gostei muito do que você... daquela demonstração da produção da tinta, o pigmento natural, é a coisa mais maravilhosa do mundo! Eu gostei e adorei! E eu pintei minha casa toda com essa tinta. Você me ensinou todo o processo, desde a coleta, até a aplicação da tinta. A pintar paredes. Destacou muito”. Ele está até num outro curso agora, ele é aluno de outro curso, da forjaria. E onde ele me vê: “Não, não, professor, professor”. Lá na escola, ele está no meio do curso, ele passa por mim, ele vem e passa perto de mim. Isso eu achei bacana, gostou muito do meu método de ensinar, tanto na área da cal, quanto na de pigmento natural. 

 

P/1 – Ô, Jorge, qual a diferença, para você...

 

R – Agora parou no início... como?

 

P/1 – Não, espera um pouquinho. Qual a diferença, pra você, na 

escola, de “mestre” e “professor”?

 

R – Igual eu te falei: acho que o mestre, a diferença é que eles são mais organizados na ideia, às vezes, e de colocar as coisas assim, igual eu te falei, a introdução, o desenvolvimento e a conclusão. Eu acho que a única diferença é isso, na oratória. E muitos também são bons na prática. 

 

P/1 – São?

 

R – É, tem alguns que são bons na prática, eu já observei lá.

 

P/1 – É mais na organização mesmo, na hora de falar?

 

R – Não entendi.

 

P/1 – Você está dizendo que tem professores que têm prática também? 

 

R – É, têm prática também. Lá, é muito entrosado: “Não, quero aprender com você”, entrosa, ele dá a aula dele, na hora que eu vou dar: “Eu posso ficar na sua aula?” “Vamos ficar juntos, ué, vamos”.

 

P/1 – Tem esse entrosamento?

 

R – Eles me chamam também para aulas deles, então é uma união lá. Eles sentem, assim, que eu sou meio retraído, sou muito acanhado, aquela coisa, travado, eles falam: “Ah, esse homem...”, me chamando, para me desenvolver mais ainda. E com essa de hoje, não tem como mais. 

 

P/1 – (risos) Você viu que você consegue, né, Jorge?

 

R – Eu vi que eu consigo, tem jeito, tem que...

 

P/1 – E para nós, você pode ter certeza que pessoal vai gostar bastante de te ouvir, porque é muito bom o jeito que você conta. É bem gostoso de ouvir e fica bem entendido. Dá para entender bem.

 

R – Dá para entender direitinho? 

 

P/1 – Sim, dá, muito bom. Deixa eu só ver que tem mais algumas perguntas aqui: o que você conhecia da escola que você, hoje, trabalha? Antes de entrar nessa escola, o que você conhecia dela, o que você sabia dessa escola? 

 

R – Dessa escola?

 

P/1 – É.

 

R – Eu tinha visto uma propaganda, uma vez só, num jornal do nosso estado aqui, MGTV. Eu vi uma matéria quando ia iniciar a escola, mas eu olhei assim muito rápido aquela matéria, ainda mais na Globo. Passa muito rápido, você não pega direito, é muito rápido. Foi isso que eu vi da escola. Mas do sistema construtivo lá, que é das aulas avançadas, eu sei, porque eu convivi muito com ferreiro em Ouro Preto, com marceneiro, porque antigamente o pessoal era marceneiro, não era carpinteiro porra nem nada, não. Eu tenho essa mesa onde está o computador aqui, essa mesa tem 48 anos que ela está comigo. Um marceneiro colega meu lá fez, tem 48 anos. 

 

P/1 – E o que é esse sistema construtivo, Jorge, que eu ouvi lá na roda e você fala isso? Quem criou isso, foi a escola?

 

R – Foi a escola. O sistema construtivo é pau a pique, adobe, taipa, é a massa que está sem o cimento, que é só areia com argamassa, a cal hidratada. É muito resistente.

 

P/1 – E a sua parte entra? A parte da pintura entra? Todos os saberes entram nesse sistema?

 

R – Tudo entra. Eles estão falando agora que tudo vai entrar. O beiral é todo branco, que não pode ter duas cores no sistema construtivo. Só nos portais e nas portas, aí pode ser uma cor e outra. Um portal, assim, vou dar um exemplo, ocre e a porta azul. Outra hora a porta verde e os portais vermelhos sangue de boi, são vermelhos. 

 

P/1 – Mas quem coloca essas regras nesse sistema construtivo?

 

R – Quem que coloca? Isso vem desde o século XIII, tudo. Já vem desde antigamente. Séculos XVIII e XIX. 

 

P/1 – Então, é no sentido da preservação mesmo?

 

R – Da preservação. A escola está recuperando esses ofícios, eles estavam desaparecendo. Eles estão voltando com eles. É isso que está acontecendo na escola, não é ela que está impondo isso, isso e aquilo. Não, ela está recuperando. Igualmente ferraria. Hoje você vai em Ouro Preto ou Mariana, dificilmente você encontra uma pessoa que faz uma fechadura, para abrir uma fechadura, um fio da porta ali. Um pedreiro que trabalha com argamassa e cal só, quase você não vê.

 

P/1 – E qual a importância disso, Jorge, para você? De estar recuperando esse sistema construtivo, de ter uma escola para isso.

 

R – Identidade, Memória. 

 

P/1 – Fala um pouco mais disso. Você falou da identidade, memória. Explica por que, assim.

 

R – Para valorizar, porque a maioria das pessoas na cidade não dá importância ao que eles têm. Fico observando em Ouro Preto, a pessoa não sabe o significado de uma cidade importante mundialmente, é o maior conjunto de patrimônio histórico e artístico do país. Muita gente, tem pessoas que, às vezes, moram lá há trinta anos, nunca entraram no museu. Nunca foram na Casa dos Contos, não se interessam, vivem ali... Então, essa conservação, a preservação começa no sentido urbano, começa a colocar sentido nas coisas, igual a gente falou: eu tenho que treinar bastante, colocar as coisas direitinho, assim.

 

P/1 – É, eu estou perguntando para você, porque é importante a sua visão, entendeu, Jorge? Sobre isso que você está observando, lá na escola.

 

R – Mas a escola está recuperando esse sistema todo antigo. E está sendo bem aceito pela comunidade, os alunos, tudo. Muitas vezes não davam nem importância, hoje eles procuram, eles chegam de final de semana. Sempre nós fazemos visita, de quinze em quinze dias, nos locais, vamos visitar os monumentos, lá em Mariana.   

 

P/1 – Quem visita?

 

R – Aos sábados, final de semana.

 

P/1 – Quem faz as visitas?

 

R – É, vai o corpo da escola, com os alunos. Eles fazem uma visita. Hoje vamos na Igreja da Sé, uns vão na Igreja São Pedro. Amanhã vai ser lá na Igreja São Francisco de Assis. Em Mariana ainda não tem museus, eles vão criar um museu lá agora, Museu na Casa do Conde de Assumar. 

 

P/1 – Eu estou vendo aqui mais alguma coisa: a escola, como que você vê, assim, a impressão das pessoas da cidade, que você conhece, você mora lá há tantos anos em Ouro Preto? Você acha que a escola já está tendo algum impacto na cidade, alguma coisa assim? 

 

R – Está. Na escola, no primeiro curso, só tinha pessoas de Mariana. Nesse segundo curso já tem bastante gente de Ouro Preto. Temos alunos de Ouro Preto, temos alunos de Catas Altas da Noruega, um lugar bem longe, lá do sentido de Santa Rita Durão, lá para o lado da Samarco. Estão vindo pessoas de outras cidades nesses cursos agora, isso mudou bastante. Ouro Preto, Catas Altas. Coisa que era só pessoas de Mariana e distrito em torno de Mariana, então está crescendo. E com esse trabalho agora, se der certo esse contrato com a Renova, talvez vai expandir mais ainda o nome da escola.

 

P/1 – A escola que fez o contrato com a Renova?

 

R – Eu acho que sim. É o Instituto Pedra, que fica na frente. Tem a escola tradicional de Mariana, mas acho que foi o Instituto Pedra. 

 

P/1 – Entendi.

 

R – E ainda vão capacitar a gente mais ainda, vão dar um curso de capacitação dos professores e mestres, para qualificar esta mão-de-obra lá, no local.

 

P/1 – Jorge, quando você entrou na escola, foi convidado, você ficou com quais expectativas? E agora, você acha que elas foram atendidas? Como é que...

 

R – Olha, eu só vou te falar: todas as pessoas, mestres, professores, administração, alunos, todo mundo chega com um sorriso largo assim, ó. Lá todo mundo é apaixonado pela escola, faz porque gosta. Já vi até professor falando: “Se precisar, se quiser, eu trabalho até de graça. Eu tô fazendo o que eu gosto aqui, fazendo o que eu gosto”. O que a gente vê é isso. Estou sendo verdadeiro no que eu tô falando.

 

P/1 – E você já falou um pouco, mas só para fechar aqui, essa parte da escola: você estava se aposentando ou se aposentou do seu trabalho, do seu trabalho de pintor, você se aposentou. Essa sensação de se aposentar, como é que é? Estou falando como pintor.

 

R – Ah, eu acho que foi um dever cumprido. Olhando para trás, valeu a pena, tudo tranquilo. E de repente pinta essa oportunidade ainda de dar aula na pintura, aí é só alegria, uma alegria imensa.

 

P/1 – Você pretende continuar, então?

 

R – Ah, eu quero continuar, porque eu quero desenvolver na oratória, quero desenvolver na área teórica. Estou estudando, vou, estou fazendo curso aqui online...

 

P/1 – Que curso que você vai...

 

R – Hein?

 

P/1 – Que curso você aprendeu? 

 

R – Eu quero fazer um curso de oratória, eu estou fazendo já, comecei a iniciar um curso de oratória também, tem no Youtube. Eu não quero decepcionar nem a mim, nem aos demais, eu quero crescer, crescer e crescer. 

 

P/1 – E da universidade...

 

R – Uma expectativa danada em relação a mim, no falar. A galera lá, meus companheiros, meus amigos lá da escola, os mestres, professores, coordenadores, diretores lá. Uma expectativa muito grande em relação a mim, de eu passar as coisas para os alunos. Então, primeiramente eu não quero me decepcionar e segundo, não decepcionar a eles.

 

P/1 – E na universidade, você vai prestar qual curso?

 

R – Eu estou querendo fazer História.

 

P/1 – Jorge, agora...

 

R – Eu quero melhorar a cada dia e me desenvolver muito, como ser humano. Porque eu tenho 66 anos, mas eu sinto que eu tenho uma saúde de quarenta anos. Hoje eu fiz uma avaliação com a nutricionista, a minha idade na avaliação, 54 anos. Eu tenho 66.

 

P/1 – Eita, tá bom, hein, Jorge! (risos) Então, tem muito tempo ainda, para fazer muitas coisas.

 

R – Às vezes, a gente chega, quando eu aposentei, eu falei: “Agora acabou”. Não, é agora que eu tenho que começar de novo. Uma outra etapa na vida, ainda mais que eu fiquei viúvo. Tem que buscar, buscar, buscar, para não ficar ocioso, para não ficar depressivo, nem nada.

 

P/1 – Você vai morar em Mariana, agora?

 

R – Já estou morando em Mariana. Onde eu estou, fica perto da Praça da Sé, no Centro de Mariana. Eu vim pra ficar mais pertinho da escola.

 

P/1 – E Ouro Preto? 

 

R – E também qualidade de vida, aqui é melhor que Ouro Preto, pra você fazer suas atividades físicas. 

 

P/1 – Ô, Jorge, mas você não fica querendo voltar para Ouro Preto, igual você fazia quando era criança? 

 

R – Não, mas eu vou sempre lá. Hoje, daqui a pouco eu tô indo para lá. Daqui a pouquinho estou indo para lá. 

 

P/1 – Então vou te perguntar, hoje você já contou um pouco das coisas que você quer fazer, agora sonhos, como sonhos, assim, maiores, o que você tem, de sonho?

 

R – Eu sonho em me formar num curso superior. Ser bem-sucedido lá na escola, na parte teórica. E o sonho de ver meus netos crescerem, é só isso, muita saúde. E amizade né? Conservar as boas amizades, amizade, amizade, amizade. É o que a vida me oferece, eu quero que não escapem essas oportunidades para mim, agarrar mesmo, abraçar com corpo e alma essa oportunidade na minha escola. 

 

P/1 – Essa oportunidade - se você puder traduzir assim, pensando nos seus conhecimentos, você é um mestre - que você disse da escola, por que você quer? 

 

R – É a cada dia ensinar mais e melhor, resumindo. Sempre pensando na qualidade, tanto pra mim e em relação aos alunos.

 

P/1 – Muito bom, muito bom. Eu vou perguntar se a Sônia quer fazer alguma pergunta, porque eu vou, depois, fazer uma pergunta final para você, tá? Sô, quer perguntar alguma coisa? Eu vou desligar a câmera e depois eu volto.  

 

P/2 – Alguns dos seus filhos se interessou em fazer isso que você faz, também? 

 

R – Olha, os meus filhos são o seguinte: trouxe todos eles para a pintura. Inclusive eu tenho o meu filho que é engenheiro de produção, então ele viaja muito, sempre ele muda de cidade e aluga casa. E, quando ele vai entregar, ele mesmo pinta a casa. Nisso, ele me liga e me agradece: “Ô pai, tá vendo?”. 

 

P/2 – Ele aprendeu com você?

 

R – Tem vez que ele trabalha numa cidade, fica um ano, aí tem que ir para outra cidade. Aí ele mesmo pinta a casa e entrega tudo bonitinho. Eu os levava comigo no morro, os dois. 

 

P/2 – E ele aprendeu com você?

 

R – Comigo.

 

P/1 – Eu vou aproveitar essa pergunta da Sônia: o que seus filhos diziam, achavam do seu trabalho, Jorge?

 

R – Eles me achavam muito corajoso: “Pai, o senhor criando a gente sem emprego, sem nada, trabalhando como autônomo. E cria a gente bem, igual o senhor cria”. É isso que eles achavam, aquela coisa mais interessante. E muitas vezes eu estava com eles na rua, passavam pessoas [e falavam]: “Aprendi com ele aí, ó. Hoje eu sou um grande pintor, por causa do seu pai, seu pai tem um coração bom, seu pai é dez”. 

 

P/1 – Eles o admiravam?

 

R – Eu estava no Veloso, lá na casa dum colega meu, lá da empresa, aí passa aquele: “O Jorge Bonitão? Seu pai é tranquilo. Hoje eu sou um grande profissional, ganho o meu dinheiro, cuido da minha família e aprendi com o seu pai”.

 

P/1 – Aí eles ficavam orgulhosos?

 

R – Orgulhosos. E por eu não gostar de trabalhar de carteira assinada, nem nada, eu sempre trabalhei como autônomo.

 

P/2 – E você esperava que um filho seu também trabalhasse com pintura?

 

R – Sinceramente, eu esperava. Até um deles eu esperava, mas aí eu vi que o negócio dele não era aquilo não, era estudar mesmo. E ele me provou mesmo que era estudar. Ele se formou em Engenharia, hoje é muito bem-sucedido lá, tocando a vida dele. Todos os três. A minha filha está tranquila lá, trabalha numa multinacional, trabalha na Vale, é tecnóloga em Gestão da Qualidade. O outro é químico e esse é... todos são, né? Mas eu esperava e ele gostava, sempre ele vem aí, às vezes, eu estou em casa lá, limpava lá, ele pegava comigo, às vezes, estava de férias. Me ajudava lá, pegava um rolinho, rolava. Eu tinha a mania de pintar a minha casa todos os anos, eu gostava da minha casa limpa. Falam que “casa de ferreiro, espeto de pau", né? Mas não tem isso não, gosto de pintar. 

 

P/1 – A gente esqueceu de perguntar por que esse apelido seu? De onde ele veio?

 

R – Meu apelido foi esse patrão meu, esse ‘João Pica-Paia’, ele também, era tudo apelido. Ele chama João Damasceno de Souza, mas todo mundo o conhecia como ‘João Pica-Paia’. Aí ele, quando eu estava chegando de Ponte Nova, ele era o presidente do clube e todo mundo já tinha apelido. Um era ‘Jorge Cascudo’, o outro ‘Coroné’, ‘Nenê Cegonha’, aquelas coisas.  Aí ele falou: “É um cara bem-vestido, está arrumadão, para você, Jorge Bonitão. Você está bem-vestido, você é Jorge Bonitão, o Rei da Floresta”. (risos) Falei: “Então, tá”.  

 

P/1 – Jorge, a gente vai encerrando aqui, eu queria saber o que você... você já falou um pouquinho, mas como foi contar sua história, o que você achou dessa experiência?

 

R – Foi gratificante, viu? A primeira vez, com 66 anos, que eu estou contando a história de vida minha, pela primeira vez. A oportunidade que o Museu da Pessoa meu deu. E eu estou muito feliz que vocês me deram essa oportunidade, de contar a minha história.  

 

P/1 – Eu vou encerrar por aqui, Jorge, agradecendo muito, muito, o tempo que você dedicou para a gente. Agradecendo muito a sua história valiosa.

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