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História

Uma vida dedicada a farmacologia

História de: Julio Perazza
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 24/06/2005

Sinopse

Julio nasceu em Birigui, interior de São Paulo. Em sua entrevista conta sobre suas lembranças de infância, sua relação com seus pais, histórias com os irmãos, sobre a cidade e sua vontade de ser médico ou cantor. Relembra que começou a trabalhar em farmácia ainda menino, como sabia ler as fórmulas fazia os remédios. Relembra também da concorrência de farmácias na cidade, os laboratórios em que trabalhou, sobre sua família, inclusive como conheceu a sua mulher, na farmácia, pois era cliente, e sobre seus dois filhos.  

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História completa

P/1 - Começando o depoimento eu gostaria que o senhor me dissesse o seu nome completo, a data e o local de nascimento.

 

R - Meu nome é Júlio Perazza, nasci em Birigui, interior de São Paulo, num bairro que era sítio na ocasião, chamado Taquari, dia dezessete de julho de 1923.

 

P/1 - Certo. O que o senhor conhece da origem da sua família por parte de pai, vamos pegar assim pra ficar mais fácil da gente raciocinar.

 

R - Eu lembro dos meus avós, bisavós não lembro. Lembro da minha avó, meu avô que era austríaco da parte da minha mãe e avós do meu pai. Os avós por parte do meu pai eram italianos.

 

P/1 - Italianos?

 

R -   Nascido e vindo de Pádua na Itália.

 

P/1 - O senhor sabe o motivo da migração deles?

 

R - É, foi no tempo do Mussolini, o tempo da guerra lá que... Eles vieram pequenos. Meu pai inclusive veio com cinco anos.

 

P/1 - Veio com cinco anos?

 

R - Veio meninão.

 

P/1 - E porque é que foram se fixar lá em Birigui?

 

R -  Bom, aí eu não sei, porque existia muito pedido de elementos pra trabalhar na roça, nas fazendas. Eles foram pra Olímpia, foram pra Barretos, minha mãe casou em Barretos com meu pai, inclusive se conheceram lá e depois é que ele foi se estabelecer em Birigui, tomando conta de um sítio lá.

 

P/1 - E o seu pai foi se estabelecer em Birigui depois de casado então?

 

R -  Isso.

 

P/1 - E os seus avós nunca moraram em Birigui?

 

R -  Não, moraram num sítio né?

 

P/1 - Num sítio.

 

R -  Num sítio. Os avós por parte da minha mãe moraram nesse sítio do Taquari, depois eu não os vi mais porque eu era muito... Eu não tinha nascido ali, não dava pra... Eu lembro deles, acho que tinha dois, três anos, eu lembro deles, mas aí eu não lembrei mais e o pai do meu pai sempre teve com a gente lá em Birigui, quando nós morávamos em Birigui na mesma cidade.

 

P/1 - E quais são as memórias que o senhor tem de infância da cidade de Birigui e da sua família?

 

R -  Memória às vezes a gente pensa que é bonita, gostosa e às vezes não é e... Deixa eu lembrar bem.

 

P/1 - O senhor era em muitos irmãos?

 

R -  Nós éramos em sete.

 

P/1 - E o seu pai fazia o quê?

 

R -  Meu pai quando estava em Birigui ele tinha carroça com burro, trabalhava na estação pra pegar o saco de arroz, de feijão, de café pra levar pra outros locais. Depois é que eles foram pro sítio de novo. E a minha infância foi normal que nem criança, correr, brincar um pouquinho na rua. Era tudo areião ainda ali, não tinha calçamento não tinha nada ali em Birigui, que eu me lembro... Eu era muito pequeno quando eu vim do sítio lá de Taquari, que nós viemos morar em Birigui.  Daí fui pra escola, no Grupo Escolar lá de Birigui, fiz até o quarto ano os quatro anos lá, depois passei pro Ginásio de Birigui. Terminei o Ginásio, quer dizer, faltava terminar quando vim pra São Paulo.

 

P/1 - E a cidade de Birigui era muito pequena muito, sem recurso, muito trabalho?

 

R -  É, era uma cidade razoavelmente, porque quem morava perto de Araçatuba... O movimento maior comercial era em Araçatuba então Birigui era uma cidade mais pra moradia, mais... Era pequena.

 

P/1 - Habitada?

 

R -  Lugar quente.

 

P/1 - Eram sitiantes, pessoas que tinham com a agricultura?

 

R -  Não, muito sitiantes moravam lá, bastante sitiante. Mas a gente tinha dinheiro, médico, inclusive conhecidos médicos bons lá.

 

P/1 - E a relação com a família, o senhor... O seu pai era um homem muito rigoroso. Como é que o senhor descreveria a relação de educação que o senhor teve?

 

R -  Não, ele era um pouco rigoroso.

 

P/1 - É?

 

R -  Era, mas ele era meio... Quando ele tomava um mézinho... (risos).

 

P/1 - Tomava um mézinho (risos).

 

R -  Ele era meio bravo. Você precisava o maior cuidado, porque se saísse na rua e voltasse na hora em que ele chamasse... Se ele chegasse primeiro e você estivesse na rua, brincando, estudando ou não sei... Meus irmãos é que sofriam mais porque eles eram maiores.

 

P/1 - Sei.

 

R -  (risos) E os coitados se chegasse fora de hora ele já tava com rabo de tatu na mão esperando...

 

P/1 - Rabo de tatu é? (risos)

 

R -  É, (risos) era um freio feito de couro duro, chamado de rabo de tatu.

 

P/1 - Sei (risos).

 

R -  Então (risos) se chegasse atrasado ele já ficava atrás da porta. Pra mim eles... Às vezes eu tava brincando com os meninos lá ele só assobiava.

 

P/1 - Ele só assobiava e era o suficiente? (risos).

 

R -  Assobiava ó! Saia que nem um foguete, porque se não ele já passava e levava uma bolachada (risos). É fogo, ele era...

 

P/1 - (risos) Bom, o senhor era o mais novo então?

R -  Era o mais novo e tenho mais dois mais novo que eu ainda.

 

P/1 - E depois mais dois? Então no total são quantos irmãos mesmo?

R -  Éramos em sete.

 

P/1 - Sete.

 

R -  Agora somos em quatro, porque morreram os três. Os três mais velhos morreram.

 

P/1 - Quantos homens?

 

R -  Três.

P/1 - Os três?

 

R -  Três homens e um faleceu.

 

P/1 - Certo. Bom, então era uma casa alegre também, muita criança.

 

R -  Muita criança, brincadeira, bagunça, a gente pintava o bode lá.

 

P/1 - Pintava e bordava. E a sua mãe era já... Com a mão mais leve?

 

R -  Era, coitada, ela só trabalhava mesmo.

 

P/1 - Só trabalhava?

 

R - Tinha que cuidar das crianças, fazer comida e isso aquilo. De vez em quando, quando a gente [não] tinha nada pra fazer ela fazia uns pastéis pra gente vender no jardim. Eu era moleque, tinha seis, sete anos, eu ia vender pastel lá no jardim.

 

P/2 - Na escola?

 

R -  No jardim da praça lá da cidade.

 

P/2 - Da cidade.

 

R -  E assim ia a vida. Eu me formando, terminei o ginásio lá em Birigui e aí vim pra São Paulo tentando entrar numa escola aqui, eu tinha intenção de fazer medicina.

 

P/1 - O senhor se formou lá então, fez o primário, depois era o ginasial né?

 

R -  Isso.

 

P/1 - Tudo em Birigui?

R -  Tudo em Birigui.

 

P/1 - Certo. O senhor disse que o seu pai fazia transporte de saco, de sacaria com uma carroça?

 

R -  Isso, com a carroça do...

 

P/1 - Isso foi a profissão dele a vida inteira?

 

R -  Não, meu pai tomava conta de fazenda, pé de café; depois quando foi pra Birigui é que ele começou com o negócio de carroça.

 

P/1 - Sei, e foi uma... O senhor falou que ia estudar...

 

R -  A casa era dele, tenho até hoje a casa lá...

 

P/1 - Não foi um tempo de dificuldade econômica muito grande, como o senhor lembra?

 

R -  Foi e não foi, porque ele tava bem, vivia-se bem, mas ele com o negócio da... Com os mézinhos dele lá acabou perdendo quase tudo; perdeu a casa, perdeu... E nós tivemos que vir embora porque ele era muito bravo. Minha mãe tinha medo porque ele já tentou... Não vou falar aqui o que aconteceu porque fica chato.

 

P/1 - Entendo, mas então ele acabou perdendo e o senhor mudou pra cá pra?

 

R -  A minha mãe veio com os dois menores pra São Paulo e eu fiquei terminando o Ginásio e trabalhando na farmácia lá em Birigui como eu tava falando, é a farmácia Central, do senhor Vicente Marino.

 

P/1 - O senhor já começou a trabalhar na farmácia já cedo?

 

R -  É, já trabalhei no sítio mesmo quando ele botou uns caixão de cebola lá, vendia biotônico e não sei o que mais, já ajudava lá. Depois quando eu vim pra Birigui fui trabalhar com ele, fiquei, aprendi ali fazer manipulação, aprendi aplicar injeção, a fazer pomadas, fazer todo esse negócio que se fazia em farmácia antigamente né?

 

P/2 - Qual era a sua idade?

R -  A minha idade?

P/2 - É.

 

R -  Comecei com nove anos lá na farmácia. Nove, nove e meio, depois fiquei até os quatorze anos lá na farmácia e depois eu vim pra São Paulo. Mas eu chegando aqui minha mãe tava morando num cortiço, coitada, ela e os três irmãos mais velhos e os dois menores, sendo que o quartinho não dava pra todo mundo. E o que aconteceu? Eles me fizeram... Esse Marino aí, esse Vicente Marino vendeu a farmácia nesse ínterim, lá em Birigui e comprou uma sociedade numa cidade chamada Ietê, pra lá de Marília e de Rancharia, Assis ali.

 

P/1 - Certo.

 

R -  É uma cidade que não tinha nem luz, não tinha nada quando eu cheguei lá. Daí ele veio me buscar pra tomar conta da farmácia, os quatorze anos que eu tinha.

 

P/1 - Aqui em São Paulo?

R -  Porque antes de começar a vir acabei ficando um ano lá, meus irmãos insistiram. Eu falei: “mas eu vim pra estudar, eu quero estudar”. Já tinha me inscrito no Ginásio Independência aqui na Liberdade e tudo.

 

P/1 - O senhor queria ser médico?

 

R -  É.

 

P/1 - E porque o senhor queria ser médico?

 

R -  (choro)

 

P/1 - O senhor quer parar senhor Julio?

 

R -  Não, não (choro).

 

P/1 - Eu entendo, as vezes a gente mexe... Mexer com a memória é sempre difícil né?

 

R -  (choro) Desculpa eu.

 

P/1 - Não, imagina... Acontece. Se o senhor quiser parar um pouquinho...

 

R -  Não, tudo bem. Patrão veio me buscar e tal e vai, vai e vai. Acabei indo, fiquei lá um ano trabalhando, tomando conta da farmácia e ele fazia as visitas dele como farmacêutico lá...

 

P/1 - Sei.

 

R -  Ele chegava de noite das fazendas que ele ia visitar e eu ficava lá fazendo os medicamentos dele, fazia os receituários, ele fazia aquelas fórmulas tudo e ficava fazendo até terminar, porque vinha sempre um cavalheiro pra levar de volta e ficava esperando. Só que... Comecei e peguei ferida, piolho. Dormia lá na casa do farmacêutico, os filhos dele tudo cheio dos piolhos e eu peguei também (risos) e me ferrei direitinho. E eu escrevia pra minha mãe também que eu queria ir embora, eu não queria ficar lá porque não tinha escola.

 

P/1 - Sozinho.

 

R -  Então, falou que lá tinha escola, mas a escola era em Assis e não lá em Ietê, onde eu estava.

 

P/1 - E o senhor estudou em Assis?

R -  Não, não estudei porque...

 

P/1 - Ficou isolado.

 

R -  … Eu fiquei lá isolado, você tinha que ir de jardineira porque era longe, como uns quarenta, cinquenta quilômetros, não sei, por aí. Eu escrevia pra minha mãe, ela escrevia pra lá e ele pegava a carta e não me mostrava.

 

P/1 - Sei.

 

R -  Eu escrevia, até que um dia eu escrevi eu falei: “Olha, eu tô cheio disso aqui, não aguento mais, vocês não me escrevem eu tô cansado de escrever vocês não dão resposta nenhuma né?” Ela mandou uma carta pra ele avisando que se ele não me mandasse de volta ela ia me buscar com a polícia. Foi aí que ele foi, me chamou: “sua mãe falou pra você ir embora, não sei o quê, que tava chateada, pra você ir embora pra casa, pra casa não em São Paulo”. Ele me deu o dinheiro e eu vim embora.

 

P/1 - E seu pai continuava em Birigui?

 

R -  Meu pai continuava em Birigui, ele ficou lá. Eu vim pra cá, aí foi quando eu comecei a trabalhar, arrumei esse empreguinho de sapateiro lá (risos), porque eu não achei farmácia na hora aí eu vou e fico uns tempos aqui até achar. Foi quando apareceu a farmácia Rossi na Rua Bresser, fiquei uns meses, mas o senhor Rossi era um gentleman, ele falou: “olha, você não serve pra fazer limpeza, você sabe fazer medicamento, você sabe manipular essas _________ por que você vai ficar aqui?” Então trocou com outro colega que fazia limpeza e eu fui pra farmácia Cruzeiro do sul, fiquei dez anos lá.

 

P/1 - A farmácia Cruzeiro do sul era onde?

 

R -  Na rua Visconde de Parnaíba.

 

P/1 - Já era uma farmácia maior?

 

R -  Já, era normal.

 

P/1 - Normal.

 

R -  Normal igual a do senhor Rossi.

 

P/1 - Mas a sua função... O senhor foi valorizado?

 

R -  Aí fui valorizado, fui ganhar um pouquinho mais. Só que eu fiquei dez anos lá e a gente... Como foi que eu te falei, infelizmente ele saia muito de férias e eu ficava, ele saia e eu ficava, férias que é bom quase não tinha, ele pagava... Bom, precisa de dinheiro então você recebia e ficava quieto e ficava trabalhando. Porque naquele tempo não tinha plantão, não tinha nada disso, você trabalhava sábado, domingo, feriado, só fechava no natal ao meio dia assim.

 

P/1 - Ainda não tinha regulamentação de trabalho?

 

R -  Não, não tinha, depois é que começou. Eu só tinha folga nos sábados, eu já tava com dezoito anos por aí, ou mais, tinha folga nos sábados, saia com os colegas pra passear um pouco, ir a um baile (risos) pra divertir um pouco. Daí eu larguei eles tudo de uma vez, eu falei: “não tem jeito... Eu era o mais velho que tava em casa na ocasião, porque os meus irmãos...

 

P/1 - Tinham casado?

 

R -  Casaram e foram embora. Um foi pra Lins o outro foi… Casou, foi pra outro lado e eu era o mais velho e falei: “agora eu não posso pular de lugar nenhum”.

 

P/1 - Algum outro irmão foi ligado a área de saúde, senhor Júlio? De remédios ou medicamentos?

 

R -  Não, nenhuma.

 

P/1 - E lembrando assim...

 

R -  Um era professor de Educação Física que faleceu em Lins, o outro era Mecânico, o mais velho de todos era Mecânico; e o outro era Contabilista, trabalhava em Banco, abria diversas agências do Bradesco, também se ferrou coitado.

 

P/1 - Senhor Julio, e o senhor se lembra na sua infância nesse período todo aí de... Até a sua adolescência, de doenças, alguma endemia, alguma pessoa doente na família. Aconteceu alguma coisa que o senhor se lembra?

 

R -  Aconteceu com esse irmão mais velho que eu... Logo após a mim. Mas antes disso teve um outro caso muito pior. Esse irmão mais novo que eu tenho hoje, quando nós morávamos em Birigui, nós fomos... Era molequinho, eu tinha acho que cinco anos e meu irmão acho que ele tinha três, tudo mais ou menos nessa base. Nós fomos passear na casa [da minha tia], minha mãe falou: “vai na casa da sua tia”. Ela morava no patrimônio lá em cima e tal. E fomos lá, ela ia fazer um boné pra nós e aquele negócio ela costurava. Chega lá e tudo bem, ela fazendo lá eu sentei na porta, aquelas casas de tijolo velho (risos) e tinha um poço ali na frente e esse meu irmão mais novo cismou de ir tomar água em cima do poço, mas a tampa era podre e ele caiu com tampa e tudo pra baixo, e o pior de tudo que... Era fundo e não tinha ninguém pra ajudar, foi uma gritaria danada. Aí ela olhando lá pra baixo, ele gritava de baixo: “tia desce o balde, desce o balde” (risos).

 

P/1 - E aí saiu machucado?

 

R -  Nada!

 

P/1 - Nada?

 

R -  Nenhum arranhão.

 

P/1 - Puxa, é impressionante.

 

R -  Ele falou: “só fiquei com medo do sapo que tinha lá em baixo”. Agora quem ficou ruim fui eu né?

 

P/1 - Quem ficou com dor vamos dizer… (risos)

 

R -  Até hoje.

 

P/2 - O desespero foi do senhor.

 

P/1 - Senhor Júlio, na farmácia daquele tempo, conta pra gente, relata pra gente...

R -  Eu fiquei quinze dias sem falar, sem falar.

 

P/1 - Ah, é? Em consequência do susto?

 

R -  Isso.

 

P/1 - Meu Deus! (risos).

 

R -  (risos) O gozado é que quando eu falava alguma palavra os meus irmãos riscavam com carvão na parede (risos). Ficavam assim: uma ele falou vuscchh!! Fazia um risco na parede com carvão (risos). Mas era demais. Veja... Deus do Céu.

 

P/1 - Depois foi voltando aos poucos pra falar?

R -  É. Aí falando... Você perguntou em doenças, né? Teve um meu irmão que teve tifo.

 

P/1 - Sim, sim.

 

R -  Meu Deus do Céu, o que ele sofreu. Nós morávamos atrás do Grupo Escolar e era um bananal, nós moramos dentro desse bananal, devia ter uns quatro quarteirões de pé de banana e tinha umas casas que eles alugavam ali, nessa ocasião nós não tinhamos onde morar, nada, então tava em casa alugada. Esse meu irmão pegou o tifo, e naquela ocasião não existia nada de remédio, o que existia na ocasião? Nada! Acho que nem aspirina eu me lembro (risos). Eu era molequinho ainda. O médico tratou, mas ele tinha que dar banho nele, jogar ele na banheira fria de hora em hora. Toca encher a banheira, jogar água, tirar, bota lá..  Então é muito mais fácil sair fumaça deles (risos) e jogar lá dentro da banheira fria. Foi assim...

 

P/1 - Pra abaixar a febre?

 

R -  Pra abaixar a febre. E suco de laranja. Eu e o outro meu irmão correndo atrás de laranja, bom, lá era fácil, só tinha laranjal, tinha laranja até dentro dos quintais. Então é suco de laranja o dia inteiro e gelo, procurar gelo pra jogar lá... Ficava a água meio gelada pra jogar ele dentro. Era isso que fazia, só.

 

P/1 - Só isso que fazia?

 

R -  Só.

 

P/1 - E ele curou?

 

R -  Suco de laranja que ele tomava, ele começava a gritar de febre e a minha mãe jogava ele na banheira fria lá e passava dali meia hora então volta, quando ele começava a suar de novo ele... Então foi uma doença meia brava o tifo.

P/1 - E passou depois, ele foi e recuperou?

 

R -  E ele sarou, mas depois eu nunca vi esse cara pegar um resfriado viu. Nunca! Nunca vi falar que ele pegou um resfriado.

 

P/1 - Passou por tudo de uma vez (risos).

 

R -  De uma vez. E com aquilo imunizou completamente todo o organismo dele, nunca vi. Ele faleceu de outras coisas, ficou muito nervoso, chateado com coisas, aí foi perdendo a vontade. Aí foi.

 

P/1 - Bom, eu ia lhe perguntar aquela hora sobre como é que o senhor se lembra, como é que era essa farmácia que o senhor começou a trabalhar lá com nove, dez anos, não é isso? Como é que era essa farmácia?

 

R -  Bom, era uma farmácia normal viu?! Já tinha bastante medicamento só que vinha tudo de São Paulo encaixotado, aquelas caixas bonitas que vinha, hoje não tem nada disso, hoje é papelão, mas era caixa de madeira.

 

P/1 - Era caixa de madeira?

 

R -  Quando chegava... O Fontoura mandou uma caixa de remédio aí pra conferir lá, abrir as caixas com aquele... Como é que chama o pé-de-cabra lá… Tudo de madeira, hoje tudo é de papelão.

 

P/1 - Quer dizer, não era uma farmácia de manipulação?

R -  Não, era uma farmácia... Vendia, tinha prateleira com vidro tudo normal, mesmo os medicamentos já, já existia, mas era pouca coisa. Se você falar em Capivarol, Elixir de Licor de Taiuiá, você falar em Licor de Cacau, Biotônico já tinha, que mais... Tinha um monte de coisa nova aí. Tinha perfumaria, tinha um balcão de vidro com perfume, tinha tudo.

 

P/2 - Então era uma farmácia e drogaria, os dois?

 

R -  Era, só que não se falava em Drogaria naquele tempo, tinha um pouco de Droga mas pouca coisa que era fabricado na ocasião, o resto.... Era mais manipulação lá, porque vinha muita manipulação dos médicos ali, mandava pra fazer a fórmula e a gente fazia lá, cápsulas e antigripais a gente fazia na hora, fazia cem por vez. Eu fazia pomada de tudo, pomada de enxofre, pasta de lassar, pomada de beladona, isso tudo eu fazia lá.

 

P/1 - O senhor começou fazendo limpeza né?

 

R -  Isso.

 

P/1 - No início só fazendo limpeza, garoto ali. Aí o senhor foi aprendendo?

 

R -  Fui aprendendo. Tudo quanto era fórmula eu fazia, não tinha medo de nada e nem aquelas alterações... Como é que se chama? Quando dá uma alteração com salmoura, como é que é que a gente chama? Esqueci.

 

P/1 - Que cria efervescência?

 

R -  Não, que dá alteração na... Você misturar um sal, põe a água, você bota um benzoato de sódio e um outro sal dá uma alteração, aí estraga tudo... Como é a que a gente fala meu Deus? Não dá uma interação né? Fazia lá todos esses medicamentos, era tudo receitado.

 

P/1 - Então o médico mandava a fórmula já e o senhor preparava?

 

R -  Preparava.

 

P/1 - Quando o senhor começou a preparar, fazer preparação?

 

R -  Comecei já...

 

P/1 - Já lá em Birigui?

R -  Já em Birigui, já fazia e tal.

 

P/1 - É?

R -  Fazia todo tipo de pomada porque antigamente se tinha muitas folhas, pérolas, então tinha aquelas latas quadradas tudo cheio de ervas. Todas as ervas que existiam no mercado, tinha lá pra você fazer chá, pra fazer um xarope ou fazer um remédio pro estômago. Então se misturava, já tinha magnésia fluida, já existia naquele tempo.

 

P/1 - Então os remédios eram feitos basicamente a base de plantas?

 

R -  De planta, e tinha os sais. Tinha extrato fluído, tinham os sais, tinturas, o Fontoura, eu fazia tudo isso aí. Extrato fluído e tintura era tudo do Fontoura, nos vidrinhos com rótulo verde ficava bonito.

 

P/1 - Aí já vinha engarrafado, já era remédio industrializado?

R -  Era tudo... Tintura e os extratos fluídos de cada coisa, então você associava os sais e vinha Aspirina, Cafeína, Piramido, vinha tudo isso. Você tinha que fazer as cápsulas e fazia também xaropes pra tosse, pra cólica, pra dor de barriga. Tudo isso aí você tinha que fazer na farmácia. Medicamento era um fortificante, a gente fazia também com ferro e tudo, fazia, mas geralmente fazia receituário, mas a turma procurava muito Biotônico, Capivarol, Licor de Taiuiá, esses medicamentos do tempo da nona, como diz o meu pai (risos).

 

P/1 - E os remédios que o senhor preparava, o senhor começou a preparar mais ou menos com que idade?

 

R -  Eu já devia ter uns doze anos...

 

P/1 - Uns doze anos?

 

R - Doze e pouco eu já fazia pomadas, já fazia alguma coisinha, não dava pra fazer cápsulas, tem o capsulador, né? As cápsulas eram em amilácea, essa que nem da hóstia, eles chamam (risos) amilácea. Passavam uma água e colocavam as cápsulas lá. Produz um número de zero a dois tamanho. Tinha ‘nego’ que pra engolir era um ‘bichão’ lá vai ser difícil (risos) e tinha as pequenininhas, menorzinhas. Tinha que fazer tudo isso lá.

 

P/1 - Que equipamentos que tinha na farmácia pra fazer o remédio?

 

R -  Tinha a piluleira que você fazia pílula também.

 

P/1 - Como é que era o piluleiro?

 

R -  Era uma madeira assim e tinha um ferrinho com umas canaletas assim, tudo canaletas assim; então você punha o... Você fazia aquela massa do coiso, fazia ela compridinha que nem um macarrão assim...

 

P/1 - Sei.

 

R -  Põe ela lá em cima, depois você passava a outra que era igual em cima, fazia só isso, já cortava, depois você enrolava no dedo pra ficar um pilulinho.

 

P/1 - Certo.

 

R -  Óvulos também fazia.

 

P/1 - Fazia o quê?

R -  Óvulos.

 

P/1 - Óvulos? O que eram óvulos?

 

R -  Não existia óvulos né? Óvulos que existe hoje pra mulher hoje. Então fazia, tinha um...

 

P/1 - Hormônios?

R -  Não, era...

 

P/1 - O que eram óvulos?

 

R -  Às vezes anti-inflamatório uma coisa assim, não era bem de hormônio.

 

P/1 - Era um tipo de pílula esses óvulos?

R -  Não, era que nem um ovo mesmo. Só o...

 

P/1 - Era um ovo.

 

R -  Então a fórmula... Era um negócio de ferro, tipo do piluleiro só que ele fechava as duas partes e ficava o buraquinho do óvulo, fervia aquele negócio todo, a fórmula que o médico fazia, daí eu derretia e depois jogava, fazia dentro, que você fechava com ferro e parafusava. Dava três ou quatro óvulos ou meia dúzia, dois pedaços de ferro quadrado assim bem... Hoje é retangular, fechava um no outro e você enchia um buraco.

 

P/1 - É uma forma mesmo.

 

R -  É, fazia uma formazinha de óvulo, que nem um óvulo que existe hoje, é o mesmo tamanho que fazia lá.

 

P/1 - E esse óvulo era usado pra que fim?

 

R -  Era mais pra mulher, pra inflamação vaginal essas coisas.

 

P/1 - E era usado, introduzindo direto na vagina assim?

 

R -  Isso.

 

P/1 - Nunca ouvi falar desse tipo de medicamento, não conhecia.

 

R -  Hoje existe demais.

 

P/1 - Ainda existe?

 

R -  Existe.

 

P/1 - Puxa, é anti-inflamatório.

 

R -  É, então não tem... Tem creme vaginal...

 

P/1 - Creme vaginal, ah! Sei.

 

R -  Então e tem óvulos também.

 

P/1 - Ah, sei. Mas esse formato ainda é usado até hoje?

 

R -  De modo geral é o mesmo formato.

 

P/1 - E mais tarde veio o vagi sulfa, foi um dos primeiros da Johnson’s, senão me engano, era um creme ginecológico né?

 

R -  Isso, porque tem creme e tem mulher que não gosta que meleca tudo, não gosta, no entanto ela prefere o óvulo.

 

P/1 - Era espermicida também esse óvulo ou não, não né?

 

R - Era mais anti-inflamatório, mas assim com ácido bórico, pra um tipo de desinfetante, porque naquele tempo não se falava nessas doenças que tem hoje, não existia isso aí. Era mais uma inflamaçãozinha, um corrimentozinho, então a gente fazia uma fórmula com glicerina, com ácido bórico e tal, acho que mais alguma coisa lá que eu colocava, agora eu não me lembro de cabeça, mas era bacana viu, a gente se divertia, eu me divertia fazendo isso, fazer pílulas, com cápsulas, pílula, óvulo, fazia o dia inteiro e o xarope lá batendo na colher também.

 

P/1 - Batendo... Tinha...?

 

R -  Pistilo...

 

P/1 - Pistilo.

 

R -  ... O copo graduado...

 

P/1 - O grau que chama.

 

R -  É, o grau era pra fazer o pó de fazer cápsulas, você moía...

 

P/1 - O grau era só pra fazer o pó?

 

R -  Isso.

 

P/1 - E pra fazer líquido fazia onde, preparava onde?

 

R -  Num copo.

 

P/1 - Num copo com grau?

 

R -  Isso, com grau. E tinha um bastão de vidro que a gente chama de pistilo. O pistilo era o do grau que ele foi pegar.

 

P/1 - O líquido não chamava pistilo?

 

R -  Não, é bastão de vidro.

 

P/1 - Bastão de vidro.

 

R -  É, então sempre eu chacoalhava, tanto é que quando eu vou mexer o café minha mulher fala: “pô, você ainda é daquele tempo (risos). Você tá mexendo o café como você batia fórmulas”. Eu bato a fórmula e não cai um pingo de água (risos), agora a velheira já não dá mais pra fazer isso.

 

P/1 - (risos). E o almofariz? O almofariz era pra quebrar o...

 

R -  É, era pra fazer aqueles mais duros, você tinha que quebrar bater pra... Cola aqui, fazer cola, outro tipos de...

 

P/1 - Fazer cola?

R -  É, porque vinham aquelas placas de goma arábica, então vinham umas placas pra você fazer cola cristal, quebrar aquilo ali, e tinham outros também, outras coisas que quebrava, eu não me lembro de fazer muito, fazia pouco com almofariz, almofariz quase não usava.

 

P/1 - Quase não usava.

 

R -  É, ou usava muito pouco.

 

P/1 - Agora, a goma arábica que o senhor disse era usada como ingrediente de remédio né?

 

R -  É, usava pra fazer anti-diarréico.

 

P/1 - Anti-diarréico?

 

R -  É, você fazia umas fórmulas lá e a goma arábica.

 

P/1 - E era só excipiente ou...

 

R -  Não, tinha mais coisas.

 

P/1 - A goma era usada como excipiente ou ela tinha uma ação dela mesma?

R -  Isso, era mais pra excipiente, mas ela tinha a ação dela também, porque...

 

P/1 - Tinha uma ação?

R -  ... é meio adstringente, não é adstringente mas ela tinha uma ação assim.

 

P/1 - Bom, então continuando, o senhor estava descrevendo as fórmulas e os produtos daquela... Da velha botica né?

 

R -  É, era botica.

 

P/1 - E que produtos o senhor se lembra que marcaram muito, que eram muito usados naquele tempo e que o senhor preparou muitas vezes a fórmula?

 

R -  Ah, é mais antigripal.

 

P/1 - Como?

 

R -  Cápsula antigripal.

 

P/1 - Cápsula antigripal.

 

R -  É, isso eu fazia de monte porque...

 

P/1 - O que continha na cápsula antigripal, o senhor lembra?

 

R -  Era piramida, aspirina, cafeína, era mais esses três ou quatro fórmulas assim. E naquele tempo a gente podia usar o Luminal, não era controlado nada que se pode...

 

P/1 - Qual?

R -  Luminal.

 

P/1 - Luminal. Depois ele foi tirado do mercado?

R -  É, depois foi controlado.

 

P/1 - Por que?

 

R -  Porque ele tem uma ação sedativa, ele tem ação... A pessoa dorme e tal, mas como calmante ele é uma beleza, você põe umas cinco miligramas em cada cápsula, a pessoa se sentia bem. Então melhorava o estado geral da pessoa, além da febre e todo aquela dor no corpo da gripe desaparecia. A pessoa se sentia bem porque o Luminal dava uma sedação um pouquinho leve. Só que depois acabaram com isso daí, não podia usar mais, foi controlado.

 

P/1 - Agora, essa cápsula era basicamente química, porque o senhor tá falando de ácido acetilsalicílico, qual a outra? Dipirona não?

 

R -  Piramida.

 

P/1 - Piramida, isso. Remédios derivados de planta tinha muitos, tinha algum que era mais usado que tinha... O senhor lembra aí?

 

R -  Fazia chá.

 

P/1 - Chá!

 

R -  Fazia chá pra fazer xarope depois. Você fervia a folha, Beladona por exemplo você fez isso pra fora, de camomila... Eu não lembro de quantas tinha, mas tinha folha de tudo quanto é jeito lá, umas vinte, trinta latas de cada uma era um tipo de... A gente lembra mais é Beladona, Camomila, Erva-Doce, e tinha bastante... Os Pacova aqueles...

 

P/1 - Pacovan?

R -  Pacova! Aquelas frutinhas que usava pra… Que dá muito tempo, a gente moleque naquela ocasião não... Só prestava atenção no serviço, na hora de fazer, mas a cabeça tava num outro lugar depois, então tem coisa que a gente não lembra bem.

 

P/1 - Mas pra preparar esse xarope, esse era um xarope que o senhor preparava. Fazia primeiro o chá, extraia e depois do chá fazia o xarope. É isso?

 

R -  É, o chá era o veículo.

 

P/1 - Era o veículo.

 

R -  Era o veículo, e depois você dissolvia o benzoato de sódio, você dissolvia uma cafeína, uma lá... O benzoato era danado, ele conforme se o álcool entrava junto com ele, ele dava...

 

P/1 - Uma reação?

R -  Uma reação química.

 

P/1 - E aí ele estragava o produto.

 

R -  Estraga tudo, você precisava jogar fora e fazer tudo de novo, então você tinha que dissolver. Eu aprendi que Benzoato de Sódio com outro Sal, eu tinha que dissolver separado num outro líquido, terminado tudo aquilo que o médico receitou ou que o farmacêutico fez a fórmula eu fazia tudo, depois eu pegava aquele benzoato de sódio solúvel e ia despejando aos pouquinhos e mexendo, aí não dava reação. Se você botava ele junto...

 

P/1 - De uma vez...

 

R -  … De uma vez, virava aquele leite coalhado vamos dizer (risos).

 

P/1 - Bom, e o senhor quando veio pra São Paulo já tinha vontade de fazer medicina. Essa vontade de fazer medicina era pelo fato de ter trabalhado em farmácia ou tinha algum outro motivo?



R -  É que eu gostava mesmo, gostava de mexer em remédio, tanto é que até hoje ainda eu trabalho na farmácia lá na Igreja que eu tomo conta lá. Então isso era uma vontade que eu tinha, mas não deu, não deu. Eu quis ser cantor não deu... Cantar ópera não dava, eu trabalho pra família ou tinha até que largar tudo.

 

P/1 - Fala um pouquinho pra gente desse seu lado cantor, o senhor já cantava desde criança?

R -  Não, eu comecei a descobrir quando eu tava aqui em São Paulo, e eu me lembrava muito do Vicente Celestino, imitava muito ele.

 

P/1 - Grande Vicente Celestino.

 

R -  Depois eu comecei a trabalhar na farmácia Cruzeiro do Sul e tinha umas menininhas que tava aprendendo a tocar piano ali, ela me... Eu falei que eu gostava de cantar, ela falou: “vem cantar aqui na minha casa”, aí comecei brincar lá e começamos cantar italiano, música italiana. Aí um amigo nosso lá falou: “puxa, eu conheço o Assis Pacheco, vou trazer ele aqui”. Eu tinha voz mesmo barba, de tenor mesmo, parecia barítono, mas era tenor. Esse colega tinha fábrica de sapato foi um tal de... Ele chamou: “vou trazer um cantor aqui pra ele ouvir a tua voz pra ver se serve pra você fazer”... falei: “bom, e daí?”, eu já tava com dezoito, dezenove anos, por aí. Aí eu comecei cantar Vicente Celestino, ele falou: “não, não é assim”. Aí o Assis Pacheco veio lá, não sei se você ouviu falar no cantor de ópera...

 

P/1 - Assis Pacheco.

 

R - É, ele cantou muitos anos, ele... Tanto é que perdeu um pulmão e continuou cantando assim mesmo, tinha lá uma voz bonitinha. Mas aí me ouviram e depois ele falou... Eu comecei cantar lá, ele falou: “para um pouco aí. Canta assim, assim assim, a tua voz mesmo não é?” Aí eu comecei a cantar e ele falou: “não, você é tenor você tem que ir lá”. Ele me indicou um professor dele e comecei a estudar com ele e eu tava com umas duas, três óperas na cabeça já, mas aí não sei o que deu, um dia eu esqueci a letra e dei um bode desgraçado, fiquei nervoso e nunca mais quis.

 

P/1 - O senhor foi apresentar e esqueceu a letra (risos) Mas agora, recentemente?

 

R -  Não, isso já fez muitos anos.

 

P/1 - Muitos anos?

R -  Ah, não! Agora não dá mais nada.

 

P/1 - Então o senhor desistiu da carreira cedo não é?

 

R -  Ah, desisti. Desisti porque depois eu casei, não dava mais...

 

P/1 - Ah, o senhor casou logo depois disso, não era ainda casado até então?

 

R -  Não.

 

P/1 - E como é que o senhor conheceu a sua esposa?

 

R -  Conheci na farmácia, quando trabalhava na farmácia na Rua Bresser, a farmácia (Rutila?) que eu te falei (risos)... Porque se ela passava eu olhava, eu a olhava e ficou nisso. Eu olho pra lá eu olho pra cá até que começamos a conversar...

 

P/1 - Ela foi comprar um remédinho...

 

R -  Ah! Ela passava sempre pra comprar remédio. Falei assim, ela tá querendo alguma coisa. Aí veio conversar comigo e coisa e tal, eu não era muito mulherengo, eu não tinha tempo, eu só pensava no trabalho rapaz, não sei porquê isso. Fui pensar um pouquinho depois, muito tarde. Mas tanto é que foi.. Acabei falando com a mãe dela que morava na mesma rua da farmácia ali perto, começamos a namorar e daí um pouco até me casei.

 

P/1 - Não demorou muito o noivado?

 

R -  É, mais ou menos porque aí eu fiquei mais dois anos nessa farmácia, ali na farmácia (Rutila?) daí já tava com vinte e tantos anos e tal...

 

P/1 - Aí já é depois da Cruzeiro do Sul?

 

R -  É, depois da Cruzeiro eu fui pra (Rutila?), fiquei quase dois anos lá. Foi aí que apareceu uma farmácia pra eu comprar, então no ano que eu comprei a farmácia eu me casei. Casei, fui morar na farmácia que era... Tinha casa no fundo, na rua Clélia. Eu casei em julho, no fim de julho, comprei em junho e em julho já casei e eu fui morar. Começou a me apertar porque o pai dela tinha falecido e começou... Vai casar ou não vai!? A mulher começava a pegar no pé (risos)...

 

P/1 - (risos) Botou na parede.

 

R -  Falei: “bom, agora vou ter que ir mesmo, não tem outro jeito. Aí então eu casei e ficou.. Ficamos quatro anos lá”.

 

P/1 - Senhor Julio, e da farmácia que o senhor tinha conhecimento lá no interior pra farmácia aqui de São Paulo, o que mudou? O que o senhor encontrou de novidade, como é que era a farmácia da Capital daquele tempo?

 

R -  É, essa do senhor Rossi, por exemplo, era uma big de uma farmácia lá, grande viu. Tinha muito mais prateleiras, mais coisas. E tinha tinha o farmacêutico, o senhor Rossi era farmacêutico e tinha um farmacêutico que dava o nome também, um baixinho gordinho, senhor Antonio. Ele não gostava que eu fazia nada, e outro que é esse que tá até hoje com a farmácia, o outro lá: “faz isso aí, faz isso aqui, varre aqui, vai aplicar injeção” e o farmacêutico titular ele não gostava que eu fazia, porque ele achava que eu tinha que ser farmacêutico pra fazer. Falou: “mas você sabe, você sabe tem que fazer!” Foi aí que o senhor Rossi viu que o negócio tava errado e me mandou lá, falou: “ô fulano, você não quer um rapaz que saiba aplicar injeção e isso e aquilo?” ele falou: “quero! Tô precisando aqui”. Aí o outro veio pra cá e eu fui pro outro, acabei ficando dez anos lá.

 

P/1 - E tinha muito mais produto já industrializado aqui ou ainda era bem de manipulação?

R -  Não, não... tinha né? Eu já...

 

P/1 - Nós estamos falando em que ano, nessa época aí, só pra situar?

R -  Essa época do Rossi foi em 38...

 

P/1 - Trinta e oito.

 

R -  ...37 pra 38. 38 eu já fui pra Cruzeiro do sul.

 

P/1 - Certo.

 

R -  Fui até 48.

 

P/1 - E como é que era lá na Cruzeiro do sul, também era uma farmácia de manipulação, tinha muita... ?

 

R -  Tinha, fazia manipulação, fazia todas as coisas lá e eu... Aí o patrão me fazia lá um negócio do cabelo lá (risos). E ele usava um enxofre, não sei o que mais, pra escurecer o cabelo. Por isso que ele tá sempre com o cabelo preto.

 

P/1 - É, uma forma de...

 

R -  É, ele que fazia, eu não queria saber (risos). Mas eu aplicava injeção na rua o dia inteiro, andava pra lá e pra cá, soro, tudo a gente ia aplicar.

 

P/1 - Aplicava soro, injeção?

 

R -  É, até em cachorro, gato.

 

P/1 - Fazia curativo?

 

R -  Curativo, sempre! Todo lugar fazia curativo, aplicava injeção, e eu apliquei injeção até em cachorro.

 

P/1 - Tem algum fato curioso que o senhor se lembra envolvendo a freguesia das farmácias nesse período?

 

R -  Freguesia eu não me lembro, eu lembro um caso que eu quase fui pro ‘beleléu’ (risos).

 

P/1 - O que aconteceu?

R -  Quando eu tava na farmácia Rossi. Foi daí que eu comecei a ficar nervoso lá. Tinha um cofre que era mais alto do que, pra eu limpar precisa subir na ponta do pé, porque lá ele botava as caixas de injeção lá onde ia aplicar, deixava lá em cima. Eu precisava limpar com o espanador, aí subi pra limpar e não é... Eu tava limpando, o senhor Rossi entrou falou: “pera um pouquinho que eu vou pegar o dinheiro”, abriu o cofre, pegou o dinheiro lá que ele guardava sempre e fechou. Eu vou limpar de novo, nisso o cofre vem em cima de mim.

 

P/1 - Nossa!

 

R -  E eu cai pra trás, quando eu cai o cofre caiu e já abriu a porta e a porta bateu num bico no chão lá no coiso e parou.

 

P/1 - Noossaa!!

 

R -  Até hoje eu não sei porque aconteceu isso. Se não eu estava esmagado né?

 

P/1 - Que coisa hein?

R -  Precisaram de três homens pra levantar o cofre. Eu era moleque, eu falei: “eu não tô entendo o que aconteceu?”

 

P/1 - Que coisa hein?

R -  Como é que eu tinha força pra puxar o cofre? Eu nem puxei no cofre pra puxar. São coisas que você fica pensando em tudo o que acontece com gente. Esse do meu irmão cair em poço e esse aí.

 

P/1 - Estranho mesmo, né?

 

R -  Tá louco!

 

P/1 - É, os acidentes... Meio malucos.

 

R -  Na hora você não tá nem aí, depois é que você... Depois de muito tempo que você vai falar: “Puxa, mas como é que esse cofre caiu em cima de mim?” Um peso que tinha! O bicho era quadradão, aquele bruta cofre que a gente precisava levantar pra poder olhar ali em cima.

 

P/1 - Estranho mesmo. Ele não ficava no desnível não?

R -  Três homens... Não, não tava...

 

P/1 - Normal.

 

R -  Eu só pus a mão assim, eu não me agarrei no cofre, só pus a mão, mas tava lá em baixo, pus a mão pra limpar dali a pouco o cofre vem em cima de mim. Eu cai pra trás...

 

P/1 - Estranho, né?

 

R -  Quando caiu ele abriu a porta e a porta bicou no chão e ficou, parou ali!

 

P/1 - E algum fato envolvendo medicamento, o seu trabalho em si de farmácia, o senhor se lembra?

 

R - Medicamento eu não... Acho que eu não tive nada não assim, você diz de problemas?

 

P/1 - Ah, algum fato curioso ou alguma fórmula que não saia do jeito que devia ser, sei lá. Essas coisas do cotidiano do trabalho da gente que de repente tem...

 

R - É, mas tinha que tomar cuidado. Fazer fórmula tinha que tomar muito cuidado, porque já vinha escrito o que você tinha que fazer então tinha que prestar atenção.

 

P/1 - Como é que se comportava a freguesia daquele tempo? Ela dependia muito do farmacêutico, ela...

 

R -  Mais do farmacêutico do que do médico.

 

P/1 - É.

 

R -  No interior. Primeiro ia consultar o farmacêutico. O farmacêutico era o principal lá na ocasião. Hoje não, hoje eles vão ao médico, naqueles tempos geralmente era assim, primeiro... Eu lembro que farmacêutico era lucro, se desse pra ele controlar o negócio da doença ele dava um medicamento, senão ele já mandava, tinha um médico bem em frente. A farmácia ali em Birigui tinha um médico, inclusive esse médico aí... Depois ele foi o rei do café lá no Birigui, como é que era o nome dele? Jorge não sei das quantas lá. Ele foi até Ministro, Secretário da Fazenda aqui de São Paulo. Até vim falar com ele uma vez aí, ele nem me deu bola vai… (risos). Eu falei: “vou trabalhar na farmácia do… Quando eu tava desempregado eu queria ver se trabalhava numa farmácia do Estado, eles tinham farmácia, tinham tudo com manipulação, mas não deu certo.

 

P/1 - Bom, do lado de remédio de laboratórios o que o senhor se lembra de laboratórios que existiam, quais eram os mais importantes, e os remédios mais importantes já fabricados industrialmente?

R -  Bom, no interior eu me lembro... Eram esses três ou quatro medicamentos que a gente lembra, Licor de Cacau, Biotônico, Licor de Taiuiá, Capivarol, tem mais alguns desse, aquele Creme Rugol (risos).

 

P/1 - Creme Rugol?

R -  Creme Rugol.

 

P/1 - Era pra pele, pra as...

 

R -  Pó aladi (risos).

 

P/1 - Como é que é?

 

R -  Pó de arroz, era uma latinha de metal, pó aladi.

 

P/1 - Pó aladi, pó de arroz.

 

R -  É, pó de arroz.

 

P/1 - E o Capivarol era tônico também né?

 

R -  Era um tônico. Licor de Taiuiá era pra - como é que se diz? - pra afinar o sangue, pra melhorar o sangue.

 

P/1 - Afinar o sangue?

 

R -  É (risos).

 

P/1 - Licor de?

R -  Taiuiá.

 

P/1 - Taiuiá.

 

R -  Acho que existe até hoje, acho que existe esse Capivarol também, acho que sim viu.

 

P/1 - O Elixir Paregórico que tinha assim...

 

R -  Paregórico tinha.

 

P/1 - Pra que era o Elixir Paregórico?

 

R -  Era pra dor de barriga mesmo (risos).

 

P/1 - Dor de barriga (risos).

 

R -  Aquelas cólicas nós fazíamos com... Fazia uma fórmula simples. Esse meu patrão era danado, ele abria a magnésia fluida, comprava muito, abria, punha um pouco de tintura de Beladona e Elixir Paregórico, tomava aquilo ali, passava a dor de barriga.

 

P/1 - E os laboratórios, quais eram os mais importantes naquele período? O senhor se lembra?

R -  O mais conhecido era o Fontoura.

 

P/1 - Instituto Medicamenta.

 

R -  Fontoura, Pinheiros.

 

P/1 - Pinheiros.

 

R -  Quem mais? É que mudou tanto o nome que às vezes... Eu tinha uma lista lá de laboratórios que a gente vai esquecendo até o nome, eles vão mudando de firma ou mudando o nome da empresa e hoje a gente nem lembra mais de tanto que tinha. Não, não era muito mais, mas é difícil de você lembrar porque faz muito tempo, então sai fora da praça, muda de nome, medicamento passa pra outro laboratório como tá acontecendo hoje.

 

P/1 - É verdade.

 

R -  Até hoje ainda continua, né?

P/1 - Senhor Júlio então o senhor se casou e já montou o seu próprio negócio de farmácia?

 

R -  É, eu comprei uma farmácia lá em 1950, casei, fiquei ali, fui atendendo, uma farmácia pequenininha pra começar.

 

P/1 - Onde é que ficava?

R -  Na rua Clélia.

 

P/1 - Rua Clélia na Lapa?

 

R -  É.

 

P/1 - E ali o senhor ficou muito tempo?

R -  É, entre a Lapa e a Água Branca ali, porque é no começo da Lapa, é perto lá da... Subindo a Rua Clélia.

 

P/1 - Tinha muitas farmácias por ali ou ainda era... O senhor tava novo lá?

R -  Não, eu tinha... Mas tinha lá no Largo da praça Cornélia, mais pra cima, uns quatro, cinco quarteirões pra cima tinha outra farmácia, depois as outras lá perto do cinema no... Mais no fim da Rua Clélia.

 

P/1 - Como é que era?

 

R -  Rua Clélia vai até a Lapa, lá em cima.

 

P/1 - Como é que era a competição das farmácias naquele período? O mercado era muito competitivo ou ainda tinha muito terreno pra desbravar?

R -  Não, sempre foi competitivo e continua até hoje. A competição continua firme (risos).

 

P/1 - É (risos).

 

R -  Mas era, você tinha que tratar bem o cliente, o freguês, pra poder manter sempre ele perto de você pra ser atendido, senão ele vai na outra farmácia. Lá onde eu tinha a farmácia às vezes ia no médico, no centro, e depois que comprava o remédio no centro vinha na farmácia pra você aplicar, e a gente ficava chateado com isso, porque não comprava da gente, comprava na cidade, trazia, injetava pra você aplicar lá na farmácia. Então (risos) tinha muito disso também.

 

P/1 - Mas tinha que tratar bem de qualquer jeito.

 

R -  É, de todo jeito, porque senão como eu falei, farmácia tinha bastante já, se não te serve aqui, vai em outro, vai comprar na cidade, como eles faziam sempre. Foi indo, desgostei e acabei vendendo.

 

P/1 - O senhor quando abriu a sua farmácia, o senhor já tava formado? O senhor depois acabou fazendo o curso de farmácia, não é isso?

R -  Fiz, fiz um curso... Não, oficial de farmácia.

 

P/1 - Oficial de farmácia. Como é que era esse curso?

 

R -  O Doutor Márcio Rabelo, se não me engano que dava esse curso pra gente. A gente fazia um curso de oficial, estudava e depois ele marcava uns exames, exame escrito sobre fórmulas e tudo, e exame oral também, ele mostrava lá uns sais, uns pós, umas plantas assim... Ele te botava já até vendendo. Ele falava: “pode tomar que nós já somos do agente funerário mesmo” (risos), já assustava todo mundo. Ele brincava com a gente. Tanto é que quando eu fui fazer exame lá, eu molecão já sabia, com doze anos já sabia formular, fazer fórmula, e tinha os colegas lá que vinham: “como é que eu faço isso? Como é que eu faço aquilo?” Uns três ou quatro tive que ensinar a fazer fórmula, é brincadeira, eu falei: “vocês que estão em São Paulo não sabem fazer fórmula?”

 

P/1 - E quando foi que o senhor fez esse curso?

R -  Em 1941.

 

P/1 - 41.

 

R -  É, tem o diploma até lá em casa, acho que ele tá, mas eu esqueci. Não sei se eu te dei uma cópia, não?

 

P/2 - Não, não tem problema, depois a gente pega.

 

R -  Não. Se precisa senão… Em 1941, eu ainda estava na farmácia do Alarico loja Cruzeiro do Sul.

 

P/1 - E como foi o seu negócio na sua farmácia?

R -  No começo foi bem, eu tive minha filha em 51, depois o meu filho nasceu em 55, mas eu já tava fora, já tava no laboratório, aí não vem mais... Depois lá não dava muito movimento, era um lugar de passagem só, mais de passagem de carro né? Então aqueles clientes que tinha ali por perto tratava com a gente, mas era pouco, não dava pra você manter uma vida melhor. Tanto é que eu fui indo, fui indo, resolvi vender, falei: “não sei o que eu vou fazer, eu vou trabalhar de empregado novamente”. Fui trabalhar nessa farmácia Quinta Avenida, fui tomar conta da farmácia a noite, das oito da noite às oito da manhã, eu ficava até que... Era o Marcelo lá, não sei se você conheceu, família Marcelo, aí eu falei pra ele: “olha, você não vai conseguir bons empregados aqui não, porque você não paga, paga mal pra burro, você tem que pagar bem, eu mesmo não vou ficar, vou embora”. Ele falou: “é, tô acostumado, você sai e vem outro aí”, e não tava nem aí. Aí por intermédio de um conhecido conheci o chefe de propaganda da Biosintética, fui lá, me apresentei e ele logo foi bem comigo. Eu gostava de trabalhar, eu queria trabalhar, aí comecei e fiquei lá quase três anos.

 

P/1 - Na Biosintética?

 

R -  É.

 

P/1 - E como era a empresa?

R -  No começo era boa viu, porque ali era um dono, uma sociedade de um italiano, Mazuchelli, depois tinha mais um outro que era dono do Banco, um tal de (Stink?) não sei o quê, depois veio um outro lá o (Gallo?) que trabalhou na Bozzano, famoso (Gallo?). Então eles iam, cada um ia com as idéias diferente de onde trabalhava, muito mais fácil... Começaram modificações e fomos tocando o barco aí.

 

P/1 - Como é que foi a experiência de ser propagandista, foi muito diferente? Mudou radicalmente aí o senhor nunca tinha ficado...

 

R -  É, porque eu ficava preso o dia inteiro na farmácia. Quando comecei a andar na rua eu tava com vergonha (risos), falei: “puxa vida”, eu ficava preso o dia inteiro na farmácia, não saia, ficava até a noite, farmácia era das oito às dez da noite, não tinha outra farmácia. Hoje fecha mais cedo, tem plantão, sai no sábado meio dia, já não fecha, sábado meio dia até domingo. Naquele tempo não tinha nada disso, você ficava o dia todo lá até a noite, não tinha pra onde ir. Pegar um [dia da] semana, só num sábado quando tinha folga, pegava uma folga.

 

P/1 - Então no início o senhor teve vergonha, e como é que foi, os médicos eram boa gente, fácil de tratar ou...?

 

R -  Não, eu não posso me queixar de médico viu?

 

P/1 - Não?

R -  De jeito nenhum. Sempre tem uns casquinhas, infelizmente, mas muito pouco viu, teve sim aqueles que gosta de marcar dia pra você atender, você chegava pra fazer médico lá no... Em cima do Cine Metro tinha um médico lá, dez horas da noite pra me atender, é brincadeira né? Eu preciso levantar às seis, e cinco hora da manhã tô saindo. Então, a maioria... Depois eu comecei trabalhar mais no bairro, era muito mais sossegado pra trabalhar.

 

P/1 - No seu bairro mesmo?

 

R -  Eu comecei na Zona Leste. Quando eu entrei na Biosintética tinha um rapaz que saiu, fazia o Brás, o Largo da Concórdia, aqueles lados ali, o Brás e Mooca um pedacinho. O rapaz saiu e falou: “ pra começar você vai fazer esse aí rapaz, fica aí uns quinze dias”, fiquei uns quinze dias, fiz lá o serviço, mas você em quinze dias vendeu mais que o outro que ficou um mês, eu falei: “não sei eu tô fazendo o meu serviço”, o resto não quero saber quem que foi o outro, não quer saber. Me deram um setor, comecei trabalhar, pegava lá em baixo da Mooca e ia até Suzano, fazia Tatuapé, Penha e todas as vilas da Penha e ia embora até Suzano, fazia isso aí.

 

P/1 - E o senhor visitava quantos médicos por dia?

 

R -  Dependia do local, tinha vez que você fazia oito, dez médicos; tinha vez que você fazia três, quatro não dava, porque tinha médico de manhã e mais a tarde, de manhã era mais farmácia que você fazia. Você visitava farmácia, vendia, tirava pedido, cobrava porque eu fazia cobrança também naquele tempo, eles pagam em dinheiro...

 

P/1 - Pagavam sem nenhum...

 

R -  \recebia pra... A pasta cheia de dinheiro era um medo danado, depois é que começou os cheques, começa aparecer, foi melhorando e fora os cano de cheque quando dava (risos) e não tinha fundo às vezes, isso daí dava. Acontecia muito.

 

P/1 - E quais eram os produtos do Biossintética daquele tempo?

R - Naquele tempo eram as pomadas deles, tinha Neomizan, Pixolozan, Equixezam, era tudo “Zn”.

 

P/1 - Tudo zan? (risos).

 

R -  (risos) Acho que até hoje ainda, não sei se tá com ele ainda ou tá nos laboratórios. Equixteam era o famoso pra Eczema, o Pixolozam pra Psoríase, Neomizam foi quando saiu a Neomicina, então associou o Equixteam com Neomicina ficou Neomizam. Pixolozan, Equixezan, Neomizam, tanto é que tinha um professor que dava aula de Dermatologia pra gente, o homem era cobra, o doutor professor Bechelli.

 

P/1 - Certo.

 

R -  Não sei se você chegou a conhecer, mas o homem era bom, a gente aprendeu alguma coisa de Dermatologia viu.

 

P/1 - Bom, então continuando, o senhor tava falando do como é que eram os produtos da Biosintética.

 

R -  As pomadas dermatológicas, depois eles lançaram vitamina também Totalvit, e lançaram uma novidade depois pra vermes, que já existia então era Piperazine, eles lançaram Piperazine bem feitinho, sabor bem delicioso com copinho medidor, foi novidade, isso aí começamos a malhar e vendeu bem, chama Verniplaze. Acho que nem tem mais hoje, eu não vi na lista mais.

 

P/1 - Era um vermífugo mais saboroso, tinha...

 

R -  É, e era Piperazine normal que usava, e ainda tem hoje por aí. Hoje á a base do Albendazol ou Mebendazol hoje tudo é mais novidade.

 

P/1 - Depois sofisticou, mas naquela época era o que tinha?

 

R -  É, era o que tinha.

 

P/1 - E vendiam bem os medicamentos da Biosintética?

R -  Vendia. A gente malhava mesmo. Cota era pra cobrir, como diz o chefe lá, “cota é pra cobrir!” Ele falava.

 

P/1 - Tinha uma cota?

R -  Tinha. Cota sempre, tinha todo mês, as vezes dava cota anual. Naquele tempo, porque o salário aumentava uma vez por ano, então... Igual na Merck Sharp, automaticamente num mês eles já aumentavam, era 20% de aumento e 20% de aumento de cota também (risos), também vinha junto. Mas no Biosintética não, Biosintética era normal, a gente ganhava um premiozinho, uma comissãozinha das vendas, então sempre dava bem.

 

P/1 - E tinha comissão também?

R -  Tinha uns premiozinhos né?

 

P/1 - Uns prêmios.

 

R -  É.

 

P/1 - Bom, o senhor ficou quanto tempo…?

 

R -  O salário era aquele mesmo normal, tinha um premiozinho dava pra... Quando tinha provas a gente fazia umas provinhas num sábado quando fazia reunião, então chegava no fim do mês você ganhava mais quinhentos mil réis, quinhentos reais... quinhentos cruzeiros, aqueles cruzeiros antigo, bem antigo. quinhentos contos ainda pra falar a verdade (risos).

 

P/1 - Contos de réis.

 

R -  É. Então eu e um outro lá sempre tirava, quando não era eu era ele o primeiro lugar. A gente malhava pra ganhar os prêmios, pra fazer as perguntas,  eles vinham com as perguntas e como a gente estudava não tinha problema. Então sempre tirava primeiro, segundo lugar em prêmio ali, dava pra ajudar um pouquinho mais.

 

P/2 - O laboratório aplicava provas pra vocês?

R -  Sim, pra saber se você sabia a fórmula do produto fazia pergunta de todo jeito sobre o produto, como é que usava a dosagem, a fórmula (risos). Sei que hoje não tem mais isso.

 

P/1 - Senhor Julio, e quanto tempo o senhor ficou na Biosintética, e que o senhor foi fazer depois de _______?

 

R -  Da Biosintética eu fui direto pra Merck Sharp, eu falei com o senhor Moura, ele tava precisando de elemento lá e eu me candidatei, aí ele falou: “vem aqui, vamos ver”, me chamou, aí não precisava de nada, “você já vai começar a trabalhar”. Comecei lá, começamos, eles tinham lançado um produto que tava fazendo furor na praça, foi aí que começou... Subiu a Merck Sharp. Eles já tinham Beg For, eles lançaram Clotride que era um diurético não mercurial, porque se usava muito diurético mas a base de mercurial, então ele judiava muito do paciente. Eles lançaram o Clotride, era um sal normal, uma beleza e começou a vender isso aí, depois eles lançaram um outro mais forte com menos dosagem, Diclotride, depois veio Idecrim, depois veio... Hoje tem Moduretic, participei desses aí da Indocid, participei de Decadron foi... Um grande lançamento também.

 

P/1 - Decadron é o que, pra que mesmo?

R -  Dexametasona, é um multi hormonal, um derivado dos Hidrocortisonas.

 

P/2 - Ah, um cortizona, isso mesmo.

 

R -  Isso. O córtex da (Coxparanol?).

 

P/1 - Quais eram as áreas mais fortes do laboratório, eram Dermatologia...?

R -  Não, aí era mais a Clínica Geral e a Cardiologia porque... E tinha Reumatologia também, porque tinha o Indocid, lançaram a Indometacina, foi lançada ainda... No começo foi um trabalho porque não foi bem harmonizado o lançamento, talvez tenha sido... Foi o que aconteceu com o Aldomet também, a Metildopa como anti hipertensivo... Eles lançaram...

 

P/1 - Não deu certo esse remédio?

R -  Não. Deu certo porque até hoje vende barbaridade.

 

P/1 - O senhor desculpa, é muito remédio... Eu guardo e tudo... Mas porque eu entendi que o senhor disse que parece... Não houve uma campanha de colocação boa no mercado?

R -  Ah sim, a colocação foi boa, apenas que não souberam dar um ênfase no início, fizeram de uma maneira que o médico estava receitando, por exemplo, o Aldomet estava receitando pra Hipertensão Maligna, então tava largando pau pra Hipertensão Maligna e não tavam dando a __________ que ele precisava, precisava de um outro diferente. E o Aldomet não, tem que começar dar suave, moderada e pode dar que é uma beleza, tanto é que eles consertaram fazendo um novo tipo de programação e aí melhorou bastante. Hoje vende Aldomet as ‘pampas’ aí.

 

P/1 - Acertou a posologia?

R -  É, acertava a maneira de... Dosagem pra começar a dar leve, moderada e começamos... Voltamos a fazer a informação dizendo, com dedo machucado o médico tá fazendo um curativo, “olha, não esqueça doutor, esse paciente pode ser um hipertenso amanhã”. Começando assim bem desde lá de baixo de novo, tanto é que pegou que hoje é barbaridade, o que vende não é brincadeira, fora os outros que vendem bem, quer dizer o Aldomet vende muito.

 

P/1 - E eu não entendi também porque eu não tenho essa formação científica. Qual a relação que o senhor estava estabelecendo entre o machucado e a hipertensão?

R -  Não, só que a gente dizia pro médico que esse paciente que tá com esse dedo cortado aqui pode ficar nervoso amanhã e ter uma hipertensão leve, começar uma levezinha, então ele medir a pressão do paciente.

 

P/1 - Ah, pra ele sempre tá lembrando... A hipertensão.

 

R -  É, sempre medir a pressão desse paciente porque ele pode ser um futuro hipertenso. Então ele media a pressão, mesmo que machucou o dedo não foi nada, mas vamos medir a pressão, aí você tá com a pressão um pouco leve assim já toma isso.

 

P/1 - Não havia, naquele tempo, um controle muito rigoroso de tensão de hipertensão né?

R -  Não, tinha mais ou menos sim.

 

P/1 - Tinha?

R -  Tinha que...

 

P/1 - É que não me parece que a hipertensão... Isso eu tô deduzindo aqui meio no respaldo...

 

R -  Não, hoje tem também muito né? Muito.

 

P/1 - É, não era tão controlado no passado quanto...

 

R -  Ah, no passado não, no passado ninguém falava em hipertensão.

 

P/1 - Nessa época já?

 

R -  Ah sim. Depois começou muito. Hoje o ‘nego’ vai num lugar aí o médico já mede a pressão, a primeira coisa que faz, primeira coisa.

 

P/1 - É, tá todo mundo preocupado.

 

R -  É, por causa desse ar que nós vivemos aqui em São Paulo, infelizmente, a correria aqui da Capital. Quem vive no interior a pressão dele tá normal.

 

P/1 - O cotidiano aqui já é hipertenso (risos).

 

R -  Já (risos),infelizmente, quem mora em São Paulo, trabalha em São Paulo, tem que correr pra lá e pra cá e tem que pegar trânsito pra lá e pra cá, meu Deus isso é brincadeira; ‘nego’ fica hipertenso mesmo, se não se controlar tanto na alimentação quanto no sistema nervoso, porque aí mexeu com o sistema nervoso e vai embora.

 

P/1 - E quanto tempo o senhor ficou lá na Merck Sharp?

R -  Fiquei praticamente dezessete anos lá.

 

P/1 - Dezessete anos.

 

R -  E lançamos também o Decadron que foi a Dexametasona que eu te falei, foi um corticóide... Tanto é que eles chamaram de Deca porque faziam dez anos que eles tinham descoberto a Hidrocortisona, a cortisona. Eles que descobriram, os cientistas da Merck Sharp. Eles tem diversos locais onde tem cientistas trabalhando pra eles, tem nos Estados Unidos, tem na Austrália, tem na Argentina, tem no Japão, tem em um monte de lugar. Não sei se naquele livro que você pegou tem alguma coisa a respeito, parece que tem, né Carlos?

 

P/2 - É terá como...

 

R -  Muito bom aquele lá.

 

P/1 - Bom, senhor Júlio e o que o senhor teria pra contar de curiosidade do seu trabalho durante a Merck Sharp na relação do dia a dia, do cotidiano de trabalho do vendedor. Tem algum fato, alguma curiosidade?

R -  Fato sempre (risos) até um dia a gente lembrava viu (risos). Sempre tem fatos curiosos de colegas que aprontam em cima de outro colega, isso tem muito, aprontava cada uma lá nos setores né?

 

P/1 - Com médico alguma coisa... Envolvendo médico?

R -  Com médico a gente já... Depende né? Tem um... (risos) assim que lembrando não é fácil não (risos). Que nem aquele que foi falar com o médico, tava na minha frente ele foi falar com o médico, não vou citar o laboratório que fica chato, pra não ficar desagradável.

 

P/1 - Tá certo.

 

R -  Ele foi falar com o médico, o médico era daqueles ‘bronco’ que ficavam sentado, não dava mão nem pra mãe dele, a gente ficava até meio... E o rapaz não sabia, coitado, chegou: “boa tarde doutor!”, levantou a mão, levantou pra ele _______.

 

P/1 - É, só levantou… Pegar um pouquinho aqui o pé, é essa perna aqui é, tá preso aqui, isso foi... Por isso que ele soltou, mas e aí ele foi cumprimentar o médico.

 

R -  Aí ele foi cumprimentar o médico, o médico nem se mexeu, ficou lá na dele e... “Pois é doutor, esse medicamento que eu tô lembrando o senhor tem cinco passagem um, dois, três, quatro, cinco… E fez assim pro médico, foi cumprimentar uma, duas, três, quatro, cinco... funções.

 

P/1 - Boazinha né?

 

R -  E outro que tava junto comigo foi no centro aí quando a gente tava fazendo um pedaço do centro aí por acaso. Um médico lá, um médico muito famoso, perto do Mário (Deni?) aqueles firma... O rapaz pegou, daqueles laboratórios que a gente chama de BO, chamava de BO, coitado do rapaz, trabalhava lá também e ganhar o dele, só que tinha uma mesinha, depois uns quatro, cinco vidros de medicamento em cima da mesinha, chega o médico e vem nos atender e fala: “olha doutor desses medicamentos aqui qual é o que o senhor receita?” O médico olhou pra ele e falou: “nenhum”. Assim sequinho, coitado do rapaz ficou... Falei: “não pode fazer assim”, expliquei pra ele isso aí não é maneira de você entrar no médico, faz a propaganda de um só e chega, tá bom demais. Qual desses que o senhor receita? Eu não receito nenhum!

 

P/2 - Laboratório BO o que é?

 

R -  Antigamente a gente chamava BO de bola. Bola que... Esses Laboratórios davam certos médicos que receitavam a base do cacauzinho. Eles receitavam, mandava o cliente trazer os rótulos lá ou a bula que eles guardavam e depois recebiam do laboratório, ou então eles faziam o cálculo pela venda nas farmácias.

 

P/1 - E a farmácia recebia se indicasse? Porque farmácia também indica remédio hoje.

 

R -   Ah, indica, sem dúvida até hoje. Indicava e indica muito, tá cheio disso aí. Os cara compram medicamento de laboratório... No Rio tem muito, compra medicamento pede cem e vem trezentos vamos dizer, até mais do que isso, tô chutando por baixo, um com um, um com dois e assim por diante. Então eles indicam, cada vidro que ele vende então já pagou três.

 

P/1 - E Biossintética era nacional?

 

R -   Nacional.

 

P/1 - E o Merck Sharp internacional?

 

R -   Isso.

 

P/1 - Quer dizer, nesse período foi exatamente o período que aconteceu a entrada maciça dos laboratórios multinacionais no Brasil né?

 

R -   Isso, já tinha também.

 

P/1 - Como o senhor vê esse período assim que já tinha...

 

R - Já tinha a Ciba-Geigy, já tinha a Berlimed, já tinha outros. Foram aparecendo grandes laboratórios.

 

P/1 - Mudou muito o cenário da indústria farmacêutica no Brasil naquele período?

R -  Ah, sem dúvida mudou bastante, porque começou aparecer coisas novas, medicamentos novos e quem ficasse atrás tava ferrado né? Então tem que acompanhar a evolução, não só de medicamentos, mas das doenças, da medicina, tudo evoluiu. Se o cara não se agiliza ele tá ferrado, então os laboratórios têm que chegar aonde chegava os outros também, tem que ir atrás, seguir, senão... E o Merck tava sempre evoluindo, lançando coisas novas sempre, acho que até hoje... Acho que continua a Merck Sharp Dhome.

 

P/1 - E depois do Merck, o que o senhor fez? Qual foi o seu trabalho?

R -  Quando eu sai do Merck eu fui trabalhar no Park Dewis, fiquei lá e o rapaz me chamou também porque eu tava fazendo o AVC nessa ocasião. Eu fui 76, 75 a 76 fiquei até o 77, acho que fiquei uns dois anos mais ou menos, não chegou a três. Em 78 já fui pra o Laboratil, tinha um gerente, era o... Um amigo meu que trabalhava na Merck Sharp, agora ele foi supervisor, um tal de Bernardo, ele me chamou e eu fui no lugar do juiz Ulisses Tavares (risos). Ele tinha quebrado a perna, fui fazer o lugar dele e acabei ficando, fiquei até 77, acho que sim. Aí entrou um gerente novo lá, mandou todo mundo embora assim na lata, falou: “os amigos dele vão tudo pra rua”, sentado na mesa assim. Um baixinho assim. Falei: “vocês que tem dezoito anos de casa e não falam nada eu vou falar o que? Tenho dois anos, um ano e pouco. Saí, tudo bem, e na mesma semana o colega já me chamou pro Laboratil. O Laboratil era gostoso de trabalhar porque os produtos todos eles vendiam. O senhor Leonel, o dono, que tinha falecido e tinha comissão nas vendas, era muito bom...

 

P/1 - Era nacional?

 

R -  O negócio era vender. Nacional, nacional.

 

P/1 - É.

 

R -  Nacionalissíma.

 

P/1 - Não existe mais?

 

R -  Não, existe, mas não Laboratil, existem alguns produtos que eles... Que ainda conseguiram ficar aí. A gente vendia de todos os produtos, vendia bem, aí...

 

P/1 - Que produtos ficaram do Laboratil ainda até hoje?

R -  Eles venderam, porque quem comprou foi a Searle, depois passou a Biolog, voltou a Searle outra vez. A Searle comprou, mas alguns produtos já não estavam interessados, parece que ficaram... Neocibetil ficou, mas eles tiraram as vitamina B-1, Fluviral era um que vendia muito...

 

P/1 - Fluviral.

 

R -  Nossa, vendia até hoje, mas eles venderam pra outro Laboratório.

 

P/1 - O que era o Fluviral, pra que era?

R -  Pra gripe!

 

P/1 - Pra gripe.

 

R -  É, antigripal bem... Antigripal e antialérgico, muito bom pra gripe. Vendia muito aquilo ali. E foram lançandos alguns outros produtos aí o Rifocina, era...

 

P/1 - Rifosin?

R -  Rifocina era um antibiótico, depois eles lançaram também o Benzitrat, igual ao Benflogin do...

 

P/1 - Benflogin.

 

R -  Hoje é Asta, antiga Degussa, antiga Labofarma, agora é de Asta e batemos cabeça com eles ali no Benflogin, o nosso era Benzitrat e continua até hoje lá vendendo. Mas os produtos do Laboratil acho que não sobraram grande coisa lá não.

 

P/1 - E depois de lá o quê? Depois do Laboratil?

R -  É, a Searle comprou e eu fui pra lá trabalhar um pouco, mas depois eu resolvi me aposentar, fiquei vinculado lá mais um pouco.

 

P/1 - Aí o senhor se aposentou e abandonou o ramo de...

 

R -  Não, ainda trabalhei num laboratório, mas não falei porque foi pouca coisa, um tal de Cos Droga, nem existe mais, fechou. E nos representa aquele laboratório Dansk Flama, mais não, fiquei ali mais pra registro.

 

P/1 - Senhor Julio, trabalhou com distribuição, não? Não sei se eu tô...

 

R -  Não.

 

P/1 - Não, não distribuição não.

 

R -  Distribuidor não. Eu fazia vendas pros Laboratórios como esses que eu trabalhei: Biosintética, Searle, todos eles que ganharia... Depois quando eu tava saindo começou esse negócio de distribuidoras, então eles vendem direto pras distribuidoras, então hoje em dia não... Hoje em dia não tem mais quase vendedores, é só propaganda, só propaganda médica. Um ou outro que tem um Hospital, que vende... Uma drogaria grande que tá no centro dele, mas é raridade agora. Propagandista só propaga mesmo os medicamentos hoje.

 

P/1 - Bom, falando um pouco da sua vida pessoal pra gente entrar no encerramento da nossa entrevista. O senhor se casou, teve quantos filhos? Algum seguiu o ramo?

 

R -  Dois (risos). Não, não quiseram saber.

 

P/1 - Ninguém quis saber do ofício.

 

R - O meu filho não quis saber, a minha filha seguiu o ramo de professora se formou e já até se aposentou, ela se aposentou, depois subindo ela fez faculdade e foi subindo, hoje ela é professora, hoje tá aposentada, então faz uns três meses que se aposentou, por aí. Ela já tava como assessora da diretoria da escola, e o meu filho eu levei pra... Falei: “vai sair uns dois dias comigo pra você ver como é que é, se te interessar entrar em laboratório... Porque tem muitos colegas aí que os filhos tão seguindo a carreira. Tem colega que tem dois filhos trabalhando, dois, três, como tem lá um colega nosso do sindicato, as duas filhas estão trabalhando em laboratório. O outro colega da diretoria, os dois filhos estão trabalhando ali (risos). Eu falei: “como é que vocês conseguem colocar os coitados aí, tira fora meu! “A gente brinca assim com eles. Meu filho não quis saber, mas ele entrou no negócio de Publicidade e Marketing.

 

P/1 - Marketing.

 

R -  É, Marketing e ele entrou e acabou. Fez aqui na Paulista, fez a Faculdade Cásper Líbero e acabou entrando lá. Hoje ele trabalha na quatro Rodas, já tem quase uns vinte anos lá, por aí dezoito, vinte anos ele já tá... Trabalha com a revista quatro Rodas. Publicitário.

 

P/2 - Eu lembro que o senhor me mostrou uma foto que o senhor tava ganhando um automóvel. Conta a história de quem é o automóvel?

R -  (risos) Ah, do automóvel, do fusca, um fusca verde que tava.. Foi lá no Solar das Andorinhas, quando nós estávamos... Se não me engano estávamos lançando um produto lá ou foi uma convenção de todo o Brasil, foi uma reunião lá. E aí falaram que iam dar um carro no sistema Leasing.

 

P/2 - Que laboratório?

R - O Merck Sharp, entre 67 por aí, 68 uma coisa assim. Aí eles me deram, iam dar o carro e... Você tem a fotografia né Ricardo? Tava lá recebendo, mas aquele carro que tava recebendo ali não era o meu, era do outro colega, e o rapaz que sentou depois foi dar um volta e já deu (risos) uma batida num toco que tinha no caminho (risos). O coitado do rapaz que ia levar, porque ele ia pro interior, era um dos mais velhos, eu e ele, os mais velhos iam receber o carro, de casa, velho de casa, tanto é que o meu apelido lá era ‘véio’, não velho, ‘véio’ (risos), qualquer coisa “ô véio, o véio aqui”.... Falou: “ô véio, você vai ficar pra depois porque o dele era do interior, ele vai levar o dele primeiro”. Ainda o chefe foi dar uma volta, amassou a traseira do fusquinha do rapaz. E eu logo depois, no mês seguinte já recebi o automóvel.

 

P/2 - E como é que funcionou isso, como é que foi isso? O laboratório que deu o carro?

R -  Não, o laboratório deu mas ele ficava em casa, viajava, fazia o que você queria tudo por conta, ele só pagavam a gasolina. Mas ficou no sistema Leasing, então descontava um tanto por mês.

 

P/1 - Senhor Júlio, tem alguma coisa que o senhor gostaria de falar especialmente que o senhor lembra sobre essas histórias de medicamento, esse tempo todo que o senhor teve envolvido?

R -  Eu não sei rapaz, você sabe que às vezes dá um branquelo aqui na cabeça da gente...

 

P/1 - Em quê?

R -  Que a gente viveu tanto na vida isso aí. Eu sei que quando eu fazia o setor lá do ABC, os colegas vinham tudo atrás de mim, eu falei: “mas o que é que tá acontecendo?” Chegava um novo eu que ia levar, vai comigo, vai aprender e tal tal hora, depois aparecia um lá desempregado aí toca, eu ia procurar um emprego dele. Então arrumei muito emprego pra colega lá, depois quando eu tava no sindicato eles achavam que eu era diretor e tinha obrigação de saber alguma coisa a respeito de vagas em laboratório, mas naquela ocasião tinha, você sabia, tava sempre atualizado e sempre vinha colega que vinha novo lá, então “tá precisando de emprego aí? Sabe o Laboratório?”, Falei: “vai lá em tal lugar que…” era batata, não tinha erro, arrumava emprego fácil. Eu sei que... Quantos anos, tanto é que os colegas sempre gostavam de mim, não pode ter queixa de ninguém.

 

P/1 - O senhor trabalhou seis anos na diretoria do Sindicato dos Empregados na Indústria Farmacêutica, é isso?

R -  Isso. Propagandistas de produtos farmacêuticos, Sinprovesp (risos).

 

P/1 - Bom, senhor Julio, pra encerrar queria que o senhor fizesse só um comentário assim: de todo esse tempo envolvido com farmácia, venda, sindicato, o que o senhor guarda mais saudade, o que lhe marcou mais?

 

R -  Olha, o que me marcou mais foi laboratório mesmo.

 

P/1 - Foi laboratório.

 

R -  Foi justamente ter mais amigos e angariar muitos amigos, isso que achei que foi... Porque quando trabalhava em farmácia eu vivia preso lá dentro, só conhecia os clientes que vinham e voltavam me procurar, porque sabia que aplicava muito bem injeção, tinha uma mão leve, aquele negócio todo, e teve muita onda, mas quando eu comecei a me abrir, andar, visitar bairros, eu mudei muito de bairro (risos). Cada um que chegava, um diretor mudava de laboratório resolvia mudar a gente de bairro. Então eu conheci muitos colegas, meu Deus do Céu, o que eu tenho de amigo hoje, vish! Se você falar no meu nome lá acho que... Vamos dizer, eu não vou dizer hoje que 60, 70% me conhecem, mas dos colegas que trabalham… Os mais velhos que hoje estão aposentados, 95% me conhecessem e tem amizade e gosta, e quanto mais eu tiver...

 

P/1 - Beleza!

 

R -  Isso é o que mais me importa na minha vida.

 

P/1 - Tá bom senhor Júlio, então muito obrigado, foi muito bom conhecê-lo.

 

R -  Eu que agradeço e espero que tenha colaborado com alguma coisa pra vocês.

 

P/1 - Foi de grande utilidade.

 

R -  Estou a disposição se precisar de mais alguma coisa.

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