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História

Uma vida de voluntariado no Incor

História de: Eunice Zerbini
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 25/07/2018

Sinopse

Nesta entrevista, dada aos 95 anos, Eunice Zerbini relembra sua infância, seus irmãos, seu casamento e fala sobre sua atuação como voluntária no Incor.


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História completa

P/2 - Deixa eu perguntar...

 

R - Como?  

 

P/2 - Seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R - Eunice de Jesus Zerbini Viariz. Viariz é do meu marido.

 

P/2 - E data e local de nascimento.

 

R - Eu nasci aqui em São Paulo, no dia 2 de maio de 1905.

 

P/1 - O nome dos pais da senhora?

 

R - Papai era Eugênio Zerbini. Minha mãe era Ernestina Teani Zerbini. Nós somos descendentes de italianos mesmo. De mãe e de pai. O meu avô... É para falar do avô?

 

P/2 - Sim.

 

R - O meu avô era do exército da Itália. Na guerra da Áustria com a Itália, tinha um grupo que ele comandava. E perderam a guerra. Ele era graduado, ele tinha... Sei lá, era o comandante desse grupo, então o governo pegou todos os maiores, juntou tudo e... Porque estavam prendendo os componentes da guerrilha italiana, que estava perdendo. Perdeu a guerra. Para não serem presos, o governo pegou todos eles mais destacados e tratou um navio para trazer no porão, porque no porão a polícia austríaca não ia. Prendia os de cima e prendia os menores. Os maiores ficavam dormindo, fingindo que estavam morrendo, e chegaram aqui.

O meu pai era moço, novo, e ficou com a mãe, que era minha avó, três irmãs e a casinha deles. Eles moravam perto de Ferrara, eram de lá. Um subúrbio que se chamava Serravalle. Eles tinham a casinha deles. Não era gente rica nem nada, era gente modesta. Meu pai já era mocinho, ficou tomando conta da mãe e das irmãs, porque o chefe da casa, o meu avô que se chamava José, veio; ele fazia parte da guerra. Veio no porão.

Vieram feito mendigos. Não eram ricos, mas não eram mendigos; fizeram [isso] para não serem presos.

Ele chegou aqui em São Paulo, desembarcou e deixou a família com o filho, porque o filho trabalhava já, meu pai. Ficaram apertados lá, as irmãs também trabalhando. Trabalhavam para se manter até que o velho pudesse mandar buscar. Ele chegou aqui e foi procurar um italiano que era diretor da [Estrada de Ferro] Sorocabana. É que eles foram influenciados a procurar para dar um vida, onde ficar. Ele gostou muito do meu avô.

Meu avô era alegre, pequenininho; bravo com a gente, mas era alegre. Então já de pronto arranjou um emprego - modesto, porque estava chegando um bando. Na Sorocabana.

 

P/1 - Na estrada de ferro, mesmo?

 

R - Estrada de ferro Sorocabana. O diretor simpatizou com ele, porque ele veio para procurar esse homem. Ele foi subindo. Quando estava melhorzinho... Ele guardava tudo o que ganhava para buscar a família, porque o italiano é muito amigo da família. É difícil ver um italiano que anda por aí.

Ele juntou o dinheirinho dele e mandou buscar a família. Tinha uma irmã...

 

P/2 - A senhora sabe em que ano foi isso?

 

R - Não sei. Data, para mim, é muito difícil guardar.

Uma das minhas tias estava até doente e ele vinha com as três - as duas e a mãe. Essa era a menor e era inverno. Ele contou isso para mim. Pôs casaco nela... Era gente modesta. E cobertor, assim: “Ela está resfriada.” Para poder entrar, senão não deixavam entrar. Ela estava doente, com gripe, nem sei como é que chamava. Estava doente. E foram para o porão, porque o governo mandou que fossem como os chefes tinham vindo, para não prenderem. E eles vieram.

Da viagem, ele nunca contou. Chegou aqui, [meu avô] encontrou o filho, encontrou a família e foi uma festa. Ele já estava amigo do dono de um empório grande, na... O nome, também, eu não lembro. Era perto da estrada de ferro. Já estava trabalhando também de noite, para poder manter todos.

 

P/1 - Mas isso tudo em São Paulo, mesmo?

 

R - Aqui em São Paulo. Como é que chama aquela...? Eduardo... Não tem uma avenida grande que a estrada passa perto? Nome, eu não guardo. O fato é que é principal.

 

P/1 - É.

 

R - Ele já estava trabalhando de noite nesse empório com um amigo porque era italiano também, [ele] soube que [o amigo] era italiano. Italiano procura italiano, mesmo. Trabalhava lá, já ganhava e tudo. O papai chegou e ele o levou à Sorocabana. E meu pai já tinha estudo, porque [quando] ficou lá [na Itália], já estava estudando. Quando chegou aqui, já estava bem adiantado, porque ele não queria ser do comércio.

 

P/1 - Não queria?

 

R - Desde pequeno. Ele estava estudando na Itália, estava preparado, mas não pôde mais nem ir na escola porque estava escondido. [Quando] Chegou aqui, o meu avô o levou para conhecer o diretor, que era italiano também. Foi aquela conversa e ele percebeu que o meu pai tinha preparo. Perguntou o que ele queria fazer. Ele disse: “Eu quero um apoio para continuar o meu estudo.” Então: “Você sabe mexer com...” Espera aí que eu lembro... “Telégrafo de estrada de ferro”. Ele disse: “Eu não sei, mas o senhor ensinando, eu aprendo.” O avô disse: “Ele é um talento.” Era aí que era a inteligência do meu irmão, então ele foi subindo. E foi trabalhar na seção dele mesmo, como chefe, em Cotia. O trem passava em Cotia e ele trabalhava no trem, mas a sede era em Cotia, na estação.

Na estação morava um outro italiano, mas esse tinha posses; era o pai da minha mãe, que se chamava Teani. Rinaldo Teani, com “i”. O meu avô, [pai] do meu pai, era José Zerbini e meu pai se chamava Eugênio Hugo Zerbini. Chegou aqui, ele enjoou do Hugo, tirou, ficou Eugênio Zerbini. (risos) E papai estudava de noite.

 

P/1 - Estudava o quê? Onde?

 

R - Estava se preparando para entrar na...

 

P/1 - A família da senhora era religiosa? O seu pai, a sua mãe eram de alguma religião?

 

R - Todo mundo.

 

P/1 - A senhora teve educação religiosa?

 

R - Eu tive. Eu tinha aula de professora, estava fazendo o curso de professora.

[No] Sábado e domingo tinha aula no colégio das freiras para ensinar a bordar, costurar, pintar, fazer as coisas que mulher faz. Eu e a minha irmã mais velha, nós íamos à aula. Todas as mocinhas...

Eu fui criada em Guaratinguetá, sou mais de lá que daqui. Adoro Guaratinguetá e não posso morar lá porque... Eu vim tirar minha cadeira aqui; vim para a casa de uma tia fazer concurso para tirar cadeira, porque papai não deixava pedir nada para ninguém: “Você é responsável, você faz.” Eu tinha me formado professora, tinha 17 anos. Aliás, fiz 17 depois, em maio. Vim para cá, para a casa de uma tia que queria sempre que eu viesse porque não tinha filhos. Eu também não tive filhos. Mas ela era... Ele [o tio] é que era o irmão da minha mãe. [Ela] Brigava com o marido o dia inteiro. Eu queria ir embora para a casa do meu pai, não podia porque eu tinha que fazer concurso. Faltavam três meses para o concurso.

Naquele tempo, tinha aqueles grupos de professores que ganhavam dinheiro preparando para fazer, mas não eram do governo. Eu fui falar com o professor [junto] com o meu tio: “Quanto tempo o senhor vai me dar aulas?” Ele disse: “Três meses é o que está faltando. Essas aqui todas, que são senhoras, vêm do interior porque querem morar em São Paulo.” Eu disse: “Eu quero fazer concurso aqui para voltar para a minha terra, Guaratinguetá.” “A senhora é formada lá?” - Isso faz tempo. - Eu disse: “Sou, sim, senhor.” “E o que a senhora fazia lá?” “Eu estudava feito louca.” “E o seu pai?” “Meu pai era meu professor; era professor da escola. Aí é que apertava mesmo, porque queria que mostrasse que tinha nota porque estudava, porque o pai era professor e puxava a gente. Não podia ler uma revistinha de criança. Ele tirava, jogava fora, dava o livro: ‘Isso aqui é que presta.’”

Ele ouviu tudo isso e disse: “Então pode sentar e começar, mas é provável que a senhora não entre.” “Também, eu aprendo como é isso, eu não sei como é que faz. E gosto de sentar na primeira fila, porque não gosto de barulho no ouvido quando a gente está ouvindo aula.” “Então senta aqui, na minha frente.” Sentei, fiquei assim, está bom.

Quando acabou essa aula, ele disse: “Pode estar sossegada porque vou levar a senhora para a casa.” Era perto, mas estava de noite. “Já avisei seu tio que vou lhe levar, porque seu tio disse que não queria que a senhora fosse sozinha para casa. O seu tio não quer. Eu já avisei...” Era amigo do meu tio. “Eu levo a senhora e ele já está sossegado. Vamos fazer um prova aqui.” Deu uma folha de papel almaço... Isso nem interessa para vocês.

 

P/1 - Interessa, sim.

 

R - Papel almaço, cada um com o seu, o meu também. (Me caiu?)... Como é que é? Espera aí. Agora, eu ando esquecida porque eu não estou bem sarada. Fiquei muito enfraquecida, foge... Espera aí, que eu já lembro. Está bom, daqui a pouco eu lembro. Então, começou a falar e eu pensei: “Puxa, uma coisa que eu gostei tanto.” Pensando comigo. Eu tirei distinção na prova que eu fiz lá, no exame. Escrevi na hora, as outras já estavam saindo. Acabou o papel, ele dava outro papel. Eu peguei três páginas, enchi as páginas. Quando eu vi, estava eu e ele na sala, só. As outras tinham ido embora.

Quando eu entrei, parecia que tinha entrado um cachorrinho; todas me olhando assim, umas velhas do interior. Eu também sou do interior porque eu fui criada lá. Mas [me olhavam com] um pouco caso, sabe? E eu sentadinha. Com 17 anos, eu era uma menina.

“Umas tantas”, ele disse: “O que tanto escreve?” “Se o senhor quer, eu paro.” “Não. Escreva o que sabe.” Ainda escrevi uma outra página. Ele disse: “Me dá isso tudo.” Guardou na pasta. “Agora vamos. Eu vou levar a senhora lá.” Olhou bem para mim e disse: “Eu vou levar você lá. Está de salto baixo, é uma menina. Vamos?”

Subimos no bonde. Ele me levou, me entregou para o meu tio, ainda entrou para tomar chope. E eu não tomo álcool. Minha família, do meu pai, nós não tomamos álcool e ninguém fuma. Nem os meninos fumavam. Papai não fumava, ninguém. Então conversou, tomou as coisas dele, eu tomei café com leite e ele foi embora.

No dia seguinte... Eles não eram do governo, os professores, mas o governo, nesse dia seguinte, ia fazer uma reunião de todos os professores para avaliar como estavam as turmas. Eu estava bem na frente, quieta, sentada. “Umas tantas”, o inspetor levantou e disse: “Eu estou surpreso com isto.” A gente fazia cabeçalho e botava a idade, de onde vinha, tudo direitinho. “Eu estou surpreso... Como que eu vou falar? Eu tenho uma prova aqui de uma criança porque, perto das outras, é uma criança. Eu vou ler essa prova porque nós todos estamos surpresos.” Eu estava assim, não veio mesmo na cabeça.

O professor disse: “Dona Eunice, eu vou contar para a senhora uma novidade, bem baixinho. É sua a prova.” (risos) Eu disse: “Eu vou embora.” (risos) “Fica quieta aí, não pode sair.” Eu sou acanhada mesmo, até agora eu sou. Eu estou falando porque vocês disseram que precisa, então eu vou falar.

Eles leram a minha prova, porque eu comecei: “Quando a criança nasce...” Eu era uma menina. Começa a... Defesa de... Eu estou esquecida do nome, do que é.

Instinto de Defesa! Quando a criança nasce, o médico está segurando a criança, a mãozinha procura a gola. Você que teve filho... Toda criança procura uma coisa, é a gola do avental do médico. E fica ali. Depois, custa tirar os dedinhos. Ela está fazendo o quê? Então eu disse embaixo: “Defesa da natureza.” Para viver. E é verdade, eu sabia porque tinha lido nos livros. Sei lá se nasce, de onde nasce. Eu era uma menina.

Eu disse: “Não é que é a minha prova, mesmo?” Bom, foi até o fim. Diz que, até para morrer, segura a vela na mão com força porque está vendo fugir a vida. Quando ele leu isso, ele disse: “Não parece de uma cabeça tão nova. Faça o favor de se levantar.” E quem disse que eu levantei? (risos) “Essa menina tem que se levantar.” Aí, o professor: “Olha, se você não se levantar...” Já estava me chamando de você, porque ele era muito amigo do meu tio. “Vamos levantar.” Eu, devagar, fiquei [em pé]. (risos) Eu queria ficar de quatro, no chão. Eu tive que ficar em pé. As outras ficaram com raiva de mim.

 

P/2 - Mas a senhora contou...

 

R - Ele perguntou para mim, o inspetor: “De que escola normal a senhora vem?” O diretor da banca, que estava lendo. Eu disse: “De Guaratinguetá.” “A senhora nasceu lá?” “Não, senhor. Eu nasci aqui. Com 2 meses, o meu pai foi nomeado diretor de um grupo em Mogi das Cruzes. Nasceu outra menina e teve coqueluche. Naquele tempo, não tinha recursos; ela morreu sufocada.”

 

P/1 - Irmã da senhora?

 

R - É, irmã minha. Antes de mim. Eu fui logo... Ela nasceu e, não tinha 1 ano, eu nasci, então puseram o nome dela em mim. Ela era também Eunice. Morreu e ficou lá em Mogi das Cruzes. Nós fomos para Guaratinguetá porque tinha um professor aqui na praça, João Lourenço, que era um talento. E viu que o meu pai lambia os livros. Morreu assim!

Ele estava internado no Incor uma vez. O meu apelido era Nina: “Nina, traz um livro para eu ler. O que é que eu estou fazendo aqui, nessa cama?” Depois de dois dias, estava morto. Mas é dele que nós começamos a ver que tinha que ser assim.

 

P/1 - Ele era professor de que?

 

R - História Universal do Brasil e Geografia Universal do Brasil. Ele era convidado para fazer conferências e tudo. Ele era profundo.

 

P/2 - E ele estudou isso enquanto trabalhava na...

 

R - Na estrada de ferro. Então, a minha mãe... O pai dela tinha uma fazenda bem defronte à estação onde paravam os trens, para depois continuar. E tinha três irmãos. Meu pai era preparado porque estudava mesmo, de verdade. Viu que entrou logo no trem e já foi ser [chefe]...

Ele ia no trem e os três irmãos, que estavam estudando, ficavam perto dele para ver o jeito dele fazer. Um foi professor, o outro foi advogado. Os outros dois foram advogados, os irmãos da minha mãe.

[O trem] Parava em Cotia e desciam, iam para a fazendinha. Era uma pedreira. Meu avô, por parte da minha mãe, vendia paralelepípedos para as ruas de São Paulo. Tinha uma pedreira imensa, então estava bem de vida. A mamãe diz que foi uma moça muito bonita; eu já conheci senhora, porque nasci logo. Quando eu fiquei mocinha, ela era bonita ainda, mas não era… Papai é que dizia que ela era uma beleza. Decerto gostava tanto dela... (risos)

Eu estava contando essa história para o meu marido, ele disse: “Eu também achei você...” Eu disse: “Porque você gosta de mim, senão não achava. Eu não tenho nada de mais.” Ele dava risada.

Eu tenho uma saudade dele. Hoje, chegou uma carta para ele com o endereço dele, depois de tantos anos dele enterrado. Para votar no Maluf, para derrubar essa mulher que não sei que... Vocês vão votar nela?

 

P/2 - Não sei ainda.

 

R - Então eu não falo. (risos)

Ela disse uma vez, não sei onde eu vi... Escrito numa revista que, se fosse governante, cobria São Paulo de roseiras. Tinha [escrito] embaixo que um dos médicos de São Paulo escreveu para ela, perguntando: “A senhora quer dar...”

Isso não pode comentar, que senão vai saber que eu estou falando mal dela. De repente, ela sobe e me põe na rua. (risos)

Um dos médicos de São Paulo - não foi meu irmão, porque nunca se meteu em nada, ele era diferente - queria a receita da comida que se faz com as rosas, para poder alimentar os que têm fome em São Paulo. O povo votou nela e não votou no Alckmin. Sabe quem é o Alckmin?

 

P/1 - O pai era professor em Guaratinguetá, não é?

 

R - Do Alckmin?

 

P/1 - É.

 

R - Foi meu professor.

 

P/2 - Olha só!

 

R - Foi. Mamãe era madrinha da avó dele.

 

P/2 - Conterrâneo, então?

 

R - Perfeitos de moral.

 

P/1 - Que escola era?

 

R - Escola Normal.

 

P/1 - Escola Normal de Guaratinguetá?

 

R - É. Por isso que eu sou professora, lá só tinha essa [escola]. Eu queria ser médica, mas meu pai já tinha dois estudando no Rio. Disse: “Você tem que ser professora, porque não tem médica mulher. O que é que você vai fazer? Mulher tem que ser professora.” Imagina! Hoje, está “assim” de médica lá. Por isso que eu estou metida em hospital, vai ver que é.

Outro dia... Uma vez, meu irmão disse: “Sabe, Eunice, esse negócio de você gostar tanto de trabalhar em hospital...” Eu não ganho, você sabe, né? Voluntária não ganha um tostão, isso é promessa que eu fiz.

Você precisa ver o que a gente vê. Eu estou até nervosa pelo que vi ontem. Uma criancinha recém-nascida, cabeça ruim. Ela era vesguinha, desse tamanhinho... Eu gosto muito de criança, não tive filhos. Quando eu chego com a bengala, os meninos que estão “melhorzinho”: “Chegou o cavalo, mamãe!” O cavalo é a minha bengala. Eles montam na minha bengala e eu os puxo no corredor.

Essa menininha, hoje, queria vir no meu braço. Eu não posso, esse braço não sobe. Eu bati o ombro, o osso está... Mas eu venço as coisas porque não quero sair de lá. E, também, eu tenho esse [braço] que vai. Esse vai até aqui. Eu o puxo para tirar a manga da camisola. (risos) Para pôr camisola, eu sento no chão.

 

P/2 - A senhora contou que o seu pai conheceu sua mãe, que era...

 

R - Bom, então ele conhece a minha mãe. A minha mãe disse que era muito bonita. Ela tinha mais duas irmãs... Espera aí... É, duas irmãs. Moravam na fazenda. Quando parava o trem, que levava os moços que estudavam na escola junto com o meu irmão, a família estava esperando. Escurecia um pouquinho, antigamente, as meninas tinham que estar em casa. Hoje, os moços estão dormindo e as mulher estão na rua. (risos) Eu não, graças a Deus.

Então conheceram o meu pai. Ele era muito educado. Não era uma beleza, não era muito alto, mas era sério. Ele era bonitão, sim. Os meninos, irmãos dela, o apresentaram. Depois de um mês, a minha mãe fazia aniversário. Ia ter uma festinha na fazenda e os irmãos dela convidaram o meu pai. Meu pai disse: “Se eu conseguir uma vaga, trocar uma noite com um colega, eu vou porque eu não tenho distração.” Chegando lá, se apaixonou pela mamãe na mesma hora. Viu a mamãe e começou a pensar: “Essa estava boa para casar comigo. Que moça delicada!”

R - Então se apaixonaram. Depois de pouco tempo, ele começou a frequentar. Era [no] domingo que eles iam. Eles eram professores para poder estudar na escola da praça, onde meu pai estudava. Tirou diploma em primeiro lugar, o danado do meu pai. Ele era inteligente e esforçado porque já tinha os filhos, já tinha se casado.

 

P/1 - Ele estudou para ser professor de História e Geografia?

 

P/2 - Na Escola Caetano de Campos, é isso?

 

R - Ele deixou livro. Ele tem uns livros aí.

 

P/2 - É na Caetano de Campos?

 

R - Como?

 

P/2 - Escola Caetano de Campos?

 

R - É. Ele já era casado e meu avô, que era o rico que tinha lá... Não tem aquela Rua São José... Dom José de Barros? Não tem uma rua ali?

 

P/2 - Tem.

 

R - E tem a outra, que corta defronte à... Não, a Sete de Abril vai assim. Viu como eu lembrei? E a outra corta... Bem defronte à Telefônica, sai a outra, não é? Naquela esquina tinha, não sei ainda se tem, um sobradinho que era do meu avô. Ele pediu para desocupar para papai morar com a mamãe. Ela já tinha filho.

 

P/2 - Daí foram para Mogi Mirim em primeiro lugar? Em segundo foi Guaratinguetá?

 

R - O professor... Como é que chamava mesmo? Eu falei agora mesmo.

 

P/1 - A senhora me falou. Agora, o nome eu não lembro.

 

R - Mas não tem interesse. Um dos professores, que foi a diretor da escola depois que o meu pai se formou, o que ele sabia que tinha ido lecionar em Ribeirão Preto... Meu pai foi um aluno distinto porque ele morria de estudar. Já estava casado, tinha filhos. Ele chamou o meu pai e disse: “Você quer ser diretor de um grupo em Mogi das Cruzes?” Ele disse: “Está bom, porque aumenta o meu ordenado.” Ele disse: “Por isso é que eu estou chamando você, porque você foi um aluno bom.” Então foi para lá. Eu tinha 2 meses quando fui para lá. A outra menina nasceu depois que ele estava lá, a que morreu.

 

P/2 - E depois, outros irmãos?

 

R - É.

 

P/1 - A senhora é a mais velha?

 

P/2 - Tinha aquela mais velha...

 

R - Não. Eu era mais nova do que a menina que morreu, porque eu herdei o nome dela. Aí, batizaram.

 

P/2 - E depois, a senhora tem mais uma irmã e dois irmãos?

 

R - Depois disso, nós ficamos cinco. Fomos para Guaratinguetá porque em Mogi das Cruzes ele lecionou e o João Lourenço, que era o diretor da escola da praça [Caetano de Campos], o mandou fazer concurso em Guaratinguetá, na Escola Normal. Ele foi e defendeu a cadeira dele, que adorava...

 

P/2 - Foi nessa escola que a senhora estudou?

 

R - Foi lá que eu estudei, minha irmã estudou, o mais velho tirou o diploma para, depois, fazer Medicina. O mais velho de todos. Não chegou a se formar, se preparou lá.

 

P/1 - Como era o nome dele?

 

R - Rubens Zerbini era o mais velho.

 

P/1 - E a casa da senhora, dona Eunice, como era? Quem era a principal autoridade dentro de casa, o seu pai ou a sua mãe?

 

R - Os dois. (risos) Se um ficava quieto, o outro vinha e falava: “Olha aí se está certo.”

 

P/2 - Não tinha moleza, não.

 

R - Não. Você sabe, eu não condeno isso. Italiano cuida (disso?) tudo. Você repara... Você é filho de italiano?

 

P/1 - Também, meio a meio.

 

R - Bem se vê, né? Você, não.

 

P/2 - Eu não. Eu sou bem brasileira, a minha família.

 

R - E os brasileiros não foram influenciados pelo...

 

P/2 - Foram.

 

R - A história a gente conhece porque papai explicava tudo que ensinava na escola.

 

P/1 - Como era a senhora como aluna, dona Eunice?

 

R - Nunca fui segunda aluna.

 

P/1 - Nunca?

 

R - Não. Eu tinha obrigação em casa. (risos) Assinei um diploma. (risos) Eu não tinha 17 anos quando eu me formei professora, eu era uma menina no meio da...

 

P/2 - E a senhora conseguiu a vaga aqui, em São Paulo. Veio trabalhar em São Paulo depois desse concurso?

 

R - Não. Agora é a conversa. Se não der hoje, vocês podem dormir aí que nós acabamos. (risos) Você dorme lá em cima, na minha cama de... E ele avisa a senhora dele e dorme aí. É bom esse divã.

Então eu me formei. O mais velho, o Rubens... Isso é uma história muito triste. O Rubens se formou, foi fazer... Primeiro, estudou na escola para fazer uma base. Não ia ser professor, mas fez os anos e foi fazer... Ele queria ser médico. Papai disse: “Agora está na hora.” E o outro, que era abaixo de mim, também estava preparado porque queria ser oficial do exército, não soldado, da Força Armada Brasileira. Este chegou a general, General [Euryale] Zerbini. Deixou dois filhos: a menina Eugênia, que tirou o nome do meu pai Eugênio, e o menino, o nome do pai dele, Euryale. O Euryale, hoje, dá aulas no quarto ano de Engenharia da USP, é formado em engenheiro. Nós todos temos diploma porque era obrigado, senão Nosso Senhor não abria a porta para entrar no céu. (risos)

 

P/2 - Tinha que mostrar o diploma?

 

R - Tinha que mostrar o diploma. (risos)

Ele tirou o diploma dele de engenheiro, esse que era filho do general, e começou a trabalhar. E esse também não foi feliz. O outro, o Rubens, é uma... Horrível. Eu já conto. Esse aqui, que era general, o filho dele fez Engenharia em primeiro lugar, na USP. Hoje, ele dá aula no quarto ano da USP, mas não todo o programa, porque ele tem a casa dele e tem o escritório dele. Tem muita encomenda, porque ele é um talento. Bonzinho, só vendo! Ele é que me leva no médico, fala com os meus médicos. Eu sou cliente do doutor Fúlvio há 40 anos e gosto muito dele.

Ele era muito amigo do Eury e sou muito amiga da senhora dele, é como minha irmã. Estão muito tristes porque ela fez uma operação muito grande de câncer, teve que tirar o ovário. Ela não está bem. Eles têm sete filhos. O doutor Fúlvio Pileggi, você conhece?

 

P/1 - A gente conhece.

 

R - Ele é aposentado, já. É muito amigo do Euryale, meu sobrinho. O Euryale, de vez em quando, vai lá, me leva lá, ficam conversando. Esse está bem, dá aula no quarto ano. Ele casou-se com uma moça criada em Guaratinguetá, que nós nem conhecíamos porque já tínhamos saído de lá.

P/2 - Dona Eunice, vamos voltar um pouquinho para trás? Eu quero saber como é que foi que a senhora veio de Guaratinguetá para São Paulo.

 

R - Bom, isso é uma história comprida. Eu tinha 15 anos. Estava fazendo [aniversário] nesse dia, sentada com a mamãe no salãozinho de festa que tem lá no clube.

Nós não saíamos de noite para festa, não. Era de dia, dançar de dia; aquelas coisas que se fazia antigamente. A minha irmã tinha um namorado que ia daqui para lá para dançar com ela. Mamãe não gostava de ir sozinha, ficar sozinha, então me levava. Eu usava meiazinha curta, estava fazendo 15 anos; não era compridona, hoje é que eu tenho mais altura. Eu era baixinha… Estava sentada perto da mamãe. Tinha um moço em Guaratinguetá, se chamava Carlos Bittencourt. Você conheceu?

 

P/1 - Não.

 

R - Você conheceu o presidente daqui? Você conheceu?

 

P/2 - Teve um doutor Bittencourt, não é? É esse?

 

R - Como?

 

P/2 - Um médico, doutor Bittencourt?

 

R - Não. O Bittencourt não é o Bittencourt daqui. O Rodrigues Alves, que foi presidente nosso, era padrinho dele. E ele era sobrinho do Rodrigues Alves. A mãe dele, até hoje, está viva. Tem um ódio de mim. (risos) Sem razão. Eu nem o tinha visto direito porque eu tinha 15 anos. Mamãe não deixava nem eu sair na janela, de medo que eu fugisse pela janela. É mesmo. Antigamente não era assim? Vocês são muito moços...

Então ele veio. Moço lindo, lindo mesmo! Simpático, sossegado. Veio, disse: “Dona Ernestina? A senhora deixa eu dançar com a Eunice?” Mamãe disse: “Não, é uma menina. Olha aí!” “Me disseram que ela está fazendo 15 anos hoje.” Mamãe disse: “Está mesmo, mas 15 anos não quer dizer nada. Ela não sabe dançar.” Ele disse: “Eu também não sei. Então nós vamos andando aí, para distrair um pouco.” “Então vai, Eunice.” E eu fui, de meia curta. Ele deu a volta para ficar longe da mamãe e disse para mim: “Quer me namorar? Quer ser minha namorada?” Eu disse: “Quero.” Eu era boba. “As minhas colegas todas querem namorar o senhor.” Ele disse: “Não, senhor, não. Se você quiser ser minha namorada, você me chama de você.” “Eu não sei chamar ninguém de você.” “Mas vai aprender, se você quiser ser minha namorada.” “Está bom, então eu quero.” (risos)

Ele era lindo, tudo que era meninada queria ser namorada dele. Eu nem sabia o que era namoro. Eu disse: “Eu não sei namorar.” “Olha um para o outro, está namorando.” Olha como eu era boba! “Você diz para a mamãe comprar meia comprida para você pôr, porque meia curta, menina não põe.” (risos) “Eu vou [fazer] uma constituição, como os países têm, porque você é muito menina mesmo, para você saber o que pode fazer, o que não pode fazer. E eu também, o que eu posso fazer, o que não pode fazer, para não atingir você, de você ficar triste de eu fazer uma coisa errada.” Aí, eu ia ficar mesmo. Tão boba! “Depois, eu mando para você assinar. Eu assino e mando para você assinar.” Via que era tudo mocinha, né? “A sua irmã estava contando para o namorado dela que você está fazendo 15 anos hoje, então você tem que andar de meia comprida, você já é uma mocinha.” “Você acha?” Ele disse: “Acho, sim. Continua a estudar porque você é muito boa aluna. Eu não quero atrapalhar o estudo de ninguém.”

Ele passava na minha calçada, ia lá. Até que um professor contou para o meu pai. E meu pai ficou contente porque ele era um moço direito e também tinha posição. O padrinho dele era o presidente dos...

Minha casa era térrea e tinha janelinha para a rua. Papai disse: “Você pode ficar nessa janela porque ele passa sempre assobiando aqui, que eu sei. E você espia pela veneziana.” (risos)

 

P/2 - A veneziana fechada?

 

R - Fechada. Eu disse: “Pode abrir um pouquinho?” “Pode porque eu e a sua mãe vamos ficar sentados no sofá aqui, na sala.” A janela era na sala. Então, ele passava, assobiava e nós conversávamos. (risos) Daí um pouquinho, o papai: “Vamos dormir, Ernestina?” Era para ele ir embora. Ele diz: “Então, até amanhã.” Era tão direito, tão correto, tão respeitador! Um rapaz formidável. Todo mundo queria namorá-lo. Ele, não. Na saída da escola, ele saía nesse portão, ficava me espiando e eu saía aqui.

 

P/1 - E ele entregou a constituição para você?

 

R - Entregou e eu assinei.

 

P/2 - Assinou?

 

R - Assinei. Eu disse que ia assinar.

 

P/2 - Que engraçado!

 

R - Falei com o papai, papai disse: “Você prometeu?” Eu disse: “Eu prometi.” “Não devia ter prometido, mas se prometeu, assina.” E ele assinou embaixo, aí mandou eu mostrar para o papai. Papai achou uma coisa, parecia como o papai estava achando direito.

Eu fui crescendo, mas não podia andar sozinha. Naquele tempo, ninguém saía. Eu disse para ele, quando ele perguntou se eu queria ser namorada dele: “Por que você me escolheu? Eu não vou em festa, não saio de casa.” “Por isso mesmo. Porque sua mãe não deixa você andar sozinha na rua e você não anda conversando com moço nenhum. As outras andam por aí e eu não gosto.”

 

P/2 - E quanto tempo demorou esse namoro?

 

R - Seis anos.

 

P/2 - Nossa!

 

R - Eu era menina, tinha 15 anos.

 

P/2 - É, 15 anos.

 

R - Quando foi depois de seis anos... Papai conversava com ele, falava com ele, a mãe dele gostava de mim. Ele combinou comigo: “Agora eu vou arranjar um emprego porque já estou formado e você não está. Eu vou arranjar uma cadeira com o meu padrinho e nós vamos casar.” Eu contei para o papai. Quando foi depois de quatro ou cinco dias, o papai chegou para mim: “Ponto final neste namoro.” Eu disse: “O quê?” “Ponto final neste namoro.” “Eu quero saber por que, o namorado é meu.” “Não tenho que lhe dar satisfação.”

 

P/2 - Meu Deus!

 

R - Para mim… Deus que me perdoe. O padre lá do Incor sempre pergunta para mim: “Já desculpou o pai?” “Não, senhor.” (risos) Eu não minto. Não minto, mesmo. Mentira, comigo, é escândalo.

 

P/2 - Até hoje, a senhora não entendeu essa história?

 

R - Não. E nem ele, porque não deu licença de eu falar com ele.

 

P/2 - Por que será?

 

R - Para encurtar. Depois de dois anos, ele estava falando no telefone com a mãe, numa praça da cidade, teve um infarto e morreu. Se eu tivesse me casado, o Eury [Euryclides] o operava e ele estava vivo, né?

 

P/2 - (risos) É.

 

R - Eu nunca mais desculpei. O padre Anísio... Vocês conhecem o padre Anísio lá do Incor? Você precisa ver, é um santo! Ele é moço, moço novo. Eu confesso, falo.

Ele disse: “Tira isso da cabeça, abra seu coração.”

Meu pai me pegou: “Sua mala já está pronta. Você vai para São Paulo, vai fazer concurso. Se você tomar bomba, você fica lá. Mesmo que você passe, você fica lá. Aqui você não volta mais.” Me tirou de casa. Eu disse: “Quando a gente é solteira, a casa da gente é a do pai e da mãe”. “Quando não tem problema.”

 

P/2 - Impressionante!

 

R - Eu não desculpei até hoje. Eu o tratei muito bem, porque mamãe morreu antes. Mamãe também aderiu. Eu dizia: “Mãe, conta o que é.” “Não.” A mãe dele me odeia. E eu sofri.

 

P/2 - Aí a senhora veio para São Paulo?

 

R - Eu vim para São Paulo. Tirei cadeira aqui porque tirei a primeira nota. Eu não peguei o segundo...

 

P/2 - E como a senhora conheceu o seu marido?

 

R - Como?

 

P/2 - A senhora se casou depois, mais tarde, aqui em São Paulo?

 

R - Você vai ver.

Meu tio... Tinha um português, que era o pai do meu marido, que estudou advocacia com o tio Ornélio. Eram colegas de turma. Uma vez ou outra vinha jantar na casa do meu tio. Fazia seis anos que eu tinha vindo, não me deixavam voltar. Ele já tinha morrido, coitado! Eu gostava dele, sofri.

Da outra vez, o meu tio e a minha tia iam jantar na casa do português. Eu nunca ia porque estava estudando piano. Eu toquei piano aqui, em São Paulo, num concerto. Tocava que era uma beleza porque estava tão triste!

Então, nesse dia, a cozinheira ficou doente. A tia Maria foi fazer o jantar e bateu a campainha. O português, quem levava era o filho dele, que era o meu marido. Ele batia a campainha, a empregada abria a porta, o velho entrava e ele, já dali, saía no automóvel dele e ia embora. Nesse dia, a minha tia disse: “Vai abrir a porta porque a empregada está doente.” E eu fui. Quando eu abri o portão, ele olhou para mim e disse: “Pai, é essa moça que eu procuro há três meses! Onde é que mora? Imagina, pai! Eu vou casar com essa moça.”

 

P/2 - Nossa, dona Eunice!

 

R - Teve um acesso! Olha que coisa, não?

 

P/1 - Despertava muitas paixões, dona Eunice!

 

R - Era paixão, mesmo. Até morrer.

 

P/2 - Eu estou impressionada!

 

R - Você precisa ver. O pai disse: “Não diz assim.” “Eu vou falar com ela. Pergunta para a sua tia se eu posso entrar também, para jantar.” Tia Maria mandou botar uma cadeira perto da dele, sabe por que? Eles queriam ir para a Europa fazer uma volta e eu estava atrapalhando, estava morando ali. Então, quando serviram frango não sei de que jeito... Eu não como frango até hoje. Puseram para mim no prato. Ele: “Dá licença que eu corto o seu frango.”

 

P/2 - Que lindo!

 

R - Eu digo: “Pode cortar porque eu não gosto.” Ele disse: “Eu corto e como, se você quiser.” (risos) Ele era um doce! Parece que Nosso Senhor pôs para mim, né? O Carlito já tinha morrido.

 

P/2 - Em quanto tempo a senhora se casou?

 

R - De pronto, não.

 

P/2 - Demorou?

 

R - Eu disse: “Eu não posso dizer nada.” “Você não quer casar comigo?” “Eu não posso dizer nada.”

Eu tinha umas duas cartas do Carlito, que escreveu para mim escondido, para a casa de uma amiga minha daqui, que era filha de um médico de Guaratinguetá e vinha sempre. Eu tinha as cartas e peguei as cartas. Eu contei tudo, a história toda. Ele disse: “Mas que coisa feia seu pai fez!” Eu disse: “Põe feio nisso.” Ele disse: “Estou gostando da franqueza. As cartas eu não quero ler. Eu não quero as cartas, quero você.”

Sabe como é, eu estava tão deprimida, não gostava de nada. Só no piano. Eu punha bem baixinho, tocava até 2 horas da manhã. Para que, não sei. Tocava. A minha professora disse: “A senhora apronta um vestido mais fino, porque vai botar no programa o Le Sylvain.” Era difícil! Eu estudei, estudei e fui aplaudida, só vendo. Para mim, entrava aqui, saía aqui.

 

P/2 - Dona Eunice, a essas altura o seu irmão já era médico? Já morava em São Paulo, não?

 

R - Não, estava começando o fim da carreira dele. Porque o mais velho, o Rubens, se formou e estava no Rio de Janeiro; formaram-se os dois lá. Ele fez uma tese, ele descobriu a operação que faziam - agora já é diferente - para tuberculose. Isolava a ponta do pulmão, ou o pedaço onde estivesse a tuberculose, e tocava gás não sei do quê. Ele que descobriu e ganhou prêmio de...

 

P/1 - O seu irmão, o Rubens?

 

R - O Rubens, o mais velho. Ganhou prêmio de viagem à Europa para fazer curso em Paris, mas era uma miséria o que eles davam. O papai não podia mais, porque já tinha outro lá. Já estava lá o Euryale... O Rubens já estava lá estudando, então não pôde ir com o prêmio.

Era lindo. Eu nunca vi um moço bonito como o Rubens, ele chamava a atenção. Saía com a gente, todo mundo olhava. Muito bonito. Ele chegou aqui... Em Cotia, era Centro de Tuberculose. Ele disse para o papai: “Eu vou para lá, arranjo dinheiro porque vou clinicar e, com esse dinheirinho, eu vou para Paris.” Papai estava ajudando no que podia. Mamãe também, andava costurando, fazendo coisa e eu bordava, fazia tricô. Todo mundo ajudava.

Ele foi lá e não tinha hotel, tinha uma pensão. Nessa pensão, tinha uma preta velha que estava muito doente. Ninguém sabia o que era, ela estava mal. O médico de lá, também... Tinha um médico, ficou logo amigo do Rubens e começou a dar umas injeções. Daí a pouco, ele chamou o Rubens: “Você tenha cuidado, que ela está com encefalite letárgica.”

Não tem cura até hoje. Encefalite letárgica é a pior forma de encefalite porque não mata, deixa louco. Então: “Mas você tem que acudir, nós temos que acudir.” O outro também, ia alternando. O outro não teve nada. Dez dias de incubação. Ela incubava na pessoa, aí é que se manifestava. No décimo dia, [se] não fechou o olho, tinha apanhado.

 

P/2 - Que judiação!

 

R - Acabou com a alegria da gente. O outro médico disse: “Não pode, você tem que ir para São Paulo. Eu vou falar em Guaratinguetá, para o seu pai vir te buscar para levar. E com cuidado, porque pega.”

Aqui tinha um médico disso aí. Não sei como é que chamava. Também, não interessa. Chegou aqui e eu fui com o meu pai levá-lo no médico. Chegando lá, o médico chamou nós dois, enquanto o estava aprontando e preveniu: “Vocês tenham muito cuidado, porque isso aqui é encefalite letárgica.” Papai caiu sentado na cadeira quando ele falou. Fiquei com pena.

E esse olho nunca fechou, começou a puxar a boca. Ele estava na casa da minha tia e eu passava a noite inteira pingando glicerina no olho dele, que o médico mandou para não ressecar, senão cegava, fechava o olho. E assim foi. Depois de certo tempo, fica parado até morrer.

O doutor Alípio Corrêa Neto, que já era professor aqui... O meu irmão já tinha vindo... Isso foram 20 anos de cruz nas costas. Então [o doutor] chamou a gente, disse que tinha que ter muito cuidado, ensinou como fazer tudo. Mamãe nunca admitiu que internassem. Ela e papai levaram 20 anos com este filho doente, em casa. E ele se encantou com o meu marido. Chamava o meu marido de Terrinha, ninguém sabia por quê.

Meu marido era carinhoso com ele, precisa ver. Nós pingávamos “coisa” no nariz. O doutor Alípio veio da Alemanha e explicou como tinha que ser. Ele chamava: “O Terrinha.” O Armando, coitado, saía cansado. Ele era diretor da Açúcar e Café União, tinha cinco diretores. Agora não sei, faz tempo que morreu o meu marido. Eram cinco diretores, o meu marido era um. Ele vinha... Foi tão carinhoso com ele, que só vendo! Era uma flor o meu marido. Então, foi e ele morreu.

 

R - Aí, ele morreu.

 

P/1 - Dona Eunice, por que essa coisa de médico?

 

R - Como?

 

P/1 - Por que o Rubens e depois o Eury foram ser médicos? Por que essa coisa de ser médico na família?

 

R - Porque papai gostava de curso de Medicina e os meninos também. Porque ele falava, falava... Em Guaratinguetá tinha um médico, doutor... Faz tanto tempo que eu não lembro o nome. Era um médico do Rio que foi para lá porque a filha estava tuberculosa, porque era clima quente. O papai é que adorava Medicina e eles fizeram.

O filho dele... Tem um filho que... Eu não estou me gabando, mas ele me adora. É o Felipe. O Felipe é o mais novinho do... O filho do Eury se chama... Espera aí. Até isso, eu... Ricardo.

O filho do Eury, médico... Os dois foram fazer Engenharia. E esse quer ser o avô dele. Desde pequeno que ele diz: “Olha, “Tinice” [Tia Eunice], me ensina bem essas letras aí, porque eu vou ser o “vô Ri”. “Vô Ri” é ele.

 

P/2 - Professor.

 

R - Então, ele fez exame simulado agora, anteontem. Eu disse: “Você faz prova boa porque senão não me vê mais.” “Eu vou mesmo fazer, imagine! Eu preciso ver você, você que lê os livros de Medicina para poder dizer se eu sei.” (risos) Tamanho cavalão! Tem 18 anos, grande que só vendo. Vem com o livro de Medicina: “Tinice”, você lê aí, vê se entende e me explica.”

 

P/2 - Quando que a senhora começou a trabalhar de voluntária no Hospital das Clínicas?

 

R - Com o Eury.

 

P/2 - E como foi isso?

 

R - Eu sei lá. O Eury, desde estudante, o meu marido e eu ajudávamos. Eu copiava os pontos para ele e o meu marido passava tudo na máquina. Estudávamos na casa da mamãe.

 

P/2 - Então a senhora aprendeu um pouco de Medicina?

 

R - Com o doutor Adib [Jatene] ... Esses médicos todos foram para a casa da minha mãe e nós íamos também. Tinha uma alemã que ensinava a desenhar órgãos. Como é que se chama mesmo? Espera aí…. Órgãos abertos, para ver a posição do coração, do pulmão. Isso tem um nome. Ela era alemã.

 

P/2 - E quem é que desenhava?

 

R - Eu.

 

P/2 - A senhora?

 

R - Eu desenhava.

 

P/2 - A senhora tem algum desses desenhos?

 

R - Não, já foi. E era de princípio.

Eu não entendia o alemão, eu não falo a língua. Tenho uma dificuldade louca. Eu fiz curso de francês; inglês, não, porque não deu a língua. Papai não falava língua, não conseguia. Eu também. Eu aprendi francês; hoje eu não sei falar.

 

P/1 - Quando o Eury passou em Medicina e veio para São Paulo, a senhora já morava aqui?

 

R - Já.

 

P/1 - Ele foi morar com a senhora?

 

R - Não, porque a mamãe e o papai, depois, vieram atrás.

 

P/1 - Isso a senhora não tinha contado.

 

R - Eu já estava casada, morando com a minha sogra que tinha ciúme do meu marido. (risos) Uma judiação.

 

P/1 - E a senhora trabalhou como professora, também?

 

R - Como?

 

P/1 - Como professora, a senhora deu aula também?

 

R - Dei, eu sou aposentada. Eu trabalhei por 32 anos, eu não faltava mesmo. Até hoje. Eu tenho dez faltas em 40 anos.

 

P/2 - E a senhora estava no hospital quando teve o primeiro transplante? A senhora já trabalhava lá?

 

R - Já. De noite, nós íamos para a casa da mamãe, eu e Armando. A máquina voava na mão do meu marido porque ele, desde menino, queria ser do comércio, então ele passava tudo o que os outros precisavam, em vez deles escreverem. E vinha contente, nunca vi se queixar. O Rubens, meu irmão, às vezes, o pegava na saída, o pegava e chamava. Papai chamava: “Você quer passar aqui, Armando?” “Oras, já estou aí.” Ia, conversava com ele e levava uva para ele.

Uma vez, estava caindo o cacho de uva do colo dele porque ele não tinha muita movimentação, o Rubens. Um coitado. Lindo! Estava caindo e eu fui pegar, ele deu no meu rosto. O Armando se levantou; eu disse: “O que é isso, Armando?” Ele disse: “Ai, é mesmo!” Revoltou-se! “Olha quanto vale o amor!”, eu disse para ele para amenizar. (risos)

Eu fui professora aqui, em São Paulo. Eu me casei e estava trabalhando na Lapa, numa escola isolada da Lapa; Lapa de Baixo que chama. [Quando] Fiquei noiva, o Armando queria que eu largasse. Eu disse: “Não, eu não largo. Não largo porque nós estamos começando a vida. Eu vou largar por quê? Não estou doente.” Como não larguei de trabalhar até hoje. A gente não pode parar a cabeça. Depois eu conto o que o geriatra falou para mim, que é uma lição.

Então, ele tanto fez que comprou... Imagina! A minha sogra morava na Rua Turiaçu e eu morava com ela lá.

Eles são de Campinas. Tinha uma amiga de Campinas que trabalhava naquele grupo escolar atrás da Igreja das Perdizes. Vocês conhecem?

 

P/1 - Eu acho que eu sei qual é.

 

R - Sabe a Igreja das Perdizes?

 

P/1 - Sei.

 

R - Não tem o Pedro II ali? O grupo escolar? O Armando, coitado, juntou 3 mil cruzeiro para dar para a velha, amiga da mãe dele, para ela pedir transferência para a Lapa. Para eu vir e ficar nas Perdizes, para trabalhar com mais conforto. Era um anjo, o Armando.

 

P/1 - E do Eury? A senhora quer contar um pouquinho sobre o Eury? Como ele era?

 

R - O Eury?

 

P/1 - Isso.

 

R - O Eury era um santo, ele era diferente. Fica feio a gente falar, não? Tem muita gente que diz que ele não era bem humano, não. Ele não falava, não reclamava.  Nunca vi reclamar de uma pessoa, nunca. Nem do amigo, só vendo! Porque eu era mais velha que ele 8 anos, então parecia a sombra atrás dele, eu e o meu marido. Meu marido serviu muito o Eury, tudo o que precisava de máquina ele tinha...

Nos congressos, tem tempo certo para poder falar. Sabia isso? Não pode falar... É marcado o pedaço, não é como eu estou fazendo aqui. É tudo marcado. O Armando inventou um aparelhinho que marca certinho o tempo de mudar o assunto, aí na máquina.

 

P/1 - Um aparelhinho?

 

R - Um aparelhinho. Ele era inteligente. Imagina, ele era diretor da... Você precisa ver, uma beleza de moço! Bonito. Nós fizemos bodas de ouro, mas, para mim, foi pouco. Queria mais. Tenho muita saudade dele, é muito difícil ficar viúva sozinha, sabe? Muito. E olha que eu não sou de encostar, não.

 

P/2 - Mas a Bioengenharia... Até que a senhora trabalhou bastante tempo lá, né?

 

R - 40 e tantos anos. Parece que é 44, não sei.

 

P/2 - E a senhora conhece, então, todas aquelas coisas que tem lá?

 

R - Eu não conheço o Incor porque a gente não pode sair da sua mesa. Mesmo com o Eury era assim. Mas com o Eury era diferente porque ele mandava lá. Ele foi o fundador, eu ajudei. Vou contar para vocês uma coisa tão bonita para mim. Vocês não vão pensar que eu estou me gabando, porque eu sou tão franca, não é?

 

P/2 - De jeito nenhum.

 

R - Está bom. Então, o Eury disse para mim: “Inventaram válvula de coração.” Eu até vou... Não sei se a empregada está aí. Está?

 

P/1 - Está ali.

 

R - Fátima, faz o favor de pegar essa bolinha minha, que eu fiz e está aí. A válvula do coração, sabe qual é? Essa é inteligente, mesmo. Já veio com ela. Olha aqui, isso é válvula para coração. Foi a primeira que eu fiz, olha aí. Está vendo?

 

P/2 - Olha, que linda!

 

R - Essa só serve para... Os negros têm a válvula maior que os brancos, sabia?

 

P/2 - Não.

 

R - É, no geral. Isso aqui, quem inventou foi um médico americano chamado [Clarence Walton] Lillehei. Essa costura daqui, isso é um pedacinho de pano de... Eu estava de... Ah, não estou mais. Isso é tricô, quer dizer, parece tricô. É tecido.

 

P/2 - Uma malha?

 

R - Malha. Então, pega uma tira assim... Como é que eu posso explicar? Não tem uma aí. Essa não pode. Também, não interessa a vocês ver fazer, não? Esse é pequenininho, não dá. Isso mesmo, tira assim para lá...

 

P/2 - A senhora quer desenhar?

 

R - Deixa eu ver, é assim.

 

P/2 - Esse é lá.

 

R - Aqui pode riscar?

 

P/2 - Pode.

 

R - Essa foi a primeira que eu fiz. É uma tira assim, de pano, de malha. Eu estou com a mão trêmula porque eu ainda não estou boa. E eu não enxergo de noite. No meio dessa tira... É aqui e aqui a tira.

 

P/2 - Aqui e aqui.

 

R - Então, passa uma tira entre as duas, bem no meio.

 

P/2 - Assim?

 

R - No meio das duas, isso. Essa tira... A gente põe dez pontos na malha aqui. Essa aí é depois. A mesma linha vai aqui. Dez pontos aqui, na mesma malha. Depois daqui, passa aqui dez. Depois, aqui dez. E assim por diante.

 

P/2 - Entendi.

 

R - Então, você faz aqui dez com uma agulhinha fininha e um fio bem fino, mas forte, de náilon importado. Porque aqui não fazem tão firme. Depois que está tudo feito assim, você puxa o fio e isto aqui... É essa, né, a de cima?

 

P/2 - É.

 

R - Que pena, eu não enxergo. Espera aí, a de cima qual é?

 

P/2 - É essa aqui.

 

R - Esta, você puxando o fio, ela pula para cá, no meio, e junta com esta.

 

P/2 - Entendi.

 

R - Agora, aqui no meio, a chapa que ela vai ocupar não é esta. A que eu vou botar dentro...

 

P/2 - Que está aqui dentro?

 

R - Olha aqui, está vendo? Essa de metal é um caninho, feito assim. Está vendo? Isso aqui é assim.

 

P/2 - Estou vendo.

 

R - Se vocês prestarem bem atenção, vocês vão entender. Esse e este são afundado onde está costurado aqui, então, é um caminho. Fica um caninho, não fica?

 

P/2 - Fica.

 

R - Ao puxar isso aqui é esses dez, aí amarra, mas tem que amarrar de verdade para parar. Aí, começa a costura aqui, passando no caninho. Você já imaginou o que é fazer isso?

 

P/2 - Deve ser difícil.

 

P/1 - Quantos a senhora fez desses?

 

R - Já perdi a conta. Agora eu já tenho... Eu não estou me gabando, eu ensinei. E tem um pedaço lá no Incor, eu acho que até meio escondido, fora de lá, que faz. Mas “olha” para aprenderem. Desse caninho... Está vendo aqui, saindo daqui de dentro? Saem essas alças, que seguram aqui para formar essa gaiola. Essa bola, nós também fazemos. É bola de... Como é que chama isso mesmo?

 

P/2 - Silicone?

 

R - É silicone? Não, não é. Silicone é pedra, né?

 

P/2 - Não, é uma espécie de uma borracha.

 

R - Mas vem assim, né?

 

P/2 - Sintética.

 

R - Bom, seja o que for. Não sei se é silicone, eu sei que se faz num aparelho que nós temos, que eu desenhei assim. Menorzinha assim, para válvula pequena.

 

P/2 - Tem vários tamanhos de bolinha?

 

R - Por causa da entrada aqui. Se fizer maior, ela entra e sai. Não, aqui força para entrar. Sabe quem é que força essa bola? O sangue vem daqui, aqui é que é o pé, está vendo?

 

P/2 - Sei.

 

R - O senhor está vendo? Veio o sangue sujo, porque é o que traz a sujeira. Chega aqui, a bolinha está assim no coração. Bate aqui, ela sobe e o sangue entra por aqui, sai por aqui, vai na cabeça. Fica perfeito! Desce limpo e a bola volta.

 

P/2 - Eu precisava ter trazido a minha filha, porque ela tinha que fazer um trabalho de escola, essa semana, que era uma válvula do coração. Ela não sabia fazer, me perguntou e eu também não sabia. (risos)

 

R - Agora você sabe.

 

P/2 - Agora eu sei. (risos)

 

R - Essa válvula... Quando a pessoa tem um entupimento da válvula dentro do coração, tira a doente e bota esta. Tem lá o lugar de botar. Isso não me interessa; o que me interessa é fazer. Essa foi a primeira que eu fiz.

 

P/1 - Quando foi? A senhora lembra?

 

R - Não, eu não guardo data.

 

P/2 - Aí tem alguma coisa?

 

R - Não, não tem... Tem um negócio escrito aqui, vê aí.

 

P/1 - Mas é quando deram para ela.

 

R -  Não dá, eu não leio.

 

P/2 - É quando a senhora ganhou isso aqui.

 

R - Foi no aniversário de... Porque estava no museu. Eles tiraram do museu para fazer a minha festinha de aniversário.

 

P/2 - Que lindo! Muito bem!

 

R - O doutor Adolfo [Leirner] vocês conhecem, né?

 

P/1 - Não.

 

R - O diretor do Incor vocês não conhecem?

 

P/1 - Adolfo?

 

R - Doutor Adolfo.

 

P/2 - É da Bioengenharia, né?

 

R - Da Bioengenharia. É meu amigo, ele me quer bem, só vendo!

 

P/1 - Por que é que a senhora começou a trabalhar na Bioengenharia, dona Eunice?

 

R - Faz pouco tempo. Agora que fizeram a Bioengenharia, faz pouco tempo. Não é muito tempo, não. Sabe, eu não tenho ideia de tempo porque eu sofri muito por perder meu marido. Eu não guardo mais... Você vê que eu esqueço nome? É muito difícil ficar sozinha, eu não me acostumo sem Armando. Eu estou sofrendo muito. Eu tive desinteria e fiquei duas semanas… Eu não reajo. Ele era muito bom. Comprou a... Quando ele se sentiu doente, porque o cigarro... Você vai largar, hein? É pelo seu filho que eu estou falando.

 

P/1 - É verdade.

 

R - Pelo seu filho. O pulmão do Armando era um buraco, não tinha nada. Só tinha, aqui em cima, um pedacinho. O meu irmão queria fazer uma chapa... Não sei como é que chama isso, para fazer. É uma coisa de vidro. Tira de lá, põe aqui para mostrar e estudar. Não pôde, não tinha nada para pegar.

 

P/2 - Nossa!

 

R - Nada. Quando ele saiu da sala chorando, eu pensei que ele tinha morrido. “Morreu?” “Não, minha filha. Mas você vai ficar viúva daqui a um mês.” Faltavam dez dias para um mês quando eu perdi meu marido. Ele se zangou com a mãe dele, que chamou os médicos de bobões. Quando o Eury falou: “Nós sabemos, dona Alcine, que prejudica. Vê se a senhora aceita.” “Que nada! Vocês são uns bobão.” Até falou o português errado.

Ele disse: “Isso eu não aceito. Não é porque eu não queira ser bobão. Pode ser que eu seja bobão, mas nós estudamos feito loucos. Tudo nos mesmos livros.” Eu achei lindo aquilo. “É francês, é inglês, tem tudo traduzido, mas é tudo a mesma coisa. Além disso, depois de formado, nós temos que fazer cinco exames se quisermos ser bons médicos. Eu fiz todos e fui fazer os outros nos Estados Unidos, como eu vi que estava faltando cirurgia de coração na América Central e do Sul.” Foi ele que trouxe.

 

P/2 - Foi ele que começou, né?

 

R - Foi ele que trouxe. O papai chorou tanto aqui, nesta sala, quando ele chegou de lá, do transplante. Ele veio correndo para cá, porque queriam tirar a roupa dele. Ficaram feito loucos.

 

P/2 - A imprensa descobriu, né?

 

R - Descobriu. Ele pegou um carro, veio correndo e, em vez de entrar na casa dele, telefonou de lá para mim: “Abre o portão e fica na porta, porque eu vou entrar e você fecha.” Queriam pegar. Quando chegou aqui, papai veio vê-lo. Os dois se abraçaram, foi uma cena. Papai estava tão orgulhoso que só vendo! Ainda disse para mim: “Está vendo?” Eu disse: “Não, não estou vendo.” Eu estava lá ajudando antes dele entrar nisso.

 

P/2 - Então a senhora participou de tudo?

 

R - Desde o preparo.

 

P/2 - Desde o começo?

 

R - Foi uma maravilha.

 

P/1 - Como foi, dona Eunice? Conta para a gente.

 

R - Eu já nem lembro mais. A gente até chorou quando viu aquilo. O João Boiadeiro caiu na rua doente. Se fosse uma pessoa sã, ele estava vivo até hoje. Até estou arrepiada!

Ele morreu porque já estava debilitado e estava internado, então quiseram fazer o transplante para ver se reanimava. Ele foi batizado depois de fazer o transplante. Olha, arrepia até hoje. Eu não gosto nem de passar lá. O Eury chorou. Papai [quando] chegou aqui, chorava, só vendo!

 

P/2 - Foi um grande feito esse, né?

 

R - Foi porque repercutiu no mundo inteiro. Mais do que aqui, no mundo dele. Papai chorava aqui, os dois abraçados. Ele não foi para a casa dele. Eu fui dormir na cama dele com o Armando e ele dormiu aqui por causa dos repórteres.

Na casa vizinha - não era esse prédio. Na casa vizinha, de lá da janela, eles olhavam pensando que era ele que estava deitado na cama. (risos) Éramos nós dois.

 

P/1 - Dona Eunice, por que a senhora quis ser voluntária? De onde veio essa vontade de participar disso, de ajudar?

 

R - Foi antes de eu tirar da cabeça [o que aconteceu em] Guaratinguetá, porque não conseguia tirar. Não pode comentar isso, porque meu marido está lá em cima. Ele nunca disse nada, meu marido, porque eu não escondi nada. Eu fui franca: “Por que você quer casar comigo? Lê a carta.” “Eu não vou ler. Eu quero você, não quero a carta.”

Ele me queria muito bem e eu o adorava. Comprou uma sepultura com dois lugares. Ele já está lá. Se Deus quiser, daqui a pouco eu vou.

 

P/2 - Dona Eunice, não sei se a senhora já está cansada. Se a senhora quiser...

 

R - Não, não estou. Por mim, não. Eu estou descansando, sentada. Não estou lidando com o que... Você não sabe as coisas que eu faço. (risos)

 

P/1 - O que a senhora faz? Conta para a gente um pouquinho.

 

R - Agora já está menos, porque tem muita evolução. E eu estou voltando para trás. Olha, unha quebrada...

Eu não faço questão de nada. Eu faço muita coisa, aparece a coisa lá... Agora eu estou fazendo adesivos; é o adesivo que está comendo a unha. Quando põe um eletrodo dentro da pessoa, às vezes bate dentro e bate no órgão. Esse adesivo que eu faço...

 

P/2 - É para prender o...

 

R - É para segurar o eletrodo, é uma goma.

 

P/2 - E isso fica lá por um tempo, depois tira?

 

R - Não. Assim que acaba a cirurgia, já põe.

 

P/2 - Durante a cirurgia.

 

R - É para segurar porque ele fica solto lá dentro, faz assim. Porque a cirurgia não é bonitinha, não.

 

P/2 - A senhora já assistiu a alguma cirurgia?

 

R - Não, eu não quero. O Eury quis muito que eu visse o transplante. Melhor não ver. Para quê? Eu não vou fazer. O tempo que está lá, faz uma coisa que precise.

Mas eu lido com muita coisa. O Eury... Eu trabalhei sempre com ele e ele não era de achar tudo bem feito. Quando não estava bem feito: “Você não tem vergonha?” (risos)

Mexiam lá no Incor... Quando a gente chegava, ele ia na frente, mais depressa, e eu ia atrás, mais devagar, mas bem perto. Então: “8 horas.” (risos) Diziam que éramos relógio, nós dois.

Ele morava aqui. Eu levanto às 6, toda a vida levantei. Eu me arrumava, tomava meu café, depois eu ia para lá, para ele não vir me pegar aqui na frente.

 

P/2 - Vocês moravam na mesma rua?

 

P/2 - Ele morava na mesma rua?

 

R - Nessa casa defronte aí, que tem esses advogados. É a casa dele.

 

P/2 - Eu não sabia.

 

R - É. Agora é dos filhos.

Ele ficava cansado. Quando ele voltava, na sala de visitas tinha um divã e a Dirce já botava o travesseiro, para descansar para jantar.

Ela também se acabou. Eu tive que ficar com ele, você soube? Ela já estava numa cadeira de rodas. Lá no Incor ele morreu, no último andar. Agora, não sei se fizeram em cima, porque eu não passo lá.

Ela caiu embaixo da cama com a roda da cadeira. Precisou de três enfermeiras para poder tirá-la. Já não dava mais porque ela estava se acabando. Chorava, ele via. E ela mesma desistiu.

Eu nunca tive automóvel. Eu não tenho mão para ter automóvel. Então, ela me levava às 8:30 - 8 horas, porque eu sempre estava pronta. Eu levanto às 6 desde menina. Ela me levava e eu ia para lá. Aí, eu fiquei em licença. O Incor já estava acabando. Fiquei em licença e tomei conta dele, até fechar os olhos dele. Ficava o dia inteiro. Quando precisava de alguma coisa que eu soubesse fazer, o médico ficava.

O doutor Adib é irmão nosso, então ele subia, ficava lá. Agora ele tem o hospital dele, que as senhoras filhas fizeram. Ele está querendo que eu vá lá ver, mas você perde o dia. É melhor ficar fazendo para o daqui. (risos) Não é ciúme, não. Ele é muito amigo meu, muito! Os dois filhos dele também são médicos. Os dois me querem bem, é a mesma coisa que o irmão, a vida inteira.

Ele estava sendo... Quando ele entrou... Porque ele já não tinha pai, moravam no Acre. A mãe dele tinha oito filhos e morreu o pai. Eu não sei bem quantos filhos, é bastante. No dia do enterro, no dia seguinte, ela vendeu a casinha dela. Eu era muito amiga dela, a admirava. Vendeu a casinha dela sem fazer barulho, pegou os filhos, explicou que ia sair da cidade porque ali não ia poder criar os filhos.

Foi embora para Manaus. Chegou lá, pôs uma tabuleta na porta, dizendo: “Eu faço tudo e sei fazer tudo. Preciso trabalhar para educar meus filhos, fiquei viúva agora. Quem quiser, eu estou às ordens para fazer o meu dinheirinho.” De noite, estava cheia a mesa. Educou todos.

O doutor Adib e os irmãos têm uma loucura por ela. Eu também a adorava. Tinha uma filha e os outros. Depois, o doutor Fúlvio fez uns preparos para fazer o exame e veio para cá, em São Paulo, fazer o exame. Porque ela exigiu o maior. Chegou aqui e fez o exame. É Fuvest que chama, né? Como é que chama mesmo isso? O exame para entrar na faculdade.

 

P/1 - Vestibular.

 

R - Vestibular é o preparo.

 

P/2 - Tinha um nome diferente.

 

R - É para entrar, mesmo. O Eury já tinha feito isso. Tinha vindo de Guaratinguetá todo encolhidinho porque era moço de interior, mas tinha um preparo! Chegou aqui, ele tirou o primeiro lugar.

Ele vinha vindo no corredor, viu aquele moço encolhidinho ali e disse: “O que você tem? Você está doente, está sentindo alguma coisa? Eu lhe atendo, eu sou médico. Já tenho título de professor, eu posso atender você.” “Não, senhor. Eu fiz o exame para entrar na faculdade. Disseram para eu ir ver a minha nota e eu não posso ir porque eu não sei andar aqui. Eu não sei onde estou.”

 

P/2 - Isso quem era? Era o Pileggi ou o Adib?

 

R - O Adib. Era mocinho, meninão. Por isso que a gente diz que ele é irmão da gente. O Eury disse: “Você não está doente, não? Senão, eu lhe trato. Eu estou fazendo isso porque também fiquei como você. Eu vim de Guaratinguetá, estava direitinho como você está. Vamos ver a sua nota.” “O senhor me leva?” “Eu estou te levando, já. Vamos?” Pegou o braço dele e levou.

Primeira nota! O Eury fez uma festa, os outros todos vieram. (risos)

Ele adora a memória do Eury. Quando o caixão entrou na faculdade, lá na... É faculdade, mesmo, que chama...

 

P/2 - Faculdade de Medicina.

R - Nós estávamos ainda lá, com ele. Eu vim no automóvel com a Dirce e as primas dela, as amigas dela. Eu vim com o chofer na frente. Me fizeram tomar uma sopinha antes de sair. O doutor Noedir - não, como é que chama mesmo o médico de lá? Eu sou tão amiga dele. Esqueci. O que é diretor agora.

 

P/2 - Doutor Sérgio?

 

R - Não, o outro.

 

P/1 - [José] Ramires?

 

R - Ramires. O doutor Ramires, para mim, é meu irmão. Que educação tem! Vocês o conhecem?

 

P/1 - Não.

 

R - É um homem tão educado! A senhora dele é um encanto. Ele diz: “Minha casa é casa das mulheres. Nasce neto, é mulher. Outro neto, é mulher. Eu tenho a mulher, as filhas, agora os netos, tudo mulher.” (risos)

Eu gosto dele. Ele é uma boa pessoa, sério. Nós gostamos muito dele. Então, o doutor Ramires e o doutor... O outro lá. Eu não lembro o nome. Cyrillo [Cavalheiro Filho], que trata do sangue. Ele também, é tão meu amigo que só vendo!

Desquitou, todo mundo ficou contra ele. Eu fui lá: “Eu sou a favor do senhor, porque o senhor é tão simples e tão direito!” É mesmo, ele é direito. “Deve ter razão, então eu estou do seu lado.” Quando ele arranjou a outra mulher... Ele estava noivo, veio aqui para mim. Eu não tenho nada que ver com a vida deles. A gente apoia ou não apoia.

Eu acho que eu sou burra. Não apoiar o que o filho quer fazer, isso é erro. Porque quem está vivendo não é a mãe, é o filho.

 

P/2 - Isso é verdade.

 

R - Não é verdade? Agora mesmo desquitou um sobrinho meu. Veio saber: “‘Tinice’ [Tia Eunice], o que você acha?” “Nada. Eu apoio o que você fez porque eu não vou me desquitar, não tenho marido. E se tivesse, “olha” que eu ia desquitar. Ia adorar até morrer.” Ele disse: “É, mas eu não posso. Minha mulher é enjoada.” Está com a mãe. (risos)

Emídia é filha de uma amiga... Irmã minha. Essa irmã morreu de sofrer com o marido. Se tivesse desquitado, estava viva. Então, nós não deixamos. Estávamos lá no Jaçanã, onde ela estava internada... Porque meu irmão é fundador do Jaçanã e estava lá, sempre trabalhou lá. Eu fiz uma vestimenta de tudo o que precisa numa sala de cirurgia, sozinha. E a minha máquina era de mão. Eu fiz de promessa, mesmo, de como trataram a minha irmã. Ela morreu lá. Quando ela estava morrendo, ela disse para mim e para o meu marido, e o marido estava ali, nós dois ali: “Eu estou muito mal, eu estou sentindo. E não quero ir embora sem pedir uma coisa para você. Mas vocês dois têm que ser sinceros, não mentir.” Eu disse: “Comigo pode contar porque eu nunca menti na minha vida. A mamãe tirou uma mentira da minha boca, que inchou a boca e eu nunca mais menti.” (risos)

Ela estava morrendo e disse: “Vocês não têm filhos, já estão com vida organizada. Têm o direito de dizer francamente. Eu queria deixar minhas duas meninas com vocês dois.” Uma tinha dez, outra tinha doze. O Armando não... O marido dela se chamava Armando, também. Papai chamava o meu de Armandinho para não parecer com o outro. [Ele] Estava do lado.

Armando, na mesma hora, disse: “Já são nossas.” Ela disse: “Então eu vou sossegar porque ele sai de noite. Vive de noite, dorme de dia. Deixa um cachorro tomando conta das minhas filhas.” E eram mocinhas. Ela abraçou nós dois e disse: “Eu vou contente.” Armando tomou conta dessas meninas mais do que se fossem filhas dele. Eu não podia levantar a voz para chamar a atenção que ele dizia: “Vem aqui que eu estou precisando de você, Eunice.” Eu vinha: “Não levanta a voz para elas, não têm mãe. Você não está vendo que elas não têm mãe?” Mandou fazer um guarda-roupa maior que essa porta, espelho e, aqui, as gavetinhas para botar a lingerie.

A Emídia não é de costurar as coisas, ela trabalha muito. Nós acabamos os dois cursos delas. A Emídia ainda fez mais um, para ser... Ela é educadora, professora de Ginásticas Médicas, e fez mais um curso. Pôde fazer um concurso aqui, na Câmara Municipal, e ela era diretora dele. Ganha 1400 aposentada. Sabe quanto eu ganho aposentada, com 32 anos de Magistério? 125 reais. Agora, ele deu 5 para nós e ficou 125. Era 120. Pois é.

 

P/1 - Dona Eunice, a senhora sempre trabalhou com confecção de peças ou também trabalhou junto com o paciente?

 

R - Com paciente, não.

 

P/1 - Com paciente a senhora nunca trabalhou?

 

R - O Eury não deixava porque eu não posso ver criança doente. Eu chorei lá hoje. Uma moça nova, cheia de vida... Eu quis tanto ter um filho, não tive. Eu fiz uma porção de tratamento. O quarto que eu perdi já estava com 5 meses de vida, não sei por que. Ninguém sabe por que.

Eu sei, para ficar com as meninas da minha irmã, não é?

 

P/2 - (risos) É.

 

R - Foi. O Armando não deixava levantar a voz: “Não levanta a voz. Você quer ver como é que a gente fala com elas? Eu sei que não é maldade sua.” Eu digo: “Está agradando.” “Estou agradando. Eu já disse para você que você não devia fazer. Agora, estou agradando.” Explicava as coisas: “Eu vou lá, você fica vendo como você deve falar.” Então ele ia lá. A Emídia quis a gaveta de cima porque não pregava botão na roupa, nem nada. Agora, depois que ficou comigo, aprendeu. Sabe por que? Eu fazia ela pregar. Ela tirava a gaveta dela e a de baixo era da irmã. As roupinhas da irmã tudo arrumadinha, até hoje é assim. Você precisa ver! Ela é uma gracinha, quietinha! Tem mais meu jeito porque eu não sou de gritar, nem nada. Então ela pegava as da irmã, punha as dela, tudo sem botão. Fechava, punha a gaveta, se vestia e saía. (risos) Saía cada briga das duas no quarto: “Eu trabalho, “Tinice”. De noite eu prego os meus botõezinhos e ela veste.”

O Armando disse: “Não precisa gritar.” E eu gritei: “Emídia, você não faça mais isso!” Só isso. Ele: “Vem aqui, Eunice, que eu estou precisando de uma coisa que você sabe fazer.” Eu fui. Cheguei: “Por que grita? Elas não têm mãe, você está esquecendo? Quer ver como eu faço devagarinho? Você fica aí para ver.” Ele chegou lá: “Eu vou tomar sorvete. Quem é que quer ir comigo?” As duas: “Eu quero! Eu quero!” Já estavam de bem. Saiu e fez assim para mim. (risos) Aí, foi.

Quando voltou, foi ao quarto dizer: “Eu vou ajudar vocês porque a “Tianice” gritou com vocês e eu não quero que grite. E agora ela não vai gritar mais porque ela me obedece. Então vocês também vão obedecer. Emídia, tira a sua gaveta, põe ela na sua cama. Lourdes, pega a sua gaveta, põe na sua cama. Agora, Lourdes, põe sua gaveta em cima.” Ela já tinha percebido. “Põe a sua gaveta embaixo, Emídia.” Ela pôs. “Pronto, cada uma abre a sua e pega. Emídia, peça para a sua tia ensinar a botar botão, porque não tenho nada na minha roupa sem botão.” (risos) Divertia até a gente.

Agora estão casadas, têm filho com 40 anos. Quando os meninos reinam lá e brigam, ela manda aqui para mim. Eu disse: “Com vocês eu posso gritar, porque você tem mãe, pai, avó, tia, tudo.” (risos) É isso aí.

 

P/1 - Dona Eunice, quem mais trabalha... Quantas voluntárias tem? Tem muitas voluntárias que trabalham no HC?

 

R - Tem muitas, eu já nem sei. A minha é do HC, eu não sou bem do Incor porque trocaram agora. Para trocar... Pequeninho, para mim, era melhor. Mas tem um relógio, um negócio... Não é relógio, é uma maquininha atrás para marcar a hora que sai, que chega. Eu chego... Às 9, eu saio daqui. Antes de 9:30, eu estou entrando. Eles acertam o relógio quando eu entro. Quando eu saio é porque acabou o serviço, já não tem mais interesse. E é pequenininho, eu não enxergo.

Eu estou enxergando muito pouco. Essa vista foi operada de catarata, porque eu sou muito novinha, sabe? Tinha uma espécie de nuvem. Fez a operação: “Tem que esperar agora.” Eu fui fazer lá na Beneficência Portuguesa. Antes de eu ser do Incor, o meu marido e eu entrávamos lá porque o Eury operava lá também. Somos sócios remidos. Então, quando eu opero, eu vou operar lá para não dizerem que eu estou usando o Incor. Eu tenho os operadores daqui, vão lá. Quando eu fui ao... Esse [médico] de velhos [geriatra]. Ele começou a fazer exame e eu percebi que ele estava fazendo. “A senhora tem muito resfriado?” “Não, doutor, não tenho. “Tem alguma coisa?” “Não, senhor. Fui operada já, sim, senhor.

“Quanto tempo faz?” “Oito anos.” “Nunca teve nada?” “Não, senhor.” (risos) [Perguntou] Se eu era feita de ferro e pedra. (risos)

Começou a conversar: “Posso pegar seu cabelo para ver?” (risos) “Pode, imagina. Pode pegar. Está limpo, eu lavei ontem.” Ele fazia assim para ver. Diz que quando a gente envelhece, o cabelo fica fraco e sai. Eu não sabia. Não conseguiu tirar, não. É branco, mas é firme. (risos) Quando acabou o exame todo, ele conversou comigo: “O que a senhora pensa de operar, depois ficar vomitando?” “Que vomitando, nada! Vomita porque quer fazer fita, doutor. Eu operei duas vezes, não vomitei.” “A senhora é assim, forte?” “Sou.” “O que a senhora come?” “Tudo o que põem na mesa. Não tenho dieta.” “Mas não fizeram dieta para a senhora?”

“Fizeram dieta, mandaram eu tomar sopinha. Quando eu canso da sopinha, eu como macarronada porque eu sou filha de italiano.” (risos) Ele chamou o doutor Ramires: “Pode levar, porque aqui não pode ficar.” “Por que? Está com doença?” “Não, a cabeça dela regula com mocinha de 25 anos. Pode levar. Sabe por que?” E ele explicou: “Porque o cérebro não para, trabalha o todo dia. Só para quando dorme.” Porque chega em casa, a gente tem que fazer...

Eu não faço quase nada mais, mas já trabalhei. O que a gente faz é de muita atenção. Tem que ficar com atenção, senão... Eu sou responsável. O Eury me ensinou muita coisa porque ele não era de estar agradando, não. Ele me ensinou muito. Eu faço uma porção de coisinhas.

Isso aqui é uma coisa difícil de fazer e eu comecei a dizer: “Mas não é possível. Eu tenho que saber essa coisa aqui.” Então, eu peguei uma... O Eury... Quando morre a pessoa que tem isto, tem que tirar porque se não ela fica trabalhando e fazendo barulho no cemitério. Faz barulho isso.

 

P/2 - É mesmo?

 

R - É. Eu nunca ouvi o barulho, graças a Deus. É uma salvação, não? Quanta gente está sendo salva por causa disso!

 

P/1 - E o Incor, dona Eunice? Como é que foi o doutor Eury com o Incor, a expectativa de construir o prédio?

 

R - Ele, toda a vida, quis. Ele dizia.

 

P/2 - Ele dizia?

 

R - Dizia: “Nós precisamos de um lugar certo para operar.” Quando ele chegou aqui, ele estava chorando, no dia da inauguração. Não sei o que aconteceu.

 

P/2 - No dia da inauguração?

 

R - É. Tem um retrato dele muito bonito numa revista de médicos, só médicos. Página dele, assim. Aqui tem ele. Ele está bem em frente do retrato e, atrás dele, está o Incor. Escrito: “Incor.” Embaixo: “Doutor Zerbini.” Bonita a revista. O filho dele pegou a minha e levou embora, senão eu mostrava para você. Podia mostrar. Eu vou procurar lá, se eu achar uma... Emprestada, né? Porque ninguém lá... Bonito o retrato.

 

P/2 - Isso é da época da inauguração ou é posterior?

 

R - Foi um ano depois. No fim do ano fazem...

 

P/2 - Pertinho.

 

R - É. Devia ter sido o primeiro que pusesse o dele, porque estava comemorando.

 

P/2 - Primeiro ano?

 

R - Não, é três ou quatro depois, é a mesma coisa. Esse [Luiz] Décourt era clínico do Eury. O Eury que tocou ele para diante e ele fazia a parte clínica. Eu gosto muito dele. Ele é francês. Outro dia, fizeram uma reunião dos... Eu não sei se vocês viram. Eu fui convidada por causa do Eury, o Eury já tinha morrido. Lá no Incor, no salão, para fazer a reunião dos médicos que o Eury reuniu e formou a equipe dele... Essa equipe foi o Eury... O Ramires, todos eles, até a mamãe sabia os nome deles.

Uma vez, nós viemos às 2 horas da manhã porque era uma coisa grande para apresentar. Nunca o Armando se queixou. E trabalhava cedo, saía cedinho daqui, trabalhava na Moóca.

Foi um servição que tinha que fazer, então eles vieram nos comboiando. A gente no meio, uns aqui, outros aqui, outros lá atrás. E o Armando: “Mas eu não tenho medo.” “Mas é perigoso, é muito tarde.”

É, tudo acabou. É por isso que a gente vai entristecendo, ficando triste de viver, não? O padre lá fala para mim: “Mas a senhora não tem esse direito.” “E o senhor tem o direito de dizer isso para mim?”, eu perguntei para ele. Cada um sente o seu, né?

 

P/2 - É isso aí.

 

R - Ele é bonzinho, sabe?

O Felipe caiu na cachoeira que tem perto da fazenda... O meu irmão deixou uma fazenda em Guaratinguetá, ficou para o pai dele. Na divisão ficou para o Ricardo, que é o pai do Felipe. O Felipe ____ bem que só vendo! Então, ele e os meninos que ele levou lá... Porque leva os amiguinhos e a gente toma conta, tudo direitinho, mas eu não estava lá. Ele chegou com os meninos, ninguém viu, não sei. Foi no vizinho que era o doutor Vilela, que é tão amigo nosso. Morreu o ano passado, eu senti...

Na fazenda deles tem uma cascata caindo água, cachoeira. Não é cachoeira de correr. Em cima de uma pedra que ninguém sabe onde começa, onde acaba e até onde vai. Até hoje não descobriram. O meu irmão, o Euryale, que era do exército, fez a campanha de 32 lá, onde hoje é a fazenda do meu irmão. Agora é do meu sobrinho. Todo mundo tem medo dessa cachoeira porque a pedra tem pontas. O Felipe era mais novo, era menino ainda. Não tanto menino, faz o quê? Dois anos.

Agora já fez exame para... É uma cópia do que vão fazer depois. Como é que diz mesmo? É para treinar os meninos para entrar na faculdade. Então, ele e os menino iam andando e ele queria mostrar que embaixo tinha pedra. Escorregou e caiu em cima da pedra.

 

P/2 - Nossa!

 

R - Quebrou o fêmur e desmaiou. Os amigos se atiraram, o pegaram, tiraram e saíram correndo. Puseram no automóvel e levaram. O pai não estava lá. Levaram no hospital que o Eury fez em Guaratinguetá. Estava “assim” de médico deles, mas ele estava com 39 de febre. O doutor... Não me lembro o nome. O doutor o botou na ambulância e trouxe para o Incor. Ele chegou aqui meio inconsciente. Depois de umas horas, estava: “Tinice, Tinice!” “Tinice” sou eu. Eu chamo Eunice, mas nem o nome eu não sou dona. É “Tinice”. Então, estava caído só. Tem um médico aí chamado Davi, moço, não sei se vocês conhecem. Que é especialista nesse negócio de ferimentos. Estavam com medo que tivesse ofendido os órgãos genitais dele. E esse é especialista, porque juntou tudo que era especialista. Graças a Deus, não tinha nada. Tinha só uma vermelhidão que o Eury... O Eury não, a Dirce assustou, mas não era nada. Depois de um dia sumiu, porque o Davi dormiu lá. Doutor Davi, moço bonito, novo, bom médico, sabe? Muito bom médico. É delicado, educado. Eu passei por ele e disse: “Boa noite.” Ele disse: “Boa noite, dona Eunice.” “O senhor me conhece?” “Quem é que não conhece a senhora aqui?” (risos) Porque eu ando em todo o...

Ele ficou internado, coitadinho, um tempão, mas saiu bom. Chorava que queria ir para a casa, tamanho molecão. Ele é bonzinho. O Ricardo tem uma filha também. Duas filhas. A mais nova é mocinha, já está acabando o curso porque estuda feito... A outra, a mais velha, também. A mais velha fez o curso de Artes e Projetos da FAAP e ela já está formada. Vai receber o diploma agora. Então, fecharam a matrícula das meninas que ganharam os prêmios. Fizeram um prêmio de Artes e Projetos, ela ganhou.

 

P/2 - Que bom!

 

R - É. Ela se chama Cristiane, porque a mãe é descendente de francês. Mas ela se chama de Kiki. Volta e meia vem com os livrinho: “Aqui, “Tinice”. Estuda isso para você me explicar.” (risos) Ai, meu Deus. Queria que eu fizesse a árvore genealógica dos Zerbini. “Você vai à França, no maior castelo que tiver, que está lá.” (risos) Ficou com um beiço até aqui.

Quando ela chegou em casa, eu telefonei depois de uma hora: “Vem aqui buscar a árvore genealógica.” (risos) Daqui a 15 minutos, ela estava aqui. (risos)

Eu fiz uma árvore grande. “Não está bonita porque eu não sei desenhar direito.” Ela: “Não tem importância, “Tinice”, eu a enfeito.” Quer dizer, ela não achou bonita. (risos) Mas estava tudo feito, tudo feitinho. Tem uma mão para as coisas.

A FAAP abriu um concurso para irem para a França, as duas, de prêmio, porque ela já tem média para o diploma. Fechou até a hora do diploma aqui... Trancou que diz, né? E as duas foram para lá. O Ricardo custeou a FAAP, arranjou quem acomodasse as meninas e atormentou os homens lá, para tomar conta dela. É quietinha a Kiki, é diferente. A mais novinha é brava, só vendo! Mas ela é boazinha. É zangada, ela não leva desaforo para a casa, não. (risos) Mas a Kiki é quietinha. É minha afilhada, ela me chama de “madrinha querida.” (risos) Outro dia, telefonou para cá o... Impresso, né, que chama? Que toca telefone para fora.

 

P/1 - Embratel?

 

R - É, Embratel. Vê como eu estou? Então, eu disse...R - Embratel. Então: “Aqui é a Embratel.” Eu digo: “Eu não sei o que é isso.” (risos) Ele perguntou: “Quantos anos a senhora tem?” É voz de menino, eu disse: “Faz cem anos. Daqui a dois anos, três, eu faço cem anos.” “E não sabe o que é?” (risos) “Eu não sei, senhor. O que eu vou fazer com Embratel? O que eu tenho que fazer?” “A senhora vai ter uma chamada da Europa. Não está pedindo para pagar aqui. Ela está pagando para a senhora falar com ela. Deve ser parente da senhora.” “Comigo? E o que eu faço? Eu não sei falar nisso.” Ele disse: “Está bom, eu vou ajudar. Eu vou dar um sinalzinho para a senhora. Nessa hora, a senhora já está ouvindo a outra falar.” (risos)

Depois que desligou, ele disse: “Ouviu?” Ele perguntou porque enfiou no meio, achou tão disparatado uma velha não saber o que é Embratel. (risos) Garanto que a Fátima sabe.

 

P/2 - Ele resolveu ajudar?

 

R - É, me ajudou. Eu agradeci. “Mas precisa saber essas coisas”, ele disse para mim. (risos) Eu queria convidá-lo para fazer...

 

P/2 - Válvula. (risos)

 

R - Eu disse: “Cada um faz o que sabe.” Ele disse: “Mas a senhora, com a idade que tem, tem que saber o que é Embratel, viu? Não é bonito a senhora dizer que não sabe falar nisso.” (risos) Entra aqui, sai aqui.

 

P/1 - Dona Eunice, conta para a gente o que são esses dois brochinhos.

 

R - O quê?

 

P/1 - Esses dois brochinhos da senhora, o que são?

 

R - É meu santinho.

 

P/1 - É o santinho?

 

R - É, eu sou católica.

 

P/2 - O de cima não é. É também?

 

R - Como?

 

P/2 - Esse também é santo?

 

R - Tudo o que está penduradinho é santo.

 

P/2 - Que santos que são?

 

R - Da minha terra, o Frei Galvão. Olha, é só pedir. Você precisa ver o que ele está fazendo. Vocês não são católicos?

 

P/2 - Eu sou.

 

R - Olha, então pode pedir. Eu vou rezar para o senhor largar o cigarro.

 

P/1 - (risos)

 

R - Os seis daqui já largaram, sabe? Mas tem que ajudar, também, um pouquinho. Depois eu vou saber se o senhor largou.

 

P/1 - Está bom.

 

R - Esse aqui é o anjinho da guarda meu. E esse que está aqui... Cadê ele? Nossa, perdeu?

 

P/2 - Não, a senhora pôs para cima.

 

R - Está aqui. Esse é o Frei Galvão. Não pode usar lá, porque nós temos vigia e tudo. Mas eu disse: “Se for para tirar, eu não venho mais.”

 

P/1 - Não pode usar onde?

 

P/2 - Lá no Incor.

 

R - Não pode portar na gola. Não pode pôr na gola, mas pode pôr no pescoço. Eu disse: “Eu não posso usar coisa no pescoço.” Eu não posso, não. Eu já estive tanto mexida aqui, eu tenho a cicatriz até aqui. Fica assim o... Então, deram licença. No fim, dão licença para mim.

 

P/2 - Dão, né?

 

P/1 - Dona Eunice, eu fiquei curioso com uma coisa. O seu irmão lutou em 32?

 

R - O meu irmão?

 

P/1 - É.

 

R - Lutou. Pois nós não tínhamos o general lá na frente? Então.

 

P/1 - Ele já era general?

 

R - Não, era coronel.

 

(pausa)

R - Eu senti, eu gostava da voz do Roberto Carlos. Por causa da morte da [Maria] Rita. Eury achou tão bonito ele botar Rita na filha, porque toda a vida ele queria ter uma menina chamada Rita. (risos) A Dirce não queria por causa do nome. (risos) Mas eu gostava.

Eu fiquei com ele [Eury] até o fim. Eu fechei os olhos dele, segurei o queixo que caiu. Eu fiquei assim com esse dedo, segurei os olhos. Quando a mulher e os filhos estavam arrumando a roupa para ele na sala... Vocês conhecem onde fica o doente? A sala é aqui. Tem a cortina fechada, aqui é o onde pode ficar o doente descansando e aqui é o salão, que vai até aqui. Aqui é a porta. Esse salão passa para esse corredor para entrar no quarto. Estavam arrumando tudo lá e eu estava sentada na beirada da cama, com um joelho só. E segurando, porque ele morreu na minha mão. Ele respirou e voltou. Quando respirou, ficou.

Eu estava esperando porque eu vi o aparelhinho batendo. Quando o aparelho que ele põe bate a luz, é porque está morrendo. Eu não sou de chorar. Depois, fiquei na cama. Eu tinha levado ele devagarinho no banheiro, na cadeira. Ele fez xixi, eu trouxe de volta, pus na cama. A enfermeira estava demorando e ele estava apertado, então eu levei devagarinho. Ele ficou na cama, disse: “Que bom que eu estou na cama. Bom para mim e para você.” Eu disse: “Eu estou muito contente aqui com você, Eury.” Eu não entendia. Porque ele estava morrendo, ele sentiu, era médico. Não demorou, começou a piscar aquilo, aí eu chamei a enfermeira. Ela sabia. Em vez de contar para mim, foi levar embora o aparelho e eu fiquei com ele. Ele estava encostado no travesseiro, olhou para mim, caiu os lábios, respirou e ficou.

Nesse momento, entrou... Eu não gostava do diretor do HC, porque ele escrevia as coisas do Eury no jornal: “Está piorando.” Eu sou contra isso. Quem tem interesse vai saber no hospital, não precisa ler no jornal. Pois olhe, engoli a língua. Ele estava lá no meio, viu aquele movimento e passou por aqui. Chegou, eu estava aqui: “Dona Eunice, isso é demais para a senhora. Eu sou um médico, eu posso dizer isso para a senhora. Dá licença que eu faço o que a senhora está fazendo. Segurar o queixo do seu... Isso é demais!” Eu disse: “Doutor, eu estou dando graças a Deus de ter podido fazer isso para o meu irmão.” Ele disse: “A sua fé é poderosa.”

Eu não estava chorando. Depois que acabou tudo, entraram as enfermeiras, trouxeram a roupa e eu saí. E tinha o doutor Cyrillo que é muito meu amigo, com a caçarolinha com sopa, porque eu estava em jejum. “Dona Eunice, eu sou tão seu amigo. E o doutor Adib também vem vindo trazendo um pãozinho. A senhora tem que comer, senão não aguenta ficar lá. Eles vão e a senhora vai onde? Toma essa sopa por mim.”

Eu estava tão... Tomei, não sabia nem o que eu estava fazendo. Saímos, eu fui na frente com o chofer e a Dirce com as amigas dela atrás. Quando chegou lá, ela entrou com as amigas e eu entrei na frente sozinha.

O doutor Adib já estava lá em cima, que era diretor da escola. Deu um pulo de lá quando me viu. Veio correndo, debruçou no meu ombro. Chorou tanto que molhou a manga do vestido meu. Ele adorava o Eury. Ele vai ao Incor e vai me ver lá embaixo, no meu reino. (risos) Tem a minha mesa sozinha ali, com as minhas coisas para fazer. Ninguém toca, nem que eu deixe assim. Fica assim até amanhã.

 

P/2 - Para ninguém mexer? (risos)

 

R - Fica lá no meio de tanta gente. É ruim, né? 

Porque agora, eu estou contando... É um negócio complicado, mesmo. Tem uma folha de um papel grosso. Tem umas rodas assim. Dentro dessas rodas, presas, feitas no papel, tem um negócio assim. Quando a gente pega aquilo, faz assim: “Tum”. Sai a roda e fica o buraco.

 

P/2 - Sei, destaca o meio.

 

R - Essa roda que cai... No centro, tem uma rodinha pequenininha que a gente tira com o dedo. Atrás dessa roda é papel e, em cima, é isso que está aí.

 

P/2 - Sei.

 

R - Como é? É grude, pronto. Depois tira a bolinha do centro. E fica a roda assim, aqui o buraquinho que tirou da roda e a gente senta para fazer. Tem que contar 25 dessas rodinhas sem mexer no de baixo, como ela está. E a bolinha do centro ali. 25 daquelas aqui e 25 daquelas aqui. No envelopinho... Deixa eu ver se eu tenho aqui um. Não tem. Nesses 25, entram num envelopinho de papel transparente. Esse papel que anda aí. Como é que chama?

 

P/2 - Plástico.

 

R - De plástico. O de lá, a cabecinha que elas põem antes da gente tirar, suspende o papelzinho e põe uma cabecinha igual a essa. Presa, mas saindo fora assim.







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