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História

Uma vida de trabalho

Sinopse

Solange nasceu no interior de Minas Gerais, mas mudou para São Paulo ainda muito criança. Aos 12 anos já começou a trabalhar e nunca mais parou. Teve muitos empregos e diferentes funções, atualmente trabalha como cozinheira em escola da rede pública do município de São Paulo.

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História completa

Meu nome é Solange Cabido Pinheiro, nasci em Piraúba, Minas Gerais, nasci um do seis de 62. Meu pai é Jaime Cabido Pinheiro, minha mãe Maria de Lurdes Cabido Pinheiro. Eles nasceram na mesma cidade que eu, mas minha avó é descendente de italianos e meu avô é de português. Meu pai e minha mãe são primos. Meu pai trabalhava na fazenda do meu avô e conheceu minha mãe, e lá eles fugiram, daí foram obrigados a casar. A minha mãe era uma pessoa muito feliz, uma pessoa muito marcante. Apesar dela não trabalhar fora, cuidar de sete filhos não foi muito fácil pra ela, principalmente na doença da minha irmã mais nova, que teve paralisia infantil, então pra ela foi muito duro. Mas a imagem que eu tenho da minha mãe é, assim, uma mulher que apesar de todos os problemas, do sofrimento, era uma pessoa muito feliz. Meu pai já era mais sério, já era assim: “Eu tenho que trabalhar pra dar o sustento, então é o que eu faço, trabalhar e sustentar meus filhos”. Ele sempre procurou deixar não faltar nada pra gente, graças a Deus. Acho que por isso que eu sou cozinheira hoje, porque eu nunca passei fome, graças a Deus. Tive vontades, né, vontades de comer, a vida muito difícil, mas fome ele nunca deixou a gente passar.

Somos em sete irmãos: Sonia Cabido Pinheiro, Alcione, Valtencir, Silvania, Luiz Antônio e Patrícia. Lembro como ontem da casa que morei na infância em Piraúba! Eu tenho até fotos dela, lembro direitinho, perfeitamente. Era uma casa de dois quartos, sala, cozinha, uma copa, o banheiro e um quintal enorme, imenso, que morava na roça, né, com muitas árvores frutíferas. Tinha um riacho na frente, tinha um pomar de laranja e eu brincava muito de casinha fazendo comidinha na latinha de sardinha, que a gente roubava arroz da minha mãe e o feijão e cortava matinho e cozinhava nas latinhas de sardinha, do lado desse riacho. Acho que eu tive uma infância muito boa, apesar das dificuldades, uma casa muito simples, mas era bem aconchegante. Aquela cidadezinha bem antiga mesmo, com muito pouco recurso. Eu só lembro do carnaval porque meu pai e minha mãe sempre foram muito carnavalescos, então eles não deixavam de levar a gente no carnaval. Isso era muito gostoso que eu me lembro assim, da minha infância. Meu pai jogava a gente no ombro, saía pulando no meio do salão com os filhos. Cada hora revezava com um, eram marchinhas, aquelas marchinhas antigas, muito doce, muita bala.

Eu vim pra São Paulo com dez anos de idade, que foi quando minha irmã adoeceu. A minha irmã, a quarta das minhas irmãs, ela com três anos de idade teve paralisia infantil, e lá em Piraúba não tinha recursos. Aí meu pai tinha um amigo que morava aqui em São Paulo, que trabalhava aqui. Ele chamou meu pai para trabalhar com ele numa metalúrgica aqui. Aí ele veio e mandou trazer minha mãe pra fazer o tratamento da minha irmã. Nós viemos de ônibus, só que minha mãe veio ela sozinha com sete filhos e ela nunca tinha saído da roça.  A gente percebia que minha mãe sofria, então a gente sofria junto. Ia fazer seis meses que o meu pai estava aqui, fazia seis meses que nós não o víamos. E ele só mandou passagem pra minha mãe e minha mãe veio com sete filhos, sozinha. Então qualquer barulho, ela assustava; ou um chorava, choravam todos. Um gritava, gritavam todos, foi muito sofrido.

Para nós, São Paulo assim era coisa de outro mundo. Então tudo era curioso, tudo era novidade. Morava na roça, nunca fui numa cidade grande, então pra nós tudo era novidade. Foi assim meio assustador, porque minha mãe punha muito medo: “Não faz isso, não faz aquilo”, mas a curiosidade era muita. Então quando começou a matrícula na escola, aí já começou no primeiro ano, no segundo ano, já amizade, Aí você quer conhecer tudo. “Vamos no cinema”, nunca tinha ido no cinema na minha vida! “Vamos no cinema”, então você já saía. Falava pra mãe que ia na casa de uma amiga e já corria pro cinema. Nossa, sair sozinha de casa era um problema, eu apanhava.

Eu comecei a trabalhar com 12 anos. Eu trabalhava numa casa de família, cuidando de uma criança. Até os 15, quando eu arrumei o meu primeiro emprego registrado em carteira, que foi numa empresa de perfume, no Socorro. Meu primeiro salário mesmo, de quando eu comecei a trabalhar, eu comprei uma garrafa térmica pra minha mãe, que ela não tinha. Eu lembro que era azul, uma garrafa azul, uma garrafa térmica azul. Da família, eu fui a primeira a começar a trabalhar, apesar de eu não ser a mais velha. Eu sou a segunda, mas eu fui a primeira a começar a trabalhar. Aí o meu primeiro salário eu fiquei muito feliz. Então o que que eu fiz? Eu fui na loja e comprei uma garrafa térmica pra minha mãe, porque ela não tinha, ela queria ter uma garrafa térmica, mas a vida era muito difícil e ela não tinha uma garrafa térmica. Eu peguei o salário, fui na loja, comprei uma garrafa térmica azul com tampa que eu achava o máximo e dei pra ela. E o restante do dinheiro entreguei na mão dela. Ela comprou roupa pras minhas irmãs, fiquei meio decepcionada. Até hoje eu falava pra ela, coitada: “Meu primeiro salário, você ajudou minhas irmãs e não deixou eu comprar nada pra mim”, mas tudo bem, foi gratificante ver a felicidade dela, a alegria dela, que ela sofria muito nessa época com a doença da minha irmã. Que eu tenho uma irmã que teve paralisia infantil, então ela sofreu muito. Então eu queria só fazer a felicidade dela, eu queria agradar a ela de alguma forma. E assim foi muitos anos, eu trabalhando e dando dinheiro pra ela, só ficava com o dinheiro da condução.

Sair sozinha de casa e voltar oito horas da noite, eu apanhava do meu pai. Eu tinha o que? Uns 14 anos. Tanto é que com 16 eu engravidei, né? Meu pai não deixava, eu ia fazer tudo o que eu queria. Minha mãe me ajudou muito, mas assim, me deu responsabilidade. Ninguém vai ter responsabilidade por você, você vai ter que se virar. Eu já trabalhava e eu tive que me virar. Tinha que trabalhar e estudar, então eu saía quatro e meia da manhã de casa, 20 para as cinco, chegava meia noite, 11 e meia, meia noite, com barrigão.

Eu comecei trabalhando numa fábrica de perfume. Da fábrica de perfume, eu fui pro shopping. Do shopping eu consegui um emprego melhor numa empresa de Fiberglass. E da fábrica de fibra de vidro eu já fui pra aviação aérea. Então eu trabalhei 11 anos na aviação aérea, no departamento de cobrança. Departamento financeiro pra cozinha, tem tudo a ver, né? Aí a empresa fechou, faliu e eu fiquei desempregada, sem dinheiro pra pagar as contas, sem fundo de garantia, sem nada. Eu falei: “E agora?”. Eu tinha a minha filha para sustentar, ela não estava trabalhando. Bateu aquele desespero. Eu tava bem, numa fase boa da minha vida, aí em um ano mudou tudo. Comecei a fazer salgado. Não sabia fazer, fui fazendo coxinha. Dava errado, falei: “Eu não vou desistir, não posso”. Procurava emprego, não achava, não consegui. Mandei mais de trezentos currículos e nada. Comecei aprender a fazer torta sozinha. Pegava a receita, fazia, dava errado. Falava: “E agora, não tenho dinheiro para comprar o ingrediente da outra. Vamos ver o que eu sei fazer”. Comecei fazer biscuit; com o dinheiro que eu vendia os imãzinhas de geladeira, eu comprava ingrediente pra ficar tentando fazer os salgados. Aí fui conseguindo, comecei vender salgado, fazer bolo pra fora, fazer salgado, vendia nos comércios. Festa de aniversário, tudo, eu vendia, tortinhas. Aí uma amiga minha falou: “No Marimax tá precisando de alguém na cozinha. Você não quer tentar?”. Eu falei: “Caramba, eu ganhava ‘x’ de salário, ia ganhar três vezes menos do que eu ganhava”. Falei: “Perto da minha casa, tô desempregada, vou tentar”, e fui. Me desesperei, quase enlouqueci, chorei, não dormi à noite vendo aquelas panelas horrorosas, enormes, eu falei: “Meu Deus, eu não vou conseguir”. E continuei fazendo salgado pra completar a renda. Foi em 2005, por aí. Aí eu fui ficando, ficando, fui pegando gosto, falei: “Agora vou esperar me aposentar”, e tô até hoje. Eu gosto de cozinhar, eu gosto de comer bem, então eu gosto de fazer bem. Acho que se aprende a amar aquele alimento, amar o que você tá fazendo. E você aprendendo isso, os pequenos detalhes, você vai conseguir passar pra frente. Quem é meus telespectadores? São as crianças. Olha, teve um fato que aconteceu, que foi até com criancinha pequena, por incrível que pareça. Porque eu sou assim, eu trabalho com eles: “Se você experimentar minha comida, você vai ganhar nota dez e vai ganhar um beijo”. Gente, é o dia inteiro beijando as crianças. Aí uma criança todo dia ele chegava e não comia. “Tia, eu não quero”. Não insistia: “Como um pouquinho”, “Não, não quero”. Quando foi semana passada, ele chegou pra mim e falou assim: “Tia, você põe comida pra mim, um pouquinho só pra mim experimentar?”. Eu falei pra ele: “Não, você vai pra fila você vai colocar sua comidinha”, ele: “Não quero, tia”. Falei: “Então tá bom”, fui lá, coloquei um pouquinho, ele voltou e falou: “Tia, sua comida é a melhor comida que eu já comi até hoje. A minha mãe não sabe fazer comida assim. Eu posso repetir?”. Sabe quando deixa você emocionada? E mais umas três criancinhas falaram assim: “Tia, sua comida esse ano tá maravilhosa”. Nossa, não tem coisa mais gratificante, de coração mesmo, não tem. Então as crianças vêm, agradecem, falam assim: “Nossa, a sua comida é melhor que a da minha mãe”. Já pensou a mãe ouvir um negócio desse? Então é muito gosto pra gente. Faz muita diferença, porque a forma que depois que eu fiz esses treinamentos, foi uma forma diferente de ver a situação, de ver aquilo ali, sabe? Você começa a olhar diferente. Eu acho que é o amor, sabe? Se você gosta de fazer aquilo, tudo o que você aprende faz diferença. Então é a paciência, é a dedicação, é o amor. Quando eu entrei na cozinha foi muito difícil, muito difícil mesmo, porque eu tinha empregada pra fazer as coisas pra mim. Eu perdi tudo e tive que começar de novo. Começar como? Numa cozinha. Eu fazia dez quilos de arroz, eu fazia duzentos gramas de arroz. Fazia dez quilos de arroz, 25 quilos de carne, eu chorava dia e noite. Eu chegava em casa morta, a casa rodava, chorava. Hoje se você me por numa mesa de escritório, eu não vou. Não vou, sinceramente. Eu gosto do que eu faço e eu quero aprender. É o que mudou.

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