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História

Uma vida de trabalho

História de: Joaquim Pereira Filho
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/08/2008

Sinopse

Joaquim Pereira Filho relembra momentos marcantes de sua infância, juventude e carreira em siderúrgicas. Relembra as viagens que fez a trabalho e como sua carreira ascendeu. Além de relatos de como era o antigo Rio Tiete e as práticas de esportes e sociais que aconteciam nele. Entre momentos de trabalho e momentos pessoais, Joaquim tece sua vida ligando os momentos que mais o marcou.

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História completa

P/1 – Seu Joaquim, o senhor, por favor, fale o seu nome todo, a cidade que o senhor nasceu e a data.

 

R – O meu nome é Joaquim Pereira Filho. Nasci aqui em São Paulo, no bairro da Penha. Antigamente chamava-se Penha de França, em 30 de dezembro de 1931.

 

P/1 – Em São Paulo?

 

R – São Paulo.

 

P/1 – Qual o nome de seus pais?

 

R – Meu pai chamava-se Joaquim Felipe Pereira. Daí o meu nome ser Filho, Pereira Filho. Minha mãe Maria de Lourdes, com o em francês, Pereira.

 

P/1 – A atividade do seu pai, qual é?

 

R – Meu pai era farmacêutico, foi farmacêutico aqui em São Paulo.

 

P/1 – Falecido?

 

R – Falecido já.

 

P/1 – E a sua mãe, a atividade dela?

 

R – Minha mãe era professora de piano, e também falecida.

 

P/1 – Seus avós, você conheceu?

 

R – Conheci meu avô. Meu avô era da família Camargo, de Cotia. Chamava-se Albertino de Camargo. Esse foi o único que eu conheci.

 

P/2 – Paterno ou materno?

 

R – É o avô materno.

 

P/1 – Agora, da origem da sua família, apesar de não ter conhecido seus avós, mas, qual a origem deles?

 

R – Bom, por parte de pai nós somos originários de Minas Gerais, sul de Minas. Hoje, antigamente chamava-se São Caetano, agora chamasse Brasópolis. Agora não, já há algum tempo chama-se Brasópolis. Porque um dos membros da família foi o Venceslau Brás Pereira Guimarães, depois de falecido deu o nome à cidade. E os meus avós, os pais de meus pais eram de Brasópolis. Tanto meu avô, o Ângelo, quanto à mulher dele.

 

P/1 – Todos da família eram de Minas?

 

R – Isso por parte de pai. Agora, por parte de mãe nós temos duas raízes: uma raiz que é de São Paulo, de Cotia, que são os Camargos, de Cotia. Aliás, os Camargos, de Cotia, são famosos aí na história através de uma rixa que teve entre a família Pires e a família Camargo. Interessante que foi uma rixa que acabou em paz, depois com um casamento entre um elemento de uma família e de outra. E então dos Camargos nós temos, eu tenho o avô, o meu Albertino de Camargo e, a minha avó que se casou com ele, dona Delfina, ela era carioca. Ela veio do Rio, veio através de outra família que é a família Araujo.

 

P/1 – Agora, da sua infância, conta um pouco assim o lugar que você morava, como era, como eram as brincadeiras, do que você lembra.

 

R – Bom, o meu pai como farmacêutico, ele iniciou-se aqui na Vila Mariana, mas sociedade em uma farmácia acho que nos anos 27, se não me falha a memória. E, mais tarde, no ano seguinte, 28, ele montou uma farmácia própria num lugar onde ele pudesse, ou seja, uma farmácia com bastante, digamos, clientela. Podemos dizer assim. Ele colocou no ponto final do bonde lá no bairro da Penha, naquela época chamava-se Penha de França. E essa farmácia chamava-se Farmácia Nossa Senhora do Rosário. E era de fronte à Igreja Nossa Senhora do Rosário, mais conhecida como Igreja dos Pretos. Nós tínhamos lá duas igrejas: a Igreja de Nossa Senhora da Penha, que eu acho que no passado tinha sido a Igreja dos Brancos, eu creio. (riso) E essa menorzinha que era a Igreja de Nossa Senhora do Rosário. E ali em frente ele pôs essa farmácia e lá eu nasci. Eu, evidentemente, não me lembro muito, eu me lembro pouquíssimas coisas, porque quando nós mudamos dessa farmácia, que ele mudou para uma outra, eu morava no fundo da farmácia, na Rua da Penha. Aí eu passei, passo a recordar a partir dos quatro anos essas coisas que a gente fazia.

 

P/1 – E você morou nessa farmácia, nos fundos da farmácia, até uns quatro anos?

 

R – Não, depois ele mudou-se para outra. Ele morava, essa farmácia era no Largo do Rosário, número oito. Depois ele mudou-se uns 500 metros adiante, na Rua da Penha no número 20, e montou uma farmácia mais moderna, etc. E, nessa farmácia, eu me lembro já, porque eu já tinha acho que uns quatro anos, eu me lembro de alguma coisa. Eu me lembro vagamente de uma viagem uma vez que nós fizemos a Campos do Jordão. Estava eu, meu pai, minha mãe. Eu e a minha irmã mais nova. Foi uma viagem que nós fizemos de trem para Campos do Jordão. E fomos visitar o meu avô Albertino, que estava trabalhando em Campos do Jordão. Ele era o agente postal lá da cidade. E nessa viagem eu me lembro que ele me colocou, a gente montou no cavalo e eu ficava no colo dele. Isso eu me lembro vagamente, porque eu acho que eu estava com um pouco de medo. (risos)

 

P/1 – Como era a Penha nessa época?

 

R – Ah, eu acho que a Penha devia ser uma delícia. Os meus quatro, cinco anos eu não recordo muito bem da Penha, me recordo mais das coisas que aconteciam dentro de casa. Mas aos seis anos eu fui para o colégio das freiras vicentinas, Colégio São Vicente de Paulo. E aí eu me lembro que a gente saía de casa a pé e ia sozinho para a escola. Quando tinha alguma dificuldade de atravessar a rua vinha um guarda civil, alto, preto, forte, que era muito amigo do papai: “Meninos, vamos atravessar a rua aqui.” era uma coisa sensacional. Eu acho que naquele tempo, segundo a gente ouvia, existiam alguns ladrões de galinha, certo, que entravam pelos fundos do quintal. (risos)

 

P/1 – Você tinha irmãos?

 

R – Tinha duas irmãs.

 

P/1 – Ah, você falou da sua irmã, mas tinha outros?

 

R – Tinha uma irmã, Neide, já falecida, e a irmã mais nova, a Gessy, que ainda está viva.

 

P/2 – Você se lembra de festas que aconteciam ali no bairro da Penha?

 

R – Ah, no bairro da Penha era, era um bairro muito festeiro, porque era assim...

 

(pausa)

 

P/1 – Então, seu Joaquim, o senhor estava falando das festas da Penha, do que você lembra.

 

R – É, a Penha sempre foi um bairro muito festeiro, como eu disse. E, por quê? Porque naquela época quem mandava nas coisas eram os padres. E os padres uma igreja muito forte. Eram os padres redentoristas, né? Para ter uma idéia da força deles os padres redentoristas é que construíram a Igreja de Nossa Senhora de Aparecida. Então nós tínhamos festas fantásticas. Nós tínhamos procissões, famosas procissões. A procissão mais famosa era a procissão de Corpus Christi. E tinha Maria Madalena. E, às vezes, como eu estudava no colégio, às vezes, a gente era obrigado a desfilar na procissão meio fantasiado lá de coroinha, ou coisa que o valha. Mas eram procissões interessantes, viu? Hoje eu acho que uma festa que infelizmente aqui nós não temos mais. Só, talvez, no interior, em alguns lugares do interior de São Paulo.  Nós tínhamos as quermesses. As quermesses eram coisas muito bem organizadas por aquelas mulheres lá, devotas de várias ligas ligadas à igreja, e que faziam uma festa muito bonita. Tinha uma banda de música onde tocava o seu João, trompetista. O outro tocava bumbo lá, o seu Antonio. Eu ficava ali olhando aquele pessoal tocar e falava: “Puxa, um dia eu vou tocar um negócio desse grandão, que faz barulho assim”. Era uma coisa notável. Tinha os leilões. Leilões que faziam, leiloava-se de tudo. E, naquela época, os objetos leiloados, as coisas leiloadas eram muito diferentes. Por exemplo, ia a leilão: “Quanto me dão por este cabrito? O cabritinho está bonito” e tal. E assim eram as coisas que eram leiloadas. Nas festas ali, naquela corrida do ratinho, coisas, tinha sempre um alto-falante dando músicas e fazendo: “Joãozinho oferece para Mariazinha que está na banca número tal, fazendo não sei o que”. Então era uma vida assim, era uma vida familiar, onde todos mais ou menos se conheciam e se apresentavam ali para aquela festa, que tinha os rendimentos para a igreja. Essas são as festas, digamos, religiosas. Nós tínhamos também outros tipos de áreas, de coisas a fazer. Tinha o clube. Nós tínhamos o clube chamado Clube Esportivo da Penha, existe até hoje. E, meu pai era um dos fundadores desse clube, farmacêutico, seu Joaquim da Farmácia. E a gente, obrigatoriamente, ia nesse clube. E papai tinha lá, inclusive, um sandolim. Não sei se vocês sabem o que é um sandolim?

 

P/1 – O que é um sandolim?

 

R – Um sandolim é essa barquinha que o pessoal corre nas corredeiras. Tem um remo que tem duas partes assim, que você vai remando. Então ele tinha um sandolim para remar no rio, mas ele não deixava que a gente andasse no sandolim. O sandolim era para uma pessoa só. E ele era muito fácil de virar. Mas foi lá no Rio Tiete que eu aprendi a nadar.

 

P/1 – Olha.

 

R – Então, tinha os chamados cochos. Um cocho o que é que era? Era uma caixa grande colocada dentro d’água, boiava lá, tinha um sistema de bóias para mantê-la ali. E você ali, como tinha fundo de madeira, você, tinha sete metros, você ali aprendia a boiar e a nadar. Meu pai nadava razoavelmente bem e ensinou a gente, todos, eu e minhas irmãs a nadarem no rio. Nós aprendemos a nadar no rio Tiete, dentro do rio Tiete. Alias um rio extraordinário, porque a gente fazia outras coisas, depois quando estava mais adolescente eu já podia andar nas catraias. Então a gente remava. A gente tinha duas possibilidades: subindo o rio ia até a Ponte Grande. Ponte Grande era uma ponte que ligava, digamos, que ligava um trecho da estrada que ia da Penha a Guarulhos, que era, antigamente, Estrada de Guarulhos. Agora tem Gabriela Mistral, o nome da estrada. E a gente ia subindo. E, descendo o rio, que era mais difícil porque para descer era um pouco mais longo, a gente ia até o Sport Club Corinthians. Aliás, time do meu coração (risos). A gente ia até o Corinthians e voltava. Essa volta era um pouco dura, porque era, tinha umas corredeiras ali, era meio complicado.

 

P/1 – Vocês iam remando?

 

R – Ia remando. A gente se revezava. Normalmente iam a dois. Às vezes ia eu e meu pai, mais tarde quando, às vezes, ia eu e meu primo, a gente se revezava no remo. Mas era divertido. E naquelas lagoas que se formavam, né, existia. Hoje o rio está todo, não existe mais as lagoas, hoje são bairros que foram aterrados. O rio está todo retificado. Naquelas lagoas a gente, de vez em quando, ia pescar uns lambaris.

 

P/1 – Olha que gostoso.

 

R – Era uma coisa diferente. Você dizer que tomava banho dentro do rio Tiete? Hoje essa poluição. E que você ainda encontrava alguns lambaris lá, é uma coisa extraordinária.

 

P/1 – Agora, você falou do seu pai farmacêutico, Joaquim da Farmácia. Como era assim, ser filho do Joaquim Farmacêutico?

 

R – Bom, era conhecidíssimo, né? “Não, esse aqui é o Joaquim, é o Joaquinzinho.” Como me chamavam, né? Mas em casa eu era, para ficar mais fácil de ser chamado, eu era o Quinzinho. Porque o Joaquinzinho ficava muito longo. Então passei a ser o Quinzinho. Aliás, eu sou Quinzinho até hoje para a minha família. E os amigos da minha mulher, quando a minha mulher me chama de Quinzinho, as amigas dela me chamam de Quinzinho. Então atendo o telefone lá em casa, fala assim: “É o seu Quinzinho?” Eu falo: “É ele mesmo.” quer dizer, sou Quinzinho até hoje. (risos)

 

P/2 – Que legal.

 

P/1 – Agora, você começou a falar da sua adolescência, né? Quando você já estava...

 

R – É, a adolescência também...

 

P/1 – Continuava na Penha?

 

R – Não, eu morei na Penha a vida toda até me casar. Depois que eu me casei aí eu mudei da Penha. Aliás, eu mudei da Penha e fui para bem longe. Então é o seguinte: eu morei na Penha porque meu avô também morava na Penha. Meu avô vivo, por parte de, seu Albertino, vovô. Vovô Tino como a gente chamava. Vovô Tino morava na Penha. Aposentou-se dos Correios. Sempre foi funcionário dos Correios e Telégrafos. Aposentou-se. Ele era um camarada muito dado à caça e pesca. Mas muito mais à pesca do que à caça. A gente pescava muito. E pescava nesse rio Tiete mais um pouquinho a montante. Depois de São Miguel. Porque em São Miguel tem uma fábrica, uma usina que joga muitos detritos e muito ácido, muita coisa lá, isso é que mata os peixes. Então a gente ia pescar em Itaim, Itaim Paulista e Itaquaquecetuba (risos). Ê nome bonito, né? Então essas coisas eu me lembro, mas eu tenho até fotografias aí. Não sei, às vezes eu olho aquelas fotografias e falo: “Mas que coisa bacana”. Nós pescávamos ali e, às vezes, pescávamos peixes grandes. Em Itaquaquecetuba, meu avô chegou a comprar uma casinha velha lá, que a gente chamava de rancho, rancho de pescaria. La se guardava todos os materiais de pesca. Os tios, meus tios filhos do meu avô, um deles tinha motor, levou para lá. Motor de popa. Tinha um belo barco lá para a gente. Um barco, uma canoa grande, comprida, para a gente usar. Enfim, tinha todos os apetrechos: rede, varas de pesca, etc. E ali, nesse rio nós nos divertimos à beça. Nadávamos no rio, lá nessa, nesse lugar. Hoje se vocês forem lá o rio é preto. O rio não é nada do que era naquela época. Lá a gente fazia grandes pescarias. O maior peixe que foi pescado nesse rio quem pescou fui eu.

 

P/1 – Ôpa. (risos)

 

R – Uma vez nós fomos fazer uma pescaria lá e: “Ah, vamos, tal.” Carregamos o barco: eu, dois tios, meu avô e um primo. E descemos o rio no motor, num lugar lá que eles chamavam de laje. Vamos pescar na laje. A laje tinha um lugar que era profundo e um lugar que era raso. E nós ficamos lançando as iscas ali, com anzóis e tal. A gente, os menores, eu tinha o que? Uns 13, 14, acho que ainda não tinha 14 anos, 12 a 13 anos. Meu primo devia ter 11 anos. Nós ali pescando na beiradinha, aqueles lambarizinhos, aquelas coisinhas, alguma isca. Pegando alguma isca para eles. Uns mandizinhos pequenininhos assim. Eles deixaram as varas ali fincadas - aquelas varas grandes, compridas. Para mim que era menino via aquelas enormes varas, e aquelas linhadas longas lançadas lá embaixo - e foram fazer não sei o que para lá. Foram pescar outros bichos para lá. E, meu avô também estava por ali: “Toma conta das varas, meninos.” Fiquei eu e meu primo ali. De repente uma daquelas varas ela fez assim: vuaaaa. No que fez assim eu falei: “Tio...”, aliás, ele era meu tio e era meu padrinho, “Padrinho, a vara está puxando!”. Ele falou: “Espera aí que eu estou indo”. Só que ele estava muito distante, tinha aqueles barrancos. E o outro tio que estava mais para cá falou: “Tira ela e puxa, Quinzinho! Puxa que você vai fisgar! Fisga!”. Aí eu fui lá. O outro mandou, eu puxei. E fisgou. Era um enorme peixe. Era um negócio que eu fiz força ali e aquilo não ia, e não vinha. Eu, moleque ali, 12 anos ali, segurando aquele bicho. Meu primo falava: “Puxa vida, será que ele vai fugir? Será que ele vai fugir?” E, de repente, chega os dois tios lá, e um deles fala: “Deixa que eu vou tirar ele d’água”. Tirou, era um peixe enorme. Era um bagre, um enorme bagre, né? Aí a gente, eles tinham lá, sempre tinha uma parede lá no rancho onde a gente media os peixes, os campeões. Então se desenhava a carvão o peixe na parede e punha o nome do pescador. Aí, quando foram por o meu lá, era o maior de todos. E, de fato, até o fim das pescarias aquele foi o maior peixe. Então, da minha adolescência tem fatos assim.

 

P/1 – Como é Joaquim, ou como foi, ver mudar esse rio assim? Você tem lembrança disso?

 

R – Ah, isso aqui foi uma coisa desastrosa, porque o rio foi mudando aos poucos. Ele foi se poluindo. Quando a gente morava na Penha, ele, aos poucos, não tinha mais peixe. De repente o clube fechou a natação, não podia mais nadar porque a poluição era muita, tinha muito ácido no rio. Então as coisas foram acontecendo ano após ano. De tal forma que hoje, se você passa, você vai aí ao rio Tiete e você olha, o rio Tiete é um rio preto. Se você pegar a água ela não é transparente, ela é turva, ela é feia. Eu acho que nós esquecemos... São dessas coisas... Eu sou engenheiro civil. Eu, uma vez que estive em Londres, conversando com um camarada ele falou: “Mas em Londres no fim do século XIX os nobres começaram a despoluir o nosso rio aqui, o rio Tamisa.” E hoje você indo ao Tamisa você vê um rio limpo. Relativamente limpo. Que tem, inclusive, em alguns trechos tem peixe. Eu vi a mesma coisa eu vi no rio Sena. No rio Sena tem peixe, tem gente que fica pescando lá. La em Firenze, na Itália, no Arno, eu vi camarada pegar peixes desse tamanho. Ali no meio da cidade. Então o que é que falta para nós? Acho que falta um pouco de boa vontade. Dizem que o FMI não deixa, mas eu acho que a boa vontade é que é importante.

 

P/1 – Agora, você diz que estudou no colégio?

 

R – Eu estudei no Colégio São Vicente de Paula, na Penha de França.

 

P/1 – E que lembranças você tem dessa época?

 

R – Ah, boas lembranças, né? Algumas boas, outras não tão boas assim. (risos) Lá é o seguinte...

 

P/1 – Então conta para a gente.

 

R – A não tão boa é o seguinte: logo que eu entrei na escola, eu entrei no jardim de infância, a lembrança foi ótima no jardim de infância, até passar para o primeiro ano. No primeiro ano tinha uma irmã lá que era o terror. Nossa, eu não vou denunciar aqui o nome dela, porque ela já morreu há mil anos.

 

P/1 – Foi sua professora?

 

R – Ela foi professora no primeiro ano. Mas ela dizia assim: “O camarada que for mau aluno eu vou prender naquele lugar ali, junto com os esqueletos.” Então... E uma vez ela prendeu um deles lá. Então a gente tinha aquele medo de ir para lá. A gente, ó, dava um duro ali para ser bom aluno. Mas aí para o segundo, para o terceiro ano, o quarto ano tinha a irmã Suzana. A irmã Suzana era coisa extraordinária. Ela jogava futebol com a gente. Ela ia lá, levantava as calças e chutava, e vinha para cá. Ela que organizava os times e tal. Era uma irmã extraordinária. Essas irmãs elas eram de origem holandesa, são de origem holandesa, então elas eram muito abertas, naquela época, pra... Era diferente das irmãs de origem espanhola, que também a gente sabia da existência. Elas eram muito abertas a tudo, muito mais liberais. Quer dizer, da escola, dessa, do colégio eu tenho essa... Eu saí com uma boa formação desse colégio. Porque eu consegui logo depois, eu precisava fazer o ginásio e o meu pai me colocou em um ginásio relativamente bom, que era o Liceu Acadêmico São Paulo. Nós não tínhamos ginásio lá no bairro, nem no Tatuapé, que era o bairro mais próximo. Então ele colocou no Ginásio Acadêmico São Paulo, que era na Rua Oriente. Hoje é faculdade. Era um ginásio muito bom. Essa eu me lembro...

 

P/1 – Era misto, Joaquim?

 

R – Era misto, era misto. Primeiro ano a gente fez era só meninos. Segundo ano já era meninos e meninas. Terceiro ano era só meninos. Quarto ano também só meninos. Mas também foi um ginásio que me deu uma formação muito boa. Tivemos bons professores de matemática, de português, professor de ciências. Sensacionais professores. O de português, professor Luponi tinha uma técnica para ensinar português extraordinária. O camarada, ele chamava lá na frente, e falava assim: “Aplicação da partícula se.” Se o camarada errava ele falava: “Vira de costas.” E, pum, um ponta-pé no traseiro do aluno. Essa era uma técnica que dava certo, porque ninguém queria levar um ponta-pé. Ele não dava com força, mas só o fato de você levar um ponta-pé no traseiro na frente dos outros, era sensacionalmente positivo para a gente estudar. Eu fui um excelente aluno de português. Coisa que eu sou até hoje, né? Bom em português.

 

P/1 – Gosta. Gosta de ler, escrever?

 

R – Não, eu escrevo, posso dizer que eu escrevo bem. Hoje eu faço meus poemas aí. Hoje não, já há muitos anos eu faço meus poemas.

 

P/1 – Você acha que foi influência dele?

 

R – Não foi influência dele, mas ele fez com que a gente escrevesse bem, com que a gente aprendesse a escrever. Isso eu acho que, a escrever e a falar, eu acho que o professor... Uma vez há muitos anos atrás eu vi um anúncio: “O professor Arthur Luponi faleceu.” Eu falei: “Puxa, esse cara foi um grande homem.”

 

P/1 – E assim, e as namoradas nessa época, já tinha?

 

R – Não, olha, no ginásio não tinha namorada. No ginásio o que tinha era o seguinte: nós tínhamos a festa de formatura do fim do ano. E a festa de formatura tinha o baile. Baile bacana, e tal. Foi feito aqui num clube chique aqui. O pessoal queria gastar, tudo bem. Então, bom, todo mundo tinha as suas madrinhas, e eu não tinha a minha madrinha porque eu era uma pessoa muito tímida. Então cheguei no dia do baile, tinha umas meninas que não passaram, né? E estavam lá no baile. Cheguei para uma delas, uma gordinha, mas bonitinha assim. E muito assim, tal. Ela não passou acho que por ser muito assim. Eu falei: “Escuta, eu estou sem madrinha, você quer ser minha madrinha?” Ela falou: “Ah, gostaria.” Agora, eu não era pé-de-valsa. Não sabia dar um passo sequer. “Então você vai dançar a valsa comigo.” E ela foi, dançou a valsa. Eu pisei no pé dela o tempo todo, mas ela adorou porque afinal ela não se formou e dançou a valsa de formatura, né?

 

P/2 – Com certeza.

 

P/1 – Você fez o colegial nessa escola, Joaquim?

 

R – Não, eu saí do ginásio e falei para o, meu pai dizia assim: “Você tem que me ajudar sempre na farmácia.” Embora eu ajudasse as horas vagas na farmácia. Nessa época já nós morávamos nessa casa, porque ele aumentou a farmácia. Ele tinha comprado uma casa lá de um tio meu e nós mudamos para essa casa. Essa outra casa. A coisa mais difícil na mudança para essa outra casa sabe qual foi? Levar o gato.

 

P/1 – Levar o gato?

 

R – É, o gato não queria ir. Nós levamos o gato, ele voltou. Aí, puxa vida, minha mãe foi falar com uma pessoa lá: “Como que faz para transportar um gato de uma casa para outra?” Ela deu umas idéias lá, aí nós conseguimos levar o gato. Foi a coisa mais difícil na mudança.

 

P/2 – Olha, que interessante.

 

R – O nome do gato era miau (risos).

 

P/1 – Você ajudava seu pai na farmácia?

 

R – Ajudava. Depois que nós mudamos, aí eu fiquei ajudando mais. Porque aí ele, às vezes, não vinha jantar em casa, minha mãe falava: “Ah, tem que levar o jantar lá”. Então eu pegava aquela marmitinha e levava lá não farmácia, ficava a noite com ele. Mas no, você falou, perguntou do colégio, né?

 

P/1 – É.

 

R – O colégio eu falei: “Bom, pai, eu não quero dar mais despesa aqui em casa, eu vou fazer em colégio público”. “É, você não tem capacidade para isso, tal, isso aí precisa saber muito”. Eu prestei exame lá, tem um exame no Colégio Roosevelt, na, o Roosevelt tinha, naquela época, o principal prédio era no parque Dom Pedro II. Então eu prestei e passei. Passei em sexto lugar. Tinha 30 vagas eu passei em sexto lugar. Aí eu fui lá e falei: “Aí, pai, está aqui, ó, sexto lugar.”

 

P/1 – Porque era mais difícil o colégio público?

 

R – Era um colégio modelo. O melhor colégio era o Roosevelt da Pedro II. E tinha um departamento dele que era lá na Rua São Joaquim. Aí eu estudei nesse colégio, eu fiz nesse, fiz na São Joaquim também, porque fiz uma transferência por causa do problema de período de aula. E me formei nesse colégio.

 

P/1 – E que lembrança você tem dessa época?

 

R – Ah, esse colégio ele me deu uma boa formação, viu? Eu acho que eu tive também bons, excelentes professores de matemática. Eu tive uma ótima professora de português. Outra, excelente, professora de francês. E um excelente professor de espanhol, que foi o professor Hidel Becker. Que já faleceu, mas tinha livros dele sobre espanhol. Então eu tive uma formação muito boa, tanto da parte de Humanas quanto da parte de Exatas. E, esqueci do professor de biologia, que também era excelente. Então a gente estava com embasamento forte para qualquer escola. E foi o que aconteceu, depois eu consegui, eu entrei em duas escolas, né? Eu entrei no ITA e na Escola Politécnica.

 

P/1 – Nossa, e sem fazer cursinho?

 

R – Não, eu fiz, não, na primeira vez eu...

 

P/1 – Naquela...

 

R – Eu prestei dois exames. Na primeira vez eu prestei exame para o ITA e para a Poli, na Poli eu fiquei em uma matéria de desenho. Porque desenho só tinha uma, só tinha um exame. Todas as matérias tinham dois exames, desenho tinha um. E eu fiquei, justamente, em desenho. Eu fiquei porque eu não atingi a nota mínima que era nota três. Foi uma prova dificílima. Mas eu passei muito bem no ITA. No ITA nós tínhamos a turma, tinha os mais adiantados e os mais atrasados. Eu passei na turma dos mais adiantados. Eu fui para o ITA, e fiquei lá no ITA um ano, ou quase um ano. Quando foi em setembro eu desisti do ITA, falei: “Eu vou embora.” Meu pai ficou bravo comigo, não conversou comigo durante muito tempo, acho que uns seis meses. Eu falei: “Não, eu quero ir para a Poli.” Eu vim para São Paulo, minha mãe me deu uma por baixo lá para custear um cursinho, porque tem sempre os macetes. Eu fiz três meses de cursinho no Anglo Latino e entrei na Poli. Aí quando entrei na Poli ele veio conversar comigo. (risos)

 

P/2 – Eu queria voltar só um pouquinho para saber como é que foi essa escolha pelo curso de Engenharia? Como é que nasceu?

 

R – Olha, até hoje eu acho essa escolha terrível. Eu digo terrível, é terrível para qualquer um. Porque você não sabe o que você quer ser. Talvez eu, se eu tivesse tido uma orientação eu teria escolhido outra coisa. Talvez Administração, mas não existia Administração ainda. Passou a existir um pouquinho depois, um ano depois, se não me engano. Mas, não sei, Direito, talvez, Humanas. Porque eu trabalhei sempre como engenheiro, mas sempre na área de administração. Então a escolha foi muito difícil. Eu pensei que, talvez, deveria ser engenheiro agrônomo. Cheguei a comprar aquele negócio todo, apostila, estudar aquilo. Aí um amigo meu falou: “Poxa, tem o ITA, essa escola nova, não sei o que, e tal e coisa.” Nunca pensei em Medicina, nem Direito, mas pensei em ser agrônomo. E acabei sendo, seguindo a carreira de engenheiro. Não sei se dá para entender, porque eu mesmo até hoje não me entendo. Como nós vamos falar daqui a pouco sobre o meu curso de Engenharia, eu vou falar, chegar nessa questão sob outro ponto de vista.

 

P/1 – Então antes de entrar na Engenharia, você tem alguma lembrança da época de jovem, adolescente que você acha interessante contar? Ou como você conheceu a sua esposa?

 

R – Não, a minha esposa eu conheci bem depois, quando estava no quarto...

 

P/1 – Ah, bem depois.

 

R –... Ano de Engenharia, né?

 

P/1 – Mas dessa época de jovem, antes de entrar ainda na faculdade, se você tem alguma lembrança assim que você gostaria de contar.

 

R – Não, eu acho que as viagens que a gente fez foram sensacionais. Eu fiz uma viagem para Foz do Iguaçu, quando eu terminei o curso médio, o colegial, como se fala, o curso científico com uma boa classificação. E meu pai falou: “Bom, já que você terminou com satisfação um curso que eu achava que você não tinha nem condição de ter entrado, você, o que é que você quer?” Eu falei: “Olha, eu quero fazer uma viagem com um pessoal aí, uns colegas que vão fazer uma viagem, não sei o que lá. Dois colegas que vão fazer essa viagem aí”. Da minha turma. Eles iam para Foz do Iguaçu com a família. Ele: “Então você vê lá o que é, me diz aí, eu te dou o dinheiro.” Eu fui para Foz do Iguaçu. Foi um negócio extraordinário. Porque, sinceramente, eu já voltei à Foz do Iguaçu depois, mas essa viagem, nessa época, para mim foi melhor. Porque hoje Foz do Iguaçu tem uma porção de facilidades para o turista, né? Aquela época não tinha nada. Então você pegava aquela canoinha, o cara ia puxando aquele, tinha um, ele tinha cabo de aço lá. Ele pegava com a mão, puxava aqui aquela canoinha, aquilo lá. Lá embaixo a água caindo e você aqui, e você olhava aquela água caindo. Você com aquele medo. E, de repente, a canoinha ia para um lugar que não estava marcado, parava ali. Aí você descia chegava lá na Garganta do Diabo e olhava. Só não via o Diabo lá embaixo, mas a garganta estava lá. Era um negócio extraordinário. Eu tenho as fotografias dessa viagem que eu fiz - branco e preto, naquela época - que eu não, eu voltei lá, eu não consegui fazer esse tipo de fotografia. Porque você não pode mais ir lá. É proibido ir lá. Porque já morreu gente lá, então eles suspenderam esse negócio. Quer dizer, são coisas, essa é uma lembrança boa. Tem outras lembranças boas aí também.

 

P/1 – Não quer contar?

 

P/2 – Havia bailes? Frequentava carnaval? Você até trouxe uma fotografia de carnaval...

 

R – Olha, do tempo do curso médio, quando eu era adolescente, não sei, naquela época a gente não era dado a esse negócio de sair. Eu, por exemplo, eu comecei a aprender a dançar, eu tenho a impressão que no fim do meu curso. Quer dizer, a gente, até essa época que a gente o que? Tinha 16 anos, 17 anos, sair à noite era meio complicado. A gente não tinha esse staff. Sabe o que é staff?

 

P/1 – Hum, hum.

 

R – Staff é aquele negócio, quando o trem passava, antigamente, na estação pegava um negócio ele passava, pegava o staff que era para chegar à estação seguinte, dizer: “Está aqui para o outro trem poder passar.” Então nós não tínhamos o staff dos nossos pais para isto. O que a gente fazia mesmo era as pescarias, porque aí você ia com um mais velho, sempre. Nós íamos muito às pescarias. Para Santos fomos algumas vezes, né? Uma vez eu fui à Santos lá, um: “Ah, vamos lá e tal. Nós temos, eu tenho, meus pais têm uma casa lá.” E nós fomos. Chegamos lá na casa, era uma casa de madeira, e tudo bem, tal. Fizemos as maiores bagunças da paróquia na casa lá. Mulheres, nessa época, nem se pensava. Era tudo coisa de moleque mesmo. Aí, precisa fazer uma limpeza na casa”. Ah, fazer uma limpeza, então vamos fazer o seguinte: você fica encarregado disso”. Eu peguei uma vassoura comecei a varrer aquilo e tal. Tinha um buraquinho lá, aquele pau, a madeira da casa, chegava lá e tinha uns podrinhos ali. Eu varri, varri. Saiu um monte de abelha. Abelha, não sei o que é que era aquilo. E veio tudo em cima de mim, me mordendo assim. Aí eu saí correndo. O cara falou, o que é que é? Eu falei: “Abelha! Não sei o que é isso aqui!” Ele pegou o balde d’água que eu estava ali, tchum, jogou nas minhas pernas. Aí saí de lá. De repente as pernas começaram a ficar enormes, os pés assim enormes. Aí eu tive que ir à farmácia, né? Chegou à farmácia o cara falou: “Ó, não vai poder botar o sapato. Tira o sapato”. Eu voltei para casa assim, né? De ônibus, naquele tempo pegava um ônibus descia na cidade. Você ia descalço até o ônibus que você ia pegar.

 

P/1 – (risos) Nossa.

 

R – Saí de lá da Praia Grande, pegar um ônibus até São Vicente e outro ônibus até São Paulo. Aqui em São Paulo você descia, ia a pé até a Praça da Sé. Pegar o ônibus para ir para a tua casa. Depois você descer de ônibus, chegar em casa descalço? Sabe que dia era?

 

P/1 – Que dia era?

 

R – Vinte e quatro de dezembro.

 

P/1 – Nossa.

 

R – (risos)

 

R – Foi o dia que eu cheguei assim, minha mãe falou: “O que aconteceu com você, meu filho?” Eu falei: “Eu não estou podendo andar, mãe.”

 

P/1 – Joaquim, eu acho que você, dá a impressão que você era bem estudioso. Era assim? Como era isso?

 

R – Não, CDF, você quer dizer?

 

P/1 – Não, estudioso, dedicado.

 

R – CDF é aquele que senta, senta e não sai da cadeira. Eu não era muito estudioso. Eu estudava, acho que o suficiente para passar. Se eu tivesse nota seis, para mim estava ótimo. Eu me lembro, vou voltar um pouquinho atrás, para lembrar uma, o que aconteceu no ginásio. Porque no ginásio tinha um japonês no segundo ano, e ele era o melhor da turma. Aí do segundo ano nós passamos para o terceiro ano. E aí no terceiro ano ele continuava o melhor, mas o segundo melhor era eu. E o pessoal falou: “Olha, vamos fazer uma fezinha em você, que você vai ser o melhor da turma esse ano. Nós vamos fazer uma fezinha aqui, se você for, no final do ano a gente vai te dar uma festa.” Aí eu estudei para porra, mas o japonês era fogo, viu? Eu, a gente era lá: “Bom, Português, o Joaquim 10! Japonês nove e meio.” “Puxa, ôpa.” o pessoal “Ahhhh!”

 

P/1 –/p2 - (risos)

 

R – “Latim: Joaquim, 10.” Porque ele vinha depois, né, na lista. “Japonês, 10!” O pessoal: “Ehhhhh!” “Francês, Joaquim, 10! Japonês, nove!” o pessoal: “Ahhhh!” falava: “Puxa.” Agora: “Matemática: Joaquim, oito. Japonês, 10!” Aí eu perdi por meio ponto nas quartas finais, não ganhei a festa. (risos)

 

P/1 – E aí você...

 

(pausa)

 

P/1 – Então, Joaquim, vamos falar um pouco da sua entrada na Engenharia. Você disse que escolheu o curso, mas foi difícil essa escolha e aí entrou no ITA.

 

R – Isso, entrei no ITA e depois eu achei que o ITA ia me bitolar. Eu ia ficar com aquela cara de milico, um negócio que não era da minha família, ninguém tinha sido assim. Não dava certo. Eu também não tinha esse jeitão. Mas era um excelente curso. Aprendi muito lá. Química aprendi horrores. Matemática aprendi horrores. Isso foi muito bom para mim depois, na minha vida profissional, mas eu resolvi fazer a Escola Politécnica. Aí entrei na Escola Politécnica. E a gente entra na Escola Politécnica diz assim: “Eu vou ser um grande engenheiro.” Você entra: “Eu quero construir, fazer casas bonitas, quero fazer pontes, fazer isso...” Aí no primeiro ano você é massacrado. Sabe o que é um massacre? Um massacre é o seguinte, é o camarada chegar e falar assim: “O que é que eu vou ter? Eu vou ter aulas de Matemática, de tudo quanto é tipo de matemática”. Todo mundo fala da mesma coisa ou sobre. É como se a gente fosse fazer uma tela, a gente fosse pintar um nu artístico e você visse, pintasse de frente, de costa e de lado. Lá não, eles só, o nu artístico chama assim: Matemática. E um vinha de frente, outro de costa, de cima (risos) de lado e de baixo. Só se falava em matemática sob vários ângulos. Então as matérias do primeiro ano eram causticas. Isso não sou eu que estou dizendo, pergunte à qualquer aluno da Escola Politécnica até hoje. Era difícil, era duro. Cálculo Diferencial e Integral. Física Teórica. Geometria Analítica. Geometria Projetiva. Aquelas coisas todas. Então a gente passava do primeiro para o segundo ano e levava nas costas uma mochila chamada dependência (risos). Aí, para o segundo ano a coisa continuava, porque era o primeiro e segundo ano fundamentais a matemática ainda era o forte, mas o segundo era um pouco melhor que o primeiro nesse ponto de vista. No primeiro ano, única matéria que se dizia muito relacionada diretamente aos assuntos da Engenharia, era Topografia. A Topografia era, eu era gênio. Desculpe a expressão, eu era muito bom. Tanto assim é que eu ficava, o pessoal vinha chupar os meus trabalhos. Chupar significa copiar mesmo. “Você fez, Joaquim?” “Fiz.” “Então dá para copiar?” “Copia.” Então era essas coisas. Do segundo para o terceiro ano as coisas melhoraram um pouco mais. A gente já começava a, no segundo ano já tinha arranjado uma namorada, tal, não sei o que. Bem mais velha que eu. (risos)

 

P/2 – Mas era um curso de homens, Engenharia?

 

R – Não, tinha mulher. Tinha, na nossa turma tinha quatro mulheres. Tinha a Branca, tinha, bom, eu não vou citar todos os nomes, mas eram quatro mulheres. Essas moças, uma delas é falecida. Elas se formaram, todas as quatro.

 

P/1 – E, assim, você estava dizendo que...

 

R – Mas a gente não as namorava, elas eram colegas mesmo. Colegas. Homem. Para a gente era homem. A gente namorava gente de lá de fora, outras moças que não fossem da escola.

 

P/1 – E aí foi ficando, o curso foi ficando mais tranquilo, você estava falando?

 

R – Do terceiro para o quarto ano já melhorou. Quer dizer, no terceiro ano nós tínhamos muitas matérias ligadas à Engenharia, como Hidráulica, por exemplo. Materiais de Construção. E no quarto ano a gente começava a falar sobre outras coisas como Estruturas, né? Como você dimensionar uma viga. Então coisas práticas da Engenharia. Até o quinto ano você tinha Concreto Armado, tinha Concreto, tinha todas aquelas coisas que...

 

P/1 – Joaquim, agora, você falou que pensou em ser engenheiro agrônomo.

 

R – É.

 

P/1 – E como foi para você o curso? Você sentia que estava no caminho?

 

R – Eu vou ser sincero, no primeiro e segundo anos eu quase que desisti da Escola Politécnica, porque eu achei caustico. Caustico. Eu falei: “Puxa, que errada. Eu saí do ITA que eu estava tranquilo, vim para cá nessa...” Porque o ITA era uma escola, um estilo americano. A Matemática é o essencial. Não entra nos meandros da filosofia matemática. Para vocês terem uma idéia, no terceiro ano eu peguei o material de Cálculo, e estava conversando um dia com o pessoal da Faculdade de Filosofia, da sessão de Matemática. E mostrei para eles o meu livro, o meu material, apostilas de Cálculo. Eles nem sabiam o que era aquilo. Quer dizer, eu já tinha feito primeiro e segundo ano. Eu mostrei aquilo uma vez e os caras falaram: “O que é isto?” Eu falei: “Isto é cálculo: diferencial e integral.” “Poxa, mas nós não aprendemos isto”. Quer dizer, o curso, os caras na escola tinha essa idéia maluca de que a gente devia ser os reis da Matemática. De certa forma, uma vez nós tivemos uma discussão muito acalorada com o professor Camargo, que era o líder dessa área da disciplina Matemática, da cadeira de Matemática. Ele disse o seguinte: “Vocês, alunos, têm que aprender a raciocinar. E a única maneira de vocês aprenderem a raciocinar é com a matemática. Então, se vocês aprenderem a raciocinar vocês serão bons engenheiros, se vocês não aprenderem a raciocinar, vocês vão ser maus engenheiros. Vocês escolham”. Olha, eu acho que ele tinha razão. Hoje eu acho que ele tinha razão. Nós partimos no quarto ano já a gente tinha uma formação mais voltada, como eu falei, para as coisas práticas. No quinto ano mais ainda. No quinto ano nós tivemos as cadeiras de Administração Industrial, Organização do Trabalho, Recursos Humanos. Toda aquela parte de gestão de material, gestão da pessoa humana, quer dizer, o homem no trabalho. Então isto aqui chamou a atenção para essa outra parte, era a parte industrial, a parte do trabalho, da administração das coisas. Da gestão. No quinto ano fui fazer um curso que a escola dava por fora, de graça, para quem quisesse interessar nisso. Eu fui fazer um curso, chamava-se: “Curso de Cronometragem”, onde você aprendia a medir o trabalho das pessoas. Foi dado por um professor alemão que era, trabalhava na Volkswagen, tsc, na Mercedes-Benz. Então nós tivemos esse curso de cronometragem, para mim foi interessante, aprendi outras coisas e tal. E, com isso, eu me formei na Escola. Mas aí eu já estava noivo.

 

P/1 – Você vai contar dessa parte, agora. Como foi que você conheceu a sua esposa?

 

R – Ah, a minha esposa é o seguinte, é um negócio interessante, porque a minha irmã a mais nova, a Gessy, ela era educadora sanitária. E tinha as colegas dela, estava estudando Educação Sanitária lá na Faculdade de Saúde. E vira e mexe tinha as festinhas para ir. Então a minha, naquela época, eu falei, naquela época era complicado. Eu, o irmão mais velho, tinha que, às vezes, ir buscá-la. Às vezes não a levava, mas eu ia buscá-la. E numa dessas festinhas a minha mãe falou: “Você vai buscá-la, porque a festinha é lá no bairro do Aeroporto, que é distante. Tem que pegar duas conduções, não sei o que lá, mas volta de taxi”. Tudo bem, eu fui. Chegou lá nessa festinha, que já estava no final, eu cheguei umas... É gozado, as festinhas terminavam às 11 horas. Então eu cheguei umas 10 horas. Estava quase no final. Cheguei lá eu conhecia só as amigas dela. Eu fui dançar com uma das amigas dela. Nessa época eu já era pé-de-valsa. Aliás, essa é uma história que eu posso te contar como que eu aprendi a ser pé-de-valsa. Aí eu fui dançar com uma dessas amiguinhas lá da, coleguinhas. Ela falou: “Eu não posso dançar com você. Eu vou dançar com você essa aqui, mas só vou dançar essa porque o meu namorado está aí, e ele é muito ciumento. Eu vou te apresentar uma menina aqui daqui a pouco, para você dançar”. Aí ela foi lá e me apresentou uma loirinha lá, bonitinha. Ela falou: “Esse aqui é o irmão da Gessy, o Quinzinho. Essa aqui é minha amiga, a Vilma”. Que era uma italiana muito legal. “Prazer”. Era italiana a moça que ela estava me apresentando. E a mãe dela estava lá. Uma senhora assim, dona Concheta. Olhou para mim, olhou para ela. Aí eu falei: “Posso dançar?” Ela virou para a mãe e falou: “Sim.” Aí ela levantou-se e veio dançar.

 

P/1 – (riso) Era assim, né?

 

R – Foi assim que eu conheci.

 

P/1 – A sua esposa?

 

R – É.

 

P/1 – Olha, só.

 

P/2 – Que legal.

 

P/1 – Que idade você tinha, Joaquim, mais ou menos? Você lembra?

 

R – Ah, eu nem sei mais. Devia ter o que?

 

P/1 – Você já estava na faculdade, lá na Poli?

 

R – Tava, isso eu devia ter uns 23 anos, 22.

 

P/1 – Namorou muito tempo?

 

R – É, uns dois, três anos. Dois anos e meio.

 

P/1 – E como é que você aprendeu a dançar, que você disse que ia contar para a gente?

 

R – Ah, aprendi a dançar o seguinte: eu não sabia dançar, né, eu falei. Aí, um dia um amigo meu falou: “Ah, vamos aí, tem um negócio aí. Vamos dançar lá na cidade?” eu falei: “Mas eu não sei dançar, puxa vida.” Ele falou: “Eu vou te levar lá você vai aprender dançar lá”, “Como vou aprender?” “Ah, você se vira. Vou te dar umas ideias de como se fazer”. E me trouxe lá num lugar aqui, chamava-se Lilas. Não existe mais, era na Rua do Seminário. Você subia no elevador lá no Lilas, é um salão, comprava entrada, você entrava só para dançar. E você chegava, tinha as moças, ficavam sentadas, tirava para dançar. Dançava e ponto final. Quando eu cheguei para dançar a moça olhou no meu sapato - que devia ser igual a esse aqui, ó (risos) - e falou: “Não”. Tudo bem. Aí, depois dessa tábua, eu falei para ele: “Ela olhou no meu sapato, ela olhou para baixo”. Ai ele falou: “Ela olhou no seu sapato. Você está também sempre com o sapato sola de borracha. Você é louco, cara. Tem que vir com sapato de sola, bico fino e tal”. Eu falei: “Bom, tudo bem”. Então aquela noite eu não dancei nada, né? (risos) No outro sábado ele falou: “Vamos de novo lá. Quem sabe, você veio de sapato bico fino?” “Vim aqui, tal.” “Então vamos lá.” Aí fomos. Fomos, aí chegou lá eu fui tirar uma moça para dançar ela olhou e saiu. Saiu e eu não dancei nada. Entreguei-a lá. Fui tirar de novo para dançar ela disse: “Não.” Aí dancei mais umas duas ou três vezes, também não podia repetir. Ele falou para mim: “É, porque é o seguinte, você dança mal. Você dança uma de cada vez, mas você vai aprendendo com cada uma que daqui a pouco você está dançarino.” Assim eu fui aprendendo a dançar.

 

P/1 – Olha, está vendo?

 

P/2 – Interessante.

 

R – Mas é à custa das pisadas, dos pisões nas moças, né?

 

P/1 – Então, Joaquim, você escolheu ser engenheiro, vamos voltar agora para a sua escolha, e você...

 

R – Ai chegou ao quinto ano. Vou te contar a história do engenheiro. Escolhi.  No quinto ano o Grêmio Politécnico resolveu contratar um psicólogo. “Ah, um psicólogo para saber se vocês vão ser uns bons engenheiros e tal”. Tudo bem, então eu me candidatei lá.

 

P/1 – No quinto ano? (risos)

 

R – No quinto ano. Quer dizer, em outubro eu fui lá fazer o trabalhão com o psicólogo. Ele fez uns testes lá, depois fez uma entrevista. Marcou um dia para a entrevista final. No dia da entrevista final ele chegou para mim e falou: “Olha, o grande problema é o seguinte: você fez o curso errado.” Eu falei: “Mas agora? Puxa vida.” ele falou: “É, mas ainda tem tempo de consertar.” “Por quê? Mas por quê? Por quê?” Eu falei: “Mas por quê?” Ele falou: “Porque você é um cara mais ligado à Humanas do que às Exatas”. Só falou isso, não falou mais nada. Ele falou assim, perguntou para mim: “Você está de acordo?”. Eu falei: “É, eu sempre me achei um pouco perdido aqui na Escola”. Ele falou: “É, mas é isso mesmo, mas aí você ainda vai arranjar esse caminho”. E falou, eu falei: “Mas como?” Ele falou: “Você mesmo vai saber.” Tudo bem. Eu falei: “Posso ir?” Ele falou: “Não, espera um pouco. Você acha que eu sou louco?” Ele perguntou para mim. Eu falei: “O senhor quer saber mesmo a minha, o que eu penso do senhor?” Ele falou: “É lógico”. “Acho sim” (risos). Quer dizer, um psicólogo maluco. Porque falar um negócio para, não devia ter falado, né?

 

P/1 – No quinto ano.

 

R – Ele devia ter falado que eu devia fazer Humanas, não sei que lá, alguma coisa, mas não precisava dizer que eu tinha feito curso errado. E é isto, que eu saí da Escola, e eu saí com essa idéia de que, de fato, eu devia mexer em alguma coisa. Conclusão: eu saí da Escola e eu fui procurar emprego. Aliás, eu não precisei procurar emprego, já na Escola eu já tinha emprego. Tinha sete empregos.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Você veja como era bom naquele tempo. E tudo para ganhar bem, viu? Tinha um que pagava - eu vou dizer o número, não tem valor nenhum, mas eu vou dizer assim mesmo - era o que pagava menos: oito mil cruzeiros. Até outro que pagava 25 mil cruzeiros.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Você vê a gama. Você podia, o de oito mil você trabalhava seis horas e era funcionário público. Onde eu fazia estágio. Eu fazia estágio aqui no Estado, em uma repartição do Estado como estagiário de Obras Sanitárias. Ele falou: “Olha, você vem trabalhar aqui, só que você vai ganhar oito mil”. Eu falei: “Puxa, mas é muito pouco. Eu tenho aqui ofertas maiores pelo...”. “Eu posso fazer o seguinte: eu coloco você na Estrada de Ferro Sorocabana, aí você ganha 12 mil e fica trabalhando comigo”. Quer dizer, de oito já subiu para 12, já melhorou um pouco. Mas eu tinha oferta da Petrobras para ganhar 16 mil. Eu tinha oferta da General Motors para ganhar 25 mil. Entre essas eu tinha outras ofertas aí. Aí veio um telegrama da Companhia Siderúrgica Nacional dizendo: “Olha, você foi aprovado - nos testes que eu tinha feito - e você pode vir trabalhar aqui por 25 mil”. Então, entre a General Motors, que era uma empresa estrangeira, e uma empresa nacional, eu fui trabalhar na Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda. Dei o ok, sim, né? Só que eu falei: “Eu preciso casar antes, porque senão depois eu não sei se eu vou casar, né? Eu preciso casar já.” Aí o meu sogro falou: “Mas vocês vão para Volta Redonda, mas vocês vão casados, né?”. E o italiano era...

 

P/1 – Claro.

 

R – ... Meio bravo. É gente fina, mas é bravo. Eu falei: “Então vamos casar.” Eu marquei uma época, marcamos o casamento e eu fui casado já para Volta Redonda.

 

P/1 – E como foi seu trabalho lá?

 

R – Ah, lá eu acho que eu tive muito sucesso, viu? Muito sucesso mesmo.

 

P/1 – Você foi como engenheiro, e, assim, o curso que você tinha feito, que o psicólogo disse que era um curso, no fim você exerceu a profissão?

 

R – Eu fui, eu cheguei lá, como eu pedi um tempo porque eu queria casar, passar a lua-de-mel, essas coisas todas, então quando eu fui para lá em 1959, o Juscelino estava com aquele negócio de Brasília, tal. Lembra-se disso, né? Não sei se vocês lembram.

 

P/1 – Lembro.

 

R – Vocês são bem mais novas que eu.

 

P/1 – Mas lembro.

 

R – Então, com esse negócio então a gente, eu atrasei, eu fui um dos últimos a chegar. Dos 30 engenheiros que eles contrataram eu fui um dos últimos engenheiros a chegar. E quando eu cheguei os cargos já estavam todos ocupados. “Não, mas eu tinha o posto aqui que eu queria ser engenheiro civil”. “Já está tudo ocupado.” “Engenheiro de projetos?”. “Está ocupado”. “É...” “Ocupado”. “Não tem mais área nenhuma aqui?”. “Olha, tem a área de Apoio”. “Que é que é isso?”. “Tem engenheiro de treinamento”. Engenheiro de treinamento? Ah, eu não quero. Treinamento, eu não quero isso aí”. “E tem engenheiro de organização e métodos.” Eu falei: “Bom, posso saber o que é isso?”. “Então vai lá”. Cheguei lá os caras falaram: “Primeiro você vai fazer um...” Os caras de treinamento, que eles que organizavam as coisas, porque eles precisavam de gente, falaram: “Primeiro você vai fazer um teste aqui, vai fazer um estágio na área de Treinamento”. La fui eu fazer um estágio na área de Treinamento. Fui lá e foi muito positivo porque eu fiz uns cursos especiais que, naquela época, eram dados por americanos. Que é o famoso TWI, T-W-I, é Treinamento Dentro da Indústria, Training Whitin Industry. Treinamento Dentro da Indústria. Então tinha três fases: tinha a fase de relações, Relacionamentos no Trabalho; tinha a fase de Métodos no Trabalho; e tinha a fase de Ensino do Trabalho, como ensinar o trabalho. Então eu comecei pelo Ensino do Trabalho, que era a parte que eles queriam mais, mas depois eu pedi a outra. Ele fez o Relacionamento no Trabalho. E o último foi o Métodos no Trabalho. Eu fiz as três fases. Eu passei a ser treinador das equipes de pessoal da usina siderúrgica nessas fases. Principalmente na fase de Treinamento do Trabalho, que era a parte que mais que eles desejavam. Mas aí eu falei: “Bom, mas eu não quero, eu quero testar outras, engenheiro de organização e métodos”. Aí eu fui fazer um estágio nessa área. Eu fui fazer um estágio na Fundição - voltava lá para o hotel, eu morava no hotel com a minha mulher - voltava cheio de fuligem, né? Fundição. Depois eu fui fazer um estágio na Coqueria, aí eu voltava com dor de cabeça, de tantos aqueles gases que você cheirava lá. Depois eu fui para a Acearia, que também voltava todo cheio de fuligem. Depois eu fui para a Laminação a Quente, que também voltava todo cheio de fuligem. Depois para a Laminação a Frio, tá certo? Então eu fiz tudo.

 

P/1 – Conheceu tudo.

 

R – Toda a parte de produção da usina, Siderúrgica Nacional. Que naquela época estava aumentando a sua produção. E com isso eu fiquei versátil. Eu sabia a parte de treinamento e sabia a parte de produção. Aí os caras me encaixaram na área de Organização e Métodos. “Não, o Joaquim, aqui a gente precisa desse camarada aqui, tal, um bom estágio e tal”. Eu fui encaixado, mas foi que, como eu era engenheiro civil, eu fiquei encarregado de fazer Organização e Métodos na área de Construção Civil. Então eu fui lá fiz um organograma bonito lá, para uma área de Construção Civil que estava, precisava ser feito. Eu era estagiário, mas eu tinha que fazer para o engenheiro chefe daquele setor. E o engenheiro chefe daquele setor era meio folgado e, no dia da apresentação, ele não veio. E o engenheiro (Erven?), que era o chefão lá de todo o negócio falou: “Pô, ele não veio! Joaquim, você vai comigo lá”. Eu falei: “Pô, mas eu vou falar?” Ele falou: “Você vai falar”. Aí o chefe da área de Construção era tido como um dos engenheiros mais bravos lá. Aí: “O Fulano de Tal não veio fazer a apresentação?”. “Não, ele está doente”. Que era não sei o que é que ele tinha. “Veio, o Joaquim, vai fazer.” “Mas esse jovem vai fazer?” O cara falou assim: “Qual é o seu nome, jovem?”. “Joaquim Pereira Filho.” “Você faz o que?”. “ Eu sou engenheiro civil”. “Ah, que ótimo, o senhor é engenheiro civil? Isso é muito bom, e tal. Vamos então, o que é que você tem para me mostrar, moço?”. Eu botei aquele negócio lá. Aí terminou, ele falou: “Gostei desse rapaz. Tira o outro deste trabalho, eu quero que ele desenvolva esse trabalho aqui.”

 

P/1 – (risos)

 

R – Então, eu passei a desenvolver o trabalho lá. E com isso eu subi depressa ali. Subi tão depressa que eu achei que, de fato, eu estava sendo atrapalhado por esses caras que não iam trabalhar, que ficavam em cima da gente. E eu falei: “Ah, não dá. Eu preciso...” E tinha um camarada que me convidou para trabalhar noutra área lá. Área de Planejamento e Controle da Produção.

 

P/1 – Dentro da Companhia Siderúrgica.

 

R – Da Companhia, mas outro setor. Aí o cara (riso) eu cheguei ao final do ano - sempre as coisas acontecem para mim no final do ano - cheguei no final do ano, dia 28 de dezembro e falei para o chefão lá: “Olha, eu vou sair. Eu vou trabalhar na área de Planejamento da Construção, Planejamento e Controle da Produção, porque aqui não está dando.” Ele: “Ah, você não vai fazer uma coisa dessas comigo, me deixar aqui de calças curtas!”. Ele era uma figura sensacional. Aí eu: “Não, nós vamos conversar em janeiro. Não toma nenhuma decisão”. Eu falei: “Mas eu, não dá para trabalhar aqui desse jeito que eu estou trabalhando, o senhor vê que não dá.” Ele falou: “A gente vai dar um jeito”. Quando chegou em janeiro ele me chamou e falou: “Olha, o coronel não sei das quantas - que era um camarada que estava encostado lá - ele está doente, e nós vamos colocar o cargo dele, ele vai ficar vago, e nós vamos bloquear esse cargo. Eu posso transportar você para esse cargo e você vai ser assistente, você vai trabalhar em assistente de métodos da produção”. Aí então eu passei a trabalhar na trabalhar na Produção. Fui trabalhar na Produção mesmo. Então eu fui trabalhar dentro da Laminação, que era o lugar que eles precisavam lá. Eu fiz muita coisa interessante.

 

P/1 – E depois da Companhia Siderúrgica Nacional.

 

R – Não...

 

P/2 – Antes eu só queria saber quanto tempo o senhor ficou lá?

 

R – ...não, lá eu fiz tanta coisa interessante que um dia o diretor chegou e falou assim: “Jovem, o que você quer? Pode pedir que eu lhe dou.” falou: “Eu quero fazer um curso de Administração, na França”. Eu já tinha tudo (risos) estava esperando que ele viesse me... Porque o chefe de onde eu estava lá ele falou: “O diretor está gostando de você. Eu se fosse você eu pedia alguma coisa assim como um curso”. Ele tinha um curso que ele conhecia, falou: “Esse aqui é muito bom.” Aí ele falou: “Quantos meses?” Eu falei: “São 10 meses. Oito horas por dia”. Ele falou, chamou esse que era meu chefe imediato e falou: “Organiza isso para o rapaz, que ele merece.”

 

P/1 – Que beleza.

 

R – E lá fui eu para a França. Aí valeram as minhas aulas de francês aqui do Roosevelt, né? Eu falei que eu tive uma boa professora. Na França eu fiz esse curso no Instituto de Estudos Superiores das Técnicas de Organização.  E lá eu fiz estágios em siderúrgicas, grandes siderúrgicas francesas, a pedido do próprio diretor. E, com isso, quando eu voltei de lá eu voltei com um monte de idéias. Eu fiz o relatório que o diretor leu, ele falou: “Escuta, isso aqui dá certo lá?”. Eu falei: “Dá.” “Então nós vamos por aqui”. Que era gestão de estoques, que não tínhamos lá. E nós tínhamos o Almoxarifado que não, o Almoxarifado é guarda de material. Gerir o material é uma função muito maior. Começa desde a especificação do material, edificação de similares para você não comprar as coisas erradas, e não comprar coisas de baixa qualidade, até a quantificação dos estoques. Então, com isso, a gente passou a fazer, e tudo com computador. O primeiro contato que eu tive com computador aí. Eu tinha tido lá na França. Aí tudo com computador. Então, com isto, a gente montou um sistema. Foi interessante que nós fizemos este trabalho, primeiro de classificação dos materiais. Usamos o sistema de, o Supply Classification americano, que é um sistema bem geral, deu certo. Depois disso aqui me garantiu uma série de palestras em outras siderúrgicas lá em Minas Gerais (risos). Da Cosipa também. Acabei sendo convidado para fazer um trabalho de implantação na Cosipa de gestão de material, e, com isto, eu passei a dar consultoria na área de Gestão de Material. E foi uma coisa importante para mim.

 

P/1 – Quanto tempo, como a Eliana perguntou, você trabalhou na Companhia Siderúrgica?

 

R – Dez anos. Quando eu fiz 10 anos eu falei assim: “Chega.” porque com 10 anos eu já era, eles já não podiam me mandar embora. Naquela lei antiga antes do Fundo de Garantia: “Quem tem 10 anos de casa vai ficar, vai viver a vida toda aqui. Não precisa mais fazer nada. Pode até não trabalhar, mas não vai ser mandado embora nunca” Aí eu falei: “Para mim não dá isso. Eu tenho que sair agora porque senão eu vou estacionar aqui. Eu não quero estacionar” Eu pedi as contas. Aí a turma: “Ah, mas você é louco, vai embora agora”.

 

P/2 – Você começou a trabalhar como consultor ainda na Companhia Siderúrgica?

 

R – Naquela época, como consultor. Fazia consultoria lá, Barra Mansa, naquelas indústrias químicas, negócio de material para cá, material para lá. A gente mexia com tudo isso. Mexia com um pouco de Organização também. E, com isto, eu vim aqui, um dia eu vim na aldeia. Minha mulher queria ver a aldeia, e tal: “Vamos à aldeia”. Então pegamos um fim-de-semana, uns três, quatro dias, eu vim aqui em São Paulo visitar a aldeia. Chega à aldeia encontro um amigo meu, que tinha sido da Siderúrgica Nacional. Falou: “O que você está fazendo na Siderúrgica?”. “Estou lá e tal”. “Como é que tá?” Eu falei: “Eu tou querendo sair.” Ele falou: “Então você vem para cá. Você vai me ajudar na Companhia do Metropolitano.” Eu falei: “O que é isso?” “É um papel que tem lá chamado Companhia do Metropolitano de São Paulo, mas precisa de um cara para fazer a organização disto, segunda-feira, olha aí, aparece lá segunda-feira”. Eu telefonei na segunda-feira: “Eu não posso ir na segunda-feira, eu tenho um compromisso aqui. Eu só vou terça-feira”. “Tá bom”. Segunda-feira eu fui na Companhia do Metropolitano de São Paulo, ele me apresentou o presidente da Companhia. E o presidente falou o seguinte: “O senhor entende desse negócio de Organização? Eu tenho aqui um estatuto, esse é o estatuto da Companhia do Metropolitano de São Paulo. Aqui diz tudo o que vai fazer, no estatuto, diretor disto, diretor. Faz um organograma para mim”. Aliás: “Faz uma organização para mim”. Eu falei: “Tudo bem.” Ele falou: “Eu vou ter que sair.” Chamou a secretária, falou: “Vê o que esse menino - menino, ainda era moço - precisa aqui...” Era o Doutor Quintanilha Ribeiro, que era o braço direito do Faria Lima. “Vê o que esse menino precisa aí para fazer esse negócio que eu pedi para ele. E fique à vontade. Dá café e água aí para ele à vontade”. Eu fiquei lá, lanche, me trouxe lanche. Nem almocei, comi lanche lá. Eu fiquei lá umas três horas. Aí ele voltou. Voltou: “O que é que você fez? O que é que o senhor fez aí?”. Eu falei: “Eu fiz aqui umas coisas.” “Deixa eu ver.” Eu peguei um papel, tinha lá um lugar eu pendurei, preguei um negócio grande, um papel grande que eu tinha feito. Uma organização, um organograma todo. “Puxa vida, que bom. Nunca tinha... É isso mesmo o estatuto”. Ele falou, eu falei: “Bom, o senhor gostou?” Eu falei: “Gostei, mas tem mais uma aqui.” eu falei. “Você fez mais uma, então põe outra e tal.” Aí ele falou: “Ótimo, você está contratado. Com isto eu pedi demissão de lá e vim ser free lancer. Não fui, não era emprego, eu não fui empregado do Metrô. Eu não acreditei nisto. Não acreditei no Metrô.

 

P/1 – (risos)

 

R – Vocês estão ouvindo? Eu não acreditei no Metrô. (risos) Eu fiz as organizações, fui ser free lancer. Fui lá pedi as minhas contas lá. Vim de mala e cuia. Sabe quantos filhos eu tinha? Vocês não têm idéia de quantos filhos eu tinha, eu tinha cinco filhos. Cinco filhos já.

 

P/1 – Nossa.

 

R – Tudo fabricado lá, como dizia um amigo meu, tinha aquela curva da estrada de ferro, cada vez que o trem apitava o Joaquim estava lá. Acordava de noite lá fazendo filho. Então, cinco filhos...

 

P/1 – Quantos filhos você tem?

 

R – Já tenho seis. Porque precisava ter uma nascida aqui em São Paulo, então nasceu a última aqui em São Paulo. Pelo menos uma paulista, aqui. Tenho seis.

 

P/1 – Quantos homens e quantas mulheres?

 

R – Tem a primeira é mulher, a última é mulher, tem quatro homens no meio.

 

P/1 – Beleza. Você tem netos?

 

R – Tenho, tenho oito netos.

 

P/1 – Joaquim, a gente está terminando, eu queria te perguntar algumas coisas. Você teve uma vivência no Grêmio da Poli? Ou... Você falou...

 

R – Eu fui do Grêmio, eu fui diretor de viagens duas vezes. Então, como diretor de viagens, tinha uma série de vantagens. Eu estava sempre viajando, né? O diretor, afinal, tem que viajar junto com o pessoal, ele é organizador. Mas fizemos boas coisas lá no Grêmio.

 

P/1 – E vocês têm alguma relação, ainda, enquanto ex-alunos da Poli?

 

R – Eu sou vice-presidente da Associação dos Engenheiros Politécnicos. E lá a gente, justamente, está fazendo hoje, montamos um esquema chamado de Mapeamento de Competências, que é com a finalidade de fazer com que o engenheiro saia da Escola sabendo se ele é, o que é que ele tem que fazer. Para não acontecer o que aconteceu comigo (risos).

 

P/2 – Mas tem uma passagem pelo Dersa, né? ____

 

R – Eu fui muitas coisas aqui. La no Metrô eu só fiz esse negócio e pedi as contas. Eu fui ser, fui montar outra empresa. Porque eu estava no Metrô, organizando o Metrô, chega um dia um ex-contemporâneo, que era o João Rossi (Copoloni?), ele falou: “O que você está fazendo aqui?” Eu falei: “Eu vim organizar aqui a Companhia do Metrô.” Ele falou: “Pô, eu tenho uma empresa que precisa ser organizada. Aparece lá.”Eu fui lá, acabei indo trabalhar com ele. Diretor da Engemix. A Engemix era também um papel assim, ele abriu, falou: “Tá aqui essa empresa. Tem que ser organizada.”

 

P/1 – E não tinha nada? Quando dizia: tem que ser organizada, a empresa ainda não estava...

 

R – Era o estatuto. Um papel.

 

P/1 – Ela não estava criada.

 

R – Não.

 

P/1 – Assim, estava criada, mas não existia.

 

R – Estava criada, mas não existia. A Engemix era um departamento da Rossi Engenharia. Aí ele falou: “Eu quero que você transforme isso aqui em empresa”. Tudo bem. Então transformamos em empresa. A Engemix ficou, era maior, e é a maior empresa de concreto hoje do Brasil. Foi vendida há quatro meses para a Votorantin, tá certo? E é isso aí. Depois da Engemix eu andei por aí, porque eu sou meio cigano: faço consultoria, trabalho. Eu fui diretor de desenvolvimento de negócios de uma grande companhia internacional, que é a Companhia Techint Sociedade Anônima, companhia de origem argentina. E, mais tarde, eu fui convidado para ser presidente da Dersa, para estar presidente da Dersa. Mas o interessante é que eu, em 1983, eu fui convidado a voltar para o Metrô, para ser empregado do Metrô, e eu aceitei, no Governo Montoro. E lá eu fui gerente de recursos Humanos. Uma época muito difícil para o Metrô, com o negócio do Partido dos Trabalhadores ter subido, tinha sido criado até um diretor social, aquele negócio todo. Então era um diálogo difícil. Acho que pelo fato de eu negociar bem eu tive certo sucesso lá. Depois o presidente do Metrô foi convidado para ser secretário de Transportes, me convidou para estar presidente, eu digo estar porque não é ser, o verbo é estar. Porque você está, mas não é, né? Cargo político é um negócio complicado. Estar presidente da Dersa.

 

P/1 – E como foi essa experiência? Conta assim rapidinho?

 

R – Foi, porque a gente fez muitas estradas, terminou o que já estava feito. Melhorou o que estava feito. Construiu mais alguma coisa que...

 

P/1 – Que época foi essa?

 

R – Foi em 1900, você com esse negócio de data para mim é complicado.

 

P/1 – Década, década.

 

R – Foi 1986, 87, por aí, 88. Então eu acho que tem tudo aí no meu curriculum. Mas o seguinte: depois disso eu saí, eu saí da Dersa e fui fazer consultoria na área Rodoviária. Saí, aprendi tudo o que eu tinha que aprender na Dersa, fui fazer consultoria na área Rodoviária. Para quem? Para as próprias empresas construtoras que queriam entrar na privatização rodoviária. E feita essa aqui, feito daqui, de repente um camarada falou: “Olha, tem um negócio lá na Colômbia. Tem um negócio lá na Colômbia, você não quer fazer aqui e entrar? Eu estou precisando de um cara com bom curriculum”. Aí eu fui. Apresentei meu curriculum, mandei lá para a Colômbia. Eles ganharam a concorrência lá na Colômbia. Ganharam, me convidaram: “Olha, você podia vir aqui fazer uma assessoria de três meses?” E lá fui eu para a Colômbia fazer assessoria no meio lá da FARC, da _____, fazer consultoria na Colômbia. Bom, não tem nada disso, a Colômbia é um país sensacional. Isso é tudo jornal que fala. A violência que tem aqui é 10 vezes maior do que eu senti lá. Hoje não sei, mas naquela época era assim. E lá na Colômbia eu acabei fazendo outro contrato, depois de três meses, para ser diretor de Operações. Então eu fiquei dois anos na Colômbia. Diretor de Operações.

 

P/1 – Com a família?

 

R – Levei minha mulher. Moramos em Bogotá em um apartamento de cobertura lá, pago pela empresa. (risos) Um negócio...

 

P/1 – Está terminando, né? Joaquim, infelizmente a gente está terminando. Como foi para você participar dessa entrevista?

 

R – Ah, é interessante. É interessante porque eu acho que a gente deve sempre falar um pouco das coisas que acontecem por aqui nessa cidade. Eu acho que eu fiz, eu fui uma pessoa que fiz muitas coisas aqui na cidade. Embora pudesse ter feito mais, essa é a verdade.

 

P/1 – Fez bastante, obrigada.

 

R – O-K.

 

P/2 – Muito obrigada, nossa, bastante interessante.

 

P/1 – Divertida também.

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