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História

Uma vida de luta

História de: Clarisse Diniz e Paiva
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/01/2018

Sinopse

A entrevista de Clarisse Diniz e Paiva foi gravada pelo Programa Conte Sua História no dia 07 de novembro de 2013 no estúdio do Museu da Pessoa, e faz parte do projeto "Aproximando Pessoas - Conte Sua História". Nascida na pequena aldeia de Vila Meã, Portugal, Clarisse começou a trabalhar desde cedo, no campo, cuidando de crianças e como doméstica. Veio para o Brasil junto com o seu tio a procura de trabalho e melhores condições de vida. É aposentada e vive em São Paulo.

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História completa

Identificação

Meu nome é Clarisse Diniz e Paiva, nasci em 30 de março de 1933, numa aldeia muito pequena de Portugal chamada Vila Meã, concelho do Carregal do Sal, distrito de Viseu, que fica na Beira Alta de Portugal, perto da Serra da Estrela.

 

Família

O nome da minha mãe se chamava Ana Nunes Gomes, o meu pai se chamava André Diniz, nascidos na mesma aldeia, nascidos em Vila Meã, mesmo concelho. Meus pais trabalhavam no campo, minha mãe era de casa, do lar, mas também ajudava meu pai no campo. Nós éramos sete irmãos, eu sou a mais velha de sete irmãos. Eu ajudei a criar meus irmãos. Eu ajudei a criar, fui à escola, tudo, depois comecei a trabalhar muito novinha. Quando eu saí da escola, com 12 anos, eu já comecei a trabalhar pra ajudar em casa, porque nós éramos uma família pobre. Então, meu irmão mais velho chamava José, uma Maria Isabel, outro Francisco, outro Américo, minha irmã chama Maria do Carmo, a Maria Isabel eu já falei. E eu. Éramos sete. Ah, e Joaquim.

 

Agricultura familiar

Olha, como lá é uma aldeia pequena de Portugal, onde a gente cresceu, então é o seguinte, a gente vivia no campo. A gente em casa fazia os serviços da casa, depois íamos para o campo ajudar nos afazeres do campo. Afazeres do campo como? No tempo de semear batata era batata, no tempo de semear milho era milho, no tempo de semear cevada era cevada. Cada tempo tem uma temporada de plantação de sementes pra gente semear na terra pra nascer. Plantávamos cebola, batata, tudo. Tempo da vindima, tempo de podar as videiras. Primeiro podavam as videiras, depois as videiras iam crescendo, as raminhas iam nascendo, tinha que sulfatar as videiras, com a bomba nas costas e fazia assim pra sulfatar. Depois chegava o tempo das vindimas, a gente pegava os cachos, carregava aqueles cachos na cabeça com uma cesta, levar para o lagar, pra formar vinho. Então cada época do ano em Portugal tem uma coisa pra fazer. O campo era nosso. Mas também nós trabalhávamos em campos fora, sem ser nosso. A gente ia ganhar o dia. Pessoas que tinham um campo maior, então eles contratavam a gente pra trabalhar e ajudá-las no campo pra fazer as coisas. Eu trabalhei muito pra outras pessoas de fora. Eu carreguei muita coisa na cabeça. Muita, muita, muita. Eu era novinha, saí da escola com 12 anos, eu já comecei a trabalhar. Fazia tudo. Até as pessoas falavam pra minha mãe: “Ana, cuidado com a tua filha, que ela é muito nova, ela pode se machucar, pode estragar a coluna”. Mas eu gostava. Sempre gostei de trabalho. E sempre gostei do serviço, de trabalhar. Sempre, graças a Deus. Sempre teve isso comigo. Então tu carregavas coisa na cabeça, era numa cesta. Ali dentro daquela cesta grande púnhamos lenha, púnhamos tudo ali dentro, o que precisava carregar. Porque naquele tempo não tinha transporte. A fazenda ficava longe da própria vilinha, da casa onde a gente morava, então nós queríamos levar uma coisa da própria fazenda pra casa, tínhamos que por uma cesta pra levar na cabeça pra levar pra casa. Verdura, batata, cebola, essas coisas. Lenha pra acender o fogo, porque lá era fogo à lenha. Naquele tempo não existia ainda gás, não tinha fogão a gás. Fazia uma rodilha de pano, punha aqui na cabeça e carregava. Ia à fonte buscar água na fonte com cântara de barro grande. Muitas vezes eu não conseguia por o cântaro na cabeça porque caía, quebrava. A minha mãe estava em casa esperando a água, aí ela me batia que eu deixava cair o cântaro. Eu era criança, não podia. Quando tinha gente que às vezes passava, eu pedia pra me ajudar, até me ajudavam. Mas quando eu estava sozinha, eu queria conseguir e não conseguia, então caía para o chão, quebrava. Aí chegava a casa, ela começava a brigar comigo. Todas essas coisas. Tínhamos que ir à fonte. A fonte era uma nascente. A gente chama fonte uma nascente que nascia água naquilo ali. Ali fizeram tipo de um lago, de um cercado, e aquilo ali virava uma fonte. E cada pessoa ia lá com o seu cântaro pegar aquela água na fonte. Então ficava fila. Se eu chegasse primeiro, eu era primeiro. Se chegasse outra pessoa na minha frente... E era assim. E levava aquela água pra casa. Daí com aquela água minha mãe fazia a comida, quando era no dia de cozinhar o pão, ela amassava o pão, amassava a farinha, tinha que esquentar água primeiro pra cozinhar o pão. Amassei muito.

 

Hábitos alimentares

A minha mãe fazia muita sopa. Lá em Portugal a gente usa muita sopa. De verdura, de legumes, temperada com azeite, punha um pedaço de carne dentro. A gente lá em Portugal usa muito a carne de porco, porque a carne de vaca lá em Portugal é cara. Agora já existe, já tem mais, mas no meu tempo não tinha. Existia só, mas era para os ricos, quem podia comprar. Nós pobres, não, usávamos muito carne de porco. Uma vez ou outra, carne de cabrito. Mas a gente usava muito carne de porco. Cada família, geralmente cada família matava seu porco anual, então salgava aquelas carnes, que ficava a carne salgada para o ano todo. Fazíamos linguiças, formávamos um fumeiro, como era fogo à lenha, como minha mãe cozinhava à lenha, então o fumeiro ficava assim em cima tudo pendurado assim, e ele corava as linguiças e os presuntos. Você conhece os presuntos? Que aquilo ficava corado, depois dali ia pra salgadeira, pra ficar no sal, pra conservar para o ano inteiro, porque naquele tempo não existia geladeira. Não existia geladeira.

 

A colheita da azeitona

A gente colhia o azeite, o tempo de pegar o azeite é em dezembro, a azeitona, que é no tempo do frio. Muito frio, muito frio. A gente queria pegar azeitona do chão, as mãos da gente nem conseguia, porque encolhia. É bonita a colheita de azeitona. Dependendo do olival, que chama olival. Onde tem as plantas do pé da azeitona se fala olival. Então tem oliveiras grandes, tem oliveiras menores. As grandes, nós tínhamos que subir numa escada e ripar, sabe? Puxar pra baixo. Embaixo punha um toldo assim no pé da oliveira pra aquela azeitona cair no toldo. E as mais altas, que a gente não alcançava, eles usavam umas varetas, umas varas, pra bater pra azeitona cair. Aí naquele toldo caíam folhas, caíam azeitonas, caía tudo. A gente arrancava as folhas, aqueles pedaços que caíam, tirávamos e púnhamos então aquela azeitona na cesta pra levar pra lagar. Pra levar pra casa, depois de casa, ia pra lagar pra fazer azeite. Essa azeitona depois ia pra um lagar que se formava azeite. Naquele tempo, esse lagar gerava à água. Agora não, agora já tem eletricidade. Naquele tempo não existia. Eletricidade naquele tempo era só nas cidades grandes, que nas cidades pequenas não existia, era tudo à luz de candeeiro de petróleo. Todos aqueles candeeiros de petróleo. Porque a gente comprava o petróleo e punha. Era petróleo, não tinha eletricidade. Agora já está tudo normal, como aqui já está tudo moderno. A azeitona depois ia pra um lagar. Lagar é onde fazia azeite de diversas pessoas: sua, minha, juntava tudo e ia pra um lagar. Então aquele lagar era movido à água, tudo com a força da água. A água era canalizada com muro, pra depois aquela água vir com força pra fazer rodar. Era uma pedra com um furo no meio, então aquela pedra rodava. A azeitona ia caindo e aquela pedra rodava, rodava, rodava, e o azeite caía do outro lado, formava o azeite. Então formava o azeite, aquele azeite gostoso.

 

Assando pão

Quando a gente cozinhava o pão, lá era pão de milho, pão de milho, e a gente às vezes misturava essa farinha de milho com um pouquinho de farinha de trigo, então ficava um pão delicioso. Ficava um pão muito gostoso. Eu amassava aquele pão com água morna, tinha o fermento, o fermento era tudo natural, tudo natural. Não existia naquela época que nem tem agora. A gente fazia um pouco de massa e deixava aquela massa apodrecer, azedar. Aquela massa azedava. E depois aquele pedaço de massa, quando a gente ia cozinhar o pão, a gente punha ali o quê? Quinze, 20 quilos de farinha numa assadeira, que chamava, de madeira grande, púnhamos ali tudo. Púnhamos esse fermento, esse fermento que púnhamos sal, água morna, um pouquinho de água morna, e aquele fermento que já estava azedo. E esse fermento que formava então a crescer o pão, a crescer aquela massa. Aquela massa, a gente a cobria com um pano assim, com um cobertor, ela ficava ali, cujas vezes... Se fosse no verão, aquela massa crescia mais rápido, mas no frio demorava mais tempo pra crescer. A gente cobria com um pano, a massa crescia, depois quando a massa estava crescida, crescia o dobro. Você sabe, quando faz um pão, vira o dobro. Depois então íamos com o forno. O forno lá também era de lenha, esquentado à lenha, um forno grande, enorme. No quintal ali perto, numa vizinha, que cozinhava eu, cozinhava a vizinha, então a gente punha um sinal no pão, qual era o dela, qual era o meu, entende? Ou enfiávamos um dedo, ou um buraquinho, ou dois buraquinhos, pra saber qual era o pão de uma e da outra. O forno era fora da casa. Não podia ser dentro porque o forno era muito grande.

 

A casa da família na aldeia

A minha casa era uma cozinha, era uma lareira, tinha assim um acento pra dar a volta pra sentar, ali era uma lareira onde acendia o lume, onde se fazia a fogueira, aqui embaixo. Onde fazia a fogueira que a gente punha as panelas, ali tudo do lado pra esquentar pra fazer a comida. Era assim. O resto da casa, depois tinha a sala, tinham os quartos, tinha uma salinha. Tinham três quartos. Morávamos eu, meu pai, minha mãe, a minha avó, meus irmãos, tudo ali. A gente dava um jeito de morar tudo ali. É que depois de uma época nós fomos morar com a minha avó, que a minha avó começou a ficar velhinha e o meu avô, e como a minha mãe era a única mulher, os homens vieram todos para o Brasil, então a minha mãe tinha que cuidar da minha avó. Não é isso? Então a gente foi morar com a minha avó, morávamos todos juntos. Eu já estava na escola. Eu saí da escola com 12 pra 13 anos. Eu fui morar com a minha avó com uns nove, dez anos, por aí assim e a gente depois continuou morando com a minha avó até ela falecer. Até que a minha aldeia não é uma aldeia feia que nem tem certos lugares, em certas regiões de Portugal. Em certas regiões, como Trás-os-Montes. Porque cada região de Portugal é um estilo de casa, sabe? É um estilo de casa. Eu visitei Trás-os-Montes, agora não, agora está uma cidade, mas antigamente eram aquelas casinhas tudo baixinhas, com aquelas pedras todas aparecendo. Tudo de pedra. Aquelas casas muito simples. Quem tinha um pouco de dinheiro, quem tinha posse já tinha, sim, uma casinha melhor, melhor construída, umas escadas de pedra subindo, mas a pessoa pobre assim é tudo simplesinho. A da minha avó era casa de pedra. Tinha uma escadinha de pedra, a gente subia quando vinha da rua, aí entrávamos num corredor assim comprido, depois chegávamos à cozinha, de um lado tinha um quarto. Chegávamos à cozinha, aí da cozinha depois tinham mais dois quartos pra frente. E quando a gente entrava da rua assim, tinha a salinha do lado esquerdo. Ainda está lá a casinha hoje, velhinha, mas está lá. Não tinha quintal. Na época, não. O quintal que nem você diz é o quintal quando a gente então ia para as terras plantar, cultivar. E eu ia ao mato pegar lenha na cabeça, feixe de lenha de pinheiros. A gente pegava os galhos secos dos pinheiros pra esquentar o forno pra gente cozinhar o pão. Comíamos todos juntos. Um dia era sopa, um dia era batata, um dia era macarrão, um dia minha mãe fazia arroz com uma coisa; no outro, arroz com outra coisa, mas tinha sempre a sopa. Tinha um corredor assim comprido. No calor eu me esticava no chão, punha meu prato ali na frente, ah, meu amor, e comia assim mesmo. Era muita gente. A gente chegou a ser 11 pessoas na mesma casa. Eu passei muita dificuldade. A minha avó ajudou muito nós. Eu lembro muito da minha avó pelo seguinte, porque foi no tempo da guerra, não havia trabalho. E o trabalho que havia era campo, pagavam muito pouco para o camponês trabalhar. Meu pai ganhava muito pouco. Eu digo pra você, não tenho vergonha de falar, eu passei muita fome. A minha avó e o meu avô, meus tios estavam aqui no Brasil, quatro tios aqui no Brasil, eles mandavam dinheiro para os meus avôs. Porque eles eram velhinhos, não podiam mais trabalhar, então eles mandavam dinheiro para os meus avôs. E esse dinheiro ficava na mão de um primo nosso, e cada tempo pra nascer, esse primo dava dinheiro pra minha avó, dava um tanto. Dava um tanto hoje, daqui um tempo outro tanto, e daqui a tempo outro tanto pra eles não passarem necessidade. Isso feito pelos meus tios que moravam aqui. Como nós morávamos juntos, aquele dinheiro matou muitas vezes a fome dos netos, a minha avó. E a minha mãe ficava muito nervosa, porque estava passando necessidade, não tinha pra dar comida para os filhos, ela ficava nervosa, ela batia na gente. Ela descontava nos filhos o nervosismo dela. E a minha avó sempre falava: “Olha, mulher, você mata essas crianças. Não bate nas crianças”. Porque era a necessidade que ela via, ela tinha, de não ter para dar para os filhos, entende? Que foi muito difícil. Foi uma altura muito, muito, muito difícil.

 

Família no Brasil

Ah, meus tios vieram moços, eu ainda não era nascida. Quando a minha mãe casou, acho que meus tios já estavam aqui no Brasil. Porque a minha avó já tinha assim, um meio de vida melhorzinho. E a família do meu pai era uma família mais simples. E pelo que eu observei na época lá, os meus tios não queriam muito o casamento da minha mãe com o meu pai, devido ser uma família mais simples. Porque em Portugal antigamente tinha isso. Rico tinha que casar com rico, pobre tinha que casar com pobre, não misturava. Até os meus tios vieram para o Brasil muito chateados com a minha mãe por ela fazer isso. Ela gostou do meu pai, casou com o meu pai. Mas meu pai não tinha uma arte. Porque lá em Portugal quando a pessoa trabalha com uma coisa, um pintor, um marceneiro, assim, que tem uma profissão, uma arte, já ganhava um pouquinho melhor. Mas meu pai não, meu pai era do campo, então ele ganhava pouco. Começaram aparecer os filhos, filhos de um jeito, filhos do outro, então a gente passava necessidade. Meus tios vieram pra cá também pra trabalhar, pra crescer, pra ser alguém na vida naquela época. Vieram os quatro. Um foi chamando o outro. Veio um primeiro, depois um foi chamando o outro. Até que um desses meus tios, o mais velho, foi lá a Portugal passear, levou as filhas, naquela época a Neusa tinha uns oito, nove anos... Eram mais novas, era seis, pra cinco assim, as meninas. E ele ficou lá uns anos em Portugal, comprou lá uma tinta e ficou lá uns anos em Portugal a viver. Até queria ficar lá, pra continuar morando lá. Comprou aquela tinta e aquela casa pra continuar morando lá, mas não era bem na minha aldeia, aí já era no Carregal. No Carregal já era o concelho, aí já tinham casas melhores, já era tipo assim de uma vilinha, sabe? Não era aldeia, era uma vilinha, onde tinha o cartório, onde tinha justiça. Já era assim com cartório. O Carregal do Sal já tinha umas casinhas melhores e já tinha gente com poder aquisitivo melhor. Aí as meninas começaram a crescer, a Zélia e a Neusa começaram a crescer, começaram a pedir para os pais que queriam vir pra terra delas, para o Brasil de novo. Elas estudaram na escola e tudo. Então meus tios resolveram vir de novo para o Brasil. A mais velha tinha 12, a Neusa tinha nove. Aí foi quando esse meu tio, que era o mais velho de todos, chegou pra mim e disse se eu queria vir com eles. Aí nem era pra vir eu, era pra vir a minha irmã mais nova, a Isabel, mas ela na época tinha 14 anos. E ele foi ver pra tratar dos documentos, naquela época os documentos davam muito trabalho pra arrumar, estava difícil por ela ser menor. Foi aí que ele chegou a mim, me perguntou se eu queria vir. Eu falei pra ele que sim. Naquela época eu estava pra completar os 18 anos. Eu falei pra ele que sim. E eu estava trabalhando em casa de família e numa outra cidade, e longe, e que eu ganhava por mês mandava aquele dinheirinho pra minha mãe numa carta, enfiava aquele dinheiro numa carta e mandava pra minha mãe lá pra aldeia. Uma cidade muito bonita, Abrantes. Ficava na região do Alentejo. Trabalhei lá com essa família, essa família foi patrão do meu pai. Fomos um ano trabalhar, meu pai foi um ano trabalhar lá pra eles. E vão assim, um monte de gente pra apanhar azeitona. Porque eles eram umas pessoas que tinham umas fazendas, aqui fala fazenda, mas lá dão outro nome, que têm muito pé de azeitona, muito, muito, muito, muito, muito, muito mesmo, sabe? Meu pai levava 30 ou 40 pessoas, uma comparação, e na parte de lá, a outra pessoa, também umas 30 a 40 pessoas apanhando azeitonas todos os dias, dois meses. Já você pode ver quantos pés de azeitona aquela gente não tinha. Então eles já tinham lagar próprio deles, a azeitona já vinha do campo, já ia diretamente para o lagar, mas aí já era rodado à eletricidade. Nessa cidade já tinha eletricidade. Já era muito moído à eletricidade, não era à água que nem lá na minha aldeia.

 

Infância

Ah, brinquei muito. Foi o tempo mais gostoso. Brinquei muito, brinquei muito, brinquei muito. Brinquei muito, mas minha mãe dava tarefas pra fazer em casa, pra quando ela chegasse do serviço, aquilo estar feito. Se não estivesse feito, eu apanhava. Esconde-esconde, pega-pega. Como fala aquela coisa que a gente escreve no chão, quadradinho, que a gente pulava assim? Amarelinha. Brincávamos muito de esconde-esconde, pega-pega, de roda-roda. Fazíamos aqueles quadradinhos e tinha essa assim comprida, e tinha aquela redonda também. Acho que aqui também tem aquela redonda? A gente brincava dos dois. E eu gostava muito de brincar. Aí a minha mãe deixava as tarefas pra fazer em casa, e muitas vezes as tarefas nós fazíamos. Aí eu falava pra minha irmã, a mais nova, a Isabel: “Isabel, vem cá me ajudar. Vem cá, que a mãe vai me bater. Vem me ajudar. Faz isto, faz aquilo, que eu faço isto, faço aquilo”. Ela queria que lavasse o chão da casa, a gente ajoelhava no chão, ajoelhava, esfregava a casa com a mão, jogava água, sabão, era tudo com a mão assim, sabe? Ajoelhado em casa, depois a gente limpava com um pano assim, íamos enxugando assim, e íamos limpando e lavando a casa, que a minha mãe deixava tarefas pra gente fazer: cozinha, o corredor, a sala. E eu apanhava. Apanhava, porque eu queria brincar, eu era criança. Tinha um senhor lá muito rico, na minha aldeia, que chamava senhor Santos Lima. E ele era muito rico porque tinha trabalhado numa cidade de fora, e ele era não sei o quê de sal, salinas, ele tinha salinas, onde fazia sal. E como ele era muito rico, no Natal e na Páscoa, o que ele fazia, coitado? Ele fazia aquele pinheiro grande, muito grande, pinheiro natural, ia ao mato, pegava, e enfeitava aquele pinheiro tudo de brinquedos. Ele comprava brinquedos e ele enfeitava aquele pinheiro todinho de brinquedos. E depois, todos nós pobres, eu e outras famílias, a gente já sabia que ia ao senhor Santos Lima ganhar um brinquedo. Formávamos aquela bicha, que aqui fala bicha, lá é fila. Não, aqui é fila, lá é bicha. Aqui é fila, lá é bicha. A gente formava aquela bicha, ou ele ou outra pessoa que ele mandava dava um brinquedo pra cada criança. Era assim todos os anos. Então eu ganhava muito brinquedo. Pandeireta, brincava de pandeireta. Sabe o que é pandeireta? Aquele tipo da espanhola, que faz aquele barulho. Como fala aqui? É tipo um pandeiro que usam aqui, mas é pequeno. É assim mais pequenininho, com umas coisinhas, que fazia aquele barulho pra tocar. Maquininha de costura. Cada ano era uma coisa. Formava uma filinha, cada ano ele dava um brinquedo. Eram brinquedos feitos de fábrica. Acho que ele trazia lá de fora. Ele já trazia de lá onde ele trabalhava. Às vezes quebrava. Às vezes era de quebrar, outras vezes eram de plástico, mas era mais quebrar. Aquelas lousinhas, sabe umas lousinhas pequenininhas que a gente usava na escola? Porque aqui, aqui é caderno. Caderno, caderno, caderno. Lá a gente fazia tudo naquela lousa pequenininha. Limpava, apagava, a professora dava outra lição. Pra não gastar caderno, pra não comprar caderno, porque a gente não podia.

 

Escola em Portugal

Na minha escola, cada um tinha uma lousa, uma lousinha. As cadeiras lá eram muito melhores que as daqui. Isso eu posso falar pra você. Eram de duas pessoas, uma aqui, outra aqui. Umas cadeiras que tinham suporte pra por o caderno, pra por a lousa. Tinha assim um negócio pra gente guardar uma coisa, de madeira. Isso era o que tinha de bom. Bem feitas, confortáveis. Com sete anos eu entrei para a escola. Os professores, pela lista, têm a data quando nascem aquelas pessoas naquela aldeia, não é isso? Se não fossem pra escola, a professora ia buscar na casa. Era direito. O presidente mandava pegar, fosse homem, fosse mulher, pegar aquela criança na escola. Ia lá uma delas que morava longe, pois iam buscá-la lá no rio, lá longe, pra menina vir à escola. Os pais acho que não estavam querendo que a criança viesse, pra não ter trabalho pra trazer, que ficava um pouquinho longe. Mas o presidente dava ordem para os professores. Era o doutor Oliveira Salazar naquela época. Um homem muito bonito. Estava a foto dele lá nas escolas. Tinha a foto dela. Naquela época um doutor, um doutor, tinha poder. Hoje não. Hoje está tudo fácil, tudo moderno. Mas naquela época, um doutor... E dentro da sala de aula, uma sala enorme, uma sala enorme. Era um prédio dividido, aqui eram as meninas e ali eram os meninos, não era misturado, tanto na brincadeira, como na escola. Lá eram as meninas, aqui os meninos. No recreio tinha um negócio que dividia, lá os meninos e aqui as meninas, brincávamos. Tinha uma lousa enorme na parede, quando a gente ia ao quadro escrever, quando a professora escrevia. Foi um primário que eu fiz, terceiro ano, mas acho que daqui é quinta série. Ainda lembro coisas que aprendi, que hoje estão aprendendo aqui a quinta série. No terceiro ano. Se quisesse fazer o quarto, o quarto ano, aí eu poderia fazer, mas aí já ia para o mapa, a gente já ia estudar o mapa. Até o terceiro ano, o aluno não aprendia o mapa. Eu não cheguei a aprender o mapa. Muitas contas. Muita matemática, muitas contas, muita tabuada, muita tabuada, muitas contas. Os rios. O mapa era pra estudar o quê? Cidades grandes, os países, a Europa... Então quem tinha poderes, quem tinha posse pra continuar a estudar até o quarto ano, continuava. Que nem algumas amigas minhas lá continuaram estudando porque os pais podiam. Mas eu tive que sair porque eu precisava trabalhar. Eu precisava ir trabalhar pra ajudar em casa. Com doze anos já fui trabalhar. Quando saí da escola, já fui trabalhar. Então pra ajudar um pouco em casa. Era criança, queria brincar, e já fui trabalhar. Esse primário que eu fiz. Não era cada ano que mudava de professora, não era todo ano, acho que eram dois sim, dois anos não, que trocava a professora. As professoras não eram da nossa mesma aldeia, elas vinham de outra aldeia de fora, de outro lugar de fora. Minha primeira professora chamava Beatriz. Foi muito boa, ensinou muito bem, muito bem. Quando ela foi embora, a gente começou todo mundo a chorar. Depois veio um casal, marido e mulher, ele para os meninos, e a mulher para as meninas, que até depois precisou alugar uma casa lá pra morar, porque eles ficaram bastante tempo. Eles ficaram bastantes anos. Mas pra passar no terceiro ano, sabe como era lá? A gente estudava até o terceiro ano. A gente ia fazer provas, provas pra passar aquele terceiro ano em outra aldeia, em outra cidade, em outra escola desconhecida. Em outra aldeia desconhecida, com outro professor desconhecido. Se a gente sabia, passava, se a gente não sabia, repetia. Eu era muito boa em matemática, em contas. Que até hoje em contas ninguém me engana. Ninguém me engana. Eu gostava de fazer conta, tabuada, tudo. Litro, quilolitro, estudei tudo isso, no terceiro ano. Era na própria aldeia. Próximo. Íamos a pé, porque era perto. Era pertinho. Até a professora e o professor moravam em frente à minha casa. Uma casa alugada. Então eu sabia quando ela já estava indo pra escola. Minha avó falava assim: “Anda que a professora já foi”. “Anda, Clarisse, corre que a professora já foi.” Ela ia por outro caminho, por trás, sabe? Assim. Aí eu corria, corria, corria, lá ia eu. Uma vez eu caí, tinha uma rodela assim pra tirar água do poço, tinha que fazer assim pra tirar água do poço, pra gente jogar no banheiro, tinham os banheiros, tinha tudo assim, e nós tínhamos que fazer assim, que lá era uma roda pra tirar água do poço. Eu me pendurei naquela roda, aquela roda fez tchop. Nossa, eu era um moleque. Eu era um verdadeiro moleque.

 

Acidente na infância

Olha, eu brincava, brincava, brincava, um dia estava brincando lá: “Lá vem a minha mãe. Lá vem a minha mãe”. A gente se juntava toda, mas todo mundo queria brincar comigo. Eu era muito querida, até hoje, graças a Deus, não sei por que. Eu era muito querida e até hoje. Aí: “Lá vem a minha mãe. Lá vem...”. Menina, caí, catapumba pra baixo, quebrei o braço. Caí no muro lá pra baixo. Caí, quebrei o braço. Aí quebrei o braço, comecei a chorar, doeu, doeu, doeu. Doeu, doeu, doeu. Bom, esta é uma história de infância que eu estava brincando. A minha mãe teve que me levar lá ao massagista. E, olha, foi este. Naquele tempo era um médico só lá, um médico que fazia isso. Fomos ao massagista. Naquele tempo já tinham aqueles senhores que consertavam, falava consertar. Andei com este braço aqui no peito não sei quanto tempo. Andei assim quanto tempo. Quando o massagista mandou tirar o braço daqui com o negócio, o osso do meu braço não foi no lugar, ficou aqui, olha. Era um ovo que eu tinha aqui. O osso não foi no lugar. Então todo mundo me procurava se não me doía. “Não te dói? Não te dói?” “Não. Não dói.” Ficava aquele ovo aqui. Depois, olha, nem percebi. Comecei a crescer, a trabalhar no campo, e fazia força pra cima, e fazia força pra baixo, não sei o quê, o osso foi no lugar. Engraçado. O osso voltou ao lugar. Até hoje, olha, estou aqui. Mas todo mundo procurava: “Não te dói? Não te dói?” “Não. Não me dói” “E como você fez isso?”. Eu falava: “Ai, eu caí. Eu caí lá no muro da dona...”. Não sei como ela chamava lá. Brincando: “Lá vem a minha mãe. Lá vem a minha mãe”. E gostava muito de dançar.

 

Bailes na aldeia

Eu adorava dançar. Aos domingos tinha sempre baile na minha aldeia e vinham rapazes de outras aldeias. Isso já quando eu tinha meus 16, 17 anos, assim. Rapazes de outras aldeias, ali povoado de Vila Meã, porque Vila Meã era comentada, tinha sempre o baile aos domingos de Vila Meã. Então vinham outros rapazes de fora. E moços bonitos. E a gente ficava... Aqui vocês falam “paquerar”. E a gente olhava lá, a gente falava “olhar”, paquerar. Paquerava um, paquerava outro, ainda tive lá um namorico com um deles. Tive um namorico com um deles. Tinha um salão. Eles alugaram aquele salão, porque tinha um rancho. Eu não cheguei a entrar no rancho pra... Esse rancho folclórico, você conhece também aqui no Brasil? Esse rancho folclórico, de português, italiano, você nunca viu na televisão, que dança? O vira. A gente tem aquela roupa comprida do rancho, aquele uniforme. Era roupa comprida. De acordo ao lugar era o estilo da roupa. Uma comparação, no outro lugar era outro modo, no outro lugar, no Castelo, já era roupa do Castelo, de Viseu já era outro tipo de roupa, mas tudo comprido, tudo diferente, outras com chapéu na cabeça, outras sem chapéu. Mas a dança era quase tudo igual. O modo de dançar, a maneira de dançar era quase sempre o mesmo estilo. Que tem aqui, tem aqui no Brasil esse rancho folclórico. Aí tinha um maestro que ensinava e que ensaiava. Então nisso aí eu não cheguei a entrar. Foi a minha paixão e vim embora para o Brasil sem chegar a entrar no rancho. Nós dançávamos no salão que eu falei pra você, que eles alugavam lá, pagavam uma taxa. Que tinha uma turma que tocava violão, era tão lindo. Chamava tuna... Uma tuna. Uma porção de rapazes, um senhor tocando violão, violino assim, sabe? E ficava perto da minha casa. Ah, era um céu aberto. Lindo como eles tocavam. Eu adoro música. Tocavam valsa, tocavam vira, tocavam tudo. E lá no baile, eu não dançava com qualquer um, não, eu escolhia o meu par. Tinham os mais médios, tinham os mais pobrezinhos, tinha mais não sei o quê, mas eu estava assim no meio olhando. E vinha lá um deles que era “filho de papai”, que nem vocês falam aqui, riquinho, bonitinho, sempre me chamava pra dançar. Ele era mais baixinho do que eu, mas eu adorava dançar. A valsa, tudo corridinho. Tudo. Era mais corridinho assim, sabe? Mais ligeiro. A minha prima era cantora. Chamava Aurora. Como ela cantava! Lindo. Olha, se eu ficasse na minha aldeia, é que eu vim embora, eu ficava no lugar dela, que eu adorava cantar. Eu levava a minha voz, minha filha, onde eu queria. Eu cantava o fado que nem Amália Rodrigues. Não é do teu tempo, mas você deve ter escutado. Ela veio aqui muitas vezes ao Brasil. Adorava cantar o fado. Mas eu não lembro mais a letra assim, sabe? Adoro cantar. Só que a minha voz não é mais aquela que nem antigamente, porque eu operei a garganta, a minha voz não ficou mais igual.  E dá assim um tipo de pigarro, de rouquidão. Olha, se naquela época fosse hoje, eu ia ser cantora. Eu ia lidar com música, porque eu adoro música. Não é qualquer tipo de música, música assim mais clássica, sabe? Entra pela minha alma adentro a música. Mexe comigo. Tanto pra dançar, como aquela música suave pra gente escutar. Eu tive muita oportunidade aqui no Brasil. Tive. Eu tive piano em casa. Mas depois vou chegar a essa parte aí. (Cantando) “Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa. Se na porta humildemente bata alguém, sente-se à mesa com a gente. Fica bem essa franqueza, fica bem, e a gente nunca desmente. E a alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar e ficar contente. Quatro paredes caiadas, um cheirinho de alecrim, e numa mesa dourada...” Sabe, a gente esquece. “E um São José de azulejo, mais o sol da primavera. E uma sineira de beijo, um grande amor à espera...” É assim, sabe? “É uma casa portuguesa, com certeza. É, com certeza, uma casa portuguesa.” Esta é uma canção portuguesa mesmo. Esta é popular. O fado é muito bonito, mas eu não me lembro. (cantando) “Coimbra do choupal ainda és de Portugal...”. Não. “Coimbra de choupal ainda és capital do amor em Portugal, ainda. Coimbra da canção...” Ai, esqueci. “Coimbra das...” Eu canto isso no coral. Que nem hoje, hoje eu tenho uma apresentação de coral. Eu vou sair daqui, vou correndo pra minha casa... Nos bailes tinham aqueles enfeites de papel que fazem aquelas coisas assim, que é tudo trançado, como chama? Tipo uma cobrinha. Aquelas bandeirinhas. Aquele tipo aqui de São João. Enfeitam. Era assim lá o nosso salãozinho. Fechado com uma porta, tinha um palco, tudo. Quem dança no rancho ia dançar naquele palco, sabe? Tinha um palco para o rancho. Em Portugal existe muito rancho. Mesmo na minha aldeia tem o rancho, agora mesmo lá. Formaram um rancho, sempre teve. Um grupo folclórico. Canta e dança. Cantam e dançam. Na minha aldeia sempre existiu esse rancho, sempre, sempre, sempre. Porque ela é uma aldeia pequena, mas ela tinha muita fama ali pela na redondeza de ter pessoas que sabiam cantar muito bem e dançar. Porque tinha uma juventude naquela época muito bonita, tanto na parte de homens, como mulheres. Existia uma juventude bonita, sabe? Tanto na época antes de eu chegar, como depois na minha época também. Eu tinha muitas amigas, éramos muitas na escola. Só que depois eu vim embora pra aqui. Eu até ia entrar no rancho. Eu vim embora aqui para o Brasil, então eu não cheguei a entrar no rancho lá.

 

Trabalho no campo

Na época do vinho era época do vinho, na época da azeitona era azeitona, das uvas era das uvas, de pegar batatas era de pegar batatas. A gente cultiva batatas, então na época de arrancar as batatas, meu pai arrancava, minha mãe, a gente por trás ia pegando a batata, limpando-a da terra, pondo na cesta, jogando ali na cesta. Pra por na cabeça pra levar pra casa. Em casa nós tínhamos um sótão assim em cima da casa, tinha assim um sótão em cima de madeira, que a gente jogava a batata ali, que era batata para o ano inteiro, filha. A gente lá cultivava pra consumir, nós consumirmos o ano todo. Eles punham uns pós pra conservar, pra não apodrecer, naquela época. Ainda tem esse costume lá em Portugal. Existem uns pós, um pó branco, que eu não sei falar o nome, que jogavam na batata pra conservar, pra não pegar bicho. Ainda hoje tem esse costume lá. Agora, na própria minha aldeia mesmo, a juventude não fica mais lá, todo mundo vai embora pra fora. Todo mundo vai embora pra França, um pra França, pra Alemanha. Só tem velhos, homem e mulher. A juventude se manda tudo embora. Vai trabalhar em outros países, fica lá trabalhando, ganha mais, ganha um pouco mais, depois vai à terra nas férias, todos arrumadinhos, todos bonitinhos, uns com carro, outros sem carro, tinha como levar um carro. Porque você sabe, da Europa, Portugal é tudo estrada. Então da França a Portugal pode ir de carro, da Alemanha. Assim, eles vão mais pra Alemanha e pra França. Alguns gostam de ir para os Estados Unidos, mas é mais difícil. Então quando chega no verão, que é julho, agosto, é assim de gente tudo de fora. Tudo juventude que vai lá pra fora, casa, traz os filhos pra praia. No meu tempo, só ia à praia quem era rico.

 

Primeiro trabalho

Ah, eu dava o dinheiro pra minha mãe. Coitada, a minha mãe, como foi criada bem, na época acho que a minha avó tinha um poder aquisitivo melhor. A minha mãe não sabia conduzir o dinheiro. Sabe, tem pessoas que não sabem lidar com dinheiro. Não sabem lidar. Gastava mais com aquilo. Então quando ela tinha dinheiro, gastava, gastava, gastava. Pois quando ela não tinha, pois chorava. Naquele tempo eu não pensava. Hoje eu falei: “Coitada da minha mãe, ela não sabia lidar com o dinheiro”. Eu sei lidar com dinheiro. Que a gente aprende tudo. A gente passando necessidade, a gente aprende tudo, minha filha. Aprende a viver na vida e a dar valor à vida. E dar valor à vida. Ela, o irmão dela, o outro, que nem as minhas filhas, não dão valor à vida porque tiveram tudo fácil. Então, eu comecei pelo seguinte, como meu pai me levou uma época, um ano pra apanhar azeitona, pra essa gente muito rica, e essa gente gostou muito de mim lá na fazenda, foram lá e gostaram de mim, pediram para o meu pai se eu podia... Naquele tempo eu tinha o quê? Meus 14. Quatorze, 15 anos, por aí. Pediram para o meu pai se eu podia ficar lá, trabalhar com eles. Era um casal que tinha três filhas mulheres, não tinha homem. A minha patroa era uma filha, e tinha a dona Manuela e a dona Vanda. Então eu fui trabalhar numa das filhas desse senhor muito rico, ele era major. Era chamado Miro. Ele era major, formado major. Major lá, minha filha, era gente importantíssima naquela época. Bom, então eu fiquei trabalhando pra uma das filhas dele, chamava dona Mirian, e o marido dela era engenheiro da agricultura, e ela era de casa. Ela estudou, tudo, mas lá naquele tempo ninguém trabalhava, era o marido que sustentava a família em casa. Tinha duas meninas. E eu passeei muito com eles. Eu conheci muito Portugal, antes de vir para o Brasil, com eles. Eu olhava pelas meninas. Teve uma época que eu fui babá das meninas, uma menina chamava Maria Isabel, outra Maria Tereza. Uma época eu era babá das meninas, eu viajava muito com eles. Quando eles viajavam, eu tinha que ir com as meninas. Dar banho, dava comida, trocava, cuidava da roupa delas, que nem babá, cuidar das crianças. Passeávamos, íamos pra aqui, conheci Portugal quase inteiro com essa família. Mas você sabe o que acontecia comigo, filha? Eu passava mal no carro. Porque a gasolina, naquela época, ela era muito forte, e a gasolina me dava enjoo. E às vezes nós fazíamos viagens longas, eu tinha que ir de jejum, se eu comia alguma coisa, eu vomitava. Não existiam estradas como tem hoje, então os caminhos eram tudo estreitinhos e eram assim, então tinha muita curva e naquelas curvas eu enjoava. Eles tinham que parar pra eu vomitar. Nossa, era coisa horrível. Eu já ficava até doente. Quando eles falavam que tal dia íamos pra tal lugar, eu falava: “Ah, meu Deus, pronto, é hoje”. Ah, era um carro, só que eu não lembro a marca. Iam os dois na frente e eu com as meninas atrás. Passeei muito. Andei de barco assim no Rio Douro em Lisboa, eu fui Alcácer do Sal, eu fui a Setúbal. Eu fui, em Portugal, a Guimarães. Eu fiquei em Setúbal muito, muito tempo. Uma das meninas ficou doente e em Setúbal morava uma irmã dela. Porque elas eram irmãs casadas com dois irmãos. Um era engenheiro, o outro eu nem sei o que fazia, cada um era uma coisa. Então a gente ficou muitos meses em Setúbal, porque a menina ficou doente, precisou ficar internada lá no hospital em Setúbal. Então eu fiquei muito tempo na casa dessa irmã dela. Então ia ao hospital visitar a menina, levar comida, ia e vinha, ia e vinha assim. Conheci bastante, passeei bastante com eles. Eu fiquei bastante tempo. Eu saí de lá pra vir embora para o Brasil.

 

Vinda para o Brasil

Eu fui a minha aldeia ver os meus pais. Aí foi nessa época que meu tio falou assim pra mim se eu queria vir com eles para o Brasil. Aí eu falei: “Ah, tio, vou, mas eu tenho que ir lá e falar com meus patrões” “Então está bom. Então vai lá, fala com teus patrões, depois vem, porque nós temos que tratar dos papéis”. Naquela época, dava muito trabalho pra tratar da papelada pra vir para o Brasil. Tinha que ter carta de chamada. Mas eu não precisei de carta de chamada porque eu vim com eles, eu vinha como empregada deles. Então não precisei de carta de chamada. Era uma autorização. Tipo uma autorização, como essa pessoa vem trabalhar pra esta pessoa que está chamando-a. Que nem meu marido quando veio, ele precisou dessa autorização que esse senhor que estava aqui no Brasil estava chamando-o pra vir trabalhar no comércio dele. Então lá falava... Naquela época, falava carta de chamada. Aí eu fui embora, tudo, quando eu cheguei lá em Seia perto da Serra da Estrela. E esse meu patrão viajava muito. Como ele era engenheiro da agricultura, cada época ele estava numa cidadezinha, sabe? E eu cheguei lá e falei: “Aí, dona Mirian, olha, eu vou ter que ir embora” “Por quê?” “Ah...”. Eu falava assim: “Ah, dona Mirian, sabe o que é? Meu tio quer me levar para o Brasil” “O quê?”. Nunca me esquece, ela. “O quê? Você quer ir para o Brasil?” “É. Sim” “Nossa, você quer ir para o Brasil, pra uma terra tão longe? Você vai deixar aqui seu pai, sua mãe, seus irmãos, todo mundo e você vai pra uma terra pra tão longe, filha?” “Ah, dona Mirian. Ah, eu vou. Vou trabalhar. Vou trabalhar. Ganhar um pouco mais assim pra mandar dinheiro para os meus pais, e vou com eles.” Ah, ficou triste, não queria que eu saísse de lá. Ela ficou triste, mas eu saí. Em 1950. Em maio, e em março eu tinha completado os meus 18 anos, tinha completado em março, por isso que meu tio podia trazer, porque eu tinha completado os 18 anos em março. Em maio eu saí de lá, aí meu tio tratou da papelada, da documentação minha, das meninas, da minha tia, tudo direitinho, e em agosto embarcamos pra cá, em navio. Naquela época só viemos eu, meu tio, minha tia e as duas meninas da família. Meus pais ficaram tristes. Até uma prima da minha mãe. O pai dela é irmão da minha avó, então elas já eram primas, pra mim era segunda prima. Não esqueço: “Clarisse...”. Ela foi me acompanhar até o comboio. Aqui fala trem, lá é comboio. “Você nunca se esqueça da sua mãe.” Minha prima Justina. Ela chamava Justina. “Você vai embora para o Brasil com os teus tios, tudo bem, mas não te esqueças do teu pai e da tua mãe. Mandar sempre um dinheirinho pra eles assim.” Aí eu falei: “Não, prima Justina, pode ficar tranquila, não esqueço, não”. Aí embarcamos em agosto pra cá no dia dois de agosto. Nós chegamos a Santos, filha, foram 14 dias de navio.

 

A viagem de navio

Era um navio inglês antigo, que naquela época já tinham navios mais modernos. Já tinham dois navios, o Vera Cruz, que era português, e o Santa Maria, que também era português, eram navios mais modernos. Mas eu não calhei de vir nesses navios, eu vim num inglês. Eu vim num navio inglês, que já era assim, um pouquinho mais velho, mais acabado, mas era enorme. Um navio enorme. Tinha salão de festa, tinha piscina, tinha tudo, só que não era tão moderno. Vomitei um pouco, me senti mal, porque balança. O navio balançava muito nos primeiros dias até a gente acostumar. Nós não fazíamos nada. Ficávamos sentadas vendo quem estava na piscina, uma hora íamos pra um lado, outra hora íamos pra outro. Andávamos pra cá, andávamos pra lá, jogávamos carta, jogávamos baralho. Íamos almoçar num salão enorme, pra comer o café, o almoço assim, tudo. Mas fazer, não fazíamos nada. Aí no meu quarto onde eu dormia. A minha tia e o meu tio dormiram no mesmo quarto das meninas, cabiam quatro camas. Agora, onde eu dormia vinha uma moça aqui do Brasil que vinha da França. Ela foi passear na França naquela época. Ela dormia na mesma cabine, tinha duas camas. E ela vinha toda feliz da França: “Ai Paris. Paris. Paris é linda. Olha, Paris é linda, Paris não sei o quê”. E você sabe, eu pus aquilo, Paris, na cabeça, de tanto que ela falava. Que era maravilhoso, a França que era maravilhosa, que a França... Aí eu pus aquilo na cabeça, falei: “Não, eu quero conhecer a França. Um dia eu vou conhecer essa Paris, essa França”. E fui. Fui conhecer essa Paris, essa França que tanto a mulher a falava.

 

A chegada ao Brasil

Chegamos em Santos. Como eu já vim acostumada a tanta coisa, já vim acostumada ao bom e ao ruim, ao bom, onde eu estava trabalhando era uma delícia, tinha todo conforte, passeava bastante, bastante comida. Alimentava-me bem, que era uma casa muito farta, muito rica. Então eu estava maravilhosamente bem naquela casa. Tratavam-me muito bem, eu era respeitada, querida. A outra é mais a necessidade que eu tinha passado. Então eu vim acostumada a tudo. Naquele dia que nós chegamos era feriado. Tinha um feriado em agosto, era 14 ou 15. Antigamente tinha. Nós chegamos num dia de feriado, em Santos, o feriado acho que era em São Paulo. A gente chegou um dia a Santos, ficamos lá nos parentes em Santos de um dia para outro. Complemente diferente de hoje Santos. Eu ia muito pra Santos porque eu tinha parentes lá, morava lá um dos meus tios. Tinha as minhas primas, então como éramos assim mais ou menos da mesma idade, então eu ia muito pra Santos. Santos era completamente diferente do que é hoje. Dava trabalho pra tirar a mala, despachar a mala, abriam tudo, viam o que trazíamos, o que traziam, aquela confusão toda, e vai pra cá, e vai pra lá. Hoje é tudo mais prático. Então está tudo diferente. Eu vi por esse passeio que nós fizemos do cruzeiro. Onde a gente embarcava, onde a gente desembarcava, era tipo de um barracão. Aquela confusão daqueles homens, porque vinha tudo por guindaste as malas, tudo pendurado. Aqueles navios com aquelas coisas muito altas, porque eram completamente diferentes agora. E eles eram mais baixinhos, não eram grandes como são agora, que agora têm diversos andares. Eram mais baixinhos. Olha, onde eu dormia batia água no vidro. Você pode ver. A gente só subia pra cima, então eram mais baixos. Eles pegavam as malas e depois a gente pegava. Então tinha aquela gente antiga, aquela gente riquíssima, traziam tapetes de lá, traziam móveis, traziam tudo, despachavam, que era tudo despachado. Era tudo despachado. E às vezes dava complicação. Eu me lembro de uma senhora que trazia um tapete bonito, estava dando problema lá pra mulher pra poder retirar aquele tapete, por causa de parar na alfândega, essas coisas todas. Eu lembro aquelas malas tudo ali amontoadas, umas em cima das outras, que eram aquelas malas grandes, aqueles baús. A minha tia tinha uma, das meninas, dele, eu tinha a minha. Mas a minha era pequena, porque naquela altura eu só trazia a minha roupita. Depois até mandei essa mala pra lá com roupa lá pra minha mãe. Eu tinha um vestido amarelo, uma sandalinha amarela anabela. Ai como eu gostava daquele vestido amarelinho. Eu punha aquela sandalinha assim amarela... Eu sempre me arrumei mais ou menos, sabe?

 

Festa na aldeia

Lá na minha aldeia tinha aquelas festinhas durante o ano, Santa Eufêmia. Era 16 de setembro, nós íamos à Santa Eufêmia, a gente se arrumava toda bonitinha, íamos à festa. Uma festa que tem procissão. Uma festa religiosa. Tinha a missa, depois da missa saía a procissão, a gente acompanhava a procissão, depois da procissão vinha e recolhia, depois tinha aquele leilão daquelas ofertas que as pessoas levam na cabeça, às vezes fazem promessa. Como se fala? Aquelas ofertas, como era? Comida. Cobriam com uma toalha, um cesto, tinha lá frango assado, ou peru assado, tudo comida. Cobriam com aquele cesto bonito, com aquele pano bonitinho, levavam na cabeça na procissão e traziam. Depois aquilo era leiloado, quem desse mais. E aquele dinheiro era pra igreja, poupado pra igreja. A comida era leiloada.  Eu podia comprar, você podia comprar, você podia comprar. Depois íamos comer aquilo para o meio do mato, tudo no chão, piquenique, tipo piquenique. Era gostoso. Era uma delícia. Estendia no chão uma toalha. Íamos a pé. Atravessávamos o rio e íamos a pé. Andava mais do que cinco, sei lá, seis quilômetros a pé. É o Rio Tejo. A pé. Quando o rio estava mais vazio, mais seco... É na minha aldeia, lá no fundão. No fundão da minha aldeia. Quando era um tempo assim mais seco, um verão mais seco, o rio estava mais seco. Quando era assim um verão mais chuvoso, então o rio estava mais cheio. Quando o rio estava mais seco, a gente atravessava o rio a pé. Levantávamos pra cima... A gente fazia roupa bonita, nova pra irmos pra festa, sapato novo, vestido. Sempre fazia um vestidinho bonitinho. Tinha uma costureira que costurava pra mim, eram duas irmãs solteironas, nunca casaram, e elas costuravam muito bem. E eu pagava a costura, o trabalho da costura, no meu trabalho. Eu trabalhava pra elas e pagava a minha costura, dos meus vestidos. O tecido a minha mãe comprava na feira. Aquela chitinha, aquele pano bonitinho, estampadinho, aquela roupinha, tudo baratinho. Então a minha mãe falava assim pra mim... Agora, as minhas amigas, que tinha um poderzinho melhor, elas compravam a seda que tinha, uma sainha de lã que tinha, lógico que tinha, tinha pra quem podia comprar, quem não podia comprar, ia conforme pode. Então minha mãe sempre comprava uns panos de chitinha lá, fazia um vestidinho bonitinho. Um ano eu não gostei, mas depois todo mundo gostou. Um ano eu não gostei, eu falei pra minha mãe: “Ai, mãe, não gostei”. Era muito estampado. Era tudo estampado, verde, todo colorido, sabe? Ela fez lá o vestido, eu não gostei da estampa. Mas depois me falaram que estava bonito, que até não sei quem comprou um igual. Eu não vi, mas: “Ai o meu era igual ao teu”. A mãe da Isabel. A mãe da Isabel falou pra mim que teve um vestido igual ao meu, era esse daí. Isabel é a minha sobrinha. Aí eu ia. Então a minha mãe falava assim pra mim: “Olha, minha filhinha...”. Não era pra falar, não. Não era pra falar, não, até hoje. “Ai, minha filhinha, não tem nada”. Eu tinha um cabelo muito bonito. Eu tinha um cabelo muito lindo, minha mãe penteava muito bonitinho, direitinho, fazia aquelas tranças, sabe? Bonita, andava com o meu cabelo sempre bem arrumadinho. Ela fazia aquelas tranças, às vezes eu ficava com ele pra  cima, outras vezes eu enrolava, fazia tipo de um coque. Tinham diversas maneiras de fazer. Eu vim para o Brasil com esse cabelo grande, eu só o cortei aqui. Aí minha mãe falava assim pra mim: “Olha, minha filhinha, você fica tão bem com qualquer coisa”. Ela falava assim. Sempre ela falava isso pra mim: “Você fica tão bem com qualquer coisa. Olha, o vestidinho de chita que te comprei, você parece uma boneca” – ela. “A tua amiga, que era fulana e cicrana, olha, estava com blusa de seda, estava com saia não sei o quê de lã, olha, não sobressaía nada. Mas você com uma chitinha, você parecia que estava vestida de seda” – ela assim pra mim. Você acredita que até hoje, até hoje, eu posso por um “coisinho”, mas, olha, quando eu me arrumo, me ajeito um pouquinho assim, nossa...

 

Chegada em São Paulo

Eu fiquei em Santos um dia só, na casa desse meu tio. No outro dia viemos pra São Paulo. Meu tio chamava Cristiano e a minha tia chama Alice, que ainda é viva, ela está com 90 e tantos anos. Alice, a filha dela Zélia, e a outra é Neusa. Viemos de carro. Outro meu tio que estava em São Paulo foi buscar a gente de carro lá. Que eu tinha outro tio aqui em São Paulo, que chamava José, que tinha padaria, e tinha três filhos, depois nasceu a Julinha, quatro. Tinha três filhos: Nelson, Paulo e Francisco. Aí depois nasceu a Julinha, uma menininha, pois nela o nome de Júlia, a chamávamos de Julinha. Quando eu cheguei a São Paulo foi o seguinte, eu fiquei na Penha, nesse meu tio José, que morava na Penha. Eu fiquei na Penha com eles. Essa parte foi um pouquinho difícil, porque eu era muito envergonhava, eu era muito acanhada. E esses meus tios que me trouxeram para o Brasil, meu tio Cristiano, minha tia Alice, eles foram lá pra Jabaquara. Eles tinham tido uma padaria pra lá, foram lá pra Jabaquara. Eu reparei nas pessoas. Lá em Portugal, quem morava na cidade não saía na rua de qualquer jeito, não. De sapatinho, de sapato, bem vestidinho, bem arrumadinho. Mesmo eu que era empregada, uma comparação, nós saíamos na cidade pra comprar, falava lá “a praça”, a praça é tipo de um sacolão, que tem verduras, tem fruta, tem carne, tem tudo ali. Falava “a praça”. Mas a gente se arrumava bonitinha, bem arrumadinha, com sacola, uma sacolinha de acordo, bonita, sabe? Íamos à praça, a gente anotava o pedido que a patroa falava, queria isso, queria isso, queria isso, vínhamos trazendo tudo pra cá. Mas bem vestidas, muito bem arrumadinhas. Foi a primeira coisa que eu reparei aqui: chinelo Havaiana nos pés. Eu falei assim: “Nossa!”. Achei o povo muito mal arrumado, muito mal vestido na rua. Foi a primeira impressão que eu tive.

 

Trabalho na padaria do tio

Como uma cidade grande, São Paulo, eu fui morar pra Penha. Nessa rua da Penha, nessa rua que meu tio tinha padaria. Não era nada asfaltado que nem agora, então era uma rua feia. Ficava um pouco retirada do centro da Penha, do Largo da Penha, hoje nem deve existir, faz tempo que não vou pra lá. Tinha o Largo da Penha onde o bonde parava. Porque naquela época tinha bonde. Onde o bonde parava, eu descia ali do bonde e depois ainda tinha que andar uns dez, 15 minutos até à casa onde meu tio morava, chamava Rua Bete, que era lá que ele tinha padaria e eu morava lá. Bom, aí esses meus tios foram pra Jabaquara, eu fiquei com essa minha tia e com meu tio José trabalhando com eles na padaria, que eles tinham uma padaria. Fiquei ali trabalhando. Eu falei: “Nossa...”. Eu morrendo de vergonha, acanhada, eu falei: “Ai meu Deus”. Eu fazia de tudo lá. Ajudava minha tia na casa. Ajudava de tudo, fazia tudo. Cozinhava, lavava, passava. Porque a casa era pegava com a padaria, sabe? Então fazia de tudo. Ela era numa esquina. Não sei se ela existe hoje. Nunca mais fui pra lá. Depois eu trabalhei com esse meu tio, com essa minha tia uns meses. Foi muito difícil. Porque essa minha tia, eu não tinha tanta intimidade com ela como eu tinha com a outra. Com a outra, a que me trouxe, eu tinha mais amizade, mais intimidade, e com essa daí eu ficava assim meio acanhada, meio envergonhada. Tinha outro tipo diferente, sabe? Eu ficava assim meio envergonhada. Até às vezes esse meu tio, que era irmão da minha mãe, marido dela, ele levantava às quatro da manhã pra fazer o pão, aí quando ele terminava de fazer o pão, fazia o pão de noite, pe pe pe, pe pe pe, la la lé, la la lé, aí depois ele ia dormir, assim de manhã, de madrugada. Mas quando ele ia dormir, como eu trabalhava lá com eles, ele ia dormir, ele me levantava, me chamava pra levantar. Com 18, 19 anos, na flor da idade, a gente não tem preguiça pra nada. Não tinha preguiça pra nada. Levantava, me arrumava, já ia para o balcão. Ia para o balcão, enchia a vitrine de pão, aqueles cestos de vinho. Cestos de vinho, pegava o pão lá dentro, trazia o pão tudo pra vitrine, pra padaria. Quando abria a casa, tinha um primo meu que abria a casa, já estavam as vitrines todas cheias de pão, a copa limpa, tudo arrumadinho pra começar a funcionar. Quando chegavam os fregueses, pra começar a servir. Então as pessoas ficavam admiradas, olhavam pra mim: “Nossa! Mas você é tão bonitinha. Nossa! Com esses dentes”. “Tão bonitinha, com esses dentes tão bonitos. Ai, você está trabalhando num serviço desses aqui assim pesado, pesado pra você, porque você tem que pegar pão lá dentro, caixas de leite”. Naquele tempo o leite vinha em caixas. Umas caixas plásticas e vinham os buracos. Os leites eram em vidros, tu enfiavas naqueles buracos naquelas caixas. Naquele tempo era União e a Vigor, me lembro dessas duas, que são antigas. A União e a Vigor. A Vigor ainda existe, acho que a União não. Então eu enchia, pegava aquelas caixas de dez litros cada caixa, pegava assim, enrolava pra por na geladeira, pra servir quando viessem os fregueses. E o pessoal achava ruim: “Não faças isso, minha filha, você é novinha”. Que nem aquela história, ninguém me dizia a minha idade, entende? Davam-me uns 14, 15 anos, e já tinha às vezes 18, 19. É, 19, por aí. “Não. Não. Não. Não tem problema. Não tem problema.” Ali eu fazia de tudo, servia os fregueses quando vinham, fazia tudo ali naquele balcão. Fiquei uns meses ali os ajudando. Depois, essa minha tia tinha duas sobrinhas da família dela, filhas de uma irmã dela, trabalhavam numa fábrica de colchas, de colchas de cama, essas duas meninas. Então elas me arrumaram serviço nessa fábrica de colchas, pra eu ir trabalhar lá.

 

Trabalho na fábrica de colchas

Era uma fábrica de colchas que a fábrica era nova. Naquele tempo tava começando, era um turco bonito. Ai, era um turco lindo. Era ali numa travessa da... De Barros? Na Penha, ali na Avenida Celso Garcia, tem ali uma rua não sei o quê de Barros, tem outra palavra. Ali na Travessa da Celso Garcia, perto do Cinema Marrocos que tinha ali antigamente. Não era na avenida a fábrica, era assim numa ruazinha retirada. O pai fez aquela fábrica ali para o filho, estava começando, meu gerente o rapaz. Então eu fui aprendendo. Aprendi uma sessão disto, daqui fui pra aqui, fazer outra coisa, daqui fui aumentando, daqui fui aumentando. Fui passando de serviço, de serviço, de serviço, aprendendo, até que eu cheguei ao lugar de fazer as franjas das colchas. Então ficava aquele monte de colchas, um monte, tudo dobrado, só com a parte da beirada, onde a gente ia fazer a franja, virada. E eu fazia tudo aquilo à mão. Virava, fazia outra, virava, aí fazia outra, virava. Aí já estava ganhando um pouquinho mais nessa época, porque subi de posto. As franjas já vinham cortadas, eu enfiava naquele buraquinho aqui, no buraco da colcha, era um pedaço de linha, tipo de uma linha, não é isso? Uma linha. Enfiava no buraco que a colcha tinha, amarrava, mas tinha que dar nó certinho, pra ficar bonitinho, sabe? Aí eu dava dois nós, primeiro um, depois tinha que dar o último, o último nó, que era pra ficar bonitinho. Ainda sei. Se fizer um, ainda sei. Que aprendi tanto aquilo ali que ainda dá pra fazer. Aí conforme fazia aquela, dobrava pra cima, aí pegava a outra. De uma a uma. Cada coisinha tinha que enfiar a franja. Era trabalhoso. E, olha, quanto mais fazia, mais ganhava, entende? Eu vim para o Brasil com meu tio e com a minha tia, eles que me pagaram a passagem, eu tive que pagar a passagem pra eles. Cheguei aqui, com o meu trabalho, com o meu suor e paguei a passagem para os meus tios, tudinho, tudinho, mandei dinheiro para os meus pais. Mandei dinheiro para os meus pais, juntei um dinheirinho, solteira, fiz o meu enxoval de casamento, tudo com o meu dinheiro. Tenho enxoval até hoje, feito com minhas posses, com meu poder, com meu dinheirinho. Juntei meu dinheiro no banco, punha na Caixa. Não, não, não, eu dava pra minha tia, minha tia punha no banco pra mim. Mas ela passava a mão, ela era sacana. Eu não trabalhei muito tempo, sabes por quê? Mas eu era adorada. Eu não trabalhei muito tempo porque meu primo mais velho foi para o Exército e ele fez falta na padaria, para os pais trabalharem na padaria. Fez falta para os pais. Como ele foi para o Exército, o que a minha tia fez e meu tio? Pediram-me pra eu sair da fábrica, pra trabalhar mais uma vez na padaria. Aí eu cheguei lá ao trabalho e falei isso: “Olha, eu vou sair, porque meus tios estão precisando de mim, que eu moro com eles, eles estão precisando de mim, meu primo foi para o Exército, tenho que ajudar a trabalhar na padaria”. Aí eu tive que sair. Mas o que aconteceu? Eu saí, mas o gerente da fábrica vivia sempre lá me chamando, que o patrão mandava me chamar, que gostava do meu serviço. Que a gente fazia o serviço direitinho, o patrão gosta da gente, de qualquer setor. Eu acho que hoje deve se a mesma coisa em qualquer setor. A gente tem que caprichar, tem que fazer o que a gente pode meu amor? Aí me mandava chamar, eu falava: “Ai filho, mas eu não posso ir, porque meu primo não está aqui, meus tios não dão conta sozinhos, eu tenho que ajudá-los”. E não fui. Mas foram lá umas duas, três vezes. Uma vez o gerente da fábrica ia lá, levava o patrão, um turco bonito. Ai como eu paquerava aquele turco.

 

Trabalho como babá

Fiquei na padaria até meus tios venderem depois. Meu tio cismou de vender a padaria. Eu falei: “E agora? E agora pra onde eu vou?”. Eu falei: “E agora? Ah meu pai do céu”. O que aconteceu? Quem comprou essa bendita padaria foi um casal e uma irmã do casal. E uma irmã do casal. Os três compraram a padaria. Bom, e agora? Eu falei: “Tia, tenho que arrumar um serviço, eu preciso trabalhar, não posso ficar parada” “É, pois é, a gente tem que ver, pe pe pe”. O que aconteceu? Essa moça que entrou na sociedade com a irmã, ela trabalhava numa casa de família, numa família italiana, e ela disse que eles estavam precisando de empregada. Então eu peguei o emprego dela. Olha que engraçado. Eu peguei o emprego dessa moça. Ela me levou lá, fui lá com ela. Fui pra zona norte, pra Santana, que estou lá até hoje, na zona norte. Desde 1950 e pouco que estou na zona norte, até hoje. Ele chamava Leônidas. Eles tinham um armazém na Santa Rosa, lá no mercado da Cantareira, na Rua da Cantareira, chama Santa Rosa. Eles tinham armazém, vendiam tudo quanto era miudeza. Eram ele e o irmão dele. Eu fui pra trabalhar na casa deles, que a esposa dele tinha bebê pequeno, chamava Plínio. Eu fui trabalhar lá na dona Lídia, ela chamava Lídia, tinha duas meninas: tinha a Penha e a Antonieta. Tinha a Penha, a Antonieta e o Plínio. O Plínio era bebezinho, tinha uns sete, oito meses. Eu fiquei trabalhando lá em Santana, na zona norte, numa travessa da Avenida Nova Cantareira, pertence à zona norte. E fiquei lá, muito tempo. Muito tempo, muito tempo, muito tempo. Aí o dinheirinho que eu recebia todo mês eu dava pra essa minha tia da Penha, que a cada 15 dias eu tinha uma saída. Eu saía a cada 15 dias, então eu ia lá onde eles moravam lá, visitá-los. E eu falava: “Tia, tu guardas pra mim”. Então ela disse que punha no banco. Não sei se punha no banco, se não punha no banco, guardava o dinheirinho pra mim. Uma vez me esqueci de dar dinheiro pra ela na Penha, eu subi no bonde, me abriram a carteira, me roubaram o dinheiro, o ordenado todo, olha, naquele tempo. Quando eu vi minha carteira aberta, minha bolsa aberta, fui ver, não estava lá a carteira. Meteram a mão, eu nem percebi. Naquele tempo, filha, no Largo da Penha, pegando o bonde. Fiquei muito tempo nessa casa. Fiquei muito tempo porque eles gostavam muito de mim, peguei muito amor àquele menino. Adorava aquele menino, chamava Plínio. Ela era muito nervosa, mas nessa casa eu aprendi muita coisa, aprendi a ser uma dona de casa. Aprendi a ser uma mulher, uma dona de casa. Aprendi tudo: a cozinhar, lavar roupa, cuidar de criança, dar banho em criança, dar mamadeira, dar sopinha, fazer sopinha, tudo que você possa imaginar de um lar. A cozinhar boas comidas, boas coisas. Depois ela teve outra menina, que chamava Mônica, ela foi pra maternidade ter a Mônica, eu fiquei em casa olhando tudo, assumi a casa, e ela ficou lá no hospital. Eu fazia a comida da casa. Às quintas-feiras tinha macarrão. Italiano você sabe que gosta de macarronada. E eu fazia o macarrão igualzinho ao dela. Aprendi com ela. Até ele, o senhor Leônidas, falou assim pra mim: “Clarisse, mas quando você aprendeu a fazer o macarrão? Está igual ao da Lívia”. Ele falava assim: “Está igual ao da Lívia”. Eu falei: “Ah, seu Leônidas, aprendi com ela, eu via como ela fazia”. E eu ficava de olho. Era tudo tomate puro, cozinhava tomate, passava no liquidificador, passava na peneira pra tirar a semente, aquela casquinha tudo, depois fazia aquele refogado. Eu via como ela fazia, eu fazia tudo pra ela, eu passava no liquidificador e passava na peneira, depois ela fazia na panela, era ela que cozinhava. Então eu via como ela fazia, eu ficava de olho. Fui aprendendo. Aprendi a ser uma dona de casa naquela casa ali, muito boa. Ela era nervosa... Olha, teve umas vezes que eu saía assim, às vezes a gente brigava, ela brigava comigo, eu saía, mas ele ia me buscar. Onde eu estivesse, ele ia me pegar: “Ah, não ligue, porque a Lídia é nervosa, não sei o quê, não ligue”. Eu disse: “Ah, mas ela falou isso, ela falou aquilo”. E eu voltava e saía, voltava e saía. Não posso falar mal dessa gente. Então aquele Plínio, aquele menino, eu amava aquele menino. Ia buscá-lo no colégio, no Colégio Santana. O pai levava na hora do almoço, que o pai ia almoçar, o levava pra escola, e à tarde, umas quatro, cinco horas, eu ia buscá-lo na escola, no Colégio Santana.

 

Lazer

A cada 15 dias tinha uma saída. Eu tinha uma saída, eu ia pra casa dos meus tios. Aí acabou minha festa, meu amor. Acabou minha liberdade, acabaram meus passeios, acabou o meu divertimento. Acabaram meus bailes, acabou tudo. Nessa casa mesmo acabou minha alegria, filha. Acabou minha alegria, porque eu fui uma vez a um Carnaval aqui, aí eu quase fiquei cega, que era aquela bomba que tinha, que... Como chamava? Existia, que usava no Carnaval, que deixava a gente cega. Lança perfume. Eu quase fiquei cega com aquilo que me jogaram nos olhos. Eu falei: “Ah, não vou mais”. Nunca mais eu fui. Eu fui com meus primos, com as minhas primas, num ano, primeiro ano quando estava aqui no Brasil. Mas depois não fui mais. Acabou minha alegria. Foi num salão. Nem me lembro. Foi num salão. Nem lembro mais. Aí acabou minha alegria, acabaram meus bailes, acabou tudo. Então a cada 15 dias tinha uma saída. Uns 15 dias ia pra um tio, outros 15 dias ia pra outro tio, nos meus tios tinham primas, tinham as primas. Se fosse pra Santos, íamos até a praia, eu e minhas primas, íamos dar um passeio assim pra cá e pra lá. Então quando era domingo de noite pegava a condução pra ir embora. Ou vinha domingo de noite, ou chegava segunda-feira de manhã para o trabalho, para o serviço. Então era assim, meus passeios eram pra casa deles.

 

Namoro

Nessa mesma casa dos italianos, eu estava saindo, ia a uma venda lá buscar qualquer coisa que ela me mandou, mandou comprar, que naquele tempo não existiam supermercados como tem hoje. Tinha um armazenzinho pequeno lá numa esquina, ela me mandou comprar lá qualquer coisa, eu fui. Aí eu passava na calçada, meu marido de boina, com uma boina portuguesa lá, como usava naquele tempo lá em Portugal, de boina, meu marido era muito lindo. Ah, meu Deus céu, era um artista, me encantei. Aí eu passei assim, ele estava entregando pão numa casa, sabe aquele furgãozinho que saiu na fotografia? Ele era um Ford, um Ford antigo. Assim fechadinho, que nem aquele que está na foto, igualzinho. Eu passei, falei assim comigo: “Ai que português bonito” – pensei assim comigo. E fui lá fazer as minhas coisas. Olha, era quase todo dia que encontrava. Encontrava hoje, encontrava amanhã, encontrava depois. Eu pensei assim comigo: “Onde será que esse português trabalha?” – eu assim pensando. Aí um dia eu vinha do colégio com o menino, pegar ele às cinco horas da tarde, quatro e meia, cinco horas, e ela falou assim pra mim, a minha patroa, a dona Lídia: “Olha, passa na padaria, traz pãozinho. Naquela padaria assim, assim, faz um pãozinho gostoso ela, e peça o que está quentinho”. E era a padaria onde ele trabalhava. Olha que engraçado, Luiza. Aí eu entrei na padaria, ele estava numa rua, eu falei: “Nossa, é aqui que ele trabalha” – pensando comigo. “Nossa, é aqui que ele trabalha.” Aí ele foi indo, foi indo, foi indo, foi se conhecendo, sabe? Vê hoje, vê amanhã, vê depois. Aí ele veio falar comigo, eu falei com ele. Aí quis conversar comigo, marcamos um encontro, aí começou assim. Marcamos mesmo na esquina desse supermercado aonde eu ia. Numa travessa aí da Nova Cantareira. Acho que tem um barzinho lá hoje ainda, uma lanchonete naquele lugar. A gente se encontrou ali. Então marcávamos, depois ele ia me buscar, saíamos. Então saíamos com aquele amigo que a gente bateu aquela foto, íamos ao Horto Florestal. Depois quando a gente começou a ter mais intimidade, íamos a Santos, passear lá, ver meus parentes, então ele ia comigo. Porque naquela época, namorado não podia acompanhar namorada, a família metia a língua, falava. Nossa, passei cada coisa. Oh! Meus parentes falavam cada coisa de mim de eu andar com namorado atrás de mim. Ah, era um inferno, minha filha. Hoje está tudo fácil pra vocês.  Não era esse agarra-agarra que nem agora, não. Eu não me deixava beijar, esse agarra-agarra, não. Não era, não. A moça não deixava. Eu não deixava. Andávamos assim, eu do lado, ele do lado. Um dia ele quis me abraçar, eu falei: “Não, não. Nananão, por enquanto não, não sei o quê”. Depois já começamos andar de braço dado assim, mais de braço dado assim. Era diferente. Eu não deixava, minha filha. Pra mexer no meu corpo foi difícil. Já tínhamos mais intimidade assim, sabe? Passeei depois com ele, ia a Santos assim. Mesmo assim meus parentes ainda falavam de mim: “Ai, a Clarisse veio com o namorado? Ai, a Clarisse isso, a Clarisse...”. Sabe? Ficavam falando. Eu falei: “Ai meu Deus do céu”. Íamos ao horto que era tudo aqui pertinho. Lá ao Museu do Ipiranga, também que era tudo pertinho. Íamos muito pouco ao cinema. Eu nunca fui amiga de cinema. Nunca, nunca. Nunca fui assim muito amiga de cinema pelo seguinte... Fomos lá algumas vezes. Assim, o filme do Mazzaropi. Ai, a gente morria de rir. Fomos lá algumas vezes. Os cinemas nem existem mais. Era o Marrocos, que era lá no centro, e tinha outro ali na Celso Garcia também. Tem, mas não é que nem hoje. Gostava do Mazzaropi. Porque era em português, não era falado em francês, ou inglês, que a gente não entende. Era em português, era uma história engraçada. Era só pra dar risada. Era muito engraçado. É a mesma coisa, que nem hoje, com as cadeiras, com a tela lá. Lógico que hoje é diferente. Hoje é completamente diferente. Mas era assim, tipo de hoje, com a tela grande, a gente ficava sentada lá atrás na sala, também escuro, tudo escuro.

 

O primeiro beijo

O primeiro beijo foi difícil. Ah, eu nunca fui muito de beijar, eu achava nojento. Olha, eu acho o seguinte, até hoje eu acho nojento. Vocês não me levem a mal, eu sou velha, o beijo é uma coisa muito... Um beijo tem que ser dado com muito amor e com muito carinho e com muito respeito, caramba. Não é que nem hoje, ficam lambendo língua. Isso aí é beijo? Isso aí é uma nojeira. Lamber língua de outra pessoa que não sabe quem é, com quem anda, onde andou, onde foi, onde deixou de andar. Eu falava para o meu marido: “Zeca, não adianta, eu não gosto. A gente se beija normalmente”. O primeiro beijo foi com classe. Ele me roubou um beijo. Ele me roubou, foi roubado. Quando ele ia embora, tentava um beijinho assim, ah, mas muito... Assim.

 

Música e dança

Ele não dançava. Pois é, arrumei um namorado que não dançava. Acabou minha alegria. Aí acabou minha alegria. Se ele dançasse, ainda íamos ao bailinho. Não dançava, minha filha. Ai, aquela música mexia comigo, eu falava: “Ai, eu vou morrer”.  Tinha o Nelson Gonçalves, aquele outro... Tinha cada cantor que cantava. Que cantava. Cláudia de Barros, que tinha uma voz maravilhosa. Aquela que morreu, a Ângela... A Regina... Como ela chamava? Elis Regina. Ainda tem hoje um que está velhinho, como ele chama? O Cauby Peixoto. Aquela voz maravilhosa. Aquilo que era música. A gente ia, uma comparação, às vezes... A gente namorava, já se conhecia mais um pouquinho, às vezes ele me levava tipo um restaurante dançante assim, sabe? Quando a gente já tinha assim mais um pouco mais de intimidade, já estava mais namorando há muito tempo, eu cheguei a ir uma vez ou duas assim. Só que ele não dançava. Não é que ele não dançava, filha. Sabe o que acontecia? Ele era acanhado e eu era acanhada. Vergonha. E eu ia muito a um na Nove de Julho. Nem sei como chamava. Tinha música ao vivo. Tinha. Tinha. Ia ali, aonde eu ia mais? Fui algumas vezes assim a Nove de Julho, porque tinham uns amigos dele que frequentavam, então ele me levava. Uma comparação, se ele fosse com um amigo, e se ele gostasse, se visse que era um ambiente bom, ele depois me levava. Isso tanto de solteiro, como de casado. Ele depois me levava pra conhecer. Tinha baile, tinha tudo. Só que eu era acanhada. Se eu o puxasse pra dançar, ele não sabia muito, mas se eu o levasse assim... Muito envergonhada. Era acanhado ele, era acanhada eu. A música brasileira bem cantada é uma música bonita. Que tinham uns cantores aí, um que morreu agora há pouco tempo, um negrão, também cantava muito bem. Ele morava no Jardim São Paulo. Ai, como ele chamava? Um senhor assim meio careca, alto. Quando ele ia à televisão, ele tinha uma voz maravilhosa também. O meu maestro lá do coral, ele acha que eu canto bem. Agora é o seguinte, eu acho, eu tenho impressão comigo, por causa da audição, como eu uso aparelho, eu tenho a impressão de que falo alto. Mas não falo. Que às vezes também me enchem meu saco: “Ah, mãe, fala baixo”. Não é que eu falo baixo, eu tenho o tom de voz alta.

 

O casamento

Bom, depois eu namorei bastante tempo. Ele era danado. Ele era sapeco. Era muito sapequinho. Gostava muito de namorar, sabe? Outras por fora assim, sabe? Muito sapeco. Bom, aí eu percebi. Percebi qualquer coisa, falei: “Epa! Espere aí”. Encostei-o na parede. E eu era sozinha. Minha filha, eu fiz a minha vida sozinha, eu e Deus. E o encostei na parede. Vieram me contar certas coisas, eu o encostei na parede e falei: “É isto, isto, isto, isto, isto, isto”. E falei: “Não estou gostando” “Ah, porque aconteceu isso, porque aconteceu que eu fiquei doente, nananã” “Então você ficou doente, você resolvia de casar, formávamos uma casa, arrumávamos o casamento, casávamos, eu cuidava da tua saúde, cuidava de ti, não fazer isso”. Eu falei: “Então, meu filho, pisca, você vai tratar da tua vida, eu vou tratar da minha, cada um pra si”. Falei: “Você não me deve nada, eu não te devo nada, você vai tratar da tua vida e eu vou tratar da minha, e fim de papo”. Eu só disse pra ele: “Eu só sinto os anos que eu perdi contigo” – falei pra ele. Isso eu falei. Eu lembro o lugar, onde foi, tudo direitinho. Eu falei: “Eu só sinto os anos que eu perdi contigo”. Porque eu só namorei ele, ele foi o homem da minha vida, foi a única pessoa que mexeu no meu corpo. Namoramos uns cinco, seis anos. Porque ele estava em Portugal, não tinha arrumado serviço, estava pagando as coisas dele, também não estava em condições ainda de casar. Bom, aí o encostei na parede, falei: “Não, então trata da tua vida, vai tratar da tua, que eu trato da minha, fim de papo”. Aí foi o seguinte, ele não quis, não aceitou. Não aceitou. Aí, sabe, eu era empregada doméstica, eu tinha que fazer o que minha patroa mandava, onde me mandava ir à venda, onde me mandava a Santana comprar alguma coisa. Porque ela não saía de casa, então ela mandava a mim. Às vezes eu ia aqui, às vezes eu ia ali. Que ela mandava, ora, eu estava ganhando, eu era obrigada a fazer. E ele me seguia. Ele andava me perseguindo e eu não sabia. Ele me perseguindo. Porque ele viu que eu dei um fora nele, que eu estava dando um fora nele. E eu não percebia. Um dia eu percebi. Um dia eu percebi, eu saindo da loja, ela me mandou numa loja de tapetes comprar um negócio lá, conforme eu saí da loja, ele ali na porta. Eu falei: “O que você está fazendo aqui?” “Que eu estou fazendo aqui. Faz tempo que eu estou aqui” “Ah, é?”. Outra vez eu estava ligando, ele lá também. Eu falei: “Ah, meu pai do céu”. Ah, é? Eu falei: “Escuta...”. Eu o chamava... Como ele chamava José, e eu percebi... Em vez de chamar amor pra cá, que nem vocês fazem agora, amor pra lá, eu o chamava de Zeca. Zeca pra cá, Zeca pra lá, também era um carinho. Era um carinho, também o chamava de Zeca pra cá, Zeca pra lá. Aí eu o chamei de Zeca, o chamava de Zeca. Aí eu falei assim: “Olha, Zeca, é o seguinte, você sabe, eu sou empregada, eu tenho que obedecer. Eu estou ganhando, eu tenho que fazer o que a mulher manda. Eu não posso falar que não. Agora você fica aqui atrás de mim. Então, meu filho, já te falei, vamos acabar com tudo. Eu tenho que trabalhar, eu tenho que ganhar meu dinheiro. Eu não tenho pai e mãe aqui, eu sou sozinha, você sabe muito bem disso. Eu tenho meus tios, mas meus tios têm a vida deles, têm os filhos deles, então eu tenho que cuidar de mim. Agora eu só sinto”. E falei, falei pra ele, e falei pra ele uma coisa: “Olha aqui, você me enganou. Você andou me enganando todos esses anos, todo esse tempo”. Porque eu o amava. Eu amava aquele homem do fundo do meu coração. Nossa, eu o via, eu via Deus, Nossa Senhora. Eu só falei assim pra ele: “Olha aqui, a minha imagem...” – eu falei – “A minha imagem, ela nunca vai sair dos teus olhos”. Eu falei: “Esta praga eu estou te rogando” – falei. “Que eu não esperava isso de você e não esperava que você me fizesse isso, então a minha imagem, ela nunca vai sair da frente dos teus olhos.” Eu não sei se ele pôs aquilo na cabeça, se não pôs, aí ele começou a resolver pra casar. Está vendo? Começou resolver pra casar. Aí um belo dia lá vem ele: “Ah, então vamos lá tratar disso” “Ah, é?”. Eu falei: “Não quero contra vontade, não. Eu quero que você faça isso, mas é de vontade de você, que afinal de contas, nós vamos começar uma vida”. O casamento não é nenhuma brincadeira, o casamento é uma coisa séria. Não é que nem agora, casa agora, hoje, e separa amanhã. Antigamente, não. Que ficava uma mulher falada. Antigamente, lá na minha aldeia tiveram dois, três casos de meninas que aprontaram antes do casamento, nunca mais casaram, ficaram mal faladas a vida toda. Casamos. Lá veio o dia de marcar, o dia de marcar. “Olha, hoje eu não posso, este dia não posso, outro dia não posso.” Então ele marcou em maio. Ele marcou em maio, no mês de maio, casamos em setembro. Ele falou assim: “Olha, pelos meses, pe pe pe, le le le, só posso casar em setembro”. Eu falei: “Tudo bem”. Aí resolvemos em setembro. Resolvemos o dia, resolvemos a data. Aí me levou a um monte de igreja pra eu escolher a igreja. Levou-me a um monte de igreja. Ele fez minhas vontades. Aí eu escolhi a igreja que eu queria. A Igreja Coração de Jesus. Eu acho aquela igreja muito bonita. É uma igreja grande, linda. É uma igreja antiga. Fui ver diversas, mas eu gostei daquela. Fica no Bom Retiro essa igreja. Ali no bairro Bom Retiro. Casamos lá, casamos numa quinta-feira, fiz uma festinha na minha própria casa onde eu fui morar, assim, uma mesinha. Meu casamento, meu vestido, foi uma costureira de primeira classe que fez, conhecida por uma amiga que eu tinha, tirado naquele tempo, não sei se vocês já escutaram falar, Revista O Cruzeiro. Vocês já escutaram falar da Revista O Cruzeiro? Que é que hoje a Caras. Saía toda... Semanal. Tiraram o modelo do vestido do Rio de Janeiro, num casamento na Candelária do Rio de Janeiro. Que a Candelária é uma das igrejas mais chiques que tem no Rio de Janeiro. Eu fui lá visitar depois. Tiraram dali o modelo, muito bonitinho, tem uma foto linda, maravilhosa, uma calda linda o meu vestido. Eu falava: “Quero uma calda bem grande”. Buque natural. Buque de flor natural. Não foi véu comprido, foi véu curtinho, uma coroa linda, linda, linda. Fui muito bem arrumadinha. Muito bem, mas simples. Não passei um pingo de pintura. Que hoje se melecam todas. Eu falei: “Nossa, não passei nem nada cara”. Não tirei sobrancelha, que minha sobrancelha é muito carregada, sabe? Minha sobrancelha é muito carregada. Eu falei: “Nossa!”. Não passei nada. Fiz, fui, casei direitinho na igreja. Foi Ave Maria. Espere aí... Eu tenho o disco. Nem sei onde ele anda. Aí eu tinha um amigo, um conhecido, que era funcionário público. Tinha uma polícia antigamente, que hoje não tem mais essa polícia, e ele trabalhava nessa polícia, e era fácil arrumar aqueles cadetes na igreja. Eu tive cadete na igreja. Com aquelas espadas, sabe? Aqueles cadetes bonitos. Aí eu passei com aquele vestido lindo, meus parentes. Convidei assim, mais amigos assim. Não foi aquela festa, porque foi na minha casa, onde eu fui morar, no apartamento. Numa quinta-feira. Depois de mim ia casar outro casal, então ele enfeitou a igreja maravilhosa, aquelas flores lindas brancas, aquela passadeira vermelha. O altar estava a coisa mais linda de flores. A coisa mais linda. Lá vou eu. Acho que foi Ave Maria. Aí ele me fez a surpresa depois do disco, a gravação do casamento. Ainda lá. Eu tenho a gravação do meu casamento, que ele me fez surpresa. Um dia ele aparece lá em casa com um senhor, aí ele pôs na vitrola, naquele tempo era vitrola que falava, aquele disco, aí eu falei: “Nossa!”. A gravação do casamento. Aí como ele tinha padaria, trabalhava com padaria, ele fez um bolo lindo, gostoso, maravilhoso. Um bolo lindo de andares. Além de ser lindo, estava uma delícia aquele bolo. O confeiteiro, naquela época, que ele tinha era um senhor moreno, preto, que fazia cada doce gostoso, nossa, parece que ainda estou sentindo o sabor do bolo hoje. Muito bom. Eu fiz uns bolinhos de bacalhau, eu fiz umas tortas, eu fiz não sei o quê, ele também levou salgadinhos da padaria. Então eu fiz uma mesa, sabe, filha? Fiz ali uma mesa, teve champanhe, teve vinho, teve tudo, vinho, cerveja, teve tudo ali. Encheu ali a minha casinha. Na hora da comida, tudo, o fotógrafo tirou fotografia, tudo.

 

Vida de casada

Fomos morar no Jardim São Paulo, ali perto do mirante do Jardim São Paulo, num apartamento que tinha três quartos, uma sala, uma cozinha, duas áreas: uma pra lá, outra pra cá. Esse senhor me chamou na cozinha, esse senhor me deu uma panela de pressão. Além de dar os cadetes, ainda deu uma panela de pressão, que está lá até hoje. E me chamou na cozinha, falou assim pra mim: “Vem cá, minha filha, quero te falar uma coisa”. Ele já era um senhor de idade. E ele disse... Aí escutei, falei: “O que foi?” “Olha, aqui neste cantinho, aqui neste cantinho que você pegar o teu marido. Você vai pegar o teu marido” “Como?” “Ah, aqui neste cantinho você vai fazer uma comida gostosa pra ele, uma comida saborosa, bem gostosinha, bem feitinha, que é assim que se pega o marido”. Naquele tempo era a comida, hoje é outra coisa. Aí eu falei: “Ah, é?” “É. É aqui”. Pus aquilo na cabeça, do homem, sabe? Eu, com a graça de Deus, com a graça de meu poder, eu aprendi também a cozinhar com a minha mãe. A minha mãe tinha uma mão muito boa pra cozinha, e eu via como ela fazia, sabe? Eu tenho um sabor de comida, não é assim uma comida... Como se fala? Mas eles falam, eu tenho um sabor de comida que não há ninguém que não diga que é uma delícia. Até hoje eu não tive ninguém que me falasse “não está boa”. Amava cozinhar, sabe? Eu fazia aquilo com amor, com carinho, a comida. Hoje já estou assim um pouco cansada, mas eu ainda cozinho pra mim. Você vê, eu sou sozinha, moro sozinha, mas eu faço a minha comida deliciosa pra mim. Ponho na minha mesinha, me sento, como. Pra mim. A comida é muito importante pra nossa saúde filha? Então até hoje. Cozinhava bem a comida que ele gostava. Ele trazia as coisas pra casa, que ele gostava de comer bem. Ele trazia. Comprava, trazia. Muitas vezes também me ensinava a maneira lá da mãe dele. Eu fazia rabada. Olha, que rabada é difícil. Olha! Rabada, nunca tinha escutado falar naquilo. A tripa do Porto com feijão branco, eu aprendi com ele, ele me ensinou. Fiz as linguiças de sangue, trazia sangue que a mãe dele fazia. Tudo assim com ele. Bacalhau, certas receitas assim de bacalhau, que ele comeu, comeu, não sei o que comeu, que gostou, que comeu não sei onde. “Mas como era feito? Não sei o quê.” Ele fazia: “É assim” – ele falava pra mim. Eu fazia. O frango que eu fazia assado no forno, umas batatas assim, sabe? Então eu fazia. Nossa, ele comia, mas ele comia. Tinha que ver, era uma delícia.

 

Nascimento das filhas

Ah. Então, olha, então eu casei, tudo, disse pra ele assim: “Olha, eu não queria pegar filhos logo”. Estava cansada de trabalhar, queria descansar um pouquinho. Então eu fiquei seis meses sem engravidar. Depois eu engravidei. Acho que descuidou. Porque ele tinha cuidado. Eu nunca tomei uma pílula, nem sei o que é isso, deixava ele mesmo se cuidar, sabe? Não posso falar mal dele nessa parte. Aí eu fiquei grávida. Quando eu vi que estava grávida, cheguei perto dele, falei pra ele, até ele falou uma frase que eu não gostei muito, mas deixa pra lá. Eu falei: “Olha, Zeca, acho que estou grávida”. Falei assim mesmo, no banheiro, eu na cozinha. Ele estava no banheiro, estava fazendo a barba, eu falei assim pra ele: “Zeca, acho que estou grávida” “O quê? Estás grávida?” “É. Estou grávida” “Ih, vem pra encher o saco”. Assim mesmo. “Vem pra encher o saco.” Aí eu disse assim pra ele: “Ai, Zeca, que isso? Por que você está reclamando? Quem vai criar sou eu” – falei. “Você vai trabalhar, está certo, pra ganhar o dinheiro e o sustento, mas quem vai cuidar da criança sou eu, você não vai ficar em casa.” Ela nasceu em fevereiro, muito calor. Eu sofri um pouco com o calor. Você vê, naquele dia fez muito calor. Nos finais dos meses assim, dezembro, janeiro e fevereiro, que são os três meses de calor, sofri um pouco. Levanta do quarto, muito calor, ia pra área. E ela mexia muito, porque também vivemos assim uma gravidez mais agitada. Ele foi um pouquinho estúpido, um pouquinho bruto comigo na gravidez. Não foi amoroso, não. E ela nasceu assim. Mexia, mexia muito, eu me levantava, ia lá pra área pra apanhar um fresco assim, pois ela nasceu, você vê, 19 de fevereiro. Que foi no Carnaval, estava sendo Carnaval naqueles dias ali. O nome dela é Tereza Cristina. Ele não estava em casa. Aí sentindo mal, de domingo pra segunda, aí eu chamei uma amiga que ia comigo, que ele não estava em casa. Eu chamei uma amiga pra ir comigo, fui à casa dela, falei: “Olha, dona... Acho que... Não sei, estou me sentindo mal” “Ah, então vamos. Então vamos pegar a mala. Vamos”. Ela ficou mais atarefada do que eu. E fomos. Fomos as duas, pegamos um táxi, fomos as duas lá para o hospital, que ainda existe hoje, na Paulista. Depois, chegando lá, a parteira me examinou e a parteira falou: “Não, olha, ainda não está na hora, não. Olha, quando a senhora sentir assim, assim, assim, assim, a senhora pode deixar a mala aqui” – ela disse – “pode deixar a mala, mas a senhora não vai escapar de amanhã. Aí quando a senhora sentir assim, assim, a senhora vem, pode vir” – ela assim pra mim. Tudo que a parteira falou, fui, aí ele foi comigo. Aí ele já foi comigo, não foi aquela senhora. Ele foi comigo. Aí ele foi comigo, eu cheguei lá de manhã, umas oito horas da manhã, fiquei até à tarde gritando, berrando. Fui, berrei, gritei, berrei pra caramba. Nem queira pensar, é uma dor horrível, vai. Aí, estava lá berrando, lá gritando, uma hora vomitava, outra hora não vomitava, uma hora parava a dor, outra hora já vinha a dor, e aquilo tudo. Bom, quando chegou uma hora lá, chegou uma enfermeira perto de mim, falou assim pra mim: “Olha...” – assim baixinho – “Olha, sabe o que a senhora faz? A senhora fale pra tomar uma injeção. Falei pra dar uma injeção pra senhora” – a enfermeira. Eu falei: “Ah, é?” “É. Fale pra dar uma injeção”. Aí eu comecei a berrar: “Dê-me uma injeção. Tirem-me daqui”. Comecei a gritar, comecei a berrar, aquele sofrimento, quando vieram aquelas dores fortes, aquelas dores fortes. Ah, eu não sei como foi, chegou lá a enfermeira com a bendita injeção. Eu não senti ela nascer. É uma injeção que dá, que acho que é na hora que está pra nascer. É parto normal, tudo. Não senti a criança nascer. Fiquei todas aquelas horas sofrendo. Foi assim dela, e foi assim irmã dela também. Igual também. A mesma coisa. Eu não via a hora de ser mãe. Ai eu não via a hora de ser mãe. “Como será, meu Deus?” Naquele tempo eu não sabia se era menino ou menina, não dava pra ver. Que nem agora vocês sabem tudo. Falei: “Ah, meu Deus, será que é menina? Será que não é menina?”. Se fosse menino, ia ser José Carlos, adorava o nome de José Carlos. Aí nasceu menina. “Ai, como será minha filhinha?” Ficava assim, ansiosa. Nossa, é a coisa mais gostosa do mundo. Nossa, menina de Deus, é a coisa mais deliciosa do mundo. Eu fiz minha vidinha tudo sozinha, hospital sozinha. Essa senhora que me lavou as fraldas. Naquele tempo lavavam as fraldas em casa, não é como tem agora fraldas. Ela que lavava as fraldas. Levava pra casa dela e lavava, e me levava limpa. Fiquei cinco dias no hospital, tudo sozinha, fiquei lá, amamentei, me ensinaram, a enfermeira me ensinava, pe pe pe, foi indo, foi indo, fiquei lá os cinco dias, depois já fui pra casa com o bebezinho, já sabia dar banho, que já tinha aprendido. Já tinha aprendido nessa casa onde eu trabalhei. A dar banho, a trocar, amamentar, o seio, aquela dor, aquela gritaria, aquela… Ai meu Deus. Bom, tudo isso foi o mínimo. E depois? Que ela me vomitava tudo. Tudo que ela mamava, ela vomitava. Até os três meses. Até os três meses, deu trabalho. Não aguentava nada no estômago. Ela não gostava de leite. Não se dava com o leite. Experimentei tudo quanto foi leite, tudo, o médico mandava. Tive um pediatra muito bom, judeu. Muito bom. Muito bom. Vomitava, puff. Vomitava, puff, e mamava, puff. Não tinha roupa que chegasse, que podia trocar. Porque aquilo fede a leite. Azeda. Mudou minha vida. E depois ele ficou com ciúme. Ficava com ciúme. Achava que o amor era tudo pra filho. Ah, era um inferno. Às vezes ele chegava a casa, eu estava fazendo mamá pra ela: “Ah, pronto. Pronto. Está sabendo que eu estou chegando, já tá dando de mamar. Está sabendo que eu estou chegando, já está dando de mamar”. E aí eu falava pra ele: “Escuta, por acaso eu sei a hora que você chega? Você tem hora pra chegar?”. Ele não tinha hora pra chegar. Na hora que eu tinha que dar de mamar, tinha que dar.

 

Ser avó

Acho que neto ainda é melhor que ser mãe. Não sei. Porque a gente quando é mãe, está certo, a gente é mãe, nosso filho, nossa, é a coisa mais gostosa do mundo. E elas eram tão bonitinhas, tão lindinhas. Eu as arrumava tão bonitinhas. Ai, aquilo eram fofinhas, eram gorduchinhas, era uma delícia, sabe? Ai, meu Deus, meu Deus. Depois, na hora de ser mãe, quando a mãe dela foi para o hospital, que nasceu o irmão dela, nasceu o Bruno, foi mais delicioso ainda. Ai, mais gostoso ainda. Adorava filho homem. Sempre adorei filho homem e não veio, vieram duas meninas. Eu falei: “Ah, meu Deus. Deus, nosso senhor”. Aí o irmão dela era assim com os olhos… Quando nasceu, vieram mostrar nós, pra mim, para o pai dela, eram assim os olhos dele. Os olhinhos grandes. Aquele fofinho embrulhado numa coisa azul.  O nome dele é Bruno. Nossa, a coisa mais gostosa. Sabe por quê? Porque a avó, a avó já está velha, já fez tudo para os filhos, não é isso? Já casou, já namoraram, já passou todos aqueles problemas com os filhos, e te te te, e le le lé, não é isso? Então chega um neto, a gente já está mais desocupada. Somos só nós e ele, o marido, o velho. A gente já está velha, então aquele amor, aquele carinho vem pra aquela criança. Vem pra aquela criança. Tudo que a mãe faz pra criança, a gente acha que a mãe está fazendo errado. A gente acha ruim. Tudo. É verdade. Mas eu acho que tudo igual. Tudo que ela fazia para o menino... É que nem a minha avó. E me lembro da minha avó, porque minha avó falava pra minha mãe: “Não faças assim com as crianças. Não batas nas crianças”. A minha avó falava assim: “Não batas nas crianças, você vai matar essas crianças de tanta pancada”. A minha avó, que morava lá no beco, na aldeia, ela já falava isso, tadinha, pra nós, imagina a gente aqui que está num mundo novo, numa coisa grande, a gente pega mais amor, não é isso? É a mesma coisa eu falo pra minha filha: “Não façam isso para as crianças. Pra quê?”. Pois ela fala que eu os deixei mal criados, fui eu que os deixei mal criados. É tudo gostoso. É uma delícia. Quando vocês tiverem vossos filhos, lembrem-se dessa história, que é uma delícia. Sabe? A gente sofre. Mãe sofre, viu? A gente sofre, mas esquece. A gente vai ter um filho na maternidade, a gente se esquece daquelas dores. Eu queria outras. Depois da mãe da Rute, eu ainda queria outra, mas não veio. Não veio pelo seguinte, eu não sabia, a gente era ingênuo, era muito ingênuo. Porque eu fiquei grávida de novo também. Num descuido fiquei grávida ainda de novo. Diz o médico, falou o médico que não estava localizada no lugar, por isso que eu abortei, tive o aborto. Acho que dos dois meses, mais ou menos, isso. Disse que não estava no lugar, então abortei. Eu não sei se era menino, se era menina, eu estava em casa sozinha, fui ao banheiro, puxei a descarga, foi pelo banheiro afora. Não sabia. Inocente. Deus me perdoe, porque eu era tão inocente, não fiz aquilo de maldade. Tenho três netos. Só tem ele de homem, o irmão dela. Agora, ela é menina, a Mariana é menina, elas também... A mãe dela tem um casal, a outra só tem a menina, que é a Mariana, então três netos. São três netos queridos, porque o que a gente não faz para os netos? Eu não faço mais porque eu não posso. Amanhã o Bruno vai fazer aniversário. O que eu vou dar para o Bruno? “Dou tanto?” Vou dar dinheiro. Já estou pensando: “Dou tanto? Ah, mas agora eu estou tão ruim de dinheiro. Ah, meu Deus, como eu faço?”.

 

Avaliação

Um sonho? É o seguinte, olha, graças a Deus, com tudo que eu passei, eu tive conforto. Tive conforto. Deixamos pra comer. Foi difícil a minha vida, não foi fácil. Foi muito difícil. Mas temos altos e baixos, que todo casal tem... Agora já estou com 80 anos, tenho passeado bastante. Se Deus quiser, correr tudo bem, estou com ideias de ir a Portugal agora ano que vem, porque este ano fiz uma cirurgia de joelho, eu coloquei uma prótese, então este ano não deu pra ir, porque não podia caminhar, não podia ficar lá. Eu estou com ideias de ir para o ano. Tenho lá um apartamento que ele deixou. Vivo com conforto, graças a Deus, tenho conforto, mas também eu sou uma pessoa que tenho cabeça minha filha? Sei organizar as coisas, sei fazer as coisas, também não dou passo maior que a perna meu amor? A gente não pode fazer isso. A gente dá o passo conforme as posses. Agora, eu queria ver os meus netos formados, os dois. Se eu chegar só ao casamento, queria vê-lo casados, pra ver com meus dois olhos, não sei se vai dar tempo, se não vai dar tempo. Que se formem, que tenham um bom trabalho, que sejam felizes, tanto ela, como o irmão. Olha, ela está namorando um rapaz muito bonzinho, eu gosto dele. O irmão dela, o Bruno, também está namorando uma menininha que também parece ser boazinha, não tenho nada pra falar mal dela, não tenho nada contra ela. Então é isso que eu desejo, que tenham bastante saúde, que sejam felizes na vida. Que o resto, o resto eu já tive, e se der pra fazer mais alguma coisinha, ainda vou fazer. E vou levando a minha vidinha pra quando Deus me levar embora. Que me deixe bastante tempo do jeito que estou agora, falando, andando, caminhando, não dando trabalho pra ninguém. Não sei se você gostou da minha história, mas a minha história é real, é verdadeira, o que eu passei na minha. Estou aqui, toda a minha vida eu trabalhei, tá certo? Não trabalhei fora de casa quando casei, mas eu trabalhava na minha casa. Tinha minhas coisas pra fazer, tinha casa pra cuidar, tinha filhas pra cuidar, tinha roupa pra cuidar, tinha marido pra cuidar. Fiz sempre a minha obrigação, nunca dei o passo maior que a perna, nunca pedi pra meu marido uma coisa que ele não pudesse dar. Ele dava se pudesse, se não pudesse, ele não dava. Nunca pedi coisas além das posses dele. Isso aí ele não tinha... Que nem hoje essas meninas que exigem isso, exigem... Os coitados não podem fazer. Eu sou uma pessoa feliz. Eu me acho uma pessoa bondosa, porque eu não faço mal pra ninguém, eu não desejo mal pra ninguém. Eu tenho até pena, me corta o coração quando eu vejo um velhinho, me corta o coração quando eu vejo uma criança, sempre trago no meu carro uma moedinha, ou uma balinha, uma coisa assim, quando chega uma criança ao vidro, eu dou. Porque eu já passei por isso, já sei a dor que é a pessoas quer ter e não tem. Por isso que eu sei dar o valor, minha filhinha, sabe? Dar o valor. Então eu me considero uma pessoa feliz. Você gostou da minha história?

 

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