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História

Uma vida de Glórya

História de: Maria Assunção Sousa (Glorya Rios)
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 01/04/2010

Sinopse

Em sua entrevista, Glórya nos conta a respeito de sua dura infância, em que teve de cuidar de seus 11 irmãos praticamente como mãe, uma vez que seu pai esteve ausente desde sempre. Fala de como amadureceu precocemente devido a esta circunstância, que também freiou o seu eterno sonho de ser cantora. Em seguida, ela nos conta da sua entrada numa rádio de Teresina e o começo de sua carreira, levando-a ao Maranhão e, em seguida, a São Paulo, em 1968. Adiante, Glórya conta a dificuldade e o fascínio trazido pela cidade à sua vida - as amizades duvidosas e as sinceras, o reencontro com a família e o empurrão necessário para começar sua carreira. Daqui pra frente, fala sobre seus CDs, shows e o repertório que passa de chorinho a forró. Por fim, ouvimos sobre o "Domingo de Glórya", programa de entrevista no rádio que durou 12 anos sobre seu comando; e sua passagem pelo Centro de Tradições Nordestinas.

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História completa

Minha mãe vendeu uma casa pra uma senhora, ela tinha uma filha que morava aqui em São Paulo. E eu queria vir pra São Paulo. Aí ela falou: “Você não quer tomar conta da loja da minha filha?” Eu falei: “Vou”, aí eu vim. Mas a loja era terrível, se ela estiver ouvindo me desculpe, mas foi horrível. Ela morava ali perto do Joelma, aquele prédio Joelma. Em 1968, o frio era demais, eu não tinha roupa pra frio, doíam as pernas, doía as costas, doía tudo. A loja era na 25 de Março, eu tinha que abrir a loja e tomar conta do caixa, dividir a comida pros funcionários. Isso ela me mantinha, mas dizendo que ia me apresentar à assessoria do Roberto Carlos, levantou essa história pra eu ficar na loja e eu ficava. Mas foi fascinante, porque eu não tinha acesso a nada, só a cinema, lá no Piauí não tinha televisão. Eu fiz a primeira música, gravei a primeira música, quando a televisão ia chegar lá. Quando eu vim embora, ainda não tinha chegado, não tinham montado a televisão. Quando eu cheguei em São Paulo, que eu subi o Viaduto do Chá, aquele burburinho de pessoas, a lágrima desceu e eu falei: “Meu Deus, era isso que eu queria”. Chorei, chorei demais. Mas também chorei outras vezes, quando eu fui tentar em gravadoras e não conseguia, e os homens, às vezes, percebiam que eu era tímida e faziam aquelas cantadas, acho que só pra mexer, tirando uma gracinha comigo. Eu me decepcionava e voltava chorando também pelo Viaduto do Chá: “Mas, não é assim que eu quero”. Essa amiga só pensava nela, não deixou eu procurar uma casa pra minha mãe, disse que não dava tempo, não sei o quê. Um amigo nosso, que trabalhava no balcão, cedeu o quarto dele no Brás. Minha mãe ficou com onze crianças dentro de um quarto, foi difícil. Aí, depois, ela alugou uma casa, naquela época era mais fácil vir pra São Paulo, ela conseguiu alugar uma casa sem fiador, foi muito bom, foi uma história muito boa. E eu saí desse emprego. Na Penha, Zona Leste. Aí começamos, ficamos na Zona Leste. Eu saí do emprego e fui procurar outro emprego, entrei na Bolsa de Valores. Na Bolsa de Valores foi cômico. Cheguei lá, eu era boa datilógrafa, e o chefe falou: “Você sabe o que é Bolsa de Valores?” Eu falei: “Nunca ouvi falar”. Aí ele mostrou uma lista de coisas pra fazer, eu ia substituir uma secretária. “Você acha que você faz tudo isso?” “Eu não acho nada, eu só sei que eu preciso trabalhar”. Imagina se eu ia responder isso hoje. Eu acho que, por causa disso, que ele me admitiu. Aí eu fui, como datilógrafa, e cheguei a secretária executiva. Fiquei doze anos, foi muito bom. Nesses anos trabalhando e tentando gravar. Sempre que eu ia atrás de gravadoras, não dava certo, porque uma hora eu tinha sotaque, outra hora eu era nordestina... Não dava certo. Até que, em 1981, o Moacir Machado ouviu uma fita, no casamento dessa minha irmã que levou o bilhete, a Marilda, a mesma irmã. O fotógrafo viu uma foto minha cantando e disse: “Eu vou apresentar a uma gravadora”. Eu não acreditava, mas aí o diretor me ligou, eu fui visitá-lo e gravei pela Continental. Nessa época, eu gravei maxixe e chorinho, foi muito bom. Não, era só Assunção. Foi o Moacir Machado que mudou o meu nome, naquela época que a Miriam Rios estava casando com o Roberto Carlos. Ele me achava briguenta, o Moacir. Eu usava um óculos redondinho e ele falou: “Eu acho você parecida com a Glorinha, do Zé Carioca”. Aí colocou Glórya. Aí ele colocou no contrato Glorinha, eu digo: “Não, pelo amor de Deus, eu vou envelhecer com Glorinha, não dá certo, vamos inventar outro nome”. Aí ele colocou Glórya Ryos. Fazia shows quando eu gravei a primeira vez. A minha carreira artística começou a partir do disco, em 1981. Eu gravei “Picante Brasileira”, com maxixe, chorinho, músicas de Carmem Miranda, tem até o “Tique-taque”, (canta) “O tique tique tique-taque do meu coração/marca o compasso do meu grande amor/ na alegria bate muito forte, na tristeza bate fraco porque sente dor/ No tiiiiiiiiique tique-taque do meu coração...’. Eu amo essa música. Esse disco foi muito elogiado pela crítica especializada, o Tinhorão, do Jornal do Brasil, classificou entre os vinte melhores de 1981 e a revista Playboy tinha lá uma página diferenciada e me indicou: eu, o Itamar Assunção e a Lucinha Lins, como candidatos a revelação daquele ano por causa do disco. Foi um disco muito bom. A intenção não era essa, eu simplesmente estava procurando repertório e uma pessoa me presenteou com uma fita da Carmem Miranda e eu fiquei fascinada pelo trabalho da Carmem Miranda. Eu descobri Carmem Miranda naquele momento e eu gravei quatro músicas dela. Aí me perguntavam: “Por que você se atreveu a gravar essas músicas?” Eu digo: “Eu tinha que arriscar e por que não arriscar com o melhor?” Estava no fogo... mas foi tudo por acaso. Nas andanças, fazendo shows, já em São Paulo, as pessoas pediam pra eu cantar músicas do Gonzagão e músicas da Elba. Aí eu já estava na Brasidisc e a gravadora falou: “Nós temos que gravar forró, seu caminho é forró”. Mesmo porque, existe uma lacuna com relação ao chorinho, e as pessoas, em praça pública, onde eu fazia mais shows pelas secretarias, ficavam meio paradas com o chorinho. Com o forró, não, com o forró elas dançam. Aí eu descobri a minha “nordestinidade” em São Paulo, comecei a gravar forró em São Paulo. É um ponto comum com o Gonzagão, o Gonzagão, quando foi pro Rio, ele tocava bolero nas boates. 

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