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Uma vida cheia de histórias

História de: Jayme Vita Roso
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Jayme é um simpático advogado que contou a história de sua vida ao Museu da Pessoa. Ele iniciou seu depoimento contando sobre o seu nascimento, sobre sua mãe, que faleceu muito jovem e sobre a infância vivida no bairro do Cambuci, em São Paulo. Falou sobre as lembranças da Segunda Guerra Mundial e sobre a participação do pai na fundação do São Paulo Futebol Clube. Recorda as escolas onde estudou e o contato que teve com Monteiro Lobato na infância. Lembra o período de estudos na faculdade de Direito e como começou a namorar sua esposa. Fala sobre as dificuldades do início da vida de casado e como um primo o ajudou alocando-o em seu escritório de advocacia. Jayme conta histórias do período em que advogava e como se interessou pela questão ambiental, concluindo um mestrado nessa área. Finaliza falando de seu cotidiano e dos livros que escreveu.

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História completa

Eu me chamo Jayme Vita Roso. Nasci na cidade de São Paulo, capital, no bairro do Cambuci, no Largo do Cambuci, em cima da farmácia que meu pai era proprietário, meu pai e minha mãe. E foi no dia 16 de outubro de 1933, às 16 horas e 30 minutos. Minha mãe era Helena Maria Vita Roso, nascida também no mesmo bairro do Cambuci, dia 11 de março de 1909. Meu pai, Jayme Roso, nascido num distrito de Campinas, chamado Joaquim Egídio, no dia 30 de abril de 1908. Minha mãe era uma mulher além da época porque com 18 anos ela se formou em faculdade. Eu tinha um tio que trabalhava no cartório, ele conseguiu colocá-la como possibilidade de fazer faculdade e ela fez Farmácia. Saindo dos parâmetros das mulheres daquela época, ela fez a Farmácia, na então Faculdade de Farmácia e Odontologia localizada na Rua Três Rios, que hoje é um museu. Esse tio chamava João – ele infelizmente nasceu com uma moléstia congênita e morreu com 32 anos – mas ele foi o grande inspirador da minha mãe. Eu não o conheci, mas ela entrou na faculdade de Medicina, cursou até o segundo ano, teve que largar em virtude do falecimento dele. E com o falecimento dele a minha avó teve um AVC e ela ficou com o encargo de tomar conta da minha avó, da farmácia e cuidar de casa.  Meu pai, de família inicialmente que estava muito bem, meu avô tinha uma fazenda nessa zona perto de Campinas, que hoje está toda desenvolvida lá em loteamentos, haras, tudo. E na Crise de 29 ele perdeu a fazenda; perdeu a fazenda, perdeu tudo.  Meu pai chegou a se formar como contador, nunca trabalhou como contador, trabalhava como vendedor de medicamentos. E foi esportista na Associação Atlética aqui, era remador na época que o rio Tietê era possível navegar e nadar.

Nasci no bairro do Cambuci e nunca vi no bairro do Cambuci uma árvore de cambuci. Não existia, era só o bairro, naquela época já. Era um bairro muito tranquilo, a gente tinha ampla liberdade de sair à noite, com oito, dez anos saía e voltava dez, 11 horas da noite. Todos os meus amigos morreram muito jovens. Porque todos viviam em cortiço. E você sabe que viver em cortiço o que significa. Um dos cortiços, por exemplo, tinha uma cavalariça em cima e em baixo eles dormiam, então toda a excrescência da cavalariça descia nas casas. Eu brincava com os meninos entre dois postes, dois postes aqui e dois postes na frente, tinha uma bolinha feita de meia e jogava futebol. À noite a gente batia um papo, quando ia no cinema. O dinheiro do cinema era só pra ir no cinema, não dava nem pra comprar uma bala, muito menos um pacote de pipoca. Era no Cine Cambuci, na Rua Clímaco Barbosa. Então a gente saía aos sábados, a gente dava uma volta no Largo do Cambuci à noite. Os meninos iam de um lado e as meninas iam do outro lado. E depois a gente reunia três pra comprar uma garrafa de guaraná. A primeira vez que eu fui no cinema foi no Cine Santa Helena, na Praça da Sé. Fui assistir a um filme do Flash Gordon. Era muito interessante. Passavam três filmes aos domingos, dois filmes e um seriado. A gente assistia o seriado batendo o pé no chão, com todas as manifestações da gente, de amizade, porque nós éramos muito amigos.

Na Segunda Guerra, nós estávamos em casa quando soltaram rojões. E me lembro também que fui receber os Pracinhas, a escola fez, todas as escolas levavam os alunos e nós marchamos a Avenida São João inteira até Santa Cecília, lá embaixo. Nós ficamos esperando debaixo de um sol tremendo umas quatro horas. Eu com três anos e meio eu lia tudo, acompanhei a guerra inteira, antes da guerra e depois da guerra, e durante a guerra. Lia o Diário da Noite e a Gazeta. Tínhamos rádio. Mas como era época da ditadura as notícias eram muito filtradas. Aliás como hoje, hoje é filtrado pelo mercado, naquela época era filtrado pela ditadura, vamos falar claro. A gente fazia pique-pique, batia no piques, corria. E tinha perto da minha casa uma parte muito grande ainda não construída, que depois hoje é ali no Cambuci é a parte que tem a Aeronáutica. Ali tinha os campos de futebol que a gente assistia. E todo domingo, antes do meu colégio que eu estudava, que eu estudei no colégio Nossa Senhora da Glória, na Rua Lavapés e tinha um campo de futebol. Todo domingo a gente ia de manhã, depois da missa a gente ia assistir ao jogo de futebol. E à tarde assistia, quando ouvia a rádio, o jogo de futebol. O meu pai foi um dos fundadores do São Paulo. A desgraça da nossa vida foi essa. Porque ele se apaixonou pelo negócio e entrou de cabeça dentro da história e pôs dinheiro que não podia, dinheiro da própria família dentro do São Paulo Futebol Clube. Isso eu falo pra você, embora eu seja são-paulino eu lamento esse fato porque nós passamos muito apertado por causa desse amor apaixonado do meu pai pelo São Paulo. Eu me lembro dos jogadores do São Paulo que vinham na farmácia tomar injeção, que naquela época os jogadores não tinham essa mordomia que têm hoje. Meu pai chegou a me deixar na Praça Júlio Mesquita, numa reunião do São Paulo, no carro – nós tínhamos um Ford 35 – ele me deixou. Eu tinha uns cinco anos e meio de idade, ele me deixou até uma e meia da manhã, dentro do carro.

Comecei na escola com quatro. Tenho toda a lembrança da escola. Das duas professoras, duas irmãs, também filhas de italianos, amiga nossa de família. A mãe dela era amiga desde a minha avó. Eu estudei o jardim da infância na Escola Paroquial da Igreja da Nossa Senhora da Glória, onde eu fora batizado, lá em cima na parte alta do Cambuci. E me lembro todas. Tinha o padre que tomava conta da igreja na época, ele era um homem muito culto, ele era luxemburguês, João Pedro. Formado em Teologia e Filosofia na Universidade de Louvain na Bélgica, que eu tive a oportunidade de conhecer. Realmente um must como faculdade em Filosofia. É até hoje.

O Monteiro Lobato era um gênio. Eu conheci o Monteiro Lobato, depois vim a saber o que ele fez por um grande amigo meu que foi um grande escritor que faleceu recentemente. Conheci um dia, vi o Monteiro Lobato. Naquele tempo a gente não pedia para autografar e era um drama pra comprar um livro porque a gente não tinha dinheiro. Tinha que fazer uma economia desgraçada pra comprar um livro. Foi assim, vi, me lembro dele, é um homem com uma altura razoável, não era grande, cabelo branco, bigode branco, tudo. Era um bom sujeito. Muito bom. Cheguei a conversar, ele só botou a mão na minha cabeça, que eu era moleque.

A minha mãe faleceu quando eu terminei o ginásio, ela morreu em seis horas, com 39 anos, de repente. Então eu entendi que nós não estávamos em uma situação financeira boa, eu tinha que começar a pensar na minha vida. Então tirei a ideia da Filosofia, vou ser filósofo de outra maneira. Entrei no Colégio Anglo Latino, que era na Rua São Joaquim, ali na Liberdade. Nós tínhamos três faculdades de Direito: Católica, Mackenzie e São Francisco. Quem não podia pagar tinha que entrar de qualquer jeito na São Francisco. E entrei, sem fazer cursinho porque também não tinha dinheiro pra pagar o cursinho. A minha vida na faculdade? Nenhuma, eu não tive vida nenhuma na faculdade porque eu tinha que trabalhar, fiz o curso noturno, trabalhava de manhã, meu pai tinha uma firma que vendia material de sorvete, eu trabalhava lá. À tarde fazia estágio, já comecei a fazer estágio desde o primeiro dia porque eu queria ser advogado de verdade, como fiz. Não se ganhava nada no estágio, ao contrário, se mandavam de um bairro pro outro, inclusive até o bonde você pagava, mas não me queixo, agradeço aos advogados que me fizeram isso porque foram grandes advogados, muito cultos, pai e filho, lá no Banco Comércio e Indústria de São Paulo, que depois quebrou também, o banco. Com as aulas que eu dava, eu dava aula também de Português e Latim, com as aulas que eu dava eu cheguei a comprar uma História da Literatura Brasileira do Silvio Romero. Eu deixei isso guardado num lugar e me roubaram, eu fiquei tão triste, aquilo custou tantos meses de trabalho, mas não tem problema. Eu fui comprar carro, veja, eu comprei o primeiro carro, já casado, com 32 anos. E eu casei com 22.  Formei com 23 anos. Ela era minha vizinha e foi colega da minha irmã. Eu fui convidado pra uma festa da primavera na casa do tio dela e eu vi que tinha um italiano que estava querendo namorar com ela, eu falei: “Essa eu não posso perder”, “Eu não posso perder”. Primeiro porque eu queria namorar e casar com descendente de italiano com quem eu me dava, eu fui criada como italiano, etc, primeiro. Segundo lugar, a família era muito boa. Em terceiro lugar, era muito bonita a minha mulher, desde criança ela foi muito bonita, muito bonita. E foi uma mulher excepcional. Nancy Maria. Namoramos um ano e pouco, quase dois anos. Ela não queria casar, ela falava: “É muito cedo pra casar”, mas o plano era o seguinte, o fato da morte da minha mãe e o segundo casamento do meu pai muito em cima, isso provocou um buraco na minha existência, um buraco existencial. Então falei: “Preciso eu construir minha vida”. Nós casamos na Igreja Santa Teresinha da Rua Maranhão. Foi no dia 16 de julho de 1955. Foi muito bem porque não tínhamos dinheiro pra festa, não fizemos festa. Fomos passar a lua de mel em Petrópolis, quatro dias em Petrópolis e cinco dias no Rio. Eu morava no mesmo quarto que eu nasci, fui morar. Meu pai não morava lá. Eu tinha aquela casa que era minha, que eu falei, que meu avô deixou para mim e minha irmã e depois a gente vendeu, mais tarde; inclusive deu uma parte pro meu pai, embora ele não tivesse direito legal de ter, nós demos pra ajudá-lo. Reformamos a casa, fizemos uma pintura na casa. Não tinha nada. Eu me meti num negócio, em seguida, que foi mal, eu perdi tudo. Nós moramos durante três anos em cima de um colchão, a roupa toda dependurada. Eu e mais quatro advogados, cinco advogados, resolvemos montar uma fábrica de relógio. Nós chegamos a fazer, mas a questão é que houve um erro técnico, tinha uma peça que era importada da Suíça, era muito bom pro clima da Europa, aqui no Brasil enferrujava logo. Perdemos todos os relógios e tivemos que pagar tudo. Aquela tragédia. Os bancos são muito gentis. Eles são muito lenientes, facilitam a vida de todo mundo. Eu estava trabalhando já com meu primo, o João Brasil Vita, que foi vereador muitos anos. Ele me facultou essa possibilidade de trabalhar com ele, trabalhar com ele não é ser empregado dele, ele não ganhava nada, o trabalho que ele me dava eu tinha participação. Fiquei com ele oito anos e assim me recompus, pagamos todo mundo, construímos a casa, comprei o escritório, fui trabalhar depois no meu escritório. Eu trabalhava como advogado, ele tinha escritório de advocacia. Como ele era político eu tinha que segurar as barras da política também, toda uma campanha política, etc.

Depois, quando eu já estava com 40 anos, trabalhando inclusive muito na Europa ainda, eu resolvi fazer um mestrado e consegui fazer o mestrado na USP, quando abriu o mestrado. Eu fiz crédito no mestrado pra doutorado, tirei dez em tudo, matéria inteira, sempre. Propus um tema, estava falando hoje mesmo que eu fui advogado dos Correios, então tinha trabalhado com alguma coisa. E o sistema de Telecomunicações estava sendo implantado, o Ministério de Telecomunicações começou a ser implantado a partir de 1965, 66. E então eu resolvi fazer uma tese sobre isso. Seguraram a minha tese e faltando três meses recusaram. Uma questão política, né, porque queriam colocar outro no lugar. Eu tinha o fato de eu ter feito serviço na União Soviética, então o Jayme é isso, o Jayme é comunista. Uma coisa é você ter trabalhado profissionalmente, outra coisa é uma questão ideológica, certo? Mas não tem importância, depois eu refiz tudo, já bem idoso, fiz o curso de mestrado em Bioética, cidadania e ambiental.

Eu fiquei marcado pela minha família ter que migrar da Itália por causa da destruição ambiental, fiquei marcado com isso. E depois o fato de eu ter trabalhado na África algum tempo, indo e voltando, e visto o que é isso, a destruição ambiental e o que provoca eu resolvi fazer dentro da cidade de São Paulo uma reserva. Comprei umas terras dentro da cidade, área toda destruída. Não chegava lá, eu fiz a estrada pra chegar, puxei a luz, puxei telefone, etc. E lá fiz, lá plantei 800 mil árvores das quais tem 600 mil e mantenho tudo isso até hoje. Uma parte do ar de São Paulo que você respira se deve a mim, porque dou ar pra 200 mil pessoas por dia. 

O meu cotidiano, hoje eu vivo sozinho, tenho uma empregada permanente. Moro na Padre João Manuel, ao lado do Piselli que eu não vou porque é muito caro. Bem em frente ao Maremonti que também é muito caro, em frente ao Dalva e Dito e ao Alex Atala. Então eu só olho e eu faço a minha comida aos fins de semana. Eu vivo dessa forma. Faço um pouco de auditoria jurídica, auditoria jurídica é um problema muito sério porque se tivéssemos auditado não teriam acontecido todos esses grandes escândalos, de verdade. Só me dá trabalho, serviço pra fazer, quem é sério. Porque eles não querem um parecer encomendado, eles querem um parecer autêntico. Então eu tenho pouco serviço por causa disso. Escrevo muito, estou com dois livros quase prontos e escrevo pra uma revista em Minas Gerais há 14 anos. A revista chama-se Mercado Comum. Eu tenho quatro livros escritos, todos os temas possíveis, imaginários, que passem na cabeça eles publicam.

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