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História

Uma vida caseira

História de: Hana Sukerman
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 07/11/2005

Sinopse

Hana Sukerman relembra a época em que viveu em Soroki, onde nasceu, na região da Bessarábia que, nessa época, pertencia à Romênia. Seu pai era dono de uma taberna que servia vinhos da região e outras iguarias. Ela conta o caminho que fazia para chegar até a escola com seu trenó, a rotina familiar, o shabat, as comidas e as canções. Alguns de seus irmãos moravam no Brasil, onde mais tarde Hana passou a viver também e se casou com um médico.

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História completa

Meu nome é Hana. Meus irmãos chamavam-se Velvel, Burech, Rosa, Dvoire, Dudl, Manea, Siuca, Sioma. São todos nomes de parentes falecidos, porque assim determinava a tradição. Nasci em 1919, em Soroki, na região da Bessarábia que, nessa época, pertencia à Romênia. 

 

Soroki era um lugar de veraneio porque tinha um clima muito bom e tinha também muita fruta, principalmente uvas. A cidade tinha uma parte alta e outra baixa. E lá em cima ficavam os vinhedos. Tinha todo tipo de uvas, pequenas, grandes, amarelas, vermelhas, todas as que se pode imaginar. Eram vinte mil pessoas na cidade. Todos judeus. Tinha uma mikve e duas sinagogas. E se falava ídiche. Até os goim conversavam em ídiche. 

 

Meu pai era dono de uma taberna, e minha mãe trabalhava com ele. Ele tinha uma adega muito comprida, embaixo ficavam aqueles tambores de vinho branco e rosé. Todo ano, em setembro, ele arrecadava um vinhedo, colocava um pessoal para tirar uvas e para fazer vinho. E me colocava para tomar conta dos trabalhadores. Eles apanhavam as uvas, entravam num barril aberto e pisavam com os pés. Eu ficava o dia inteiro e, quando acabava, os trabalhadores iam para casa e eu também. Depois faziam um tipo de champanhe muito gostoso. Nós eramos nove filhos e cada vez meu pai mandava um de nós para representar a família. 

 

Depois passávamos o ano inteiro vendendo esse champanhe para os goim. Vendíamos também vodca e, para comer com a vodca, colbeis e ovos duros. Eram camponeses que vinham do interior para vender trigo na cidade. Paravam lá seus cavalos, colocavam no estábulo para descansar e entravam. Traziam pão preto com queijo e bebiam vodca, vinho, comiam ovo duro e salame e depois se mandavam para a cidade baixa para vender a mercadoria deles. Fazíamos outras coisas de comer também. Minha mãe mandava um schoichet matar dezoito gansos e depois cortava em pedaços, preparava e colocava nuns vasos grandes para o inverno. Isso chamava-se pastarama. Meu pai também trazia pepinos marinados, além de tomate, repolho e maçãzinhas pequenininhas. Botávamos tudo isto na adega. Em casa, fazíamos também povedle. Tinha um tacho de cobre, muito grande, então minha mãe comprava ameixas e tirávamos os caroços e ela acendia um fogo e a gente tinha que mexer a noite inteira. Cada filho um pouco. 

 

Cinco de meus irmãos já tinham vindo para o Brasil. Eles mandavam dinheiro para a gente estudar e uma ajuda para meu pai. Meu primário não foi em escola ídiche, porque lá em cima, onde eu morava, não tinha escola ídiche. Só havia na cidade baixa que ficava um pouco longe. Mas depois eu fiz o ginásio Tarbut lá embaixo. Eu ia para o ginásio com meu irmão, de trenó. Ele sentava na frente e eu atrás e tinha uma ladeira enorme para descer. Quando chegávamos, era o meu sapato para um lado, os livros todos para o alto. Os pais não sabiam, mas mesmo assim a gente ia, porque cortava caminho. Então, depois, nos arrumávamos direitinho e íamos para a escola. Todos os meus irmãos foram à escola. 

 

Alguns acabaram o ginásio, outros não. E eu só fui a um baile na minha vida, que foi quando me formei. Tinha também cinema na cidade baixa, mas nunca fui. Só dia de sábado que eu ia com uma amiga tomar sorvete e escutar música numa praça. Ficávamos algumas horas e depois voltávamos para casa. Nunca saíamos à noite. O costume era a família se juntar para jantar. 

 

Para o shabat mamãe fazia chalá, guefilte fish, iur, beiguele. Papai ia para a sinagoga e mamãe arrumava uma mesa muito bonita, benzia as velas e colocava uma cadeira com um travesseiro, na cabeceira da mesa, para papai poder se encostar. Só o pai ia à sinagoga na sexta-feira. Ele vestia uma roupa bonita, ia e nós esperávamos. Não vendíamos coisa alguma de vinho, ficava tudo fechado. E meu pai chegava, jantávamos, ele cantava. Era interesante sexta-feira à noite. No sábado, sentávamos na varanda e comíamos sionisnic que mamãe fazia no forno. Eu ligava o gramofone e tocava canções religiosas. Meu pai adorava, cantava sempre atrás. 

 

A casa era de uma limpeza absoluta; nós que trabalhávamos; não tinha empregada, mas cada qual fazia a sua parte, e quando chegava no sábado era limpo, limpo, limpo! Minha mãe era muito religiosa e exigente. O que ela fazia, fazia bem. Exigia, por exemplo, que eu limpasse duzentas vidraças. Mocinha, eu tinha doze, treze anos. Outro filho tinha que limpar o chão, outro varrer. Só a cozinha que ela não deixava ninguém mexer. Porque nós lavávamos a mão com sabão, então era treif. Ela só lavava com cinzas. O sabão devia ser só para tomar banho. Tomava-se banho duas vezes por semana. Uma na sexta-feira. Não tinha água encanada e vinha um homem que trazia água para encher o tanque. Agora, antes do casamento, ela botava a filha duas vezes para ver como ela cozinhava, para aprender. 

 

Uma vez por ano, em Rosh Hashaná, mamãe comprava roupa nova, sapato novo para todo mundo. E era só para ir à sinagoga. Nessa ocasião ia toda a família. Levávamos uma vida caseira. De manhã eu ia à escola, depois fazia o dever e depois ajudava minha mãe na limpeza. Começava o jantar, meus pais iam dormir e a gente ia dormir. Mais nada. 

 

Os judeus ricos da cidade não eram muitos. Tinham moinhos de trigo. Grandes moinhos. Nesse tempo eu conheci um, chamava-se Baron. Ele passava todo dia numa carroça com quatro cavalos, uma carruagem. Ia para o moinho. Então, o barão da carruagem, ele gostou de mim. Passava na minha casa, às vezes almoçava conosco, trazia um cesto de frutas e me levava para o moinho. Ele me pediu em casamento, mas minha irmã, que era um pouquinho mais velha, tinha que casar primeiro. Eu era a mais bonitinha e todos que iam lá conhecê-la se apaixonavam por mim. Então me esconderam na casa de minha outra irmã, para que não pudessem me ver. Quando minha irmã ficou noiva, voltei. Mas aconteceu a mesma coisa. O noivo dela quando me viu disse que não queria o dote dela e me queria mesmo sem dote. Por isso me mandaram para o Brasil. Minha irmã, que morava no Brasil, veio com o marido e os dois filhos para me buscar. E eu, antes de vir, pensei que o Brasil fosse o paraíso. Porque eu poderia viver na riqueza e também casar com um homem culto, médico. Lá eu não ia conseguir médico nunca. Porque eu não tinha dote. Meus irmãos, que estavam no Brasil, tinham enviado o dote para a mais velha. 

 

Meu pai gostava muito de mim. Ele me botava no colo e me dizia: "Você tem que casar com um médico. Eu mando você para o Brasil para você casar com um médico." Então eu vim para o Brasil e casei com um médico.

 

[Início da entrevista]

 

P/1 - Como é o nome do lugar onde a senhora nasceu?

E- Soroca.

P/1 - Onde fica?

E - Na Bessarabia. Pertencia à Romênia.

P/1 - Pertencia à Romênia na época. Em que ano a senhora nasceu?

E - 1919, 5 de dezembro.

P/1 - Tenta contar pra gente como era lá o ambiente de Soroca.

E - Soroca é uma cidade alta e baixa e era o lugar de veraneio. Veraneio porque tinha muita fruta, principalmente uvas e o pessoal vinha pra comer uvas, para descansar e para comer uvas. E fora as outras frutas, mas principalmente uvas.

P/1 - E que outro tipo de fruta?

E - Ah, pera, maçã, pêssego.

P/1 - Tudo isso tinha em profusão?

E - Tudo tinha.

P/1 - E as pessoas vinham da onde, de que cidade mais próxima, a que cidade importante tinha ali perto?

E - A nossa cidade era Soroca, era capital.

P/1 - Era uma capital, era uma cidade grande, tinha muita gente?

E - Não, era uma cidade, assim feito Petrópolis.

P/1 - Pois é, como a senhora disse que era de veraneio eu imaginei que tinha uma cidade importante...

E - Não, era veraneio porque lá em cima tinha aquelas... aqueles, como é que se diz... vinhedos. E eles vinham, ficavam um mês descansando e qualquer tipo de uvas, tinha uva pequena, grande, uva amarela, vermelha, muito interessante. Então, aquele lugar já tinha cerejas de todos os tipos. Mas mais longe onde morava, lá em cima.

P/1 - Ah, sei. A senhora morava no vale?

E - Não era... no mesmo lugar mas muito embaixo, muito distante, esses lugares são muito distante.

P/1 - E qual era... tinha festas em relação a estas...

E - Não.

P/1 - Não?

E - So tempo de verão, as pessoas que podiam gastar...

P/1 - E que vinham de que lugar?

E - Ah, eles vinham ao redor de Soroca.

P/1 - Sim, mas nao lembra de alguma cidade especial ou era um... não lembra?

E - Tinha bastante, tinha tantas...

P/1 - Cidades?

E - Cidades pequenas, cidades...

P/1 - Todas eram pequenas cidades, nao e que houvesse uma especialmente grande?

E - Pequeninas. Nao, nao, eram pequenas, vilarejos, o pessoal vinha, passava um mês e vinham e depois voltavam.

P/1 - E na sua infância a senhora lembra alguma coisa especial em relação a essa atividade... que a Susane me falou que a senhora tinha alguma relação com uvas?

E - Uvas sim. Meu pai tinha uma... como é que se diz?

P/1 - Taberna.

E - Taberna.

P/1 - Taberna, ne?

E - E onde se... e ele trabalhava junto com minha mãe. Ele tinha uma adega muito comprida, embaixo tinha aqueles tambores de vinho branco e cor-de-rosa, rose, branco. Meu pai arrendava todo mês, todo ano, em setembro, me lembro, e colocava o pessoal um vinhedo para tirar uva e os homens para fazer vinho.

P/1 - Todo vinhedo?

E - Todo, todo. E colocava assim, aprontava o pessoal para tirar a uva e os homens para fazer vinho. Então ele colocava, eu me lembro como hoje, ele colocava eu para tomar conta.

P/1 - Dos homens todos?

E - Dos homens. Depois quando eles apanhavam as uvas, eles entravam num barril assim, aberto e pisava com os pés. Ai, eu estava sempre sentada, olhando para eles para poder dar conta até seis horas. De manhã eu mandava o pessoal...

P/1 - Dia inteiro?

E - Dia inteiro. Nós éramos nove, nove filhos, então, cada vez mandava um representante de família. E eu não tinha o que fazer, quer dizer, eu gostava de bordar.

P/1 - Ah, já naquele tempo?

E - Já naquele tempo. Se não ler, já gostava de ler e até hoje eu gosto de ler e de bordar. Ai ficava o dia inteiro e quando acabava, aí eu ia para casa e os trabalhadores também iam. Depois faziam aquele... aquilo era um tipo de champanhe tão gostoso, muito gostoso.

P/1 - Especialmente feito na adega de seu pai?

E - Uva forte, uva. Aí eles lá ficavam um ano inteiro vendendo para os goym. E tinha… Nossa casa era grande, tinha oito quartos, um casarão. E eles vinham e se vendia vinho e também vodka.

P/1 - Ah. também faziam?

E - Não faziam nao.

P/1 - Só vendiam? Vendiam comida também?

E - Não.

P/1 - Não era um bar, não era...

E - Não era bar não. Se vendia era colbeis idiche, colbeis e... como é que se diz... e... linguiça...

P/1 - Salame, né?

E - Salame, salame iídiche e ovos duros, para vender com a vodka.

P/1 - Para acompanhar. O pessoal entrava lá, bebia lá mesmo?

E - Não, tinha dois quartos grandes, quer dizer, salões. Eles vinham, quando eles vinham lá do interior para vender... eles vendiam isso... trigo... o que eles vendiam na cidade, vinham por aquele, paravam lá, com seus cavalos e, bastante, podiam entrar lá naqueles lugares e, não me lembro mais, umas dez a quinze daquelas carroças. Então eles sozinhos tiravam cavalos, colocavam no estábulo para descansar e entravam para beber e para comer essas coisas e traziam pão preto…

P/1 - Ah, eles mesmo traziam?

E - Eles mesmos traziam pão preto com queijo, porco não porque papai não deixava. E bebiam vodka e...

P/1 - … E a champanhe?

E - ... vinho, ovos duros e pronto ficavam, depois se mandavam para a cidade baixa e para vender mercadoria deles.

P/2 - Isso era na cidade alta?

E - É, na cidade alta.

P/2 - Tinha cidade ou era assim como uma espécie de campo?

E - E, e, era assim uma espécie de vila, uma rua, tinha rua, duas ruas mas eram espaçosas, de um lado e do outro lado. E essas ruas tinham...

P/1 - Esse casarão era de madeira ou era de...

E - Era de... meu pai tinha mania de consertar as coisas. Quando ele podia porque cinco pessoas da nossa família já estavam no Brasil e eles mandavam dinheiro para a gente estudar e para papai uma ajuda, ai ele consertava, logo ele consertava aquele casarão, bonito casarão. Tinha uma Suca toda de vidro, toda de vidro, e, era altos e baixos, quarto lá embaixo e quarto lá em cima.

P/1 - E esses cinco foram para o Brasil por que?

E - Para fazer dinheiro.

P/1 - Eram parentes próximos?

E - Cinco dos nossos filhos.

P/1 - Cinco irmãos. Ah, cinco filhos foram para o Brasil antes da senhora.

E - Um morreu lá mesmo que eu nem conheci e cinco foram para Brasil, para a Bahia.

P/1 - Espera aí nós já estamos adiantando muito. Como é que eles chamavam, o seu pai?

E - Meu? Moisés. Hoishe, em iídiche e Moishe.

P/1 - Moisés Sukerman seu pai, e a sua mãe?

E - Sukerman não, Moishe Groisman, Groisman. Minha mãe Leika, Leika Groisman.

P/1 - Leika.

E - Leika.

P/1 - E os irmãos, todos os irmãos como se chamavam?

E - Do pai?

P/1 - Seus irmãos. Agora sobrenome.

E - Waldemar Velwe, vou falar em iídiche, ne?

P/1 - É.

H- Velwe, o mais velho, Velwe. Aqui passou para Waldemar, depois era Mania, Rosa, Velwe, Rosa, David, e Dude, Dvoire.

E- David, ne?

H- E.

E- Que mais?

H- Dvoire, Hone, ai, Sioma, Sivia.

E- Velman e?

H- Zelman.

E- Zelman.

H- Zelman, ele mora lá em Israel. Hertzlia...

E- Qual o outro? Hone, hana, sou eu né?

H- ________.

E- E os nomes, eles tinham alguma relação com alguma coisa, eles eram nomes por que? Você se chama Hana por que?

H- Minha... uma e por nossos parentes, com certeza, que morreu que se chamava Hana.

E- Ah, sempre o nome...

H- Sempre o nome atrás de um morto. Não se dava um nome assim.

E- Ah, o avô! O seu avô trabalhava em que?

H- Não me lembro do meu avô?

E·- Não?

H- Não.

E- Essa atividade ligada ao vinho, isso tinha alguma tradição ou porque ele começou nessa atividade?

H- Porque dava...

E- Foi uma coisa que ele começou?

H- Dava para viver.

E- Não era uma... sei, mas nao e assim como eu estou dizendo?

H- Não. Meu pai e minha mãe era muito ortodoxo, religiosos. E eu me lembro que lá em casa todo sábado entrava no quarto dela e lia a Bíblia, se fechava no quarto e lia a Bíblia, ninguém mais podia entrar.

E- Tinha sinagoga na sua vila?

H- Tinha sinagoga, tinham duas sinagogas.

E- E a comunidade lá era grande?

H- Vinte mil pessoas.

E- Eram todos judeus?

H- Tudo judeu.

E- Vinte mil!

H- Vinte mil judeus. Tinha mikva. E a coisa interessante que se falava iídiche e até os goym conversavam em idiche. Eu me lembro que falava iídiche com goym.

E- Mas esses goym eram estran...

H- Em redor de Soroca.

E- E os que vinham, eram contratados para o vinho?

H- Moravam mesmo la mas longe.

E- E que eram contratados para os trabalhos da vinha?

H- E, e.

E- Eram mais pobres?

H- Trabalhadores.

E- Eles falavam iídiche?

H- Idiche.

E- E?

H- Lá os velhos falavam iídiche.

K- 1919. Conta como era um pouco quando você nasceu, se você foi a escola, como era o seu dia a dia, conta um pouco.

H- Eu me lembro que eu fui para a escola primária lá onde eu morava, perto. E tinha goy porque não tinha idiche, só tinha lá embaixo.

E- Mas nessa cidadezinha não tinha colégio?

H- Colégio iídiche não. E lá em cima onde eu morava não tinha, agora, lá embaixo tinha mas era muito longe. Ai eu tinha que fazer primário perto de mim, tambem nao era tao perto mas andava a pé. E tinha junto uma igreja, nunca entrei nessa igreja, mamãe proibia e nem tinha vontade de entrar.

E- Mas os colegas eram, então, goy?

H- Tudo eram goy. Tinha algumas idiche.

E- E.

H- Mas ninguém entrava na igreja.

E- Tinha só primário ou tinha... ?

H- So primário. E depois eu fiz o ginásio tarbut, lá em baixo.

E- Tinha ginásio la?

H- Tinha ginásio.

E- E tinha amigos não judeus?

H- No tarbut não, só judeus.

E- Os amigos de um modo geral...

H- De um modo geral o ambiente era tudo judeu, judeu.

E- Tudo judeu?

H- Agora, tinham outros ginásios na escola. Tinha bastante.

E- Mas as amizades nunca eram com goy?

H- Não.

E- Sei, eles eram ricos?

H- E.

K- Vo, se você conseguir ir falando um pouco, assim, lembrando, a gente perguntasse menos, você contar mais ou menos como era... o que você fazia, acordava, seus irmãos, as meninas faziam coisas juntas?

H- Bom, eu saia da escola, para ginasio e tinha em casa um treno, treno.

E- Trenó?

H- Treno. Ai eu com meu irmão, ele estava na frente e eu atras e tinha numa ladeira enorme para descer para a escola. Aí eu ficava com ele, assim mesmo, ai ele sentava e eu atrás dele, todo dia, os pais não souberam.

E- Não?

H- Porque era perigoso. Quando chegava lá embaixo o meu sapato de um lado, os livros, todos para o alto. Mas assim mesmo a gente ia.

E- Era de brincadeira?

H- Não era, era mais perto.

E- Ah, para cortar caminho?

H- Para cortar caminho. E lá a gente se arrumava direitinho e ia, era pertinho da nossa escola, no ginásio.

E- E as meninas e os meninos foram para o ginásio? Tanto as suas irmãs...

H- Todas, toda a nossa família, todos eles. Alguns acabaram o ginásio, outros não. E só foi um baile também na minha vida quando me formei. Tinha um cinema lá embaixo que eu nunca fui, saía lá dia de sábado tomar um sorvete com outra amiga, com uma amiga, so. E tinha lá, como era bonita a vila. Como uma espécie, uma cidade pequena não tem uma...?

E- Uma praça.

H- Uma praça e tinha também música, aí no sábado a gente ia tomar sorvete, escutava música num parque muito bonito.

E- Ao ar livre?

H- Ao ar livre. E ficávamos andando algumas horas e depois íamos para casa, nunca saíamos de noite.

E- E durante a semana também?

H- Não.

E- E a família se juntava de noite para...

H- Interessante, sempre se juntava para o jantar.

E- Depois tinha alguma atividade em grupo?

H- Não.

E- Não?

H- Sexta-feira a noite era muito bonito.

E- E como era o shabat?

H- O shabat papai ia para a sinagoga, mamãe fazia de tudo, chala, todas as comidas idiche.

E- Quais comidas?

H- As comidas? guefilte fish, iuch, beiguele, tudo isso ela fazia. Botava uma mesa muito bonita, benzia as velas e botava uma cadeira na cabeça de uma janela... de uma mesa com um travesseiro aqui para papai poder se encostar. E quando ele vinha da sala, quando ele vinha da sinagoga ele ia jantar.

E- Mas a família toda não ia à sinagoga não?

H- Não, só o pai.

E- Só o pai? Só os homens que iam à sinagoga?

H- Durante a semana que eles deixavam.

E- Sexta feira?

H- So Rosh Hashanah, Iom Kipur e as nossa festas todo mundo ia.

E- Mas shabat só o homem ia?

H- So, sexta-feira a noite soo pai. Ele botava roupa bonita, roupa nova, era um homem bonito, olhos verdes. E botava roupa bonita, ia, a gente esperava, por exemplo, não vendia coisa alguma de vinho, era fechado, encerrou. E ele vinha, a gente jantava, ele cantava. Interessante sexta-feira a noite.

E- E ele era religioso?

H- Sua mãe... minha mãe que era religiosa. Ele acompanhava ela.

E- Sim, mas ele não era assim?

H- Nao, nao.

E- E ele rezava no sábado em casa? E sábado como é que era? Todo mundo podia fazer o que queria, podia...

H- So dentro de casa.

E- Não podia sair?

H- Não. A gente sentava lá fora e... em iídiche e comia sionisnic, a gente... umas carocinhos...

E- Sementes de girassol?

H- Semente de... é.

E- De girassol?

H- De girassol que mamãe fazia no forno. E a gente sentava, eu botava, por exemplo, o gramofone.

E- Podia botar no sábado?

H- E, canções...

E-... religiosas?

H- Religiosas. Era muito gostoso. Meu pai adorava, cantava sempre atrás. A casa era de uma limpeza absoluta, nós que trabalhávamos, não tinha empregada, mas cada qual fazia a sua parte e quando chegava sábado era limpo, limpinho.

E- E o que o pai comentava, o que que ele achava, queria que os seus irmãos antes que eles viessem para o Brasil? Que eles ficassem lá, cuidassem da taberna, o que que ele queria que os filhos fizessem? Ele comentava sobre isso? Queria que eles estudassem, o que que era?

H- Ele queria que eles fossem, se metessem em comércio e ficassem ricos.

E- E por que escolheram o Brasil?

H- Porque ele tinha um irmão de Sekuren, um irmão que era professor de hebraico.

E- Aqui?

H- E... lá em Sekuren e ele veio para o Brasil...

E- E porque ele escolheu o Brasil?

H- Ah, nao sei.

E- E aí o que aconteceu?

H- Ai ele ficou rico mesmo.

E- Aqui no Brasil?

H- Ai ele escreveu para o meu pai para mandar os filhos.

E- Para a Bahia?

H- Para a Bahia.

E- Ficou rico dando aula de hebraico? Ficou rico dando aula de hebraico? Klienteltchik trabalhava.

H- Todos eles trabalharam Klienteltchik, todos eles. Mas se fizeram, se fizeram. No fim eles tinham uma casa, tinha a loja, estavam bem, nao estavam ricos mas estavam todos bem os irmãos.

E- Salvador, ne.

H- São Salvador.

E- E lá ficaram as meninas?

H- Nao. Elas vieram, veio Velwe, Mania, David e veio... e eu, são quatro que vieram para cá. David... e... e cinco ficaram lá. Ai arrebentou a guerra e eles nao puderam vir.

E- Ah, sei, e a senhora foi...

H- Em 35, antes da guerra.

E- Para encontrar com seus outros irmãos?

H- E. Bernardo, não te falei de Bernardo, tem oito, sete, ele é oito, um morreu, Bernardo está vivo até hoje.

E- A sua família não tinha uma atividade cultural? Ler coisas, comentar, por que que você gostava de ler, lia se incentivava, como era essa ideia cultural? Que tipo de literatura, que tipo de livro a senhora lia em casa e o que se lia?

H- So mamãe que lia, aquela Bíblia dela. Só, o resto nao.

E- Mas a senhora lia outras coisas?

H- ·Era tão ocupado que não tinha nem tempo para...

E- Então, era ocupado como? Você acordava de manhã e fazia o que?

H- Eles, meus pais que eram ocupados. Nós, estudávamos todos eles, todos nós estudávamos e para ler não compramos livros não, mas a escola, livros de escola. Agora...

E- Tinha biblioteca na cidadezinha?

H- Não.

E- Não.

H- Os livros da escola que a gente lia, estudava e tinha que ajudar em casa, todos nos ajudamos em casa, era casa grande, nao nao dava conta.

E- Não tinha intercâmbio entre essas famílias... ?

H- Ah, sim, os vizinhos, a gente se dava com os vizinhos.

E- Visitava?

H- E, e. Mas minha mãe não... não frequentava muito, nao gostava, gostava só de casa, cuidava da família, de casa...

H-... muita criança e mesmo ajudava meu pai.

E- Se dava bem?

H- Muito bem, nunca assisti uma briga entre eles, muito bem. Até o fim da vida ele adorava minha mãe. Eu nao sabia o que e viver brigado, aqui no Brasil que eu soube, nem de assimilação, nunca ouvi falar de assimilação. Eu sabia que idiche tem que casar com idiche.

E- Nessa cidadezinha todo mundo casava entre si?

H- Casava só entre nós, iídiche com idiche.

E- E a relação dessa cidadezinha com o resto do lugar?

H- Goy?

E- E, com o resto da... era muito isolada a vida, assim, não tinha jornal, não tinha comunicação com o resto da... ?

H- Tinha na cidade, lá embaixo tinha mas meu pai nao tomava conta não.

E- Não?

H- Não tomava parte não.

E- Vocês viviam isolados, ne? Não tinha discussão política em casa?

H- Não.

E- Não tinha um clube, uma boemia?

H- Não. Aqui na sinagoga, tudo se faz; lá na sinagoga...

E- Bem isolada, ne?

H- Mas todo mundo se conhecia.

E- Por exemplo, na casa tinha o pai, a mãe e os irmãos. E as irmãs da sua mãe, suas tias, os avós, o resto da família, onde é que estava?

H- Também lá. A nossa família tinha uma... tinha em redor de soroca, que ela vinha uma vez por ano ficar com a gente para a gente ficar lá com ela, uma espécie de colônia, a gente ficava um mês...

E- Quer dizer, grandes viagens não se faziam?

H- Não, grandes viagens não se faziam. Só ricos para poder estudar, por exemplo, na Itália, na França, aqueles ricos que faziam baccaleaureatt.

 

E- _______ que eles iam ________, mesmo judeu?

H- So judeu.

E- Tinha muitos judeus ricos na cidade?

H- Não.

E- Os judeus que eram ricos da cidade fazia o que?

H- Moinho, moinho de trigo lá em cima onde a gente morava. La e o lugar, na cidade ainda não era lugar para isso. Os moinhos são grandes, trigo, aí nesse tempo eu conheci um, chamava-se Baron, um tipo assim de Barão. Aí ele subia com quatro cavalos, têm uma carroça com quatro cavalos e passava todos os dias para cima.

E- Seria uma carruagem? Carruagem, não é carroça, é carruagem, ne?

H- Carruagem, feito na Inglaterra. Só os ricos, né? Ele que mandava os filhos para o exterior.

E- E lá os filhos dele faziam o primário aonde, quando eram crianças?

H- Lá mesmo.

E- Na escola judaica?

H- Não, tinha a escola dos goy também.

E- Era pública a escola, era paga?

H- Era pública. Tinha bastante.

E- O que que se comia normalmente sem ser shabat?

H- A gente comia de manhã uma salada mas tudo fresco, salada, creme de leite, manteiga, pão que minha mãe fazia, café com leite, né? Creme de leite, almoço era almoço normal, janta também normal. Ah, minha mãe fazia, isso e interessante mesmo.

H- Minha mãe mandava matar com shoichet dezoito gansos, e também, colocava naqueles vasos grandes para inverno pastarama, chamava-se pastarama.

E- Pastarama? De ganso?

H- De ganso.

E- Pasta de ganso, ne?

H- Nao e pasta nao, e pedaços inteiros.

E- Chama pastarama?

H- Pastarama, e muito gostoso.

E- Fazia com pedacos de que, que eu nao entendi?

H- Matava dezoito gansos e botava em conserva.

E- Por que dezoito?

H- Porque todo ano tinha dezoito gansos que criava por lá mesmo no nosso ________...

E- O número e que é engraçado. Ai matava os gansos...

H- O shoichet matava os gansos e fazia pastarama e ela botava naqueles vasos grandes e botava no sol e se comia. Meu pai fazia esses pepinos marinados, pepino e que mais? Pepino, tomate, repolho e maçãzinhas pequenininhas, esse era o trabalho de mamãe e de papai e botava lá naquela adega.

E- Adega.

H- Adega para comer com essa pastarama.

E- Ah, para dar gosto?

H- Para dar gosto.

E- E passavam bem?

H- Eles aprontavam isso.

E- As roupas, assim, quem fazia, você comprava roupa?

H- Uma vez por ano, mamãe comprava para Rosh Hashaná. Comprava muita roupinha nova, sapatinho novos, para ela também, para papai. E só podia botar na sina... para ir para a sinagoga.

E- O resto era costurado em casa?

H- O resto ela fazia tudo sozinha.

E- Ela se vestia como? Porque por aquela foto a gente vê que ela está com a cabeça coberta, de preto, ela se veste de preto?

H- De preto nao, qualquer coisa. Ela era uma mulher assim, como se chama? Como é que ela era, rígida com a educação dos filhos, comportamento...

E- Exigente?

H- Exigente. Ela era trabalhadora, muito trabalhadora, tudo que ela fazia era bem.

E- Exigia também dos outros?

H- Exigia, por exemplo, eu ter que limpar duzentas vidraças e tinha que limpar mesmo.

E- Com quantos anos?

H- Hum, mocinha, doze, treze. O outro tinha que limpar o chão, o outro varrer, uma tinha que lavar a louça, a louça ela nao deixava, ninguem entrava na cozinha. Porque a nossa casa a gente mexia com sabão, então era treif, não podia porque ela sozinha tomava conta da cozinha, só por causa que a gente lavava as mãos com sabão.

E- Não podia?

H- Não.

E- Por que?

H- Porque era treif. Ela, por exemplo lavava louça com cinza.

E- Por que treif?

H- Não, é kasher, não tem kasher?

E- Ah, kasher?

H- Ela só fazia tudo kasher.

E- Ah, ela só fazia tudo kasher? Leite eu sei que e proibido, ne?

H- Proibido, e. Ai nao deixavam a gente...

E- Mas sabão era proibido?

H- Só para o corpo, né? Na sexta-feira a noite a gente tinha que tomar banho todo, um por um.

E- Banho só na sexta-feira?

H- So na sexta... não, no meio da semana tambem mas nao tinha água encanada. Tinha um homem que trazia água para encher. Era muito frio, tomava-se só duas vezes por semana, na sexta-feira...

E- Caprichado?

H- Caprichado.

E- Mas essa história de treif com sabão eu ainda nao entendi.

H- Porque as maos nao eram kasher.

E- Ela nunca mexia com sabão?

H- Sabão só pra tomar banho.

E- So?

H- Mas lá na cozinha não.

E- Vocês não ajudavam a cozinhar nada?

H- Nunca.

E- Quer dizer que ela cozinhava, para onze pessoas sozinha?

H- Sozinha e muito bem cozinhado, de forno e fogão.

E- E os filhos nunca ajudaram na cozinha? Isso era comum lá?

H- Não era comum mas minha mãe que fazia isso.

E- Ah, foi uma idéia dela?

H- Ideia dela. Agora, antes do casamento de uma filha, por exemplo, ela botava assim você olha como eu faço, aí você vai aprender.

E- Uma vez?

H- Duas... antes do casamento de uma filha.

E- Quem casou lá?

H- A Rosa, Maria, não Maria casou aqui. Rosa, Dvoire.

E- Casaram lá? Como é que é que elas se casaram?

H- Da Dvoire eu já estava no Brasil, mas da Rosa, a chupa era na minha casa porque era uma casa grande, e com música e dançava até de madrugada.

E- Quem escolheu o noivo, como é que foi isso?

H- Ah, isso? Namorava, né? Vinham em casa para namorar.

E- Mas a escolha era livre?

H- Heim?

E- Vocês escolhiam livremente ou havia interferência das famílias?

H- Iches, antigamente era iches, não podia namorar qualquer um, só da nossa classe média. Por exemplo minha mãe, meus irmãos, minhas irmãs não podiam namorar com operario, família do mesmo nível.

E- E com os ricos podia?

H- Eu namorei lá um rico, aquele barão, o filho dele.

E- Ah, você namorou ele? Conta sobre isso? O barão da carruagem?

H- O barão da carruagem, ele gostou de mim.

E- E aí? Conta, como foi?

H- E aí minha irmã que era mais que era um pouquinho mais velha do que eu, lá tinha que casar primeiro a mais velha. E ele estudava em Praga. Mas conheci a familia dele naqueles… naqueles, como se diz? moinhos, a gente ia para lá.

E- Ele te levava no moinho?

H- Levava.

E- Como é que era, ele passava lá na sua casa?

H- Passava na minha casa.

E- Falava com a sua mãe se podia?

H- As vezes ele almoçava conosco e me levava depois ele trazia um cesto de frutas, que ele tinha, interessante.

E- E vocês não casaram?

H- Eu não podia casar antes de minha irmã. Ai para ela poder casar, me levaram para o Brasil.

E- Quem casou com esse barao, ninguém da sua família?

H- Nao, foi só meu namorado.

E- Ele pediu, chegou a te pedir em casamento?

H- Pedir, pediu em casamento, tinha a irmã, ela tinha que casar primeiro depois eu.

E- Quem era, Rosa?

H- Não, Dvoire.

E- E a Rosa...

H- Já tinha casado.

E- Ela casou com pobre, com rico, com...

H- Ela casou com o filho de um banqueiro, posição de rico, o pai dele era banqueiro.

H- Familia classe media alta. E até hoje está com ele em Israel.

E- Israel?

H- E. Tinha até governanta.

E- E a senhora estava dizendo que antes de casar a sua mãe trazia as filhas para ensinar a parte da cozinha?

H- Antes de casar, um mês, dois, ela disse, fica aqui e olha como eu faça, chala, os peixes, tudo que ela fazia.

E- Ela dava um curso intensivo?

H- E, dava, ela entrava muito mais sexta-feira. Ai só podia ser sexta-feira porque era para sábado. Era Tchulent e era Tchulent e ela fazia sexta-feira e deixava fechado o forno.

E- E ficava cozinhando?

H- E, para ficar para sábado.

E- Eu estou fascinada, com nove filhos ela cozinhava sozinha, nao deixava ninguem, ninguem ajudar.

H- Ninguém. Pode trazer o samovar para por o...

E- Tinha alguma história da família que sempre se contava ou alguma música tradicional que todo mundo aprendia, ou a história de algum parente, todo mundo falava de alguém assim?

H- Nao, nao.

E- Essa musicas que seu pai cantava...

H- So chasunesh sticken. Chasunesh só da sinagoga.

E- Ah, nada laico, nao, ne?

H- Não.

E- Ah, não eram músicas populares?

H- Não.

E- Sabado de manha tambem nao. Aquele do gramofone?

H- Do gramofone eram só, só...

E- Só religiosas?

H- So religiosas. Mas ele adorava seguir na música atrás, é o maior prazer dele.

E- E naquela pracinha que tipo de música tinha, lá na cidade? música goy, não?

H- Só idiche.

E- Mas não religiosa, não?

H- Não.

E- Você não tem nada da música daquela...

H- Não.

E- E como era, você tinha muitas amigas, na praça?

H- Não.

E- Não?

H- Minhas amigas eram só la da escola. E elas moravam lá embaixo, que eu nunca ia lá. Eu tinha uma lá em cima, tinha uma, brincava com ela. Tudo a mesma coisa, os pais dela tinham uma loja.

E- Quer dizer, que a atividade econômica principal da região era moinho, uvas, que mais tinha em Soroca?

H- Em Soroca tinha comercio.

E- É, sim, mas...

H- Lojas de comida, de roupa, tinha tudo feito um lugar pequeno que tem.

E- Mas enfim, famoso pelo veraneio e pelas uvas?

H- Soroca era famoso pelo veraneio.

E- E tinha judeus pobres, gente pobre, muito pobre?

H- Tinha, onde eu morava tinha, mas lá embaixo tinha.

E- Tinha favela no...

H- Favela nao, mas pobres sim.

E- E as pessoas se ajudavam?

H- Mas não eram pobres assim... Trabalhadores, operários.

E- A comunidade se ajudava?

H- So um pouquinho mas meu pai, porque a gente morava lá em cima, era fora da...

E- Isolado, ne?

H- Isolado.

E- Vamos para o Brasil?

H-· Vamos.

E- Quer parar um pouquinho?

H- E, vamos tomar um lanche?

(interrupção)

H- Então, tinha uma vez, como é que fala, cobres, porque... como é que chama... como e que fala?

E- O que?

H- De cobre, que eles têm?

E- Tacho?

H- Tacho, de cobre. Então, ela comprava ameixas, um saco e a gente tinha que tirar os caroços e ela fazia um fogo e a gente tinha que mexer a noite inteira.

E- A noite inteira?

H- Cada qual um pouco.

E- Para fazer o que?

H- Povedle.

E- Ah, isso é uma delícia. Povedle?

H- Povedle. E eu faço até hoje em casa.

E- E tinha que passar a noite inteira...

H- Se nao, era muito grande, do tamanho desse… Era um grande tacho, enorme. Em casa se tinha fogo, povedle no fogo, a gente tinha que mexer.

E- E qual era o irmão que você gostava mais, com que irmãs você se dava melhor?

H- Nao, eu nao tinha com quem não, a gente se dava bem. Só sei que meu pai gostava da gente muito bonita. Ai, eu sempre sentava no colo dele...

E- A senhora?

H- E, porque era a mais bonitinha.

E- De todas, e?

H- De todas nao sei porque já tinha a Rosa era bonita, já tenha ido para Israel e era bonita, mas eu nao me lembro porque era pequenininha, né? Só sei que ele me levava no colo. Difícil, tem que casar com um médico e eu tinha que casar com um médico e casei com um médico. Eu mando você para Brasil, você casar com médico. Eu fui para o Brasil e casei com um médico.

E- Vamos para o Brasil, então? Ele mandou… A Dvoire não conseguia casar?

H- Quando eu fui embora ela casou.

 

E- Por que? Todo mundo, o pessoal que ia lá para ela casar ficava apaixonado...

H- Ficava apaixonado por mim. Ai me escondia na casa da minha irmã para não me ver. Quando já ficou noiva, ai eu podia voltar. Então, aconteceu a mesma coisa, o noivo dela quando me viu disse que não quer o dote dela e quer eu sem dote. Por isso me mandaram para o Brasil.

E- Que problema!

H- Foi isso mesmo. E ele acabou o noivado com ela.

E- Ela era muito feia, mesmo?

H- Não, mais ou menos.

E- E que ela era mais.

H- Acabou o noivado.

E- Bom, a viagem de navio para o Brasil. Aí falaram para mandar você para o Brasil, decidiram?

H- Me mandaram, me mandaram mesmo.

E- Escreveram para os irmãos, como é que fizeram?

H- Minha irmã veio me buscar, minha irmã com marido, e dois filhos.

E- Em que ano a senhora veio?

H- 35, l935.

H- A Clarinha com mãe, com pai, com os irmãos vieram para a minha casa, ficaram um ano na casa de minha mãe e depois me...

E- Ela veio te buscar?

H- Veio.

E- Mas a Clarinha ela e o que, prima?

H- Não, ela é sobrinha, e filha da minha irmã. Aí eles ficaram um ano na minha casa.

E- E foram lá só pra te buscar?

H- Não, foram ver a família, minha irmã. Aí fui ficando, nunca mais voltei.

E- Que que você achava do Brasil, da ideia de vir pra cá, que ideia você tinha?

H- Não gostei do Brasil.

E- Mas antes de vir você tinha vontade de vir?

H- Ah, antes de vir eu pensei que aqui fosse o paraíso.

E- Quando falaram para voce vim...

H- E.

E- Porque?

H- Porque primeiro, para viver na riqueza.

E- Diziam que aqui você ia ficar rica?

H- Segundo, casar com um homem culto, médico. Lá eu não ia conseguir médico nunca.

E- Por que?

H- Não tinha dote.

E- O dote só podia conseguir o que?

H- O dote podia conseguir um médico, um engenheiro, qualquer um com carreira.

E- Agora com o tipo de dote que você tinha você iria conseguir o que?

H- Eu não tinha dote. Minha irmã, quer dizer, meus irmãos deram o dote para a mais velha.

E- Só para uma. Aí acabou.

H- E se chegasse a minha vez eles iam dar. E nao deram no Brasil porque nao deram, já não era negócio de dote.

E- Costume...

H- Não era costume não.

E- Mas alguém que se apaixonasse daria... o Baron, por exemplo?

H- Ele se apaixonou por mim.

E- E ele não queria casar com você sem dote?

H- Ele não podia casar antes que minha irmã casasse. Mas ele, por exemplo, ia casar sem dote porque ele era um barão.

E- Ah, sei, ele não precisava.

H- Não precisava, era rico, estudava lá em Praga.

E- E ele estudava o que?

H- Estudava engenheiro. Também era primeiro ano.

E- Ele era novinho? Bom, voce tinha que idade essa epoca que voce namorou ele?

H- Foi um ano antes de vir pra cá dezesseis anos.

E- Você ficou namorando ele muito tempo?

H- Não. Aos dezessete já estava no Brasil.

E- Com dezessete anos?

H- Dezessete anos.

E- Mas então falaram que você ia vim pra cá e você achou legal?

H- Gostei.

E- Conta.

H- Não compreendi muito essa viagem, eu pensei que um outro tipo de vida que se leva aqui. Nao, nao gostei da vida daqui, nao.

E- Os irmãos não escreviam?

H- Eles não falavam assim, abertamente.

E- Sei, que? que eles contavam?

H- Eles não contavam a verdade, eles trabalhavam muito pesado e mandavam muito dinheiro para meus pais. Pra gente poder estudar para poder viver normalmente mas nao contavam como eles faziam dinheiro e eles trabalhavam muito duro.

E- Não queriam preocupar a família?

H- Para não preocupar a família.

E- Sim, aí a senhora chega no Brasil, em Salvador?

H- Sim, estava na casa do meu irmão, o mais velho.

E- E aí como é que foi, pode contar... Lembra, chegou, que que você lembra, a primeira impressão, que que aconteceu?

H- Quinze dias depois comecei a namorar seu avô.

E- Quinze dias?

H- Quinze dias depois e eu não aproveitei minha adolescência em nada.

E- Com dezessete anos?

H- Foi.

E- E quem que arrumou o... ?

H- Ele sozinho, ele me viu lá na sinagoga, na Hebraica, lá tem Hebraica, em São Salvador. Ele me viu, se apaixonou e nunca mais me deixou.

E- Mas antes de você encontrar com ele, quando você chegou na Bahia você gostou, o que que te pareceu na hora? Era aquilo que você imaginava'?

H- Não.

E- Não, a cidade você imaginava...

H- Eu imaginava muito diferente.

E- Descreve o que mais você imaginava e o que você viu?

H- Primeiro que eu nunca tinha visto um preto e de repente eu vi preto na minha vida, nunca tinha visto. E depois a vida dos meus irmaos nao gostei muito nao.

E- Era triste?

H- Era. Eu imaginava muita coisa completamente diferente. Mas era normal, assim feito lá em Sovoca, onde eu morava, era a mesma coisa aqui. Não via diferença nenhuma. Só que em São Salvador tinha um clube Hebraica. Ai eu fui... faziam bailes e eu ganhei no baile o prêmio de beleza.

E- E já estava namorando?

H- Já estava namorando.

E- Já estava presa, né?

H- Já estava presa e tinha outro que quis, um ricaço.

E- E aí?

H- Mas eu só peguei o médico que meu pai e minha mãe mandou.

E- Foi seguindo ordens. Mas a senhora se apaixonou?

H- Não. Ele se apaixonou. E eu gostava daquele barão.

E- Daquele voce gostou?

H- Rico, estudava, refinado.

E- Era um outro mundo, né? Mais romântico?

H- Mais romântico.

E- E o vovô não era rico, como era ele?

H- Ele não era rico.

E- Ele tinha se formado em medicina?

H- Formou-se quando era noivo. Depois dificuldade, dificuldade para se arrumar. Abriu o consultório lá dois consultorias e também não dava. Depois nos interior de Guia Lopes (MG).

E- Mas vocês casaram quanto tempo de namoro?

H- Depois de um ano de namoro a gente casou.

E- Ele pediu para seus irmãos?

ele tinha na Bahia, fomos para

H- E. Ele era um tipo assim, calado. Ele não tinha diálogo, calado, calado, calado.

E- Aí vocês foram para o interior, como foi?

H- Ai para o interior já tinha as duas filhas.

E- Ah, logo?

H- Uma atrás de outra e foi para o interior para fazer dinheiro.

E- Como chama a cidade que a senhora foi?

H- A minha? Guia Lopes, em Minas.

E- Cidade pequena?

H- Cidade pequena, e.

E- E aí, como foi?

H- E aí fui para lá com as duas meninas e lá tinha muitos leprosos.

E- Todo mundo ficava dentro das casas quando eles passavam?

H- Quando eles passavam a gente jogava umas moedas.

E- Eles não?

H- E. Ai eu ia e jogava. Depois me disseram que se um deles vai morder uma criança sete vezes, uma criança sadia, quer dizer, eles ficam curados. Ai eu tinha medo de ficar com minhas crianças, aí eu me trancava dentro do... e nao saia mais com Suzane e com Kitty porque perigosa era Kitty que era robusta, bonitinha. Kitty era linda, Suzane também mas outra beleza. Esse era de cabelos lindos, rechonchuda, olhos azuis. Ai eu tinha medo, aí me trancava em casa. E pegava livros para ler, gostava de ler, aprendi o português sozinha. Aí tinha a Prefeitura, aí eu pegava livros, eu li todos os livros da Prefeitura e me ocupava em casa.

E- E tinha vida judaica?

H- Não tinha nenhum judeu.

E- Não tinha nenhum judeu. E o vovô ele era... Como ele era em relação ao judaísmo?

H- Nao, ele nao ligava.

E- Não. Ele tinha alguma atividade cultural, fazia parte de alguma coisa na Bahia?

H- Não, só estudava.

E- Ele nasceu na Bahia?

H- Não, em São Paulo.

E- Não tinha atividade política?

H- Era comunista, trabalhava para o Partido Comunista.

E- Ele era filiado ao Partido?

H- Filiado ao Partido. Mas ele não conversava isso comigo.

E- Não?

H- Não.

E- Mas aí quando ele saiu da Bahia ele interrompeu a atividade?

H- Interrompeu porque a situação financeira não era boa.

E- Depois nunca mais se filiou?

H- Depois adquiri uma úlcera, aí eu fui para Rio de Janeiro e nao quis mais voltar.

E- Quem teve úlcera?

H- Eu. Eu nao aguentei aquela vida.

E- Quanto tempo morou lá?

H- Dois anos. Mas o que que aprendi lá foi cavalgar. Ele curou um fazendeiro que e pagou e tambem e deu o cavalo de presente para mim. Aí, tinha lá uma camponesa e ela me ensinou a cavalgar, ai toda tarde, às cinco horas eu ia com ela atrás de mim, eu com ela e a gente ia lá nas fazendas, e eles davam para mim uma galinha, um queijinho, alguma coisa de presente e davam café na cozinha.

E- O programa social...

H- O programa social era esse. E eu não gostava daquilo.

E- Parado, né?

H- Por isso que fiquei com úlcera.

E- Aí, veio para o Rio sozinha?

H- Sozinha com as crianças.

E- E ele ficou lá?

H- Ficou lá. Ficou lá para vender a casinha que ele comprou, por lá foi bem. Mas não tinha o iídiche, não tinha...

E- Lá ele se deu bem?

H- Se deu bem. Mas as crianças tinham que estudar e tinham que entrar numa escola... nao, nao era o lugar para mim, não. Domingo por exemplo, tinha aquela pracinha com a Igreja, todo mundo ia lá, só eu que nao ia.

E- Não tinha amigos, né?

H- Não.

E- E aqui no Rio como e que foi. Chegaram aqui o que aconteceu?

H- Chegamos aqui, aí eu fui na casa do meu irmão que tinha aqui, o David, e fiquei na casa dele. Enquanto ele vendeu lá a casinha. Eu tinha uma casa muito bonitinha, tinha casa de campo, ne? Mas com uma varanda, flores, mas eu não me ocupava, eu nunca gostei muito de verde de que minhas filhas gostam, gostava mais desses trabalhos dentro de casa. Por exemplo, eu fiz lá...

E- Em que bairro era?

H- La em Guia Lopes?

FITA 2 LADO 1

H- Ele se meteu em comercio de moveis, abandonou a medicina.

E- Abandonou?

H- Abandonou. Ai se meteu... meus irmãos tinham fabrica de moveis e ele comprou fabrica de moveis, ele dirigia bem, mas um belo dia foi incendiado e ele nao tinha seguro.

E- Foi incendiado, alguém incendiou?

H- Alguém, um dos trabalhadores que ele despediu...

E- Vingança?

H- Ai ele ficou... quer dizer, se ele tivesse um diálogo comigo, se quisesse me escutar era bom porque eu ficava na farmacia, ele ficava com depois podia abrir um consultório com o tempo. As crianças eram pequenininhas mas não quis. Era muito autoritário.

E- E depois que queimou a fábrica?

H- Ai ele perdeu tudo e ficou... Aí eu comecei com, para eu ter algum dinheiro, eu comecei com encadernação. Ai eu pedi ele para me ajudar, a gente podia abrir uma encadernadora porque... para me ajudar um pouco para poder... mas ele nao quis. Então nós podia ir adiante, né? Com aulas e... não é nada.

E- Ele não queria investir na...

H- Nao, nao quis nada com isso. Ele mal me deixou trabalhar, não gostava.

E- E o tipo de atividade?

H- Não quis. Quem me deu dinheiro para estudar com essa professora era a mãe dela, Susane. Quem que me comprou a primeira prensa, eu tinha a prensa, era Susane.

E- E minha mãe depois que ela estava casada?

H- Depois de casada com seu pai. Aí ela me ajudou para comprar a prensa, ajudou a pagar as aulas.

E- Que atividade bonita, tão bonita essa atividade.

H- E. Eu so fazia mais de luxo, ve aqui, so fazia mais de luxo. Trabalhei com o correio e depois para o Clube de Engenharia.

E- Tinha encomendas?

H- Encomendas, pouco mas coisa bonita. A Academia Nacional de Medicina, que mais? Aí eu fazia álbuns lindos, lindos, lindos. Mas isso era assim duas, três vezes por ano.

E- Com isso se mantinha?

H- Com isso... e, eu botava, o dinheiro... Ele nao pegava o meu dinheiro, nao. Eu botava na Caixa Econômica.

E- E ele começou uma outra atividade?

H- Perdeu a vontade de tudo, ficou doente. Teve câncer e morreu dois anos depois. Morreu em 1969.

E- De desgosto?

H- Desgosto. Minha vida aqui no Brasil não era das melhores, nao.

E- E você tinha noticias de la da... ?

H- Só depois da guerra.

E- Sim, porque quando estourou a guerra o que que vocês...

H- Nada.

E- Perderam o contato?

H- Completamente, perdemos o contato. Minha mãe com uma filha, a maior, de dois anos, ela esteve no campo de concentração e todos os nossos parentes morreram. Ela escapou com toda família.

E- Ah, sua mãe escapou?

H- Escapou.

E- Não sabia?

K- Não.

H- E, ela escapou.

E- E foi morar aonde?

H- Ela foi morar em Kishinev, lá na Rússia. Os dois irmãos fizeram serviço militar e ela ficou com uma foi mandada para a Sibéria e lá ela ficou tuberculosa. E a outra ficou com minha mãe e perdeu uma menina, só ficou com dois meninos.

E- Perdeu a menina no campo?

H- No campo e ficou com dois meninos. Ai que...

E- E seu pai?

H- Meu pai... Aquela casa foi bombardeada e mataram meu pai, ele dentro de casa. Minha mãe fugiu e... para outro lugar e ele nao quis, ele nao quis sair de casa. Ai a casa, num topo, bonita casa, casarão, aí foi bombardeado, caiu, e...

E- E ficou dois irmãos?

H- Ficou porque...

E- Ela fugiu antes?

H- Fugiu de manhã, vamos dizer, de tarde foi o Bombardeio. E, ela sofreu muito minha mãe.

E- E ela fugiu com três filhos?

H- Fugiu, fugiu e pegaram ela e ficaram no campo de concentração. E ela escapou com a filha, com os gêmeos, essa aqui é a minha irmã, mais velha do que eu. E essa minha outra irmã, da Sibéria; também ficou doente mas também escapou com o marido e dois filhos, três filhos. E meus dois irmãos também escaparam, com todas as crianças, ela escapou. Soa familia toda, ela tinha, irmão, irmã todos eles morreram. Dois irmãos, uma irmã, com os filhos, filhas, netos, tudo, morreu.

E- E na Rússia ela morou ainda muitos anos?

H- Ah, na Rússia morou muitos anos e...

E- Como é que ela foi parar na Rússia, o que que aconteceu, porque que foram para a Rússia?

H- Fugiram de Kishinev porque Russia nao pegou... na guerra, então? Não foi Estados Unidos e Rússia? Então ela foi mais perto, foi lá na Rússia. E essa a Rosa, Sibéria também foi para Kishinev e voltou. E la, e todos os filhos dela se... fizeram carreira, todos os seis moram, hoje em dia, todos em Israel.

E- Quer dizer que o lado dela, assim... serviu para alguma coisa, né?

H- Serviu. Ninguém se assimilou na nossa família, ninguém. Nove filhos gente.

E- E o que aconteceu com a... ela voltou a te escrever, depois, quando estava na Rússia?

H- Ela nao, ela nao escreveu mais, quem escreveu foi a Rosa. Ai que ela sempre perguntava por eu, gostaria de me ver ainda mas não conseguiu, morreu, na Russia mesmo.

E- Quem, a...

H- Minha mãe. E o resto conseguiram escapar da Rússia porque essa minha irmã quase oitenta anos, veio para o Brasil e nos ajudamos ela para pagar lá na Rússia para poder sair. Aí ela escapou.

E- E mora em Israel?

H- Mora em Israel, com os filhos em redor.

E- E os irmãos?

H- Também mora em Israel com a família. E esse Bernardo, ele estava no Rio, ele estava morando aqui, ele também foi para Israel e se deu muito bem, tinha emprego, ele sabe muito bem em hebraico, ele adorou, nove anos.

E- Mas aqui no Brasil a senhora só tem mesmo essas duas filhas?

H- Duas filhas e dois irmãos.

E- Ah, ele voltou depois, então?

H- Ele voltou porque os filhos, os netos, quer dizer, os pais dos netos não queriam que eles fizessem serviço militar em Israel. Ai vieram para o Brasil. Agora estão arrependidos, muito, porque os filhos gostam de Israel. E eles vão voltar, um já voltou, outro, são quatro, todos eles vão voltar. E eles saíram por causa do serviço militar. Estão bem... porque era tempo daquele...

E- Podiam ter morrido na guerra.

H- Podiam ter morrido na guerra.

K- Qual que você acha, pensando, lembrando lá da Romênia e pensando aqui no Brasil quando você chegou, que que você achou, que que era maior diferença que tinha.

E- Talvez do ponto de vista de hoje. O que mais antes quando ela chegou, assim, que que foi que te...

H- A impressao minha? Nenhuma. Primeiro eu estava com saudade da minha casa, daquele ambiente iídiche e aqui ninguem sexta-feira noite, ninguém faz nada, não tinha sinagoga.

E- Seus irmãos não faziam...

H- Não, eram... não. Muito longe.

E- Nem em Salvador e nem no Rio quando veio para cá também não se criou um grupo?

H- Não, eles sempre cuidavam de trabalho, trabalho, trabalho para fazer riqueza.

E- Não tinha cerimônia, não tinha aquele espírito que tinha na sua casa?

H- Nunca. Então eu estava com saudades daquilo.

E- Sei, isto faz sentido.

H- Até hoje eu sou judia de coração e achei bonito aquela...

E- E esse espírito a senhora não encontrou aqui. Nunca mais? Não frequenta aqui?

H- Nunca mais. Eu frequento a ARI, minhas duas filhas, eu peguei elas e fui para a ARI, com o Dr. Lemle e eles se criaram lá mesmo. O pai dela, tudo lá. Aí ele explicava, o Dr. Lemle explicava todas as festas nossas e fazia um pouco de judaísmo por aqui.

E- A senhora reencontrou um pouco da...

H- Um pouquinho.

E- Não igual mas...

H- Não igual, mas eu gostei, do liberalismo. Até hoje eu nao gosto de fanatismo não.

E- Por exemplo, a sua mãe, você achava que ela era muito fanática?

H- E, achava.

E- Um pouco demais?

H- Um pouco demais. Mas ela não demonstrava, não. Fazia parte dela, sabe?

E- Isso por que? A família dela era muito religiosa?

H- Toda família.

E- Toda família?

H- Todo mundo lá, é uma cidade idiche, vizinhos idiche. A escola... não era gueto, era aberto. Então, esse ambiente. E tinha casamentos, a gente ia aos casamentos. O pessoal vivia com o marido até a morte.

E- Uma coisa sólida, ne?

H- Sólida, que aqui nao encontrei. Aqui é diferente, muito diferente, meu Deus do Céu. Aí, então eu estranhei tudo isso e tudo que minha mãe fazia, estava sempre falando com papai, a respeito de negócios, tudo, tudo, era emprego, era…

E- Ela participava do trabalho? Ela partilhava, ne?

H- Partilhava muito.

E- O seu marido como ele ficava silencioso a senhora não podia partilhar?

H- Nunca partilhei nada.

E- Marginalizou, ne?

H- Marginalizou completamente. Ai eu peguei essas duas meninas e me entreguei de corpo e alma lá pra ARI.

E- Ah, a senhora participou da...

H- Tudo, tudo, tudo, desde o princípio.

E- As atividades?

H- Atividades, tudo, tudo. E meu marido não gostava para eu trabalhar na seção feminina, por exemplo, não gostava, eu já tive que sair.

E- Ele não gostava porque?

H- Eu sei lá porque? Não gostava por eu me ocupar alguma coisa, para eu ter prazer eu gostava de trabalhar na comunidade.

E- Mas a senhora foi assim mesmo?

H- Parei. Mas as minhas crianças não. As crianças sábado e domingo ficava lá, terça-feira ficava lá, esperava lá e levava elas para casa. Tudo eu e só eu, ele nunca. Até que comprei duas cadeiras cadeiras vitalícias na sinagoga e ele disse que nao quer cadeira, aí eu vendi a dele e fiquei com a minha até hoje.

E- Depois que ele morreu a senhora voltou a participar mais?

H- Depois que... eu mesmo nunca parei. Lá na ARI nunca parei, gostar até hoje eu gosto da ARI. Mas hoje em dia faço parte de um grupo Cecília Meireles, Naamat Pioneiras, grupo Cecília Meireles, e um grupo das Pioneiras. Mas e um grupo assim, afastado um pouco das outras.

E- É? E que faz esse grupo?

H- Nós fazemos empreendimentos para creche.

E- Trabalhos?

H- Não. Porque todas as minhas amigas, elas são muito ricas. E nós fizemos um teatro, um balé, um jogo e arrecadamos dinheiro...

E- O teatro e o balé vocês patrocinam?

H- E.

E- Organizam? Contratam?

H- Cada qual tem que vender tantos e tantos ingressos e o dinheiro arrecadado a gente troca em dólares e já temos uma creche lá em Tel Aviv.

E- Ah, em Tel Aviv?

H- É. E ano passado começamos outra creche lá em Jerusalém. Há pouco tempo nós mandamos três mil dólares, a gente não pode tirar mais.

E- Esse grupo e...

H- Aparte.

E- Aparte?

H- Por que que é aparte? Porque todas elas são muito ricas e da minha idade, setenta, setenta pra cima. Então, ou elas viajam, ou se ocupam com isso. Por exemplo, ontem tinha uma conferência na casa da Rachel Adler, já ouviu falar dela? Ela é muito rica. E aí estava na casa dela uma conferência de Sula Dain que ela falou da economia. Tinha lá umas sessenta e cinco mulheres. E depois ela deu um coquetel. E so. Quer dizer, tem encargos culturais e tem empreendimentos.

E- Ou tem palestras ou vocês organizam atividades culturais maiores?

H- Maiores para poder arrecadar dinheiro. E esses só para nossa diversão. E fizemos reuniões toda quarta-feira nas casas particulares. São dezoito, dezoito mulheres. Eu já fiz duas, tres vezes aqui. Então a gente faz um lauto...

E- Lanche.

H- Lanche e tem a presidente, vice-presidente, tem a secretaria, então lê-se ata, vemos o que a gente pode fazer e duas, tres vezes por ano a gente faz o empreendimento e mais tardes culturais. E no fim do ano a gente dá um bom almoço para todo mundo para a gente despedir, então, cada qual vai e assim que encerra dezembro, dezembro a gente encerra.

E- E com isso a senhora fez relações, se inseriu mais no grupo?

H- E, e agente vai na casa de um, na casa de outro. Ultimamente tinha um professor de... para ensinar a gente, antes das aulas, um professor para dar aula de Bíblia, uma hora antes de começar a reunião. Eu tomei parte mas depois eu já não me sentia muito bem, ai ja nao fui.

E- Por que?

H- Porque eu me sentia muito cansada. E tinha que ir na casa de um, na casa de outro, sabe? Ai eu nao... mas quer dizer na aula, tínhamos que estar lá duas horas antes e sempre depois do almoço eu deito um pouco, eu gostava de deitar porque eu estava acostumada. Quando eu estava trabalhando, eu dava muita aula, então, isso cansa, me acostumei que eu depois do almoço fico uma hora deitada. Depois acordava e fazia trabalho, às vezes trabalhava até duas da madrugada e dava aula, então, eu de natureza não sou muito forte nao.

E- Bastante forte para dar aula o dia inteiro, né?

H- E, bom mas era mais, _________.

E- Bem forte!

H- E, seis anos... Bom, tinha bastante mas hoje em dia não. Então aqui, com esse calor depois do almoço para ir não sei onde, pegar condução, ai me cansava muito. Aí parei.

É- Bom, isso aqui a gente não precisa perguntar, né? Está bom assim?

H- Está bom, né?

E- Eu acho que está ótimo.

H- Ginásio. E tinha o rio Dniester, ________, em romeno e Driespur. Aí, de vez em quando, quando minha mãe deixava a gente ia, uma parte era os homens e uma parte era as mulheres. De fronte era Ucrânia, na Rússia e tinha lá um pau no meio. Quem que passasse aquele pau, eles metralhavam, la em Soroca.

E- Fronteira, ne?

H- E, na fronteira com a Rússia.

E- Então, era bem na fronteira não?

H- Fronteira com Ucrânia. Um dia metralharam dois rapazes idiche.

E- Porque eles passaram?

H- Passaram. Eles eram comunistas.

E- Queriam ir pra lá?

H- Queriam ir para lá. Então, eles iam, eles iam quando era neve.

E- Escondido, né? E quem metralhava, os russos ou...

H- Os russos.

E- Ah, o czar ainda?

H- E, porque...

E- Do czar ou do Stalin, quando foi isso? Mas ela era pequenininha.

H- Nao, nao era tao pequenininha. Eu me lembro quando eu tinha, por exemplo, quinze anos. Ai, um dia __________.

E- Mas a Rússia não era comunista ja, vo?

H- Mas ali estava na Romenia, Romenia não era comunista.

E- Quer dizer que quem metralhava eram os romenos, então?

H- Não, os russos.

E- Os russos não queriam que os romenos entrassem?

H- E, não queriam. Então, de manhã, isso que me lembro, foi onze rapazes mortos, idiche. Que eles queriam passar.

E- Para a Rússia comunista. A Rússia, como os rapazes sendo comunistas, eles...

H- Eles sabiam lá que eram comunistas?

E- Ah, nao queriam que entrassem, ne?

H- E, assim, pelo... o rio...

E- Entrar ilegalmente?

H- Ilegalmente, e, entrar ilegalmente.

E- É esse o problema, não importava ideologia?

H- E. Isso eu me lembro.

E- E você tinha colegas, assim, por exemplo, comunistas, essas coisas assim?

H- Nao, nao, nao.

E- Não se conversava sobre isso?

H- Não. De manhã em casa e ia à escola, depois vinha fazer o dever, depois ajudava a mamãe com a limpeza.

E- Seu pai recebia publicações, jornais?

H- Nada, nada, nada.

E- Ajudava ela na limpeza e começava o jantar?

H- Começava o jantar, meus pais iam dormir e a gente ia dormir, mais nada. Nunca saia de noite, era caseira, uma vida caseira.

E- Tranquila, né?

H- Tranquila.

E- Rotfuri era capital?

H- Então, a nossa Soroca também era capital.

E- Para ir embora de lá, como era, foi para onde? Para ir embora de lá? Quando vocês pegaram o navio, pegaram o navio onde?

H- Nós fomos para Israel. E, eu estava em Israel também. Eu vim para Israel e lá se enamorou de mim um professor de Petah Tikva.

E- Um professor de que?

H- Professor de matemática. Um sabra. Ai, ele pediu a minha mão para a minha irmã. A minha irma nao deixou nao.

E- Por que?

H- Porque era muito jovem e ele não tinha ninguém lá em Israel, não tinha, era Palestina. Pois e, nao queria deixar não. Disseram que ele que se quisesse ficar com ela você venha para o Brasil. Ai ele nao veio e nao voltei e acabou. Mas ele me levou para assistir uma aula de matemática, em Petah Tikva, assisti. Ele era bonito, rapaz bonito, assim, sabra, cor de sabra, bonitão. E até o último dia ele disse que vinha, nao veio. Isso foi Palestina.

E- Você escreveu para ele de volta?

H- Escrevi, escrevi, com retrato, posso mostrar o retrato de vocês. Meu, com retrato dele todo com... interessante, vou mostrar. E disse a meu pai que eu casei com médico.

E- Missão cumprida?

H- Missão cumprida. Ele ja estava muito satisfeito.

E- Ele mandou uma carta?

H- Uma carta dizendo que a família estava feliz da vida.

E- E o trabalho, como funcionou?

H- Quando a Kitty casou, aí eu comecei a reter, alguma coisa para mim, algum dinheirinho e comecei a aprender encadernação com uma professora diplomada em Paris, diploma de sete anos ela tinha. E ela não pegava qualquer um, tinha que esperar um ano para poder ela me aceitar. Ai que eu esperei um ano e depois entrei. Ela era mulher muito culta mas se ocupava com isso. Dava cinco alunos, mais do que isso não. Ai eu fiquei com ela em três etapas, a primeira simples, a segunda, e eu cheguei a terceira, luxo.

E- Ah, e, a primeira ela ensinava o que?

H- Seria uma encadernação popular.

E- Básico?

H- Básico, e. A segunda também era mais ou menos, esses livros normais, agora, a terceira, ela já ensinava luxo.

E- Requintado, ne?

H- E, requintado. Então eu gostava dessas coisas.

E- A senhora foi uma das melhores alunas?

H- Nao, ela nao...

E- Enfim, foi uma boa aluna?

H- E, depois eu tinha que parar, no fim de porque quis ganhar dinheiro, porque quis parar ganhar dinheiro. Ai eu abri uma escolinha, por isso, que nao fui até o fim. Senao eu ia mais.

E- Ainda tinha mais? A aula era todo dia?

H- Todo dia, no sabado nao.

E- Todo o dia, dia inteiro?

H- Dia inteiro.

E- Durante cinco anos, você já viu uma coisa dessas?

H- Que bonita oficina, você viu que oficina? E a professora...

E- A tua? E muito bonita.

H- Muito bonita. Porque essa professora era francesa e ela todo ano, ela ia para Paris para ver os pais, os parentes, pais.

E- Ela era judia?

H- Não. Ela casou com um judeu e ele morreu e ela ficou mas estava bem de vida. Estava se ocupando com isso. Aí, ela me trazia o material tudo de Paris. Quando ela ia, trazia porque aqui não tinha nada, nada, todas as coisas ela... os... não é só papel, era as coisas para trabalhar.

E- Instrumentos?

H- Instrumentos.

K- Por que que te ocorreu a encadernação?

H- Porque eu dava muito para o trabalho manual. Um dia sua mãe telefonou assim, para mim: - mamãe, tem um curso de encadernação no… Não é Cultura Inglesa, tinha outro curso de inglês, era perto de mim lá no Catete, se não me engano, Senador Vergueiro.

H- "Vai la que la tem encadernacao, vai ver se você gosta". Ai eu fui lá e gostei e fui adiante.

E- Mas ela já tinha uma relação com livros muito especial.

H- E, e.

E- E daonde vem essa vontade sua de ler, daonde você acha que veio, quem você viu lendo?

H- Contar isso e interessante. Em Soroca tinha um livro de mamãe, a Bíblia, de reza, aí se estragou, ai ela deu a um encadernador para refazer. E ela me mandou buscar.

E- Ai, viu?

H- Ai eu vi que ele botou uma capa nova. E esse livro ficou tão bonito. Era um velho que trabalhava sozinho, eu olhei aquilo, mas que coisa bonita, o livro não valia mais nada, como ele fez com a capa, com daquele tempo que vem essa...

E- E a senhora tinha contado essa história para a Susane?

H- Não, agora que me lembrei. Ainda era muito nova, devia ter uns doze anos, dez anos, doze anos. Mas me lembro agora como eu comecei a gostar de encadernação, renovar uma coisa velha. Até hoje eu renovo minhas coisas, roupa, sozinha. Quando cai de moda, na máquina, ela sabe.

E- É gostoso, né?

H- Ah, eu faço isso e não compro muita roupa por isso. E todo mundo me pergunta aonde eu comprei e eu nao compro.

E- Tudo feito pela senhora.

H- Eu refaço até hoje.

E- Mas ai da encadernação você foi dar aula do para...

LADO II

H- Eles só queriam ir comigo, só eu, D. Hana, a gente quer ficar com você...

E- As suas alunas continuam fazendo?

H- Não sei.

E- A senhora perdeu contato?

H- Eu fiz, só uma que não... só uma lá de Recife que até hoje ela me escreve e ela estava meio adoentada e o médico, aqui no Rio, falou a ela, se quiser se distrair você vai fazer como D. Hana a encadernação. Porque a D. Hana (e olhe que eles me conheciam de O Globo porque eu saí duas, três vezes no jornal, entrevista nos jornais)... aí ela me conheceu por intermédio de O Globo.

E- Quer dizer que tinha muito pouca gente dando aula de encadernação?

H- Muito pouca gente. Aí ela me conheceu, perguntei quem que te mandou? O médico, ela disse... Aí ela vinha, ficava na casa da irmã três meses todo o ano, quatro anos e eu ensinei a ela toda encadernação. Comprou comigo uma prensa, costurador, porque eu já no fim, eu já tinha um marceneiro que fazia todas essas coisas de costurador, prensa, isso, aí eu ganhava um dinheiro, aí eu vendia para todas elas. Era assim. E até hoje ela gostou, ela tinha jeito e gostou tanto que até hoje ela me escreve.

E- E ela faz ainda?

H- Não. O marido era médico também, morreu e o filho se suicidou e...

E- O filho se suicidou?

H- E. E ela saiu, sei lá. Mas faz duas semanas que me mandou uma carta, mandou uma carta de Rosh Hashaná. Mas ele escreveu, como vai as suas festas de ano novo e me mandou. Aquilo eu fiz, por exemplo, e já me enjoei, estou fazendo um bonito agora.

E- Mas conta para ela porque que você vendeu a oficina?

E- Mas que bonito D. Hana.

H- ________.

H- Veio da Rússia, de Kishinev, veio para Brasil sozinha faz uns dez anos passados. Minha irmã Rosa. Aí ela me trouxe esse...

E- E quando foi isso, a data que ela veio?

H- Depois de trinta e cinco anos que eu nao via ela. Aí ela me trouxe de presente.

E- E ela contou como ela...

H- La, Rússia como...

E- E ela comprou novo? Ou isso era da família?

H- Não, comprou novo.

E- Tudo bem, ela trouxe da Rússia. Comprou mas ela trouxe da Rússia. Dez anos atrás?

H- Nao e dez anos nao, ja faz muito tempo.

E- Faz vinte anos.

H- Faz vinte anos. Nao, catorze ela já estava em Israel, e faz uns vinte anos. E ela tomava na minha casa...

E- Era costume na sua casa tomar samovar?

H- Ah, sim. Na minha casa tinha daqueles samovar amarelo e a gente todo sábado, a gente tomava de tarde um chá.

E- Por isso, ela ter trazido um samovar para fazer um chá, né? Para...

H- Porque ela achou que aqui também se tomava.

E- Na Rússia ela tomava ainda?

H- Ah, tomava. Até hoje eles tomam, em Israel, eles estão em Israel, até hoje, cada um tem um samovar e faz o cha. E eu fiz pra minhas amigas, também eu faço. E, eu ligo lá e bota a água ferve e faço um chá.

E- Não é enfeite, é usado?

H- É usado também e como enfeite também.

E- Como enfeite sim, mas é bom que a senhora usa.

H- Eu uso sim.

E- Esse pequeno também dá para usar ou é só uma miniatura?

H- E miniatura, a beleza dele.

E- Ele é mais um para decoração.

H- Para decoração, e. E a mesma coisa, se botar aqui água, cai.

E- O que que vem escrito aqui?

H- Ah, isso eu nao sei. E russo. Oh, botei agua ai e sai.

E- Como era o samovar dela?

H- Igualzinho. Não, mas era grande para dar para todo mundo tomar chá. E se colocava carvão aqui, não era eletricidade não.

E- Colocava o carvão onde? Ah, embaixo, ali?

H- Não, embaixo nao. Aqui dentro, aqui oh. Está vendo, aqui nao tem, aqui e eletricidade ne? O grande samovar era feito isso. Aqui botava carvão quente.

E- Carvão?

H- Quente e aqui água. Ai saia.

- Esse é autêntico, ne?

H- Autêntico.

- Um travesseiro de pluma de ganso.

E- Conta a história?

H- E. Cada pessoa da nossa família que ia para o Brasil ela dava uma lembrança. Um travesseiro grande!

E- O Moszek Niskier também trouxe os travesseiros.

H- Qual? É muito comum, de pluma de galinha. Não era de ganso, era de galinha. Aqui se fazia de galinha mas lá é de ganso.

E- E por que que davam um travesseiro?

H- Uma coisa que ela podia me dar. Ela não tinha dinheiro, o que que ela ia me dar como lembrança? Um travesseiro grande. Aí eu via e como aqui nao se usa travesseiro grande, são menores, aí eu fiz para Susane, para Kitty.

E- Abriu ele?

H- Abri ele sozinha e fiz para uma, para outra. A única coisa que eu tinha, que ela me mandou. Mandou não, comigo, né?

 

[Fim da entrevista]

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