Busca avançada



Criar

História

Uma vida bem vivida

História de: Luiz Carlos Trassatte
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 27/03/2007

Sinopse

Nascido no bairro da Bela Vista em São Paulo, Luiz Carlos Trassatte viveu a infância e a juventude em meio a brincadeiras na rua, passeios com seu avô italiano, futebol de salão e paqueras na Rua Augusta. Esse gosto por aproveitar a vida fez com que ele, posteriormente, lutasse para que outras pessoas também tivessem acesso à lazer e diversão.

Tags

História completa

P/1- Queria que você falasse seu nome, o nome dos pais, quando você nasceu e a origem dos teus avós.

 

R- Meu nome é Luiz Carlos Trassatte, eu nasci em 26 de outubro de 1952 em um bairro italiano de São Paulo chamado Bixiga, a Bela Vista. Sou filho de Theodoro Trassatte, que é filho de italianos, e Yoná Pipoli Trassatte, que também é filha de italianos. Meus avós, por parte de pai são sicilianos [risos], de Palermo, e da minha parte materna, aliás, a minha avó nasceu em Pádua, na Itália também. Não conheci meu avô por parte de mãe porque eu era muito novo quando ele faleceu; conheci apenas minha avó, que morreu durante o jogo Brasil e Inglaterra na Copa de 1970, tanto é que o féretro saiu na hora do gol do Brasil. Eu vivi mais, assim, perto do meu avô paterno, que foi um italiano que teve que vir para cá de qualquer jeito e tinha alguns conhecimentos de serralheria. Inclusive, foi ele quem fez os portões do Liceu de Artes e Ofícios e foi professor de lá. Ele que me fez conhecer o rio Tietê antes de poluírem [risos], certo? Então, na minha infância eu vivi na Bela Vista, joguei muita bola, carrinho de rolimã, estilingue, bicicleta e naquele tempo permitia isso porque cada vez que passava um carro era uma comemoração. Mas eu vivi muito perto do meu avô. Por tradição do italiano, tá, não importa que ele tenha vinte netos, um tem que ser homem, que para ele só o homem é que vai levar o nome da família, que vai fazer manter. E eu fui agraciado a isso, fui o primeiro, o único homem no meio de 12 mulheres, 12 netas. Então, meu avô sempre foi uma pessoa muito fechada, mas conversava muito comigo e me levou a muitos lugares. Ele remou no rio Tietê, onde o rio Tietê.... ele fazia parte da equipe do Clube Floresta, hoje então Clube Esperia pelo Tietê; inclusive, devo trazer essas fotos para vocês verem [risos], se eu achar ainda. E meu avô que me ensinou a fazer o primeiro papagaio, o primeiro carrinho de rolimã que era o mais bem equipado porque tinha direção, breque nos pés, era realmente como um carro. Então eu tive uma infância muito sadia, sabe, coisa que se comparar hoje com o meu filho, acho que ele não tem hoje uma infância sadia; por mais que eu faça por ele, não vai conseguir ter. Mas, depois eu comecei a estudar, estudei no Instituto de Ensino Imaculada Conceição, que era um colégio enorme e hoje se reduziu apenas a um décimo de um quarteirão, onde  ele pegava a Rua Cincinato Braga, a Paróquia Imaculada Conceição, todo o terreno do supermercado Jumbo Extra e mais aquele quarteirão inteiro; saía na Rua Fausto Ferraz e na Rua Teixeira da Silva. Era um colégio enorme onde tinha horta e campo de futebol. E como naquela época não se praticava futebol de salão, se praticava futebol na terra, em campos e gramados, existia na Bela Vista, só naquela parte - naquele perímetro, vamos dizer assim, de 500 metros em volta da minha casa -  nós tínhamos oito campos de futebol. Até eu joguei nas equipes: Elite; Azul e Branco; Lusitana;  Éden e Heroi Brasil. Por volta de mais ou menos 14 anos, 13, 14 anos, eu comecei a jogar futebol de salão e aí fui convidado para jogar e participar do primeiro torneio de futebol de salão do Salão da Criança, que era no Parque do Ibirapuera. Eu jogava por uma equipe que chamava Naval Futebol de Salão. Era uma equipe muito famosa em termos de futebol de salão por ter revelado vários atletas que fatalmente, né, saiam do Naval para jogar em clubes mais fortes. Naquela época tinha o Vitor Viana... tinha o Palmeiras, a Portuguesa e, vendo eu jogar nesse futebol de salão do Salão da Criança, eu fui levado para jogar na Associação Portuguesa de Desportos. Treinei na Portuguesa de Desportos, só que a infraestrutura que a Portuguesa tinha não permitia... minha mãe nunca gostou que eu, sabe, me ligasse ao futebol porque ela achava que eu deveria estudar. E meu pai também sempre achou. Ele falava: "Olha, não importa o tempo, mas se há uma coisa que vou deixar para você é seu estudo, que eu vou pagar". Tanto é que até aos 21 anos de idade meu pai pagou meu estudo e nunca quis receber de mim, entende? Então minha mãe era muito contra e outra também: quando eu treinava na Portuguesa, a gente treinava na Ponte Pequena onde hoje é o Anhembi, aqueles lugares, e era um campo de futebol e a Portuguesa treinava lá. Só que depois eu, por essa insistência da minha mãe e do meu pai, fiquei sendo um peladeiro de sempre, sabe, jogando pelada em timinho de bairro. Bom, aí eu fui levando. Mas eu nasci em um lugar, que a gente pode falar, onde acontece tudo, começa tudo. Eu nasci em um lugar a duas travessas da Avenida Paulista, então eu ia para Rua Augusta à pé. E naquela época, a Rua Augusta era o centro nervoso de toda a mocidade, entende? Então, você descia com o carro desligado para não gastar gasolina e subia com ele ligado; a paquera ia acontecendo e você saía para as ruas laterais para fazer aquele namoro. Aí veio a época dos rachas. Na então Avenida Faria Lima tinha em frente ao Shopping Iguatemi -que não estava nem em construção ainda- uma creperia que se chamava Rickie Store, onde hoje é uma agência do Bradesco e era lá que eu tirava meus primeiros rachas com carros. E eu sempre gostei muito de dirigir, sempre. Eu nunca me preocupei assim com a distância: desde que eu tenho um veículo móvel na mão e eu sempre fui muito...vamos dizer, pouco agressivo na direção, não de brigar, mas eu nunca andei devagar. Eu procuro sempre quebrar meu próprio limite quando eu vou para algum lugar. Eu eu vivi praticamente com grandes pessoas, com Lourival, que jogou na França, Bélgica e Itália e hoje é funcionário da Eletropaulo porque não soube administrar o que ganhou. Eu joguei bola com o Lourencinho, que foi ponta esquerda do Palmeiras, Pinga... Quem mais? Seu Juca que foi técnico da Portuguesa; eu joguei com o Feitiço Filho que passou pelo Corinthians, e mais algumas pessoas que não me lembro agora, teria que fazer um exame de memória, mais calmo, para poder me lembrar dessas pessoas. Então, eu sempre gostei de esporte e eu sempre gostei muito também de praia. Fiz saltos ornamentais no Tietê eu sempre gostei muito de praia, prancha, barco, sabe? Tanto que até hoje meu grande hobby é pegar meu barco e entrar no mar às 9 horas da manhã e voltar às 5 horas da tarde, navegar. Voltando agora aos meus 18, 19 , 20 anos, eu passei nessa época, tá, na Avenida Paulista, Rua Augusta e quando chegava as férias das grandes viagens, eu guardava algum dinheiro. Conheço praticamente o Brasil inteiro; eu não conheço os estados do Acre e Rondônia só, sabe? Conheço...montei búfalo na Ilha de Marajó, fiz caça submarina também um ano antes de ir para Fernando de Noronha; fui para Fernando de Noronha mergulhar. Quer dizer, posso dizer que se amanhã eu não estiver mais aqui, sei que vivi bastante. Então eu vivi realmente 42 anos. Sabe? Porque tem muita gente que se for fazer um balanço de sua vida, fala: “Bom, eu tenho 40 anos, mas vivi 27”. Não, eu vivi 42 anos.

 

P/1- Aproveitou, mesmo a vida.

 

R- Eu aproveitei realmente, toda a minha infância: eu brinquei de mãe da rua, soltei pipa, brinquei de estilingue, bicicleta, joguei bola em rua, carrinho de rolimã e rema-rema. A minha família sempre foi muito unida, sempre moramos muito perto um do outro na Bela Vista. Então, você parava em um ponto da Bela Vista, dava um grito e saía a família inteira para rua, entende? Minha família é muito grande: são  descendentes de italiano, então são famílias grandes. E, na minha adolescência, eu fiquei muito ligado ao esporte, futebol, natação e depois, dos meus vinte para frente, aí... é o que todo o homem, né...as cervejas geladas e mulher [risos].

 

P/1- Só para situar, quantas irmãs você tem? 

 

R- Eu tenho três irmãs...duas irmãs, uma casada, e uma prestes a casar que, vamos dizer, é o temporão, aquela que depois de... minha mãe já tinha acreditado que tinha fechado a fábrica só que ela esqueceu que tinha deixado um funcionário lá dentro, certo [risos] Aí veio minha irmã mais nova que está prestes a casar. Sempre do lado familiar eu sempre me dei muito bem porque a gente se tiver que acertar alguma coisa, a gente acerta na hora, briga, mas chegando a um acordo, tudo bem. O meu relacionamento... eu vivi muito com os meus primos, tá, porque como nós éramos... tudo morava perto, duas, três famílias na mesma rua ou na rua de baixo. Eu vivi muito com os meus primos: nós éramos em 11 primos, certo, tudo assim escadinha: começa dos 50 e termina no 36, sabe, por aí, então nós éramos... Então nós jogávamos bola juntos, só que na parte quando eu fui para treinar na Portuguesa, outro foi para o São Paulo, outro quase vai para fora, depois acabou não indo. Então nós tínhamos o nosso próprio time que era só da família. Eu cheguei a andar de cavalo onde hoje é a Avenida Robert Kennedy, lá era tudo mato. Meu avô me levava para caçar papa-capim com bico de lacre, com visgo de figueira; a gente chegava a caçar codorna lá, pois meu avô tinha uma espingarda de sal. Quer dizer, eu tive uma infância muito gostosa, acho que eu fiz muita coisa, o que eu pude aproveitar na minha infância, eu aproveitei. Tudo o que uma criança... tudo o que existia na época eu fiz. Eu nunca fui um cara parado, sempre fui agitado, não consigo permanecer quieto em um lugar. E aí, quando eu comecei a trabalhar, eu trabalhei de vendedor na Isnard, mas eu trabalhei por quarenta dias só, durante a época de festas. Essas empresas tinham por  hábito, na época das festas, dobrar o número de vendedores para atender a demanda. E eu entrei nessa Isnard, trabalhei 40 dias e depois ... 

 

P/1- Você vendia o quê lá?

 

R- Eu vendia brinquedos na Isnard, trabalhava na seção de brinquedos. Depois eu fui para Indiana Cinematográfica; trabalhei lá mais como, vamos dizer... eu fazia de tudo um pouco, ajudava montar o cenário, carregava ____ de máquina. Naquele tempo, o comercial era em 16 ou 35 milímetros...estava começando a fazer alguma coisa...era 16 milímetros. Quando o filme chegava da revelação, eu o passava para ver se não tinha nenhum problema. Acabei fazendo alguns comerciais: Lençóis Santista; São Paulo Golf Clube; Lâmpadas GE também [risos]. Depois disso, eu saí para o Mappin e fui trabalhar de auxiliar do chefe da seção, fazia relatórios diários de vendas. Mas também não trabalhei muito tempo lá não, trabalhei um ano e pouco. Aí fui para o Banco de Investimento Invest, onde eu trabalhei como auxiliar de contabilidade por dois anos. Durante esse trabalho, eu estudava também e praticava esportes -nessa época jogava muita bola e fazia um pouco de natação. Depois disso, eu entrei na Light: meu primo que era chefe da Seção de Computadores, um ano e pouco antes de eu trabalhar na Light, chegou para mim e falou: "Olha, vamos montar uma firma de restauração de fitas de computador". Então nós montamos, em uma brincadeira, saiu isso. Aí conseguimos montar e trabalhamos acho que praticamente uns dois anos nessa firma. Só que aí a coisa....o pessoal ainda relutava em aceitar aquilo. Coisa que depois de fecharmos a firma inundou o mercado de computador com isso daí, sabe? Fizemos uma máquina totalmente idealizada por nós, totalmente manual, tá. Aí eu entrei para fazer... porque como eu tinha contato com isso eu precisava conhecer um pouco de computador. Então, ele me levava às vezes na Light para eu conhecer como é que trabalhava a fita, como era uma impressora e eu comecei a tomar gosto disso e a me aprofundar. Aí, ele chegou para mim e falou "Olha vai"...isso em 1975, mais ou menos fevereiro de 1975, ele falou: "Estão abertas as inscrições para estagiários em Computação na Light". Então eu me inscrevi e consegui fazer o estágio; trabalhava do meio dia às 6 da tarde. Aí eu fiz um ano de estágio e após esse um ano, eu fui admitido na Light. Só que eu fui admitido para trabalhar da meia noite às 6 da manhã. Eu já fui com um grupo porque naquela época...a gente falava o turno da madrugada, ele estava... defasado porque começou a sair gente de lá porque na madrugada o que acontecia? Era você e a máquina, não tinha ninguém para consertar se desse um problema e você tinha que fazer ela andar. Então a  experiência, a bagagem que você pegava era muito mais rápida e muito mais técnica, tanto do hardware quanto do software da máquina. Então, eu fui escolhido, foi um chefe de turno e mais 4 funcionários para madrugada porque ninguém queria trabalhar de madrugada, sabe? Então ele me chamou e falou: "Você quer vir? Garanto que em um instante você vai ter uma promoção". Aí, realmente, eu fui para madrugada, né, e trabalhei um ano e obtive uma promoção de operador trainee para operador junior. Daí passou mais um ano e eu fui para operador sênior e de madrugada eu fui para trabalhar de manhã, isso em 1986. Quer dizer, de 1976 a 1985 eu trabalhei de madrugada e depois eu comecei a trabalhar de manhã, das 6 da manhã ao meio dia e já como operador chefe de turno. E eu participava da Cipa [Comissão Interna de Prevenção de Acidentes] na empresa. Como lazer, eu participava também da ADC Eletropaulo [Associação Desportiva Cultural Eletropaulo], mas não como membro da diretoria ou coisa assim. Eu participava dos torneios que tinha, com o meu time lá da informática, tá, torneios, campeonatos; participava disso. Conheci o Takeo porque o presidente da ADC era oriundo da informática também como eu. Conheci ele, assim, sabia do trabalho dele, mas nunca tinha, talvez, oportunidade de chegar e começar uma coisa lá. Bom, participando da Cipa o atual vice-presidente  do Conselho Deliberativo que é...aliás, vice-presidente não, presidente do Conselho Deliberativo, que é o Arnaldo Jubelini Júnior; conheci ele porque era da Cipa também. E como eu sempre fui um cara muito briguento, então ele me chamou e falou: "Olha, nós estamos montando uma chapa para renovar a ADC Eletropaulo, que é o nosso clube. Eu gostaria que você participasse". Eu falei: "Ô, Arnaldo, a priori, não sei, gostaria de ver como é que é a coisa..." Aí nós marcamos um dia e fomos até a ADC, conversamos ele, eu e o Takeo...ADC não, minto, nós fomos ao sindicato. Aí o Takeo me expôs que a bandeira dele era do lazer, que lazer e trabalho poderiam andar juntos, que um não afetaria o outro, pelo contrário, você ia ter uma produção melhor no seu trabalho. Porque nas horas ociosas de trabalho, se você ficar parado, você fica pensando em bobagem. Então se você tem um lazer para se distrair, sei lá, um joguinho de dominó, um baralho...porque aí não existe adversário, existe a confraternização. Então, aquele funcionário que não ia com a cara do outro, o lazer vai fazendo com que eles voltem a se dar bem. E diante dessas bandeiras, eu resolvi abraçar essa ideia do Takeo e participar da campanha para eleição. Saímos vitoriosos e entramos. A priori, eu não quis nenhum cargo. Eu falei ao Takeo o seguinte: "Takeo, eu quero apenas conhecer a estrutura, por enquanto eu não sei o que eu posso te ajudar. Você já tem uma turma que mais ou menos já trabalhou nisso, então você tem que ir mais por eles, para depois eu entrar nesse parâmetro". Então eu fiquei um tempo como colaborador. Como eu trabalhava das seis da manhã ao meio dia, à tarde, tipo às duas horas da tarde, eu ia para lá e  ficava até umas seis, sete horas da noite. Fiquei conhecendo e aí ele falou: "Não, eu vou te pôr como assessor da presidência para você poder delegar alguma coisa, assinar alguma coisa se eu não estiver aqui, tomar alguma decisão que não sofra algum adiamento porque eu não estava aqui". A priori eu relutei um pouco, mas acabei aceitando e  fiquei, acho que uns quatro, cinco meses nesse cargo. Aí ele me chamou e disse para mim o seguinte: "Olha, Trassatte, eu vou precisar de um vice-presidente administrativo, você quer topar?". Eu falei: "Olha Takeo, posso, eu acho que hoje eu tenho condições de encarar isso daí". E comecei na vice-presidência administrativa, onde fizemos uma série de trabalhos e implantamos uma série de normativas. O Takeo sempre foi uma pessoa que administra muito de perto tudo, entende? Ele me ajudou muito, me deu força para fazer o meu projeto. Então eu caminhei na vice-presidência administrativa até que surgiu um problema: na vice-presidência social que era, que o... nós tínhamos lançado que iríamos fazer o primeiro festival de música da ADC Eletropaulo. Então aquilo não decolava, estava lançado o cartaz na mão do povo, sabe, mas não decolava. Então, ele me chamou e falou: "Trassatte, vamos levantar esse avião?" Eu falei: "Vamos, Takeo". "Então, você assume a vice-presidência social, e decola esse avião". Tudo bem, decolamos, foi um sucesso o primeiro festival de música, na final ainda fizemos um show do Língua de Trapo; foi um sucesso, de público e de participantes. A gente não esperava uma demanda tão grande: participou pessoal do interior da Eletropaulo; veio para cá de Santos, de Sorocaba, para participar do festival. Bom, aí chegou agosto e ele falou: "Olha, precisamos fazer um baile. A ADC precisa fazer um baile e que vai chamar... os bailes que nós estamos fazendo... precisamos fazer um baile para estourar". Eu falei: "Está bom". Então eu fiz um projeto: um baile no Círculo Militar com Ivan Lins. Bom, o Takeo a priori falou: "Não, você está louco? Isso daí nós não vamos ter dinheiro". "Takeo, é certeza que a gente empata. Empata. E empatar é vitória para nós. Porque o bar não é nosso, o salão não é nosso. Fica difícil ter lucro. Mas você pode ter certeza que vai estourar a casa". Foi muito relutante, brigamos muito. Eu e o Takeo brigamos muito, sempre, sabe? Mas a gente sempre chega em um acordo, muitas vezes ele entende o que eu estou fazendo, não fica nem do meu jeito nem do jeito dele, mas nós dois encontramos uma maneira de fazer uma coisa e fazer a ADC andar para frente, o que eu acho que é o importante. Muita briga, mas eu consegui trazer o Ivan Lins e foi realmente um grande sucesso, tá. Então ele chegou e disse: "Olha, vamos fazer uma Campanha do Samaritano, doação de alimento para as famílias carentes". Também fizemos e foi um sucesso! Eu coloquei como disputa um troféu: quem ganhasse três vezes seguidas ou cinco alternadas levaria esse troféu. Um troféu grande, muito bonito, tal, e quem ganhasse a primeira vez ficaria com esse troféu de posse até o outro ano, mas levaria também um outro troféu menor, que seria o símbolo por ter ganho. Também foi um sucesso, acho que foi a campanha que mais arrecadou alimento, tá, nós chegamos a arrecadar quase uma tonelada só de batata, sabe? [risos]. Então, foi um sucesso. Aí então, um belo dia, o Takeo me chamou e falou: "Olha, Trassatte, a ADC precisa construir o primeiro ginásio poliesportivo". E eu sempre fui um cara que me meti em tudo: já me meti com cinematografia, sabe? Então, eu fiquei conhecendo máquina; como eu gosto de carro, eu me meti em mecânica; eu acabei dando minhas cacetadas em tudo quanto é coisa. Aí o Takeo me impôs esse "Ô Trassatte, nós precisamos fazer nosso primeiro ginásio poliesportivo". "Ô, mais eu não sou engenheiro, pô, o que eu vou entender de tijolo?". Aí eu falei: "Não, eu vou encampar isso daí". E saí, fui conversar com engenheiro, fui conversar com um primo meu que trabalha com isso  e não sei o que; fui captando um pouco aqui, um pouco ali e um pouco em cada lugar. Até que, em um ano e meio, eu consegui fazer um ginásio poliesportivo lá em Socorro. Um ginásio muito bonito, com três vestiários -tem mais vestiário que juiz-, alojamento para atletas, bar lá em cima. E isso eu posso dizer: nós que fizemos, nós, da ADC Eletropaulo. E até então nós não tínhamos, aquela colher de chá que a empresa dá para nós hoje, de retirar material de dentro da empresa, como cimento, bloco e fio. Nós não tínhamos isso, sabe? Então, nós tínhamos que pagar com o dinheiro dos associados. Essa foi uma grande luta. Então, não é porque eu tive lá, porque eu construí, mas acho que a construção foi de todos porque todos lutaram; cada um deu uma parcela de si em alguma coisa para que esse ginásio saísse, que seria uma das nossas independências. E, felizmente o ginásio saiu. Aí o Takeo pegou e falou: "Olha, Trassatte, hoje existe a vice-presidência de Projetos e Obras e eu vou dividir em duas. Você vai ficar com Obras, e seu Vargas fica com Projetos. Você topa?". Falei: "Topo". "Então você vai fazer o ginásio de Sorocaba". Falei: "Ô loco". Aí lá foi o Trassatte para Sorocaba durante um ano e meio. Todo o dia ia de manhã e voltava no fim da tarde, começo de noite, às vezes voltava bem à noite. Mas como o Trassatte vai fazer um ginásio em Sorocaba? Então, antes disso, o Trassatte começou a andar em Sorocaba, ver como é que era a estética de Sorocaba, como era a arquitetura do ginásio de Sorocaba. Então o Trassatte esteve na ACM [Associação Cristã de Moços de Sorocaba], na prefeitura, esteve onde a Minercal treinava com Hortência e... demais. Então eu fui ver e achei por bem...falei: “Não, eu vou fazer uma coisa diferente porque vou reduzir o custo e vai ficar bonito”. E realmente fiz uma coisa diferente, eu reduzi custos... tanto é que a Minercal passou a treinar no nosso ginásio, certo? Porque ele ficou realmente um ginásio com piso de primeira linha, sabe, uma ventilação excelente, um lugar calmo. Então a Minercal começou a usar o nosso ginásio e a Hortência começou a treinar lá. E aí eu saí de lá e voltei aqui mais para o escritório. Aí o Takeo chegou para mim e falou: "Olha, eu vou pôr para você coordenar as regionais". Eu, no primeiro impacto, falei: "Takeo, olha, isso aí é uma bucha de canhão, eu não quero não".

 

P/1- Quando isso?

 

R- Olha, em datas eu sou muito ruim para me lembrar, tá, mas deve fazer uns três anos, três a quatro anos para trás. Então ele falou: “não”... mas eu briguei muito com o Takeo, mas briguei mesmo até que eu acabei aceitando. Então eu falei: “Bom, o que eu vou fazer? Pô, hoje, o que um associado do interior quer? Ele quer um clube. Então eu preciso construir um clube, vou atinar, juntar o que eu aprendi em construção e vou começar a aplicar agora nas regionais, que são obras de menor porte. E se eu fiz dois ginásios poliesportivos, eu tiro de letra agora”. E desandei a fazer regional, sabe? Começamos... depois de Sorocaba, eu vim fazer Itu; comecei a me especializar em usar sucata da empresa para fazer construções, tá. Então comecei a fazer um galpão com sucata de poste de cruzeta em Itu. Fizemos. Consegui fazer, ficou muito bonito. Daí de Itu, fui para São Roque, Sorocaba, Indaiatuba, Porto Feliz, Salto; Vale do Paraíba também e Jacareí. Porque até eu entrar, a única coisa que a gente tinha no interior, que tinha alguma estrutura, era Mogi das Cruzes, onde foi o primeiro terreno que a ADC comprou. E foi uma luta para comprar aquele terreno, sabe? Nós recebemos... eu não porque naquela época eu não fazia parte da diretoria, mas a diretoria foi muito criticada por ter comprado um monte de mato, que foi... Mogi era a única coisa que tinha. Então eu comecei a fazer Jacareí, São José, Caçapava alguma coisa, Taubaté, Aparecida do Norte e Cruzeiro. Em Cruzeiro até então nós tínhamos uma chácara comprada há um ano e meio e ninguém mexeu nela. Ela estava como estava, de vez em quando eles cortavam o mato; e é uma chácara linda, sabe? Então eu chamei os diretores de lá e falei: "Olha gente, vamos mexer". "Pô, mas não sei o que", "Vamos mexer". Então daí eu falei: “Pô, o que fazer?” Aí comecei: conversa com um sócio, conversa com outro sócio; foi assim. Aí você começa... porque aí eu comecei a perceber que a característica de cada cidade é diferente: tem um que gosta de um campo de vôlei; a outra cidade vizinha, que é 10, 15 quilômetros de distância, gosta de jogo de malha; a outra gosta de bocha, sabe? Então, o que eu falei: “eu não vou trazer nada de São Paulo para eles, pelo contrário, eles vão me dizer o que querem e eu vou moldar”. E aí saí construíndo em tudo quanto é lugar, sabe? O Takeo até começou a ficar de cabelo branco e disse: "Para um pouco, bicho, agora tem obra em tudo quanto é lugar aqui". Falei: "Takeo, acho que vamos crescer, bicho, toca para frente". E ele, sabe, apesar das brigas sempre deu muito apoio a todos, direta ou indiretamente, deu muito apoio, sempre exigiu muito. Eu acho que ele... agora falando, eu acho que ele sempre esteve certo. Apesar que em certos momentos eu critiquei, xinguei, mas hoje eu vejo que na maioria das vezes, tá, ele esteve certo por cobrar, exigir, falar, fazer, porque ele realmente... eu posso dizer, ele é um hors concours porque ele  pensa, almoça, janta, toma café da manhã, toma banho...tudo é a ADC para ele. Então, ele é realmente um cara que só pensa naquilo, o aquilo para ele é a ADC Eletropaulo. E realmente tem horas que eu tenho inveja, de ver a disposição que ele tem, mas vendo essa disposição que eu criei... muita força também para fazer muita coisa, sabe? Então, hoje eu vejo que as regionais saltaram de praticamente zero para quase 100, tá. Nós temos um... Pirapora, por exemplo, muito linda... Pirapora até aconteceu um fato gozado:  nós estávamos sentados, assim, eu e o diretor regional Moacir, ele falou: "Trassatte, pô, eu precisava fazer um galpão aqui porque eu estou precisando de sombra". Eu falei: "Ô Moacir, tem aqueles galpões”... "Não, mas aquele é pequeno, só sete metros de largura por 15 de comprimento, eu queria fazer uma coisa grande". Aí nós começamos:  limpamos a terra assim do chão; eu com um pedaço de palito de sorvete e ele também com um pedaço de galho de árvore começamos a fazer uma planta de um galpão lá no chão. De um galpão, de um vestiário para o campo de futebol, dois vestiários para piscina; já em cima bolamos uma laje, onde ia ter um bar, um solário e tal. Quando acabou, falei: "Moacir, espera aí, vamos pôr no papel isso". Pusemos no papel, para não perder, né. "Não deixar ventar,porque senão perde". Pusemos no papel. "Moacir, vamos fazer?" "Vamos”. E fizemos um galpão de 300 metros quadrados, sabe? Hoje...eu acabei de fazer um na Praia do Sol com quatrocentos metros quadrados, de cobertura, tá?. Então a coisa nasceu assim, de uma discussão, de um bate papo: precisamos fazer e a coisa foi tomando vulto e cresceu, aquilo foi feito. Em Pirapora saíram os vestiários, o solário, tudo como a gente tinha desenhando no chão. Então a ADC não está parada. Se você para, ela passa por cima de você porque a gente vê, sabe. E eu consegui aprender muito: hoje eu posso dizer: eu entendo um pouco de hidráulica, de elétrica - bom, de elétrica seria mal eu falar que eu não entendo porque eu trabalhei em computador e sou funcionário da Light, da Eletropaulo, eu teria que entender de, parte elétrica -; de alvenaria também; faço algumas plantinhas. Mas, isso tudo foi na força de vontade, naquele ímpeto, porque eu nunca fui um cara muito parado, eu sempre fui muito agressivo com as coisas. Eu vou para cima e vou fazer... quando eu quero fazer, sabe, eu subo na caixa d'água, fico na cesta lá  a 20 metros de altura, entende? Subo lá na caixa d'água que tem, sei lá, uns 30 metros de altura, fico lá em cima de pé, quer dizer, não sei... eu acho que pelo meu pensamento de que o dia que tiver que acontecer acontece, não importa onde você esteja, talvez isso me dê muita força para não ter medo de muita coisa, não, sabe? Então... outro lugar que também foi muito gozado a coisa foi em Cruzeiro, nessa área linda. Pô, fazia um ano, um ano e meio que tinha comprado a área. A área tinha um... passava um leito de rio estreito, no meio da área, mas uma água límpida, cheia de peixe e, atrás da área, no final da área, a cerca terminava em um rio límpido também, um rio bonito. Eu falei: “Olha, em São Paulo você não vê mais isso”, sabe? Um lugar que você entra com água para cima do joelho e você consegue ver o pelinho que você tem no dedinho do pé; ver o peixe chegar perto se você ficar parado. Falei: “Pô, vamos fazer alguma coisa aqui”. Então começamos: vamos fazer um campinho de futebol, fizemos; vamos fazer isso; vamos fazer um galpão com churrasqueira. E foi aí que eu comecei a introduzir a parte de mutirão pelos próprios funcionários da empresa porque a mão de obra, a contratação de mão de obra era difícil, porque a regional vivia com 80% da renda dos sócios que ela tinha naquela região. E como Cruzeiro, Cachoeira, e Lorena são cidades pequenas - cidades pequenas que eu digo em nível de contingente da Eletropaulo, certo? -, então elas não têm um poder muito grande como, vamos dizer assim, a Região Sudoeste. O Moacir de Pirapora que tem 600 sócios para quase mil funcionários, entende? Lá não, ele tinha um contingente de 50 a 60 associados, então o que nós começamos a fazer não permitia pagar a mão de obra, porque se pagasse a mão de obra não ia ter dinheiro para o material. Aí a Eletropaulo estava começando esse caminho, de liberar material. Então, o  que eu fiz? Pô, vamos fazer mutirão, certo? Um valinho cada um, fazia o churrasco e todo o mundo sábado e domingo trabalhava na obra. Aí eu comecei a puxar as mulheres também, as esposas. Eu falei: “Pô, eu não posso pegar e parar dois ou três para fazer churrasco porque eu perco mão de obra”. Então, eu comecei a fazer uma interação com as esposas: elas faziam o arroz, o churrasco, elas cuidavam de tudo, e a gente ficava trabalhando. Olha, chegou em um ponto que eu vi mulheres serrando postes, carregando carrinho com massa, sabe, porque elas conseguiram entender, pôr na cabeça que aquele clube era um lugar só deles, não ia ter mistur, eram só eles lá, funcionários da Eletropaulo. Porque em uma cidade do interior, a coisa como é que acontece? Todos são amigos porque, sabe, a cidade é pequena, então eu tenho que ser seu amigo porque eu trabalho com você, fica difícil não ser seu amigo. Eu posso ter minhas divergências, com você mas eu sou seu amigo. Então, eu consegui incutir na cabeça desse pessoal que aquele clube era necessário para eles, era necessário para os filhos deles, tá, para ter alguma coisa para fazer. Porque nem todos eram sócios do clube da cidade e outros não gostavam muito dele por causa da mistura. Eu falei: "Aqui é só vocês, gente; vai ter um número pequeno de pessoas e uma área de 12 mil metros quadrados, tá”? Eu falei: “A coisa é linda”. Então eu consegui incutir isso, as mulheres levantaram essa bandeira, começaram a trabalhar e exigir que os maridos fossem trabalhar. Então nós fizemos aquele clube a toque de caixa, entendeu? Na base de uma carninha no final do dia, uma cervejinha e a mulherada fazendo as coisas. E esse princípio  foi passado para outros locais também: Taubaté, Caçapava, São José dos Campos, Jacareí, Caraguatatuba, São Sebastião, São Roque e Indaiatuba. Eu consegui espalhar isso aqui, quer dizer, nós conseguimos espalhar porque o Takeo também é muito adepto dessa parte de mutirão. E a coisa começou a crescer, muita obra [risos]. Até que chegou uma hora em que Takeo - vou repetir novamente -, Takeo falou: "Trassatte, está tendo obra em todo o lugar, espera, para um pouco, sabe?" E eu falei: "Pô Takeo, eu acho que a gente tem que crescer. Acho que agora  é a nossa vez". E estou aí até hoje, tá, abracei um ideal que era lazer e trabalho andam juntos, um não pode desligar do outro porque o trabalho sem o lazer se torna cansativo e o lazer sem trabalho também fica cansativo, entende? Então, nós começamos embrionariamente com áreas de lazer local dentro da própria empresa, uma mesinha de bilhar, um pebolim, que começou com o anterior a mim, que era o Marinheiro, e eu dei continuidade a esse trabalho. E comecei esse trabalho de construir um clube em cada cidade da área de concessão da Eletropaulo e espero que, se eu amanhã sair desse cargo e for para outro, que quem venha continue, porque nós colhemos muitos frutos com isso daí. E hoje,  o que eu posso dizer da minha vida é que em casa vivo muito bem com a minha esposa, e com os meus 3 filhos, sabe? Eu tenho um filho que é o espelho meu, não dá para negar que é meu filho [risos].

 

P/1- Quantos anos eles têm?

 

R- Ele fez 7 anos domingo passado; ele é como o pai, assim, em tudo: gosta de tudo, de montar... de vez em quando me dá uns problemas porque pega... dei um rádio velho para e ele conseguiu ligar na tomada aquilo lá  e pegou fogo, explodiu todo aquele rádio, sabe? [risos]. Mas ele é um moleque que não tem medo e, graças a Deus, meus três filhos nadam -apesar da minha mulher ser um tijolo  em uma piscina. Meu filho com 3 anos de idade já pulava em piscina com dois metros e meio de profundidade, e ele nem sabia que tinha aquilo. Ele só sabia que não alcançava o pé. E também é outro que não tem distância para ele....

 

P/1- Que idade tem os outros?

 

R- Tenho um menino com 7 anos, uma menina com 8 anos e com 10 anos, que faz GRD, né, ginástica recreativa desportiva, porque ela não pode fazer ginástica olímpica ainda por causa da idade dela. Mas ela já está...

 

P/1- Eles frequentam a ADC?

 

R- Olha, não frequentam muito a ADC porque agora esse ano que vai ter piscina. Eu... tem piscina na casa do meu sogro, uma piscina enorme, então... eu também aí vejo a minha tranquilidade, entende? Porque você fica a semana inteira na ADC... que nem, a gente tem a colônia de férias, e eu sou uma pessoa que jamais irei para colônia de férias para passar uma semana com a minha família; só se eu me desligar da ADC completamente. Porque se eu vou em férias, a própria palavra diz férias, então, eu sou muito separatista, sabe? Eu separo muito as coisas. Então, eu teria... se eu sair da ADC eu esqueço a ADC. Aí eu vou tratar da minha cervejinha, do meu bate-papo com os meus amigos, tal, o meu chopinho. Não quero falar disso e eu indo lá eu sei que vou falar, então eu não vou ter um descanso. E no sábado e domingo eu quero curtir um outro tipo de coisa. Vão de vez em quando sim. Agora meu filho vai entrar... eu acho que ele tem gastar um pouco de energia, está fazendo futebol na escola, vai entrar no karatê agora também. Só a do meio que ainda tá meio assim, sabe, diz que o ano que vem quer fazer jazz. Na própria escola tem essas coisas, então vai fazer jazz.

 

P/1- E você espera que eles trabalhem também na ADC, na Eletropaulo?

 

R- Olha, é... minhas filhas eu espero que não trabalhem, né, que elas casem com um fazendeiro [risos] e vão viver na fazenda, certo? Assim como eu não deixo minha esposa trabalhar, meu pai não deixou minha mãe trabalhar e meu avô não deixou minha avó trabalhar, eu espero que elas não precisem trabalhar. Mas que  também não sejam xucras; seja uma pessoa como minha esposa que, apesar de não trabalhar, está em dia com o andar da vida, sabe? Então, ela discute qualquer problema...

 

P/1- Como é que você conheceu a sua esposa? 

 

R- Olha, foi um caso gozado: eu sempre fui uma pessoa assim, que nunca quis nada, não queria namorar. Tanto é que eu comecei a namorar com a minha esposa com quase 30 anos, sabe? Eu vou dizer para você que eu comecei a namorar com ela porque estava em um período de entressafra:  eu dei meia hora de porteira aberta para ela e acabei ficando com ela. Ela jogou os bois para fora, entrou para dentro e fechou a porteira. E eu casei com ela com 31 anos, entendeu? Eu conheci ela na casa da minha tia e aí marcamos de sair uma vez, saímos; aí namoramos, noivamos, como é normal, e depois casamos. Mas, antes disso, eu tinha, vamos dizer assim, casinhos, eu não queria me amarrar. E sei lá, se não estivesse em uma época de entressafra, eu acho que eu não estaria...eu não teria casado ainda porque eu gosto muito de viajar, eu gosto muito do campo. Eu frequento festa de peão boiadeiro, vou em todas, eu adoro isso, mas minha esposa não gosta, ela não vai. É um direito dela, sabe? Mas eu adoro muito o mato, praia, sabe, mas praia, não digo... você jamais vai me ver na praia, na areia sentado que nem um frango de padaria assando.

 

P/1- Por que?

 

R- Porque não. Eu gosto de pegar um barco, entrar no mar e ficar lá no meio. Eu vou pescar, eu vou em outra praia, eu vou nadar lá embaixo, então eu nado em água limpa em pleno Boqueirão, na Praia Grande. Se bem que hoje, com esse investimento que está se fazendo lá embaixo, a água praticamente vai ficar limpa. Mas, pô, eu vou para Praia Grande há 36 anos, sabe? Quando eu fui a primeira vez para aquele apartamento, só tinha mato para tudo quanto é lado; a gente chegava de carro em uma picada. Então, eu sempre gostei muito de praia e de campo.

 

P/1- Como é que era na época que você trabalhava de madrugada? com a sua mulher, como é que você....

 

R- Eu não era casado.

 

P/1- E como é que é hoje o teu cotidiano?

 

R- Com ela?

 

P/1- Não exatamente. No teu trabalho, por conta de você viajar muito, né? Como é que...

 

R- Olha, eu viajo muito, mas dificilmente eu fico no local. Minha esposa, até por um lado, à noite ela prefere que eu fique e venha no dia seguinte de manhã. Porque, pelo lado oeste que a Eletropaulo serve, nós temos a Castelo Branco que é uma excelente estrada para viajar, mas também na Laje de Pedra, quando baixa a neblina você não enxerga nada. E para o lado de cá, no Vale do Paraíba, é a estrada Presidente Dutra, e eu não preciso... dispensa qualquer comentário, viajar na Dutra à noite é um crime, né? Então minha esposa fica um pouco preocupada, tá, mas não sei, talvez pela maneira que eu... não vou dizer educar porque eu não eduquei ela, mas pela maneira como ela me conheceu, como eu sou, eu não mudei nada. Não é porque que eu casei que eu mudei. Não, não mudei. Eu tenho a minha quinta-feira para tomar o meu choppinho com meus primos, toda a quinta-feira isso é fatal. Ela sabe que eu gosto de sair em escola de samba e eu saio [risos], sabe? Ela pode não ir, mas eu saio, entende? Ela sabe que eu gosto da festa do peão, então eu vou. Como eu sei que ela gosta de teatro, levo ela;  sei que ela gosta de curtir um vinhozinho, um jantar, sabe? Essas coisas muito monótonas não casam comigo. Mas eu também eu acho que como aquele primeiro baile que eu fiz, que o Takeo disse: "Olha, nem para mim nem para você, vamos fazer o meio", eu acho que o meu relacionamento foi assim, entende, vamos fazer o meio e estamos bem. Não tem problema, quer dizer, não vou dizer que não tem problema porque o casal que não briga não é casal. Eu acho que discussões tem, mas discussões em que se chega a um acordo são produtivas. Entende? 

 

P/1- Você se formou em quê? Você fez faculdade?

 

R-Eu eu sou bacharel em Ciências Sociais.

 

P/1- Aonde que você fez?

 

R- Eu me formei na Universidade São Marcos

 

P/1- E como é que era essa época de faculdade?

 

R- Olha, eu vou dizer uma coisa para vocês: primeiro eu fiz três anos de Administração de Empresas na FMU [Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas]. Daí eu abandonei. Isso foi em 1977, eu abandonei em 1978. Aí quando eu vim para ADC o Takeo falou: "Bicho, você tem que estudar". Eu falei: "Acho que vou voltar a estudar". Porque eu fazia muito curso, em computação, sabe? Então a Eletropaulo, ela dava uma carga... a Light Eletropaulo dava uma carga de curso para mim durante o ano que era extensa. Então, pô, você faz curso na IBM [International Business Machines], por exemplo, você ficava desde às 8 da manhã até às 5 da tarde estudando, então para mim era melhor ir trabalhar, sabe? Porque eu sempre aliei o trabalho à responsabilidade e à diversão, entende, no trabalho. Então o Takeo falou: "Você precisa estudar". E eu fui fazer faculdade. Aí eu já era casado, tá, mas foi normal, fiz na boa porque você também pega um pouco de... sabe, a ADC foi muito uma escola para mim também. Não só para mim como para todos, tá. Eu vou dizer que quando eu trabalhava na informática eu tinha meu jogo de cintura para informática, mas a ADC me fez ter um jogo de cintura em todas as áreas, tanto na área administrativa como, principalmente, na área política, entende? Então hoje você é maleável, sabe?

 

P/1- Como é a área política lá?

 

R- Olha, existe... a área política lá acho que você tem que ocupar todo o espaço, com o nome da ADC e manter aquele associado no seu quadro de associados. Então você tem que fazer aquela política de boa vizinhança. E outra, você tem que mostrar para ele, às vezes, que... quando nós chegamos aí, em 1985, 1986, a ADC não tinha nada e hoje ela tem praticamente quase um milhão de metros quadrados de área; o que ela tem de construção por aí é enorme. Então você tem que fazer aquela política de fazer ele entender que a coisa está caminhando. Tudo bem que é lentamente porque a gente não tem um investimento muito forte em cima. Porque se tivesse... como, a Eletropaulo achou por bem fazer um vestiário, ela fez rapidinho lá na Praia do Sol. Fez bocha e malha, society, duas quadras de futebol de salão e duas quadras de tênis. Ela fez, agora nós... tudo o que a gente... bom para resumir, tudo o que é para funcionário tem que sangrar, sabe? Então às vezes você tem que mostrar isso na parte política para as pessoas, entende, que fica difícil.  É difícil, é dificultoso. Mas felizmente nós ainda temos muito sangue para doar aí, porque nossa meta é terminar esse clube. No ano que vem, vamos encarar mais uma eleição e esperamos, com o nosso trabalho, receber o reconhecimento dos nossos associados, porque nós vamos precisar realmente de mais uns 4 anos para terminar aquilo que nós nos comprometemos a fazer. Porque, realmente, é um trabalho de muita luta. É difícil, ainda existem aquelas mentalidades arcaicas dentro da empresa que emperram, sabe, o fluir de alguma coisa. Então emperram por coisinhas mínimas que não tem nada a ver, porque eu estou pegando um tijolo daqui e estou pondo aqui, mas eu não estou tirando esse tijolo de dentro da Eletropaulo. Então a pessoa... tudo o que é para nós teve que sangrar. Para nós que eu digo é nós os funcionários da Eletropaulo, sócios da ADC Eletropaulo. Tem que sangrar, tá? Então a política tem que ser muito grande para você negociar com a empresa e, ao mesmo tempo, negociar com o associado. Você tem que ter esse jogo de cintura, ser bem maleável.

 

P/1- E, para finalizar assim, eu queria que você falasse de algum sonho, alguma vontade que você tenha de que alguma coisa aconteça, algum sonho.

 

R- Bom, algum sonho é continuar vivendo do jeito que eu vivo. E o dia que eu sair da Eletropaulo, de duas, uma: eu vou morar no mato, cheirando meus bois ou eu vou morar na praia, cheirando os meus peixes [risos]. É isso: eu vou pescar na água salgada ou eu vou pescar na água doce; mas eu vou sair de São Paulo, isso eu tenho na minha cabeça. Porque aqui deixou de ser uma terra para você viver, é uma terra para você lutar, sabe? Para você brigar, fazer alguma coisa e ganhar algum dinheiro. Agora para você descansar, ela deixou de ser. Tanto é que isso prova o êxodo que está acontecendo da capital para o interior. Dos grandes magnatas aí, dificilmente você vê hoje alguém... se você andar no Morumbi você vai ver um monte de casarão à venda. E você vê que aquele magnata de lá está morando em Santana do Parnaíba, Araçariguama, Pirapora, então esses... Santana do Parnaíba hoje tem um bairro lá em que as casas, tá louco, são cinematográficas; São Roque também. Então hoje está ocorrendo um êxodo. Existiu o êxodo rural para capital, isso em Sociologia a gente estuda muito, e hoje está ocorrendo o êxodo da capital para voltar para o rural. Então eu vou acompanhar isso daí: o meu grande sonho é morar na praia ou no campo e sair de São Paulo. Meu grande sonho é sair de São Paulo.

 

P/1- Ok, obrigado e boa sorte para você, hein? Tomara que você saia.

 

R- Obrigado.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+