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História

Uma vida ativa

História de: Vicente Reis de Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/02/2009

Sinopse

Vicente relembra da cidade onde viveu a grande parte de sua vida, Engenheiro Pedreira. Ainda pequeno, na escola, como não tinha merenda, saia pegando laranja das árvores para se alimentar, quando cresceu se engajou no ativismo social. Em seu depoimento relembra sobre a sua participação em movimentos grevistas, paralizações, inundações e como desenvolveu um jornalzinho na cidade, como meio de comunicação. Conta também sobre algumas dificuldades que enfrentou ao se tornar professor, pois como não havia muitos recursos, utilizavam cuspe e giz.

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História completa

P/1 – Vicente, pra gente começar eu queria que você falasse o seu nome completo, a cidade e o local de nascimento, e a data.

 

R – Perfeitamente. Vicente Reis de Oliveira, eu nasci na cidade de Mendes, Estado do Rio de Janeiro, no dia sete de setembro de 1946.

 

P/1 – Qual é o nome dos seus pais?

 

R – Joaquim Maximiano de Oliveira e Virgulina Reis de Oliveira.

 

P/1 – E você tem irmãos?

 

R – Tenho duas irmãs, a mais velha é a Maria Aparecida de Oliveira Cavalcanti e a mais nova Maria das Graças de Oliveira Coelho.

 

P/1 - Você é o filho do meio?

 

R – Eu sou o filho do meio.

 

P/1 – E me conta uma coisa, na sua infância o que seus pais faziam?

 

R – Meu pai trabalhava na fábrica industrial de papel de Piraí num lugarejo chamado Santanésia que é bairro da cidade de Piraí, Estado do Rio de Janeiro no interior. Papai trabalhava como bobinador.

 

P/1 – E a sua mãe?

 

R – Minha mãe é do lar, doméstica.

 

P/1 – E vocês passaram a infância em Piraí?

 

R – Não, até a idade de oito anos eu estive morando nesse local chamado Santanésia e depois de oito anos nós viemos para Engenheiro Pedreira, onde nós radicamos... Papai se tornou um comerciante e nós vivemos ali até uma época mais ou menos assim... Nós chegamos lá em 1957 em Engenheiro Pedreira e fomos até 1978 por aí morando em Engenheiro Pedreira, depois Nova Iguaçu.

 

P/1 – E lá em Santanésia você lembra como era a sua casa?

 

R – Ah, lembro perfeitamente e aquilo lá é uma saudade, aliás, passei por lá recentemente, eu até levei minha mãe para relembrar o local. A casa tinha dois quartos, sala, cozinha, banheiro, tinha um quintal imenso no fundo fazendo divisa com o terreno tinha o clube Jabaquara Futebol Clube, o local era... O pessoal que morava ali era o pessoal que trabalhava na fábrica industrial e a rua não era asfaltada, era toda de saibro onde a garotada jogava bola. Porque não podia usar o campo, nós usávamos a rua como parte de esportes. Tinha um grupo chamado Grupo Escolar Coronel Camisão onde eu estudei até a terceira série.

 

P/1 – E você e suas irmãs estudavam juntos?

 

R – No mesmo colégio Grupo Escolar Coronel Camisão que ainda existe em Santanésia.

 

P/1 – E esses seus amigos que jogavam futebol com você, eram seus vizinhos?

 

R – Eram todos vizinhos, tornou-se uma comunidade pequena porque não tinha saída, pra você sair de Santanésia você tinha que ir para Barra do Piraí ou para Piraí e ficava difícil, aí o que a fábrica fez naquela época, a fábrica tinha um hospital que atendia a comunidade, a fábrica tinha um grupo que era do Estado que atendia a comunidade e criou-se uma cooperativa onde todos os operários da fábrica compravam tudo o que precisavam naquela cooperativa. Então a comunidade não saía dali, o círculo era só aquilo.

 

P/1 – E tinha muita reunião da comunidade?

 

R – Não, quase nenhuma, com o aparecimento da televisão que o clube passou a ter e era onde a garotada da época ia assistir no clube os programas de televisão.

 

P/1 – E você se lembra dos programas?

 

R – Capitão Marvel, era o predileto, Flash Gordon.

 

P/1 – E como é que era... Me conta um dia na sua casa lá em Santanésia? Seu pai ia trabalhar e vocês acordavam…

 

R – Acordava cedo porque às sete horas tinha que estar na escola e o grupo era um espaço muito grande, nós estudávamos de sete da manhã até meio dia e meio. De onde regressávamos pra casa e ali durante o dia nós tínhamos as nossas atividades, porque a minha mãe sempre foi exigente e depois nós fazíamos o seguinte: íamos estudar um pouco porque brincar ela deixava sim, mas era limitado.

 

P/1 – E aí na hora de brincar como é que era? Você saía da sua casa chamava os amigos?

 

R – Não, eu, por exemplo, brincava de futebol na rua, mas as minhas irmãs tinham que chamar as colegas ou ir à casa das colegas pra brincar de boneca que era a brincadeira da época e jogar pião, porque tem época pra tudo. Então tinha aquela época de jogar pião, as meninas brincavam de amarelinha, hoje já não existe mais, jogar pião era gostoso, quem ganhava levava o pião do outro.

 

P/1 – O que você mais gostava de brincar?

 

R – Jogar pião e futebol.

 

P/1 – E lá na sua casa quem cozinhava era a sua mãe?

 

R – Era mamãe.

 

P/1 – Você se lembra de alguma comida que você gostava que ela fazia?

 

R – Olha, verdade mesmo é que aquelas épocas de criança, a mamãe gostava porque nós não tínhamos uma fartura, porque operário de fábrica tem limites de salário, naquela época principalmente. Mas nós criávamos galinha, então quando se fazia realmente a galinha criada no terreiro era uma verdadeira festa, mas isso não acontecia todo dia, isso era esporadicamente e era uma delícia.

 

P/1 – E quando você foi parar em Engenheiro Pedreira, como é que foi mudar de cidade?

 

R – Olha, a princípio eu fui conhecer Engenheiro Pedreira com o falecimento da minha avó paterna e chegamos lá num dia de chuva, muita lama onde o veículo principal era carroça e foi quando eu conheci Engenheiro Pedreira. Mas quando voltamos realmente para morar, depois de dois anos em Engenheiro Pedreira foi difícil ,porque nós em Santanésia tínhamos luz elétrica, tínhamos um hospital, tínhamos uma cidadezinha organizada. E em Engenheiro Pedreira não tinha nada, era luz a lamparina e fomos morar a três quilômetros e meio da estação cuja estação também era dormentes onde o trem parava e a pessoa entrava e saía a estação de Engenheiro Pedreira, inclusive tem na foto aí.

 

P/1 – Não era uma estação muito agitada então?

 

R – Não, eram poucos trens que circulavam, eram dois ou três trens que circulavam durante o dia, quem perdesse aqueles horários não tinha outro meio de transporte para sair de Engenheiro Pedreira a não ser os trens.

 

P/1 – E era um trem de carga ou era de passageiros?

 

R – Era trem de passageiro só que era bem limitado o transporte, naquela época.

 

P/1 – E você lembra como era a sua casa de Engenheiro Pedreira quando você mudou?

 

R – A primeira casa que nós moramos quando fomos pra Engenheiro Pedreira era uma casa com um cômodo grande, uma sala, uma cozinha e um banheiro, só, era onde nós vivíamos. Mais tarde daí a uns dois anos nós saímos para uma casa maior onde nós tínhamos três quartos, sala, cozinha e banheiro e o armazém do papai ficava na parte de baixo dessa casa.

 

P/1 – Quando vocês mudaram para Engenheiro Pedreira seu pai parou de ser operário?

 

R – Parou de ser operário e se tornou um pequeno comerciante da época.

 

P/1 – E mudou muita coisa em casa?

 

R – Ah mudou bastante, porque se tirava de dentro do armazém o que precisava para se alimentar, além do mais Engenheiro Pedreira naquela época... Estava na época da produção da laranja, Engenheiro Pedreira foi na realidade... Bom, vamos falar de Japeri, porque sempre pertenceu a Japeri, mas era o maior produtor de laranja do município de Nova Iguaçu, Japeri, quer dizer, Engenheiro Pedreira no caso porque tudo ali eram laranjais. Então a fome não existia, porque os proprietários daqueles laranjais não tiravam de você o direito de comer uma, duas, ou três laranjas, eles só não queriam que fizesse bagunça dentro dos laranjais, mas comer a vontade você podia. Então fome não se passava ninguém naquela época, naquela região.

 

P/1 – Você andava muito pelos laranjais?

 

R – Ah eu andava, eu andava volta e meia eu entrava num laranjal daqueles pra apanhar laranja e até quando vinha da escola, porque eu estudava na Escola Municipal Bernardino de Mello onde eu sou professor hoje só que não era localizada ali. Você saía da escola e saía com fome, então você entrava naqueles laranjais, porque iam três quilômetros a pé e você entrava, apanhava laranja, pegava pro grupo todo porque tinha um grupo de alunos que moravam por lá que frequentava o Bernardino de Mello. Então a gente apanhava laranja, chupava, descascava no dente e ia embora pra casa.

 

P/1 – Quando você chegou lá em Engenheiro Pedreira você foi estudar no Bernardino de Mello?

 

R – Perfeitamente.

 

P/1 – E aí tinham colegas que moravam perto de você?

 

R – Tinha, tinha o Jobe, tinha o José Carlos, tinha o Massaride que era um japonês, tinha o Kogi, Ana e outras meninas que eu não recordo todos os nomes agora.

 

P/1 – E vocês iam juntos pra escola? Como é que era o caminho então?

 

R – Uns iam de bicicleta e outros iam a pé, quem tinha bicicleta e que tivesse condições carregava o outro e se não tivesse os outros iam a pé e voltavam também a pé ou de carona com alguém até poder comprar uma bicicleta, o que aconteceu logo nos primeiros tempos que papai pode e comprou uma bicicleta pra gente. Então já em vez de carregar e sermos carregados, nós carregávamos alguém ajudando no transporte.

 

P/1 – E você fez amizade fácil lá quando você mudou?

 

R – Tranquilamente, eu sou bastante comunicativo, sempre fui, gostei sempre de brincadeiras, então foi fácil, logo que mudei pra lá adquiri bastante amizade. Não foi o caso da minha irmã mais velha porque é mais fechada, não gosta muito de brincadeira, mas poucas amizades ela tinha.

 

P/1 – E me conta um pouco mais sobre como era Engenheiro Pedreira daquela época?

 

R – Bom, Engenheiro Pedreira daquela época era… Não, ainda é um povo interiorizado onde nós tínhamos um campo de futebol onde se praticava brincadeira. Engenheiro Pedreira tinha um acesso a Japeri através de um trenzinho que vinha de Belfort Roxo de passageiro a Japeri que fazia esse trajeto. E tinha também um trenzinho que ligava São Mateus a Jaceruba, chamado São Pedro onde existe a estação até hoje que tinha naquela época uma bela cachoeira, mas com o desmatamento aquilo já não existe praticamente nada, só tem um reservatório da SEDAE, se não me falhe a memória. Mas Engenheiro Pedreira era muito cercado de verde, muita coisa com pequenas lotações que se adquiriu depois para transporte da população sendo o maior transporte a carroça e a bicicleta. Mas muita produção de aipim, cana, laranjas, goiabas, tinha uma produção imensa, além de muitos animais silvestres que existia ali, como jacaré beirando a linha do trem, porque tinha aqueles pântanos e ali existiam jacarés e hoje dizemos papo amarelo, naquela época ninguém conhecia o que era papo amarelo. E também existiam algumas jaguatiricas que ficavam expostas tomando sol naquelas pedras, em pedra lisa.

 

P/1 – E você chegou a encontrar algum jacaré?

 

R – Não, eu nunca fui, mas o pessoal lá de vez em quando pegava um lá e matava.

 

P/1 – E cobra você chegou também?

 

R – Cobra eu cheguei a ver duas só, jararacas.

 

P/1 – E conta alguma aventura, alguma história que você se lembra de menino que você passou por lá ou em Santanésia? Você se lembra de alguma travessura que você tenha feito?

 

R – Travessura que eu tenha feito em Santanésia ou em Engenheiro Pedreira? Ah sim, em Engenheiro Pedreira eu tenho uma sim, aliás uma que ficou gravada pelo resto dos dias, nessa época eu já estudava em Queimados no Centro Educacional Manuel Pereira e eu tinha que pegar sete horas na escola e o trem era seis e 56. Então eu saí de lá de dentro de Santa Inês um pouco atrasado e acelerei o máximo que pude de bicicleta, chegando próximo a estação eu joguei a bicicleta num canto onde ela ficava guardada e saí correndo até a estação. Ao chegar à estação o trem já estava parado, passei rapidamente, mas ele fechou a porta, eu não podia perder aquele trem, porque seria dia de prova, o que eu fiz? Como os trens não tinham os vidros, eu abracei a porta e fui com o corpo pro lado de fora, o medo que eu passei foi tanto que quando eu saltei na estação de Queimados as pernas tremiam, eu não tive condições de ir pra escola.

 

P/1 – Nossa, que perigo.

 

R – Afirmativo, aquilo eu lembro até hoje.

 

P/1 – E você tem mais alguma história dessas de trem? Ou alguma coisa que você tenha visto?

 

R – Eu tenho muitas histórias... Vejam bem, o poder aquisitivo sempre foi baixo, e todas as vezes você vê pessoas tentando passar sem pagar e muitos ali acabaram ficando esquartejados pelo trem desnecessariamente... Eu digo hoje desnecessariamente, mas eu não sei a situação deles na realidade, mas tem uma história que vai lembrar bastante porque foi o assalto ao trem pagador em Japeri e aquela turma saltou, porque a rede ferroviária mandava um vagão de trem para pagar os funcionários daquela época, lá em Japeri. E assaltaram o trem e a única saída que tinha era por Engenheiro Pedreira, aí os caras já programaram tudo, jogaram o dinheiro dentro da caminhonete e passaram em larga disparada, ali pela Praça de Engenheiro Pedreira. Mas havia um comunicado de Japeri para Engenheiro Pedreira para colocar um vagão de trem na linha para os caras não passarem, mas eles tinham acabado de passar e ficou ali todo mundo sem segurar os ladrões e eles fugiram com aquela grana toda.

 

P/2 – Nossa, a estação de trem é um lugar muito cheio de histórias, né?

 

R – Ah sim, bastante, naquela época só tinha aquilo.

 

P/2 - Pra ir pro Bernardino de Mello você ia de bicicleta com os colegas?

 

R – No início ia de bicicleta.

 

P/1 – E como é que era lá quando você estudava?

 

R – No Bernardino? O Bernardino tinha quatro salas apenas, uma cozinha e o banheiro, um pátio com algumas árvores, era uma escola muito pequena, mas dava pra atender a comunidade com bastante sacrifício. Aí quando se tornou maior o Bernardino... Mas mesmo assim com uma deficiência muito grande pra atender a população, porque Engenheiro Pedreira embora seja distrito de Japeri, bairro de Japeri, ele tem uma população muito grande, quase maior umas três vezes que o centro do Município, que é Japeri. Então Engenheiro Pedreira praticamente abarca aquilo tudo em população, em comércio e tudo, mas com a prosperidade, digamos assim, de largos comércios como tem mercado e tudo. Em 1965 eu já era soldado do Exército e o prefeito de Nova Iguaçu estava fazendo uma campanha política. Em Engenheiro Pedreira não tinha luz ainda, então eu e um grupo de amigos saímos em passeata com uma vela e um paralelepípedo na mão, ele mandou prender a gente e taxar como comunista. Só que não pode prender a mim e aos outros porque éramos soldados do Exército, mas outros que estavam no mesmo barco acabaram sendo presos. O subdelegado da época era morador de Engenheiro Pedreira, então o comércio juntamente com toda a população, forçamos o subdelegado a soltar os rapazes, soltavam ou nós quebrávamos a delegacia, ele optou por soltar e em seguida se destituiu do cargo de subdelegado.

 

P/1 – Você foi uma militância.

 

R – Fui, e aí mais tarde... Teve épocas também que nós paramos a Dutra para reivindicar um viaduto que até hoje... Até hoje não, recentemente foi construído, porque aquela região pertencia a Queimados e não a Japeri. Então Queimados hoje construiu um viaduto que está dando suporte para escoação até daqueles pequenos produtores.

 

P/1 – É aquele abaixo-assinado que você mostrou?

 

R – É aquele. Foi naquela época, aquele que você viu ali.

 

P/1 – Eu vou voltar um pouquinho, eu queria que você contasse um pouco como era na escola quando você estudava no Bernardino de Mello? Uma aula que você se lembre.

R – Eu me lembro muito das minhas professoras, a Dona Adazina, a dona Nazareth que... Sabe que o Município, quer dizer, Engenheiro Pedreira, naquela época, pertencia a Nova Iguaçu e pertencente a Nova Iguaçu o recurso era nenhum e as professoras só tinham cuspe e giz pra trabalhar, mas mesmo assim elas conseguiram trazer muitos ensinamentos mesmo, a escola como eu disse era pequena, merenda não se tinha, mas nós que éramos um pouco mais travessos o que nós fazíamos? Pulávamos da janela da escola pra dentro dos laranjais, apanhávamos laranja e dava suporte a molecada pra chupar laranja.

 

P/2 – E nunca foi pego, não?

 

R – Não, o dono não ligava, não, ele só não queria bagunça, mas apanhar laranja ele não ligava, não, a gente pendurava na janela e já dava em cima de um pé de laranja, aí só recolhia e jogava pra dentro de sala de aula.

 

P/1 – Você se lembra de alguma matéria ou algum momento na escola, no Bernardino, de infância?

R – Não, eu me lembro de Santanésia muito com relação à tabuada, a Dona Dejanira, está viva com 94 anos e ela querendo saber tabuada e ela não admitia de maneira nenhuma que você, ao fazer uma pergunta, se ela te perguntasse alguma coisa você ficasse dizendo, querendo raciocinar, mas falando isso ela não admitia e logo em seguida ela metia-lhe a régua. Quer dizer, você apanhava na escola e apanhava em casa porque você apanhou na escola, mamãe nunca livrou a cara disso, apanhou na escola, apanhava em casa e dobrado. E também na hora das leituras, quando não sabia ficava ajoelhado no caroço de milho e isso era ponto de chave pra dona Dejanira. Em Bernardino a gente lembra pouca coisa assim da dona Nazareth e da Dona Adazinda, duas graças a Deus ainda estão vivas, aposentadas, mas estão vivas. Uma me parece a Dona Adazinda, gostava muito de falar de Ciências, eu acho que talvez tenha sido ela que me influenciou para que eu também me tornasse um dia um professor de Ciências, porque ela gostava da matéria, ela elaborava isso com muita facilidade, já a Nazareth gostava um pouco de contar as histórias da vida. Tinha também a Lenita e hoje a minha sogra que também era professora naquela época, hoje é minha sogra, mas naquela época era professora, a Dona Rute.

 

P/1 – E elas preparavam a aula?

 

R – Preparavam aula normalmente, eles tinham um planejamento, aliás, a escola apesar de ser pequena tinha um sistema muito rígido, muito educativo mesmo, naquela época, hoje está um pouco mais bagunçado, mas o sistema educativo, naquela época, era bem melhor do que hoje.

 

P/1 – E seus pais queriam que vocês fossem pra aula?

 

R – Meu pai brigava todo dia se eu não fosse à aula, podia contar que em casa alguma coisa ia acontecer, apanhar era certo, mamãe não admitia de jeito nenhum que se perdesse um dia de aula a não ser por problema de saúde.

 

P/1 – Tiveram alguns outros tipos de castigo que você passou na escola ou em casa depois?

 

R – Sim, toda vez que você deixava de saber uma leitura ou não fazer um dever em casa e a professora sempre mandava aquele bilhete. Então em casa você tinha um castigo severo, além de ter que fazer aquilo você ainda tinha que ficar sem jogar bola, ficar sem brincar, ficar sem determinados tipos de brincadeira que se fazia, que se tinha criança, em favor de fazer os deveres e nunca mais repetir aquilo, o que não era verdade acontecia todo dia.

 

P/1 – Como é que era então, a sua mãe quando você chegava em casa ela sempre dava uma olhada no caderno?

 

R – Todo dia, todo dia ela tinha que olhar o bilhetinho que a professora mandava, porque todo dia estava o dever sem fazer.

 

P/1 – Você devia ser um tanto bagunceiro.

 

R – Um pouquinho só.

 

P/1 – O líder lá da bagunça?

R – Ah, eu não tenho lembrança de líder de bagunça, porque eu acho até que aquelas bagunças eram até gostosas, porque você não tinha outras opções, em Santanésia que opções você tinha? A noite um clube só que abria durante o dia, você não tinha nada, quando fomos morar em Engenheiro Pedreira a situação era a mesma, porque Santanésia ainda tinha um cineminha. Em Engenheiro Pedreira não tinha nada, naquela época, então você só tinha rua e casa, não tinha alternativa nenhuma, não tínhamos os brinquedos que hoje se tem, quando podia comprar alguma coisa eram aquelas bolas de borracha. Por causa daquelas bolas de borracha eu levei boas pancadas, então não tinha tanta…

 

P/1 – O que você aprontou com essas bolas de borracha?

 

R – Ah eu tenho naquela história, naquela memória que você me fez fazer lá naquele dia. Como eu disse, a cooperativa era no centro comercial de Santanésia, então mamãe fez o bilhetinho e pediu que eu fosse buscar aqueles gêneros na cooperativa, voltando eu para casa encontro uma bola de borracha na rua, aí saí chutando aquilo até em casa, ela estava me esperando no portão porque eu já havia passado do tempo previsto pra ir e voltar. Ela recebeu a mercadoria, conferiu e virou pra mim e falou: “Quem te deu essa bola? O teu pai? Ou foi dos teus tios? Eu não me lembro de ter comprado essa bola” eu sabia que o cassete ia entrar logo em seguida, eu não tinha dúvida. Eu falei: “Eu achei no meio da rua e vim chutando” “Volta ao local e coloca no mesmo lugar que você achou”, volto eu correndo para entregar a bola onde eu achei. Ao entrar em casa na volta aí é que a coisa foi boa, apanhei até não querer mais e ela dizendo sempre pra mim: “O que não é teu deixa no lugar” isso eu não posso esquecer, né?

P/1 – E que outras coisas mais seus pais te ensinavam em casa?

R – Bom, aí quando nós estivemos em Engenheiro Pedreira, papai sempre dizia pra que eu pudesse direcionar uma atividade qualquer para que no futuro eu pudesse conquistar o que ele não tinha conquistado, e o maior sonho do papai era que eu fosse militar, coisa que eu sempre fugi, eu nunca quis ser militar. Então ele sempre me direcionou com essa finalidade para que eu me tornasse um militar, mas não era bem a verdade, eu queria ser jogador de futebol, mas também não consegui, porque ele não assinou a ficha do América para que eu pudesse entrar.

 

P/1 – E você tinha treinado muito?

 

R – Bastante.

 

P/1 – E aí ele não quis assinar?

 

R – Ele não assinou a ficha do América para que eu pudesse entrar.

 

P/1 – Mas você não parou de jogar bola não, né?

 

R – Parei, a idade já não dá mais pra isso, não.

 

P/1 – E me conta uma coisa, o tempo foi passando e você foi estudando no Bernardino de Mello?

 

R – Estudei lá até a quinta série, depois fui para o Centro Educacional Manuel Pereira, em Queimados onde fiz o antigo ginasial, depois fui para o quartel e do quartel eu voltei a estudar e me formei em Contabilidade onde criei junto com o Jaime Roberto o primeiro escritório de Contabilidade de Engenheiro Pedreira, dali nós também... Aí terminei o segundo grau e parei de estudar, mas mesmo assim nós criamos em Engenheiro Pedreira várias atividades, nós tivemos em Engenheiro Pedreira uma fundação que chamava Águia de Haia em homenagem ao Rui Barbosa com a finalidade de abrirmos uma biblioteca só que o projeto não foi à frente, porque não tínhamos patrocinadores. A localidade precisava, como precisa até hoje, de locais para que os estudantes possam desenvolver um pouco mais as suas atividades, a finalidade foi essa na época, mas não conseguimos o objetivo, e quando terminei o segundo grau, eu parei de estudar, voltando dez anos depois pra fazer uma faculdade, e aí terminei a faculdade de Biologia, depois fiz Pós Graduação em Microbiologia.

 

P/2 – Eu vou voltar um pouquinho. Lá em Queimados como é que foi? Era longe?

 

R – Não, Queimados era a estação seguinte, bom, vamos dizer o seguinte: em termos de Nova Iguaçu, porque tudo pertencia a Nova Iguaçu. Nova Iguaçu era cidade realmente que tinha seis distritos, Morro Agudo, Austin, Queimados e Japeri e tinha mais um que eu não me recordo, mas eram seis, tudo pertencia ao Município de Nova Iguaçu. Queimados no caso era o distrito antes de japeri e era onde tinha o Centro Manuel Pereira até o segundo grau, na época.

 

P/2 – E demorava quanto tempo pra você chegar lá de trem?

 

R – De trem? Era mais ou menos de oito minutos a dez minutos, quando faltava trem nós tínhamos que ir de bicicleta ou se não ir a pé, a pé você ia levar muito tempo, mas de bicicleta você levava uma faixa de 45 minutos ou uma hora andando bem.

P/1 – E você ia com seus amigos de escola?

R – Toda vez que faltava trem a gente adorava, porque ia aquele grupo de pessoas pra Queimados de bicicleta, a volta era mais triste, porque o sol já estava bastante quente por volta de uma hora da tarde, até chegarmos em casa pra almoçarmos estava dando três horas da tarde.

P/1 – E lá na escola, em Queimados, era diferente da que você tinha estudado?

R – Ah, toda a vida era uma escola com uma evolução, com uma visão bem melhor, uma visão ampla de educação onde você tinha meios para pesquisas, porque existe uma bela Biblioteca, onde os professores ofereciam condições melhores. O Centro Educacional Manuel Pereira, que por acaso eu também trabalhei dez anos lá mais tarde, ele tinha uma banda chamada Banda Marcial do Centro Educacional Manuel Pereira e muitas vezes essa banda veio ao Maracananzinho, na época de setembro para o festival de bandas que existia, naquela época. Então o diretor do Manuel Pereira, o professor Joaquim de Freitas, eles chegavam até a colocar trem a disposição dos alunos para que viéssemos acompanhando a banda naquele desenvolvimento todo. E Queimados era bem mais desenvolvido, tinha dois cinemas da época, e vamos dizer assim, o desenvolvimento não só de cinema, mas de comércio também era bem maior e com a chegada desse colégio lá, Queimados prosperou bastante, porque trouxe uma linha de raciocínio melhor do que o que se tinha antes, mas só mais tarde, bem mais tarde, acho que em 94 que veio a se emancipar e se tornar cidade.

 

P/1 – E o que você tocava nessa banda?

 

R – Eu? Nada, eu nunca gostei de tocar instrumento nenhum, eu só apreciava, eu era um apreciador de primeira, porque com a ida da banda para alguns lugares papai e mamãe deixava a gente acompanhar, porque estava incentivando a banda. Então era um meio da gente passear.

 

P/1 – Me conta um desses passeios que você fez com a banda?

 

R – Nós tivemos em Petrópolis e no Maracananzinho, nós viemos pela primeira vez disputar... O colégio Manuel Pereira veio disputar com as bandas que existiam na época, no Maracananzinho. Então o professor Joaquim de Freitas alugou um trem e nós viemos de trem e o pessoal vibrando muito, porque uma banda lá do interior. Então a gente cantava assim: “GMP nós viemos lá da roça, mas viemos pra vencer” e realmente vencemos, tiramos em primeiro lugar, o instrutor da banda era um militar do corpo de Fuzileiro Naval eu não me lembro o nome dele e realmente ele colocou a banda afinadíssima pra essas finalidades. A banda depois se tornou campeã, a gente ganhou várias vezes os campeonatos aqui no Rio de Janeiro e Manuel Pereira ficou muito conhecido por causa da banda. E Petrópolis ficou mais ou menos conhecida e fomos lá com essa finalidade. O professor Joaquim de Freitas colocava sempre a comunidade, levando à comunidade a apoiar não só a banda, mas os esportes também que no Manuel Pereira tinha, ele fez seleção de futebol, handebol, futebol de salão, futebol de campo. Então ele construiu realmente uma imagem melhor para o Município e tornou-se até o campo do Queimados Futebol Clube, local de onde o pessoal participava dos esportes.

 

P/1 – E nessa viagem mesmo não tinha muita bagunça?

R – Muita, bagunça não faltava, mas os professores também eram muito rígidos, nós tínhamos o professor José Vinino Chanchão muito rígido, tínhamos o professor José Vinícius Marinho Frias que é catedrático da língua portuguesa, hoje me parece que ele é coordenador da faculdade de Belford Roxo, mas ele era muito rígido, a Dona Maria Chanchão eram professores daquela época muito durões. Então ele não admitia determinadas bagunças, determinadas brincadeiras não eram admitidas.

 

P/1 – E esses outros grupos de esporte, essas outras atividades da escola você chegou a participar?

 

R – Participava, porque eu fazia parte da seleção de futebol de Manuel Pereira, jogamos muitas vezes contra a Marinha, jogávamos contra as escolas aqui do Rio, umas perdíamos outras ganhávamos, mas havia quase todo fim de semana o Manuel Pereira patrocinava os esportes para aquela cidade.

 

P/1 – E nessa época lá o senhor já tinha umas paqueras?

 

R – Ih, entrou num campo perigoso, mas isso nunca deixou de existir, você sabe que todo adolescente a primeira coisa que ele começa quando ele sai daquela fase da infância pra adolescência é querer se auto-afirmar e a primeira coisa que ele procura é arrumar uma namoradinha e isso…

 

P/1 – E como é que era?

R – Ah, aí era uma coisa meio difícil, porque eu acho que eu não tinha muito juízo na época, então eu não queria namorar uma só não, eu queria namorar umas três ao mesmo tempo, só que eu quase me estrepei por isso.

 

P/2 – É mesmo?

 

R – Bom, eu namorava três meninas, duas de uma escola e outra de outra e um belo dia ao saltarmos em Engenheiro Pedreira lá estavam as três me esperando e a pergunta tradicional: com qual você quer ficar? Nenhuma das três, uma olhou pra cara da outra, fizeram cara feia e saíram, e logo depois eu voltei a namorar as três, foi uma decisão rápida porque eu estava em xeque naquele momento.

 

P/1 – Qual é o nome delas?

 

R – Zélia, Sueli e Maria de Lourdes.

 

P/1 – Mas o pessoal falava tanto que namoro era namoro de portão e você já estava logo namorando três?

 

P/1 – É, mas esse namoro de portão era gostoso, porque os pais sempre achavam que eram amiguinhos que estava ali, na realidade era namoradinhos e como morava uma distante da outra, embora na mesma localidade, ninguém se importava, um dia eu estava num lugar e o outro dia eu estava em outro.

 

P/1 – E tudo indo de bicicleta?

 

R – Não, tinha outro veículo, às vezes quando você queria marcar assim... Como papai, naquela época, já tinha animal, tinha um cavalo, a gente ia pra cachoeira, eu ia a cavalo porque era mais prático, porque não cansava tanto.

 

P/1 – E me fala uma coisa dessa época aí, as músicas, os filmes que você assistiu e gostou.

 

R – Eu gostava muito de assistir aquele roqueiro, o Elvis Presley, achava muito gostoso aquelas músicas dele, mas não lembro quase nenhuma delas. Eu gostava muito de assistir principalmente os filmes com ele.

 

P/1 – E tinha bailinho? Festas?

 

R – Ah, quando mais tarde, uma adolescência maior criava-se muito festa americana, escolhia sempre a casa de alguém pra fazer uma festa americana, como as famílias preferiam que as filhas principalmente estivessem dentro de casa cediam a casa pra que nós fizéssemos as festas americanas.

 

P/1 – E o que eram essas festas americanas?

 

R – Festa americana, naquela época, cada um levava uma bebida e uma comida e ali se ouvia música, dançava, bebia e comia, essas eram as festas americanas daquela época.

 

P/1 – E as músicas eram Elvis? Esses rock and roll assim?

 

R – É, eram essas músicas daquela época. 1965, 64, 63 por aí assim, porque eu não recordo de todas as músicas daquela época, mas tinha muita gente, como eles chamavam, as músicas bregas também que já existiam que era Vicente Celestino, Ataulfo Alves e aquelas músicas daqueles... Então já se chamava aquilo de brega, naquela época, hoje já muito mais brega.

 

P/1 – Vicente, me conta. Daí você estava em Queimados, foi lá cursando a escola e aí entrou pra Contabilidade, como é foi isso? Que vontade foi essa de fazer Contabilidade?

R – A contabilidade apareceu pela facilidade de você ter um emprego melhor, era bem mais fácil, naquela época, você formado em uma profissão em nível de segundo grau do que você não ter nada, porque o que existia naquela época? Contabilidade e parece que Eletrônica e Magistério, eram as opções da época. Mas eu nunca quis ser professor, então eu optei pela Contabilidade e foi onde que eu criei o primeiro escritório de Contabilidade de Engenheiro Pedreira que chamava ROVIL era Roberto e Vicente. Foi dali que eu comecei a ganhar meu dinheiro próprio, foi dali que aprendi a criar meu vício de fumar, na época, que só duraram alguns anos também. E como foi construído um escritório de contabilidade, porque por desavença entre eu e meu sócio eu acabei largando a Contabilidade de lado, ele continuou a carreira e se formou em Advocacia, existe o escritório até hoje em Engenheiro Pedreira, os filhos tomam conta, porque ele não existe mais e eu segui outra carreira. Peguei o que era meu e dei pra minha irmã, ela continuou com a parte de contabilidade diferenciada e eu fui seguir a profissão de ser bancário, só realmente voltando a incorporar como dizemos na gíria, o Magistério por necessidade de desemprego. Foi aí que apareceu a oportunidade de trabalhar na área de educação, porque eu estava desempregado.

 

P/1 – Você foi trabalhar no Banco, aí ficou um tempo…

 

R – Onze anos e seis meses.

 

P/1 – E aí você saiu por quê?

 

R – Me mandaram embora, recessão da época.

 

P/1 – E como é que foi? Você viu um cartaz falando de Magistério e você foi atrás?

 

R – A faculdade eu já havia terminado, eu terminei a faculdade em 1978, mas com aquela cabeça voltada pra: “eu não quero ser professor”, a minha esposa... Já casados, ela ingressou no caminho do Magistério, mas sempre dizia pra mim: “vamos, entra”. Eu falava: “não, isso aí não foi feito pra mim” e quando eu fiquei desempregado eu fui trabalhar em várias outras coisas menos no Magistério. Aí em 1990 não teve mais jeito, um colega que tinha feito faculdade comigo, que era professor do colégio Fausto Cardoso, ele telefona pra mim e diz assim: “entreguei o lugar e indiquei você” e desligou o telefone. Aí eu apareci na escola pra dizer ao dono do colégio que eu não queria e o dono do colégio por sua vez me aplica aquela velha peça “só um instantinho” quando ele me atendeu ele falou: “vem cá comigo” entrou na sala e disse assim: “esse é o novo professor” virou as costas e saiu e me deixou na mão. Eu nunca tinha dado aula na minha vida, era formado, mas nunca tinha dado aula, e aí? O desespero total uma sala olhando pra você e você olhando para uma sala, assim eu passei dois tempos de aula, eu muito mal, cumprimentei a turma.

 

P/1 – E aí como é que foi a turma?

 

R – A turma ficou sem entender nada, porque imagina um professor sendo apresentado e nada falar com certeza, eles pensaram naquele exato momento que eu era um maluco e mais nada, mas passei dois tempos de aula apenas só cumprimentei a turma e mais nada, porque eu nada fui fazer ali pra ser professor, mas acabei voltando no outro dia e estou até hoje dentro do Magistério.

 

P/1 – E me conta uma coisa, você formou em Biologia quando você estava trabalhando como contador ou quando você estava no Banco?

 

R – Quando eu estava no Banco, como bancário.

 

P/1 – E como é que foi essa decisão de fazer Biologia?

 

R – A decisão de Biologia partiu de sempre ter interesse em pesquisas, eu sempre, na minha cabeça, achava que eu teria que ser um pesquisador, mas de uma família pobre, morando num local distante, sem meios nenhum a vida é um pouco difícil. Pra você ver quando eu fazia o segundo grau eu saía de Engenheiro Pedreira às quatro da manhã pra pegar oito horas aqui no Rio de Janeiro, porque o trem era escasso, se você perdesse o de quatro e quarenta, você não conseguia nem às dez horas aqui, porque o trem naquela época era um problema sério, você, às vezes, levava da Central do Brasil a Japeri quase cinco horas de viagem. Então eu tinha que vir trabalhar no Rio de Janeiro, eu trabalhava o dia inteiro pra voltar a noite saltar em Nova Iguaçu e fazer o segundo grau. Mas eu sempre com aquela mente voltado para o campo de pesquisa, porque eu sempre achei bonito, eu nunca tinha participado de nada, mas achava bonito, aí quando eu fui fazer a faculdade eu cheguei pra secretária, a Miriam da UNIG, e perguntei a ela assim: “o campo de Biologia que vocês têm é voltado pra pesquisa? Ela virou pra mim e falou: “é”. Eu falei: “então me inscreve neste curso”. E fui fazer a prova, passei aí fui fazer a faculdade e quase dois anos depois ela mesma entra em sala de aula e diz: “aquilo tudo que foi feito para campo de pesquisa da faculdade não existe mais, daqui vocês vão sair formados para o Magistério”. Quer dizer, uma ducha de água fria, mas você também não poderia perder aquilo tudo que você já tinha conquistado até ali. Então eu segui adiante, eu segui adiante sabendo que eu estaria me formando para não trabalhar no Magistério, mas mesmo depois de formado eu tentei algumas pesquisas locais para trabalhar, mas não conseguia porque o campo é muito fechado, principalmente no Brasil e vocês sabem disso melhor do que eu, que o campo pra pesquisa é fechadíssimo, quem está não sai, abrir espaço não se abrem, então fica difícil.

 

P/1 – E o que você gostava de pesquisar na Biologia?

 

R – Olha, na realidade eu acho que eu gostaria de viver um pouco mais para me emburacar pra dentro da Biologia Marinha, porque eu acho que é um campo onde temos muito ainda para aprender. Mas eu fiz um estudo na época da faculdade, no início principalmente, porque era voltado pra isso, eu passei dias e dias, fim de semana é lógico, deitado no meio do mato estudando cupim, estudando a formiga e estudando a abelha, eu e um grupo nós passamos quase uns quatro meses fazendo isso, estudando os cupins, as formigas e as abelhas. E o mais engraçado foi o dia que nós chegamos em um apiário e lá estava um rato dentro de uma colméia, tinha entrado aquele dia. As abelhas com a inteligência fantástica, elas mataram o rato e embalsamaram o rato, o rato estava dentro da colméia sem ter deteriorização nenhuma e ali ficou como enfeite. Eu não sabia que a abelha tinha esse poder todo, foi naquele dia que eu aprendi.

 

P/2 – Vicente, me fala uma coisa, você falou que gosta de Biologia Marinha, você ia muito pra praia quando você era pequeno? Jovem?

 

R – Eu gostava muito de ir pra cachoeira e ali eu ficava admirando aqueles animais que existem, não sei se você sabe que a cachoeira também é rica em animais aquáticos, principalmente a lagosta, o camarão é muito bonito. Mas hoje, nessa região nossa aqui,quase não tem mais cachoeira, mas lá em Jaceruba, daquela época, tinha muitos camarões, épocas que você pegava muito.   

 

P/2 – Você gostava de comer camarão também?

 

R – Eu não sou chegado a comer camarão, não, eu acho que é um prato que traz algumas consequências ao organismo, principalmente pra quem tem problema alérgico, e na minha infância, segundo minha mãe, eu tinha bronquite. Então eu já sabendo um pouco daquilo eu evito.

 

P/1 – Então eu vou voltar a quando você começou a lecionar. E aí como é que foi o primeiro dia, passou aquele furacão?

R – E eu fiquei sem dar aula naquele dia, apenas dei boa noite e até logo, mas jurei a mim próprio que não voltava mais dentro de uma sala de aula, fui pra casa... A escola Fausto Cardoso fica, não sei se ainda existe, fica localizada dentro daquela favela aqui do melhoral na Avenida Brasil. Então eu fui pra casa chateado da vida, aborrecido porque o meu amigo tinha feito aquilo comigo e aquilo não poderia ter feito, porque eu não queria ser professor, aí dormi bem bravo mesmo e acordei pior ainda, eu falei: “nunca mais eu volto naquele colégio”. Foi mentira, ao entardecer estava eu lá preparando o material, preparei todo o material e voltei ao colégio pra dar a primeira aula.

 

P/1 – Que turma que era?

 

R – Era uma sétima série e uma sexta série a noite.

 

P/1 – E aí você começou a pegar certo interesse assim?

 

R – E estou até hoje, já faz dezoito anos.

 

P/1 – E você dava aula aqui no Rio de Janeiro ou lá em…?

 

R – Não, só na baixada, eu trabalhei em seis escolas durante o ano de 96, eu tinha seis escolas.

 

P/1 – Inclusive passou pelas escolas que você estudou, né?

R – Passei, eu passei pela... Ainda estou no Bernardino de Mello, até hoje, e no Manuel Pereira também, eu fui aluno do Manuel Pereira e trabalhei no Manuel Pereira dez anos, saí agora em 2006, entrei em 96 e saí em 2006. E no Centro Educacional Doutor Pedro Jorge também, em Queimados, só que lá a carga era muito puxada, porque de manhã eu trabalhava com Ciências e Biologia e a noite eu trabalhava com a turma de Enfermagem, Microbiologia, Anatomia, Estudos Regionais. Então a noite era a turma de Enfermagem e tem agora um grande número de enfermeiros formados por aí e visitava, a gente aproveitava porque fazia muitas visitas aos hospitais, nós íamos ao INCA, ao Hemorio, e também em alguns hospitais que a gente procurava em Paracambi, de pessoas de sistema nervoso. Não é bom chamar as pessoas que não são daquilo, porque não fica direito, então é sistema nervoso.

 

P/1 – E o que você gosta nessa trajetória sua? O que acha que é dar aula?

 

R – Olha, houve época que na realidade… Você lecionar era muito importante, mas o processo educativo hoje está trazendo uma desvalorização um pouco... Bastante em termos de aluno, por quê? Você vê, aqui no Rio de Janeiro está acontecendo a chamada aprovação automática, o aluno é obrigado a sair da quarta série sem saber ler e escrever e isso só tende a dificultar cada vez mais, porque o aluno vai para a quinta série e ele não sabe ler nem escrever. Na quarta série ele tem uma professora, na quinta série ele tem cinco ou seis professores, se ele não sabe ler e não sabe escrever o que ele vai entender? Esse processo, muitas vezes, é continuativo, ou seja, ele vai passando sem saber, ele vai chegar à oitava série e o que esse aluno sabe? Por linhas de pensamentos em que eu não sei te dizer se está certo ou está errado. Foi excluída do curso a leitura obrigatória, foi excluída a tabuada, o aluno não tem obrigação de saber tabuada hoje, como ele vai chegar pra fazer um cálculo se ele não sabe multiplicar? Não sabe subtrair, não sabe dividir, não sabe nada, como é que fica? Então esse problema está sendo muito difícil, mas eu acho que a tecnologia ajudou bastante, mas também trouxe complicação, porque hoje ele mexe no computador, ele tem tudo, ele não tem uma preocupação de ler um livro para pesquisar o que ele quer, ele chega na internet baixa ali e tem tudo, ele não quer saber se aquilo ali está certo, ele não quer ler, então ele vai aprender o quê? Não é difícil? Mas eu acho que se mudarmos essa política de educação nós podemos acabar com esse processo aí, de termos pessoas formadas, mas sem cultura.

 

P/1 – E sobre as suas aulas de Ciências, Biologia também que você lecionava pouco, né? Como você prepara essas aulas? O que você pensa pra…

 

R – Olha, eu procuro trabalhar sempre de acordo com o que a comodidade me oferece, ou seja, o que o município tem para oferecer, porque eu não posso jogar na mão dos meus alunos que moram em Engenheiro Pedreira determinadas situações em que não estão acostumadas, ou seja, você já imaginou eu pegar um aparelho de microscópio e colocar pra eles tudo aquilo ali, que tem uma célula, que tem uns animais. Como é que eu vou fazer uma dissecação, mostrar como é um peixe internamente, como é que é um sapo que seria o correto, você trabalhar isso em laboratório, mostrar os órgãos, se na realidade eles não estão preocupados com isso, porque a maior parte dessas crianças hoje, já tem tudo ali na televisão, já tem tudo ali na internet. Então fica muito difícil, hoje se vocês observarem os laboratórios de anatomia estão quase todos com pouco funcionamento por causa dessas facilidades que o aluno hoje tem, a tecnologia hoje…

 

P/1 – Então o aluno hoje, ele mudou um pouco?

 

R – Mudou bastante.

 

P/1 – E você acha que a escola está preparada pra isso? Essa…

 

R – A nossa não, a nossa tem muito ainda a preparar.

 

P/1 – E essa preparação você acha que poderia ter qual sentido?

 

R – Eu acho que se nós tivéssemos realmente aquilo que eu falei ali fora, há poucos instantes, um laboratório de informática onde pudéssemos trabalhar a realidade com os alunos, nós teríamos um proveito melhor porque é isso que eles gostam. Então você tinha que usar na realidade o que eles gostam, que é mexer no computador para aplicar os ensinamentos e isso nós não temos lá na nossa escola, não temos. Nós não temos um laboratório, não é que não temos um laboratório, nós temos um laboratório com dez máquinas, mas na sala nossa na realidade são quase cinquenta alunos, como é que ficaria? Se eu for com uma turma de dez alunos para... Quem vai ficar com o restante? Nós não temos recurso pra isso. Então o que nós temos? Cuspe e giz, essa é a nossa realidade.

 

P/2 – Você já deu algumas aulas diferenciadas com o computador?

 

R – Olha, nós já trabalhamos porque eu tenho sempre DVDs do corpo humano, eu tenho DVDs, vamos dizer, da vida animal todinha pros alunos de sexta série, eu tenho, só que nós não temos como trabalhar isso. O problema é que nós não temos como trabalhar, o nosso laboratório lá na escola é pequeno, tem dez máquinas, então como é que você vai trabalhar isso? Nós teríamos que ter pelo menos uma sala maior pra você colocar uma turma realmente, de trinta alunos onde você pudesse desenvolver isso. Talvez se nós tivéssemos essas tecnologias bem mais avançadas na nossa região nós teríamos aluno melhor preparado, disso não tenha sombra de dúvida, porque eles saem dali e vão diretamente para uma Lan House, qualquer pouquinho de dinheiro que eles têm correm pra uma Lan House, então por quê? Porque aquilo ali chama a atenção deles, não chama? Então por que nós não podemos ter isso também?

 

P/1 – E o que te cativa hoje, nesse tempo todo, a continuar lecionando?

 

R – Isso é uma pergunta até muito difícil pra responder, o que me cativa hoje dentro de uma escola? É tentar um futuro melhor pra essas crianças, por que nós brigamos com esses nossos prefeitos, esses nossos governadores, é exatamente pra ter uma qualidade melhor para essas crianças porque eu já cheguei aos 62 anos e essas crianças, o que será delas? Vão viver de quê? Qual o caminho que eles têm? Você vê, no Engenheiro Pedreira hoje nós temos uma coisa que eu sou contra, o presídio. Pra que termos um presídio num local difícil? Um local que não tem vida própria ainda, pra que termos um presídio? Se a criança já se espelha em tanta coisa errada ainda vai se espelhar mais no presídio, por que não termos escolas de qualidade? Por que não termos centros esportivos de qualidade? Porque você vê essa equipe de atletas que foram para a china, quantas crianças resolveram querer ser atleta também em prol desses nossos atletas, se nós tivéssemos bastante material de qualidade não chamaria a atenção dessas crianças também? Você chega para um aluno de oitava série e pergunta: “o que você pretende na vida”? “Não sei”, se tivesse já desde novo acompanhando um centro esportivo, umas tecnologias melhores eles já não teriam um discernimento melhor. É isso que está faltando, qualidade pra nós.

 

P/1 – E Vicente, me conta uma coisa, o que o Bernardino de Mello mudou de quando você estudava pra hoje, nesse sentido também das aulas? Dos professores? Dos alunos?

 

R – Da minha época pra cá o Bernardino mudou em quê? O Bernardino hoje é apenas uma estrutura maior com centro de computação com poucas máquinas, mas tem. Mas os recursos do Bernardino ainda são pequenos, então eu quero dizer pra você que em termos de mudanças educacionais foram poucas, poucas mesmo e inclusive até no tipo de alimentação das crianças foram pequenas, pequenas mesmo, ainda o município sofre com problema administrativo.

 

P/1 – Você conhece o programa “TôNoMundo”?

 

R – Não, ainda não, inclusive eu falei contigo ali fora aquela hora que eu não conhecia, porque na realidade o Antônio que sempre esteve junto com vocês nesses projetos todos e de repente ele olhou pra mim e disse: “Pô Vicente, eu preciso de você, eu quero que você entre nisso conosco” foi onde eu fui conhecer vocês naquela primeira entrevista.

 

P/1 – E mudando um pouquinho de assunto, o que o Vicente, sem ser o Vicente professor, o que o Vicente gosta de fazer? A gente viu muita foto ali que de jovem você já gostava muito de dançar, futebol, subir em árvores, ficar na estação, encontrar amigos e agora o que você tem feito? Quais as atividades?

 

R – Hoje eu sou um amante da leitura, hoje eu gosto de ler bastante, gosto de assistir bons filmes, boas partidas de futebol, principalmente porque ainda está incluído ou embutido dentro do personagem, mas hoje, na realidade, se eu tivesse que fazer alguma coisa eu ia recriar uma escola padrão, aquilo que eu posso chamar de qualidade para um futuro melhor, isso sempre respeitando a tecnologia porque ela está aí pra isso. Mas o Vicente realmente gosta hoje é de uma boa leitura.

 

P/1 – O que você tem lido de bom Vicente?

 

R – Olha eu tenho... Eu estou com dois livros lá em casa que inclusive eu tenho que lê-lo porque eu ganhei de presente, é “O Caçador de Pipas”, está lá em casa para eu ler, porque eu não consegui ainda terminar, e esse que está aí comigo que é “Jesus o Mestre dos Mestres”, mas li “Jesus um Bom Filósofo”. Leio muitos romances espíritas, porque eu gosto, acho que ele traz ensinamentos, mas gosto de outros tipos de leitura também, eu só não gosto de leitura em que traz violência, isso nunca foi o meu forte.

 

P/1 – Me conta uma coisa Vicente, você é casado?

 

R – Sou.

 

P/1 – Me conta como você conheceu sua esposa? Ou melhor, antes a família da esposa?

 

R – Bom, quando eu tive escritório de contabilidade, eu já conhecia o senhor Manuel Ferreira, o pai da Marcia, e Dona Rute - Marcia é minha esposa - eu já conhecia a Dona Rute, porque ela fazia parte da direção do Bernardino de Mello e senhor Manuel Ferreira era fiscal da prefeitura de Nova Iguaçu, na época. Como eu tinha escritório de contabilidade um fiscal sempre estava batendo lá pra... Então nós realmente tivemos uma grande amizade, mas eu não conhecia a Marcia, eu conhecia os pais dela e como era cidadezinha pequena, tudo o que eu disse de atividade em prol da cidade eu estava no meio, haja vista que eu fiz parte das primeiras passeatas, eu fiz parte das primeiras manifestações de greves com relação a trem, ônibus, Dutra, Light, que não tinha, e tudo eu estava ali presente. As primeiras enchentes onde tivemos que fazer socorro a uma porção de gente estava eu lá presente, ao primeiro jornalzinho estava eu lá presente e... Podia ser num clube também lá, estava eu presente. E nesse dia eu era o responsável pelo baile, então a Marcia tinha uma prima que estava passeando na casa dela, eu falei: “por que vocês não vão ao baile hoje”? Elas viraram e falaram: “Falta companhia.” Bom, lá foi o Vicente buscar elas pro baile e trouxe pro baile, passaram a noite ali no baile e de manhã cedo logicamente eu tive que levá-las pra casa e nesse meio tempo surgem algumas brincadeiras, algumas perguntas, e alguém me pergunta se eu queria namorar com ela e estamos até hoje.  Começamos a namorar e estou casado há 31 anos, vou fazer 32 anos.

 

P/1 – E a família gostou?

 

R – Essa é uma pergunta meio difícil, porque a minha sogra disse que gostou, o pai dela faleceu ano passado, mas a minha sogra está constantemente na minha casa, então eu acredito que ela não tem nada contra e por sua vez depois disso, dessa união toda, eu tenho duas lindas filhas, uma casada e uma solteira que também já me deu um neto que agora é o meu rei, ele tudo agora é vovô, vovô e aí o vovô tem que estar aí com ele, e o vovô bajula muito ele.

 

P/1 – Como que ele chama?

 

R – Artur.

 

P/1 – E me conta uma coisa, você falou que participou de movimento grevista, inundação, primeiro jornalzinho, qual é a história do jornalzinho?

 

R – O jornalzinho surgiu pela necessidade de nós termos, em Engenheiro Pedreira, um veículo de comunicação, então surgiu essa idéia de montar, criar um jornal, aí juntou Dona Rute, a minha sogra hoje, e os outros colegas, nós que tínhamos o escritório de contabilidade, eu e o Jamil Roberto juntamos mais outras pessoas e... Dona Rute era aquela pessoa que tinha um mimeógrafo, então ela não podia deixar de fazer parte desse grupo. O escritório era porque tínhamos a máquina de escrever, então não tinha que ser diferente. Aí vamos elaborar um nome para o jornal, era numa época em que se falava muito em foguetes espaciais, por que não colocar o nome de foguete? Aí desenharam um foguete e ali ficou o nome do jornalzinho O Foguete, esse jornalzinho era quinzenal me parece, de quinze em quinze dias saía um jornalzinho daquele que era rodado lá na casa da minha sogra hoje e distribuído aos outros, é lógico que no início foi distribuído gratuitamente, depois começamos a ter patrocinadores do comércio local, mas aí ficou por um bom período. Depois, por falta também de incentivo acabou deixando de existir o jornal, mas o número um dele eu tenho aí.

P/1 – O que era... Vocês pensavam a pauta juntos do primeiro jornal? Como é que foi isso? O que ia sair? O que não ia sair?

 

R – Houve uma tese... Inclusive nós tínhamos um senhor que ele era um comerciante da localidade e era político, queria ser político, chamava Souto, João Santos Souto, tem até um colégio em Engenheiro Pedreira em homenagem a ele. Mas ele era uma pessoa de uma sabedoria muito boa. Ele escrevia pra jornalzinho Souto, Passo a Passo para o Progresso e muitos outros começaram a escrever pro jornal e nós selecionávamos essas matérias para poder ser datilografada e depois rodada. Então nós fazíamos isso junto com todos e todos ali presentes selecionando, e a Dona Rute fazia a pauta da correção, porque como professora da época ela fazia um pouco da correção da... Tinha outro, tinha o Luís Carlos também que era professor que mora aqui no Rio de Janeiro, mas na época morava lá, ele também ajudava na correção e nós tocamos esse jornal por um período bom e depois acabou parando mesmo.

 

P/1 – Você disse que ia contar pra gente uma história dos movimentos grevista que você participou.

 

R – O maior deles foi quando nós... Aliás, têm dois bons, quando nós paramos a Dutra, nós reivindicávamos ao governo estadual da época, um viaduto ali porque a saída de Engenheiro Pedreira saía diretamente na Dutra, ali tinha um... Depois mais tarde foi construída uma grande churrascaria que chamava Zé do Pipo, mas antes era de difícil acesso, porque as ruas não eram calçadas como são a maioria, mas aquela via principal da Dutra até o centro de Engenheiro Pedreira, você chegava à Nova Iguaçu, mas não chegava ao centro de Engenheiro Pedreira por causa da quantidade de buraco existente, tinha vezes que o carro sumia dentro do buraco de tanto buraco que existia. Toda vez que alguém saía ali era uma situação muito difícil, porque acabava em atropelamentos e constantemente havia mortes ali. Então nós paramos, fechamos a Dutra com essa proposta de reivindicarmos um viaduto para ali, proposta essa que na época foi mostrada em televisão e tudo, mas que não saiu do papel dos governadores daquela época e depois os que vieram após. Esse foi o primeiro movimento que nós paramos realmente a Dutra e éramos quase mil pessoas, naquela época. Existia aquele problema da Reforma Agrária, então aqueles grilheiros usavam foices, usavam facões, machados e eles apoiaram, porque eles eram os mais prejudicados, eles escoavam a plantação deles pela Dutra e volta e meia alguém ficava por ali. E a outra foi quando o prefeito Ari Schiavo que tem lá no Município de Japeri, uma escola em homenagem a ele, ele era do Japeri, porque não era Município na época, ele era prefeito de Nova Iguaçu. E nós fomos reivindicar exatamente em um comício dele a luz para Engenheiro Pedreira e acabou emprestando. Foram dois movimentos em que eu participei e o da luz foi muito parte da minha sogra, ela foi parar em Brasília para conseguir a luz para Engenheiro Pedreira, mas mesmo com todos os processos burocráticos da época, ela conseguiu ainda trazer pra Engenheiro Pedreira a luz que está lá até hoje.

 

P/1 – E como é que está Engenheiro Pedreira hoje? A estação de trem? Os pés de laranja?

 

R – Hoje nós não temos, em Engenheiro Pedreira, mais plantações de laranja nenhuma, aqueles laranjais da época hoje viraram campo de golfe, hoje virou lixeiro, onde é o depósito de lixo, hoje viraram terrenos que foram loteados. Então os laranjais da época acabaram todas, não existe mais nenhum, agora com relação a estrada de ferro houve uma melhora bem acentuada, porque o trem daquela época parava em cima... Eles criavam um amontoado de dormentes que eram madeiras grandes que serviam de apoio a linha do trem e ali o trem parava exatamente a porta naquele pedaço. Então só tinha que entrar e sair, hoje não, hoje nós temos uma linha de trem realmente com suporte, uma estação que poderia estar melhor, mas com um suporte, porque Engenheiro Pedreira hoje tem uma população, eu acho que diariamente em torno de quase cinco mil pessoas na entrada e na saída de Engenheiro Pedreira por dia, acredito eu que se não tiver um pouco mais. Pra você ter uma idéia,  funciona uns cinco guichês de manhã cedo e, às vezes, você chega lá de manhã como eu e tem uma fila imensa na passarela pra comprar o ticket pra passar nas roletas eletrônicas. Hoje as supervias que administram a rede, ela ainda tem muito a fazer, mas a situação é bem melhor do que aquela do passado. Agora uma coisa bastante interessante da linha de ferro é que quando foram fazer a estrada de ferro que ligava Nova Iguaçu a Japeri morreram cinco mil chineses com malária, a malária era muito grande na época da construção da estrada, então morreram cinco mil chineses com malária, está escrito em livros, mas por quê? Porque aquela área era quase toda pantanal em volta de onde foi construída a estrada de ferro.

 

P/1 – Vicente, me conta um pouco mais sobre seus planos, suas perspectivas?

 

R – Bom, a minha verdadeira perspectiva hoje está voltada para eu poder adquirir, levar essa missão de educando com melhores condições, isso por quê? Porque eu brigo muito com meus alunos com relação a não saber as quatro operações, eu não posso ensinar Física sem eles saberem as quatro operações, porque eu dou aula de Física na oitava série, então eu brigo muito. E a maior perspectiva minha nesse momento é fazer com que eles aprendam as quatro operações, porque é o futuro deles, imagina sair da oitava série e alcançar um segundo grau sem saber as quatro operações? De que ele vai viver? O que ele vai fazer, entendeu? Mas não pretendo parar de trabalhar não, muitos alunos comentam: “pô professor, porque você não aposenta”? Eu ainda me considero muito novo pra isso, só quando papai do céu não me deixar mesmo mais trabalhar, aí não tem jeito, mas se ele deixar eu quero trabalhar até o último dia de vida, porque faz falta não só financeiramente, mas faz falta para o desenvolvimento intelectual teu, você precisa estar com essa movimentação, porque se parar uma coisa para tudo e eu não quero ser um cara parado, tanto é que eu caminho todo dia.

 

P/1 – Vicente, você é uma pessoa que cresceu, investiu e está lá em Engenheiro Pedreira, tem toda uma trajetória, você já pensou em sair de lá? Você já teve essa idéia de se mudar de lá?

 

R – Já, e eu só não fiz ainda porque eu tenho uma filha solteira e ainda é como eu costumo dizer, o meu xodozinho, ela tem 27 anos, mora comigo e tem a minha mãe que tem 82 anos e que mora comigo também. Quer dizer mora na casa dela, mas no mesmo terreno e eu tenho um carinho muito grande por ela, mas se eu tivesse condições de fazer tudo aquilo que se imagina eu queria ir embora sim, mas eu queria ir embora não diretamente, mas queria ir embora para outra área pra começar talvez um trabalho diferente, eu queria ir pra região dos lagos, principalmente para Rio das Ostras. Eu acho que Engenheiro Pedreira está crescendo, tem muito pra crescer, mas ainda falta maior e melhor administração para o Município, nós vamos ter dentro dos próximos anos, porque parece que até 2015 ou dezesseis o arco rodoviário que vai ligar Rio Bonito a Sepetiba e a base vai ser Japeri, a base desse pólo. Então vai ter uma tendência muito grande se os administradores aplicarem corretamente os recursos que vierem para o Município, nós teremos um Município bem desenvolvido, mas isso vai depender dos administradores. Eu gostaria de estar lá pra ver esse crescimento.

 

P/2 – Eu queria fazer uma pergunta, você trouxe um filme pra gente de 1953, que filme é esse?

 

R – Esse filme... A avó da minha esposa tinha um cineminha em Engenheiro Pedreira e um belo dia ela resolveu rodar um filmezinho do lugarejo e ela fez isso, inclusive mostra no filme as crianças do Bernardino de Mello se deslocando para a parada de sete de setembro em Nova Iguaçu. As crianças vindo em caminhão aberto, olha o perigo, na Dutra aquelas crianças em caminhões abertos, então mostra isso no filme e alguns comércios daquela época, alguns até ainda se lembram, têm bastante lembrança deles, outros a gente já não tem mais essa lembrança.

 

P/1 – Os seus amigos de infância, eles estão lá junto com você? Morando por perto?

 

R – Alguns, outros já se foram.

 

P/1 – Vicente que queria saber se você gostou de fazer esse...

R – Olha, eu na realidade fui pego um pouco de surpresa pra isso tudo, mas eu acho que se tivermos outras oportunidades, acho que novas coisas irão aparecer, porque nem tudo... Eu já te falei que vou escrever a memória do Vicente, mas não sei quando, um dia ainda vou escrever essas memórias, porque falar de Engenheiro Pedreira hoje é fácil, eu quero ver falar de Engenheiro Pedreira naquela época que eu cheguei lá, em 56. O difícil é guardar aquilo tudo, porque eu ainda tenho alguma coisa guardada aqui, mas não sei até quando.

 

P/2 – De onde veio essa vontade de guardar as coisas? De tomar esse cuidado?

 

R – Na realidade eu queria saber se eu realmente queria ser historiador ou biólogo, porque eu tenho mais coisas de História do que de Biologia, eu tenho armazenado muito mais conhecimento da história de Engenheiro Pedreira do que da própria Ciência em si. Eu tenho muitas histórias de Engenheiro Pedreira que talvez com o tempo vão se perder, porque é impossível armazenar tudo, mas seria bom que eu realmente resolvesse colocar isso num papel.

 

P/2 – Seria ótimo.

 

R – Olha, tem muita coisa de Engenheiro Pedreira que foi passado, eu falei dessa Águia de Haia, que coisa boa que foi aquilo, ali você reunia todo dia aquele pessoal que realmente tinha um pouco de cultura, naquela época. Mas aquilo acabou não indo pra frente, projetos difíceis porque você não conseguia meios para suporte, daquilo ali dificilmente você encontra alguém e quer ver um negócio. Esta foto a qual eu te falei ali fora que tem sessenta e poucos anos, eu fui ao vereador e mostrei aquela foto, falei com ele que eu rachava com ele a melhora daquela foto, ele até hoje está pra me dar a resposta e isso já vai para oito anos. Então é muito difícil você tirar do teu bolso trezentos ou quatrocentos reais faem falta, então pra mim realmente recuperar aquela foto, eu vou ter que fazer aquilo que você me sugeriu, ir lá no... Para tentar recuperar aquela foto, porque aquela foto pra mim é uma riqueza, eu sei cada detalhe daquilo ali. Tem a estação, tem a caixa d’água que mantém a estação, a subestação de eletricidade da Rede Ferroviária, eu tenho ali a primeira Igreja Batista lá no alto do morro, Batista ou Assembléia de Deus, eu tenho ali algum comércio que não existe mais, que eram aqueles comércios antigos que existiam na época de Engenheiro Pedreira. Então aquilo ali pra mim é uma memória boa, mas vai se perder com o tempo se eu não tentar recuperar aquilo ali, não é falta de vontade de recuperá-las, não, a gente tem, só que falta o dinheiro pra recuperar aquela ali e tem que ser realmente alguém que entenda, porque é uma foto muito antiga, tem sessenta e pouca coisa já, eu acho que é mais velha do que eu, desconfio que aquela foto é mais velha do que eu.

 

P/2 – Vicente tem alguma história que você andou nesse caminho que nós nos esquecemos de perguntar?

 

R - Realmente tem muita coisa, mas o que você realmente não perguntou foram as épocas de adolescência de carnavais, essa época era uma época muito gostosa, porque nós saíamos de Engenheiro Pedreira para brincarmos carnaval em Santanésia. Olha, eu mudei de Santanésia pra vir pra Engenheiro Pedreira só que lá se criou dois belos clubes e Engenheiro Pedreira não criou nada. Então na fase de adolescência, carnavalesco, eu sempre gostei - hoje eu abandonei tudo - nós íamos para Santanésia para brincar carnaval e eram quatro dias e quatro noites direto, a gente só dormia na quinta feira, o resto era carnaval, porque lá tinha, não sei atualmente, mas existia um bloco...  A noite era clube e durante o dia eram blocos, então por onde... Se a gente ia num bloco pra lá e um caminho nosso era pra cá a gente voltava no bloco pra cá no outro bloco que estava vindo. Então tinha um bloco chamado tromba d’água onde todo mundo bebia e aquilo era o melhor bloco que tinha, porque era um bloco descontraído, alegre, para aquela rapaziada lá de Santanésia se vestia assim a título de mulheres, as mulheres se vestiam de homem, era um bloco alegre, porque era de uma comunidade única, não tinha diversificação. Então nós íamos passar o carnaval lá e era muito gostoso, porque tinha mulher às pampas, a coisa mais bela que tinha lá era isso, muita gata, depois de casado acabou tudo. Mas eu aproveitei, só me casei com 31 anos. E Mendes também tinha um ótimo carnaval, embora eu tenha nascido em Mendes, eu brinquei muitos carnavais em Mendes, mas o nosso centro de carnaval mesmo era Santanésia, aliás, uma história muito boa que você se algum dia tiver oportunidade, vai a Santanésia e procura um lugar chamado Fazendinha e descobre porque lá tem uma sepultura trancafiada cheia de corrente em volta, não sei te explicar a razão. Tem a sepultura que é cheia de correntes com cadeados, está lá no cemitério da fazendinha, eu não sei te explicar a história, porque Santanésia tem muitas histórias, não sei se vocês já conseguiram ler, porque tem livros. Eu não sei o título do livro que Santanésia era o centro comercial de Minas e Rio de Janeiro. Então todos aqueles vaqueiros que conduziam bois pro Rio de Janeiro dormiam naquela fazenda em Santanésia, hoje ainda tem lá as fazendas. Mas conta-se a história que ali existiu um dono de uma fazenda chamada Capitão Mata Gente e que ele construía... A fazenda ficava em cima do Rio Piraí e ele construiu uma cama que era uma guilhotina, então os caras chegavam ali e acampavam a noite na fazenda pra no outro dia virem pro Rio de Janeiro e a noite aquele cara responsável por aquela carga era morto e o corpo não aparecia, porque a cama era uma guilhotina e caía o corpo já decepado dentro do rio e ninguém nunca sabia. Então foram muitos roubos de grandes manadas que ficaram em poder desse fazendeiro, segundo as histórias, até que foi descoberto e o mataram também, mas isso diz que tem muito tempo, são histórias de Santanésia.

 

P/2 – E o acorrentaram?

 

R – Ele eu não sei se foi acorrentado, mas a fazenda eu sei que existe lá, porque não era dele, era outra e está lá um corpo qualquer no caixão sei lá na sepultura acorrentada, ainda existe lá isso. Você pode ir lá descobrir essa história.

 

P/2 – Você sabe por que chama Santanésia?

 

R – Não sei, aí eu não sei, isso aí realmente eu não sei, eu só sei que lá existe uma fábrica hoje, mas foi no passado uma das maiores fábricas de papel que produzia papel para a fábrica de cigarro Souza Cruz.

 

P/2 – E Engenheiro Pedreira você sabe?

 

R – Sei, Engenheiro Pedreira na realidade o nome antigo dela era Caramujo, porque Caramujo? Porque aquele rio que faz a divisória ali entre Engenheiro Pedreira e Queimados era cheio de caramujos, caramujos esses que eram contaminadores de esquistossomose. Então existiam ali muitos caramujos e eles chamavam aquilo ali de caramujo, todo mundo apelidou com a chegada da necessidade da construção daquela estação elétrica da Rede Ferroviária, o engenheiro responsável por aquilo chamava engenheiro Raul Pedreira e ele veio logo a seguir a falecer. Então a estação passou a se chamar Engenheiro Pedreira, mas a localidade começou a ficar sempre com aquele velho nome Caramujo, Caramujo até que a criançada crescendo, mudando aquela mentalidade passou-se somente a ser conhecido como Engenheiro Pedreira.

 

P/1 – Mas antes era Caramujo?

 

R – Igual tem aqui em Niterói um local chamado Caramujo.

 

P/1 – E Japeri você sabe?

 

R – Japeri se chamava Belém e Paracambi chamava Tairetá, agora o que você não sabe que, aliás, eu ainda me lembro disso que Japeri foi um grande centro comercial da estrada de ferro, ali em Japeri tinha hotéis, tinha restaurantes, era parada obrigatória dos trens que ligavam ao Estado de Minas Gerais e ao Estado de São Paulo, era parada obrigatória para os lanches, para almoço e dormidas, ali foi um grande centro comercial da estrada de ferro.

 

P/1 – Vicente você quer contar mais alguma coisa pra gente?

 

R – Só se eu começasse a lembrar, vocês vão puxando alguma coisa e eu vou lembrando, você viu que eu não tinha falado esse negócio de Japeri, mas você perguntou aí o negócio de Caramujo eu lembrei, está vendo? É que é muita coisa e você lembrar tudo de uma vez é muito difícil.

 

P/2 – A gente pode marcar mais umas próximas vezes.

 

R – Com prazer, eu falei pra você que ainda vou escrever um livro e você está me incentivando a isso.

 

P/1 – Quero lê-lo depois. Então a gente queria agradecer em nome do Museu da Pessoa…

 

R – Não me agradeça, não, eu fico feliz em poder colaborar com alguma coisa, eu gostaria realmente de poder estar colaborando melhor com vocês é uma pena que eu não tenha esses escritos todos se eu tivesse daria pra vocês com o maior prazer, mas eu não tenho realmente. Eu tenho muita coisa guardada realmente na memória é que pouca gente... É aquilo que eu falei pra vocês pouca gente lembra ou vai falar que ali existiu jacaré de papo amarelo, ali existiu aquela jaguatirica, aquela rapaziada de hoje não sabe que ali teve trens que hoje estão desativadas, as linhas têm casas onde era a linha que ligava Belfort Roxo a Japeri e pagava, naquele tempo, com a moeda, quinhentos réis, quantas vezes eu apanhei o trenzinho ali para ir pra Japeri,  dali pra gente ir pra Barra do Piraí. Quantas vezes eu e minha mãe fizemos isso e aquele trenzinho era onde escoava também a mercadoria que o povo produzia, aqueles agricultores faziam a escoação daquela produção deles para Belfort Roxo exatamente através daquele trenzinho. E que não se sabe por que parou como Jaceruba era um ponto lindo vai conhecer Jaceruba hoje não tem mais a beleza que já teve, mas vai conhecer a estação que ainda existe lá abandonada acho que virou moradia de mendigo, mas existe que foi também centro que escoava mercadoria, ali pra perto de São João de Meriti, eu esqueci o nome do lugar agora. Então ali existiam umas belas cachoeiras, Jaceruba teve uma linda cachoeira e hoje está um córrego com pequenas quantidades de água onde fizeram poços onde o pessoal se banha. Mas ali foi muito bonito, ali teve uma cachoeira realmente, é uma pena que eu nunca fotografei aquilo, como ali no K11, não sei se vocês tiveram a oportunidade de ver, a Globo já mostrou várias vezes, ali no K11 tinha uma cachoeira, hoje está lá um filete de águ, por quê? Porque o desmatamento foi assoreando tudo, acabando com tudo e vai se fazer o quê? A humanidade está destruindo tudo, mas tem muita coisa.

 

P/1 – A gente quer muito ir lá conhecer, agora com esse retrato todo que você passou pra gente dá mais vontade ainda de ir pra lá.

 

R – Terei prazer em te levar, é só você marcar que eu terei prazer em te levar lá em Jaceruba pra você ver que já foi bonito, hoje não tem mais a beleza e aquelas matas que tinha.

P/2 – A conversa está muito boa, mas a gente vai finalizando, eu queria agradecer mais uma vez...

R – Que isso! Eu já te falei pra não agradecer nada, por favor, eu fiz de bom coração, não sei se ajudei alguma coisa, mas é de boa vontade.

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