Busca avançada



Criar

História

Uma vida ao lado dos trabalhadores

História de: Ricardo Franzoi
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 15/05/2020

Sinopse

Nesta entrevista, Ricardo Franzoi conta sua história como funcionário do Dieese. Recém formado em Administração de Empresas e vivendo no período da ditadura militar brasileira, Franzoi decide fazer um curso de mestrado em Economia no México. Para tornar o sonho financeiramente viável, ele vai primeiro para o Iraque, onde trabalha na Embaixada e consegue dinheiro para ir ao México. Lá, conhece sua esposa e, após se formar mestre, retorna com ela para o Brasil. De volta a sua terra natal, inicia sua vida profissional ao lado dos trabalhadores na Cohab e, em 1985, inicia sua carreira no Dieese.

Tags

História completa

P1 – Eu queria que você começasse falando seu nome completo, local e data de nascimento.

 

R – Ricardo Franzoi, nasci em Porto Alegre, em 14 de outubro de 1952.

 

P1 – Ricardo, qual é a sua formação?

 

R – Olha, eu fiz uma faculdade de Administração de Empresas. No final do curso, eu já não estava gostando muito, mas achei que ia fazer um mestrado depois em economia, porque não estava querendo recomeçar. Depois fiz economia política no México, mestrado em economia política.

 

P1 – Conta pra gente como foi essa opção por economia política e essa experiência no México?

 

R – Então, a gente estava numa época muito complicada, né, porque teve o golpe de 1964. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul foi uma das mais atingidas pela ditadura, porque saíram muitos professores que eram considerados de esquerda, né? Nem todos eram esquerda, mas alguns, mesmo não sendo esquerda, na época, qualquer coisa que falasse diferente da ditadura, era considerado esquerda. Então, houve uma mudança na época muito grande na Universidade, a gente não gostava muito dos professores. Então, a ideia era buscar alguma coisa mais ligada, assim, com marxismo. Foi um pouco isso. Na época eu busquei fazer um mestrado que me desse uma formação um pouco mais ligada aos estudos marxistas. Foi por isso que eu resolvi ir pro México. Mas como eu não tinha dinheiro pra ir pro México, e o Brasil não ia financiar, até porque o México era considerado um país aberto pro terceiro mundo. Todo mundo das ditaduras do cone sul, os professores, estavam indo pra lá: Uruguai, Chile, Colômbia, Argentina. Todo esse pessoal foi pro México. O México era meio que um centro de efervescência. Acabei fazendo um concurso, juntei uma grana, trabalhei fora, no Iraque, na embaixada. E aí passei dois anos no México, por minha conta. Mas um pouco acho que é a tendência de vida que eu procurei. Sempre tive um lado social, sempre procurei olhar para essas coisas. Desde que me considero, assim, a pensar, sei lá, desde quando a gente é adolescente, minha vida sempre pautou por isso, de buscar alguma coisa que trouxesse benefícios sociais. Enfim, era considerado esquerda, mas não era muito radical. Mas minha vida sempre pautou por isso. E por isso essa questão de economia e de buscar um estudo, me formar pra isso.

 

P1 – Mas essa sua tendência a buscar essa coisa mais social, da área de humanas, tem alguma influência anterior da sua família, ou de amigos? De onde veio esse interesse?

 

R – Pois é, eu não sei muito. Na minha família, sim, porque sempre o pessoal discutia muito política e todo mundo era do PTB [Partido Trabalhista Brasileiro], na época. Que era do Getúlio, Brizola. Isso teve muita influência. Eu me lembro que quando tinha nove, dez anos, foi a campanha da legalidade. Era um clima bem pesado, da história do Jango. O Jango assumia, não assumia, foi pro governo do Sul. Me lembro que minha mãe chorava, a vizinha chorava, porque achavam que ia dar revolução, pessoas iam morrer. Meus tios envolvidos, já tinham idade, alguns no exército. Estava um clima pesado e sempre teve essa discussão. Então, sei lá, a família sempre influenciou nisso, porque o PTB era a esquerda na época. Aquela coisa do a favor dos pobres, tal. Acho que isso teve uma influência nesse aspecto. E depois, na adolescência, eu sempre me envolvi com essas pessoas, diretórios, sempre busquei esse lado mais de confusão.

 

P1 – Então, você fez o mestrado no México e depois veio pro Brasil?

 

R – Eu estudei lá dois anos, mas como não tinha bolsa, estava me mantendo com a grana que eu tinha economizado no Iraque. Trabalhava na embaixada, ganhava bem e foi também em 1978, 1979, quando teve a anistia. Então, estava todo mundo voltando pra cá, muita gente de lá estava voltando. E eu estava terminando o curso. O pessoal voltou na metade do ano e eu estava terminando no final do ano a parte teórica. Então, achei que estava na hora de voltar, porque estava a abertura, aquele clima legal. E era um negócio muito engraçado, porque minha mulher estudava e trabalhava lá, numa revista que era Terceiro Mundo, com um cara daqui do Brasil, o Neiva Moreira. Hoje ele está no PDT [Partido Democrático Trabalhista], nunca mais encontrei ele. Ela trabalhava nessa revista. Um dia eu fui lá buscá-la e os caras estavam lá. E só quem tinha sido anistiado era o pessoal que não tinha pegado em armas. Quem tinha pegado em armas não tinha anistia. E a gente estava lá, tinha uma reunião: “vamos voltar pro Brasil”. “Não, não posso voltar agora”. Não é porque eu tivesse pegado em armas, mas porque precisava terminar meu curso. Não tinha falado isso. “A gente vai voltar mais tarde”. E aí os outros: “a gente vai brigar por vocês”. Os caras acharam que eu tinha pegado em armas. Era um negócio engraçado. [RISOS] Os caras achavam que eu ia voltar mais tarde porque tinha pegado em armas. Não era nada disso. Aí voltei pro Brasil e também estava a história acho que do PT [Partido dos Trabalhadores], foi bem na época que eu estava no México que tinha essa história do PT. E eu tinha um amigo que acabou me influenciando muito, desde o diretório acadêmico. Ele ficava insistindo pra eu voltar. Ele que me arrumou a vaga no México. Ele voltou antes e quando eu cheguei, ele já estava voltando pro Brasil e aí também eu vim muito com ele. 

 

P1 – Ele te influenciava um pouco?

 

R – Sim, porque tinha aquela história de ser de esquerda, mas tinha também muito de amizade. Eu era do diretório da ECA, diretório de economia, porque as faculdades eram juntas: economia, administração e contabilidade. E ele era do diretório da PUC. E a gente se encontrava muito. Acabou se conhecendo e aquelas coisas. Torcíamos pro mesmo time. Enfim, acabou formando aquele grupo de amigos que trabalhava nessa história de diretório, mas depois a gente saía pra tomar cerveja, tomar vinho. Ele era muito engraçado.

 

P2 – Qual time?

 

R – Pro Grêmio. [RISOS] Na verdade, ele acabou influenciando muito tanto na minha ida pro México, quanto na minha volta pro Brasil. E também minha mulher estava grávida, ela engravidou e estava já quase tendo filho. A gente meio que voltou e nasceu depois de dois meses.

 

P2 – A sua mulher também tem esse engajamento político, essa preocupação?

 

R – Sim, sim. Ela também tem. Na verdade, a gente se conheceu na faculdade e ela não tinha muito. Era meio dondoca [RISOS]. Ela não era muito ligada nessas coisas, mas depois com o tempo foi. Até porque a gente conhecia as mesmas pessoas. No México foi trabalhar nessa revista Terceiro Mundo, fez teatro com um cara lá que é bem famosão, do exterior, agora não me lembro o nome dele. Mas é um cara bem famoso nesses teatros com participação popular e estava no México, na época. Fez curso. Trabalhava no teatro com a população mais pobre. Depois ela veio pro Brasil e fez mestrado em educação e está nessa área de educação pra trabalhador. Estamos na mesma onda.

 

P1 – Nessa época da sua formação acadêmica, você conhecia o Dieese [Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos]?

 

R – Não. Ali, não. Na época da formação acadêmica, não. Na verdade, no México, eu li algumas coisas do Dieese. Mas aí quando eu voltei pro Brasil, sim. Eu trabalhava na Cohab, tipo militante, era um trabalho de graça, na área rural. Nós criamos um grupo lá, que foi o Grupo de Estudos Agrários [GEA]. Na verdade, não tinha muitos estudos. Era mais de... Porque houve... O setor rural do Rio Grande do Sul, os sindicatos de trabalhadores rurais do Rio Grande do Sul são sindicatos muito à direita. Por quê? Porque como teve a história do MST, de movimento de sem terra lá, não o sem terra atual, mas aqueles primeiros movimentos de reforma agrária, a igreja entrou pesado lá no Rio Grande do Sul e começou a formar os sindicatos. Com medo de que os comunistas tomassem conta de todos os sindicatos. Então eles saíram abrindo sindicatos em tudo que é município. Tanto é que o Rio Grande do Sul tem mais de 400 sindicatos de trabalhadores rurais. É um sindicato por município, só não tinha mais porque não tinha mais municípios. Então, todo aquele pessoal ali era muito à direita. E aí nós começamos a formar um grupo e trabalhar com oposições sindicais dentro dos sindicatos rurais. Esse GEA fazia isso, né? Na verdade, trabalhava no fim de semana, porque durante a semana trabalhava na Cohab. Fazia algumas coisas à noite, mas nos fins de semana é que a gente ia pro interior, tentar organizar oposições a essas direções desses sindicatos. Mais naquela zona lá de Ronda Alta, Ondinha, Sarandi. Aí começou aquele movimento dos sem terra. Esse meu amigo tinha um trabalho próximo com a CPT [Comissão Pastoral da Terra] e aí é que a gente começou a organizar um pouco os trabalhadores sem terra. Mas eu trabalhava mais na área oficial, vamos dizer assim, ficava mais nos sindicatos de trabalhadores rurais. De organizar oposições, ajudar os caras a fazer boletins. Um trabalho bem primário. E aí foi meu primeiro contato com o Dieese. Porque eu vim aqui em São Paulo, na verdade, nós estávamos discutindo em Bento Gonçalves o custo de produção da uva. Porque os sindicatos negociam... Os produtores de uvas vendem pras vinícolas. E os sindicatos, na negociação, negociavam preço. E sempre tem aquela história de é justo esse ou não é justo. E aí eles resolveram fazer um custo de produção. Ver quanto custava fazer um quilo de uva pra fazer vinho ou suco. E aí eu ajudei. Entrei nessa. Na verdade, quando eu cheguei do México foi o primeiro trabalho que eu fiz. Nem tinha entrado na Cohab ainda. Cheguei do México em dezembro, trabalhei janeiro, fevereiro e março por conta desse meu amigo que conhecia os caras. Ele tinha dado a idéia e não tinha ninguém. Mas eu estava chegando ele falou: “vem aqui”. Eu fiz esse trabalho que foi o que organizou um pouco os sindicatos de toda região. E um dos temas desse custo de produção da uva era fazer uma análise de balanço das empresas. E eu descobri que o Dieese tinha uma análise de balanços diferente dessas análises comuns por aí, que usavam alguns critérios de interpretação do balanço que dava mais lucro. Tipo depreciação. Depreciação é lucro, mas entra como despesa. Uma empresa faz, sei lá, essa cadeira aqui. Na medida em que vai passando o tempo, vai desvalorizando a cadeira, tendo uma depreciação. Retiram um valor porque um dia tu vais ter que substituir essa cadeira. Num ano isso é lucro. Porque não necessariamente essa cadeira vai durar 10 anos ou 3 anos. E os caras podem apressar essa depreciação ou não. Tem os mecanismos e o Dieese... Eu liguei pro Barelli e ele disse: “Vem aqui que a gente te explica como faz os balanços, tal”. E aí que eu vim pra São Paulo. Peguei um ônibus e bati aqui [RISOS]. Cheguei aqui de manhã: “Queria falar com Barelli”. De repente, o Barelli chega e diz: “Como assim, tu não marcaste nada”. E realmente não tinha marcado nada com ele. Não tinha dito tipo vou na segunda-feira, às 9h. Simplesmente peguei um ônibus. Peguei no domingo um ônibus pra São Paulo e cheguei aqui na segunda de manhã. “Pô, como que tu chegas aqui sem avisar?”. Na verdade, esse foi meu primeiro contato com o Dieese. Foi com o Bartô. Depois ele me passou pro Bartolomeu, que ele era da contabilidade, que fazia os balanços e tal. Porque o Dieese também fazia umas análises de balanços da área de metalurgia, bancários, tal. Esse foi meu primeiro contato com o Dieese. Isso foi em 1980. Depois eu fiz um concurso, uma seleção em 1985. Pintou essa seleção e eu fui lá me inscrever.

 

P1 – Você falou que conhecia o Dieese meio que de ouvir falar, né?

 

R – Sim. De jornal.

 

P1 – Por que você buscou essa ajuda do Dieese? O que te levou? Dentro do sindicato já tinha esse contato?

 

R – Meu contato era com o sindicato dos trabalhadores rurais. E os sindicatos não tinham a menor ideia do que era o Dieese. Não sei nos outros estados, mas no Rio Grande do Sul não tinha nenhum. Nós é que acabamos colocando o sindicato em contato com o Dieese. A busca foi a partir do jornal que a gente leu que tinha... E o Barelli aparecia muito na imprensa e o Dieese aparecia via Barelli. Foi isso. Foi o contato com notícias de jornal, pegava algum material e eu descobri essa história dos balanços. Foi por isso o contato com o Dieese.

 

P1 – E como foi esse contato? Você chegou e foi falar com o Barelli. Mas como foi? Deu certo? Foi bem recebido? 

 

R – Foi esse choque de dizer: “Tem que avisar. Não pode chegar assim. Mas, tudo bem. Vou te receber. Mas da próxima vez, avisa”. Foi isso. A gente conversou um tempo, depois ele me passou pro Bartolomeu. Foi isso. Depois a gente começou a conversar, mas pelo telefone, porque não tinha e-mail na época. Era mais telefone, fax. Porque eu voltei pra Bento. Morava em Porto Alegre, mas trabalhava em Bento Gonçalves. Foi esse contato. Depois eu continuei acompanhando. Continuei acompanhando mais pela imprensa. Às vezes também o Barelli ia lá e a gente ia assistir. Porque existia também uma intersindical, que tinha reuniões periódicas. E como a gente dava assessoria pros sindicatos rurais, acabava sabendo um pouco a agenda dos sindicatos. Uma vez assisti a uma palestra, que o Barelli foi lá falar sobre negociação, acompanhava pelos boletins que a gente tinha acesso. Era uns boletins todos coloridos que depois pararam de editar. E foi um pouco isso. E depois quando teve o concurso que eu acabei participando.

 

P1 – Que ano você entrou?

 

R – 1985. 17 de abril.

 

P2 – Esse concurso que você estava falando foi do Dieese?

 

R – Do Dieese. Na verdade, foi uma seleção dirigida. Porque tu participavas de... Não era um edital. Eram pessoas indicadas. Então, por exemplo, quando eu entrei a gente usou: botava um cartaz na faculdade de economia, botava um cartaz na PUC, falava com alguns professores que tu conhecias, que achava que eram a favor dos trabalhadores e pedia pra indicar algumas pessoas. “O Dieese vai fazer um concurso. Indica aí alguém legal, algumas pessoas que tu conheces”. Geralmente eram pessoas de pós-graduação, porque tinha que ser formado, né? Tu colocavas esses cartazes e fazia esses contatos. Então, era uma coisa meio dirigida. Não era um negócio aberto, tipo edital saindo em jornal. Porque não conseguiria saber se esse cara, afinal de contas, era um cara que... E era um teste, tu fazias uma entrevista e um teste escrito.

 

P1 – Como foi essa seleção pra você? Você lembra?

 

R – Lembro. Na verdade, eu fiz duas vezes a seleção. Na primeira vez entrou uma outra pessoa. Foi um ano antes. Depois esse cara teve que sair e até ele que me indicou. O cara que foi escolhido, o Cristiano, me ligou pra dizer: “Ó, nós vamos fazer uma seleção”. “Estou a fim”. A primeira vez foi o Barelli que fez a entrevista e o teste e nessa outra era uma outra pessoa, um assessor do Barelli. Da primeira, eu não lembro muito bem. Mas, da segunda, lembro, porque o cara me perguntou: “por que você está insistindo em trabalhar no Dieese?” [RISOS]

 

P1 – É o que eu ia perguntar. E por quê? O que você respondeu?

 

R – Na verdade, eu disse: “olha, eu trabalho na Cohab. Já trabalho com sindicatos e acaba que o Dieese fechava nisso. Além da questão da remuneração, né? Porque o trabalho que eu fazia era de graça. Não tinha como me sustentar. Eu queria fazer esse trabalho, mas tinha como me sustentar. Tinha que trabalhar na Cohab, onde eu tinha um salário, e tinha que fazer hora extra fora da jornada. Então o Dieese vinha fechar muito nessa coisa. Era um trabalho que eu já fazia, só que teria remuneração e poderia me dedicar totalmente pra isso. Eu fiquei muito contente. “Bá”, quando me lembro... Eu acho que liguei, liguei de orelhão da rua da praia. Estava na rua da praia, depois liguei pra Federação dos Comerciários onde eu fiz o teste. Eu liguei pro cara pra saber, porque naquela época não tinha esse negócio de... Muita gente nem tinha telefone em casa. Conseguir um telefone era muito caro, tipo 4 mil. E eu estava no centro. Acho que eu saí da Cohab, estava na rua da praia e fui pro orelhão e liguei pro cara. E o cara brincou: “não, pois é, não sei. Tu sabes que nem sempre a gente consegue as coisas...” “PQP, dancei de novo”. E aí o cara: “tu foste escolhido!”. Fiquei muito contente. Aquela coisa de sair na rua gritando, todo mundo olhando.

 

P2 – Teve muitos candidatos?

 

R – Teve uns 16, 17 candidatos.

 

P1 – Pra uma vaga?

 

R – Pra uma vaga. E eram pessoas que eu conhecia ou de militância, ou coisas assim. E da outra vez foram uns 12.

 

P2 – Você entrou em qual função, qual cargo?

 

R – Na verdade, eu fiquei um mês de técnico, porque eu também não sabia disso. O Cristiano que era o supervisor do escritório, tinha o Cristiano e um estagiário. E aí o Cristiano também trabalhava na assessoria da assembléia legislativa. Mas ele era de uma bancada. E aí eu acho que o Pedro Simon, que tinha sido governador, não lembro se nessa época ele tinha sido governador e foi ser ministro. Mas esse cara foi ser assessor dele. E eu não sabia de nada. Entrei lá e fiquei um mês e ele saiu. E aí eu assumi a supervisão de cara. Na verdade, o escritório é desse tamanhozinho, né? Era eu e nem sei, tinha estagiário. E a gente contratou uma secretária. Porque o financiamento tinha que vir dos sindicatos associados. E nós não tínhamos, tinha uns 30 sócios. Na medida que foi ampliando, possibilitou... Tanto é que a jornada desse cara que saiu era de 10 horas por semana. Pra ele também era complicado. Eu já entrei com 30. Acho que ele não quis ampliar a jornada, preferiu ficar na assembleia. Foi isso. Já tinha financiamento suficiente pra contratar alguém com 30 horas. Aí que eu entrei com 30 horas.

 

P1 – Você entrou e logo no primeiro ano, segundo mês já foi pra coordenação?

 

R – Na verdade, o escritório existe desde 1977. Mas, com gente, com técnico, porque na verdade o único trabalho que era feito era a pesquisa da cesta básica. E essa pesquisa era feita pelos sindicalistas, que iam pegar as informações. Cada dia era um responsável. E mandavam pra São Paulo pelo correio. São Paulo era que passava pra uma folha desses papéis quadriculados. Não sei se o Maurício ainda não usa. Às vezes ele cola uma na outra. Agora como aumentou o número de cestas básicas, ele cola uma na outra. Fica com seis folhas, anotando à lápis [RISOS]. Agora acho que ele já... Mas até um tempo atrás, ele usava essas folhas de papel almaço quadriculado. E era isso. Não tinha um trabalho. Um ano antes de eu entrar, em 1984, é que eles contrataram. Tinha o estagiário, o Cristiano. E foi barra pesada. Porque o Cristiano tinha uma política muito com a imprensa. Era um cara super bem relacionado com a imprensa. Ele procurava o pessoal, ligava. Tipo coluna social. Não é coluna social, estou brincando. Mas tipo assim, fulano de tal foi viajar pra São Paulo pra uma reunião do Dieese. O cara fazia essas notinhas econômicas. E quando ele saiu deixou aquele legado que era um monte de gente de imprensa atrás de ti. E eu nunca tinha me preparado pra encarar um negócio desses, né, televisão... O cara te mete um microfone na boca e diz: “Por que a taxa de juros brasileira não cai?” E de surpresa assim. Claro que eles dão uma conversadinha antes, mas... Outra coisa é a questão da cesta básica, porque era a mais cara do Brasil. E isso é uma coisa que nos persegue durante esses 20 anos. A história da cesta básica. Uma porque é muito simples de fazer, porque é uma cesta com muito pouco produtos. E não dá pra tu dizer que a partir de uma cesta básica de 13 produtos, tua cidade é a mais cara do Brasil. Só que a imprensa gosta muito de fazer isso. Pra eles, o legal é a manchete. Porto Alegre é a cidade mais cara do Brasil e aí quem está lá na Prefeitura, o cara fica... Quem está lá na prefeitura não gosta muito. E acaba contratando pessoas pra desmentir aquilo, pra dizer que o cálculo está errado, que não dá para fazer... Esse é um embate que tu tem, pesado, uma coisa que de cara eu senti logo no início de ter que explicar a cesta básica com uma cesta básica que não tem uma fortaleza científica, pra dizer que é a mais cara, porque é uma cesta básica com poucos produtos. Claro que a gente dizia: “Não é índice de custo de vida. É outra coisa. Nunca disse que Porto Alegre é a cidade mais cara”. Mas sempre vem acusação de prefeito de botar numa reunião e perguntar: “Quem é o culpado disso?” “É o Dieese”. Chamar uma reunião com 40 vereadores, com não sei quê, chamar o Dieese e chamar outros institutos de pesquisa pra dar um pau no Dieese. Que o Dieese está jogando a cidade, que as pessoas ficam com a moral baixa, porque moram numa cidade que dizem que é a mais cara e não é. E aí, tu tens que explicar: “Não, é uma cesta básica. A gente compara em 16 cidades.” Realmente se o trabalhador remunerado com salário mínimo fosse comprar essa cesta básica em Porto Alegre, ele pagaria mais do que pagaria em outras cidades. É isso. Mas, pra tu chegar nessa tranquilidade levou um tempo. Foi um ambiente complicado. Acho que isso ajudou a encarar também a televisão.

 

P2 – Teve algum episódio em que você teve que realmente falar com a imprensa?

 

R – Ah, todos os meses. Como isso deu sucesso, os caras vinham lá realmente. E até hoje. É uma coisa diferente. E se você pegar os 16 escritórios, é difícil a cesta básica ter tanta imprensa como tem em Porto Alegre. Tem escritórios que nem fazem coletiva. Mandam pra imprensa e só. Nós fazemos coletiva sempre. Por quê? Porque quando chega perto, os caras começam a telefonar: “E aí? Quando vai sair os dados?”. Isso foi lá com o prefeito da época. Mas agora, recentemente, teve outros episódios, teve com os supermercados também. A Agras, que é a Associação Gaúcha de Supermercadistas, contratou um economista da Universidade Federal. E os caras começaram a visitar todas as edições de economia dos jornais, pra mostrar que aquela cesta básica não poderia fazer essa comparação, porque na verdade não se pode comparar com tão poucos produtos. Foi um embate também, mas agora a gente está mais preparado. Foi um pouquinho mais tranquilo. 

 

P1 – Você acha que é uma incompreensão do governo ou uma pressão política?

 

R – Era uma pressão, no início era uma pressão política. Porque os caras diziam que “Se Porto Alegre é mais caro a culpa é do prefeito. Por que é mais caro? Ah, o cara tem que fazer alguma coisa.” O prefeito pode assumir o negócio ou não, dizer que é uma política econômica e que não tem nada a ver com isso. Mas às vezes os caras assumiam e aí os caras vão buscar destruir. Em vez de dizer que “Não é com a gente”, tentam destruir. Nós tivemos problemas técnicos com o próprio PT lá. “Como que um cara do PT está fazendo isso?”. Mas é um dado, o que nós vamos fazer? Não vista a carapuça. Sai pro lado. A gente foi até conversar com eles. Mais recentemente foi com a associação dos supermercados, porque o cara que é presidente, agora é presidente da Abras, João Carlos Oliveira, na época era o presidente da Agras. Ele assumiu pra um jornalista lá que tem bastante repercussão na imprensa, agora ele escreve colunas, antes escrevia sobre futebol. Agora ele escreve colunas mais sobre assuntos genéricos, qualquer coisa ele fala, tal. E o cara deu um pau na cesta básica, dizendo que era um absurdo que Porto Alegre ser uma cidade mais cara, que a gente sente que a gasolina é mais cara, até a cesta básica é mais cara, não sei quê, não sei quê. Ele pegou aquilo e largou uma carta pra ele, dizendo que quando tu largas a notícia, não diz que os supermercados são os responsáveis por ser a cesta básica mais cara. Diz que a cesta básica é mais cara. Mas o cara falou: “Aqui os supermercados têm ar condicionado, lá no Nordeste não sei o quê”. Ele assumiu a briga. E tu sabe, com imprensa não pode brigar. Mesmo o cara estando errado, vai lá conversar, porque ele tem 365 dias na imprensa e tu vai ter 1. O jornalista escreveu: “É um absurdo o que o cara está dizendo que os supermercados têm ar condicionado, creche. Mas eu vou no Nordeste e lá também os supermercados têm ar condicionado”. Foi briga pesada. E os caras resolveram fazer uma mudança de estratégia, contratando economista e visitando os jornais. Antes disso, os caras me chamaram, o cara da Agras me chamou: “Nós não queremos te pressionar nem nada, porque a gente sabe que existe uma incompreensão da imprensa sobre essa questão da cesta básica”. “Sim, mas o que eu posso fazer? Porque nem é comigo, é com São Paulo, porque São Paulo é quem divulga. Eu só divulgo a nossa”. E Ele disse: “Não, tu vês que a gente tem toda uma expectativa de ter produtos de qualidade aqui. Veio um cara da Rede Zafro, que é uma rede de supermercados do Rio Grande do Sul, que o símbolo é um esquilinho. Esquilo é símbolo da qualidade, porque só come nozes, aquela coisa toda. O cara é da agência de propaganda dessa rede de supermercados e dizia o seguinte: “Olha, o problema é que mesmo que tu tenhas uma filha, que tua filha seja toda certinha, mas chega na Globo e a fulana que dá o noticiário diz que a filha do fulano foi vista saindo duma boate. Boa noite. Tua filha está queimada”. Porque quando saiu a notícia, saiu naquela da noite, como que é o nome? Agora ela não está mais na Globo, está acho que no SBT. Ela dava todas as cestas básicas e dizia que a cesta básica mais cara era a de Porto Alegre e boa noite. Bá! Aquilo ficou aquele troço, era um tiro de canhão. No outro dia era paulera no supermercado. Porque criou esse clima que os supermercados eram os culpados. No outro dia o jornalista escreve. Isso foi um clima muito... Pesou de novo agora. E eu fico aqui também discutindo no Dieese que é um instrumento ótimo, mas que a gente tinha que dar uma, diminuir os problemas que ela tem, as fragilidades, ampliar um pouco o número de produtos. Enfim, tinha algumas coisas que poderiam ajustar e ficaria mais tranquilo. Ninguém assume muito isso, porque não sente na carne o que eu sinto lá. Aqui bota no jornal, sai no jornal e ninguém... Quando São Paulo é mais caro, todo mundo diz: “Ah, São Paulo é mais caro mesmo”. Não tem discussão. Agora em Porto Alegre é mais caro, os caras: “Pô, como Porto Alegre é mais caro? Não pode”.

 

P1 – Mas o que poderia mudar no Dieese pra resolver esse problema de dados?

 

R – Eu digo fragilidade da pesquisa, porque poderia ampliar um pouquinho o número de produtos. Podia botar lá 17, sei lá. Porque também é um decreto lei de 1936, então tu tens muitos produtos que hoje existem no consumo popular que não estão na cesta básica: massa, macarrão, como se chama aqui, ovos, carne de frango, porque frango se comia aos domingos. É um troço que não é como hoje. Então tu poderias atualizar essa pesquisa. Só que envolve um conjunto de problemas, porque tu tens uma série histórica, porque aí vai acabar com essa série histórica. Tem toda uma conjuntura política: “Ah, por que está mudando agora que o governo é do Fulano?” Então, não é uma coisa muito fácil de resolver. Claro que eu acabo puxando essa história, porque eu sinto mais e o resto não sente. Tu acabas ficando meio chato: “Ah, lá vem esse cara com esse troço da cesta básica. Lá vem o chato da cesta básica”.

 

P2 – Uma curiosidade. O conteúdo da cesta básica, da pesquisa, tem a ver com uma coisa anterior?

 

R – 1936. É um decreto-lei que regulamentou o salário mínimo da Constituição lá do Getúlio Vargas, que diz o salário mínimo tem que ser tanto pra pagar tanto de alimentação, tanto de vestuário. E na alimentação são esses produtos, respeitando a questão geográfica e cultural. Porque tem batata em Porto Alegre e não tem batata no Nordeste. Tem farinha de mandioca no Nordeste e farinha de trigo em Porto Alegre ou na região sul. Ela não é uma cesta rigorosamente igual, nem podia ser. Nós comemos mais carne aqui do que no Nordeste. Isso é que às vezes o pessoal não... Mas poderia ampliar um pouquinho, até pra atualizar, na verdade. Mas aí também o Dieese fica numa situação difícil. Porque o congresso não atualiza, porque ele poderia fazer isso. Que é uma das discussões que está dentro da comissão, que o governo atual criou pra discutir o salário mínimo. Um dos pontos seria esse. Qual o salário mínimo necessário, que tipo de produtos, bens e serviços deveriam fazer parte. Talvez se resolva, não sei.

 

P2 – Com essa questão da cesta básica, você começou a lidar com a imprensa?

 

 R – Era aquela atividade mensal e entre uma divulgação e outra. Porque todos os meses você tem essa divulgação, mas sempre vem alguém atrasado te perguntar alguma coisa. Isso te dá muito espaço na imprensa. É isso. Tem televisão, jornal, rádio o tempo todo. E a gente vivia numa época de muita inflação. Cada vez que tinha um plano econômico, por exemplo, como o Plano Cruzado em 1986, que ninguém sabia, com aquela inflação altíssima, como fazia a média de salário, aí os sindicatos te chamavam. Tanto é que eu cheguei em 1985, fevereiro de 1986 teve o plano cruzado. Em novembro de 1986, eu tive uma gastrite violenta.

 

P2 – Por quê? Era muita pressão?

 

R – É. Tu tinhas imprensa e sindicatos. Na época, era aquela história como hoje, tem os a favor e os contra. E a gente procurava olhar e ver o que tinha de bom e de ruim no plano. Só que os caras te chamavam em todas as negociações de salário, porque tinha uma média, os caras faziam uma média de salários. Uma confusão lá, que de certa forma depreciava os reajustes que deveriam ser dados. Como os sindicalistas tinham dificuldades, a gente tinha que ir às negociações tentar explicar por que estava pedindo aquele índice daquele tamanho. Tu acabavas indo em todas negociações. Hoje é mais tranquilo, porque tu vais lá, faz uma reunião com o pessoal e diz: “Olha, peçam isto”. Reúne a federação e todos os sindicatos. Antes tu ias na reunião da federação e na reunião de todos os sindicatos. Então tinha sindicato no interior. Todo dia tinha alguma coisa e ainda mais aquela pressão pela imprensa, se o plano era bom, se não era. Teve o plano cruzado, teve o plano...Então comecei a tomar muito cafezinho, comecei a fumar, que antes fumava só de vez em quando, passei a fumar diariamente, desde de manhã. Porque negociação é um negócio estressante.

 

P1 – Quantas horas por dia, mais ou menos?

 

R – Fiquei em rodas de três, quatro horas de negociação. Hoje está bem mais tranquilo. Mas tu tinhas rodadas de começar às sete da noite e ir até às três da manhã. É aquela pressão, né? Dar reajuste, briga. Às vezes os caras querem fechar o acordo naquele momento porque sabem que depois vai complicar. É tipo vender: tu deixas o cara sair da loja, não volta mais. Está ali negociando, vamos fechar logo.

 

P2 – O escritório regional atende a todos os sindicatos, ou ele tem subseções no Sul?

 

R – Tem um escritório em 16 estados. O escritório do Sul atende todos os sindicatos do Rio Grande do Sul.

 

P2 – Do estado?

 

R – Do estado. Mas só os sindicatos associados. Tem que ser associado.

 

P2 – Quantos são?

 

R – Hoje são em torno de 50, mas já tivemos 70 na época desses planos todos.

 

P1 – Como você descreveria a evolução desse escritório regional nesses 20 anos? Porque você trabalhou lá praticamente desde o começo. Como foram esses planos, as crises, pressão?

 

R – Sim, tinha um ano e pouco. Eu acho que lá o escritório sempre foi...Não sei se é o movimento sindical que é mais bem estruturado, tipo São Paulo, Minas, onde tu tens mais indústria, uma estrutura sindical mais bem estruturada. A gente nunca teve grandes problemas de arrecadação, teve diminuição, crescimento, mas nunca teve grandes crises. Também porque foi uma opção, porque eu tive opção de escolher umas filiações não com valor tão alto. Porque é um pouco decisão de cada um. Alguns sindicatos às vezes não tinham como pagar, mas eu não forçava muito pra aumentar a mensalidade porque, sei lá, acho que é uma estratégia. Se os caras pagarem uma mensalidade muito alta, em qualquer crise vão “tchum”, se desfiliar. Então, eu tinha um grande número de sindicatos, mas com mensalidades menores. Teve outros escritórios que optaram pelo contrário: ou o cara paga isso ou não tem filiação. Lá, pelo menos, nunca teve grandes crises de desfiliação em massa. Nunca teve isso. O Dieese nunca teve isso. Teve uma queda de filiados muito ligada a questão do aumento do desemprego na década de 1990. Os caras diminuíram o número de sócios e aí foram se desfiliando do Dieese. Mas lá sempre foi mais ou menos estável. Financeiramente sempre foi mais ou menos estável. Teve momentos melhores e momentos piores, mas nunca foi muito complicado.

 

P2 – Você então pensou uma forma de manter os sindicatos meio presentes, com certa segurança. Você acha que isso poderia ser uma espécie de solução nacional pro Dieese?

 

R – Acho que sim. Tem argumentos pró e contra. É difícil dizer. Tem outros que dizem que ou os caras pagam conforme a regra ou não pagam. Porque às vezes esses sindicatos que não podem pagar muito são os que mais te exigem trabalho. Na verdade, tu ficas meio que lidando com essa história. Usa, mas não abusa. Porque é isso, você tem poucas pessoas no escritório e... Hoje nós somos em torno de 10 pessoas lá, mas porque tem as subseções e a pesquisa de emprego e desemprego, com 4 pessoas, que estão dedicadas a essa pesquisa. É um escritório pequeno do ponto de vista de escritório regional, pelo número de pessoas. Isso acaba, enfim, é uma estratégia. Eu acho que tu podes aumentar a arrecadação desde que... O problema é que mudou muito de 20 anos pra cá. Hoje um sindicato grande não entra mais dizendo: “Tá, nós vamos pagar conforme a regra, que é o número de trabalhadores na base. E a gente não vai exigir muito, a gente vai até ter uma subseção”. Então o cara paga uma mensalidade alta e ainda contrata uma subseção. Por quê? Porque ele vai ajudar outros sindicatos que não têm tanta condição. Uma questão de solidariedade. Hoje diminuiu essa questão de solidariedade intersindical. Hoje o cara paga, mas exige. “Eu quero que vocês fiquem aqui dez horas por semana”. Não tem mais essa. Então tu acabas tendo teu tempo disponível diminuído pra aquele cara que é sócio de valor mínimo. E tem os problemas de atendimento, porque na negociação ele te chama uma vez por ano, mas naquela vez por ano tu não pode ir, porque tem outra atividade. Ele não te avisa assim com um mês antes, uma semana. Ele liga hoje pra daqui a dois dias. Liga hoje dizendo: “Tenho negociação hoje à tarde”. “Pô, não dá pra ir. Já tenho compromisso”. No escritório, nós somos em três: eu, uma técnica e uma secretária. Então acaba tendo nós dois pra atender 50 sindicatos. Às vezes, tu tens seminário e aí fica fora três dias.

 

P2 – Então, praticamente, você atende quase todas as negociações?

 

R – Sim. É que hoje os sindicatos estão se virando melhor sozinhos. O que eles estão exigindo da gente é mais informação. Hoje tu tens que ter mais informação e menos presença na negociação. É uma questão da gente se organizar melhor, de oferecer um trabalho antes, que é um pouco o que a gente faz lá. Quando sai o índice, antes de eles pedirem a gente já manda. Porque aí tu te organizas. Tem ajudado.

 

P2 – Nessa sua trajetória de acompanhar nas negociações, você lembra de algum embate que ficou marcado, que foi forte?

 

R – Teve vários.

 

P1 – Conta um caso pra gente.

 

R – Teve coisas de negociação e coisas de assembleias. Por exemplo, eu tive numa assembleia em que nós apresentamos um dado e na negociação eu disse: “olha, vocês fecharam reajuste, acho que é um reajuste bom”. Naquela época tinha taxa de inflação e foi pra assembleia e estava em discussão. E o pessoal de uma fábrica que já tinha recebido reajuste, eles não iam ser beneficiados com aquele reajuste, porque eles já tinham ganho. Eram os metalúrgicos de São Leopoldo. Naquela época, como a inflação era muito alta, 20%, 30% ao mês, acabava que chegava no final tinha lá 100%, 200% de reajuste. Mas muitas empresas já estavam dando isso mês a mês. Só que a gente não tinha informação das empresas, tinha da categoria. Os caras estão dando toda a inflação e mais 2%, 3% de aumento, está bom. Só que aqueles funcionários já tinham recebido reajuste e a gente não estava sabendo. Aí ficou aquela discussão na assembléia e os caras: “Não, mas o Dieese é que disse que estava bom o reajuste”. Jogaram pro Dieese. Então, imagina aquela massa, não todos, mas uma boa parte... Já tive situações de na negociação de... Uma coisa que eu aprendi e que tu não podes tripudiar em cima do adversário. Porque não é bom. Porque depois tem a volta ou o cara fecha algumas portas. Nós estávamos negociando calçados e o advogado, daqueles terríveis, e que já foi funcionário de uma empresa e ele virou advogado dos patrões. O cara era empregado, se formou e hoje era advogado. Tinha todo aquele conhecimento da fragilidade do movimento sindical. Ele dizia: “Vocês vão fazer greve o quê, Vão nada”. Ele conhecia a base. Então todo mundo tinha uma bronca daquele sujeito infernal. E o Brasil tem um outro problema que é um festival, uma cesta de índices, diferente dos outros países. Nos outros países só tem um índice, não tem ICV [Índice de Custo de Vida] do Dieese, IPC [Índice de Preços ao Consumidor] da Fipe, INPC [Índice Nacional de Preços ao Consumidor] do IBGE, não sei o quê da Universidade... Lá no Rio Grande do Sul também tem, a URGS faz um índice, tem vários índices. E o cara se atrapalhou e ele propôs um índice que era maior do que a gente estava pedindo, que era o IGPM [Índice Geral de Preços do Mercado]. Eu não sei se ele se atrapalhou, quis dizer IPC da Fipe e disse IGPM, não sei. Quando o cara falou aquilo eu pensei que daria mais do que a gente estava pedindo. Eu disse: “topa”. O sindicalista ficou meio assim. Eu disse “topa o índice. Aceitamos agora”. Aí eles se deram conta, os caras são espertos, os patrões são bons: “vamos fazer um intervalo”. Foram lá e viram que o IGPM era 21 e a gente tinha pedido 18. O cara ficou muito... Agora até a gente já conversa, mas criou uma situação de... Na verdade eu fiquei tripudiando: “Vocês têm que escolher melhor os assessores”. Isso é ruim, porque não faz bem pras negociações. O cara é advogado, tem um escritório grande, negocia com vários escritórios e tal, mas tu podes dizer a mesma coisa e não desse jeito. Pode dizer “Vocês podem olhar melhor”, coisa assim. Tem coisa assim. Teve várias situações que agora não estou me lembrando. Mas tem também de tu levar um índice e levar errado, porque às vezes acontece numa assembleia tu fazer um cálculo e fazer errado.

 

P2 – E uma vitória? Uma que você poderia caracterizar como uma vitória do escritório regional do Dieese?

 

R – Do escritório? Sei lá, acho que do escritório foi um negócio legal quando a gente foi pra uma usina do gasômetro, na época em que o Olívio Dutra era governador. Acho que foi muito bom pro escritório. Foi legal aquilo de ter um reconhecimento do prefeito de convidar o escritório para ir. A usina é um museu que tem lá, que foi uma usina de energia a carvão. É um prédio histórico que tem lá. Acho que foi super importante aquela ida do escritório para lá. Deu uma qualidade pro próprio escritório, foi um reconhecimento. Acho que de negociação, tu não tens uma grande vitória. Na verdade, tu tens satisfações pessoais, que acha que fez uma boa negociação, conseguiu deixar o adversário da negociação numa situação de dificuldade do ponto de vista de argumentação. Tem vários momentos em que tu consegues fazer isso, nem sempre. Na maioria das vezes é complicado, mas algumas vezes tu consegues exercer uma certa... Porque geralmente nas negociações, tu és o cara que fica inferiorizado. Quem fala mais é o empresário, quem coordena é o empresário ou o advogado. O cara vai de gravata, fala empolado, faz aquela análise, tal. E os trabalhadores ficam com medo. Não todos, mas a maioria. E a gente tenta um pouco equilibrar essa coisa, mas nem sempre consegue. Tem vezes em que tu sais da negociação, assim: “Bá, legal hoje”. Tu convenceste o outro lado com os teus argumentos a dar um reajuste maior, melhor. Mas outras vezes sai com aquele negócio remoendo na cabeça: “Péssimo hoje, podia ter melhorado isso, trazer outros dados”. Às vezes sai super frustrado de negociação. Parece que foi tu que errou. Assim como não foi só tu que ganhou, não foi só tu que errou. Mas às vezes tem sindicatos assim, que pela própria situação, os caras se sentem inferiores, ficam quietos e não te protegem. Eu já participei de negociação, me lembro uma vez em Caxias, que eu comecei a discutir uma situação de balanço, o cara disse que a gente poderia olhar os balanços e eu disse: “Olha, nem sempre a informação dos balanços são uma análise muito fidedigna. Se tu fores num banco só com o balanço pedir dinheiro, eles não te dão empréstimo só com o balanço da tua empresa. Eles mandam um cara lá investigar.” E o cara: “Quem é essa pessoa que está nos desrespeitando. Um absurdo. Eu não vou mais negociar”. E os caras em vez de falar, não... Eu fiquei quieto pra não esculhambar a negociação deles. O cara: “Não tem mais conversa. Está nos chamando de criança, que estamos mentindo”. O sindicalista em vez de falar “Espera aí. Calma lá. O que ele está dizendo nós também concordamos. Se tu não participas, nós também não vamos participar. Então rompe aqui”. Não, os caras ficaram quietos. Todos vermelhos e ficaram quietos. Os daqui e os de lá também, porque todos me conheciam, menos esse cara que era a primeira vez que estava participando. Só que ficou uma situação super constrangedora. Eu queria matar aqueles caras ali. “Vocês podiam ao menos dizer pelo menos que não tinha mais negociação”. Porque negociação tem esse blefe. Levanta, bate na mesa. Tem esse teatro. Foi uma situação em que eu fiquei muito chateado.

 

P2 – Franzoi, o que você diria que uma pessoa precisa ter pra ser um bom negociador? Que personalidade, perfil?

 

R – Tem que ser calmo, ter bastante informação, se preparar antes de ir pra uma negociação. Deixa eu parar se não vão ficar achando, e quem é um bom negociador? Eu. Eu sou isso. [RISOS]

 

P1 – Tem a experiência...

 

R- Experiência é importantíssimo. Eu sempre falo pros caras dos sindicatos que tem que levar mais gente. Mas não deixar o cara falar na hora errada. É legal ir assistir, acompanhar a negociação por um, dois anos, porque é um pouco de... Tem momentos que são muito tensos. Tem que saber a hora que tu avanças. Tem que ter tempo de negociação, participar de negociação. Acho também que procurar usar argumentos que convencem o outro lado. Não é só pra quebrar pau. Tentar convencer e justificar aquilo que tu estás pedindo. E isso tem que preparar antes, porque não adianta ir lá com números absurdos, porque não vai ter como justificar. Esse acho que é um... Também reconhecer que errou. Mas isso é difícil, muito difícil. A gente acaba culpando os outros. É importante ter isso e analisar várias coisas, focar muito. Eu vi um filme recentemente, que achei muito legal, que acho que a gente deveria passar mais pros caras: 12 homens e uma sentença, do... como é o nome dele? É um filme muito antigo, de 1952, 1953, em preto e branco. Parece que agora andaram refilmando. Mas eu vi com o Henry Ford? Não. Henry Fonda. Ele não é o diretor, é o artista, ele trabalha. Era isso, eram 12 caras que tinham que julgar um cara, ou 12 a favor ou 12 contra. Não podia ter discordância. Tinham que dizer se ele é culpado ou ele não é culpado. E aí tu começas a olhar a participação do cara e “Legal, quero ser esse cara, tem que ser assim”. Ele só vai procurando super sério, objetivo, na negociação, não fica fugindo do assunto. E nas vezes em que ele pôde tripudiar em cima do cara, foi lá e deu lá em cima. Mas com muita razão. Sempre convencendo o cara. Ele dizia que não estava convencido que o cara era culpado. Todo o filme é isso. Ele dando argumentos pra convencer as pessoas. É super legal isso. Eu achei bárbaro. E acho que negociação é isso.

 

P1 – Legal ter uma referência externa. Agora vamos falar de aspectos mais gerais do Dieese. Como você acha que o Dieese é reconhecido pela sociedade? Há um reconhecimento?

 

R – Sim, o Dieese é muito. Claro que minha experiência é do Rio Grande do Sul, mas o Dieese é super bem reconhecido até pelo outro lado. Os patrões sempre dizem que contra o Dieese não têm nada. “Não vamos dar o índice, mas contra o Dieese a gente não tem nada”. Eu acho que ele é super-reconhecido. E muitas vezes até confundido com o setor público, porque eles acham que o Dieese é do setor público. Uma coisa assim de... estou me lembrando de outros casos de constrangimento. Essa coisa de reconhecimento do Dieese, da importância, os caras elogiam, vão na televisão e dizem que confiam no Dieese porque é um órgão sério. Tem esse reconhecimento. E teve lá uma semana de carnaval. Nessa semana tu faz aqueles dias, quarta, quinta e sexta. E nós éramos... Tinha um cara da subseção, nós estávamos no sindicato dos bancários. Tinha o escritório do Dieese que no caso era eu, um auxiliar técnico e uma secretária. E o cara da subseção ficava na subseção, mas ficava junto. Eram três salas, mas tudo junto. Ele era do Dieese, mas não tinha muito a ver. Bom, o que aconteceu? Eu saí de férias e voltei depois do carnaval. O auxiliar técnico saiu antes do carnaval. Então ia ficar aqueles dois dias e meio sem ninguém no Dieese. E eu conversei com esse cara da subseção: “tu não poderias me substituir aí, pra eu não voltar na quarta-feira e trabalhar quinta e sexta”. Aquele negócio de aproveitar as férias e juntar com os dias de feriado. E eu falei pra secretária: “olha, se me ligarem, tu passas pro fulano, que é o cara que vai atender o público”. E na quarta-feira ele não veio, veio na quinta. Só que na quarta-feira não tem notícia nenhuma, a cidade está vazia, o cara tem um canhão lá, o Mendes Ribeiro, até já faleceu, que tinha um programa de audiência altíssima. E o cara ligou pro Dieese: “Eu queria pegar uma informação, não está aí o Franzoi? Nem o auxiliar? Nem o outro da subseção? Aí ele desancou, começou de manhã, porque tinha um programa de rádio de manhã e um de televisão ao meio dia, dizendo: “Um absurdo o Dieese, onde já se viu...”. Mesmo ele sendo jornalista, ele achava que o Dieese era um órgão público. Depois o coordenador do Dieese, um sindicalista, mandou uma carta pra ele, mas ele nunca publicou. Disse que tem um período em que as pessoas estão de férias, que tem pouquíssimas pessoas e que o auxiliar técnico não poderia atender a imprensa, porque é um auxiliar técnico. Imagina tu botar um cara que é um estudante, respondendo questões de economia, coisa assim. E eu estava de férias. Não teria ninguém. O outro menino, não era do escritório, era da subseção. Se estivesse ali tinha quebrado um galho. Só que a secretária estava ali a um mês, não estava sacando muito. Na hora não se deu conta. Também eu não disse que se ligasse a imprensa era pra dizer que não tinha ninguém, que era só na segunda-feira. Então foi isso, ficou um “Bá”. Mas aí, todo mundo viu. Saiu no jornal.

 

P1 – Ele ligou no Dieese pra pedir informação?

 

R – Ligou pra pedir informação. Era um jornalista que tinha um programa de rádio de manhã, tipo das oito horas ou sete e meia, tipo Heródoto Barbeiro. E ele pediu pra uma jornalista ligar pra lá pra pedir alguma informação. Ela disse que não tinha ninguém no Dieese e ele deu um pau achando que era um órgão público. “Onde se viu um órgão público não ter ninguém pra trabalhar...” Se tivesse estrutura! Esse é o problema: como a gente larga muita notícia, está sempre na imprensa, eles acham que o escritório tem um monte de gente. Às vezes o cara liga lá e pede pra falar com a assessoria de imprensa. Não tem. Só tem em São Paulo, nós não temos assessoria de imprensa. Então acham que tem uma estrutura imensa. Ele largou num programa de manhã e depois fez um comentário num programa ao meio dia, meio dia e meia, na televisão. E era um cara muito lido, tanto é que foi eleito várias vezes deputado federal, com votação expressiva, tipo 300 mil votos. No caso pro Rio Grande do Sul há 10, 15 anos atrás, era uma votação expressiva. E todo mundo assistia. O cara vai lá dizer e todo mundo... Saiu no jornal e eu estava lendo na praia [RISOS]. É isso, tem um reconhecimento da sociedade em geral. Todo mundo conhece. Porque é isso, na hora que sai na televisão, as pessoas são super... Tu estás no supermercado, fazendo compras e passa uma velhinha: “Então, hein, fazendo pesquisa?”. Não é que tu conheces, é alguém que te viu na televisão. Essas coisas são engraçadas.

 

P1 – E você sabe responder? Está por dentro dos preços do supermercado?

 

R – Claro. É a obrigação. Tu está ali fazendo compra no supermercado. Ou tu vais e os caras do supermercado já ficam te cuidando, porque é meio inimigo deles.

 

P1 – E como que você acha que é a perspectiva no futuro pro Dieese. Tem essa demanda ainda, está melhorando ou não?

 

R – Nesse momento específico, há dois, três anos estava uma situação, vamos dizer, uma tendência de queda, estavam caindo os sindicatos, os caras não estavam te chamando mais, parecia que estava caindo em desuso, ou seja, nós não precisamos mais do Dieese. Porque teve essa coisa de associar com inflação. O Dieese é muito associado à inflação. Se a inflação está caindo o que vai ser do Dieese? Tanto é que no plano cruzado, naquele congelamento de preços, minha mãe me ligou no outro dia apavorada, quase chorando: “E agora, meu filho. Onde tu vais trabalhar, vai perder o emprego. Não tem mais inflação”. [RISOS]. E eu nunca trabalhei tanto. Mas era aquela coisa, está congelado o salário. Tanto é que os sindicalistas viviam dando pau no governo, dizendo que os salários estavam congelados. Mas não estavam. Em lugar nenhum dizia que estavam congelados. Salário era negociação. Os preços, sim, estavam congelados. Mas aí virou aquela história: se está tudo congelado, não tem mais reajuste, não tem mais emprego, estou desempregado. Mas era isso. Inflação baixa. Só que houve dois movimentos: um movimento do Dieese de sair mostrando pros trabalhadores, e também houve muita mudança nas direções sindicais. Com a história de eleição de governo, de prefeituras, muitos caras saíram. Os caras que tu conhecias saíram e os que entraram não conheciam o Dieese. Teve o movimento nosso de mostrar o que o Dieese faz e, por incrível que pareça, com a redução da inflação, o movimento sindical passou a ver isso como um problema, ou seja, como nós vamos negociar se a inflação é tão baixa. E aí começaram a ligar pra gente. É o tal negócio: tinha 70 sócios, chegou a 36, 37 e agora está com 50. 36, 37 foi há um ano. Voltaram 10. Muito mais trabalho do que tinha antes. Antes fazia o índice, já tinha lá o esqueminha no computador, ou se não tinha computador fazia na máquina. Corrigia a datilografia da secretária. Dava trabalho, mas era só a tabela de inflação e aqueles problemas de perda salarial. Com a história da queda da inflação, hoje tu tens que dar muito mais informações, porque tu vais pra uma negociação e tem que mostrar pra eles que não é só pelo salário que está brigando. Está brigando pela remuneração, quinquênio, participação nos resultados e que hoje o aumento que tu vais discutir é muito mais importante do que na época que tinha inflação alta. Porque se hoje tu ganhas aumento, ele vai ser realmente aumento. Hoje está brigando por distribuição de renda. Estão voltando a ver o Dieese como uma entidade que pode solucionar os seus problemas. E isso que é importante, ou seja, se mostrar ou levar uma informação, ou levar indicações, ele vai se interessar. Se ele achar que o Dieese não vai resolver o problema dele, e às vezes ele não está nem enxergando bem o problema, mas tu tens que mostrar, aparecer como uma probabilidade de que vai solucionar os problemas. Porque é isso que as pessoas querem. Se tu chegar lá e dizer que realmente não tem o que pedir o cara não vai te chamar. Agora se vai lá com informações, dizer que agora 1% é distribuição de renda, ou seja, cada 1% que tiver de aumento é 1% que tu tiraste do lucro dos caras. Porque antes não. Tu aumentavas 1% mas não aumentava. O salário caía mesmo com o aumento.

 

(troca de fita)

 

R – É isso. Eu acho que é uma das coisas também. Eu me dou conta que quando eu vou assistir uma palestra, o que eu achei legal na palestra? É porque eu encontrei alguma coisa no que o cara está dizendo que resolve um problema que eu tenho. Eu tinha uma dúvida, não conseguia entender por que as coisas estavam acontecendo. Aí começo a me interessar e anotar o que o cara está dizendo, porque começo a enxergar naquilo uma forma de resolver meu problema: “Putz, isso aqui é o....” Tu prestas atenção e vai atrás de alguma informação que resolva as suas dúvidas. E eu acho que é isso... O Dieese voltou, ou a gente está conseguindo trabalhar essa questão de dizer que não é problema ter uma inflação baixa. Porque os caras estão enxergando a inflação baixa como um problema. Claro, não é isso, mas a forma como aparece é isso. Porque te ligam: “Bá, vocês têm que vir aqui pra gente conversar, porque a inflação agora está um problema”. Como a inflação está um problema? Problema é quando está 20% ao mês e não 3% ao ano. Mas tu já sabes qual é o problema da inflação. O problema é porque ele vai chegar numa assembleia e dizer: “Ó, pessoal, nós conseguimos negociar 3%”. Ninguém vai dizer isso. Porque o cara olha o salário dele e 3% não é nada. Só que o problema não são os 3%, o problema é o salário dele. É um pouco essa conversa que a gente faz. Tem que brigar pra aumentar. É exagero, mas não tem problema de pedir 10% quando a inflação é 3%. “Ah, mas é exagero. É três vezes mais. A mesma coisa de quando a inflação era 1000 pedir 3000, e vocês pediam 10”. Porque naquela época estava brigando pra recuperar o poder de compra, não era por aumento. Como é que tu convences a categoria que 3,5%, como agora foi fechado, é bom? Isso é muito mais difícil, mas ao mesmo tempo a gente está conseguindo. Não digo solução, mas tem informação, tem saída pra essas questões que eles estão levantando. Por isso acho que o futuro pro Dieese é tranquilo. Claro que vai depender muito da situação da economia, porque não tem um financiamento compulsório. Teu financiamento, tu tens que ir atrás. O sindicato não entra obrigatoriamente no Dieese. Ele se filia por livre e espontânea vontade. Se ele não gostar, sai fora. Tu tens que estar sempre nessa luta, mas eu vejo que pelo menos nesses, coisa bem recente, tu estás tendo uma boa perspectiva de ampliar o número de sócios. Não foi só no Rio Grande do Sul, foi no Brasil todo. A gente deve ter aí mais uns 40 ou 50 sócios. O que é difícil numa situação de crise, porque mesmo com o país crescendo, não está nesse crescimento maravilhoso, o espetáculo que a gente gostaria de ter.

 

P1 – Franzoi, além de ter aprendido a ser um bom negociador, quais as lições que você tirou da sua carreira?

 

R – Quais lições? Na verdade, eu vejo assim: eu estou sempre aprendendo, talvez seja uma lição. Tem um lado bom isso, porque até quando a gente está ficando um pouco mais velho, não acha que a vida acabou. Não, está sempre faltando alguma coisa pra tu fazer, está sempre exercitando, colocando energia nas coisas. Tu não consegues saber tudo, né? Então, eu não consigo me enxergar como um aposentado, eu acho que nunca vou me aposentar, vou evitar ao máximo. É legal trabalhar, eu gosto de trabalhar. Claro, não quero trabalhar do jeito que trabalho, porque aí é meio complicado. Quero viajar mais, fazer coisas que gosto mais, ler, sei lá. Hoje eu estou afim de só assistir televisão, ver futebol, tu não consegues fazer. Mas eu acho isso um pouco da lição. De tu buscar sempre estudar, porque não dá pra ir só com a cara, tem que preparar mais. Isso é uma das coisas que no Dieese eu aprendi, porque às vezes tu ia pra uma negociação, ou palestra ou entrevista sem ter te informado mais. E acontece que muitas vezes tu te quebras. Porque se tu não te preparar bem...

 

P2 – Uma coisa que eu gostaria de perguntar: depois de 20 anos no Dieese, o que significou o Dieese na sua vida?

 

R – Olha, eu tinha muito problema de, não era uma vida atormentada, mas logo depois que me formei e comecei a trabalhar remuneradamente, eu tinha muitas noites que eu acordava e aquilo me atormentava, entrava em crise, não sei se depressão, acho que não porque eu nunca consegui me deprimir muito, mas entrava em crise: “Putz, que eu estou fazendo nesse negócio?” . Por que o que eu fazia na embaixada? Na embaixada eu acompanhava empresários, porque os caras não sabiam nem atravessar a rua – porque realmente é complicado no Iraque – e ficava em crise. Quando eu entrei no Dieese, nunca mais tive essa crise. Pode ser que a gente trabalhe tanto que não dá tempo de ter crise. Mas como tu discute muita coisa, tu está sempre estudando, tendo que ir atrás. Porque tu falas da cesta básica, mas tem que falar da crise na China, tem que falar de não sei o quê, diversos assuntos. E isso acaba desenvolvendo. Nunca mais tive essas crises. Eu tenho crise, às vezes, de acordar e “putz, tinha que fazer aquele negócio e me esqueci”, sabe? Mas não era aquela coisa de achar que eu estava fazendo uma coisa que não servia pra nada. Acho que isso me ajudou muito e me deu muito prazer de viver, na verdade. Na questão do trabalho dá muita satisfação. Era muito difícil antes. O Dieese aliou duas coisas: o que eu gostava de fazer e conseguir sobreviver financeiramente. Gostaria de ganhar mais [RISOS], mas...

 

P1 – Você se encontrou. E o que você achou de ter participado desse projeto de memória?

 

R – Olha, eu gostei muito. Porque é aquela coisa que eu fiquei pensando o que falar. Às vezes tu quer falar coisas... Porque eu tenho esse problema de ter êxito, então tu queres falar coisas que tenham êxito. É aquela coisa: eu gosto muito de cozinhar, então sou muito rigoroso. Minha comida todo mundo tem que achar bárbara. É o compromisso com o êxito. E isso também é um problema, pra não dizer um monte de besteira e depois olhar e dizer: “Bá, porque não pensei em dizer tal coisa?”. Mas foi legal, gostei de participar disso porque é uma oportunidade de falar algumas coisas que eu acho que são importantes. 

 

P1 – Então, está bom. É isso. Obrigada.

 

R – Está bom.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | atendimento@museudapessoa.org
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+