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História

Uma vida à beira dos trilhos

História de: Luiza Natalina Silva de Lima
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 29/09/2020

Sinopse

Luiza conta sobre seu avô e seu pai, que trabalhavam na via férrea, e sobre seu marido, que também era ferroviário. Viajou com ele para morar em diversas cidades e vilarejos à beira dos trilhos.  

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História completa

 

P/1 - Senhora Luiza, boa tarde. 

 

R - Boa tarde. 

 

P/1 - Eu vou pedir que a senhora diga seu nome completo, a sua data de nascimento e a cidade onde a senhora nasceu. 

 

R - Meu nome é Luiza Natalina Silva de Lima. Eu nasci na cidade de Giruá, aqui no Rio Grande do Sul, do dia 25 de dezembro de 49.

 

P/1 - Qual o nome dos pais da senhora?

 

R - Meu pai, Aparício Valença da Silva e minha mãe, Terezinha de Jesus Masera da Silva. 

 

P/1 - O que os pais da senhora faziam? 

 

R - Meu pai era ferroviário, trabalhava na viação férrea, e a minha mãe era do lar.

 

P/1 - Em relação à sua família ainda, eu queria que a senhora falasse um pouco sobre a sua infância, os costumes da sua família na sua casa. Qual era a rotina de vocês quando a senhora era criança?

 

R - Ah, a gente brincava muito, porque a gente morava numa quadra e meu avô na outra. Éramos eu, a minha irmã e a minha prima. O meu vô também era ferroviário [e] ele fazia umas casinhas pra gente brincar, aí a gente fazia as comidinhas.

O nosso dia era assim: levantar de manhã com a mãe - o pai já estava viajando nos trens - e depois a gente ir lá pro vô, que era na outra quadra. [A gente] se reunia ali, eu, minha irmã e minha prima, e brincar de boneca, fazer as comidinhas. 

Foi assim a nossa infância. Foi muito bom, a gente brincava muito.

 

P/1 - A senhora tinha mais irmãos? 

 

R - Depois veio o meu mano, daí eu já tinha seis anos. Eu, como mais velha, tinha que cuidar do maninho, né? As brincadeiras passaram um pouquinho, porque eu tive que cuidar do mano. 

 

P/1 - Qual o nome dos seus irmãos? 

 

R - A minha irmã é Jane Maria Masera da Silva e o meu mano é Jorge Adalberto Masera da Silva.                  

 

P/1 - A senhora gostava de ouvir histórias quando era criança? Alguém contava histórias pra senhora?

 

R - Não, a minha mãe não era de contar história pra nós. Era só brincar de boneca, de comidinha, de casinha, de comadre. 

 

P/1 - A origem da sua família, dos seus pais, avós… Eles eram da mesma cidade onde a senhora nasceu ou vieram, se deslocaram pra onde a senhora nasceu? 

 

R - O meu avô era de Uruguaiana e veio pra Giruá, trabalhar ali. Ali nasceram os meus tios, meu pai. 

A família da minha mãe era dali, de Giruá, só que depois a minha avó por parte de mãe foi embora pra Porto Alegre. Ficaram pra lá, mas da parte do meu pai foi sempre ali. Cidade pequena, mas muito boa. 

 

P/1 - A senhora sabe por que houve essa mudança de Uruguaiana pra Giruá? Foi por trabalho, por algum motivo?

 

R -  Eu acho que foi, porque aí o meu avô entrou na viação férrea e veio trabalhar em Giruá. Deve ter sido isso.

 

P/1 - A senhora lembra da casa em que passou sua infância? Ou a principal, porque a senhora pode ter mudado...

 

R -  Era uma casa de madeira, numa esquina. Uma casa de quatro peças. Naquela época não tinha nem banheiro, era lá fora. Mas era muito bom, era divertido.

 

P/1 - E a cidade, como era na época em que a senhora era criança? A senhora circulava pela cidade ou ficava mais no bairro? Passeava com a família?

 

R -  A gente não tinha costume de passear, porque é bem pequena a cidade. A gente ia ao cinema, na matiné, no domingo à tarde. Tinha os meus tios, eles iam no baile sábado de noite e no domingo, eu, a minha mana e minha prima limpávamos os sapatos [deles] e ganhávamos a entrada do cinema, pra ir de tarde. Era assim, pra onde a gente saía.

Era muito bom. Lembro da minha infância com muita saudade.

 

P/1 -  Que bom! A senhora tinha algum sonho na época de criança, do tipo “eu queria morar em algum lugar”, “eu queria ser alguma coisa”? Quais eram os seus sonhos de infância? 

 

R - Olha, o que eu pensava… Eu queria era casar, ter a minha casinha, meu lugar. Isso que eu pensava. Nem estudar, só estudei um pouco, bem pouco. 

Depois a gente veio morar aqui em Santo Ângelo, eu tinha cinco, seis anos. Nasceu meu maninho, tive de cuidar dele. Eu ia no colégio de tarde, fiz… Naquela época era o quinto ano, nem lembro mais como era. 

Depois, com doze, treze anos, eu já fui trabalhar. Minha irmã me colocou num salão pra eu aprender a arrumar cabelo, fazer manicure, pedicure, essas coisas. Mas aí com quatorze eu conheci o Adão - meu querido Adão, que agora partiu - e com dezesseis anos a gente casou e foi embora pra Ijuí. 

 

P/1 - Como a senhora conheceu o seu Adão? 

R - Eu o conheci aqui, em Santo Ângelo. 

 

P/1 - Mas foi como? Foi no salão onde a senhora estava trabalhando? 

 

R - Não, foi assim. Aqui pertinho tem o Museu da Rede Ferroviária. Ele trabalhava nos trilhos, na via permanente, e ele pousava ali em cima, tinha um quarto ali. Eu, com outras meninas, passávamos ali. 

Tinha umas meninas que se interessavam nele, jogavam pedrinha lá em cima pra ele vir à janela. (risos) Mas eu nem pensava nele comigo. 

Terminou que começamos a namorar e quando fiz dezesseis anos, a gente casou. 

A gente viveu 54 anos juntos, casados, [foi] muito bom. Um esposo maravilhoso, carinhoso, gostava de elogiar. E agora eu perdi ele, mas Deus me conforta, me consola, me sustenta. Eu tô aqui. 

 

P/1 - Quando a senhora chegou em Santo Ângelo, a senhora já morava perto da ferrovia? 

 

R - Sim, do lado dos trilhos. Meu pai alugou uma casa que passavam os trilhos na frente. Sempre moramos assim. E depois que eu casei também fui morar na beiradinha dos trilhos, o trem passando todos os dias.

 

P/1 - Isso fazia alguma diferença na vida da senhora, ter passado a sua infância, adolescência morando na beira dos trilhos e depois também de sair de Santo Ângelo? Em volta as coisas ficavam diferentes porque tinha os trilhos? Tinha comércio, alguma coisa assim? 

 

R - Não. A cidade que eu morei, em Ijuí, sim, mas quando nós fomos morar lá pra perto de Tupanciretã, num lugar que eram só as casinhas da turma, a gente tinha que ir pra Cruz Alta pra comprar comida ou pra Tupanciretã, porque ali não tinha nada. Meu marido ia ‘a pezito’. Não sei se você entende, ‘a pezito’. (risos)

 

P/1 - É a pé mesmo? 

 

R - Isso! (risos) 

P/1 - É costume de vocês falar assim? 

 

R - É. (risos)

 

P/1 - Voltando pro seu casamento. A senhora se casou com dezesseis anos. Levou tempo pra senhora ir pra Ijuí ou a senhora foi logo em seguida? 

 

R - Casamos de manhã e de tarde já fomos embora pra Ijuí. 

 

P/1 - A senhora foi morar numa casa à beira dos trilhos, mas era todo mundo que trabalhava na ferrovia também? 

 

R - Sim. Aqueles que eram da via permanente, que cuidavam da linha pra ficar tudo direitinho, todos moravam ali, na beirada dos trilhos. 

 

P/1 - As casas eram de propriedade da linha férrea ou não? 

 

R - Sim, eram de propriedade da viação férrea. 

 

P/1 - Os vizinhos, já que todos eram também funcionários da linha férrea, tinham alguma amizade, algum contato por causa disso?

 

R - Sim, sim. A gente era uma família. Um ajudava o outro. Uma cuidava dos filhos da outra, era assim. 

 

P/1 - Eu queria que a senhora contasse um pouco sobre o dia a dia, já em Ijuí. Como era o dia a dia de vocês, da senhora, do seu esposo? Um dia comum de vocês, com seus trabalhos e afazeres. 

 

R - Ele levantava cedo, eu também. Ele já ia trabalhar, saía de manhã e só voltava de tarde. Eu, naquela época, tinha [o costume] de limpar, limpar; eu só passava [o dia] areando, limpando. (risos) Mas era bem bom limpar a casa da gente, as coisinhas da gente, tudo arrumadinho. Era muito bom. 

 

P/1 - Levou um tempo pra senhora ter filhos? 

 

R - Eu não tive filhos biológicos. Eu tenho uma filha do coração, ela tá aqui comigo hoje, é a Raquel. É tudo que eu tenho, é ela agora. A filha do coração, que está cuidando de mim; me leva pra cá, me leva pra lá. 

Eu digo assim pra ela: “Se não tivesse você, o que ia ser?” Faz todas as coisas pra mim. Sou muito feliz com a Raquel e o pai dela também era muito feliz com ela. 

 

P/1 - A senhora ficou quanto tempo em Ijuí antes de se mudarem? A senhora disse que vocês se mudaram de cidade depois. 

 

R - A gente ficou em Ijuí seis meses, aí fomos pra perto de Tupanciretã. Era Batu o nome do lugar. Era só campo que a gente via, era de fazendeiros. Lá a gente não tinha luz, não tinha uma geladeira, não tinha… 

Era bem difícil, mas era… A gente tava feliz, tava um junto com o outro ali. 

De Batu a gente foi morar em Comandaí, que é aqui perto de Santo Ângelo. Em Comandaí a gente morou quatro anos. De Comandaí a gente foi pra Benjamin Nott, perto de Cruz Alta novamente; lá foram onze anos. 

Depois de Benjamin Nott fomos pra Belisário. Moramos uns três anos [lá], eu acho aí a gente foi morar em Cruz Alta. Ali que o meu esposo se aposentou, com trinta anos de serviço na viação férrea. 

 

P/1 - E qual a diferença entre essas cidades? A senhora disse que quando foi pra Batu não tinha nada em volta, era só campo. As outras cidades foram assim também? Era muito diferente uma da outra? 

 

R - Cidade mesmo foi Cruz Alta, porque os outros lugares eram vilas. Não sei se o senhor entende… Eram vilas pequenas que a gente morou. Era sempre difícil, porque a gente tinha que se deslocar pra Cruz Alta ou Tupanciretã pra comprar alguma coisa. 

 

P/1 - Então eram vilarejozinhos, não eram cidades desenvolvidas. 

 

R - Não. Depois, quando a gente foi pra Cruz Alta, aí sim. A gente morou sete anos em Cruz Alta, aí era uma cidade. Tinha hospital, médico, mercado, tudo. Nessas outras vilas não tinha nada disso. 

 

P/1 - Voltando um pouquinho pra linha férrea, eu queria que a senhora falasse um pouco do que a senhora souber sobre o trabalho do seu avô e do seu pai também.

 

R - O meu avô era guarda-chave. Não sei se o senhor entende. Ele que virava a chave pro trem ir na linha certa. Tinha que ir pra outra linha, virava a chave, ali mudavam os trilhos. 

O meu pai era guarda-freios, em cima dos vagões pra apertar o freio. Por exemplo, numa descida tinha que apertar os freios, senão os vagões empurravam a máquina. Era perigoso. Era esse o serviço dele. 

E o meu marido era na manutenção dos trilhos.

 

P/1 - Na sua infância, com o seu avô, com o seu pai… Eles ficavam muito tempo fora, viajavam muito ou sempre estavam no mesmo local, trabalhando? 

 

R - O meu avô, sempre no mesmo local, mas o meu pai, sempre viajando. Às vezes a gente passava dias sem ver ele. 

 

P/1 - E no caso do seu esposo, a senhora viajou pra várias cidades, pra morar em vários locais, mas ele viajava também ou ficava fixo na cidade em que vocês estavam? 

 

R - Ele ficava fixo ali, só que eles iam trabalhar uns bons quilômetros longe de casa. Eles saíam de manhã e voltavam de tarde. 

 

P/1 - A senhora usava essas estações pra se deslocar, por exemplo, pra ir pra outra cidade? A senhora usava o trem pra receber ou fazer visitas?

 

R - A gente pegava o trem passageiro pra vir pra cá pra Santo Ângelo. De Batu, de Benjamin Nott, de Cruz Alta, de Comandaí, de Belisário… A gente sempre pegava o trem passageiro pra se deslocar de um lugar pro outro. Sempre assim.

Mas era muito bom viajar no trem passageiro. A minha mãe levava uns pastéis, a gente comia. Tomava um refrigerante, porque tinha o vagão-restaurante. A gente entrava, sentava e já: “Mãe, o pastel.”  A mãe já dava jeito de puxar o pastel e um refri pra gente. Era muito bom.

Tive pais maravilhosos. E um esposo também, graças a Deus.       

 

P/1 - Conte um pouco sobre os trens. Eram muito grandes? Mudaram com o tempo?

A senhora disse que tinha o vagão-restaurante… Conte um pouco como era essa experiência da senhora usar o trem. 

 

R - Daqui de Santo Ângelo a gente ia lá pra vó, em Giruá. Era uma alegria, né? Os avós [eram] muito legais com a gente. A gente pegava o passageiro ali, o trem, e ia lá pra vó. 

Depois, na segunda-feira, a volta é que era ruim, porque tinha que levantar cedo. Eram cinco e meia da manhã, a minha mãe: “Vamos levantar, levantar, que daqui a pouco já vem o [trem de] passageiro.” A gente gostava de ir, mas não gostava de voltar. 

O trem era assim: dos vagões de primeira classe, que era [com] os bancos estofados. Não sei como o senhor entende isso, acolchoados, não sei como que é. E tinha o vagão de segunda classe, que os bancos eram de madeirinha, mas nós, como éramos filhos de ferroviário, viajávamos na primeira classe. (risos) 

 

P/1 - Que sorte! 

 

(PAUSA) 

 

P/1 - Esses bancos da segunda classe, que a senhora falou que eram de madeira, não eram acolchoados… A senhora chegou a fazer o teste? Eram muito duros, era desconfortável? 

 

R - Olha, eu sempre viajei naqueles de primeira por causa do pai e do meu marido. O valor da passagem era menor naqueles vagões de segunda classe. 

 

P/1 - Era muito longe de uma cidade pra outra? 

R - Não. Pertinho, meia hora. De Cruz Alta pra Santo Ângelo era mais longinho, mas as outras eram pertinho.

 

P/1 - Comentando sobre Santo Ângelo, que é onde a senhora está agora e a senhora passou a sua infância, que lembrança a senhora tem da cidade em volta? Não só dos trilhos, mas que diferença tem de quando a senhora era criança e agora? 

 

R - Eu amo essa cidade. Não gosto nem de sair pra passear, sabe? O meu marido, a gente ficou 25 anos fora daqui, devido ao trabalho, mas quando ele se aposentou, a primeira coisa que eu quis foi voltar pra Santo Ângelo. O meu marido não queria voltar, nem a minha filha, mas o Senhor, o nosso Deus nos quis aqui, aí viemos pra cá desfrutar do meu pai, da minha mãe. 

Depois a minha mãe faleceu, meu pai faleceu, mas eu amo essa cidade e não quero sair daqui. Nem pra passear. (risos)

 

P/1 - Em que ano a senhora voltou com a sua família pra Santo Ângelo?

 

R - Foi em 1991. A gente foi embora daqui em 1965 e voltou em 1991. 

 

P/1 - Nessa época, tinha mudado muita coisa na cidade?

 

R - Agora tá bem diferente, a cidade. A cidade tá crescendo muito e a gente fica feliz.

 

P/1 - Está melhor do que quando a senhora era criança, de quando a senhora saiu? Como era?

 

R - Era bem menor, né? Agora cresceu a cidade, muito bom. 

 

P/1 - Quando a senhora retornou, ainda existia a linha? Ela tinha mudado muito de importância pra cidade, funcionava menos?

 

R - Quando a gente veio de Batu pra Comandaí… O senhor acredita que a gente viajava no vagão [com] a mudança? A mudança da gente era no vagão e a gente vinha junto. Tinha um maquinista na época que corria bastante, e de repente foi aquele barulhão. Eu disse assim: “Meu Deus, o que é isso?” 

Olhei do lado e não vi nada. O meu marido olhou do outro lado, os vagões estavam todos de roda pra cima. Só o nosso que estava pego na máquina e não virou. Deus nos guardou ali. 

Olharam lá, viram os vagões todos virados, e seguiu a máquina com o nosso vagão de mudança. Passamos até por isso. 

 

P/1 - Esse trem que vocês pegavam pra mudar não era trem de passageiros, não é? 

 

R - Não, aí era trem de carga. 

 

P/1 - Então todas as mudanças que a senhora fez de cidade fazia pelo trem mesmo.

 

R - Sim, sempre, sempre. 

 

P/1 - Como era isso? Era fácil, era difícil colocar tudo dentro do trem?

 

R - Não era muito fácil, não. (risos) Às vezes a gente dormia ali dentro; montava a cama, dormia ali porque os trens de carga demoravam pra seguir. Trem de passageiro tinha preferência, mas de carga não. 

A gente fazia comida, fazia fogo no fogão. Naquela época, eu não tinha fogão a gás; botava o cano meio pra fora da porta e fazia a comidinha da gente. Era divertido. 

 

P/1 - Vocês contavam com a ajuda das pessoas pra colocar tudo dentro, pra tirar depois, quando vocês chegavam? 

 

R - Os colegas que moravam naquela turma ajudavam a carregar a mudança. Quando a gente chegava no outro lugar, os colegas de lá ajudavam a descarregar a mudança. 

 

P/1 - Voltando então pros anos 90, quando a senhora voltou pra Santo Ângelo. O seu esposo estava aposentado, seus pais estavam vivos. A senhora voltou pra conviver com seus pais também. Como foi a readaptação pra Santo Ângelo? A senhora disse que queria mesmo voltar porque gosta, mas e o marido, sua filha? A adaptação foi fácil, ela estava estudando na época?

 

R - Tava estudando. Eles não queriam muito vir. Meu marido saía nas ruas aqui e dizia: “Eu saio na rua e não converso com ninguém.” Eu dizia: “Espera tu começar a se relacionar que tu vai ver.” 

Depois, quando a gente saía, eu dizia assim: “Só cumprimenta ‘oi’ e vamos, senão tu fica parado na conversa.” (risos) Ele gostava muito de conversar, era uma pessoa muito comunicativa. Uma pessoa muito legal mesmo. 

Todos os domingos a gente almoçava junto. Era uma festa, ou na casa da minha mãe ou na minha casa, com a minha irmã, meu cunhado, meus sobrinhos. 

Quando a minha mãe faleceu, parece que perdeu a graça, sabe? Ficou assim, [a gente] pouco se reunia nos domingos. Depois meu pai casou novamente. A esposa não gostava muito de sair, aí a gente ficou mais assim… Não era como quando estava a minha mãe junto. 

 

P/1 - A sua mãe faleceu quantos anos depois que a senhora retornou? 

 

R - Cinco anos, em 1996. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Retomando um pouco a questão da ferrovia, existia diferença entre esses redutos… Em Santo Ângelo, por exemplo, onde a senhora morava, existia diferença entre o lugar em que essas pessoas moravam e o restante da cidade? 

 

R - Não, era perto. Tudo perto. Dava bem pra ir caminhando. Ir pro centro, tudo era bem fácil.           

 

P/1 - Não era mais isolado, nada disso.

 

R - Não. Aqui em Santo Ângelo era perto, agora tinha lugares que não. Tinha lugares que era bem longe. 

 

(PAUSA)

 

P/1 - Então era perto do centro, vocês não tinham nenhuma dificuldade pra se deslocar. 

 

R - Não. 

 

P/1 - Em outras cidades, como eram vilas, elas ficavam isoladas. Vocês tinham que se deslocar pra cidades maiores.

 

R - Sim.   

 

P/1 - Havia alguma associação ou reunião de ferroviários, alguma coisa nesse sentido? Seu esposo participou de algo assim? 

 

R -  Lá em Cruz Alta tinha reunião assim. Era o centro, saía trem pra um lado, pro outro. Nos outros lugares, não. 

 

P/1 - E a senhora tem uma ideia do que eles faziam? Eram reuniões pra trabalho ou era uma associação pra diversão, pros amigos se encontrarem? 

 

R - Eles tinham aquelas reuniõezinhas de jogar, de se divertir, de ir lá jogar bocha. Outros jogavam futebol, baralho, aquelas cartas. Eles se reuniam, mas eu nunca fui. (risos) 

 

P/1 - As outras esposas iam? 

 

R - Iam. Eu preferia ficar em casa.  

 

P/1 - Quando a senhora retornou a Santo Ângelo, a senhora também foi morar perto da linha? 

R - Não, eu fui morar próximo da rodoviária daqui. Era bem longinho da casa da minha mãe, porque a minha mãe continuou morando na beirada dos trilhos. Dava uma meia hora caminhando pra vir ali, mas eu vinha dia sim, dia não ver a minha mãe e meu pai.

 

P/1 - Então a senhora continuou, de certa forma, mantendo contato com a beira da linha por causa dos seus pais. 

 

R - Sim, continuei. 

 

P/1 - Nessa época ainda tinha trem de passageiros ou já estava só como trem de carga? 

 

R - Os trens já não vinham aqui em cima, na estação. Eles construíram uma estação lá embaixo. Não sei como lhe explicar… Era bem longinho. Os trens só vinham até ali. Até agora, vêm até lá embaixo, mas subir pra cá, pro centro, não. 

 

P/1 - Já tinham desativado essa estação central, não é? 

 

R - Sim. 

 

P/1 - Ela ficou um tempo desativada até se tornar um museu?  A senhora lembra como funcionou isso?    

 

R - Disso eu não me lembro, porque eu não tava aqui em Santo Ângelo. Depois eles deram uma reformada, aí que veio o museu. Acho que foi isso. Meu marido estava sempre ali. 

 

P/1 - Não tinha o museu ainda? 

 

R - Não, ainda não. O trem vinha até ali.

 

P/1 - Hoje em dia, me conte um pouco sobre a sua vida em Santo Ângelo. Qual é o seu dia a dia, quais são as suas atividades?

R - Agora eu tô morando com a minha filha. Ela tem a casa dela na frente e no fundo tem uma casa com duas peças e um banheiro. Eu tô morando ali. 

Eu faço meu servicinho ali, da minha casinha, e gosto muito de fazer meus crochezinhos, meus tricozinhos. Eu passo assim, fazendo… Quando eu termino meu serviço, vou pros meus crochezinhos. (risos) 

 

P/1 - E essa questão da pandemia, nesse momento? Como a senhora está vivendo esse momento de isolamento, de não poder sair muito? 

 

R - Olha, tá bom. O que a gente vai fazer? Se não dá pra sair, tem que se cuidar… A gente vai ao mercado, à farmácia. Vou à minha irmã uma vez por semana, a minha filha me leva. A gente tá assim. 

Vai na igreja, sempre uma vez por semana a gente vai no culto. Isso a gente não abre mão, tem que buscar Deus. 

 

P/1 - O que a senhora acha mais importante hoje em dia?

 

R - Em primeiro lugar na minha vida é Deus, em segundo a família, a minha filha. E os amigos, os vizinhos. A gente se dá bem com todos, graças a Deus a gente tem amizades boas, [com] pessoas boas. É isso.

 

P/1 - A senhora tem algum sonho atualmente, que a senhora queira realizar? 

 

R -  Eu disse assim pra minha filha: “Agora eu não quero mais nada”, mas não é assim a vida da gente. Não é porque meu esposo faleceu que eu vou… Eu tenho que prosseguir. Nem ele ia gostar que eu ficasse assim, parada. 

O que acho muito lindo é o serviço voluntário, ajudar as pessoas, só que agora a gente não pode. Eu já tenho setenta anos, não é fácil. Mas eu sonho que isso tudo vai passar e que a gente vai poder ajudar as pessoas, visitar… Um abraço é coisa boa. Visitar as pessoas e dar um abraço. Às vezes um abraço vale mais que palavras. 

Eu ainda quero, se Deus quiser, que passe tudo isso pra gente sair, conversar com as pessoas, dar abraço nas pessoas. Que Deus me dê vida, me dê saúde.

 

P/1 - Falando do seu casamento, que lembrança mais marcante a senhora tem da convivência com seu esposo, ao longo das décadas que vocês ficaram casados? 

 

R - Ele sempre foi uma pessoa assim, sempre estava me elogiando, sabe? “Ah, mas tu tá linda, tu é o meu amor.” E eu dizia: “Ah, Nene” - eu chamava ele de Nene - “para com isso.” Ele dizia assim: “Vai dizer que tu não é o meu amor?” 

A gente sempre se deu muito bem. Eu sempre pedia a Deus que me desse vida e saúde, porque eu sempre queria cuidar do meu esposo. 

Depois ele começou a ficar doente, eu cuidando dele. Ele foi pro hospital, ficou mais de sessenta dias; eu fiquei mais de quarenta dias lá com ele, cuidando dele. Os médicos falavam pra eu ir pra casa, que eu tinha que dormir na minha cama, descansar. Eu dizia: “Não, eu não vou. Só saio no dia que ele sair daqui.” 

Ele faleceu no dia 29 de janeiro, foi quando ele saiu e eu saí também. 

Sempre nos demos bem, como dois namorados. Eu sinto muita falta dele, mas Deus me sustenta e me conforta, me consola. Foram 54 anos, não foi pouco. 

Tem uma filha que sempre nos deu alegria, nunca nos deu tristeza. A gente foi feliz e continua sendo feliz. 

 

P/1 - Em relação à essa questão que a senhora falou, de trabalho voluntário, a senhora já fazia antes da pandemia? Era por meio da igreja que a senhora fazia ou pretende fazer isso depois? 

 

R - Eu sempre fiz visita nos lares por meio da igreja e no hospital também. Duas vezes no mês a gente visitava os doentes no hospital, levava uma palavra de conforto, de esperança pra eles, que Deus… E eles gostavam muito, diziam: “Amanhã vocês vêm de novo?” Mas cada dia era uma igreja que ia, a gente dizia: “Não, amanhã a gente não vem. Amanhã vem outras pessoas.” 

Agora tá tudo trancadinho, não dá, mas eu sempre gostei de visitar os lares, as famílias, e o hospital. Era o meu trabalho. 

 

P/1 - É uma igreja católica ou igreja evangélica que a senhora frequenta?

 

R - Igreja evangélica. 

 

P/1 - Lá vocês têm esses grupos que fazem visitas às pessoas, tanto no hospital quanto em casa. 

 

R - É. 

 

P/1 - Existe alguma outra atividade que vocês fazem de trabalho voluntário? 

 

R - Eu estava só nessas duas áreas, mas tem outros [que] ensinam costura, fazer tapete, tricô, crochê. Aquelas senhoras que frequentam, no final do mês elas ganham uma cesta básica. Agora tá fechado também, mas é muito bom.

 

P/1 - A gente está chegando no final da sua entrevista. Eu queria perguntar pra senhora como foi contar sua história pra gente.

 

R - Muito bom. Eu gosto de relembrar essas coisas. Minha vida... Fui privilegiada por Deus. Minha vida foi muito boa com meus pais, com meu esposo, com minha filha, com meus vizinhos, familiares. 

 

P/1 - Tem alguma coisa que a senhora queira falar, comentar, que eu não tenha perguntado? Alguma coisa que eu não tenha abordado?

 

R - Eu não sei. (risos)  Acho que não. 

 

P/1 - Alguma lembrança que a senhora queira comentar, que foi boa na sua vida, que foi importante? Algum episódio? 

 

R - Uma coisa bem importante na minha vida, que me emocionou bastante, foi uma vizinha minha que teve o bebê nos meus braços. Aquilo me emocionou muito. ele disse: “Luiza, tu vai comigo pro hospital?” Eu disse: “Vou.” Minha vizinha de lado. Quando nós estávamos indo, a nenê nasceu. Eu fiquei tão emocionada que não chorei, eu só dava risada, ria, ria. 

Chegamos na frente do hospital, eu com a bebezinha. Isso me marcou, sabe? Hoje ela já deve estar casada, deve ser uma senhora. Foi bom. 

Eu sempre fui uma pessoa assim, não que eu queira pra mim… Como eu vou falar, que queria elogio. Eu sempre fui de ajudar as minhas vizinhas. Se a mãe tinha que sair, pode ficar comigo o bebê. 

Uma vez fiquei com seis criancinhas de uma vizinha. Quando eles começavam a ficar muito agitados, eu botava todos sentados. Seis cadeiras e os seis sentados. Quando eles começavam a abrir a boca, querer dormir, eu dizia assim: “Vão brincar, podem ir”. Quando começavam a se agitar de novo, todos sentados. (risos)

Eu sempre cuidei das crianças das minhas vizinhas e também dos meus sobrinhos, netos, que eu tenho bastante. [Foram] coisas boas na minha vida, muito boas. 

 

P/1 - E por fim, a senhora tem alguma história marcante que tenha acontecido na ferrovia ou se lembra de algo que aconteceu que a ferrovia estava envolvida? 

 

R - A gente viveu a vida ali, então estava envolvida com a ferrovia. Os amigos dele [do marido], tudo… Era uma unidade, uma comunhão entre a gente - ele com os colegas, eu com as vizinhas. Foi muito bom viver assim, na beirada da linha. Foi marcante. 

 

P/1 - A senhora já chegou a visitar o Museu Ferroviário, que fica na estação antiga? 

 

R - O senhor acredita que eu não fui ali? Meu marido tava sempre ali, mas eu nunca fui. Meu pai trabalhava ali, na estação. 

 

P/1 - Pra encerrar, eu agradeço muitíssimo o seu depoimento. Foi um depoimento bem interessante, de pensar uma pessoa que ficou tanto tempo, a família envolvida com a ferrovia. O avô, o pai, o marido… Foi muito interessante conversar com a senhora sobre isso. Eu, pessoalmente, gostei muito e agradeço em nome do Museu da Pessoa e da RUMO, que é a administradora atual da ferrovia, pelo seu depoimento. 

 

R - Eu agradeço. Fico muito agradecida também.                                                                        


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