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História

Uma urbanista de primeira

História de: Lia Ancona de Faria
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 16/12/2014

Sinopse

Lia é uma urbanista que contou sua história ao Museu da Pessoa. Ela recorda a infância na região da Bela Vista e a mudança para uma casa na Rua Augusta. Lembra os colégios em que estudou e a escolha da profissão de arquiteta. Recorda como conheceu seu marido, militante do PCB como ela, e o início profissional como urbanista. Descreve sua trajetória profissional como urbanista na Prefeitura Municipal de São Paulo, onde passou por vários cargos e funções.

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História completa

Meu nome é Lia Ancona de Faria. Nasci em São Paulo, no dia 12 de julho de 1938. Meu pai e minha mãe são filhos de italianos. Meu pai é Dante Ancona Lopez, minha mãe Linda Ancona Lopez porque eles eram primos. O meu avô paterno entrou numa revolução na Itália e falaram que ele tinha que sair correndo ou então ele seria preso, não sei exatamente o que era, que movimento era aquele. Meu pai diz que começou a namorar minha mãe no Jardim da Aclimação, onde eles tinham ido juntos, todos, fazer um piquenique, porque eles conviviam muito. Eram primos, faziam tudo juntos. Minha mãe tinha 24 e meu pai 29 anos. Eu sou a mais velha e tenho quatro irmãos. Única mulher. E meus irmãos, três pelo menos têm uma barba branca e adoram dizer: “A Lia é a mais velha”, eu digo: “Eu não tenho barba branca”. O Fábio tem um ano só menos do que eu. Morávamos na casa vizinha à casa do meu avô, na Rua Santo Amaro. A casa era grande, não lembro quantos quartos, mas era uma casa que você subia. Meu pai resolveu vender a casa e comprou uma na Rua Augusta, perto da Rua Oscar Freire. Isso foi um suplício, um sofrimento, minha mãe chorava, meu avô gritava, porque ele ia morar longe, ia morar num descampado, era aquela coisa horrível. A Rua Oscar Freire não era calçada naquela época. Descia um bonde pela Rua Augusta, blem blem blem blem, passava um cara com cabras, realmente era meio longe. Foi muita tristeza do meu avô, da minha mãe, aquela coisa italiana. Mas essa casa da Rua Augusta era bem grande. Eu devo ter ido para lá com uns quatro anos, talvez cinco até os 15 ou 16. Depois, nós mudamos pra Alameda Jaú, outra casa bem grande, mais bonita, uma casa com um certo estilo e tal. E da Alameda Jaú nós mudamos pra Rua Baronesa de Itu, primeira vez que eu morei em apartamento. Depois de um ano e pouco eu casei. Meu pai foi preso pelo DOI-CODI, naquele negócio de ser amigo do Luís Carlos Prestes e tal. Foi em 75. Começaram a pegar todos os comunistas e acharam uma caderneta do Prestes com nomes e telefones, e o nome do meu pai estava lá.

Acho que naquela época a gente entrava com seis anos na escola. Eu entrei no jardim da infância numa escola que tinha atrás da escola chamada Externato Meira. Acho que não era na Haddock Lobo, era uma rua paralela à Augusta. Era uma escolinha, escolas daquela época. A hora do recreio você comia o lanche na carteira e mandavam você deitar a cabeça pra descansar, era esse o recreio. Estudei lá até a quarta série, depois fui pro Dante Alighieri. Eu gostava de brincar de escolinha. Brincava de escolinha adoidado. Também era a mais velha das minhas primas, botava todo mundo pra escrever, eu era professora. Era a brincadeira que eu mais gostava.

Minha primeira paixão, eu tinha 15 anos exatamente. O rapaz jogava futebol. O nome dele era José Antônio, mas ninguém chamava ele disso, todo mundo chamava ele de 17, que era a camisa que ele usava no futebol. E ele foi o 17 a minha vida inteira, chamado de 17. Foi uma paixão, da parte dele também, a gente namorou dois anos. E a gente namorava muito no Trianon porque saía do Dante Alighieri e entrava no parque, namorava. Foi muito legal, mas eu namorava escondido porque o meu pai não podia saber que eu namorava. E ele passava em frente de casa, chamava o Fábio às vezes, meu pai cismou que “Esse cara é um cafajeste”, e era esse cara que eu namorava. Depois de dois anos ele resolveu jogar futebol profissional, entrou no Juventus. Eu falei: “Não vou encarar essa, jogador de futebol, meu pai”, também acho que eu já não estava tão interessada e briguei com ele, esse foi uma paixão louca. Muito cinema e muito baile.

Eu queria ser psicóloga, eu acho que eu teria me dado muito bem como psicóloga. A Psicologia ainda não era uma carreira reconhecida. Foi uma campanha do meu pai: “Mas você não vai ganhar dinheiro com isso, Psicologia é uma bobagem, vai fazer Arquitetura”. Eu fui fazer Arquitetura. Na verdade nunca fui arquiteta, eu trabalhei com Urbanismo e adorei.  Eu prestei na FAU e não entrei, fui pra Itália com meus tios, com minha avó, nós ficamos três ou quatro meses fora, bastante; três meses com certeza. Eu cheguei em São Paulo em agosto, mas foi assim. Eu estava da cor de um carvão porque nós fomos de navio, 17 dias no Conte Grande, mais 17 pra voltar. Eu voltei em agosto. Era o tempo da gripe asiática em São Paulo. Eu não sei porque estava todo mundo doente aqui, nós chegamos, estavam todos brancos, doentes e eu fui direto pro cursinho, pro Anglo Latino, que eu tinha começado, parei e fui lá. Com umas roupas italianas, como eu estou falando tinha muita diferença de roupa. Então eu cheguei negra, com roupas diferentes, eu chamei atenção de todo mundo no cursinho. Mas eu sentei no primeiro dia de aula eu comecei a cantarolar, o cara me mandou sair da classe, porque eu estava na sala cantarolando. Fiz o maior sucesso no cursinho e tal. Vieram os exames que fazem pra ver, o simulado. Tirei zero, em tudo. Isso já era agosto ou setembro. Eu falei: “Mas eu vou entrar porque eu não vou de novo ser reprovada”. Eu estudei tanto que eu entrei em sétimo lugar no Mackenzie, Eu saí em 62. 62, 61, 50, 59, 58. Foi 58, eu entrei em 58 no Mackenzie. Bom, uma classe, nós éramos 13 mulheres numa turma de 60, numa classe tinha dez, na minha tinha três, era por ordem alfabética, mas calhou, na minha só tinha três. Eu, a Maria Helena e a Sônia. A Sônia namorava o rapaz da engenharia, a Maria Helena namorava um colega nosso. Era eu contra a turma. Eu fiz uma turma de amigos lá muito grande, nós éramos cinco ou seis. Todos estudavam na minha casa. Nesse ponto a minha mãe era muito legal, fazia sanduíche, a gente combinava pra almoçar. E com eles meu pai deixava tudo, é o tal negócio, com eles eu podia tudo. Nós fazíamos Senai à noite, no primeiro ano, no segundo, sei lá, acho que era Senai. Aprendia a pôr tijolo, a fazer cimento, aprendia essas coisas, diz que é pra depois aprender a ensinar. A gente tacava cimento com pá na parede, alisava, fazia tudo isso. Namorei muito, namorei muito dentro da faculdade.  No último ano eu fiz um estágio. Meu pai me mandou num amigo dele que tinha um escritório de arquitetura, ele mandava desenhar tijolinho o dia inteiro nas fachadas dele. Eu falei: “Não quero, saí”. Depois eu fui fazer estágio no escritório do Badra.  Mas também não fiquei. Depois fui trabalhar com outro sim. A minha cunhada da época, ela trabalhava com um primo que era advogado e na mesma sala tinha um primo que era arquiteto, na sala ao lado. Então ela me arrumou pra ir trabalhar lá com esse rapaz. Eu não sei se eu era muito chata, mas eu também achei ele muito bitolado. E também não fiquei muito tempo lá. Quando eu me formei, eu com essa turma de amigos, resolvemos montar um escritorinho. Alugamos um imóvel lá perto do Mackenzie, compramos, eu tinha um estojo de compasso alemão, caríssimo, um papel vegetal alemão, pus tudo lá. Mas a gente não conseguia trabalho, na verdade. Ficamos lá esperando ver se entrava alguma coisa, não entrava nada, nisso eu casei. E fui pro Rio, fiquei um mês, 20 e tantos dias no Rio. Quando eu voltei eles tinham desmanchado o escritório, tinham sumido com meu compasso, com meu papel, com tudo. Foi bem mal isso daí, foi muito chato.

E na verdade quando nós casamos o Cabé era muito duro e eu não estava trabalhando. E eu tive quatro filhos em cinco anos. Eu fiz de tudo, eu dei aula particular, eu fiz muita coisa. Eu conheci o Cabé assim, eu era militante do PCB e ele também. Ele fez Engenharia na FEI. Mas ele fazia política, à noite ele ia pra esquina da Barão de Itapetininga com Ipiranga, ficavam lá discutindo até altas horas. Ele estava há três anos no terceiro ano. Ele falava pra mãe dele que ele ia se formar. Na minha formatura ela falou: “Logo é o Carlos Alberto”, eu falei: “Não é. Ele está levando a senhora na conversa, ele está no terceiro ano”. Eu fiz ele estudar de novo e ele voltou. O que eu desenhei de pontes rolantes, dava luz, tinha criança pequena, tinha que acordar cedo e à noite tinha que fazer os desenhos dele, que era o jeito. Eu tomava moderador de apetite à noite pra poder ficar acesa desenhando as pontes rolantes. Ele se formou. Quando ele se formou eu estava grávida da Lelê. Ele era concursado no serviço, era funcionário público estadual. Quando a Saec virou Sabesp eles pegaram funcionários estaduais e incorporaram no quadro da Sabesp, ele não é mais funcionário público, mas ele é funcionário da Sabesp. Ele alugou um apartamento na Lins de Vasconcelos e nós mudamos pra lá. Aliás, eu tive um aborto bem no começo. Eu tive um aborto e fui ao médico que disse que eu tinha o útero pequeno, invertido, e que provavelmente eu ia perder muitos antes de poder ter um filho. Nós mudamos.

Eu entrei nessa coisa dos brinquedos educativos, Faz de Conta chamava a loja. Era uma loja na Rocha Azevedo. Fez muito sucesso. E foi crescendo, foi crescendo. Teve uma ocasião que o José Olympio se interessou, a editora, queria vender os brinquedos, mas queria uma produção maior e nós chegamos no seguinte impasse, ou aumenta a produção ou para, porque não tinha jeito, chega um ponto que você tem que crescer, não dá pra ficar parado em algumas coisas. Nesse momento o Nedir separou da Marlene; a Marlene e a Elenice brigaram, eu não podia comprar a parte delas, então desmanchou-se a Faz de Conta. Existia há uns três anos. Mas eu gostava muito dos brinquedos educativos. Depois disso as crianças estavam na tal escola montessoriana e a diretora me convidou se eu queria dar aula de História para duas turmas. Então tinha que fazer uma frisa do tempo e dar aula de História pra eles, eu dei aula um ano lá. Aí eu fui trabalhar com o meu pai na publicidade de cinema. Meu pai tinha sido preso, foi aquele negócio. Eu e o Cabé íamos saindo uma manhã pra levar não sei quem, todos, pra escola, talvez dois ou três, sei lá, e vem subindo a escada o tio dele, o Lazinho, esse que era delegado. Veio subindo a escada, era cedinho, a gente parou e ele falou: “O Dante foi pego pela Oban”. Nunca senti uma sensação tão ruim.

Eu estava fazendo laudos, porque tenho um amigo, é o Peluso, que hoje, aliás, a gente está em campos muito opostos, mas eles moravam na Aclimação, ele, a Lúcia e as crianças, quatro crianças também, um pouco mais novos que os nossos. Ele era juiz de uma Vara da Família e através das crianças, que eram muito amigas, nós acabamos ficando amigos, muito amigos. E chegou uma hora que ele me indicou pra ser perita dele. Bom, eu falei: “Eu não sei fazer perícia”. Ele falou: “Não, mas tem um amigo meu, ele é perito, ele concordou em você trabalhar no escritório dele, ele te ensina e você ajuda ele”. Fiz muitos anos de perícia, deu pra ganhar muito dinheiro, perícia é muito bom de fazer. Foi bom, eu ganhei bem nessa época e de repente me chamaram pra prefeitura. Depois que me chamaram pra prefeitura eu falei: “Peluso, como eu vou fazer? Eles estão querendo que eu pegue dedicação exclusiva pra ganhar mais”. Ele falou: “Pega, porque agora eu estou indo pro tribunal e não vai ser muito fácil te dar laudos”. E eu fiquei dedicação exclusiva na prefeitura.  Na Secretaria da Habitação. A gente trabalhou pra campanha do Fernando Henrique nessa época.  Eu era assistente nessa comissão que depois eu fui chefe de assessoria. Assistente técnica administrativa. Eu dava pareceres nessa tal comissão onde entram os projetos que não estão previstos em lei. E você tem que dar um parecer se pode ser aprovado, se não pode ser aprovado e dar toda a argumentação. A chefe de assessoria entra na reunião com pessoas de fora, da sociedade, arquitetos, representantes de OAB, representantes do Sindicato de Arquitetos, representante do Secovi, tal. E esse grupo, a chefe de assessoria só apresenta o problema e esse grupo decide se coloca ou não coloca, se libera ou não libera. Nessa época eu era assistente, eu fazia os pareceres pra chefe de assessoria.  O código foi aprovado. Foi um trabalho muito bacana. Quatro anos, foi aprovado no último ano.  Eu sei que depois eu fui diretora do Deapla. Fiquei uns dois, três anos. Aí mudou, o Werner saiu, o Werner morreu, entrou o Ricardo Ohtake, mudou o pessoal de lá e me puseram no gabinete. Do gabinete me puseram como diretora do Deapla. Foi interessante porque os meus amigos, a turma que tinha me chamado pra ser diretora do Depave, eu falei: “Vou ser diretora do Deapla”. Departamento de Educação Ambiental e Planejamento. Depois entrou Stela Goldestein como Secretária e chamou o Geraldinho como Chefe de Gabinete e ele me chamou pra ser assessora dele. Foi a melhor época que eu passei na prefeitura, foi maravilhoso. Foi muito bom trabalhar com essa turma. Quando a Stela saiu e entrou a Adriana Diogo, a Dri tinha me dito: “A Adriana Diogo não gosta nem de mim, nem do Lula”. Eu falei: “Sabe o quê? Vai mudar tudo de novo, eu vou ter que...” Porque o que aconteceu? Eu já tinha uma idade que eu era a tia da prefeitura, eu era a avó da prefeitura e cada vez entrava gente mais nova, mais nova, claro. Esperei fazer 65 porque mudava não sei o quê lá no valor de qualquer coisa e me aposentei. Eu adorei me aposentar.  Meu marido se aposentou antes de mim. Quando ele falou que ele ia se aposentar eu estava fazendo terapia ainda. Eu falei pra minha terapeuta: “Ele está dizendo que vai se aposentar. Eu não vou aguentar esse homem em casa”. Ela falou: “Mas ele tem o direito de se aposentar. Ele trabalhou o número de anos suficientes que ele pode se aposentar, ele tem esse direito”. Mas não foi porque eu ainda trabalhava muito e ficava muito pouco em casa, eu ficava muito fora de casa. E o Cabé, a gente teve muitas diferenças na vida, mas a gente tem umas semelhanças que eu acho que são básicas, depois de muitos anos de casado. A gente gosta das mesmas pessoas, a gente gosta dos mesmos programas. E eu acho que agora nós somos dois aposentados, eu acho que está muito bom.

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