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História

Uma trajetória dedicada à educação

História de: Hilmo Alves
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 11/08/2011

Sinopse

Hilmo nasceu no interior de São Paulo. Aos doze anos, foi morar em Santos e conheceu o mar, do qual só tinha ouvido falar nas canções de Ary Barroso. Mudou-se para São Paulo e teve uma carreira versátil: trabalhou no Exército, como professor e, por fim, como assessor na Assembleia Legislativa de São Paulo. Mas todos com algo em comum: o foco na educação e no desenvolvimento social.                

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História completa

P/1 - Seu Hilmo, primeiro eu vou pedir para o senhor nos dizer o seu nome inteiro, o local e a data de nascimento para ficar registrado e começar a sua entrevista.

 

R - Posso começar?

 

P/1 - Por favor.

 

R - Eu nasci em Olímpia, estado de São Paulo. Eu sou meio polêmico e gostaria de dizer: a minha idade mental, eu considero 38 anos; a minha idade espiritual, considero que tenho sessenta anos. E a minha idade física é que eu posso considerar.

 

P/1 - É essa. Em que dia, mês e ano o senhor nasceu?

 

R - Posso considerar a idade do ano de 1927.

 

P/1  - Em que dia o senhor nasceu?

 

R - Dia 22 de fevereiro, às 21 horas.

 

P/1 - E quais os nomes dos seus pais?

 

R - Benedito Alves e Sebastiana de Jesus Alves.

P/1 - O que eles faziam?

 

R - O meu pai era funcionário de uma estrada de ferro que se chamava São Paulo – Goiás, que funcionava de Bebedouro a Nova Granada. Ele era funcionário dessa estrada de ferro e trabalhava no pesado. Faleceu jovem, com quarenta e três anos.

 

P/1 - E a sua mãe, o que ela fazia?

 

R - A minha mãe, prendas domésticas, como as mães da época.  Lavando roupas para fora e fazendo pequenos serviços domésticos.

 

P/1 - E o senhor tinha irmãos?

 

R - Seis irmãos. Quando o meu pai faleceu, éramos seis irmãos; o menor tinha um ano e meio.

 

P/1 - E o senhor tinha quantos anos?

 

R  - Tinha dez anos.

 

P/1 - E como o senhor descreveria seu pai e sua mãe? O seu pai, o senhor já falou um pouquinho.

 

R - É. O meu pai era um homem que tinha vindo, realmente, de uma situação muito complicada, porque tinha nascido em 1893, então seus pais, na certa, eram serviçais, semiescravos já. E ele era um homem, apesar disso tudo... Na época, os filhos de escravos já eram libertos. Eu creio que esse fato permitiu que ele desenvolvesse alguns conhecimentos de leituras. É o que ele dizia: eu sei fazer as quatro operações. Tanto que ele tinha uma atividade extra, que era venda de bilhetes. Antigamente existiam os chalés - chamavam chalés - e ele vendia bilhetes.

 

P/1 - Era como quiosques?

R - Perfeitamente. E a minha mãe já veio de uma origem melhor. Os pais dela eram fazendeiros, na região de Viradouro, Terra Roxa, Pitangueiras. Eles tinham posses, então ela já tinha um conhecimento, uma possibilidade de mostrar para todos nós um conhecimento maior.

 

P/1 - E como era a sua casa de infância?

 

R - A casa?

 

P/1 - A casa, a cidade...

 

R - A cidade era pequena e nós tínhamos uma... Era uma casa, sempre chamávamos assim, “de data”. Era uma casa e um quintal enorme, que a gente chamava “de data”. Nesse quintal tinha todas as frutas, o que ajudava muito nós nos alimentarmos. Com a morte do meu pai, a situação ficou muito difícil. Eu me lembro de que a gente subia no pé de manga e comia as mangas à vontade, ou [subia] num pé de laranja. Então, estava bem alimentado com as frutas e ovos, porque se criavam galinhas, já que os terrenos eram grandes para esse tipo de atividade.

 

P/1 - Depois que o seu pai morreu, tão jovem, como se reorganizou a família?

 

R - Foi um período muito difícil. Apesar de minha mãe ter parentes de posses, não havia relacionamento entre eles. A gente só foi ter esse relacionamento quando nós ficamos moços e fomos localizá-los. Hoje, vocês não podem entender que a comunicação na época era muito difícil. As pessoas moravam a quarenta, cinquenta quilômetros de distância, e não se sabia... Não é como hoje, que tem telefone; não tinha nada. Então ficavam... A minha mãezinha sofrendo, sendo que os seus parentes com fazendas e tudo, que poderiam ajudá-la. Só fomos ter conhecimento quando ficamos adultos e fomos localizar.

 

P/1 -  Com quantos anos o senhor foi para a escola?

 

R - A escola eu fiz normalmente. Eu fiz o primário com oito anos, que era realmente o máximo que se conseguia, não é? Não tinha mais nada. A cidade mesmo só tinha uma escola particular, a qual só a elite frequentava. Tem uma lembrança que eu gostaria de dizer: no período da... Que a gente chamava Grupo Escolar... Nesse período, nós não cantávamos o hino nacional, nós cantávamos os sambas do Ari Barroso, de louvação, mostrando que nossa pátria tinha o céu mais azul, tinha muitas belezas etc. Todas aquelas músicas do Ari Barroso nós cantávamos e ficávamos felizes de conhecer o Brasil através delas.

O hino nacional é um hino cívico. Para nós, não dizia nada, mas as músicas do Ari Barroso diziam muita coisa para nós. Até hoje, nós lembramos que passamos a gostar do Brasil através da música. Conhecer, melhor dizendo.

 

P/1 - E a escola ficava perto da sua casa? O senhor ia a pé?

 

R - Era próximo, era tudo próximo. Tinha uns coleguinhas que vinham de sítios distantes; vinham a pé, coitadinhos. Andavam quatro, cinco quilômetros, e depois voltavam. Nós morávamos na cidade e tivemos a felicidade de fazer o Grupo Escolar ali.

Posteriormente, eu vim para Santos com um tio. Se bem que, antes de eu vir para Santos meu trabalho, nessa cidade, era catar algodão; as crianças iam catar algodão para ajudar a manter a família. E eu também tinha um processo de salgar couro de vaca.

 

P/1 - Curtume.

 

R - É. Com dez aninhos eu ia salgar os couros. Puxava e ficava sujinho o dia todo.

 

P/1 - O senhor era o mais velho?

 

R - Não, tinha um mais velho que, também, coitadinho, ia trabalhar em outro lugar lá, com um caminhão. Era um trabalho terrível, até hoje eu sinto o cheiro do couro - aquele cheiro do couro para salgar, para não apodrecer. Foi um trabalho que eu fiz com nove, dez anos.

 

P/1 -  Até quantos anos?

 

R - Até uns doze anos, quando eu vim embora para Santos.

 

P/1 - Com doze anos o senhor veio embora para Santos com um tio. Da sua mãe ou do seu pai?

 

R - Ele propriamente era um... Não era um parente, era um amigo da família que a gente chamava de tio. Eu vim para Santos porque ele precisava de um menino para aprender o ofício de alfaiate, então eu vim para...  Foi o cunhado dele que foi para a cidade e me trouxe para aprender esse ofício.

Eu vim para Santos e de dia eu trabalhava numa pensão na praia do Gonzaga. Porque na praia do Gonzaga só tinha casarões, não havia hotéis; os hotéis eram só no centro de Santos. As pessoas que vinham, os importantes, ficavam ali. E os casarões é que tinham pensões para as pessoas mais simples, porque nos hotéis ficavam realmente as pessoas estrangeiras.

Eu fui trabalhar nessa pensão onde descascava batatas e fazia os trabalhos de varrer aqueles terrenos grandes e levar marmitas para lá e para cá. À noite, ia aprender o ofício de alfaiate. Quando aprendi, que falavam assim: “Você já é meio oficial”, aí eu pude sair dos lugares.

Eu fui muito esperto: em seis meses aprendi a ficar com o dedinho amarrado e em seis meses aprendi [a ser] alfaiate. Fiquei trabalhando de alfaiate até os quatorze anos, com esse tio. A partir daí, eu vim para São Paulo.

 

P/1 - Com quatorze anos, o senhor saiu de Santos e veio para São Paulo. Mas só voltando um pouquinho... Como foi sair do interior? O senhor não conhecia o mar?

 

R - Não, não conhecia o mar.

 

P/1 - E como é que foi chegar a Santos?

 

R - Que interessante, não é? As músicas do Ari Barroso nos descreviam com tal beleza as paisagens e imagens brasileiras que a gente já tinha em mente. Veja que coisa, hoje o hino nacional é cívico, para crianças não diz nada, mas as músicas escolhidas por aqueles mestres para nós cantarmos era uma louvação ao país. Então, a gente marcava tudo: os pássaros, as árvores, o Amazonas - o rio. Marcava e guardava aquilo. Quando eu cheguei e vi o mar, eu já conhecia o mar pela imagem que foi implantada na minha mente pelas músicas.

 

P/1 - O senhor estava contando que, com quatorze anos, saiu de Santos e veio para São Paulo. O senhor veio sozinho?

 

R - Não, essa família mesmo mudou para São Paulo e eu vim junto. Vim junto e fiquei com eles, trabalhando já de alfaiate. Fiquei com eles um período de um ou dois anos e aí encontrei uma família, que tinha morado numa cidade próxima – que se chamava Severínia - e passei a ter contato com eles, aos domingos. Eram muito interessantes os caipiras, esse desejo de visitar os seus amigos; passava os domingos lá e foram eles que me deram a ideia: “Por que você não mora numa pensão assim e tal?”

 

P/1 - Estava trabalhando como alfaiate?

 

R - Como alfaiate. Um deles, chamado José, foi comigo numa pensão. Eu estava me queixando já de onde eu estava. Fui numa pensão porque eu estava adolescente, então era tudo ruim - quem estava nos ajudando era ruim. Fui numa pensão com ele - ele foi meu tutor -, eu fiquei na pensão e trabalhando de alfaiate.

 

P/1 - E onde era sua oficina de alfaiate?

 

R - Era na [Avenida] Celso Garcia.

 

P/1 - Já era na Celso Garcia.

 

R - Na Celso Garcia, defronte da estação de bonde.

 

P/1 - No Brás. Ali que depois virou a garagem da CMTC.

 

R - Perfeitamente. E foi ali foi que eu, realmente, comecei a estudar. Assim, como foi o estudo.

 

P/1 - O senhor retomou os estudos nessa época.

 

R - Foi, já para o ginásio. Como é que foi? Três ou quatro colegas falaram: “Olha, no Romão Piuggari” - uma escola que existe até hoje - “vai ter um curso de ginásio comercial à noite. E como você trabalha de alfaiate, você pode se inscrever porque você faz parte do comércio. E lá é de graça.” Parece que pagava cinco reais, mas era de graça, dava os cinco reais para ajudar coisinhas assim... Eu fui para lá e me inscrevi com esses colegas, então trabalhava de dia e, à noite, estudava. E nós tínhamos, nessa ocasião, nesse ginásio, Espanhol, Português, Latim, Inglês.

 

P/1 - Onde fez o Clássico? Não, Clássico é o colegial. O ginásio.

 

R - Não. No ginásio nós tínhamos isso - Ginásio Comercial. E nós saíamos com a formação de auxiliar de escritório, além do ginásio. Foi dessa forma que eu comecei a estudar, graças a esses colegas que estarão no céu ou aqui, eles que me levaram até lá. E eu fiz o Ginásio.

O diretor era um ser humano fantástico, os professores também. E terminando o ginásio eu fui fazer Contabilidade, que era o curso máximo. Fiz Contabilidade, mas quando estava no segundo ano passei a fazer Científico também.

 

P/1 - O senhor fazia dois cursos.

 

R - Dois cursos, o Científico também. Porque a Contabilidade, no terceiro, era prática.

 

P/1 - Onde o senhor fazia Contabilidade?

 

R - No [Colégio] Trinta de Outubro, no Brás também.

 

P/1 - Aí o senhor estava fazendo o Científico.

 

R - Terminei o Científico no Alexandre de Gusmão, onde eu fui depois professor. E essa colocação... Deixa vocês perguntarem.

 

P/1 - Não, pode continuar o que o senhor estava contando.

 

R - Nesse ínterim, fui fazendo esse curso. Quando terminei tudo, houve uma abertura para se fazer Economia; então, vamos fazer Economia. Eu era contador, fazer Economia, porque… Nesse período, eu estava trabalhando numa casa de modas muito importante, na Avenida Ipiranga. Eu trabalhava...

 

P/1 - E como se chamava?

 

R - Strauss. Vinham todas as pessoas importantes, era uma loja de elite. Eu trabalhava lá assim, e eram aquelas coisas... Eu tive muito a ajuda da mão de Deus, porque não me viciei em nada. E era jogado em lugares bons.

Foi nessa loja que eu consegui me formar economista e passei a prestar uns trabalhos para eles ainda. Dali eu fui para o Exército.

 

P/1 - O senhor já tinha quantos anos, mais ou menos?

 

R - Eu estava com dezenove anos.

 

P/1 - Aí o senhor decidiu.

R - Fui servir o Exército.

 

P/1 -  Porque estava no seu ano de servir.

 

R - Fui servir o Exército. Eu já tinha um conhecimento bom e ali fiz cursos para ser cabo, para ser sargento... E fui fazendo os cursinhos dali mesmo.

Eu já tinha terminado a Economia e um outro colega dali mesmo falou: “Olha, por que você não faz Filosofia? Entra na USP, porque é muito bom.” Como havia um concurso para professores no magistério militar, eu achei interessante. Fui e me candidatei. Estudei sozinho, não tinha essas escolas todas que preparam. Estudava muito, estudava no bonde, latim. Copiava tudo em inglês e no bonde ia lendo em inglês, em latim tudo aquilo.

Estudava demais, não tinha tempo para nada a não ser estudo. Para vocês verem uma coisa, na pensão, para eu fazer a lição da noite, que eu chegava da escola... Tinha três colegas que dormiam no mesmo quarto, gente maravilhosa - uma homenagem ao Samuel, um grande amigo -, e então ele me comprou uma lanterninha. Eu acendia a lanterninha para fazer a lição, para não acender a luz, para não prejudicá-los. Porque os coitados também levantavam cedo, não é? E não podia acender a luz, era aquela luzona grande que ficava em cima, era tudo diferente. Hoje vocês têm aquelas coisas assim, a gente tinha que acender com a mão, na própria lâmpada apagava e acendia. Então eu fazia... Estudei e fui fazer a Faculdade de Ciências e Letras, entrei e fui fazer.

 

P/1 - Que era na [Rua] Maria Antônia ainda.

 

R - Na Maria Antônia.

 

P/1 - E como é que foi?

 

R - Lá eu tive a felicidade... eu era o único negro que tinha na época que entrou, o único. Não tinha nenhum negrinho mais, só eu. E eu nunca senti, por parte dos meus colegas, nada de diferente, de oposição, sabe? Pelo contrário, fui eleito vice-presidente do grêmio da USP, cheguei a ser presidente também. Na época... Inclusive, na época, meus colegas... Um foi deputado, o Perroni - Vicente Perroni. E tive outro também que foi deputado.

 

P/1 - Em que ano o senhor entrou?

 

R - 1958, quando vocês não tinham nascido ainda. Mas era, realmente... a gente estudava demais. Os livros que nós tínhamos eram em inglês, francês, espanhol; não havia livro em português e quando a gente encontrava um livro em espanhol era uma festa. E ficava enterrado naquela biblioteca municipal durante sábado, domingo - domingo fechava onze horas ou meio-dia... Três horas... E a gente ficava até essa hora. Era sábado e domingo ali estudando, traduzindo tudo aquilo. Se você sabe, por exemplo, a História antiga e medieval, era terrível. Nós entrávamos ali para traduzir tudo aquilo. E a parte de Geografia Humana, nós tínhamos também o livro do De Martoni - que era o 'papa' da coisa - para traduzirmos do francês: tínhamos que traduzir para depois estudar.

Eu tive a felicidade de ter grandes mestres na USP, gostaria de registrar esses nomes - eu, como mestre. Perdoem-me aqueles que eu não lembrar: Haroldo de Azevedo, Aziz Ab´Saber, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, doutora Ruth Cardoso, esposa do presidente [Fernando Henrique Cardoso]. Teve o França, professor França, e outros mais que foram professores fabulosos! Eu tive a felicidade de fazer uma viagem com o Aziz Ab´Saber por todo o Vale do São Francisco, estudando toda a parte... A paisagem geográfica da região in loco. Ele vinha: “Aquilo ali é isso, aquele é outro...”

 

P/1 -  Por que lugares vocês passaram?

 

R - Todos. Saímos de Minas, ali de onde saem os barcos. Meu Deus, o início da viagem do São Francisco é uma cidade que sai de Minas, e nós fomos até Petrolina e Juazeiro. Petrolina e Juazeiro formam um dos portos fluviais mais lindos do mundo, é uma coisa linda quando chega ali - e fomos até ali. Várias cidades por que passávamos, muitas delas foram invadidas depois que fizeram a Usina, foram destruídas. Eu me lembro de Bom Jesus da Lapa, onde nós paramos e fomos ver a igreja que está enterrada na gruta, eu lembro bem, e outras maravilhas por que passamos. E o Ab´Saber ensinando para nós a geografia da região toda; passamos por toda aquela região da seca, todas aquelas partes ali.

Graças a esses mestres fantásticos... O professor Haroldo, nós fazíamos com ele muitas caminhadas por museus para estudar os livros de História do Brasil - Geografia do Brasil, aliás. Ele até escreveu uma obra fantástica, escrita em três volumes, que eu tenho até hoje. Nessa pesquisa que fazíamos, estavam conosco o Haroldo de Azevedo, o Florestan Fernandes - um trabalho fantástico sobre preconceito racial. Ele tem um livro… Lembro muito que ele dizia que os negros estavam sendo... Tinham um pé na cozinha, eram as mulheres, as mulheres é que serviam de empregadas domésticas. Com a vinda dos imigrantes e a evolução desses imigrantes economicamente, eles passaram a contratar os seus semelhantes, então foram expulsando as negras da cozinha e foram... Não era por maldade, é porque as negras tinham o seu tipo de comida doméstica e as patrícias desses imigrantes sabiam das comidas que eles queriam, não é? Dessa forma, foi mais uma forma de alijar o trabalho do negro de um meio de sobrevivência - com o afastamento. Florestan Fernandes discorre sobre isso com muita habilidade e com muito trabalho, e nós fazíamos parte desse trabalho.

O professor Egon Schaden era o professor de Antropologia. Lembro-me, com muita clareza, quando ele dizia: “Gente, vocês observem os caracteres físicos das pessoas que vocês vão ver, por trás deles, os componentes de outras raças que predominam, que a gente traz. Por isso é que o Brasil dificilmente será um país racista; será preconceituoso, mas racista não. Porque é muito difícil não encontrar no nosso povo componente negróide, caucasóide, [é] uma mistura muito grande. Nos Estados Unidos, o racismo se fundamenta justamente no fato de que se você tiver um só componente negróide - pode ser loiro de olhos azuis - você é considerado negro. Ou asiático. Mas, no Brasil, esse trabalho seria muito difícil porque setenta por cento da população traz componente asiático ou negróide etc.

 

P/1 - O senhor estava me contando antes que assistiu ao início da USP Butantã. Que chegou uma época em que o senhor tinha algumas aulas lá na Maria Antônia. E como foi isso?

 

R - Foi um trabalho muito difícil. Eu gostaria de, antes, dizer que quando fui vice-presidente do grêmio da USP, tive a felicidade... Eu e mais um grupo de colegas fomos entrevistar o Presidente Juscelino Kubitschek. Nós fomos lá para fazer um apelo a ele, para que ajudasse.

Veja, os meninos da USP... Eu era o único negro, mas eles deram belezas de entendimento, já na época, do combate à discriminação. Preconceito sempre vai ter, a discriminação é que é mais odiosa. Porque a discriminação é aquela atitude que exclui o indivíduo do trabalho. Preconceito sempre vai ter, preconceito do nariz - porque tem o nariz assim e não gosta - ou outro preconceito, eu tenho essa concepção. O pior é a discriminação, que é filha do preconceito, mas é mais odiosa. Você pode ter preconceito, mas, com a discriminação, torna-se uma coisa muito bárbara, muito violenta.

Nós fomos pedir para que ele fizesse um trabalho junto aos bancos para... Lógico que nós falamos de outra forma... Mas para que não ajudasse as empresas que discriminassem negros para o trabalho. Ele gostou muito da ideia. Eu não sei depois o resultado, mas devo dizer que as primeiras empresas e comércios a admitir negros nas suas empresas, no seu trabalho, foram os judeus do Bom Retiro, foram os judeus! Eles foram os primeiros que admitiram, nas suas lojas, os negros, as negrinhas etc..

Também estive com o Jânio Quadros. Nós fomos pedir para que os alunos da USP tivessem o atendimento do Hospital do Estado, porque nós não tínhamos nada. Fomos pedir para que ele nos ajudasse e ele nos enviou então para o Secretário da Saúde, que era o Deputado Fauze Carlos, irmão do Emílio Carlos. E o Secretário Fauze Carlos nós concedeu isso, essa ajuda para os alunos terem atendimento no Hospital do Estado.

 

P/1 - O senhor estava falando como foi esse início da USP Butantã, do campus.

 

R - Quando estávamos na USP, estava terminando a construção do prédio [de] Geografia e História, na Cidade Universitária, então nós tínhamos aulas na USP, aqui na Maria Antonia. e tínhamos aulas práticas lá na USP durante um período. Depois, nós mudamos todos para lá. Mas, durante um período, nós tínhamos aula... a História era aqui na Maria Antônia, não é? A Antropologia… A Geografia passou a ser lá, na Cidade Universitária.

Nós tínhamos o [João] Soukup, que dava a Cartografia. Tinha todas as instalações para isto lá; nós íamos para lá, tínhamos que ir à noite. Saíamos de lá à noite - onze horas da noite - e vínhamos a pé até o Butantã para pegar um ônibus para depois, então, descer na cidade e depois pegar outro para casa. Essa foi a nossa luta.

 

P/1 - Quando o senhor se formou já era só na USP? Só na Cidade Universitária?

 

R - Era só na Cidade Universitária. Bom, eu devo dizer que também tive aulas na Alameda Glete - era Geologia. Estava espalhado.

 

P/1 - Os cursos eram espalhados.

 

R - Geologia na Glete. Quando nós terminamos devo dizer que a História ainda era aqui na Maria Antônia.

 

P/1 - É verdade. Em que ano o senhor se formou?

 

R - Eu me formei em 1962. 1961, 1962. Quando você nasceu?

P/1 - Em 1973.

 

R - Então foi antes.

 

P/1 - Nessa época, o senhor estava trabalhando? Na época em que o senhor estava cursando?

 

R - Ah, sim, trabalhava. Já lecionava um pouco em cursinhos e estava no Exército, porque sou oficial do Exército.

 

P/1 - É verdade, o senhor estava no Exército e dava umas aulas.

 

R - E dava aulas. Quando eu fiz a faculdade, a minha intenção era ingressar no magistério militar, aí não deu para isso e eu continuei a lecionar em cursinhos. Quando eu terminei a faculdade, estava...

Lecionei em vários colégios. Lecionei aqui no Alves Guimarães; lecionei no Espírito Santo - Colégio Espírito Santo, das irmãs -, lecionei no Capistrano de Abreu; lecionei... Nossa…. [Em] vários lugares, geralmente colégios de segundo grau que eu pegava. Tinha uma faculdade na Freguesia do Ó, na qual eu também lecionei por um período. Assim como eu tinha minhas atividades militares. E depois fui trabalhar como assessor na Assembléia Legislativa.

 

P/1 - Logo na sequência, depois de formado?

 

R - Não, fui comissionado. Depois de formado como professor, mas era comissionado.

 

P/1 - Porque o senhor era professor concursado e também estava no Exército.

 

R - Do Exército eu já tinha me afastado.

 

P/1 - Em que ano o senhor se afastou?

 

R - Em 1962, 1963, por aí. Depois desse período em que eu estava voltado para o magistério estadual com mais constância, fui comissionado.

Eu preciso também dizer isso: eu fui assessor da Secretaria da Educação, na época do Ferreira Martins como secretário. Nós implantamos no Brasil um trabalho fantástico sobre as drogas, [se] chamava 'Programas de Saúde'. Esse programa era o seguinte: nós reuníamos os pais de alunos em escolas, em todo o estado de São Paulo, e os orientávamos acerca do perigo das drogas; dávamos todas as informações sobre as drogas e depois nós orientávamos como eles deveriam agir em relação aos filhos. Observar se o filho está roubando coisas, se o filho está diferente, se quer se trancar no quarto. Tudo aquilo que nós aprendemos, porque eu fiz um curso, na Escola de Polícia, sobre drogas. Primeiro tivemos esse curso lá na Escola de Polícia com o professor Aiurchi, que era o 'crânio' da época nesse campo. Professor Aiurchi, muito... Fantástico. Esse trabalho fez com que nós fôssemos convidados para representar o Brasil no Congresso Internacional de Medelín, em 1980.

 

P/1 - Isso que o senhor está falando já é década de setenta, começo de oitenta?

 

R - Justamente isso. Eu era assessor da Secretaria de Educação… Fomos representar o Brasil no Congresso Internacional sobre Drogas, em Medelín, na Colômbia. Fui com o professor Aiurchi, que era o 'crânio' da época. [Foram] delegados... Foram juízes... Porque esse 'Programa da Saúde' era constituído da Secretaria de Educação, da Secretaria de Saúde, da Secretaria de Justiça e da Secretaria de Segurança. Os quatro representantes dessas áreas foram representar o Brasil.

 

P/1 - E o senhor foi pela Secretaria da Educação?

 

R - Eu e o Professor Basile. Lá, nós fomos tão ovacionados com o nosso programa que tivemos que estender para outros países: México, Chile, Venezuela. E esse programa foi tão importante que nós decidimos… Eu tive a honra de receber a esposa do Presidente da Colômbia na minha casa. Veio para trazer trabalhos e para buscar informações.

Mas esse trabalho foi... Mudou de governo, eles terminaram com esse trabalho. Hoje existe o Proer [Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência], que é uma continuidade do que foi esse programa.

 

P/1 - Então, seu Hilmo, tem uma coisa que eu esqueci de perguntar: sua primeira namorada, como foi?

 

R - Deixa lembrar, porque eu tive tantas namoradas... (risos)

 

P/1 - Porque o senhor falou que trabalhou ali, eu me esqueci de perguntar sobre essa faceta.

 

R - Primeira namorada é como... A gente morava no Brás, [era] estudante ali no Brás, e havia aquele envolvimento das coleguinhas.

 

P/1 - Foi quando o senhor já estava aqui em São Paulo.

 

R - Aqui em São Paulo.

 

P/1 - E depois, quando o senhor conheceu a sua esposa?

 

R - Eu a conheci quando estava no Exército. Ela admirava muito farda e eu ficava bonitinho de farda.  E a época era realmente... A farda tinha uma importância muito grande, sabe? As menininhas da época eram atraídas pela farda, e foi justamente a época.

 

P/1 - Como é o nome dela?

 

R - Chama Nena. E depois eu me casei novamente, com outra pessoa.

 

P/1 - Ah, essa foi sua primeira esposa. É a mãe dos seus filhos?

 

R - Justamente. Perfeitamente.

 

P/1 - Depois o senhor teve outro casamento. Isso foi quando?

 

R - Foi mais recente.

 

P/1 - O senhor falou para mim, também, que o senhor tinha feito pós-graduação. Isso foi depois?

 

R - Foi no período da USP, na Maria Antônia. A dona Ruth era a nossa monitora. Fiz também Pedagogia - eu tenho três cursos superiores. Fiz Pedagogia também. E na Pedagogia aprendi muita coisa interessante, nesse contato com os alunos. Porque eu já tinha uma tendência de amor por eles, e aí passei a ser mais técnico com a Pedagogia, trouxe muito conhecimento.

Outro fato também: eu fiz parte da... Nesse período em que eu trabalhei nesse 'Programa de Saúde', sobre drogas, eu estava numa delegacia de ensino - na Sétima Delegacia de Ensino - que era dirigida por uma pessoa fantástica, o professor Joaquim. E um grupo de professores, e também supervisores, muito bons. Pudemos desenvolver um trabalho fantástico naquela região, porque esse era um trabalho a que dedicávamos o sábado e o domingo - os pais só podiam vir para as reuniões de sábado e domingo. Nós dedicávamos sábado e domingo a essa parte. E eu tive...

 

P/1 - Então o senhor trabalhou com educação durante todo esse período. Até quando, mais ou menos?

 

R - Até os anos oitenta. Deixa eu terminar essa observação que eu direi.

Depois, fui para a CENP [Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas], que é a coordenadoria de ensino, a qual estava preparando currículos novos para a implementação. Foi quando surgiu a eliminação de notas por números, e sim conceitos; nós fizemos parte desse trabalho na CENP. Também fomos trabalhar no MEC - Ministério da Educação - prestando serviços para o MEC. E eu me afastei, vindo para a Assembleia, já misturando tudo.

Eu me afastei da educação totalmente em 1987, mas continuei na Assembleia Legislativa como assessor, prestando trabalhos junto a um grande médico deputado, doutor Nelson Salomé. Uma pessoa fantástica, muito dedicado. Nós realizamos um trabalho ali juntos, com o conhecimento que tínhamos da Educação - ficamos com essa parte da Educação, como assessores na Assembleia.

 

P/1 - Só voltando um pouco na sua vida pessoal: quando nasceram os seus filhos? O senhor tem dois filhos.

 

R - Olha, eu tenho quatro filhos. Então, vamos dizer: o “Ser” nasceu em 1953; depois teve o “Ita”, nasceu em 1968; o “Agui” em 1965 e o Mateuzinho nasceu em 1999.

 

P/1 - Aí o senhor começa a trabalhar como assessor na Assembleia, e [está lá] até hoje. Atualmente é isso que o senhor faz?

 

R - Hoje eu realmente estou fazendo isso, mas de uma forma bem diferente, não como funcionário da Assembleia. Eu presto serviço no partido político de uma forma de dedicação; eu estou aposentado.

 

P/1 - O senhor se aposentou na Assembleia?

 

R - Não, eu me aposentei como professor. Eu, então, tenho os meus colegas que são vereadores - não declino os nomes. Presto esse trabalho junto a eles.

Por exemplo, tenho um sobrinho, Ivair dos Santos, que é assessor da Secretaria da Igualdade Humana. Ele tem um trabalho junto com as comunidades negras e esse trabalho me trouxe um desejo de trabalhar junto, porque eu fiz parte do Conselho de Participação da Comunidade Negra. Foi criado o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra e eu fui membro desse Conselho, que foi criado na época do deputado... Do Governador Franco Montoro, com a ajuda do Fernando Henrique [Cardoso]. E fizeram esse trabalho, esse Conselho. Foi graças a esse Conselho que vieram as Secretarias da Igualdade Humana e tudo isso aí.

Nós temos um trabalho nesse campo de uma forma muito discreta - não está registrado - analisando essa projeção das comunidades negras, o envolvimento do jovem negro na periferia. Ou como estão agindo, o que está havendo. Aí, comunico para esse meu sobrinho para trazer ajuda para esse pessoal, porque temos várias Associações aqui em São Paulo que tratam desse assunto: tem a Associação Feminina, tem uma associação importante, que é a Luís Gama, que é muito importante.

 

P/1 - E o senhor trabalha junto com essas... O senhor tem contato com essas várias associações?

 

R - Perfeitamente. Porque é um trabalho de pesquisa, verificar como está e comunicar: “Olha, em tal lugar precisa fazer isso, assim e assim.” Eu até esqueci... o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra foi uma coisa fantástica porque, fruto dele, vem esse trabalho das cotas. Porque as cotas, que muitos se puseram contra - o que é respeitável, porque não conhecem a problemática - mas nós temos a cota… A nossa sociedade é uma sociedade muito elitista, tanto que vocês veem que precisou criar cotas para as mulheres na política, nos partidos políticos. Para educar as pessoas...

As cotas para negros e assemelhados não é para permanecer eternamente, é para ir educando as pessoas, as autoridades, não é? E mexeu muito com eles, que passaram a criar condições - há até uma faculdade criada por negros, que é a Zumbi dos Palmares; o deputado Nelson Salomé ajudou bastante a construção dessa faculdade. E foram surgindo coisas assim.

Nós sabemos o seguinte: quanto menos pessoas incultas, melhor vai ser para todos nós. Então vamos ajudar, porque [se] já com cultura praticam coisas tão sérias, condenáveis, imagina sem cultura. É por isso que esse...

 

P/1 - Quando foi, mais ou menos, a criação desse Conselho? O senhor lembra?

 

R - Lembro, ele é de 1980. Não, 1982, no governo do Franco Montoro. E esse conselho fantástico, minha mestra, fantástico, foi a razão...

Tem outra coisa: o despertar das nossas autoridades para o problema racial do Brasil veio mais de fora, pressão de fora - a UNESCO pressionando, o Congresso Internacional da África do Sul pressionando, foi o que deu condições para eles despertarem um pouquinho para isso. Porque não é que se queira proteção, não é proteção; é que quanto mais nós pudermos tirar pessoas de uma situação discriminada, com ódio, é melhor para todos nós. E eles não entendem isto, imagina vocês.

Por que surgiu o Estado de Israel? Porque surgiu aquele massacre absurdo dos nazistas contra os judeus, aí acharam necessário criar esse Estado. É a mesma coisa: nós precisamos, realmente, aliviar um pouquinho a periferia da pobreza, do sofrimento, da revolta. E a única forma - ou uma das melhores formas - é a educação: educar! Porque as pessoas, tendo um pouquinho de educação, já passam a pensar; e não tendo, não pensam.

 

P/1 - Entendi. Já que o senhor está falando nisso, quais são os seus sonhos hoje?

 

R - Olha, eu tenho ainda vários sonhos, porque eu acredito que a vida é uma continuidade de obras que nós deixamos aqui na Terra. Então, primeiro... Como todos falam, os filhos, realmente, representam uma continuidade física, moral. Espiritual não, mas física e moral dos pais. E o sonho que eu tenho, além desse, é de aumentar o círculo de amizades que a gente adquire, porque vocês não podem imaginar como isso é importante. Como eu, hoje, estou aqui conhecendo vocês; vocês não sabem como me alegraram, todos vocês. De contar aqui a minha vida, de conhecer pessoas como vocês, que fazem um trabalho tão gostoso, tão sério, com um sorriso, com urbanidade. Eu quero conhecer pessoas como vocês, é o meu sonho. Cada vez mais! E tenho tido a felicidade de conhecer.

 

P/1 - Que bom. Outra coisa que eu queria perguntar para o senhor: como foi contar a história da sua vida hoje?

 

R - Eu estou sensibilizado, mesmo, porque eu jamais pensei que alguém iria se preocupar em ouvir a minha vida. Tanto que eu sinto muito de ter sido uma coisa muito rápida, sem que eu pudesse ter preparado coisas mais, para vocês ficarem mais alegres com o trabalho de vocês. Eu sinto que foi pouca coisa para todo esse movimento que vocês estão realizando. É com muita alegria que vocês estão realizando esse nosso trabalho.

P/1 - De forma alguma. Eu não acho que foi coisa pouca, não. O senhor acha que foi? Tem mais alguma coisa que o senhor gostaria de contar?

 

R - Pois é, que coisa linda que a gente... Esse Conselho veio correndo por último - o Conselho da Comunidade Negra. Esse meu sobrinho esteve... O Ivair dos Santos esteve na África.  Ele tem uma tese, um livro escrito tanto [sobre] o desenvolvimento das Associações Negras em São Paulo, como toda a evolução que chegou ao Conselho da Comunidade. E nós gostaríamos de um dia ter esse depoimento do Ivair dos Santos aqui com vocês.

 

P/1 - Que bom.

 

R - Porque realmente é um moço jovem, meu sobrinho. Jovenzinho, muito dedicado ao trabalho. Esteve na África, em Angola, onde foi instalar cursos - ele é formado pela USP também. Foi instalar lá cursos técnicos para os angolanos; o currículo, foi preparar tudo aquilo, tem um peso fantástico. Depois que sair daqui, eu vou lembrar mais coisas.

 

P/1 - Aí o senhor conta outra vez. Obrigada, seu Hilmo, pelo senhor ter vindo aqui contar a sua história.

 

R - Eu é que agradeço muito em conhecê-los e ter esses momentos aqui com vocês.  






















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