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História

Uma testemunha de São Paulo

História de: Carlos Laporta
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 06/07/2010

Sinopse

Nesta entrevista, Carlos Laporta nos conta sobre a cidade de São Paulo no começo do século XX até meados dos anos 50, como se transformou arquitetonicamente e politicamente. Nos relata com detalhes os movimentos sociais e a repressão da ditadura, testemunhando a tortura nas prisões e participando de alguns protestos. Fala também sobre sua família e muito de sua infância com as diversas brincadeiras e como se relacionava com seus amigos em uma São Paulo tão pequena até a fase adulta, onde disserta sobre seus trabalhos.

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História completa

Carlos Laporta. Local de nascimento na Barra Funda, Rua Lopes de Oliveira na chamada Vila do Formigoni, no dia 3 de maio de 1919. Os meus avós chamavam-se Eliangelo Laporta e ela Carolina Fina.Vieram da Itália e se localizaram aqui no Brasil na região de Rio Claro. Isso família dos pais. Eles vieram da Itália. Dos meus pais da região de Nápoles, chamada Sala Consilina. A minha mãe veio de Tuim e foi pra Itatiba com os pais. Depois mudaram tudo pra São Paulo e aqui o Miguel conheceu a Guilhermina, o meu pai e a minha mãe, Guilhermina é minha mãe. Eles se conheceram, namoraram, depois casaram na Igreja de Santa Ifigênia na data de três de outubro de 1912. Ele com 24 anos e ela com 19 anos.

Ela, antes de casar, trabalhava em casa que fazia chapéus, casa de confecções de chapéus. Naquele tempo a mulher usava muito chapéu. E meu pai era barbeiro, só que não dirigia. Ele era barbeiro pra cortar cabelo e fazer barba. Depois do casamento foram morar na Avenida Rio Branco, depois da Avenida Rio Branco passaram pra Lopes de Oliveira. Foi onde eu nasci e nascia um monte. Nós éramos em dez. Cinco já morreram, agora faltam cinco.

Durante a Revolução de 30... Porque a Lopes de Oliveira termina justamente onde estão os trilhos das estradas de ferro. Ali, durante 1930, a gente via passar os trens cheios de soldados que vinham lá do sul e iam pro Rio de Janeiro pra depor o Washington Luis Pereira de Sousa, que era presidente naquela época. Então, eles passavam ali e a gente via os soldados passarem e tal. Em 30. Logo em seguida a Revolução de 32. Eu já tinha uns 12, 13 anos por aí.

Da Barra Funda a gente tinha algumas brincadeiras, jogava-se muito futebol na rua. Aquele tempo não passava muito carro. Eu me lembro também da Barra Funda que a gente ia até a Cachoeirinha. O Rio Tietê passava ali quando o Rio Tietê era limpo. A gente ia lá pra pescar, mas eu não pescava, eu nadava no rio lá. Aqui a molecada fazia o seguinte, pegava um garoto, punha um garoto dentro do pneu e soltava-o.

A Vila Pompéia é, quando chega lá em cima na igreja o resto era tudo mato, não era muito construído. Do lado aqui, do nosso lado na Venâncio Aires até a esquina da... Não sei se é Caiowaá. Até ali era construído, Também tinha isso, quando chovia e chovia muito, alagava todo lado da Vila Pompéia. Ficava tudo alagado e a gente ia ver ali da Venâncio Aires com a Pompéia. Parecia um mar mesmo, aquela enchente que fazia, que a chuva fazia.

A gente batia umas latas e éramos uns quinze, dez ou quinze meninos que faziam essa banda e dava volta pelo bairro fazendo a propaganda revolução. Eu jogava futebol ali pelos dez, 11 anos também, ali na Rua Lopes de Oliveira, na calçada da Chácara do Carvalho. Mas depois eu, com um pouco mais de idade, entrei para o escotismo da, chamava-se Boys Scouts da Light. Então o chefe do escoteiro proibia de jogar futebol porque ele dizia que futebol era pra vagabundo.
Eu frequentava o Grupo Escolar do Arouche. Completei o curso aos 11 anos em 1930. Quando eu completei o curso primário eu disse pra minha mãe: “Bom, agora eu vou trabalhar”. Fui trabalhar numa alfaiataria que se chamava Alfaiataria Sistema Americano. Era de um português que tinha vindo dos Estados Unidos e montou essa alfaiataria aí. Eu fiquei acho que um mês, depois então passei a trabalhar numa leiteria. Aí também deixei a leiteria e o doce de leite e fui trabalhar numa outra alfaiataria. Eu fiquei acho que uns quatro anos aí, era na Rua Martins Francisco.

Até completar 20 anos eu trabalhei na Light, chamava-se Valeta da Light em que o bonde entrava nessa valeta e a gente tinha que desparafusar uns parafusos muito grandes debaixo do bonde pra tirar a carroceria e tirar o truck pra consertar e tal, reformar. Aí eu pedi transferência na valeta, fui trabalhar na seção pintura. Eu fui parar na oficina da Light porque um mano meu trabalhava nos escritórios lá no Jardim, onde é o Mackenzie. Aí eu passei a trabalhar na pintura dos bondes, mas também não gostava. Depois daí saí, fiquei uns tempos doente, quando eu completei 20 anos eu fui trabalhar na firma... Não sei se chamava Fábrica de Roupas Brancas Ricardi, era um primo. Eles fabricavam camisas.

A minha participação nos movimentos sociais, eu não gostava de aparecer, mas eu participava de comícios. Todo comício que havia, principalmente do partido, estava lá no Anhangabaú, estava lá tomando parte. Eu tomei muita parte na formação da Petrobrás, nos que lutavam para que o petróleo não fosse entregue para potências estrangeiras. Então havia aquele movimento dos patriotas contra isso e eu tomava parte. Não falando, mas tomava parte comparecendo àqueles eventos.

Sei que meu primo foi também preso lá onde era o... Ali na Luz. Ele foi preso ali no DOPS e um irmão meu também foi preso, o Nelson Laporta. Foi preso, mas ficou uma noite só lá preso. O Artur Piccinini casou-se com a Genny Gleiser para que ela não fosse deportada, mas o senhor Getúlio Vargas que tinha como ministro da segurança, da polícia, um nazista chamado Felinto Muller, passaram por cima das leis brasileiras, porque a lei brasileira é: a pessoa estrangeira que casa com um brasileiro não pode ser deportada. Essa é a lei. Mas Getúlio passou por cima dessa lei, o ministro passou por cima e mandou a Genny Gleiser para os campos de concentração assim como aconteceu com a esposa também do Prestes, a Olga Benário. Ele mandou também pros campos de concentração. Meu mano, Nelson Laporta, ele trabalhava em jornal, então ele trabalhou muito nesses jornais que eram da esquerda. Não sei, parece que se chamava A Hora e por causa disso ele foi preso. A participação desses movimentos era mais do meu primo, Artur Piccinini, foi preso ali no DOPS. No DOPS eu fui, quando eles reformaram o DOPS, eu fui pra visitar e eles punham então uma música fazendo o que havia nos presídios naquele tempo. Então, era uma gritaria de dor, aqueles presos todos jogados no chão sendo batidos, sendo surrados, naquela gritaria e tal. Isso eu assisti no DOPS. E o DOI-Codi.

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