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História

Uma temporada com os Saterés-Mawés

História de: Sônia da Silva Lorenz
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 18/02/2008

Sinopse

A intensa temporada que passou ao lado dos índios Saterés-Mawés, na região de Maués, no Amazonas, deu à fluminense Sônia da Silva Lorenz confiança para falar sobre a cultura daquele povo e os problemas que enfrenta, sobretudo com relação à demarcação de seu território, em muito diminuído desde o contato com os colonizadores. Em seu depoimento, ela conta como se envolveu com a causa enquanto estava no curso de Arquitetura e exercendo a função de fotógrafa em São Paulo, e como atuou ali, por meio do Centro de Trabalho Indigenista, do qual é uma das fundadoras. Um dos trechos mais interessantes é aquele em que Sônia, que também é antropóloga, menciona o envolvimento que os Saterés ainda têm com o guaraná, principal produto da região e preferido ao cafezinho na hora de convidar alguém para uma visita em casa.

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História completa

Meu nome é Sônia da Silva Lorenz, eu nasci no dia 18 de novembro de 1953, no Rio de Janeiro, na Gávea. O meu pai, que já faleceu, ele era gaúcho. E ele é de uma família já nascida no Rio Grande do Sul, mas de origem alemã. Os bisavós do meu pai. O bisavô do meu pai fugiu do alistamento na Primeira Guerra Mundial. E a primeira geração dessa família que foi para a universidade é a geração do meu pai, que foi estudar Agronomia em Viçosa. O avô da minha mãe é português, veio de Borba, do Norte de Portugal. E era fazendeiro, tinha sete fazendas no interior do Estado do Rio, trabalhava com cachaça, com rapadura, com cana, numa fazenda que tinha senzala. E os meus pais se conheceram em Niterói. Meu pai se formou em Viçosa, ele arrumou um emprego na Secretaria de Agricultura do Estado do Rio e veio morar em Niterói. E tinha amigos que eram amigos da minha mãe, da praia. E aí, eles se conheceram através desses amigos comuns e se apaixonaram. E eles viveram juntos 49 anos, até o meu pai falecer em 2002.

A minha mãe, ela se formou professora. E ela trabalhou como professora em escolas públicas na Baixada Fluminense. E ela achava importantíssimo as pessoas estudarem. E o meu pai é a primeira geração de uma família de imigrantes que chegou à universidade. Então, meu pai achava que a gente tinha que estudar tudo. Então, dentro da minha casa tinha um ambiente muito propício à gente ler, estudar, ir à escola. Era bastante propício o ambiente familiar.

Eu vim para São Paulo com 11 anos. Eu acho que, quando chegou no que a gente chama hoje de colegial, eu acho que aí eu comecei a tomar muito contato com essa questão da gente estar vivendo um regime de exceção, repressivo. E, aí, eu fiquei sabendo que as pessoas eram mortas, que as pessoas eram torturadas, que tinham unidades clandestinas. Enfim, eu acho que aí que eu entrei em contato mesmo com essa parte dark. Essa coisa horrível que foi a ditadura no Brasil.

Depois, eu entrei na FAU [Faculdade de Arquitetura e Urbanismo]. E eu não entrei para nenhum partido. Quer dizer, eu não fui para nenhum partido clandestino. Não fui para nenhum partido de esquerda. E eu ia em todas as manifestações estudantis, eu ia em todas as assembleias, eu ia em todas as passeatas. Eu fui presa numa dessas passeatas. Fiquei lá, dormindo no Dops [Departamento de Ordem Política e Social]. Mas eu não tinha nenhuma atração por nenhum partido político. Eu achava que eu tinha que ter total liberdade para pensar da minha maneira, para desenhar o que eu quisesse, para ler o que eu quisesse, para falar o que eu quisesse.

Enquanto eu estava na FAU, eu trabalhava como fotógrafa já. Porque eu fiz curso de fotografia enquanto eu estava no colegial e aí, chegou na FAU, e eu continuei fazendo uma formação de fotografia. E, na FAU, eu já comecei a trabalhar como fotógrafa. E eu fui convidada para fazer a documentação de uma pesquisa do Aurélio Michiles, com quem mais tarde, mais tarde, eu me casei, e ele é pai dos meus filhos. Mas, nesse momento, ele tinha uma bolsa para fazer uma pesquisa sobre a cultura do guaraná como um todo. Nessa região de Maués, porque a família do pai dele é de Maués.

Eu fotografei algumas coisas da cidade que estavam ligadas à cultura do guaraná como um todo. E a gente foi para a área indígena Sateré-Mawé pela primeira vez para ir fazer a documentação do guaraná na área indígena. E, aí, o que aconteceu foi o seguinte: eu fotografei tudo e eu fiquei muito próxima de um chefe que se chamava Tuxaua Manoelzinho. Então, quando eu estava indo embora, ele me chamou e falou: “Olha, minha neta.” Me chamou “minha neta”. “Você vai fazer o seguinte: você vai voltar para São Paulo, vai se formar e, a hora que você se formar, você vai vir para cá, você vai morar aqui comigo, na minha casa e você vai ajudar a gente a concluir o processo de demarcação do nosso território. Porque, se a gente ficar aqui sozinho, com o pessoal da Funai, não vai sair essa demarcação. A gente precisa ter alguma pessoa do nosso lado que vai para Manaus, que vai para Brasília. Que vai andar com o pessoal para ver se o limite está certo, se não ficou cemitério para fora, se não ficou nascente de rio para fora. Então, você vai lá, se forma e aí você volta para cá. Eu te dou casa e comida e você vai ficar aqui até o nosso território estar demarcado.” E é tão impressionante que eu tomei aquilo como uma ordem e obedeci. E foi ótimo eu ter obedecido. Foi porque eu, nesses cinco anos que eu morei com os Saterés, eu aprendi muito mais que o tempo que eu estive nas Ciências Sociais, na Antropologia e na FAU, na arquitetura. Porque você aprende em todos os níveis.

Eu sou fundadora do Centro de Trabalho Indigenista [CTI]. Acho que o CTI foi fundado em 78, se eu não me engano. Eu sou fundadora do CTI. Um grupo de amigos. Esse grupo de amigos tinha antropólogos, indigenistas, fotógrafos. Um grupo que eram amigos mesmo, pessoas amigas, da faculdade, de fora da faculdade, se juntaram e fundaram o Centro de Trabalho Indigenista. E eu estava no Sateré, tinha gente que estava nos Bororo, tinha gente que estava nos Nambikwara, tinha gente que estava nos Krahô, e o Centro de Trabalho Indigenista é precursor, eu acho, de muitas coisas que aconteceram depois. Na área da Antropologia, do Indianismo. Hoje em dia, eu tenho consciência que o Centro de Trabalho Indigenista fez um trabalho precursor de tudo que apareceu depois: Comissão Pró-Índio, Instituto Socioambiental, de todos os processos que existem hoje, que as comunidades cobram das empresas. A gente fez um trabalho precursor na área de identificação de comunidades, demarcação de territórios, processos de indenização.

Eles veem a cidade de Maués como um lugar que era deles, no tempo dos antigos e que eles perderam. Eles tinham, e devem ter ainda, certeza absoluta que aquele lugar é um lugar que eles perderam para os brancos. Que a cidade de Maués fazia parte do território deles. Eles mostram as urnas. Tem lugares em que eles levam para mostrar as urnas. Eles relatam guerras com os Mundurukus, guerras com os Parintintins, na região que vai do Paraná do Ramos até Maués. Eles relatam episódios da Cabanagem que eles participaram. Então, a cidade de Maués, para eles, fazia parte do território deles, desse imenso território que eles tinham. E que eles perderam para os brancos.

O guaraná? É uma bebida cerimonial, entendeu? Quer dizer, por exemplo, você chega na casa de uma pessoa, a pessoa te oferece um cafezinho, né? Tem esse papel. Mas, acrescido a esse costume de oferecer o cafezinho, que eles ofereceriam o çapó. É uma bebida cerimonial porque eles se dizem filhos do guaraná. Existe um mito da origem, que os Saterés-Mawés nasceram do guaraná. Nasceu o guaraná, em seguida nasceu o primeiro Sateré-Mawé. Tem um mito, tem toda uma história que tem no meu livro. Então, quer dizer, é um cafezinho com muito valor agregado. Porque é uma bebida religiosa, é uma bebida sagrada. Cada vez que você toma çapó, você está comungando com a sua origem. Então, é isso. E eles bebem muito guaraná. E também tem essa questão que o guaraná é um estimulante. Então, você vai caçar, você bebe guaraná. Você vai pescar, você bebe guaraná. Você sai de uma aldeia e você vara a mata para chegar em outra aldeia, você toma guaraná. Guaraná corta a fome. Então, tem isso.

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