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História

Uma semente que ajudei a plantar

História de: Adélia Coutinho Nassif
Autor:
Publicado em: 12/01/2021

Sinopse

Mudança para São Paulo. Primeiro emprego como enfermeira-chefe. Oportunidades e evolução da Unidade. Experiências com a morte de pacientes na enfermagem. Lembrança da implantação do curso do Senai. Emoções na visita à São Paulo. Experiência da entrevista com o Museu.

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História completa

P/1: Boa tarde.


R: Boa tarde.


P/1: Por favor, o seu nome completo.


R: Adélia Coutinho Nassif.


P/1: O local e a data do seu nascimento.


R: Eu nasci numa cidade do interior de São Paulo, São José da Bela Vista, em 14 de maio de 1946.


P/1: Dona Adélia, qual é o seu centro aqui na cidade de São Paulo?

R: Hoje, eu sou turista em São Paulo, neste momento, mas já morei aqui na década de 1970. Vim para cá em 1971 e morei na Praça Roosevelt, naquele pedacinho ali da Rua Avanhandava. Minha lembrança gostosa de São Paulo é que foi o primeiro local que eu cheguei pra começar o meu exercício profissional. 


P/1: Que atividade a senhora exerce?


R: Eu sou enfermeira, e eu vim para cá em busca, né, assim como o pessoal do interior que acaba de se formar, em busca do trabalho. Fui muito feliz em São Paulo. Eu cheguei, logo consegui um trabalho muito bom ali numa transversal da Avenida da Consolação, uma rua chamada Sabará, uma unidade de pediatria que tava começando, e me deram a responsabilidade de ser a enfermeira chefe daquele local. E hoje, com grande alegria, depois de quase 31 anos, eu volto e vejo que aquilo lá cresceu muito, tá imenso, com vários andares, um trabalho assim lindíssimo, de uma semente que eu ajudei a plantar.


P/1: Então, conta pra gente como é que foi esse trabalho seu, nesse centro de pediatria, no centro da cidade...


R: Então, eu colaborei muito porque como a gente era jovem, cheia de energia e de garra, eu colaborei muito assim com a organização de uma proposta mais futurista. Eram diretores que tinham uma projeção de fazer algo mais arrojado pra época, né, então foram as primeiras criações de CD [Acompanhamento do Crescimento e Desenvolvimento] infantil, e nós estudávamos muito, tinha muitos encontros com a equipe médica, buscava muito saber lá no HC [Hospital das Clínicas], que era o fomento cultural da parte da enfermagem, né, e a gente não tinha ainda assim muito prestígio, a enfermagem estava muito acanhada ainda, sabe, não era uma profissão muito visada, e ali eu consegui uns espaços muito bons, de fazer crer, de acreditar, a equipe médica me deixou opinar, e eu partilhei com eles a construção, opinei em espaços físicos, sugeri entradas de decorações, coisas que fugiam só da ação da enfermeira, né, então foi uma contribuição que hoje eu me recordo e vejo como o meu primeiro emprego na minha carteira de trabalho me dá muita alegria, de ter começado aqui em São Paulo. Depois, passou-se um período e eu fui convidada pra ir pro Rio de Janeiro, e fui embora pro Rio de Janeiro terminar minha carreira por lá. E hoje eu descanso em Franca como aposentada.


P/1: [Risos] Nessa sua atuação no centro de pediatria do Sabará, conta pra gente alguma história interessante com as crianças de lá, as crianças que estavam doentes, né...


R: É, eu tenho uma vivência que eu nunca esqueci. Era uma seletiva que existia entre a clientela de convênios e a clientela elitizada, e, por nós termos diretores judeus, a clientela elitizada era muito rica, e eu tenho lembrança de um diretor, que agora eu não me recordo o nome, ele era o primeiro engenheiro do metrô de São Paulo. Ele tava começando a fazer as primeiras preparações da abertura do trabalho de metrô de São Paulo, e ele tinha um bebê, naquela época o bebê tinha mais ou menos um mês e meio, adoeceu com uma pneumonia, foi pra nossa mão e eu me lembro que ele exigia, assim como uma pessoa de poder, que eu, como enfermeira chefe, cuidasse do filho dele, ele não queria que outros profissionais pusessem a mão no bebê; e eu me envolvi demais com esse bebê, amei muito esse bebê, ele ficou mais ou menos uns quatro ou cinco meses conosco tentando uma sobrevida. E eu me lembro que quando ele morreu eu sofri muito, eu chorava muito junto do bebê na incubadora, e ele morrendo, assim me sentindo assim muito incompetente de não ter conseguido salvar aquela vidazinha, e foi uma experiência assim que marcou muito pra mim, a minha dor em relação a perder um bebê. E o que me punha assim em movimento emocional era imaginar como que uma pessoa de tanto poder econômico não tinha conseguido dar vida ao filhinho, né, e com tantas exigências sociais, o Sabará naquele momento era, provavelmente, o melhor hospital do início de 1970, 1971, como local que pudesse colocar pra ter uma assistência bem específica, como o paciente particular, né, e eu me lembro que eu abraçava a mãe dessa criança, tão jovem quanto eu na época, né, e a gente tentava se confortar uma à outra. E uma outra vivência dentro desse mesmo hospital foi também junto com a morte de um outro bebê de classe mais simples, que fazia parte dos convênios, porque o Sabará atendia bons convênios de indústrias, e esse bebê tinha morrido e o médico não quis ele dar a notícia pra mãe, não sei por que causa, talvez tivesse alguma reunião, alguma coisa assim, e ele pediu que eu fizesse essa partilha com a mãe. Eu me lembro que eu desci até o velório, o corpinho do nenê tava lá sobre a lápide esperando a mãe chegar, e ela chorava muito, me agarrava muito, e eu lembro que a força que ela fez no meu avental foi tão forte que os botões pularam [risos], arrebentou o casaco, né, ela me agarrava e pedia que eu desse vida ao filho dela, então foi um momento assim de muita dor, de muito sofrimento, e que seriam as minhas primeiras experiências com a morte no mundo da enfermagem. A gente não se acostumou, né, mas as primeiras são muito dolorosas e ficam muito fortes dentro da gente.


P/1: Agora, conta uma pra gente...um caso...


R: Uma coisa alegre, feliz [risos]...


P/1: É...


R: Dentro do Sabará, uma coisa que me agradava muito era a oportunidade educativa que eu tinha com as funcionárias, porque naquela época o auxiliar de enfermagem ainda era também muito tímida, as profissões ainda não estavam assim muito estruturadas, né, então eu tive a oportunidade de implantar um curso lá dentro, com o Senai [Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial], foi uma oportunidade primeira, assim do Senai estar entrando em atividades particulares, e nós montamos um curso muito bonito de revisão, de conhecimento de enfermagem, e que melhorou muito a qualidade dos nossos profissionais. Eu me lembro que quando terminou o curso, era um curso rápido de três meses, nós fizemos uma bela de uma festa na área que ainda estava em construção, que ia ser o CTI [Centro de Terapia Intensiva] do futuro, e ainda tinha assim muito cimento, muito material de construção, e nós fizemos uma faxina, pra dar aquele ar de coisa bonita, de lugar limpo, fizemos uma mesa cheia de flores, eu lembro que eu ganhei um belo buquê de flor, como orientadora do trabalho, né, foi um momento de muita alegria pra nós e eu lembro da fala do diretor elogiando o nosso esforço, o meu, de toda equipe de trabalho, de estar conseguindo melhorar a qualidade profissional daqueles funcionários, né, e eles teriam também uma coisa que agradou muito, uma melhora financeira, por conta de ter feito o curso.


P/1: Olha só que interessante [risos]! Dona Adélia, conta pra gente como é que é estar voltando nesse centro, na cidade que a senhora ficou afastada, estar voltando hoje como turista e vendo a cidade de uma outra maneira.


R: É, o que é muito rico é que hoje eu tenho um filho de 16 anos, que tá comigo aqui, né, e eu fico feliz assim de ver o entusiasmo dele de conhecer essa história de São Paulo, e ele mesmo relatou agora pra mim, vendo esses objetos: “Nossa, mãe, o melhor passeio que eu já fiz!”, quer dizer, considerando esse espaço cultural, uma coisa muito rica para saber dele. Então, eu fico muito feliz por ter conseguido, no processo educativo dele, ter passado esse desejo de conhecer a história do nosso país, especialmente a história da nossa capital. Então, acho que essa linha, não é, que a gente faz na seqüência dos nossos herdeiros culturais é muito bom, né, e vocês darem essa oportunidade pra nós de mostrar ao vivo e a cores isso.


P/1: Está certo. Dona Adélia, agora pra terminar, conta mais um pouquinho o que é que a senhora tá achando fazendo parte da história de São Paulo contando um pedacinho de um lugar tão importante, né?


R: Então, no início, quando me convidaram, eu fiquei meio tímida, assim, achei estranho tá sentada aqui. Depois, eu dei uma voltinha, olhei os depoimentos das pessoas nos textos que vocês informaram, e eu falei “Por que não?” Eu também sou uma brasileira, uma cidadã, também tenho uma contribuição que amanhã pode ser importante pra quem for ler no futuro, né...


P/1: Com certeza...


R: Então, eu acho que é fazer página, e a vida da gente é história.


P/1: Tá certo. E a senhora se sentiu à vontade aqui?


R: Muito. Vocês estão de parabéns.


P/1: Muito obrigada, Dona Adélia.

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