Busca avançada



Criar

História

Uma referência gorda dentro do carnaval

História de: Aldria Angélica Oliveira
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 26/01/2021

Sinopse

Aldria conta sua estreita relação com o carnaval desde a infância e como essa paixão fez com que ela se torna-se empreendedora. Já adulta, se envolveu ainda mais com este universo e o que era lazer tornou-se trabalho. Notando a falta de representatividade de mulheres gordas nos desfiles carnavalescos, Aldria fundou a Plus Samba, projeto de inclusão e empoderamento de mulheres gordas.

Tags

História completa

Minha mãe sempre gostou de carnaval e de desfilar, ela sempre me levou. Foi um bom tempo eu só indo de arquibancada, sem me envolver diretamente com o carnaval. Quando minha tia entrou para a diretoria da Vai-Vai, conheceu as pessoas que faziam carnaval na época. Aí eu participei do departamento social, fui apoio da ala e fui conhecendo como funciona o carnaval, acabei ficando mais perto daquilo.

Quando a gente está lado a lado, trabalhando junto com a escola para que esse projeto seja feito, é uma energia indescritível. Entrar na avenida, ainda mais com a Vai-Vai, é algo diferente. Você vê a arquibancada toda, vindo com a escola, vibrando; é indescritível a sensação.

A ideia do bloco de rua surgiu pesando nas mulheres gordas quererem estar lá participando da escola de samba, mas não tendo coragem. Como no bloco de rua não tem regra, você pode se vestir do jeito que quiser e curtir o carnaval, eu acho que é uma forma dali ela sentir encorajada para se jogar na escola de samba, porque ali ninguém está te julgando; você vai para curtir um samba. Desperta ali a sua vontade de estar no carnaval.

Ia perguntar para meus amigos nos ensaios técnicos: "Será que é legal colocar uma ala só de gorda?” Aí as escolas iam passando e ficava olhando: "Será que é bom? Será que não é?” E fiquei perguntando, fazendo uma pesquisa de campo. Até que um amigo meu falou: “Para de ficar perguntando ou vão roubar sua ideia”. Eu falei: “Tá bom”. Aí acabou o carnaval e falei com um amigo meu e falei: "Tenho que colocar esse negócio em prática, agora como eu não sei”. E aí foi quando fui me interessar, é um pouco mais a questão do plus, aí pedi para ele: “Coloca objetivo, metas, não sei o que” e aí rascunhei, peguei alguns depoimentos que elas não tinham muita autoestima, ou que as pessoas ficavam falando: “Você é bonita de rosto”. Porque ela é gorda, ela é só bonita de rosto? Não, ela é bonita, independente do corpo dela. Aí vi que umas estavam chateadas, frustradas e eu: “Nossa”, porque nunca tive isso. Nunca achei que fosse algo assim, muito grave, ou que deixasse tantos traumas.

E aí vendo relatos foi quando montei o Plus Samba, com intenção do quê? Eles terem o carnaval como uma válvula de escape, mas que a gente pudesse auxiliar elas nessas questões, de questão de não se sentir bem, de não se sentir valorizada por ser gorda. E aí foi em 2018 que eu fundei o Plus Samba e a primeira escola que aceitou a ala foi o Tucuruvi; e aí a gente desfilou com trinta mulheres.

Foi em 2018 que eu fundei o Plus Samba e a primeira escola que aceitou a ala foi o Tucuruvi; a gente desfilou com trinta mulheres. Quando essas mulheres apareceram eu pude ver que é real a gordofobia: questão de emprego, de irmos nas lojas e não ter o que vestir. Eu fui vendo relatos e foi quando montei o Plus Samba, com intenção das mulheres gordas terem o carnaval como uma válvula de escape, que a gente pudesse auxiliar elas nessas questões de não se sentir bem, de não se sentir valorizada, por ser gorda.

Não tem uma referência gorda dentro do carnaval. Onde está escrito que tem que ser magra para poder sambar? A representatividade que a gente tinha na época do carnaval é das mulheres saradas ou magras. Você começa a perceber que as pessoas gordas podem sim estar lá como passistas, rainha de bateria, destaque de chão, podem estar em qualquer lugar. Mas para isso a gente sempre tem que dar o primeiro passo e não é um trabalho fácil, até porque muitas mulheres acham incríveis as meninas lá sambando, mas não tem coragem. Ainda tem essa vergonha ou receio de alguém rir.

A gente começou a inventar outras coisas pós-carnaval. Teve ensaio fotográfico; a gente fez um desfile de moda. A gente tem que trabalhar esses dois lados: tanto o social, como sociedade, para mostrar que a gente existe; e para elas, como mulheres, até pela rotina acaba sendo um momento delas. Carnaval sempre vai ter, porque já caiu no gosto, mas tem outras coisas que a gente pode fazer fora do carnaval.

Para ser empreendedora você tem primeiro que ter oportunidades. No meu caso, eu senti uma necessidade no carnaval de colocar uma mulher gorda ali e dali traçar os projetos, ideias, trazer inovações. Acho que ser empreendedor é isso: você ter percepção de ver oportunidades ao seu redor.

Se você tem um sonho, um negócio, você tem que se aperfeiçoar e correr atrás daquele objetivo. Tem que estudar e focar naquilo que você trabalha e busca, fazer contato com outras pessoas, conhecer outras histórias. Quando você faz contatos, tá buscando algo diferente, quanto mais você conversa sobre o assunto, você colhe, de repente, uma dica. Essa troca de experiências com outras empreendedoras é super válida.

Essa questão política tem coisas que a gente precisa analisar e ver que ainda falta muito, de fazer uma política, criar leis, artigos contra a gordofobia; não ficar só na internet, ou punir aquela pessoa que ofendeu a outra por ela ser gorda. Movimentar a sociedade com a parte política também é superimportante para que muitas coisas venham. Você dentro da política ter uma representatividade, uma pré-candidata gorda, negra dentro da política, para ir lá gritar para sociedade que o gordo existe... Isso é uma coisa que quando surgir, vai impactar.

Quero que o Plus Samba cresça, evolua e que eu consiga ter dedicação total a isso, que possamos trazer a base através da educação, porque querendo ou não, muitas crianças relatam que desde a infância sofrem com o bullying por ser gorda; e que seja uma referência para que as pessoas se sintam representadas, que vejam uma oportunidade de ser uma pessoa melhor, independente de ser gordo, magro, alto ou baixo.

Ver Tudo PDF do Depoimento Completo

Outras histórias


Ver todas


Rua Natingui, 1100 - São Paulo - CEP 05443-002 | tel +55 11 2144.7150 | cel +55 11 95652.4030 | fax +55 11 2144.7151 | [email protected]
Licença Creative Commons

Museu da Pessoa está licenciado com uma Licença
Creative Commons - Atribuição-Não Comercial - Compartilha Igual 4.0 Internacional

+