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História

Uma re-posição

História de: Denise Bandeira de Melo
Autor: Museu da Pessoa
Publicado em: 08/12/2020

Sinopse

Filha de migrantes nordestinos. Nascida em São Paulo, capital. Infância na rua. Namoro na juventude. Ingresso na Universidade. Movimento estudantil. Faculdade de Psicologia. Formação em Psicanálise. Psicóloga da creche da USP. Casamento. Desejo de ser mãe. Nascimento das filhas. Maternidade. Separação. Período para se resgatar e se transformar. Menopausa. Câncer de mama. Recuperação. Aniversário de sessenta anos. Sonho de ter uma vida menos parametrada pelo relógio e por dinheiro. Reflexões sobre a pandemia.

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História completa

O meu nome é Denise Bandeira de Melo, minha data de nascimento é dezesseis de maio de 1959, eu nasci na cidade de São Paulo, no estado de São Paulo.

Meus pais são do interior da Paraíba, de uma cidade chamada Cajazeiras, que é quase divisa com Ceará. Os dois são de lá, os dois são filhos de fazendeiro, então eles são migrantes nordestinos, como é a história de milhares de pessoas dessa cidade. Meus pais vieram pra cá já casados, com a minha irmã que é quatro anos mais velha, já nascida. Minha mãe chegou aqui mais ou menos grávida de mim já. Tenho quatro anos de diferença dela. Então, na verdade, a gente teve uma vida aqui em São Paulo com muito pouca convivência familiar, porque só veio meu pai e minha mãe. E eles tiveram quatro filhos e eu sou a segunda. Meus pais foram nordestinos bastante ‘apaulistanados’, eles ficaram bastante bem aqui. 

 

Entrei na Faculdade de Psicologia e eu era do movimento estudantil, era do Centro Acadêmico, era representante de classe, mas eu fazia parte de uma tendência estudantil que chama Liberdade e Luta. Acho que isso ampliou muito a minha vida, eu acho que a minha vida, minha personalidade é marcada por essa participação, de trabalhar em prol de um mundo que eu acredito que tem que ser diferente, então aquilo foi gestado naquela época.

Logo que acabou a faculdade eu fui fazer uma seleção pra trabalhar nas creches da USP. Então fui trabalhar como professora nas creches da USP, que é onde eu estou até hoje, eu trabalhei um ano como professora e no ano seguinte fui ser psicóloga deste lugar.

 

A maternidade é um campo muito profundo pra mim, muito, muito, em várias direções, da alegria e da dor, não é só maravilha, mas é um universo muito profundo pra mim, sempre ocupou bastante da minha vida, e aí é isso: filhas com idades diferentes, portanto demandas muito diferentes, que pra mim é uma alegria, eu me mantive durante muito tempo encantada com o que é um ser humano desabrochando na vida. 

Então eu me sinto satisfeita com o que eu pude olhar das minhas filhas, com o que eu pude acompanhar das minhas filhas, e essa juventude estendida, porque elas têm uma diferença grande de idade, me dá muito esse alimento que parece sempre permanente. Eu me sinto uma mulher que tem uma atualidade bastante intensa do feminismo, das lutas todas do que a gente chama de minoria, do como falar muitas coisas… E eu sempre estive num lugar de: eu tenho muita coisa pra oferecer pra elas, mas elas também têm coisas pra oferecer pra mim; e não digo só delas grandes, não, mesmo crianças.

 

Eu acho que a menopausa é outra coisa muito grande na vida da mulher, e aí também vou fazer um parênteses, a discussão feminista hoje conta bastante para todos, e até para nós mesmas, como a gente sabe muito pouco sobre a gente, como historicamente a gente tem um pouco… (emoção) Como historicamente a gente teve pouco espaço, como muitas coisas que você viveu poderiam não ter sido vividas dessa forma. Então a entrada na menopausa marca mais um desses lugares, como a gente não sabe nada sobre isto, e ela de fato traz bastantes transformações. Hoje, na menopausa, também meu prazer sexual fica abalado, eu vou dizer que também não é só por isto, mas hoje eu falo: eu busco meu prazer porque eu quero ter meu prazer, não porque eu to devendo prazer pra ninguém, então acho que isso são pontas muito diferentes, muito verdadeiras (emoção). Junto com a menopausa, eu tenho um câncer de mama, que também foi muito tranquilo pra mim, eu também vivi ele muito tranquilo. Mas é um câncer de mama, é um câncer que diz do feminino também.

Entrar na menopausa, que tem trezentas perturbações... Por isso eu fui fazer reposição hormonal, produto não sei se da reposição hormonal, mas tipo, dois anos depois da reposição hormonal eu tenho esse câncer. Aí eu interrompo. E porque eu fui fazer essa reposição hormonal? Porque o meu início na menopausa foi bastante... Falta de sono, insônia, falta de interesse pelas coisas, não era que eu estava deprimida, mas era assim, tanto fazia. Era uma falta de interesse tão absoluto, que tava chato. Os calores, que no começo eram gostosinhos, eu preciso dizer que os calores no início eles eram, ai, quase um prazerzinho assim, que começava assim pequenininho, mas aquilo virou um vulcão que era praticamente uma tortura, então esses sintomas se avolumaram e aí eu busquei um médico bacana, um cara que trabalhava com hormônios bio-idênticos, é um hormônio que tenta ser menos agressivo pro corpo da mulher, então fui nesse sujeito. Mas o fato é que, enfim, acabou tendo um câncer de mama, e aí eu tive que interromper.

Então a minha menopausa, eu tinha esse namorado já, o Beto, que é meu namorado hoje, então posso dizer que aos 53 anos eu me apaixono como nunca tinha me apaixonado, um desejo sexual enorme, a gente se encontra desse jeito. Só que a gente atravessa a entrada na menopausa juntos, que continuou sendo bacana, mas eu digo, o câncer, a cirurgia, me deu um grande tropeção. Não porque eu fiquei traumatizada com o câncer, não fiquei, nem até hoje, nem olhando a posteriori, fui muito bem acolhida com diagnóstico.

Faz dois anos e meio, vai, da minha cirurgia, foi em março de 2018, em março de 2020 fez dois anos, então você fica bastante tempo com essa área... É um sensível que é meio dolorido, mas também é um sensível, também você quer, mas não quer, é tudo complicado. Eu acho que isso machuca a minha relação de encontro de prazer, assim, e acho que atualmente eu to nesse diálogo, vou falar assim, nesse diálogo comigo mesma, cadê o meu prazer? O que eu quero com ele, o que eu quero dele, se eu quero ele…

E acho que dentro da saúde da mulher a gente sabe muito pouco, e não é a gente, as mulheres, é todo mundo, inclusive os médicos, acho que muito médico te dá pouca abertura ou te oferece poucos caminhos. Então é isso, saúde da mulher, mulher, prazer da mulher, lugar da mulher, sofrimento da mulher, é uma coisa que hoje em dia está assim eclodindo, mas a gente é fruto da história, e por mais que eu possa fazer uma discussão racional, com mais informações, com outras posições, está marcado no meu corpo.

 

Hoje há muitos modos de você se preparar pra uma menopausa mais interessante, há exercícios pélvico, há coisas todas pra você fazer que talvez te preparem melhor pra esse ingresso, mas a gente não fala disso, a gente não sabe disso. A gente conversa quando a gente é jovem sobre relação sexual, “Como foi? Como é? O que você fez? O que deu certo? O que deu errado”... Ninguém fala: “Gente, e menopausa? Como é? Você já entrou? O que aconteceu? O que você fez antes?” Não tem essa conversa. Então a menopausa é um momento intenso também, eu to bem vivendo ela, acho que ainda to na busca, porque, tudo bem, faz dois anos que eu fiz a minha cirurgia, mas acho que eu ainda to digerindo cada parte, digerindo no sentido de entender todos os meus caminhos.

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